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9 O Centésimo Primeiro Andar
Quando chegaram a Ludibrium, os cinco companheiros foram obrigados a parar.
A cidade era imensa, feita de blocos de lego empilhados e bem organizados, coloridos de ordem totalmente aleatória que contrastava muito com o tom predominantemente escuro das roupas de Rockfield. Ele conduziu o grupo até um escorregador que tinha uma pequena casinha logo depois de subir a escada. Segundo ele, era um portal que levaria para onde Donnie e os outros estavam.
Mas eles tiveram uma surpresa. Rodeando o escorregador, havia uma dezena de outros jogadores sentados ou caminhando ao redor, e a julgar pelas expressões, estavam bem zangados. O que se confirmou quando Thugles perguntou educadamente o que estava acontecendo.
-O que tá acontecendo? Tá acontecendo que a porra do portal tá bugada! — bravejou um homem de túnicas largas — Não tem como entrar, e eu tenho que comprar umas poções importantes na Torre do Relógio!
A Torre do Relógio é um mapa que fica abaixo de Ludibrium, passando por uma fábrica de brinquedos e então chegando a uma parte onde o caminho era escuro e assustador. O lugar todo era a metade inferior de uma esfera, sustentada por duas enormes torres que mantinha o lugar suspenso acima do lado. Na parte superior, ficava Ludibrium, e quanto mais se descia, menor era o espaço e mais fortes eram os monstros. Eles variavam de ratos e ursinhos de corda, robôs e até cavaleiros de brinquedo. Apesar do tema aparentemente inocente, eles eram bem perigosos.
A parte mais baixa do domo era onde ficava a Torre do Relógio. Um lugar escuro, segundo Rockfield, que Sheddeer queria verificar fazia algum tempo. Se algo desse errado em El Nath, como havia sido o caso, eles fugiriam e era pra lá que ele e o grupo iria.
-Bom, o que vamos fazer agora? — Nick perguntou.
-Vamos ter que esperar, é o jeito — disse Thugles com um quê de desânimo na voz — Não dá pra upar aqui, os monstros da Torre de Eos não dão boa EXP... A menos que a gente volte pra Orbis.
-Ou que vocês façam a Quest de Grupo de Ludibrium.
Todos olharam para Rockfield.
-Tem Quest de Grupo aqui em Ludibrium? — Thugles perguntou com animação visível. Vampiritico riu.
-Tem sim — Rockfield contou — Vocês devem ter feito a de Henesys, que é a mais fácil e está à vista de todos. Tem uma em Kerning também, mas ela é só até o nível 30. A de Ludibrium dá boa EXP, mas...
-Mas...?
-Bom, sei lá, eu nunca fiz a Quest. Não sei o que vocês podem enfrentar lá dentro. O Apha fez uma vez com um grupo aí, e só sei alguns detalhes que ele me contou.
-Nunca é tarde pra uma primeira vez — Nick comentou, mas o rapaz sacudiu a cabeça.
-Ah não, eu não posso fazer. Já sou mais de nível 50, sabe — ele deu um sorriso significativo — Mas posso ajudar vocês com o que eu sei... Isso é, se vocês aceitarem.
-Bom, por mim tudo bem — Nick respondeu — O Thugles eu sei que tá doido pra essa Quest, o Vampy sempre é curinga, acho que só o Dave que não gosta muito de Quests de grupo. Então, vamos lá, como é essa Quest?
Rockfield se sentou em um banco, fazendo um gesto para que o imitassem.
-É uma Quest especial, não é como a de Henesys. Só pode ser feita uma vez a cada três dias, depois disso ela fecha e é preciso esperar. Mas não acho que alguém a tenha feito recentemente — ele coçou o queixo, pensativo — Só os betas sabem das Quests de Grupo, e a maioria deles já não tem nível pra fazê-las, pelo menos a de Ludibrium.
-Não queremos saber como funciona o cooldown dela, apenas fazer de uma vez — debochou Davien.
-Fale por você, eu estou doido pra saber como é a Quest. Continue.
-Então, como eu ia dizendo, pouca gente a conhece, a maioria são betas que já passaram do nível máximo pra fazê-la. E ela também não é que nem a de Henesys: só um grupo pode fazer a cada três dias.
Ele riu, pois Davien acabara de soltar uns palavrões.
-Mas vocês vão estar por conta própria lá na Quest. Só sei que o último estágio dela tem um boss muito poderoso, chamado Alishar. Os outros estágios envolvem mais matar Retz e uns Golens, nada tão difícil.
-E a EXP e os prêmios?
-Ah, elas valem a pena. O Alpha upou quatro níveis nela, e ele ganhou uma capa lvl 60 que usa até hoje.
-E o que mais? — Davien quis saber. Nessa parte ele estava interessado.
-Depois tem um estágio bônus que dá bons equipamentos, dá pra fazer um bom dinheiro vendendo eles. E por falar em poções, vocês vão precisar disso — acrescentou, abrindo seu menu. Ele mandou duas poções para Thugles e uma para cada um dos outros.
-É Água Benta — explicou — Alpha disse que ele usa um cadeado que bloqueia todas as habilidades, e a única coisa que resolveu foi isso. Só destampar e jogar em você mesmo.
Thugles analisou a garrafa de vidro. Era transparente cuja tampa era em formato de cruz, a parte vertical entrando dentro da garrafa. Parecia muito com o instrumento que os padres usavam para jogar água benta nas pessoas.
A Quest ficava no centésimo primeiro andar da Torre de Eos, ou Torre Leste. Rockfield tinha razão: o caminho para o 101º andar era subindo alguns parafusos gigantescos, e entrava-se por um portal disfarçado. Nem todos os portais tinham aquela aura azul: alguns deles eram mais escondidos, como buracos, portas, cavernas ou rachaduras na parede, como era o caso. Quem entrasse naquela torre veria os Retz e a escada que levava para os andares inferiores, o que atrairia toda a atenção. Dificilmente alguém encontraria aquela passagem se não a estivesse procurando.
Só o que havia no centésimo primeiro andar de Ludibrium era uma placa de trânsito vermelha, com um rosto sorridente no lugar de instruções. Ela, muito animada, lhes disse que a Torre de Eos estava para ser invadida por um monstro terrível, e que eles talvez fossem a única esperança.
Mas ela lhes lançou um olhar estranho, severo demais para placas de trânsito. Depois de alguns segundos de reflexão, constatou que o grupo era pequeno demais, fraco demais para a missão. Thugles expulsou Davien do grupo, mas nem assim a placa mudou de idéia.
Então Rockfield se lembrou que o grupo de Aphanyus era composto de seis pessoas, o máximo que um grupo poderia comportar. Os amigos precisariam chamar mais duas pessoas para completá-lo, já que o rapaz de roupas pretas não podia mais fazer as Quests. Ele foi cuidar de alguns afazeres enquanto os quatro voltaram a Ludibrium, procurando gente que poderia ajudá-los.
Não era uma tarefa fácil. A maioria dos jogadores não era muito confiante com estranhos, principalmente quando um dos membros do grupo usava uma foice cuja lâmina tinha o tamanho de uma pessoa. Mas por fim, eles encontraram Wiren, um arqueiro de vinte e poucos anos que era professor em uma escola do leste. Presenciando a cena, um gatuno se aproximou e pediu para se juntar ao grupo.
Vampiritico analisou o garoto à frente dele. Pequeno e forte, casaco e calça pretas que era a cor de escolha dos Gatunos. Na cabeça, vestia um chapéu que mais parecia uma bandana negra com uma caveira desenhada. Estava armado com uma longa adaga de cabo amarelo. Não era o que se podia chamar de "boa primeira impressão", e o fato de seu olho esquerdo ser coberto por uma atadura branca não ajudava. Mas ele tinha uma expressão agradável, e o fato de a pessoa ser um Gatuno e usar roupas pretas não significava que tinha que ter más intenções. E aquele garoto não parecia tê-las.
Nenhum deles havia feito a quest de grupo antes, então entraram com cautela. A Placa Vermelha os transportou para um outro lugar da Torre que, para todos os efeitos, se parecia com um andar normal, feito de blocos, porcas, parafusos e tijolos de brinquedo. Nela, haviam escadas que levavam a plataformas flutuantes, e em cada uma delas havia outras escadas, fazendo o lugar parecer um grande playground para crianças.
-O que a gente deve fazer, brincar de pega-pega? — Davien debochou.
Não havia nada interessante ali. O único NPC presente era um conjunto de balões de hélio amarrados juntos por um barbante cuja ponta não estava presa a lugar nenhum, portanto era estranho que eles estivessem flutuando a apenas alguns centímetros do chão e não flutuado até atingir o teto.
-Sejam bem-vindos, guerreiros! — o balão os saudou com uma voz fina e engraçada — Para completar o primeiro estágio, vocês deverão juntar 35 Passes, que foram roubados pelos ratos e espalhados pela torre. Boa sorte!
A instrução era muito simples. Entretanto, não havia sinal dos ratos ladrões de passes. O único "ser vivo" que havia ali além do grupo era o conjunto de balões. Eles pensaram em subir as escadas e procurar alguma coisa quando os Retz apareceram.
Eram dezenas deles, ratos de brinquedo com mecanismos de dar corda atrás das costas, olhinhos furiosos e os corpos delgados chegando à altura do joelho, surgindo no chão à frente deles e nas escadas das plataformas. A maioria eram de cor branca, mas havia alguns amarelos e, um pouco mais raros — e obviamente mais forte — outros grandes e negros. Eles corriam como em uma horda na direção dos seis amigos.
O primeiro a entrar em ação fora Wiren. Suas flechas atingiam a horda com facilidade, afinal, havia muitos deles agrupados, e as flechas explodiam ao entrar em contato com o alvo, o que jogava os que estavam próximos para longe. Ele era rápido, mas não era poderoso. Havia disparado seis flechas, todas com um impressionante efeito explosivo, mas não tinha matado nenhum deles. Mas pelo menos, as explosões retardavam o avanço deles.
Decidindo que não seria prudente deixar aquela massa de bichos chegar perto deles a ponto de envolvê-los, Davien correu para atacá-los. Sua foice sibiliava e girava à frente dele e não tinha preconceitos — atingia ratos brancos, amarelos, pretos, sem fazer qualquer distinção. Para ela e para o dono, eram todos monstros, que deviam ser mortos e lhe dar EXP e dinheiro.
No entanto, havia algo diferente naqueles ratos. Davien já havia atacado quatro vezes, mas só naquele momento conseguira matar um deles. Franzindo a testa, ele desceu a foice em um Retz branco para confirmar o que suspeitara. O HP do bicho havia descido muito pouco — na verdade, nem era pra ter "descido", mas sim desaparecido. E então ele compreendeu: não era Wiren que era fraco, os ratos é que eram mais fortes.
-Eles têm mais HP que os normais! — gritou para os outros.
Mas isso só o fez atacar com mais vontade. Durante o pouco tempo que estivera ali em Ludibrium, ele havia atacado alguns Retz, e apenas um golpe de sua foice era suficiente para acabar com eles. Não havia graça em atacá-los, mas na Quest, eles tinham mais HP que o normal. E isso lhe proporcionaria alguma diversão, afinal de contas.
Ele continuou a atacar, e depois de um tempo percebeu que sempre que matava um, uma espécie de cartão amarelo era dropado, mas ele não tinha tempo para pegá-lo. Preferiu continuar girando e cortando com a foice, e sempre que alguns deles tentavam pegá-lo pelos lados, eram imediatamente repelidos por uma flecha explosiva de Wiren. O arqueiro era rápido, parando de atirar apenas para tomar uma poção de MP quanto este abaixava demais. Ele se ocupava em proteger os flancos de Davien para que o rapaz pudesse atacá-los, e não demorou para que Nick avançasse e conjurasse tempestades de raios na massa que se agrupava mais atrás.
A luta não durou muito tempo, nenhuma poção de HP precisou ser usada. O grupo olhou para as plataformas com um leve sorriso. Os Retz surgiram delas o tempo todo, e imediatamente desciam as escadas para chegar até o foco da luta. Aparentemente, a idéia era que o grupo tivesse que subir as escadas para matar os ratos — do contrário, não se ocupariam em colocá-las ali. Mas os ratos eles corriam até eles quase que imediatamente após aparecerem. Provavelmente, era um erro que a equipe do jogo havia deixado passar.
Thugles entregou os passos aos alegres balões e o segundo portal se abriu, e Davien apressado entrou primeiro, seguido pelos companheiros.
A cena do segundo estágio poderia ser idêntica à primeira. A mesma torre, os balões, conjuntos de plataformas e escadas por toda a parte, exceto que desta vez o chão onde estavam localizava-se no centro, de modo que havia uma escada que descia para baixo também. O balão lhes disse que Retz haviam roubado os passes novamente, mas que haviam sido pegos em armadilhas. Entretanto, vários minutos se passaram sem que nenhum deles aparecessem.
O grupo estava junto, atento ao aparecimento dos bichos, mas então Thugles percebeu que algo estava muito errado. Olhou em volta e só viu a torre e seus amigos, nada fora do comum. E ele sabia que Vampiritico e o outro Gatuno, que tinha o apelido de Rabisco, eram muito mais capazes de perceber perigos escondidos do que ele. E eles não davam sinal de terem percebido nada de interessante. Então o que era aquela sensação na mente do menino?
Desconcertado, o bruxo balançou a cabeça. Estava se preocupando à toa, como sempre acontecia quando entravam em algum lugar novo e desconhecido, temendo que algum monstro além do nível deles aparecesse a qualquer momento e os matasse. Ele sabia que Dave faria um comentário sarcástico se soubesse da preocupação do amigo. E foi ao pensar nisso, ao se dar conta de que estavam ali havia minutos sem ouvir uma única reclamação sequer, que o garoto finalmente se deu conta do que estava faltando.
-Cadê o Davien? — ele perguntou. Imediatamente os outros olharam em volta, dando-se conta de que ele não estava ali.
-Ué, ele... Ele entrou primeiro, devia estar aqui — Nick replicou com impotência. Sentindo o medo crescer em seu peito, ele abriu o menu e a aba de amigos, parando aliviado ao constatar que o diamante verde de Davien ainda estava preenchido. Ele contou o fato aos outros, e eles relaxaram no mesmo instante.
-Ele não pode ter corrido pras plataformas, entramos dois segundos depois dele — Vampiritico tornou — Mesmo assim, é estranho como...
Ele parou de falar ao ouvir alguma coisa se quebrando, um som que ecoou por toda a torre. Momentos depois, o primeiro Retz escalou a plataforma vindo da escada abaixo deles.
Wiren logo atirou as flechas, mas sem Davien, não houve muito o que pudesse ser feito para retardá-los. Felizmente, eles pareciam ser extretamente vulneráveis ao gelo, pois congelavam assim que a Garra Gélida de Nick os atingia. O efeito durava apenas três segundos, mas os parava e os deixava vulneráveis ao fogo das flechas de Wiren. E eles não eram muitos: apenas seis ao todo, sendo cinco brancos e um negro. Apenas um passe foi dropado, e Thugles o pegou.
Segundos depois, outra caixa quebrou, e dessa vez o fato de que os monstros deveriam ficar na plataforma para que o grupo fosse encontrá-los paraceu funcionar. Só que isso ainda era uma vantagem, pois eles tiveram que subir algumas escadas para encontrar os ratos que, apesar de estarem a um pulo da plataforma logo abaixo, onde Thugles e os outros se encontravam, não a pulavam. O que os tornou um alvo fácil para as flechas e garras mágicas do grupo.
Ocorreram mais quatro desses surgimentos de ratos, em lugares diferentes da torre. Eles esperaram, mas anada aconteceu e os balões aceitaram os seis Passes de Thugles, abrindo o portal para o próximo estágio. Eles se entreolharam, relutantes. Haviam liberado o portal, mas Davien ainda não havia aparecido. Thugles, Nick e Vampiritico insistiram em procurá-lo pela torre, mas depois de dez minutos foram forçados a admitir que ele não estava ali, e tampouco aparecia do nada. Hesitantes, foram para o único lugar que podiam: o portal que se abria para levá-los a outro desconhecido.
E do outro lado, encontraram o rapaz: ileso, inatingível e rabugento como sempre.
-Finalmente vocês chegaram! Achei que iam ficar lá o dia todo, puta que pariu! — ele ralhou assim que viu os amigos entrarem no portal.
-A gente tava te procurando, idiotinha ingrato! Aonde você estava? — Vampiritico perguntou no mesmo tom de voz.
-Bem, eu que tava procurando vocês! — ele respondeu desviando-se dos efusivos abraços de Thugles, que sempre fazia isso para irritá-lo — Aparecia numa sala sem nada, só com uma corda que ia até o topo. Eu comecei a subir e vi uma caixa azul com estrelas, achei que era presente mas não consegui abrir. Então dei rage e quebrei ela, mas não aconteceu nada e ela sumiu. Então eu continuei subindo, achei mais e quebrei tudo. Quando cheguei no topo, apareci aqui.
-Quantas caixas tinham? — Thugles perguntou, embora já suspeitasse da resposta.
-Eram sete... Não, seis — ele se corrigiu, e Thugles fez cara de quem entendia. Nick, como sempre, fatou primeiro.
-Então foi isso... Quem entra primeiro no portal é mandado pra esse mapa que você foi, e quando uma caixa é quebrada, ratos aparecem no lugar onde fica o resto do grupo. Depois que a gente pega os passes, o portal é liberado e nos encontramos aqui.
-E depois, continuamos pra sair logo daqui — Davien continuou com impaciência.
O terceiro estágio era um pouco diferente dos anteriores. Havia uma escada que os levava para baixo, e ali a torre era feita de blocos azuis, com alguns buracos entre elas. Vampiritico contou seis ao todo.
-Um pra cada um de nós — ele adivinhou.
Era óbvio que essa era a idéia, mas nenhum deles se sentia à vontade para entrar sozinho em um daqueles portais. Davien, talvez, não estivesse com tanto medo, mas pensava que, se o único perigo fossem mais ratos, eles apareceriam ali e não estariam escondidos atrás de portais diferentes em uma parede diferente do resto da torre. Não, ali havia outra coisa. Mas logo sua curiosidade e senso de desafio superou o resto. Ele apontou para o primeiro portal, fez sinal para que os outros o seguissem e entrou.
O mapa desapareceu na escuridão, como era comum a todos os portais. Mas não apareceu de volta. Estavam os seis ali, vendo uns aos outros com clareza, mas não enxergando nada ao redor. Vampiritico tateou pelas paredes, sentindo os blocos duros da torre de Eos. Mas não havia mais nada ali. A não ser...
Thugles, Nick e Wiren quase pularam de susto quando um par de olhos apareceu diante deles na escuridão. Eram olhos brancos, com pupilas negras e, além do fato de terem aparecido repentinamente sem nenhum corpo, não havia nada de assustador entre eles. Depois de gritar um "Mariquinhas!" para os três companheiros, ele correu na direção do monstro.
Mas sua foice apenas cortou o ar quando ele atacou. O par de olhos havia piscado, sumindo na escuridão. Em seguida, o rapaz recuou como que atingido por alguma coisa, e sua barra de HP apareceu no ar e caiu um pouco. Assustado, ele pulou para trás quando o ataque se repetiu.
Os olhos apareceram novamente, mas Davien tinha sido pego de surpresa. Quando se recuperou e atacou, a criatua já os havia fechado novamente e sumido na escuridão. E conseguido acertar o infeliz rapaz mais uma vez.
-Espere até que ele abra os olhos — Wiren disse com calma.
-Muito obrigado — Davien respondeu secamente.
Os olhos surgiram de novo, e desta vez se arregalaram quando uma torrente de golpes caiu sobre ele ao mesmo tempo. Raios, uma rajada de flechas, garras mágicas e, o mais importante, a lâmina afiada de uma foice carregada não apenas com determinação, mas com força e toda a fúria e vontade da vingança. Completamente dominado, a criatura das sombras fechou os olhos, desta vez, para sempre.
Eles esperaram para ver se ainda continuava lá, mas o Passe derrubado confirmava que estava morto. Davien o entregou para Thugles, e eles saíram.
-Acho que dá pra irmos um de cada vez agora — Rabisco sugeriu, e os outros concordaram.
Cada um deles pegou outro portal, e como haviam apenas cinco agora, Thugles e Nick foram juntos. Desta vez, o feiticeiro usou seu gelo para congelar o monstro com os olhos abertos, o que facilitou muito o trabalho. Ele e Thugles jogaram algumas Garras Arcanas nele — a Garra Gélida tirava mais dano, mas gastava MP demais — e logo o segundo passe estava na mão deles.
Ele foram os primeiros a sair, Thugles entrando em cada um dos portais para verificar como os outros estavam se saindo. No quarto, encontrou Davien ainda ocupado em matar a sombra piscante.
-Quê isso, pensei que você acabaria primeiro — Thugles brincou. Davien nem olhou pra ele.
-Tinha dois aqui nesse mapa. O primeiro já era, e esse aqui... Também.
A última palavra foi meio que grunhida, dita ao mesmo tempo em que sua foice avançava para o golpe final que derrubaria mais um Passe. Satisfeito, eles saíram e depararam com Wiren e Rabisco, mas Vampiritico não aparecia de jeito nenhum. Quando entraram no quinto portal, logo descobriram o problema.
-Ah, uma ajudinha seria bom — ele disse ao ver os amigos que tinham um olhar curioso.
Momentos depois, a sombra abriu os olhos. Não eram os olhares calmos e indiferentes que esperavam encontrar, desta vez, o par de olhos estava curvado em uma careta de raiva, um brilho de desafio sobressaindo-se das pupilas negras um pouco menores que as outras. Enquanto olhavam, ela avançou, claramente insatisfeita de apenas esperar que os outros a atacassem.
Como sempre, foi Davien quem partiu pro ataque primeiro, chegando segundos depois da primeira flecha de Wiren. A Garra Gélida de Nick lhe tirou bastante dano, mas não o congelou. Tampouco a sombra desapareceu. Ela avançou sem se intimidar com a foice de Davien, atacando-o e fazendo-o perder uma quantidade de HP considerável, bem maior que a da primeira sombra. Quase imediatamente, Thugles o curou.
Vampiritico tentou contorná-lo, mas aqueles olhos, além de desafiadores, eram mais inteligentes. Assim que o rapaz se aproximou, a sombra virou-se imediatamente para ele, não o atingindo por centímetros. Se ela tinha um braço, uma perna ou alguma outra coisa escondida que era o que usava para atacar, eles jamais descobriram. O que quer que fosse, era rápido e acertou o rapaz em cheio depois que os olhos avançaram para a frente, e o rapaz pensou ter visto neles um brilho de triunfo quando o HP tirado foi consideravelmente mais que o de Davien.
Mas ele logo se recuperou, quando a aura verde o cobriu com a magia curativa. E naquele instante, os olhar maligno disparou de Vampiritico para o rapaz de roupas beges que o curava. Sua mente sombria — literalmente — logo se deu conta de que nunca iria conseguir matar aqueles invasores enquanto aque inconveniente rapaz os estivesse curando. Teria que se livrar dele primeiro, e a julgar pela posição que ocupava, escondido atrás dos outros, era também o mais frágil.
Enquanto pensava, estava dando a oportunidade para Davien atacar, mas fechou os olhos antes que a foice o atingisse, e ela passou direto por ele. O grupo parou ciente de a sombra, apesar de poder ficar completamente inatingível quando fechava os olhos, também não poderia atacá-los até que os abrisse. Por isso, ficaram esperando que a sombra aparecesse novamente diante deles. Mas eles não tinham como saber o que ela pretendia. Eles somente descobriram quando Thugles deu um grito, pulando para trás instintivamente quando os olhos apareceram bem na frente dele.
Eles se viraram no mesmo instante. Não enxergavam nada, apenas o rapaz caído no chão, os olhos fixos em alguma coisa acima dele. A sombra deveria ter o formato de um fantasma na televisão, ou seja, havia sombra atrás dos olhos, de modo que quem estivesse atrás dela não poderia vê-la. Mas eles sabiam que ela estava lá, encarando Thugles, e nenhum ataque poderia fazê-la parar.
O rapaz moveu desajeitadamente para trás, ciente de que talvez não resistisse a um golpe da criatura. Talvez sim, mas certamente estaria morto com três golpes. E seus amigos não poderiam pará-lo a tempo. No calor do momento, nem pensou na Proteção Arcana, e mesmo que tivesse, não teria tempo para conjurá-la. Os olhos se aproximaram, rapidamente, prontos para dar o primeiro golpe.
E então eles se arregalaram, na primeira mostra de medo e a segunda de emoção daquelas sombras, sendo que a primeira era a própria raiva que aqueles mesmos olhos haviam mostrado. Thugles olhou para além dos olhos, o coração batendo forte. Nenhum golpe seria forte o bastante para impedir o ataque — exceto uma facada nas costas, ainda mais vinda da poderosa adaga de Rabisco, que eles sabiam que faria um dano muito maior quando pegava por trás.
Ele puxou a arma, pronto para repetir o golpe, mas não foi necessário. Wiren atirou novas flechas e Nick usou garras, e em segundos o último passe estava no chão, flutuando inocentemente no meio deles.
-Obrigado — Thugles conseguiu dizer, levantando-se.
-De nada. Não teria muito o que fazer sem um Clérigo, então achei que valeria a pena salvar você — brincou Rabisco, exibindo um largo sorriso. Os outros riram, Davien mais que eles, aproveitando a chance de se vingar de pelo menos parte das inúmeras brincadeiras a que havia sido submetido nos últimos três anos.
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