MapleStory Online
24 No more Rockeddeer
–O que... O que aconteceu aqui?
Nick olhava para a cena desoladora diante dele. A neve remexida, as barracas faltando, uma marca no chão como se alguém tivesse caído lá... Era claramente o resultado de uma batalha — e não parecia ter sido a favor de Donnie e seu grupo.
–Eles estão vivos — Thugles contou fechando o menu com alívio evidente na voz — Mas ainda assim não faz sentido...
–Não faz sentido? — Nick repetiu virando-se rapidamente para o amigo — Quem você acha que iria querer lutar contra o Donnie e o pessoal? E ainda por cima, ganhar?
–A Team Italo, mas...
–Eles voltaram pra se vingar! — Nick estava quase gritando — Você não tá vendo? Se fosse algum outro grupo de bandidos, não acho que teriam ganho!
–Quem disse que a gente perdeu? — interpelou Thugles no mesmo tom de voz — Eles podem ter ganho a luta e se escondido, se fosse a Team Italo e o Donnie tivesse perdido, teria vários diamantes apagados na nossa lista de amigos!
Eles ficaram se encarando por um momento, e automaticamente, pararam de falar. Quando estavam na escola e havia algum motivo para agitação, Sheddeer sempre os acalmava, dizendo que seria melhor encarar a situação de maneira lógica, como sempre fazia. Estavam tão acostumados com isso que foi como se o arqueiro estivesse ali naquele exato momento, repreendendo-os pela maneira como reagiram ao ver a cena. E verdade seja dita, eles não tinham como saber se havia realmente ocorrido uma luta ali. Poderia ter sido muito bem uma guerra de travesseiros ou mesmo uma pegadinha — apesar de que havia apenas dois candidatos prováveis de sugerir uma brincadeira dessas, e um estava matando NPCs em Victoria e o outro estava ali observando a cena.
–O Italo não matou a gente — lembrou Nick, parecendo mais tranquilo — Eu ainda me pergunto o motivo.
Thugles deu de ombros, pensando no assunto.
–Talvez ele... Não quisesse perder honra?
A honra era medida pelo diamante que flutuava acima da cabeça de cada jogador, e aparecia apenas quando alguém queria vê-lo(seria meio chato ser o matador mais temido do mundo com um indicador de The Sims pairando sobre você o tempo todo). Quando se matava alguém "neutro", a cor verde começava a passar para laranja até chegar ao vermelho, o nível de desonra máxima, e assim a pessoa ficava por alguns dias. Quanto mais vermelho o diamante, mais caro eram os itens nos NPCs e menor era o preço pelo qual a pessoa conseguia vender itens nessas lojas, e NPCs podem relutar em pedir Quests à pessoa — por outro lado, existem Quests que só são liberadas com nível baixo de honra. Quanto menos honra uma pessoa tem, menor é a honra que uma pessoa perde se matá-la. Matar jogadores vermelhos não causa nenhuma penalidade ao diamante — ao contráio, a honra até aumenta um pouquinho.
–Me pareceu outra coisa — Nick replicou pensativo — Sei lá, o jeito dele. Ele é o líder do clã e tudo, mas você viu como ele chegou? Tentou evitar uma luta. Ele me parecia... Sei lá...
–Se a gente não soubesse, diria que ele é bom — Thugles completou e Nick assentiu — É, pensei isso também. Mas isso não quer dizer nada. Ele só teve piedade da gente, ou como eu disse, não queria perder honra... Não importa. Mas não acho que eles atacariam de novo, não depois daquela derrota.
–O Italo pode ter voltado — Nick sugeriu, mas Thugles balançava a cabeça.
–Pra quê? Ele já derrotou a gente antes. Por que voltaria e derrotaria de novo, sendo que não matou nenhum deles? E lembra que o Gatts e a Kiara foram embora? Só tinha o Donnie, Apha, Rock, Sheddeer e Anna. Sei lá, eles podem se cuidar sozinhos mas o Gatts era o mais foda do grupo, então...
–É realmente uma pena que ele tenha ido embora. E não foi o Italo — disse uma voz conhecida.
Donnie aproximava-se dos dois a passos largos, sem dar sinais de que havia sido ferido na luta ou mesmo participado dela. Mas também, ele já tinha se recuperado com a cura própria ou com poções. O único fato que deixava claro que ele havia lutado eram as palavras anteriores. E ele também tinha uma expressão estranha no rosto.
–O que me preocupa é para onde eles estão sendo levados — continuou, parando perto deles, encarando-os com a expressão muito séria — Estava esperando vocês dois. Um de vocês tem alguma habilidade de Rastreamento?
Eles balançaram a cabeça, como Donnie esperava que fizessem.
–Não mais que o básico — Thugles disse em tom de desculpas — Mas tenho uma anja que brilha e meio que me possui pra atacar, serve?
–Se ela pudesse carregar a gente pelos ares, serviria — Donnie retrucou com tristeza — Receio que tenhamos um problema. Vamos ter que procurá-los à moda antiga.
–Como você escapou? — Nick perguntou de repente. Donnie olhou para ele.
–Eu fui atacado por trás, de surpresa — ele explicou — Quando dei por mim, Sheddeer e Rock estavam lutando. Tentei ajudar, mas veio tipo um dragãozinho demoníaco. Uma conjuração, pelo que vi. Escapei com Teleporte por muito pouco.
Os dois assentiram, tentando imaginar a cena. Donnie tinha um olhar duro, mas não havia remorso na expressão dele. Tampouco parecia se arrepender por ter escapado enquanto o resto do grupo tinha sido capturado. Afinal, seria inútil se tivesse sido pego. Estando livre, poderia resgatá-los.
–Bem que o Apha podia ser um bisão voador pra carregar a gente pra... — Thugles começou um tanto resignado, então percebeu o que estava faltando — Espera, e a Anna e o Apha? Você só disse que o Rock e o Sheddeer lutaram, olha só, Rockeddeer de novo, sempre parece ter uma desculpa pra eu misturar os nomes deles assim mas...
Donnie mordeu o lábio inferior, e os olhos escuros vacilaram antes de responder.
–O Apha foi caçar logo depois de vocês saírem, e não voltou mais. E a Anna não poderia ajudar.
Desta vez, Nick franziu a testa, incrédulo.
–Por que não? Ela não tinha aquelas duas armaduras, a negra e a de fogo? Ela pode não ter tido muito tempo com elas, mas aqui no jogo, ela saberia usar assim que...
–A Anna não poderia ajudar — Donnie repetiu bruscamente — Porque foi ela quem nos atacou.
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A cabeça de Aphanyus latejava, ondas de dor enviadas ao crânio à medida que quem o carregava avançava pelo chão de pedras lisas e cinzentas, cuidadosamente arranjadas em um padrão suave e organizado.
À medida que acordava, ele foi ficando mais consciente de onde estava — no ombro de alguém muito forte, que o carregava por... Orbis? Era isso mesmo. Ergueu a cabeça e pôde ver as nuvens distantes do Parque de Orbis, visão que logo foi bloqueada por um vulto embaçado que entrou na frente dele.
–Olha só... O prisioneiro acordou! — disse uma voz conhecida. Logo sua visão melhorou e ele reconheceu o pirata que havia lutado com ele nas geleiras.
Ele se lembrava de ter coberto o homenzinho de golpes e cortes com a espada. Aos poucos, a cena voltou em sua mente até ele se ver encarando aquele pirata não ali, em Orbis e com um sorriso zombeteiro no rosto, mas sim caído no chão com uma careta, na mira da espada do guerreiro.
Aphanyus olhou mais uma vez para o rosto feio com cabelo de serra e se viu perguntando como e por que tinha chegado naquela situação. Lembrava-se claramente de ter vencido o pirata, jogando-o no chão e faltando apenas dar o golpe final que acabaria com tudo. Sim, aquele homenzinho tinha caído, o HP quase zerado, o guerreiro tinha a espada apontada para ele... E agora estava ali, sorrindo com aqueles dentes sujos para o guerreiro derrotado e com os músculos doloridos?
–Eu ganhei de você — Aphanyus disse com a voz embargada. O pirata riu.
–Ah, não ganhou não, meu amigo. Eu que...
–Ganhou, sim — afirmou uma voz forte — E sua situação só não ficou pior porque eu estava lá. Aprenda a aceitar a derrota, Bruken.
–Tá tá, que seja.
Mas Aphanyus pôde ver que, para Bruken, a vitória havia sido do pirata e não do guerreiro. O baderneiro mostrou a língua para o homem, que estava de costas para o pirata e não viu o gesto.
Aphanyus virou a cabeça para olhar seu captor — e se surpreendeu ao encarar o vazio.
Perplexo, ele se deu conta de que não estava sendo carregado, mas sim flutuando no ar. Tentou olhar ao redor e só então percebeu como seu corpo estava limitado. Seus braços, juntos atrás do corpo, se moviam, mas muito lentamente, como se ele estivesse preso em cimento fresco.
–Bolha de Levitação, idiota. Reduz os movimentos da pessoa que é carregada se ela estiver dormindo... Dormindo, sabe? — Bruken sorriu, exibindo os dentes que teriam feito um dentista pensar duas vezes antes de lhe dar um pirulito no fim da sessão.
–Seria melhor se ele não soubesse que a bolha só funciona se a pessoa estiver desacordada — o homem, provavelmente o bruxo que usava a magia, retrucou sem alterar a voz — Mais uma lição pra você.
Bruken revirou os olhos e suspirou, mas não disse mais nada.
A caminhada durou mais alguns minutos, até que eles pararam e Aphanyus sentiu o corpo começar a ser novamente atraído pela gravidade, mas Bruken o segurou. Quando a bolha finalmente sumiu, o guerreiro percebeu que tinha amarras nas mãos e nos pés.
Agora que podia mexer a cabeça livremente, olhou ao redor e viu um edifício de pedra coberto de cartazes e algumas pessoas perambulando, mas nenhum sinal de quem o carregava. Alguns jogadores olhavam a cena com curiosidade, mas logo perdiam o interesse. Ele teve a cabeça virada para frente outra vez por um par de mãos nem um pouco delicadas.
–Não, você é meu agora, idiota — Bruken cuspiu — E sabe o que eu quero fazer? Continuar nossa luta! Que tal... Isso!
Os olhos de Aphanyus quase saltaram para fora das órbitas quando ele recebeu o soco. Com as mãos amarradas e viradas para trás, a barriga ficava muito mais exposta, e ele se dobrou quando o golpe duro o atingiu bem no estômago. Teria caído se o pirata não o estivesse segurando com firmeza pelo braço. Decidido a não demonstrar sofrimento, Aphanyus se ergueu com rapidez.
Levou um murro na cara, outros dois no peito. Mesmo dentro de um jogo, era a pior surra que já havia levado. Não só pela dor, mas por não ter a capacidade de se defender. Isso o deixou com raiva. Encarou Bruken bem no fundo dos olhos quando ele se preparava para mais um soco e falou com aspereza.
–Seu covarde! Não tem peito pra me encarar de novo, né? Precisa que eu esteja amarrado pra...
Ele não terminou a frase, o soco seguinte veio primeiro. Com um pouquinho mais de força do que os outros.
–Já chega, Bruken.
Seja lá quem tivesse falado, além de não ser o bruxo, provavelmente era um tolo. Esperava mesmo que aquele idiota fosse parar de atacar com um simples "Já chega?" Surpreendentemente para ele, foi o que aconteceu. Aphanyus ergueu os olhos e viu que o rapaz hesitava no meio de um soco, como se estivesse lutando contra si mesmo. Finalmente, a cautela prevaleceu. Com um resmungo de desprazer, ele empurrou o guerreiro cujas costas bateram com força na parede. Mas era uma dor bem-vinda, quase doce, comparada aos socos que vinha recebendo.
–Seu trabalho é capturar, depois jogar na cadeia. Nada além disso. Você me entendeu? Se continuar agindo assim, Bruken, vou expulsar você do clã. Entendeu?
–Entendi — Aphanyus ouviu a voz raivosa porém controlada de Bruken, e isso lhe causou certa satisfação.
–Ótimo. Já apresentamos a ficha. Agora vamos embora. Ainda faltam mais alguns pra gente pegar.
–Espera! Que história é essa? Cadeia por quê? Do que estão me acusando... Quem vocês acham que são?
Uma mão agarrou o ignorado Aphanyus pelo colarinho e o jogou para dentro do que parecia ser uma entrada do edifício, mas não havia nada lá além de um espaço pequeno como um armário de vassouras. Talvez fosse um portal, afinal. O guerreiro tropeçou, bateu na parede e escorregou, caindo de frente para entrada. Ele viu a paisagem de Orbis e os dois homens parados à entrada.
E então ele reconheceu quem estava parado com olhar de censura para Bruken. Era a pessoa que o tinha censurado pelos socos. Magro, ereto e usando o que parecia ser um conjunto de armadura com roupas de frio, a lâmina de uma foice atrás das costas, estava... Davien.
Então a porta se fechou, mergulhando o guerreiro na escuridão.
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A caverna, cheia de cristais azulados e brilhantes, era fria e úmida. Parecia algum tipo de local sagrado, do tipo "rituals spot here" e coisas assim. A luz dos cristais projetava-se na caverna e eles se refletiam entre si, criando todo um efeito de mistério e de respeito àquele local.
Vampiritico, no entanto, não estava interessado em ir ali e respeitar uma caverna. "O que diabos estou fazendo aqui?", ele se perguntava. Depois de mais algumas missões para a Mist Brotherband, a mulher que o recrutara tinha dito que era hora de ele completar o avanço para o próximo nível — como Gatuno. Ele ainda não tinha ido a El Nath falar com o instrutor de terceira classe — e ainda precisava do Cristal Negro.
A Mist Brotherband, no entanto, parecia ter os próprios meios. Um portal, que só podia ser usado por quem carregasse a insígnia do grupo, o levou a um túnel aparentemente vazio, com várias saídas. O garoto percebeu admirado que cada uma delas levava para uma cidade diferente. Bastava entrar nele para ir à cidade que desejasse.
Quanto ao Cristal Negro, a organização parecia ter um estoque deles guardado, de modo que ele precisou apenas solicitar um por um preço muito menor do que ele acharia no mercado. Depois entrou no portal e foi ter diretamente com Arec, o instrutor de Gatunos que usava um robe azul, encapuzado como os outros. Vampiritico reparou que, além da cor da roupa e da arma que carregava, ele se destacava por cicatriz na face direita: duas longas e grossas linhas vermelhas e onduladas, cruzadas em um "X" que completava a expressão dura e os traços fechados de seu rosto.
Apesar de convenientes, o portal universal da Mist Brotherband só ligava as cidades, então ele teria que ir a pé até o desfiladeiro. Ou podia usar o táxi, que era caro porém muito mais rápido. E para surpresa do garoto, a passagem de 45.000 mesos fora reduzida para 10.000 quando o NPC percebeu que ele pertencia àquela organização.
–Que grupo de assassinos mais perfeito! — ele assobiou baixinho para si mesmo enquanto entrava no táxi.
As perguntas eram fáceis, apenas conhecimentos gerais sobre o jogo. Depois voltou a Arec e finalmente foi enviado para a caverna de cristais, onde o instrutor havia dito que ele enfrentaria um inimigo que ele jamais poderia imaginar. Um pouco curioso com aquilo, mas não com medo, ele foi lá na caverna ver qual era a desse inimigo.
O único inimigo que parecia haver ali era o tédio, no entanto. E o fato de que a caverna não parecia ter saída. Ele rodou por alguns minutos e nada encontrou. O garoto sentiu um profundo desânimo só de pensar que talvez ele tivesse que procurar alguma passagem ou botão secreto no meio dos cristais. Havia milhares deles, grandes, grossos e pontudos, raramente deixando ver a parede escura da caverna. Ele tocou um dos cristais e soube na mesma hora que não poderia ser aquilo. Havia muitos deles, seria virtualmente impossível que ele achasse alguma coisa escondida no meio de tantos deles.
Distraído como estava, não percebeu o vulto que se movia sem fazer barulho atrás dele.
–Caralho — ele disse encarando a parede com impaciência — Vamos lá, teste de Gatunos. O que podem testar num Gatuno? Claro, eles podem...
Foi esse pensamento que despertou uma idéia na mente do menino e o fez se virar, a espada estendida para a frente numa estocada certeira na direção no inimigo...
...Que não estava ali. Baixando o braço lentamente, Vampiritico sacudiu a cabeça, rindo para si mesmo. Que idiotice. Tinha pensado que havia alguém ali, quase que...
–Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaarghh!
O grito reverberou por toda a caverna, ecoando nos cristais e distorcendo-se e espalhando-se por todos os lados quando o som atingia as lâminas azuladas. Ele caiu de quatro no chão, por um momento, sem forças para se levantar.
Quando conseguiu, deu um impulso e correu o máximo que pode, temendo que o inimigo atacasse novamente. Vampiritico nunca havia levado uma adaga nas costas antes. Quer dizer,uma adaga nas costas, sabe, normal, acontece de vez em quando mas ele nunca tinha sentido isso. E agora sabia que a técnica tinha mais do que dano extra. A dor era incrível, quase insuportável, parecia explodir nas costas e se espalhar por todos os membros, paralisando os nervos momentaneamente e impedindo-o de fazer qualquer coisa.
Sendo Gatuno, ele tinha pelo menos uma proteção que reduzia 10% do dano de backstabs. Sem tempo para tomar uma poção, ele se virou para encarar o adversário...
E foi tomado pela surpresa ao reconhecer o Dark Lord, atrás das roupas escuras e da bandana que lhe cobria a boca.
–Dark Lord?- ele perguntou debilmente — O que você...
Ele saltou para cima e para o lado esticando o corpo fazendo uma argola no ar. Por pouco, escapou do ataque — uma gigantesca shuriken se várias pontas, a mesma que Rockfield usara quando Davien saiu do grupo — e que alguém aí provavelmente não se lembra.
Dark Lord atacou novamente, outra imensa shuriken do tamanho de Vampiritico, tão rápido que o garoto mal teve tempo de tocar no chão. A grande estrela veio rodopiando como uma serra e o acertou no peito, empurrando-o para trás e desaparecendo em seguida.
–Ah, então é assim né?
Aparentemente, era assim, por Dark Lord atirara mais shurikens gigantes. O rapaz se esquivou delas com habilidade.
Decidindo que já era hora de reagir, ele mudou as esquivas para uma aproximação cheia de saltos e piruetas, coisas que ele aprendera a fazer ao longo do treinamento como Gatuno. Eram giros e movimentos desconcertantes, mas ele os fazia com tanta facilidade que chegava a se perguntar se continuaria sabendo fazer aquelas acrobacias quando saísse do jogo.
Vampiritico estava a cerca de dez metros de distância quando a grande shuriken o atingiu bem no peito, jogando-o para longe e para trás. Resmungando, levantou-se a tempo de escapar de uma segunda shuriken, e logo ficou claro que não conseguiria se aproximar.
–Cara, você não podia usar umas skills de adaga pra eu poder cobiçar as que vou ganhar no terceiro avanço não? — perguntou, mas recebeu apenas uma serra giratória como resposta.
E foi justamente ao dizer nisso que ele percebeu que tinha algo errado. Já devia ser a vigésima shuriken gigante que Dark Lord jogava, e exceto pela adaga nas costas, ele não tinha usado nenhum outro ataque. Isso fez o rosto de Vampiritico se torcer numa careta de indignação.
Aquele homem não era o Dark Lord. Podia ser habilidoso, mas se fosse realmente o instrutor de Gatunos lutando contra ele... Bom, ninguém -exceto o pessoal que lê a fic no fórum- se esqueceu de quando Mai quase matou Davien na Ilha Maple, e Vampiritico sabia que a instrutora não era nada comparado ao líder dos Gatunos. Ainda assim, aquela cópia falsa e barata era boa, e as shurikens gigantes cuidavam para manter o rapaz afastado. Vendo que não conseguiria se aproximar, Vampiritico puxou uma de suas facas de arremesso. Esperando que a próxima shuriken viesse, ele saltou e a atirou ainda no ar.
Ouviu-se um sibilar metálico e a faca voou de encontro à parede quando Dark Lord a desviou com uma adaga. Antes disso acontecer, Vampiritico já atirara outra faca — que também fora desviada. Ele jogou mais duas facas, Dark Lord bloqueou uma e se esquivou da outra.
Mesmo não tendo conseguido nem arranhar o oponente, os golpes interromperam a rajada de shurikens, permitindo que o rapaz se aproximasse. Com a adaga — de luta — na mão esquerda, direcionou um golpe contra o rosto do instrutor. Como esperava, ele bloqueou o golpe — dando a brecha para que ele atirasse a última das cinco facas de arremesso em cheio no rosto.
O inimigo não recuou, no entanto. Levou a adaga para o lado, forçando o braço de Vampiritico naquela direção. O garoto viu quando outra shuriken apareceu na mão do instrutor e deu um carrinho no chão, ficando atrás dele.
Atrapalhando pelo imenso trambolho que era a shuriken, Dark Lord não foi rápido o bastante. Com um grito — nada adequado para Gatunos — Vampiritico cravou a adaga com força total nas costas do adversário.
Desta vez, ele caiu, a imensa estrela de aço desaparecendo no ar e os joelhos tocando o chão. Vampiritico chutou-lhe as costas e recuou, atirando as facas de arremesso uma atrás da outra. Quando acabaram — levava alguns segundos para que elas retornassem ao inventário — Dark Lord já estava se levantando, mas não tão rápido para evitar o Ataque Selvagem de Vampiritico.
Foram seis golpes com a adaga, já na mão direita, que atacavam em todas as direções formando alguma espécie de ideograma. Um golpe pela lateral, seguido de outro por cima, uma estocada e um corte à direita, um meio círculo que teria aberto a barriga do instrutor, outra estocada. Quando usava a habilidade, era como se Vampiritico estivesse vendo as coisas em câmera lenta.
Dark Lord ainda tentou se esquivar, mas sua rodada de ataques havia chegado ao fim.
Vampiritico o cobria com o Ataque Selvagem, a cada golpe forçando o oponente a recuar um pouco mais, até chegarem à uma das paredes.
Vampiritico sorria, o oponente tinha um olhar frio e concentrado. Estava certo: aquilo não era o Dark Lord. De jeito nenhum. Era um clone, uma cópia barata criada para servir de teste para os alunos, a imitação de um ninja, que só sabia atirar shurikens grandonas e dar uns swings toscos com adaga. Se fosse o Dark Lord verdadeiro... O garoto preferia não pensar nisso.
Houve um momento em que o Dark Lord hesitou, como se tivesse acabado de perceber que não seria capaz de romper aquela defesa. No jogo, entretanto, isso significava que o HP estava baixo — alguns chefes e monstros mais importantes demonstravam cansaço quando o HP ficava baixo. Vampiritico sorriu com desdém para a imitação barata e deu uma estocada simples, a lâmina atravessando o ombro do homem.
–Nunca pensei que seria assim tão fácil — ele disse divertido para si mesmo, pegando o objeto enegrecido que caíra do falso instrutor morto.
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Rock e Sheddeer, novamente, Rockeddeer, sempre parece ter uma desculpa para juntar os nomes deles desse jeito, se encarava enquanto sacolejava um em cada ombro da captora. Era uma posição um tanto indigna para um arqueiro e para o mestre Gatuno de Armadura Nightingale, o que piorava pelo fato de os ombros da armadura terem enormes espinhos. Mas eram apenas enfeite do jogo, então não era problema para eles.
Não, o problema definitivamente não residia no desconforto de estar sendo carregado nos ombros de alguém.
–Você continua fofa mesmo assim — Rockfield disse casualmente. A garota não respondeu.
–Você não parece tão ameaçador assim, Rock — Sheddeer disse a ele. O rapaz hesitou um momento, ponderando a frase.
–Isso significa que... Geralmente eu sou ameaçador? Rá! Aposto que você tem medo de mim!
–Tenho mais medo da garota do que de você — o arqueiro respondeu.
–Silêncio.
–Hm, você pedindo silêncio? Não tenho muita coisa pra fazer aqui atrás, então...
Anna levantou o ombro esquerdo rapidamente duas vezes: na primeira, Rockfield foi jogado para cima e, na segunda, seu rosto bateu com força nas costas da armadura negra cravejada de espinhos. A carga naquele ombro tinha ficado mas pesada e relaxada desde então.
–Podemos ao menos saber onde estamos indo? — Sheddeer perguntou. A garota respondeu sem olhar para ele.
–Claro que sim. Quando chegarmos.
Sheddeer assentiu, embora soubesse que ela não poderia vê-lo.
–Então você está fazendo aquilo de novo. Pessoalmente, espero que você não me mate agora. Queria muito ver como você vai explicar isso ao Donnie, mais tarde. Não acho que vá ser tão fácil assim como quando você fugiu pra Perion.
–Eu nunca estive em Perion — disse a garota, com total indiferença — Quanto a matar você, isso não cabe a mim decidir.
–Pra onde estamos indo? — ele perguntou. Não recebeu resposta.
Anna caminhava decidida, os passos duros marcando o chão de Edelstein. Ainda faltava um bom pedaço até a cabana da Team Italo. Mas então...
–Anna? Caramba... Você tá bem! O que aconteceu, aonde você tava?
Sheddeer e Rockfield se entreolharam ao reconhecer a voz.
–Isso não é bom...
–Bom, você parece ter trabalhado enquanto estava fora — disse Dark Corpse, aproximando-se deles. O que os dois prisioneiros ouviam, porém, não eram passos, mas sim um som mais forte, como cascos de cavalo.
Eles o viram quando Anna os jogou no chão sem muita delicadeza, os pés de ambos amarrados para que não fugissem.
–Professor Lord — disse o pistoleiro com um quê de dúvida na voz, montado em seu cavalo negro de rosto branco.
–Dark Corpse. Quando ouvi o barulho dos cascos, pensei que você estivesse montado no Slayer.
O rapaz mais alto desceu do cavalo e encarou os dois presos. Ele reconheceu um deles como um dos membros do grupo de Donnie, mas o outro...
–Por que pegou eles? — ele perguntou para Anna.
–Fui fazer o trabalho que vocês não conseguiram cumprir — ela retrucou com desdém — Percebi que teria que resolver sozinha. Só tinham eles três e o Donnie fugiu. Não sei onde está o Aphanyus. Talvez agora vocês consigam fazer melhor.
O rosto de Dark Corpse se torceu numa expressão zangada, visivelmente ofendido.
–Se você tivesse ido com a gente, teria ajudado. Aonde você estava?
Anna estreitou os olhos.
–Isso não é da sua conta.
Na verdade... Nem ela se lembrava. Estava planejando o ataque junto com Dark Corpse e Vile Slayer, distribuindo ordens e organizando os grupos de ataque. Depois, repentinamente, ela estava num acampamento com Donnie, Sheddeer e um outro que ela não conhecia.
Então ela os atacou e venceu os dois rapidamente, enquanto uma de suas conjurações perseguia Donnie. O maldito, no entanto, tinha conseguido escapar. Pelo menos a garota havia pego os dois...
Ela poderia tê-los matado ali mesmo. Mas sabia que aquele grupo, a Team Italo, os queria. E ela precisava deles...
–Então, Lord... — Dark Corpse olhou para o colega deitado, mostrando os dentes sem humor — A Anna pegou você com nossos inimigos. Não é uma das melhores situações, se me permite dizer.
–Olha só quem fala — riu o rapaz — Então, Dark Corpse, é assim que vocês fazem? "Queimam o arquivo" depois que a pessoa não tem mais utilidade? Eu só não sei... Como você descobriu?
–Do que você está falando? — o outro retrucou, confuso e desconfiado.
–Não se faça de burro mais do que você já é. Quem descobriu que eu matei aquele gatuno? O Tarantula, suponho. Espera, ah não, a Mad Shadow voltou, não é? Na certa que foi ela. Você...
–Que gatuno? Calma... O Viadão? — Dark Corpse arregalou os olhos, surpreso.
"Viadão" era como a Team Italo se referia a um habilidoso gatuno — que ninguém sabia quem era — que vivia atrapalhando os planos do clã. A principal função de Rockfield como Professor Lord era mantê-lo à distância. O que eles não sabiam era que esse gatuno era o próprio Rockfield — na verdade, a sombra do rapaz, uma habilidade de terceiro avanço. Era isso, além de outras coisas, que mantinha seu disfarce de espião.
–Acabei com ele em El Nath faz dois dias — ele disse — E dei sorte de ter encontrado o Donnie e o pessoal. Como eles não me conhecem, eu fingi ser apenas um jogador procurando ajuda. Estava prestes a contar a eles sobre uma Quest em Edelstein... Que na verdade era uma armadilha para pegarem eles.
–O Italo disse pra pararmos de caçá-los — o pistoleiro lembrou, apesar de que seu tom de voz deixava claro que ele não concordava com a decisão. Donnie e os outros haviam ferido o orgulho de muitos de seus colegas — para alguns membros, bem mais do que isso.
Rockfield apenas acenou com a cabeça, fazendo um gesto vago com as mãos amarradas por algum tipo de magia negra da menina.
Ele sabia que se encontrava em uma situação delicada. Anna não demostrava expressão, mas Dark Corpse parecia mais e mais desconfiado. Rockfield sabia que o homem não o via como camarada, mas nunca pensou que ele suspeitasse. Era uma rixa entre dois bandidos, mais nada além disso — Rockfield cumpria bem seu trabalho. No entanto, ali estava ele, capturado por uma colega na qual Corpse se sentia... Inclinado a acreditar. Mas também, Anna havia sumido, e não parecia querer discutir o assunto. Por outro lado, ela tinha capturado aqueles dois.
O fato de que sua vida estava nas mãos daquele rapaz deixava Rockfield inseguro. Notando o impasse que se seguia, Sheddeer resolveu que era hora de participar.
–O que ele está dizendo, Rock? — o arqueiro indagou como se não entendesse — Que gatuno é esse? E que história é essa de Professor Lord? Você não contou isso quando pediu ajuda com aquele veneno.
O gatuno não entendeu de imediato.
–Veneno... Ah... AH! Você acreditou? — Rockfield riu, claramente pensando rápido — Sim, eu tinha sido envenenado. Mas foi na luta contra o gatuno que agia contra a Sunrise...
–Sunrise? Sunrise of Astoria? — Sheddeer repetiu sem acreditar no que ouvia — Mas esse é o clã que quase nos matou!
–Não — Rockfield respondeu num sorriso cruel — É o meu clã.
Sheddeer baixou a cabeça por um instante, como se refletisse. Então virou a cabeça para encarar o farsante.
–Aquele homem de máscara, que jogou a shuriken no Aphanyus — o arqueiro rosnou — Era você, não era? Aquela shuriken, o jeito de atirar...
–Pro estrategista do grupo, você até que é bem burrinho — Rockfield tornou em tom de deboche.
Contudo, ele mirou Dark Corpse discretamente com o canto do olho e segurou um suspiro de alívio quando viu a desconfiança começando a desaparecer dos olhos negros e sarcásticos. Ele tinha atirado a shuriken em Aphanyus para que o amigo não atacasse Italo quando a luta acabara — se o tivesse feito, o lanceiro o teria destruído. Agora parecia que o ato tinha salvado a vida de ambos, já que Dark Corpse parecia ter engolido a trama.
Não sem, é claro, deixar de caçoar do colega.
–Você perdeu tempo com esse aí — ele disse para Anna, apontando Rockfield com o polegar — Quanto ao outro... Não vejo por que se incomodar com ele. Ele pode morrer agora mesmo, por mim.
–Ah, nada disso — disse o gatuno, levantando-se quando Anna, com um gesto de displicência, o libertou — Agora que ele está aqui, pode servir como isca.
–O Italo não quer que a gente cace eles, além disso, também tô cansado de ir atrás desse pessoal — Dark Corpse retrucou.
–É, mas o Donnie tem... Um item novo — ele hesitou, tentando inventar alguma coisa — Uma arma nova. Ele encontrou um cajado muito poderoso que acho que seria útil pra nós.
–E como você pretende pegar? — a garota perguntou. Rockfield deu de ombros.
–É como eu disse. Nós prendemos o Sheddeer e o usamos pra atraí-los. Na verdade, podemos fazer bem simples: "entreguem o cajado ou seu amigo morre".
Dark Corpse pôs a mão no queixo, pensativo. Rockfield o encarou. Donnie não tinha ganho nenhum cajado além daquele lvl 20 simples que sempre usou, mas o gatuno esperava que o amigo pudesse fosse pensar em algo, quando ele os atraísse para lá.
–Eu tenho uma idéia melhor — Anna disse por fim. Eles olharam para ela — Sobre o Sheddeer, nós podemos...
Antes que alguém pudesse sequer piscar, ela sacou a imensa lâmina negra cheia de espinhos e a desceu sobre o arqueiro. A força do golpe os fez pular um pouco para trás, resmungando assustados.
Foi um único golpe, certeito e arrasador, que esvaziou a vida de Sheddeer em menos de um segundo. Anna recuou a espada e a guardou casualmente atrás do corpo.
–Agora nós voltamos pra base — Anna explicou com naturalidade — E esperamos pra ver o que o Italo tem a dizer.
Dark Corpse sorriu.
–Boa solução. Eu gostei. Rápida, fácil e menos um dos idiotas pra gente lidar. Você não faria melhor, hein? — ele deu um tapa no ombro de Rockfield, aparentemente bem-humorado.
O rapaz ainda encarava a chuva brilhante.
–Só... Nada mais de cajados poderosos — ele disse baixinho, os olhos fixos nas fagulhas que já desapareciam — E nada mais de arcos.
E nem de Rockeddeer.
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