MapleStory Online
8 O Homem com a Armadura do Apagão
–Hm... Hmrm, hmrm....
–Por favor — Thugles pediu, sem conseguir se controlar.
–Não sei... Você gosta de usar magia, não me parece muito determinado pra mim, mas...
–Ah, por favor!
–É um NPC, Thugles, relaxa — Davien resmungou. A mulher olhou pra ele no mesmo instante.
–O que está querendo dizer com isso? Duvida da minha capacidade, guerreirinho idiota? Se achando superior só porque usa essa foice, né? O que acha de eu te mostrar uma coisa?
Nick e Vampiritico caíram na risada enquanto Davien, inevitavelmente lembrando-se de Mai, desculpava-se apressadamente.
–Desculpe... Não é isso, não quis... Não...
Ela o olhou por mais um momento, os olhos duros como pedra. Quando voltou a encarar o mago que a encarava com olhar suplicante, sua expressão arrefeceu um pouco.
Eles estavam em Nautilus, o grande submarino em forma de baleia azul que normalmente ficava ancorado ao sul de Ellinia. O aposento onde estavam, uma grande cabine de madeira com vidro de onde se podia ver a água na direção onde o submarino se movimentava quando estivessem em curso. E a mulher diantes deles, que mirava Thugles com olhar crítico, era ninguém menos do que a instrutora da quinta classe de MapleStory: Piratas.
Kyrin era uma NPC alta com o corpo em excelente condição física, rosto duro que lembrava uma guerreira como Mai. Suas roupas, típicas de uma marinheira, eram de uma cor vermelha e vistosa, como o uniforme de uma almirante. Mas havia muitas facas, uma pistola, machadinhas e vários anzóis presos ao chapéu que davam a ela um traço da aparência costumeira e desleixada de um pirata.
Tinha havido muita discussão até eles decidirem chegar ali. Depois de ser atingido pela inegável rapidez e velocidade com que Dark Corpse manejara as duas pistolas, Thugles ficara simplesmente encantado e não dera sossego até que eles consentiram em ir até Nautilus.
Não foi uma decisão pacífica, no fim das contas. Davien e Vampiritico queriam upar, ao passo que Nick preferia manter-se neutro. Mas Thugles insistia em irem, afinal, ele não tinha muitas habilidades de ataque para defender-se. Davien lembrou-lhe da Flecha Divina, mas ela não era muito melhor que a Garra Arcana, por isso ele não a aumentava. Como o guia de Donnie não continha nada para eles depois das habilidades do primeiro avanço, eles receavam em aumentá-las por conta própria. E outro argumento era o que eles tinham Davien com a foice, Vampiritico com os ataques furtivos e Nick com as magias. Thugles era o médico do grupo, não precisaria atacar.
Mas a razão pela qual ele queria aprender técnicas de pirata estava longe de ser por "sentir-se inútil em um combate". Ele adorava classes de suporte como aquela, e sabia que nada lhe daria mais prazer do que ser o curandeiro, que mantinha o grupo vivo enquanto eles lutavam. Além de que o rapaz jamais concordaria em matar outro jogador. Como Clérigo, ele apenas precisaria curar e proteger o grupo, sem precisar atacar.
Quando vira Dark Corpse usando as pistolas, porém, algo havia despertado nele. Adorava piratas, e como Vampiritico não dissera nada sobre classes de Gatuno que usavam pistolas, ele só pôde supor que haveria uma quinta classe especializada no assunto. E estava certo. Além do mais, ele achava que seria bom contar com uma defesa extra em caso de último recurso. Não poderia contar apenas com habilidades de Bruxo e Clérigo para inflingir dano.
Davien e Vampiritico, entretanto, não pareciam dispostos a ceder. Mas então, o rapaz lembrara-lhes de que, sem ele, não teria a magia de cura, e com isso a discussão terminou. Convencidos, mas não exatamente aprovando, eles aceitaram seguir viagem até Nautilus.
Mas mesmo os dois que não queriam ir não conseguiram deixar de se impressionar com o navio. Por fora, era uma imensa baleia azul com cara de mau, mas por dentro, tinha todo um sistema de quartos, cabines e aposentos, divididos em três andares distintos. A sala da instrutora, Kyrin, ficava no final do andar mais alto. Assim que chegou, pediu para que ela lhe ensinasse técnicas de pirata — coisa com o qual ela não ficara muito animada ao notar a túnica beje e o cajado de madeira envelhecida que ele carregava.
–Você é um bruxo. Por que estaria interessado em aprender técnicas relacionadas a piratas?
–É que eu e meus amigos fomos assaltados, aí tipo, no grupo tinha um pirata MUITO FODA com pistolas, e aí eu fiquei interessado. E além disse eu amo piratas, navios, piratas...
E desatou numa longa falação que envolvia capitães, cordames, porões, sótãos de navios, peças de arraque e etc. Davien, Nick e Vampiritico apenas olhavam a cena com olhar vago, mas Kyrin estava atenta, prestando total atenção ao que ele falava. Quando ele parou para respirar, ela ergueu a mão.
–Escuta, garoto, você realmente parece levar jeito pra coisa. Nenhum dos meus aprendizes fez uma descrição tão detalhada do interior de um navio de combate, mas sabe, ainda assim... — ela fez uma pausa — Vou precisar de segundas opiniões.
Ele se virou.
–Dave, Nick, Vampy, o que vocês acham de eu ser um pirata?
–Ah...
–Bom, é, acho legal.
–Se isso significar ir embora logo, então sim, você é o melhor capitão de todos os tempos.
O rapaz voltou-se para Kyrin, que ria.
–Talvez eu tenha te julgado mal. Um mago, com certeza, mas tem um bom espírito. É bom ver alguém despreocupado assim, pra variar. Tá bom, vou te aprovar, mas ainda assim... — ela ergueu os olhos em um suspense — Você já fez seu segundo avanço. Não posso te aplicar a provação de Piratas de você já completou a de Bruxos, então vou fazer o seguinte: você ajuda cinco pessoas nesse navio, e está recrutado. De acordo?
–Aye, capitã!
Davien deu um tapa na própria cara.
–Cinco quests, que legal — Vampiritico resmungou fora do aposento de Kyrin, com Thugles olhando ao redor como que tentando se decidir qual NPC precisava de mais ajuda — Certo, que tal a gente começar com aquela mulher ali?
Eles foram falar com a faxineira, uma mulher gorda e de rosto severo que carregava uma vassoura, mas ela pareceu contente quando Thugles se oferecera para pegar vinte e cinco Lacinhos de Porco para ela. Animado, ele foi procurar mais NPCs para ajudar.
Sendo quem era, ele não ajudou apenas cinco, mas todos os mais de dez tripulantes e passageiros que tinham quests disponíveis. Eram as personagens mais diversas: uma menina que segurava um vazamento precisando de ajuda, um rapaz que fazia a segurança do navio pedindo um relatório do porto, um panda cozinheiro om escassez de ingredientes e até um galão de água sedento. Mas felizmente para o grupo, a grande maioria das Quests tinha a vez com Porcos ou Porcos de Laço, de forma que os quatro juntos as terminaram rapidamente. E como estavam indo fazer as quests, os outros três também pegaram algumas, as que pediam para matar monstros(já que um monstro morto por outro jogador do grupo contava para o medidor de todos, mas os itens eram individuais). Ao final de meia hora, estavam de volta à cabine.
–Bom trabalho — aprovou Kyrin, balançando a cabeça umas duas vezes — Não só cinco, mas quase metade do pessoal do navio me contou que você foi prestativo. Nesse caso, parabéns, você pode aprender minhas habilidades.
–YAY!
–Só tem uma coisa, como você já é Bruxo, não vai ganhar o bônus de Pirata. E lembre-se de que algumas habilidades requerem que você possua outras, então cuidado na hora de escolher. Pode ser que você acabe virando uma espécie de "híbrido", sem bom em um nem no outro. Treine com cautela — recomendou.
–Muito obrigado, Kyrin — Thugles sorriu, e cumprimentou a capitã com um aceno de cabeça. Então se debruçou para escolher as novas habilidades. Eram tantas... Como ele tinha seu segundo avanço, podia escolher entre as habilidades de ambas as evoluções de Pirata, um tipo que usava soqueiras e um que usava pistolas.
Com isso, Nick também poderia aprender Cura, assim como Thugles poderia aprender Garra Gélida e outras habilidades de Feiticeiro de Gelo e Raio. Mas acontece que, como Clérigo, ele tinha bônus específicos para magias divinas, sagradas e de suporte. Não compensava aumentar habilidades específicas das outras duas ramificações de sua classe. Agora, tratando-se de outra classe, como Pirata, as habilidades eram totalmente diferentes, as armas eram outras, os atributos mudavam completamente. E o jogo tinha sido planejado para que a pessoa pudesse escolher aumentar habilidades de todas as classes, se quisesse, sendo que a frequência com que a pessoa ganhava pontos de skill havia sido planejada de uma forma que permitia que o jogador usasse duas classes simultaneamente, com folga.
–Olha só isso — Thugles dizia sem parar, girando sua pistola prateada e de cano fino e longo que havia ganho. Apesar do nome que aparecia na descrição, o que ele segurava era um revólver, com capacidade para oito balas e que lembrava muito um revólver do Velho Oeste.
–É bem legal mesmo — Vampiritico aprovou, sentindo um pouco de remorso por não ter virado um pirata também. Mas acabou se decidindo por deixar Thugles experimentar as novas habilidades antes de pensar em aprender uma segunda classe.
Enquanto zanzavam por Nautilus, descobriram uma outra cidade, chamada de Praia Florina. Era um pequeno conjunto de ilhas com monstros que não eram fracos, mas também não tinha muito pra se ver. Só alguns caranguejos e tartarugas, e quests cuja recompensa eram cocos e uma pequena quantidade de Experiência. A parte mais interessante tinha sido o Rei Klang, o gigantesco crustáceo cor de aço que vagava no fim da praia. A casca dele era praticamente impenetrável, de modo que o que fez mais efeito foram os ataques a distância na abertura onde ficavam seus olhos e boca. Esses ataques eram as magias de Nick e, é claro, as balas de Thugles. Ele tinha uma habilidade que permitia que ele pressionasse o gatilho duas vezes seguidas com uma rapidez impressionante. Isso deveria ter feito Dark Corpse parecer menos habilidoso do que parecera, mas na verdade, acontecera o contrário. Quando pararam para descansar, o novo pirata dissera que, mesmo com a habilidade, não conseguia atirar tão rapidamente. Ele dava dois cliques, mas depois disso, seu dedo "voltava ao normal" até ele usar a habilidade novamente. E o alto pistoleiro que quase matara Vampiritico conseguira uma rapidez impressionante, que Thugles achava que não alcançaria naquele momento nem se estivesse usando duas pistolas(ele usava a pistola na mão direita e o cajado na esquerda).
Quando a noite chegou, eles decidiram acampar ali mesmo na Praia Florina. Haviam comprado uma barraca e um conjunto de quatro sacos de dormir, e o equipamento tinha um pequeno bônus de camuflagem, para permitir que os jogadores dormissem à noite com um pouco mais de segurança. Mesmo assim, eles sempre dormiam em turnos desde o ataque da Gangue do Cadáver. E antes de conseguirem cair no sono, Thugles lembrou-se da invejável habilidade do rapaz com as pistolas, de como quase haviam morrido naquela batalha. Se Corpse tinha toda aquela perícia com a pistola, significava que estava muito além deles.
E ele era apenas um entre as várias gangues que bandidos que se formariam durante o jogo.
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Março, 2013. Cerca de três semanas de jogo. Davien nível 43, Vampiritico 40, Thugles 39 e Nick 38.
E duas horas desde o apagão.
Estavam em Henesys quando ele começou. O lugar, apesar de não ser o melhor para se upar, era o ponto de encontro da maioria dos jogadores. Talvez porque fosse o lugar mais agradável, visto que era uma vila com tema de cogumelos, e as opções eram um pequeno porto, um deserto árido, uma cidade mergulhada nas sombras e uma vila localizada no topo das árvores. Henesys sempre fora um lugar tranquilo e de fácil acesso — além disso, era o lugar onde ficava a Quest de grupo, o lugar mais seguro e divertido para se passar de nível.
Embora Davien e seus amigos não estivessem ali a passeio. Resolveram descansar um pouco, sentando-se em um dos bancos que ficavam próximos da Área de Caça. Estavam discutindo sobre explorar Perion mais a fundo para encontrar mais monstros fortes quando aconteceu.
A luz simplesmente se apagou, embora fosse uma tarde ensolarada e sem nuvens. O pânico começou segundos depois, com Thugles e Vampiritico tendo presença de espírito suficiente para se agarrarem aos companheiros, para evitar se perderem. Disseram para si mesmos que era só um susto passageiro, mas duas horas depois, nada havia mudado.
O banco onde estavam já não existia mais. O chão agora era liso, como que feito de vidro ao invés das pedras que forravam o chão de Henesys. Gradativamente, os gritos foram parando, e eram poucos os que aventuravam-se a se mexer.
Finalmente, as luzes voltaram. Mas o chão continuava liso, e não havia sinal nas pedras ou das casas cogumelosas de Henesys. O lugar onde estavam era um imenso vazio, o chão parecendo mudar de cor a cada instante. Estavam de pé, e havia uma gigantesca multidão ao redor.
–Olá, jogadores.
Um homem apareceu na única coisa que distraía um pouco aquele lugar liso e infinito: um palco de três metros de altura, onde estava uma figura alta e sorridente. E dessa vez, não havia nenhum filtro de voz, nenhuma máscara ou sombra incerta. Estavam vendo o homem como ele realmente era.
A voz era fria e firme, seu rosto tinha um sorriso maldoso e o corpo era alto e magro, mais ainda que Dark Corpse. Ele usava uma camisa branca e seus braços eram cobertos por ataduras, e usava também uma calça jeans e tênis pretos. Seu cabelo era bagunçado e desgrenhado. No geral, não era uma figura muito assustadora, mas ele falava como se estivesse no controle de tudo.
E estava mesmo.
–Peço desculpas pela interrupção. Passamos por alguns... Problemas técnicos de servidor, mas já foram resolvidos. E agora, com muito mais vantagens para vocês — seu sorriso se alargou, e os que estivessem mais perto podiam notar o brilho sádico em seus olhos.
"Com esse bug, consertamos também alguns fatores problemáticos no jogo. O sistema de residências está funcionando oficialmente, e o sistema de clãs foi liberado. Vocês poderão se dirigir a Orbis para criá-lo, e registrar-se em batalhas de clãs se assim desejarem. Haverá uma Rocha Honorária em cada cidade, onde poderão ver o clã com mais pontos. Os que liderarem esse ranking ganharão benefícios extras todos os dias, como mesos e poções"
Mal ele terminou de falar, a multidão gritava e esperneava, reclamando e exigindo voltar para casa. Um deles chegou a atirar um flecha contra o homem, mas ela a atravessou sem causar dano. Ele sorriu e ergueu as mãos, pedindo silêncio.
Ninguém obedeceu. A maioria dos jogadores gritava agora — dentre os poucos que não participavam estavam Thugles e os outros, que rodeavam as pessoas procurando por Sheddeer, que sabiam que estava ali em algum lugar. Ocupados como estavam, não viram o motivo pelo qual todos de repente pararam de falar.
Eles olharam para o palco a tempo de ver a corrente que saía do pulso do homem, uma ponta agarrada a um homem de roupas vermelhas e arco dourado na mão — só podia ser o arqueiro que atirara a flecha. Jogou-o no chão e, à vista de todos, conjurou uma espada curva do tamanho de uma roda gigante, enfiando-a no peito do rapaz e fazendo-a atravessar o palco.
Quando ele a retirou, não havia mais sinal do arqueiro. O homem chutou o arco dourado displicentemente para o chão.
–Sinceramente recomendo que não tentem algo parecido — ele continuou sem alterar o tom de voz — Saibam que posso fazer o que quiser com qualquer um de vocês a qualquer momento. Se jogares seguindo as minhas regras, talvez um dia alcancem o nível máximo e verão suas famílias e amigos novamente.
Houve uma pausa enquanto os jogadores digeriam o que acabava de ser dito. Pois ele havia, mesmo que muito tenuamente, implantado uma leve esperança no coração de cada um. Foi como se estivesse lembrando a eles de que, apesar de tudo, eles não estavam condenados a ficar presos ali para sempre. Ainda poderiam escapar, se atingissem o nível 200.
–Vocês saberão mais sobre os clãs em Orbis. Residências, Quests com habilidades novas, mapas... Várias coisas foram adicionadas — ele tornou a sorrir — Afinal, isso aqui é um jogo... Precisamos ter atualizações também, não é? No mais, é só isso. Bom jogo a todos.
Ele desapareceu, assim como palco e o mundo infinito de chão de muitas cores. Davien, Nick, Thugles e Vampiritico se viram de volta a Henesys, a vários metros do banco onde haviam estado antes.
–Então, que tal se a gente fosse pra Orbis agora que já conhecemos um punhado de coisa aqui?
Os outros concordaram, e Thugles os liderou até o táxi mais próximo. Em uma espécia de acordo silencioso, decidiram não comentar o que havia acabado de acontecer. Não fazia sentido, e nenhum deles estava com humor pra isso.
Chegaram no "porto" de Ellinia pouco depois. A julgar pelas vozes e pela agitação que ouviam ao longe, o lugar estava bem agitado. Estavam perto da loja de poções, cruzavam uma ponte entre duas árvores, estavam prestes a chegar na entrada do porto.
–Parem.
Davien ergueu a foice, Nick e Thugles ativaram as Proteções Arcanas, e Vampiritico literalmente desapareceu. O guerreiro olhou ao redor, atento a qualquer sinal de movimento, embora confiasse nos instintos do amigo invisível, que certamente sabia onde eles se encontravam e o avisaria...
E os avisou, realmente, mas com um grito estrangulado. Uma shuriken estava cravada em seu peito, Thugles imediatamente se virou para usar a Cura, mas uma flecha explodiu em seu peito e jogou-o para longe, separando-o dos amigos.
Momentos depois, Nick também gritava, atingido por uma flecha no ombro. Um espadachim louro surgiu de uma árvore e começou a golpeá-lo, Davien correu para interceptá-lo mas foi impedido pela rajada de balas de velocidade incrível, porém tão familiar...
Nick sofria para acertar o espadachim que se mantinha sempre perto, impedindo que ele atacasse. O garoto louro era determinado, atacava de um lado e quando via que o outro erguia o cajado para revidar, saltava imediatamente para o lado oposto, flanqueando-o com extrema rapidez. Nick tentava recuar, mas seu adversário era igualmente rápido... Davien agora era atingido pelas balas e pelas flechas, só o que o impedia de morrer era Thugles que ficava atrás dele com a Cura, e Vampiritico rodava tentando achar a gatuna que, escondida, corria pelas árvores e atirava-lhe shurikens, algumas das quais eles desviava, outras, a maioria, o atingiam...
E de repente ouviu-se o grito estrangulado que despertou uma estranha sensação de dejà vú na mente de Nick e os amigos. Estavam sendo atacados por um grupo de ladrões — aquele grupo — quando alguém aparecera heroicamente e começara a atirar shurikens contra os inimigos. A julgar pelo farfalhar das folhas, ele se movia por cima das árvores — um lugar que nem Vampiritico achou que fosse possível de se subir no jogo. Da gangue, os únicos que eles podiam ver era o espadachim louro e o vago vulto de Dark Corpse correndo pelas árvores, mas quem quer que estivesse nas árvores não parecia ter problemas em encontrá-los. As shurikens pararam de atacar Vampiritico, o arqueiro e o pistoleiro já não atacavam mais, e o espadachim louro... Não sofrera nada, mas talvez o misterioso salvador tivesse achado que não seria necessário. Assim que se viu livre dos tiros e das flechas, Davien correu para enfrentá-lo, seguido por Thugles e um enfurecido Vampiritico, girando sua adaga pronto para atacar. O garoto, embora corajoso, sabia que não conseguiria vencer aqueles quatro, ainda mais tendo um que recuperava o HP do grupo o tempo todo. Decidindo que não poderia vencer, ele correu.
Eles ouviram as árvores farfalhando à medida que quem quer que tivesse chegado movia-se adiante, para longe do lugar. E então ouviu-se outro som: as mesmas folhas se mexendo, obviamente uma segunda pessoa seguindo o mesmo percurso acima do solo. E com isso, as shurikens pararam de surgir. Aparentemente, quem quer que os tivesse salvado agora estava sendo perseguido pela segunda pessoa que andava pelas árvores, pois agora os ruídos se afastavam cada vez mais.
Dark Corpse, a gatuna e Cara de Cavalo saíram das árvores, revelando-se. Não pareciam muito bem. Além dos rostos lívidos de fúria, eles pareciam cansados, machucados, como era de se esperar depois de um ataque de shurikens como aquele. Eles não precisavam ver o HP deles para saber que estava baixo. Quando ele caía para um nível crítico, o jogador sentia dores profundas, algo que Davien confirmara por experiência própria antes mesmo de sair da Ilha Maple. Aparentemente, não havia como fugir pelas árvores(havia a estrada, e então algumas árvores e folhas das árvores menores ao lado dela, era possível se esconder mas não "se embrenhar fundo" nelas). Eles se viraram meio que decidindo o que fazer quando recuaram, assustados.
Um vulto caiu no chão sobre eles, uma figura vestida de preto dos pés à cabeça. Parecia um conjunto de roupas feitas de couro que lhe concedia uma aura estranha, como se a própria noite estivesse carregada ali naquela armadura. Era toda cheia de detalhes e saliências, as luvas indo até os cotovelos e as botas até quase os joelhos, combinados de uma forma tão perfeita que parecia ser uma vestimenta só. A cabeça era coberta por um capuz, e seu rosto coberto por uma máscara. Ninguém podia culpar quando até mesmo a gangue ficou um pouco apreensiva com a presença dele.
–Eu o perdi — disse o homem, a voz levemente abafada pela máscara, e na mesma hora a Gangue do Cadáver relaxou ao ver um deles — Ele é mesmo muito bom... Mas não tão bom quanto esses aí que vocês têm que enfrentar — ele fez um gesto de cabeça para Davien e os outros com um tom de voz longe de ser um elogio.
Ele parecia ser o líder daquele grupo, ou pelo menos exercer alguma autoridade, porque eles baixaram a cabeça e desviaram o olhar, nervosos. Exceto Dark Corpse. Ele deu alguns passos à frente e ergueu ainda mais o corpo. A figura de preto era alta, mas não tanto quanto o pistoleiro, que não dava a impressão de estar nem o mais remotamente intimidado pelo recém-chegado.
–Estávamos indo muito bem, até aquele cara aparecer — disse, numa voz lenta cheia de desafio — Aquele cara que você ficou incubido de cuidar, lembra? Se tivesse feito bem o seu trabalho...
Ele fez uma pausa, deixando a frase carregada de desprezo no ar. O homem de preto apenas deu de ombros e acenou com impaciência.
–Não há tempo pra isso agora. Vocês saiam daqui, e não venha com gracinhas, você não está em posição de discutir no momento, Dark Corpse.
Ele parecia querer provar que estava sim em posição de fazer o que quisesse, mas por fim deu um último olhar de "isso não acaba aqui" e foi desaparecer na estrada com seus capangas. O rapaz de preto voltou-se para o grupo que ainda permanecia no local, e começou a andar na direção deles.
Agora qu estava mais perto, os quatro podiam ver sua cabeça mais detalhadamente. Além do capuz que lhe cobria, sua máscara criava um efeito ainda mais assustador. Era levemente inclinada para frente como uma lâmina, e os buracos para os olhos pareciam duas fendas brancas carregadas de mistério, sombriedade e indiferença. Ele se movia com determinação, sem hesitar.
–Ih cacete! — Thugles exclamou, brincando, mas segurando o cajado com firmeza.
–Ah meu Deus, é agora que o vingador prova ser na verdade um anti-herói e acaba com o grupo dos mocinhos protagonistas da história de MapleStory Online!
Uma leve risada sacudiu a máscara do rapaz.
–Vampy, Vampy... Bom ver que você não mudou nadinha.
Houve surpresa uma ligeira hesitação enquanto eles reconheciam a voz.
–Espera, você...
O homem tirou a máscara, revelando o largo sorriso de um rapaz que parecia alguns anos mais velho que eles, mas que todos sabiam que tinha a idade de Thugles. Ele também baixou o capuz, mostrando seus cabelos curtos castanhos e ajeitados.
–Rockfield! — exclamou Thugles, um misto de surpresa e alegria — Nunca falei muito com você, mas mesmo assim, que bom te ver, cara!
–Sei o que parece, mas não sou do mal! — ele foi logo avisando, erguendo as mãos no gesto universal de paz — Eu sou... Bom, depois eu explico, o importante é vocês saberem que eu sou "do bem" e tal. Aquilo foi só encenação, vocês sabem, né?
–Bom, o Donnie confia em você, e o Sheddeer confia no Donnie. Nós também, sem ele, não estaríamos no nível que estamos — Thugles disse para ele — E você acabou de nos salvar pela segunda vez, então sim, você é bem-vindo.
–Você esteve com o Sheddeer, imagino — Nick insinuou ansioso. Rockfield fez que sim com a cabeça.
–Sim, eu estive, e eles estão bem. Precisamos conversar — acrescentou repentinamente — E aqui não é o lugar. Podemos ir pra Perion ou pros arredores de Ellinia, eles sempre me fazem pensar.
–Como assim? — Thugles quis saber, curioso. Mas Rockfield, não era à toa que era o melhor amigo de Donnie Nirvana.
–Como eu disse, em Perion ou Ellinia. Vamos pra Perion, gosto de conversar por lá.
Entretanto, ele acabou levando-os até uma estrada que seguia na floresta, e passou por um lugar que eles nunca haviam ido. Ele ia na frente sem parar, e os amigos não tiveram escolha senão correr para acompanhá-lo. Finalmente, chegaram numa árvore oca cujo interior era bem iluminado por algum tipo de flor verde-muito claro, infestado de Cogumelos Verdes e Espinhosos. Passaram por eles e enfim chegaram à parte mais alta, onde não havia monstros.
–Muito bem, vamos nos sentar. É bastante coisa pra colocar em ordem, pra começar, esse é um dos únicos lugares seguros do jogo.
–Como assim, "seguros"? — Vampiritico indagou, sentando-se ao lado dele. O rapaz esperou até que todos estivessem acomodados antes de começar.
–Isso aqui é um jogo — disse — Não está grampeado, tipo, os administradores não podem escutar tudo o que dissemos, são os jogadores que mem preocupam. Sabe, aquela habilidade gatúnica que permite que você escute coisas de longe com um Earscope.
Vampiritico franziu a testa, interessado.
–Como é que é esse negócio aí?
–Ah, você ainda não aprendeu tudo — ele disse com um sorriso — Existem muitas habilidades que não precisam gastar pontos para serem treinadas. Em Kerning, por exemplo, você pode treinar Arrombamento, Trabalho com Metal e outras coisas, mas não faz diferença a classe que você seja. Só que tipo, se você for Gatuno, as habilidades de furtividade aumentam 20% mais rápido. Algumas de Gatuno são Detecção, Camuflagem,...
–Dessas aí eu sei — Vampiritico disse num leve rosnado, lembrando-se do primeiro ataque da Gangue do Cadáver — Mas continue.
–O Sheddeer, cadê o Sheddeer? — Davien perguntou com impaciência.
–Ele está com o Donnie. Em Orbis. A Anna também — acrescentou, e eles se entreolharam, Vampiritico e os dois magos sorrindo maliciosamente ao se lembrarem da cena da escola — Estávamos pensando em comprar uma residência, mas custam demais e não compensam já que a gente viaja o tempo todo. Seja como for, eu vim aqui pra buscar vocês.
–Eu vim te buscar — Vampiritico repetiu, fingindo uma voz grossa.
–Mas por que você precisava tanto se garantir de que o lugar é seguro? — Nick perguntou, atento. O rosto do rapaz ficou um pouco mais sério.
–Bem, não seria bom se eles soubessem que sabemos das coisas — resmungou.
–Que coisas?
–Pra começar, a idéia do MapleStory Online era de um jogo inocente, com as máquinas na escola e disponíveis apenas nos fins de semana cala a boca Davien, não terminei — ele acrescentou com rispidez, e o guerreiro engoliu o comentário sarcástica que estava pronto para dizer — Essa era o plano original, sabe, as pessoas rykas comprariam as máquinas, enquanto nós da classe média teríamos que esperar sábado e domingo, depois das atividades, pra jogar. Pelo menos foi assim que os administradores dos jogos queriam fazer.
–Mas aí um deles se revoltou e ficou louco, e resolveu prender todos aqui para ter um mundo comandado por ele, onde ele possa interferir e fazer o que quiser, levou o device principal com o Sistema Operacional Direto com... Pera, com... Laser não sei o quê, mas tinha laser, tenho certeza... caralho... Como era mesmo o nome do negócio?
–Sistema Operacional Direcionado a Laser Getstart — disse Rockfield — ou a sigla "S.O.Da.L.G.", com "a" minúsculo, "Sodalg". Donnie diz que prefere a sigla ao contrário, e realmente o nome soa bem melhor. Mas você acertou... Mais ou menos. A polícia não pode invadir, realmente, mas não é por causa disso. E ninguém sabe onde o sistema principal está. Como eu tava dizendo, o jogo todo ia bem, até no dia da apresentação do auditório.
Ele respirou fundo.
–Eles deixaram a gente jogar, e imediatamente depois da gente entrar, deu um pequenoe rro no sistema. Mas não foi nada, e eles resolveram e logo a gente foi jogar. Aí acabou nosso tempo, eles foram anunciar isso pra gente... — o rapaz fez uma leve pausinha — E descobriram que foram bloqueados do servidor.
Quatro pares de olhos fizeram caretas doidas direcionadas ao alto rapaz de preto, que continuou impassível.
–O sistema, a SODaLG, a ilha Kaine com as máquinas e os bangs, foram hackeados. A pessoa removeu a opção de sair do jogo, deixando os administradores em pânico. Então, quando começou a confusão toda, deu polícia e tudo... Não tinha mais jeito. Se tentassem alguma coisa, ele desligaria o servidor.
–E o que aconteceu depois? — Thugles perguntou quando ele parou, ansioso para saber mais.
–Claro que eles não disseram "ok, fica com o server, mas poupe os inocentes" e baixaram a cabeça. Começou uma baita duma briga entre os computadores, e eles conseguiram limitar o acesso do tal hacker. Ele ainda controla o jogo, mas os administradores conseguiram impedir que ele desligue o servidor, mas o cara é bom. Aquele apagão hoje cedo... Era ele, o filho da puta, quando conseguiu burlar ainda mais a segurança. Lá fora, tá uma confusão dos infernos, a televisão só fala disso, o Facebook só fala disso, tipo fotos de personagens de desenho com cara de cu com legendas, tipo, em cima da foto: "Passam o dia inteiro jogando" aí embaixo da foto: "E minha mãe reclama que eu fico até de madrugada no PC" ou o Yao Ming dizendo como somos sortudos por estarmos aqui enquanto eles têm que ir à escola.
–AruguahiahiyhajkajrhjkrhjkrhjakhjrNAGHahuraror — Thugles não sabia bem o que dizer. E não era só ele. Seus amigos cerraram os punhos, só imaginando o que diriam a essas pessoas, como elas não sabiam o sofrimento que era estar ali correndo risco de vida o tempo todo...
–É isso aí — Rockfield assentiu — Bom, o Donnie entende mais disso do que eu. Ele jogou o beta, e foi bem longe, mais do que a maioria deles. Mas agora ele parou de upar um pouco. Estamos nos concentrando em tentar achar um dos capangas do hacker, que está aqui fingindo ser jogador.
Davien riu.
–Ah, e querem fazer o quê com ele? Prender e pedir resgate? Torturar até ele contar como sair daqui? Se é um deles, claro que não vai adiantar pegá-lo.
Rockfield ergueu uma sombrancelha, uma curva divertida aparecendo nos lábios.
–E quem disse em pegá-lo? Você é tão idiota que sua cabeça pensa em coisas sem sentido, que ninguém pensou em fazer. Eu nem falei nada sobre o que a gente quer fazer com ele, falei?
–Não, mas... Bom... — ele ficou um pouco na defensiva agora.
–Tô brincando. Mas não, não vamos prender ele ou coisa assim, mesmo porque a gente caga de medo de ele poder ter poderes poderosos ou coisa assim. O que a gente quer fazer mesmo é seguí-lo — ele fez que sim com a cabeça, deixando os outros com caras confusas — Seguí-lo, é. Tem um lugar aqui no mundo que funciona como um botão de saída. Permite que você volte para o mundo real — terminou.
–Quer dizer... Voltar, tipo, sem choque, sem explodir em pedacinhos, nada? — Nick perguntou. Rockfield fez que não com a cabeça.
–Sabem, a opção de sair do jogo não foi desabilitado. Ela só foi retirada do menu. Se a gente encontrar esse lugar, o botão aparece e poderemos sair. É muito simples, só que...
–Só que tem milhões de lugares onde ele pode estar — Thugles completou por ele — Ah, mas isso já é alguma coisa, quer dizer... A gente tem alguma pista, alguma coisa que ajude?
–Bom, o Sheddeer tem um negócio lá que, sempre que o botão é usado, ele aponta pra direção do lugar — Rockfield contou — Teve uma vez que a gente tava lá de boa no em El Nath quando o negócio ativou, e o Sheddeer disse que era a oeste, ou seja, nada de Mu Lung ou a Mina dos Mortinhos. Mas some depois de dez minutos, mas mesmo assim, a gente ficou muito animado, é uma coisa bem legal e bangs.
–Não se usa "bangs" como adjetivo — Thugles disse. O rapaz olhou pra ele.
–Eu uso — disse, com firmeza.
–Mas espera, como vocês sabem de tudo isso? — Nick perguntou, finalmente extrenando o que o incomodava desde que o alto colega começara a falar — Como podem saber o que está acontecendo lá fora?
–Fácil, O Jonathan está com a gente.
–Quem?
–Jonathan, aquele que mora perto do Rock, Vampy. Aquele que o pessoal chama de Aphanyus, lembra? Fez aquele trabalho de salas com a gente, aquela história que a gente escreveu que tinha a cidade alemã dominada pelos ditadores nazistas, cada um fez uma personagem, a sua formava um casal com a do Donnie...
–Lembrei, já lembrei. Não, Thugles, não é isso — ele se apressou a acrescentar, vendo o sorriso que se abria no rosto do amigo.
–Você concordou! Pode falar, você disse!
–Não disse não, cala a boca!
–Disse sim, você falou que...
–Falei não, a sua que era a que ficava com todo mundo e nunca...
–Nem vez a sua ficava nao era a sua sim a sua ai vem Donnie não é HAHAHAHAHAHAHA ah é? pergunta pra ele né rock menina não ele menino cidade nazistas mataram não é é que os pais dela ela não tinha ninguém ah vem com essa você sim é verdade sempre diz isso ah sim mas não tem isso não dá ela dava sim o seu ficava com não sim ficava com o dele e aí depois..."
–SILÊNCIO! — Davien berrou, dando um tapa na nuca de cada um.
–Obrigado — Rockfield agradeceu com uma risada — Mas sim, como eu estava dizendo antes dessa viadagem de vocês, nós temos o Apha.
–E daí? — Davien indagou, dando de ombros.
–E daí — Rockfield disse — Que o pai dele é um dos hackers.
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