MapleStory Online
3 O Primeiro Chefe
O clima em Porto Lith estava agradável, como era comum da cidade. Centenas de pessoas encontravam-se sentadas em bancos, conversando e perambulando pelo local. Alguns deles já usavam armaduras de guerreiro, ou roupões mágicos que davam a impressão de poder, outros tinham roupas rotas e rasgadas mas que não pareciam ruins. Os menos experientes se perguntavam como eles tinham conseguido aqueles equipamentos, se todos haviam chegado ali ao mesmo tempo.
–Pessoal, acho que está na hora de todos vocês ficarem sabendo de uma coisa.
Quem falava era um homem alto, na praça do centro do porto, onde havia cerca de quinze pessoas. Ele era jovem,não mais que vinte e cinco anos, e era alto e magro com os cabelos escuros que lhe chegavam aos ombros. Usava uma cota de malha simples e uma espada longa embainhada na cintura. Suas costas eram protegidas por um escudo retangular preto com um "+" amarelo, cujas extremidades iam de uma aresta a outra.
–Eu achei que eles fossem contar pra todo mundo no começo do jogo, mas parece que não se incomodaram de fazer isso — ele continuou, alto o bastante para que todos ouvissem — E é injusto que vocês não saibam. Por exemplo, essas minhas armas — ele desembainhou a espada, revelando uma lâmina vermelha que causou alguns murmúrios — Vocês sabem onde eu a consegui? Olhem à sua volta, quantos de vocês têm equipamentos parecidos com os meus?
Inevitavelmente, as pessoas começavam a olhar ao redor, analisando com mais atenção os alunos e alunas espalhados pela praça. Agora que olhavam melhor, constataram que nenhum deles, ou pelo menos a grande maioria, possuía equipamentos tão bem trabalhados quanto os dele. Alguns ainda usavam o uniforme da escola. Antes que os murmúrios de curiosidade se transformassem em cochichos desconfiados, ele continuou.
–Isso acontece porque alguns de nós já sabíamos como o jogo funcionava. Antes de ser inaugurado nas escolas, alguns poucos foram convidados para testar a versão beta.
A "versão beta" é como é chamado o jogo quando terminado e enviado para um seleto grupo de pessoas testarem, para descobrir bugs, erros e ajudar a corrigir, e não havia ninguém melhor para fazer isso do que os próprios jogadores. Geralmente, era feito um sorteio entre os candidatos, ou então era escolhido quem demonstrasse melhor experiência em jogos, por exemplo. Mas aquela era a primeira vez que eles ouviam falar do MapleStory — antes dele, ninguém sequer sabia que já existia um onde se "entra" dentro do jogo. Não tinha havido nenhum anúncio ou convite para inscrição, nem nada parecido.
–Cem de nós, na verdade — o homem dissera depois de pedir silêncio com um gesto — Mas era um segredo. Eles procuraram no meio de outros jogos online, convidaram os que tinham melhor experiência no total na Steam — então sua voz assumiu um tom inesperadamente sarcástico — Por falar nisso, eles me encontraram no Priston, quem joga adiciona lá xDarkomalBR — disse, fazendo várias pessoas rirem.
Um dos expectadores teve uma idéia e virou-se para falar com os dois amigos ao seu lado.
–Era por isso que o Sheddeer tava seguindo o Donnie. Ele participou do beta! — Thugles deduziu, animado.
–Tem certeza? Porque ele fica sempre estudando, ou então jogando com a gente, nunca vi ele sair, além de que ele nos contaria se...
–O Donnie, animal, não o Sheddeer!
–Ah, tá... Bem, é, faz sentido — Vampiritico pensou por um instante — Mas como que o Sheddeer ia saber disso?
–Sei lá, ué, você fica perguntando aonde que ele descobre as respostas pra seção de Aprofundamentos do livro de História? É bom ter alguém que sabe das coisas, mas falando sério, eu também pensei nisso. Mas não sei, sinceramente...
–Deixa eu ver se eu entendi — um garoto tomou a atenção em voz alta, desconfiado — Cem de nós já jogaram o jogo antes, e agora já sabem como fazer boa parte das coisas?
–Isso mesmo — assentiu o outro, o que fez o rapaz torcer a cara numa careta.
–Então quer dizer que enquanto a gente tá aqui lutando pra descobrir as coisas pra tentar voltar pra casa, tem gente que já tem tudo na mão e sabe pra onde ir? Vão tudo ficar com os melhores equips e sair primeiro, deixando pra gente só o resto!
Várias pessoas gritaram em concordância. Fazia sentido. Em muitos jogos online recém-lançados, era inegável que os participantes do beta tinham uma certa vantagem em relação aos demais, que estariam jogando pela primeira vez. E em um jogo onde a sobrevivência era real como aquele, essa vantagem era ainda maior.
–E eles sabem de quais monstros dão conta — interpôs uma menina — Por exemplo, eu fiquei um tempão me decidindo se devia ou não atacar um Porco. Ele é fraco, mas como eu poderia saber? Tudo bem que ele não parece tão forte, mas quando se gosta de Dark Souls...
–Isso sem falar nos equipamentos, eles...
–Parem com isso!
Era o homem que começara a falar sobre os betas. Os alunos pararam de discutir, lembrando-se de que todos o tinham interrompido. Mas o menino que dera início à discussão ainda parecia estar com raiva.
–Parar com isso? A gente tá aqui preso, sem poder voltar pra casa, e tem gente que podia estar ajudando a gente! Mas cadê eles agora? Alguém por acaso viu um deles aí oferecendo ajuda ou explicando coisas que poderiam ajudar todo mundo?
–Tenho certeza de que todo mundo viu. Ele estava indo bem, mas aí veio um garotinho e interrompeu ele.
O menino abrira a boca para perguntar, mas a fechou imediatamente ao se dar conta do que ele havia dito. Ele chegou mesmo a recuar alguns passos, e a multidão agora ria e zombava do garoto. Mas até ele mesmo balançou a cabeça com a idiotice. Como não havia percebido? Se a versão beta era um segredo, então era mais do que óbvio que aquele homem, que falava sobre a versão teste e tinha equipamentos claramente mais evoluídos do que praticamente todos ali, era um deles. Ele levou tempo demais para perceber isso. E também percebeu que acabara de ofender alguém que poderia ajudá-los.
–Desculpa, cara, eu não queria...
–Tudo bem, relaxa — o homem o dispensou com um sorriso conciliador, então se voltou para falar bem alto para o resto das pessoas — Estou reconhecendo alguns companheiros do beta entre vocês. Essa é uma boa hora pra ajudarem, e espero que vocês ajudem os novatos. Tem muitos pra vocês ajudarem, é só escolher. Somos todos colegas aqui querendo voltar pra casa... E que me ajudem a espalhar isso pros outros jogadores. Mas enfim, durante o período de testes, a gente tinha que ir pra um posto deles onde tinha a máquina, e podíamos entrar e sair quando quiséssemos até acabar o teste. Consegui chegar ao nível 60, mas eu tinha que estudar, então poderia ter pego mais. Seja como for, logo no segundo dia de teste, eles fizeram um evento aqui mesmo em Porto Lith. Juntaram todo mundo que estava na praça para o evento.
–E o que era esse evento? — um deles perguntou. O homem deu um sorriso meio torto.
–Eles invocaram um chefão, e tivemos que matá-lo. Ele deu uma EXP bem boa e pelo menos dez mil mesos pra cada um que ajudou a matar. O que não é muito — acrescentou referindo-se aos mesos — Mas no começo, é uma quantia bem razoável. E como eu já ajudei a matar ele uma vez, achei que poderia liderar vocês nessa. Mas vou logo avisando — sua voz adquiriu um tom mais sério que sobressaltou os expectadores — Esse monstro não é coisa fácil. Eu ajudei a matar ele, mas quatro outros colegas meus morreram durante o combate. Só que lá, eles voltaram pra Porto Lith pra reclamar com a gente por não termos protegido eles, por não terem ganho recompensa e ainda por cima perdido EXP. Aqui, como vocês sabem, não vai ter nada disso.
O clima na praça ficou repentinamente tenso enquanto eles se decidiam. Um monstro que oferecia dinheiro e Experiência boa, era algo muito tentador. Mas valeria a pena eles se arriscarem por isso? A maioria não tinha nem nível 15... Se estivessem mais evoluídos, talvez...
–Bom, eu topo! Quando que começa?
A atenção se voltou para um outro rapaz, um menino escuro e magro carregando uma espada simples de metal. Ele não parecia muita coisa, mas seu rosto era confiante e determinado. O rapaz da espada vermelha assentiu.
–Bem, esse já é um voluntário. Cada grupo pode ter até seis pessoas, então vamos precisar de mais quatro.
–Aqui, olha eu aqui, me escolhe, me escolhe!
–Thugles — o rapaz magro rosnou, embora seus olhos demonstrassem animação. E voltando-se para o outro, disse: — Então cara, com ele e meus outros amigos, temos dois guerreiros, dois magos e um gatuno. Se é que eles conseguiram completar as tarefas dos NPCs...
–E você achou que a gente não fosse? — Vampiritico lhe socou as costas, feliz — Bom, estamos prontos pra enfrentar esse evento aí. Como funciona, a gente ganha EXP, mesos, equips legais ou o quê?
–Vamos reunir o grupo primeiro. A propósito, eu sou o Kevin. E esse aqui é o Atklen — ele se virou para um dos homens que se aproximavam, um rapaz alto de cara fechada que agora tentava esconder um sorriso — Cara, sabia que você ia vir jogar depois do beta!
–Digo o mesmo — o homem respondeu com uma voz grave.
Ele era alto e não muito robusto, mas com músculos bem definidos e uma barba curta por cima da expressão fechada e um tanto intimidante. Ele usava uma espada larga, um peitoral de bronze e calça, botas e luvas de ferro. Um elmo prateado arredondado protegia os lados, o topo e a parte de trás da cabeça, mas seu rosto ficava descoberto.
Kevin olhou ao redor com entusiasmo.
–Três guerreiros, dois magos e um gatuno. Um excelente equipe, sem dúvida — ele abriu o menu e convidou os companheiros para o grupo — Mas ficaria melhor se tivéssemos uns arqueiros também. Ninguém mais quer participar?
Todos ali se mostraram interessados, mas ao saber que era um chefe diferente e obviamente perigoso, a maioria decidiu não se arriscar. Mas havia quatro guerreiros, três garotos e uma garota, que não viram problema nisso. E não foi preciso muito esforço para convencer dois arqueiros a fechar o segundo grupo.
–Muito bem — Kevin começou quando todos os doze estavam reunidos e prontos para a batalha — Ele pode demorar um pouco, enquanto isso, vou explicar como ele funciona.
–Primeiro, como você sabe que ele vai aparecer? — a menina interrompeu.
–Bom, eu tava aqui na praça e ele apareceu aqui, no beta, mas deu bug e tivemos que sair do jogo. No dia seguinte, quando voltamos, ele apareceu de novo. Por isso, supus que ele apareceria por aqui.
–Além disso, nos dois casos o evento tinha sido às quinze horas — Atklen complementou — Faltam dez minutos agora. Como ontem a maioria não tinha nível bom, não é ilógico supor que ele pode aparecer agora.
Kevin assentiu.
–Isso aí. Mas então, o monstro, pra começar, é bem grande. Um pouco mais baixo que aquele poste — ele apontou para uma coluna de pedra que devia medir uns seis metros de altura — E tem três barras de vida. A primeira é verde, e ele usa um porrete de madeira bem pesado com as duas mãos. Não é muito difícil de derrotar, mas quando a vida acaba, ele troca pra uma maça enorme um escudo.
Atklen fungou.
–A gente achou que ele tinha morrido, e isso custou três colegas do nosso grupo.
–Três? — Kevin repetiu, um tanto surpreso — Achei que tivessem sido dois. Mas aí, a vantagem é que, apesar do ataque dele ficar mais forte e a defesa dele muito maior, ele também fica mais lento. Enquanto um distrai ele, os outros atacam pelas costas.
–Sem esquecer dos minions– Atklen falou — Quando ele fica com uns 30% de vida, começa a invocar uns bois com lanças.
–Eu ia dizer isso. Enfim, os bois não são muito difíceis, os magos e arqueiros podem dar conta deles enquanto o resto de nós cuida do Firstkeeper. É o nome que a gente deu pra ele — acrescentou, notando as perguntas nos olhares dos demais. Agora, o problema mesmo vem na vida vermelha, que vem depois da segunda que, como eu esqueci de falar, é amarela.
–Na última vida ele usa duas adagas — Atklen contou por ele — Que, considerando o tamanho dele, são maiores que uma espada larga. E fica muito mais rápido e mortal. Nós temos vantagem que os danos são menores e a defesa dele cai muito, mas a esquiva dele aumenta ao ponto de os arqueiros ficarem quase que inúteis.
–E ele também passa a apelar pros minions. Chega a dar uns vinte deles, por isso o segredo é um distraí-lo enquanto o resto ataca os bois, porque não tem como lutar com eles rodeando a gente.
–Falando assim, não parece muito seguro de se tentar — um arqueiro resmungou. A menina olhou para ele.
–Nada é seguro aqui nesse jogo — ela disse.
–E assim, qual é o plano de ataque? — perguntou um outro jogador.
Kevin deu de ombros.
–Quase o mesmo que a gente usou no beta. Um distrai ele enquanto o resto ataca. Quando ele chegar na terceira vida, concentramos nos bois, e quando acabarem todos, voltamos pro monstro. Não é tão difícil — completou — No beta, não tinha limite pra membros de grupo, e o nosso tinha só oito. Com doze, vai ser moleza.
–E nós já sabemos como enfrentá-lo — reforçou Atklen — Portanto, não vai ter surpresa. O máximo que pode acontecer é ele não vir, mas mesmo assim, devemos ter cuidado. Nunca sabemos o quanto ele pode mudar na versão oficial.
Ele pareceu se dirigir mais a Kevin do que aos outros. O alto guerreiro deu de ombros, sorrindo.
–Sim, não devemos baixar a guarda jamais. Mas então galera, todo mundo concorda com o plano? Alguém tem alguma dúvida, alguma coisa que quer colocar?
Nick quase levantou a mão.
–Bem, sim. Sabe, isso que você falou de distrair ele... É arriscado, sabe, ficar na linha de ataque do monstro e tudo mais. Quem vai fazer isso?
–Eu vou — Kevin respondeu como se esperasse a pergunta — Que nem a gente fez no beta. Mas eu tava pensando em outra coisa, na terceira vida, você podia trocar de lugar comigo — ele acrescentou para Vampiritico — Eu quase morri contra aquelas duas adagas dele, e acho que você é mais rápido que eu pra isso.
O menino riu.
–Eu também acho. Finalmente um inimigo rápido pra eu testar, vai ser demais!
–Ah, enfretar os chefões sempre é demais — Atklen disse, sorrindo pela primeira vez — Eu lamentei ter ido cedo demais no Zakum, mas agora foi até bom que eu aprendi um pouco. Coisa de nível 130 — acrescentou, desencorajando mais perguntas — Mas que eu achava que podia ir uns trinta níveis antes.
Kevin fez uma careta sofrida.
–Eu queria ter ido a algum chefe. O máximo que peguei foi aquela lesma gigante em fase de teste da Praia Florina, e mesmo assim ele foi um peidinho comparado ao Firstkeeper.
Ele mal acabara de falar e um som de "sucção digital" se fez ouvir pela praça. Um círculo azul-claro se abrira no chão, e um monte de fagulhas da mesma cor surgiam dele verticalmente, dançando acima das pedras brancas e lisas que forravam o chão. Um retângulo apareceu acima dele: um cronômetro com trinta segundos. Vinte e nove...
–Aê, ele apareceu! — Kevin exclamou, feliz — Quem chegar por último é a mulher do padre!
O portal levava a um gigantesco aposento cúbico. O chão, o teto e as paredes eram feitos de pedras negras, com colunas perto das paredes que sustentavam o que parecia ser um segundo andar. Mas fora isso, a sala estava vazia, exceto pelos jogadores que entravam, um a um.
O monstro apareceu dez segundos depois da mulher do padre chegar.
Como Kevin dissera, ele era bem grande. Tinha forma humana, negro e magro, mas com pés que pareciam um sapato pontudo, e mãos ossudas de dedos longos. A cabeça era bizarra: um estranho triângulo em três dimensões, com fendas para cobrir os olhos brancos e uma boca grande com dentes afiados. Em suas mãos, havia uma imensa clava de madeira cheia de protuberâncias arredondadas.
Outra coisa grande nele era a barra de HP. Ficava no alto da parede atrás do monstro, e ia quase de um lado a outro do aposento. Naquele momento, ela estava verde, exatamente como Kevin previra.
–Esperem o primeiro ataque — Atklen advertiu enquando Kevin corria, dando a entender que ia atacá-lo. A criatura o olhou e ergueu o porrete acima da cabeça...
O chão pareceu tremer quando a pesada clava desceu contra o chão com força descomunal, mas Kevin rolara para o lado no momento exato. Puxando a espada, ele saltou e cravou a lâmina na perna do monstro.
O Firstkeeper rugiu, e todos puderam ver que um pequeno pedaço da barra verde fora substituída por um amarelo vivo. O próximo ataque veio, mas Kevin já se movia fora do alcance. Ele correu novamente para mais uma investida...
–Vamos lá,, pessoal! — Atklen gritou, e por "pessoal" ele se referia aos outros guerreiros. Davien, a menina e os outros quatro homens correram para enfrentar o novo chefe.
Thugles e Nick usavam suas garras arcanas, os dois arqueiros disparavam flechas com eficiência e Vampiritico corria ao redor do monstro, procurando brechas no peito e nas costas para causar mais dano. Com a luta se desenrolando, Kevin assumiu a liderança.
–Thugles, pra direita! — berrou — Dave, ataque pelo centro agora!
Era realmente um ato muito corajoso, o que ele fazia. Estava distraindo o monstro, arriscando-se a levar todos os golpes enquanto o resto do grupo atacava-o por trás. Em segundos, a barra de vida verde do monstro esvaziou-se, mas ninguém comemorou.
O fundo amarelo da barra foi o que começou a diminuir quando os ataques continuaram. Mas agora, o monstro trocara seu porrete por uma maça e um escudo, que reduzia os danos a "2" ou "1".
–Mirem na cabeça — gritou, e os magos e arqueiros ganharam maior destaque dessa vez. Os tiros rápidos e precisos eram o que mais fazia efeito agora, visto que ele agora estava consideravelmente mais lento. Sua defesa também parecia ter aumentado, mas não era trabalho para eles. Davien e outros guerreiros atacavam-o pelas costas, enquanto Kevin distraía-o fazendo rolamentos, pulando, desviando e até conseguindo tirar-lhe algum dano de vez em quando. Como ele dissera, o maior problema viria quando chegasse a barra vermelha.
Eles se afastaram um pouco por precaução, e viram quando o escudo e a maça sumiram para dar lugar a um par de adagas grossas e afiadas. Ele as colocou em posição de combate e correu para atacar o grupo mais próximo.
Dessa vez, Vampiritico substituíra Kevin na distração. Não só as armas haviam ficado mais leves, mas ele também ficara muito mais rápido, disparando ataques com muito mais rapidez do que antes. O guerreiro líder agora mostrava-se mais útil enfrentando as criaturas que ele conjurava: animais que pareciam bois armados com espadas, que ele matava muito mais rapidamente do que qualquer um dos outros.
O garoto estava fazendo bem eu trabalho. Se Kevin era ágil, Vampiritico parecia um gato correndo, rolando, esquivando-se. Quando o monstro atacava com as duas adagas ao mesmo tempo, ele aproveitava para dar um bom golpe na barriga, depois rolava para trás antes que ele pudesse se recuperar. Era realmente rápido demais. Com ele na distração, os outros atacavam-no pelas costas e pelos flancos, tornando a luta até meio que injusta. Mas ninguém pensava em justiça contra os monstros do jogo. Ele acabara de invocar mais uma horda de bois, atacada por Atklen e seus guerreiros. Os Nick, Thugles e os dois arqueiros também dedicavam seus esforços a eles. Eram muitos, e as flechas nunca acertavam o monstro agora que estava mais rápido e as magias, quando o atingiam, não causavam lá muito dano. Os dois magos do grupo, Thugles e Nick, não eram lá os tops do servidor.
–VAMPY!
O HP do monstro já chegava à metade quando ele finalmente conseguiu atingir o pequeno rapaz. Com um golpe certeiro de sua adaga, ele jogou para longe o adversário, cuja barra de vida decaíra para menos da metade. Ele recuava e mexia desesperadamente no inventário procurando uma poção, mas o segundo ataque estava vindo...
O choque de espada batendo contra metal era bem real para um mundo digital como aquele. Idêntico, na verdade. Seja como for, Kevin salvara a vida do rapaz ao ficar entre ele e o braço veloz da criatura, bloqueando o golpe com sua espada. Aproveitando o momento, ele girou a espada e correu para frente, cortando o golpe da mão esquerda do monstro quase que com facilidade. Com um salto selvagem, ele desceu a lâmina num arco na barriga no monstro com toda a força.
O dano foi alto o bastante para dar um leve "knockback" no monstro, fazendo-o recuar alguns centímetros. Chamou mais três guerreiros, e agora o plano de distração havia acabado. Todos os "summons" já haviam sido derrotados, e agora todos eles podiam se concentrar na verdadeira ameaça.
–Cara, você tá legal? — Thugles correu para o amigo, o coração batendo forte, mas o garoto dispensou a ajuda empurrando o braço que ele estendia para ajudá-lo a levantar.
–Tô bem, não se preocupe! Não é como se você precisasse vir perguntar isso toda vez que eu levo um golpe!
–Foi a primeira vez que você leva um de um chefão assim, ué! E você foi o primeiro a levar um golpe sério — ele ainda encarava o amigo, mas sorriu. Seu coração quase parara quando viu a imensa mão jogando-o para longe — Vamos voltar à luta?
–Afastem-se! — Kevin gritou, e todos imediatamente recuaram. A barra de HP do monstro agora estava muito pequena. Mais alguns golpes e ele estaria acabado — Agora é o grande truque, vejam só!
Ele correu, segurando a espada com ambas as mãos e mantendo o escudo nas costas. Quando estava a uma distância suficiente, ele saltou, a espada erguida acima da cabeça, pronto para ser descida com força total, inflingindo o dano crítico que acabaria com a batalha.
E foi então que tudo deu errado.
Foi como se a cena estivesse ocorrendo em câmera lenta, cada movimento sendo possível de se registrar quando o monstro juntou as duas armas à frente do corpo. Elas brilharam até virarem luz branca, que foi crescendo e adquirindo um cabo mais fino e alongado, e então o brilho apagou até desaparecer. As adagas haviam transformado-se numa imensa foice, com fitas negras no cabo e na base da lâmina.
O sorriso triunfante de Kevin vacilou e se transformou numa careta de pânico ao perceber o que acontecera. Rápido como um raio, o monstro girou a foice e acertou o rapaz em cheio do peito, jogando-o na parede. Ele caiu no chão e ficou imóvel.
Foi sua armadura que o salvou da morte certa. Mesmo assim, o HP dele estava assustadoramente baixo, a barra vermelha agora era um retângulo vertical ao invés de horizontal. E o monstro corria na direção dele, preparando-se para mais um ataque... Flechas e magias não adiantariam, não com um monstro com tamanha velocidade...
–AAAAAARRRR!!!!
Um dos guerreiros corria, a espada pronta, com Davien e Atklen logo atrás, berrando, cobrindo o pouco espaço que faltava para atingir a criatura...
Mas era tarde demais. A foice estalou ao atingir a parede e o corpo do homem pela segunda vez. Com um dos braços esticado pelo ataque com a foice, a lateral do seu corpo estava desprotegido, alvo fácil para o guerreiro atarracado e de rosto largo cortá-lo em dois.
Pelo menos essa era a impressão que se teria. Quando o HP do monstro chegou a zero, ele se ergueu e gritou, um rugido alto e ensurdecedor. Então ele caiu de joelhos com estrondo, depois desabou no chão.
Uma aura azul brilhou nele, em Thugles, em Atklen e em outros cinco membros da expedição. A Experiência ganha havia sido realmente muito grande, como Kevin dissera.
Kevin.
O homem que dera o golpe voltou-se para onde ele caíra, e encontrou cinco pessoas ajoelhadas ao lado da parede, os olhares tensos.
–Cadê ele? — o guerreiro perguntou, embora já soubesse a resposta.
–Ele se viu — disse outro deles, sacudindo a cabeça — Desapareceu em um monte de fagulhinhas brilhantes. Ele...
–Aquele maldito idiota! — Atklen vociferou, os dentes cerrados — Ele queria o item raro que ganha com o último golpe. Mas isso não é como no beta, aqui eles mudaram e colocaram essa foice!
Ele sacudia a cabeça, tentando esconder as lágrimas que se formavam. Os dez membros da expedição juntaram-se com as mesmas expressões. Tinha sido a primeira pessoa que a maioria deles tinha visto morrer, e mais ainda, era uma pessoa que estava esforçando-se para ajudá-los. Mesmo que tivesse querido o item raro, ele merecia. Arriscara-se durante as duas primeiras vidas do chefe e fora quem verdadeiramente o encarava, recebendo todos os golpes e distraindo-o para que os outros pudessem atacar.
–Você disse que ele queria um item raro — lembrou outro — O que era, Nils?
Mas ele olhava para o guerreiro atarracado — Nils — que franziu a testa levemente para ele antes de se dar conta de que, no impulso para salvar o companheiro, tinha sido ele quem dera o golpe final no monstro. Levou a mão esquerda à frente e abriu o menu.
–Capa da Escuridão — disse em voz baixa — Mais difícil de ser detectado e tem chance de ignorar dano inimigo. Ótimo — acrescentou, sem muito interesse. Aquela capa não pertencia a ele.
E pelo visto, outros membros da expedição concordavam com ele.
–Se o Kevin não vai ganhar a capa, por que você deve ganhar? E a gente que ficou atacando ele toda hora? Tenho certeza que fiz ele perder mais HP que você!
–Nada disso! — uma menina o encarou entrando na discussão — Você não viu minhas Flechas Duplas que eu jogava na cabeça dele? Tirei mais de um terço dele na segunda vida!
–Ei, e minhas magias?
–Nada disso, minha espada tem mais dano, logo na primeira vida eu já tinha tirado mais da metade dele!
–Nem vem com essa, você não deu dano o suficiente nem pra ganhar muita Exp e upar!
–Ganhei sim, é porque meu nível é tão mais alto que não foi suficiente pra eu upar!
O guerreiro que ganhara a capa tentava acalmá-los, mas quase todos eles discutiam, querendo a capa. Vampiritico também estava no meio, alegando que distraíra-o por mais tempo que os demais na terceira vida — fato que foi rebatido com o argumento de que o monstro o atingira e tirara-o do combate desde então. Agora que o imponente e decidido guerreiro de espada vermelha se fora, não havia ninguém para separar a discussão. Se tivesse sido ele a ganhar a capa, provavelmente todos teriam aceitado, afinal, era óbvio que era ele quem verdadeiramente enfrentava o monstro, liderando os colegas, indicando-os o que aconteceria depois e quando ele invocaria monstros. Com esse pensamento, ninguém havia se preocupado em ver quem era o "segundo que mais ajudava". Os que discutiam ali achavam-se no mesmo direito de receber aquele item, já que todos haviam lutado por ele.
Se fosse feita uma análise real dos danos, Atklen teria ganho a capa. Mas justamente ele não parecia estar interessado nela. Se o monstro tivesse sido um pouco mais lento, Nils teria conseguido atacá-lo a tempo de salvar Kevin, mas rápido do que o próprio Atklen. Se lhe perguntassem, ele diria que a capa havia ido exatamente para quem a merecia. Mas os outros, cegos de raiva e pela vontade de ganhar o item, não concordavam.
–Eu... WOW, Thug, Vampy, olha só isso aqui!
O grito espantado de Davien fez seus três amigos virarem-se para ele, também alguns dos que discutiam, e arregalaram os olhos. Um a um, eles voltaram-se impacientes para o guerreiro magricela — apenas para abrir os olhos o máximo que podiam, sem acreditar no que seus olhos lhe diziam.
O rapaz estava em pé ao lado do corpo esquecido do monstro, que começava a desaparecer. Como era grande e um chefe, o processo demoraria mais um pouco — mas agora era claro que havia algo mais ali. A foice não soltara uma lasca para se dissolver. E não estava caída ao lado do monstro, mas nas mãos de Davien.
–Cara... O quê... — Nick não conseguia decidir se sorria ou se mantinha a careta impressionada. Acabou decidindo-se entre um meio termo. Seja como for, a nova arma havia feito as pessoas esquecerem-se completamente da capa. Alguns começaram a se aproximar...
–Parem.
Atklen interpôs-se entre Davien e os demais guerreiros. Se a capa parecia valiosa, a foice usada pelo chefão era algo que valeria milhões — ou a vida do guerreiro que a segurava.
–Ninguém pensou que a foice podia ser usada como equipamento. Se o Davien não tivesse pego, ninguém mais teria pensado nisso, e ninguém saberia que dava pra pegar.
Como que reforçando suas palavras, o corpo do monstro esfarelava-se com mais vigor, até não restar mais nada. Como os outros não relaxaram, ele insinuou um passo a frente, o que fez com que hesitassem um pouco. Queriam muito a foice, mas não tanto a ponto de enfrentar o alto guerreiro barbado. E Davien também não parecia disposto a entregar o novo prêmio. Um a um, os alunos aceitaram a derrota. Um até sacudiu a cabeça em um gesto de desculpas.
–Foi mal — disse, e havia um sincero arrependimento em seu olhar — Foi uma boa sacada, parabéns.
–Equipa ela aí! — pediu outro, ansioso — Vai cara, deixa a gente dar uma olhada!
–É nível 20 — Davien respondeu com uma nota de frustação na voz — Tô quase no 18 ainda...
–Depois a gente se preocupa com isso — Atklen cortou a conversa com rispidez — Vamos sair daqui.
Era uma sugestão, mas que soava mais como uma ordem do que como qualquer outra coisa. Um a um, todos atravessaram o portal e voltaram à praça de Porto Lith, onde já havia uma multidão considerável de pessoas.
–E então, como foi?
–Teve evento mesmo? O que vocês ganharam?
–Como era o monstro? Teve muita EXp? Dinheiro?
–Alguém morreu?
Eram muitas as perguntas, muitas as pessoas que os rodeavam querendo saber o que acontecera. Aparentemente, os que não haviam entrado haviam contado a notícia pra cidade toda, ou então simplesmente tinham descoberto o portal(que não funcionava mais depois que o tempo acabara) no centro da praça.
–Ficamos famosos, puxa — Nick brincou, mas mantendo-se longe dos curiosos.
–Quem vai ficar famoso é o Dave no nível 20 — disse Thugles com um sorriso — A propósito, foi realmente uma sacada genial você ter pensado nisso. Ainda mais vindo de você.
–Obrigado — ele respondeu com certa secura por causa das últimas palavras — Eu pensei que, se aquela era uma arma que não tinha aparecido no beta... Não sei, talvez estivesse lá por algum motivo. Eu vi a foice ali e fui ver se realmente não dava pra pegar, e quem diria? Dava!
Vampiritico resmungou.
–E eu não ganhei nada. Distraí o monstro na fase mais forte, levei um golpe que...
–Foi um evento, mais nada. Calem a boca!
De repente, todos se calaram com o tom nervoso de Atklen. Ainda perguntavam sobre o evento, mas ele não estava nada disposto a responder perguntas. Não queria saber de mais nada.
–Obrigado a todos vocês — ele disse, e seu olhar demorou-se um pouco mais em Davien e em Vampiritico. Ele talvez fosse dizer mais alguma coisa, mas simplesmente se virou e foi andando com passos duros para longe dali.
–Ui, nervosinho — Vampiritico zombou, erguendo as mãos no ar como quem debocha. Mas se arrependeu ao ver os olhares duros que recebeu.
–Ele perdeu um amigo. Isso é brincadeira pra você? — um guerreiro rosnou para ele — Todos nós, na verdade, perdemos um excelente jogador. Você devia mostrar um pouco mais de respeito, ou pelo menos se importar um pouquinho com ele.
–Ei, eu me importo, não foi o que eu...
Mas o rapaz já se virava e partia para seguir seu caminho. E o silêncio durou mais alguns segundos. A reação de Atklen havia despertado a lembrança da morte de Kevin em todos eles, e os outros que não haviam entrado lá tinham percebido que alguma coisa acontecera. Ardiam de curiosidade, mas nenhum dos membros da expedição queria tocar no assunto.
Davien empurrou o rapaz levemente pelo ombro e começou a andar, firme.
–Vamos embora. Não temos mais nada pra fazer aqui.
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