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10 O Cadáver do Mal
Oculto pelas árvores, o espadachim retirou a arma da bainha, cuidando para que o sol não se refletisse na lâmina extremamente afiada da espada.
Seu alvo estava a uns vinte metros dali, conversando preguiçosamente em seu acampamento. O rapaz apertou mais a mão na lâmina ao ver a cena. Havia visto quando os três viajantes entraram na cidade, e esperava o momento para atacar desde então.
Vila das Ervas era um lugar aparentemente pacato. Flores, plantas e, obviamente, ervas, eram vistas por toda parte, e o céu sempre era agradável tanto de dia quanto à noite. Era a parte que ficava mais a sudeste de todo o mapa de jogo, logo ao sul de Mu Lung e El Nath e a leste de um imenso deserto pelo qual ele ainda não havia se aventurado. Mas apesar da aparência tranquila, ele sabia que o lugar não era completamente seguro. "Nenhum lugar aqui é", pensou sombrio. Era uma ironia: ele mesmo estava ali, a poucos minutos de se tornar um desses perigos que viviam ameaçando os outros jogadores.
Ele olhou com atenção os três viajantes, embora já o tivesse feito em um exame anterior. Dois deles não eram mais do que garotos, um carregava uma espada e o outro um machado. Pela armadura, ambos pareciam guerreiros, mas era impossível dizer com certeza. Não era raro uma pessoa usar armadura apenas para fingir ser um Guerreiro, porque isso evitava ataques. Guerreiros tinham um bônus de HP natural, sem falar na defesa e no óbvio que, se passaram no teste de classe, sabiam bem usar suas armas. Ele sabia que um deles poderia muito bem ser um Gatuno ou Arqueiro, mas algo lhe dizia que não. Eles carregavam suas armas com naturalidade, como sempre ocorria com Guerreiros treinados.
O terceiro integrante do grupo era uma menina. Pequena, alegre e de compleição delicada, vestia roupas simples e não usava nada como arma, embora ele a tenha visto com um cajado em mais de uma ocasião. Mas ele era de madeira e era um tipo de baixo nível, e a garota simplesmente não parecia representar uma ameaça. Mas o espadachim não cometeria esse erro. Sabia que nunca deveria subestimar um inimigo, por menor e mais inocente que ele pudesse parecer.
Ele esperou até que o trio terminasse de comer e conversar e se preparar para arrumar as coisas. Aquele era o momento em que ficariam concentrados em uma tarefa, o que diminuiria as chances de notarem alguém se aproximando deles. Determinado, o rapaz saiu das árvores e caminhou até eles.
Foi a menina quem o viu primeiro. Um segundo depois, os outros dois já estavam na frente dela, de armas na mão, prontos para agir caso fosse preciso. Era um gesto que indicava que estavam predispostos a não confiarem no rapaz, mas ele não se importou. Eles não tinham motivos para não agir assim, e verdade seja dita, ele não estava ali para cumprimentá-los.
–Podem largar suas armas — ele avisou, no tom mais firme que conseguiu. Mas ficou um pouco desapontado ao ouvir sua própria voz, que não soava bem como uma ameaça. Não pela primeira vez, desejou não ter a voz tão fina e jovial. Mas ele mesmo era apenas um garoto, e não havia o que ele pudesse fazer para mudar isso por enquanto.
O garoto com a espada riu com a afirmação.
–Sim, claro, afinal vocês são três pessoas armadas enfrentando um garotinho solitário — ele disse com sarcasmo evidente na voz. O outro garoto — e a garota -, no entanto, não pareciam tão confiantes.
–O que vale é a qualidade, não a quantidade — disse o espadachim, aproximando-se mais.
Os três garotos analisavam o que viam. Um menino, da idade deles, loiro e de expressão tranquila e delicada. Mas seus olhos eram sérios e sua boca era uma linha reta e dura, e ele parecia bem à vontade com a espada. No MapleStory, havia guerreiros que, mesmo tendo completado o teste, achavam que sabiam segurar a espada e o faziam de forma errada. Geralmente eram os que não aceitavam o treinamento pós-recrutamento do chefe Balrog.
Em uma classe como os Bruxos, por exemplo, não havia necessidade de aprender a manejar um cajado. Mas no caso de um guerreiro, treinar como segurar a arma era algo essencial, e apesar de tudo, o jogo não era capaz de implantar o aprendizado na cabeça dos jogadores. O sistema fazia tudo ser muito fácil, claro, mas ainda assim a pessoa precisava de uns dias para aprender com precisão razoável. Era possível se manter vivo segurando a espada da própria maneira, mas o problema apareceria ao enfrentar um jogador com experiência.
E aquele garoto loiro definitivamente não havia pulado a parte de treinamentos com o chefe Balrog. Não, ali estava um guerreiro capaz e até perigoso, embora esses pensamentos tivessem passado sem muita clareza na mente dos três. Para eles, era um menino corajoso demais, aproximando-se de dois outros guerreiros e uma bruxa.
–Não gosto de enrolação — ele tornou a falar com a voz dura — Mas gosto de dinheiro. Tanto que se vocês me derem um pouco agora, vocês podem voltar a pensar no que iam fazer depois de montar acampamento.
Ele se controlou para não soltar um suspiro de alívio ao ver os três se encolherem levemente diante daquelas palavras. Não muito tempo atrás, tinha visto Dark Corpse falar de forma parecida com um grupo maior de viajantes, que logo se mostraram muito ansiosos em cumprir tudo o que o alto rapaz havia mandado. Ele havia refletido sobre a maneira como o pistoleiro falara e esperava ter conseguido imitá-lo. Ao que parecia, não estava se saindo tão mal.
Apesar de o efeito não ter sido tão imediato quanto com o rapaz, ainda assim havia sido alguma coisa. E ele se orgulhou disso. Estava começando a pegar o jeito da coisa, e quando voltasse para o acampamento com aquele ouro, depois de uma missão sozinho... Por um momento, ele pensou no que os outros membros diriam. Certamente, que ele aprendia depressa, e que mesmo sendo um novato, já era um membro notável e que deveria receber mais atenção.
E foi justamente esse o seu erro. Ao ver os três se encolherem e parecerem assustados com sua atitude, deixou espaço para o espadacim atacá-lo. Sem perceber, havia se aproximado demais do grupo.
"Droga", ele pensou ao bloquear o golpe do garoto. O atacante fora rápido, mas o menino loiro também era. Mesmo com a hesitção, conseguiu aparar o golpe do adversário.
Então, sem que uma palavra de aviso fosse dita, o companheiro com o machado desceu a arma com toda a rapidez para ele, atingindo-o no peitoral. O menino recuou alguns passos, alarmado.
–Ora ora, cadê a pose de machão, hein? — disse o menino de machado, sem qualquer sinal de intimidação ou hesitação que vinha demonstrando nos últimos segundos.
Ao contrário, ele sorria enquanto se aproximava do rapaz, que se preparava para beber uma Poção Laranja com os olhos fixos neles. Antes que ele a levasse à boca, alguma coisa metálica voou na direção de sua mão, derrubando a poção que se quebrou com um forte barulho antes de desaparecer. Desesperado, viu que havia sido a menina, que ele achou que fosse apenas uma bruxa, quem atirara a shuriken.
–Tenho uma idéia melhor — disse o espadachim — Você nos dá todo o seu dinheiro para nós, e nós deixamos você voltar pra onde você veio. O que acha?
Ao dizer isso, avançou, e o atacante recuou. Tarde demais, percebeu que havia cometido um erro. Toda a aura de confiança e intimidação de antes, havia desaparecido. Se é que tinha existido. Ele suspeitou que aqueles três sempre fingiam estar assustados, para então surpreender o inimigo.
Como ele não disse nada, o espadachim ergueu sua espada para o céu e o menino, achando que se tratava de um ataque, levantou a dele para bloquear. Mas a intenção dele era outra — estava convocando uma habilidade, um círculo de pontos vermelhos que envolvia ele e o outro com o machado. Segundo se lembrava, era uma habilidade de guerreiros que aumentava o ataque com armas.
E achar que o espadachim estava para atacar havia sido seu segundo erro. Como ele havia levantado a espada na tentativa desesperada de defender um golpe que jamais foi dado, o de machado aproveitou para raspar sua arma nas costelas do oponente. E a menina, com seu cajado, colocou uma Garra Arcana no mesmo local.
Ele agora respirava com dificuldade. Não precisava olhar seu HP para saber que ele se encontrava criticamente baixo. Essa era uma novidade que havia aparecido depois do dia em que todos os jogadores foram reunidos pela segunda vez: se você perdia muito HP, o corpo sentia os danos como uma dor física. Era uma maneira de impedir que o jogo fosse apenas uma sequência de "trocar golpes que atravessam o corpo até o HP de um deles chegar a zero". O sistema de lutas também havia ficado mais real, por exemplo, o golpe que ele levara nas costelas ainda latejava. Não era nem de longe o dano que receberia se estivessem no mundo real, mas agora a dor se aproximava muito disso. Ele não precisava se preocupar com o risco de ter alguma hemorragia ou ter algum órgão destruído: sentiria apenas a dor. O que era um consolo, apesar de não tão grande.
–Calma, Clay, não vamos matá-lo antes de ele nos entregar um pouco de dinheiro, não é mesmo?
–Bem pensado, Bart — disse o de machado, num sorriso cruel — Vamos lá, garoto, última chance. Entregue o que tem agora e prometo deixarmos você ir.
Eles se aproximavam, sem pressa, sorrindo cruelmente — até a "delicada" menina, que tinha uma shuriken pronta na mão para impedir qualquer tentativa dele recarregar o HP. O garoto loiro recuava cada vez mais, então sentiu algo em suas costas e se virou para olhar. Era a árvore de onde estava vigiando os três jogadores, onde, minutos atrás, sentia-se totalmente seguro de si.
Ele se lembrou de que há menos de dois minutos estava fantasiando sobre como seus líderes iriam elogiá-lo e fazer caretas impressionadas. O que iriam pensar dele se o vissem ali agora? Então, ele se corrigiu. Talvez ele não viveria para ouvir as críticas dos outros membros do grupo. O pouco que sabia sobre bandidos era suficiente para lhe lembrar de que eles não costumavam perdoar erros com tanta facilidade. Punição severa, no mínimo, por envergonhar o grupo... E porque bandidos pareciam fazer fila para punir novatos imprudentes.
Ele agradeceu aos céus por estar sozinho e Dark Corpse não estar ali para vê-lo naquela situação. Ele não queria entregar seu dinheiro, isso seria fraqueza e um ato de extrema covardia, mas sabia que não conseguiria vencer aquela luta. Mesmo que atingisse um, os outros dois terminariam de esvaziar sua barra vermelha que já estava perigosamente baixa. Mas depois ele pensou que, se o mentor estivesse ali, poderia tirá-lo daquela situação. Então balançou a cabeça. Se Dark Corpse estivesse ali, talvez até ajudasse os bandidos a acabar logo com aquele guerreirozinho fraco e sem utilidade.
Justamente por estar pensando nisso, ele se sobressaltou ainda mais que o trio quando ouviu a voz vinda de algum lugar acima das árvores.
–Parem.
Aquilo obteve um efeito muito maior do que qualquer representação que o espadachim loiro pudesse fazer. Então, para horror dele, um homem pulou de cima das árvore e aterrissou entre ele e os três.
Novamente, eles recuaram e analisaram o que tinham. O descedor de árvores era alto, tinha cabelos brancos que formavam espetos grossos e pele um pouco bronzeada. Usava uma camisa branca por baixo de uma jaqueta de couro marrom, calças da mesma cor e tênis brancos simples. Não segurava nenhuma arma, e nem podia ser um gatuno que surpreendia com shurikens, pois não usava luvas. Mas ele carregava um par de pistolas, uma de cada lado da cintura.
–Muito bem, vocês pararam — ele disse em tom de aprovação — Estamos indo bem, é assim que eu gosto. Meu nome é Dark Corpse.
Bart e Clay, recuperados do susto, deram grandes gargalhadas.
–O Cadáver Negro! Não acredito... E eu zoava o Clay por ele ter nome de bloco do MineCraft!
–Não é um bloco do MineCraft, é "argila" — a menina corrigiu automaticamente.
–Tanto faz — disse Argila, dando de ombros — Bom, Dark Corpse, seu amigo tentou nos roubar. Tanto melhor que você apareceu, significa dinheiro em dobro. Fique com as mãos longe disso!
Ele gritou as últimas palavras, apontando seu machado para ele quando viu o rapaz mover as mãos lentamente para o cabo das pistolas. No mesmo instante, ele levantou as mãos, fato que agradou aos três jogadores. E a alguns metros dai, assistindo a tudo com atenção, o loiro enxergava apenas as costas do rapaz, mas não entendia o que ele estava fazendo. Poderia ter pego as pistolas e atirado... Mas agora, suas mãos encontravam-se no ar, muito fora do alcance de sua cintura.
–Tem um grupo de arqueiros ali em cima na árvore — ele disse depois de um momento de hesitação. Foi breve, mas Bart o percebeu e caçoou do rapaz.
–É mesmo? Bem, então seria um bom momento para que eles começassem a atirar. Agora, nos entregue o dinheiro... Cem mil mesos devem servir. E essas suas pistolas também — acrescentou, olhando o cabo marrom das duas armas — Me pareceu valiosas, mas entregue pelo menu. Nem pense em pegar com a mão e me entregar.
–Estou avisando, é a última chance de vocês...
–Tá cara, já ouvimos — a menina interrompeu — Dá logo esse ouro e sumam daqui.
Como Dark Corpse nada fez, Bart decidiu que era hora de mostrar um pouco de ação por ali. Com a espada já erguida, puxou-a para trás para dar impulso ao golpe, adicionando a força dos músculos das pernas na estocada que atravessaria o peito desprotegido do rapaz.
A espada nem chegou a fazer metade do percurso. Antes disso, um grito de dor e surpresa já havia sido dado, mas não vinha do rapaz de casaco marrom. Os tiros, sim. O primeiro foi disparado contra Clay apenas para avisá-lo e impedir que ele tentasse algo, os outros foram todos para Bart.
E naquele momento o garoto sentiu a precisão e a rapidez mortal das balas que o atingiam. Ele não sangrava nem era perfurano, mas a dor era imensa. Num rápido lampejo de percepção, os três compreenderam que nunca poderiam vencer aquele homem. Um instinto inicial havia dito a Clay que ele era perigoso, mas o fogo avivado pelo espadachim loiro foi mais forte que a prudência. E agora seu amigo era atingido por algo ainda mais forte que isso. Ele jogou a espada no chão e gritou para que o outro parasse.
Dark Corpse, porém, não tinha intenção de fazê-lo. Continuou com sua rajada mortal de balas, a uma distância tão curta que a dor e o dano eram tamanhos que tudo o que Bart podia fazer era se agachar indefeso no chão. Então, em segundos que mais pareceram minutos agonizantes para Clay e a menina, o corpo de Bart brilhou com uma luz vermelha e flamejante.
O espadachim loiro gritou um aviso para as costas marrons do pistoleiro ao reconhecer o fenômeno. Era uma habilidade de Guerreiros, muito difícil de ser conquistada, por sinal. Quando o HP descia para menos de 15%, a pessoa era envolta em um fogo vermelho e brilhante, uma aura de poder que aumentava consideravelmente sua defesa e praticamente triplicava seu dano.
No entanto, Dark Corpse ignorou o aviso, e Bart não chegou a usar o poder brilhante para atacar. Chuvas de fagulhas brilhantes simplesmente não faziam isso.
–NÃO!
Clay gritou ao ver o amigo desaparecer exatamente como outros que eles mesmo combateram anteriormente. Contudo, ele era experente demais para ficar parado gritando e lamentando a morte do amigo. Algo também lhe dizia que não adiantaria fugir, mas que outra escolha ele tinha? Não demorou até que ele e a menina estivessem fugindo apressados, ignorando os pertences de acampamento que haviam deixados espalhados pelo lugar.
–Peraí, o que pensam que estão fazendo?
O grito foi acompanhado de três tiros, dois deles atingindo os garotos na cabeça. Tiros como aquele não matavam diretamente, mas tiravam um HP surpreendente. E como ninguém sabia exatamente qual era a dor de ter uma bala atravessando o crânio, os controladores do jogo só podiam supor a idéia óbvia: doía muito. A garota caiu atordoada, as mãos na cabeça que ameaçava explodir.
Clay conseguiu dar alguns passos a mais. Dark Corpse havia atirado com as duas pistolas ao mesmo tempo, a da mão direita para a garota e a da esquerda para Clay. O tiro passou raspando pela cabeça dele, mas logo um segundo tiro surgiu para completar o trabalho de seu pequeno antecessor.
Eles lutaram para se levantar, a cabeça ainda girando. Uns dez Fazedores de Corpisse estavam parados diante deles, o olhar duro. Finalmente, o ato de apertar a cabeça com as duas mãos juntou todos os dez em um só Dark Corpse: alto, perigoso e ameaçador.
–Acho que meu amigo lhes pediu algo — ele disse, uma sobrancelha erguida. Apesar disso, desejou que sua outra sobrancelha não estivesse se mexendo também. Seja lá qual foi a decisão tomada pelas sobrancelhas, certamente não foi mais rápida do que a dos infelizes garotos.
Eles lhe entregaram um montante de mais de trezentos mil mesos, quase tudo o que tinham. Não tentaram esconder quanto tinham, por medo de não ser suficiente e levarem mais tiros do pistoleiro. Eles já haviam levado um na cabeça. E tinham visto o que acontecera com Bart.
Na troca, também havia algumas poções de HP e equipamentos, que poderiam ser vendidos e convertidos em ouro. Eles apertaram o botão de enviar, mas Dark Corpse não estava satisfeito.
–Suas roupas também — ele lhes disse — Fiquem com as armas, só quero as roupas.
E ele não se deu ao trabalho de dizer que a menina não estava incluída na ordem.
–Agora sumam daqui — disparou, e para reforçar sua opinião, apontou o dedo indicador para um lugar aleatório. Era impressionante, ele não dissera nada sobre para onde deviam ir, mas os dois garotos correram para a direção que o braço do rapaz apontava. Quando eles sumiram de vista, jogou as roupas dos dois de volta no chão.
O espadachim loiro ainda estava petrificado na árvore, assistindo a tudo com o olhar pálido de medo. Seria ele o próximo? Por um momento, essa possibilidade o fez tremer, mas logo sua mente inteligente começou a abrir uma pequena brecha no medo que o envolvia. Dark Corpse o tinha salvado, se quisesse matá-lo, já o teria feito. Ou teria deixado-os para os bandidos.
Ou talvez, ele quisesse que ele sofresse ali por mais um tempo, para depois mandá-lo se ver com Bart.
–Você deve ter uma idéia do que estou pensando — ele disse ao se aproximar da árvore. O ânimo do menino, que estava muito fraco, caiu mais ainda. Não havia companheirismo ou palavras divertidas no tom inflexível do mentor. Mas felizmente, ele mantinha as armas na cintura, embora o garoto soubesse que ele poderia puxá-las rapidamente se quisesse.
–E-Eu fui at-ata-não-eu-deu-des-cul-cul-ah-nã...
Ele não conseguiu mais gaguejar. Recostou-se na árvore, o choque da situação instalando-se dentro dele, como acontecia com garotos que acabavam de escapar da morte. Ele olhou para cima e viu seu mentor olhando para ele, implacável. Engolindo em seco, sentiu que precisava dizer alguma coisa a seu salvador.
–Desculpe — ele finalmente conseguiu dizer. Então, recuperando um pouco de sua dignidade, ergueu-se e encarou o homem — Pensei que conseguiria atacá-los e conseguir algum ouro, mas...
Ao dizer a penúltima palavra, lembrou-se de ago que Dark Corpse dissera e arregalou os olhos.
–Espera, como você sabia que eu tinha pedido ouro a eles? Há quanto tempo você...
–Corpse — ele ergueu a mão, interrompendo as perguntas do rapaz — Primeiro, eu venho ensinando você há alguns dias, e a única instrução que venho martelando na sua cabeça sobre o que fazer quando você se deparar com três viajantes indefesos — o espadachim não gostou do jeito como ele disse a última palavra — não se parece nada com cumprimentá-los e desejar "Bom jogo". Além disso, você não achou que eu estivesse simplesmente passeando pelos topos das árvores de Mu Lung e encontrado você por acaso, ou pensou?
O menino não respondeu. Era exatamente isso o que havia pensado: não tinha motivos para acreditar que Dark Corpse o havia seguido. Entretanto, as palavras seguintes do pistoleito confirmavam que era isso mesmo que ele tinha feito.
–Não se sai do nosso esconderijo sem avisar, principalmente quando se é um novato que mal tem uma semana com a gente — ele disse sem esperar pela resposta do garoto — Eu estava no topo da árvore enquanto você observava.
O outro continuou calado, sem saber ao certo como aquilo terminaria.
–Talvez eu devesse te impedir, afinal, você não sabia como realizar a coisa ainda. Mas você estava indo bem, e quando chegou perto daqueles três e pediu o ouro, pensei em como seria bom se todos os aprendizes aprendessem rápido assim.
O garoto arregalou os olhos ainda mais ao compreender o verdadeiro sentido daquelas palavras. Havia sido um elogio, por mais moderado e trabalhado que tivesse sido feito. Ele conseguiu sentir até uma ponta de satisfação na voz do homem. Mas então ele assumiu uma expressão um pouquinho mais severa.
–Aí eles ficaram com medo e você achou que tinha ganho a situação. E bum! Foi pego no truque de fingir estar assustado pra dar confiança ao adversário. Eficiente, mas as pessoas costumam subestimá-lo por ser tão óbvio.
Ele deixou o garoto refletir por alguns segundos, e ele chegou à conclusão que o rapaz esperava. Ele mesmo havia acabado de usar aquele truque, dizendo que havia arqueiros escondidos na árvore, mas com um tom hesitante que deixava claro que ele estava mentido.
Na verdade, ele não precisava daquela encenação. Poderia simplesmente ter puxado as pistolas e acabado com os três ali mesmo, mas queria ensinar uma lição ao ansioso aprendiz. E ele próprio sabia que não era a atitude mais sensata. Nunca era bom se garantir, e ele nunca podia saber se um daqueles três não era um beta nível 180 apenas fingindo ser fraco. Eram apenas dois garotos e uma menina, mas idade não fazia muita diferença em jogos. Não importa o quão real ele era.
–Ei, você se saiu bem, apesar de tudo — ele disse, abandonando completamente os modos professorais e indiferentes — Começou bem, mas quando conseguiu o que queria, se deixou levar muito fácil. Se você estivesse atento, aquele golpe do Bart teria sido útil: você o bloquearia quase com facilidade, e isso diminuiria ainda mais a segurança deles.
–Mas eu o bloqueei! — o garoto protestou, temendo que seu mentor talvez não tivesse visto a cena com clareza — Eu defendi o golpe dele, mas depois...
Ele parou ao ver Dark Corpse fechar os olhos lentamente.
–Eu sei, eu vi, mas a questão não é essa. Você bloqueou, mas eu vi você lutando na nossa base. Você foi pego de surpresa. Pode ter conseguido defender por reflexo, mas deu pra ver que você tinha sido surpreendido. E essa foi a deixa que eles precisaram para revidar.
Desconsolado, o menino percebeu que o rapaz tinha razão. Ele havia defendido aquele golpe por puro reflexo, não estava exatamente concentrado na luta. Acreditara realmente que aqueles três, temerosos como estavam, não tentariam nada contra ele. E se enganou.
–Como eu disse, pego num dos truques mais idiota de todos. Vai garantir boas risadas lá na base... Isso é, se não te expulsarem de lá.
O menino o encarou com visível desespero, mas logo sua expressão suavizou ao ver que o outro sorria. Um sorriso quase sincero, levemente zombeteiro, como se aquilo tudo não passasse de um erro bobo que todos apenas ririam com prazer.
–Vamos voltar pra lá, seu idiotinha — ele disse com o braço no ombro do pequeno espadachim, depois de se certificar, pela expressão do garoto, que ele havia aprendido a lição — E, se suas calças não estiverem molhadas, pode me acompanhar pra uma missão. Disseram que tem um homem com bastante dinheiro vindo pra cá, acompanhado de uma garota com um gato marrom. Clériga — acrescentou com uma leve pontada de desprezo. Depois de duas lutas contra o grupo de Davien, estava começando a desenvolver uma certa antipatia aos jogadores de túnica que recarregavam o HP que ele pensava em baixar.
–Claro que quero ir! — ele disse, já animado.
Dark Corpse olhou para cima, para que ele não visse o sorriso em seu rosto. "Ele vai ser um grande espadachim um dia", pensou.
Mas ele logo teve que enfasar as duas últimas palavras quando o menino não resistiu e perguntou:
–Eles não vão me expulsar quando souberem, vão?
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