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25 O Demônio da Alvorada


-Mandou me chamar, senhor?


O chefe se virou em sua cadeira, apoiando o queixo numa mão aborrecido.


-25, um dos meus assistentes parou de trabalhar pra ir te chamar. Então, o que você acha?


-Eu... Desculpe, senhor — ele respondeu sem saber bem o que dizer. O chefe o ignorou e tornou a virar a cadeira.


-Dê uma olhada nisso — ele disse sério, e 32 se aproximou para olhar a tela. Exibia um editor branco coberto de instruções, dados e comandos. Seja lá o que fosse, o homem pareceu compreender, por assentiu sem saber bem o que o chefe queria.


-É aquele sexto com nível mais alto — deduziu. O homem sentado sacudiu a cabeça.


-Quinto — corrigiu — Mais de cinco níveis desde aquele dia. E em monstros muito mais fortes do que ele. Se ele continuar assim...


-Vai superar o jogo — o homem que se "chamava" 25 completou. O chefe assentiu.


-Exatamente. Não tenho como saber quem é o nível mais alto, aquela maldita política de privacidade que protege o sigilo dos jogadores nos impede de ver quem são. Só sabemos quem ele é porque aceitou aparecer na lista dos níveis mais altos — acrescentou, e o assistente soltou um resmungo de compreensão.


-Não sei se podemos fazer muita coisa quanto a isso — o assistente começou — Quer dizer, podemos nerfar as habilidades, como fizemos com o Sangue Draconiano.


"Nerfar" era o termo usado para reduzir o poder de determinada habilidade. Sangue Draconiano era uma habilidade do terceiro avanço como Lanceiro, e um de seus efeitos era tornar a pessoa imune a magias de bruxos mais de trinta níveis abaixo dela. Após algumas discussões, eles resolveram que o efeito era poderoso demais. Agora, ela reduzia dano de magias em 30% para pessoas trinta níveis abaixo.


O chefe, contudo, balançou a cabeça novamente.


-Isso afetaria todos os outros Templários do jogo — ele disse com veemência.


25 moveu as mãos desconfortável.


-Sim, então não vejo o que o senhor quer com...


-A Berserk já está pronta? — o chefe o interrompeu, olhando diretamente para o assistente. Ele ficou um pouco surpreso com a pergunta, mas seus olhos se animaram.


-Ah, sim, tá quase. Fizemos testes com o pulso de ondas de consciência cerebral, conseguimos fazer o 32 ficar desacordado por duas horas. Não pareceu ter nenhum efeito colateral e já foi completamente implantado na Berserk, vamos fazer mais alguns testes hoje e...


-Implante ela na armadura agora — o chefe mandou calmamente. 24 ergueu as sobrancelhas.


-Agora, senhor? Ela ainda não apresentou nenhum erro, mas acho mais seguro nós...


-Seguro não vai ser se ele continuar forte desse jeito! — explodiu o chefe — Desse jeito ele vai acabar matando Zakum sozinho daqui a menos de três semanas! E você me ouviu — acrescentou com uma careta — Coloque a Berserk agora!


-Posso fazer isso, posso fazer isso! — ele ergueu os braços desesperado — Mas não entendo como isso... Ah...


Então ele se deu conta do que era. Deu mais uma olhada na tela e localizou os códigos da armadura presentes entre os itens do guerreiro. O chefe sorriu.


-Entendeu agora, não é?


-Sim — o assistente assentiu mostrando que compreendia — Mas a Berserk o deixaria mais forte... Se bem que, se acontecer como planejado, ele vai morrer com ela. Ou vai se dar conta do que acontece e vai se controlar.


-É exatamente essa a intenção — o chefe disse com impaciência.


-Mas senhor... — o assistente tentou uma última objeção — Não seria mais fácil a gente só alterar a armadura dele, ou removê-la?


Ele recuou alguns passos quando os olhos do chefe foram tomados pela ira. Um sibilar estranho se fez soar entre seus dentes, mas ele se conteve.


-Estamos proibidos de alterar os códigos dos jogadores — contou, amargurado — Essa é uma das coisas que aquele desgraçado ainda tem controle. Poderíamos mudar, com muito esforço, mas ele saberia. E se fizermos isso, ele poderia nos mandar algum vírus e invadir nossos sistemas. Não vou arriscar.


O assistente fez que sim com a cabeça. Ele sabia que o chefe se referia a Mateus, o criador do jogo. A situação era delicada entre ele, os hackers e os administradores do jogo. Se os hackers tentassem alterar os códigos de algum jogador, um alerta seria emitido e Mateus talvez conseguisse entrar no sistema. Por outro lado, a memória dos códigos havia sido criada como "apenas leitura", justamente para impedir que acontecesse algo com algum dos jogadores em caso de erro. Era possível alterá-la, mas era difícil e demorado, e isso criaria brechas na segurança que poderia causar problemas sérios ao jogo.


-Vou introduzir a Berserk, senhor — o assistente falou. O chefe olhou para ele surpreso, quase como se ivesse esquecido que ele estava ali.


-Sim, faça isso. Rápido — ele disse distraído.


Enquanto encarava a tela, ele teve uma idéia. Já estava cansado de não poder monitorar tudo o que acontecia no jogo. Tinha alguns membros da equipe lá dentro, mas estavam lá para reparos e outras coisas rotineiras. Ele precisava de alguém experiente, que compreendesse o jogo mais do que a maioria.


Então ele se lembrou — havia um homem, um que vivia pedindo uma chance de entrar no jogo. Dando de ombros, o chefe pensou que seria uma boa idéia satisfazer esse pedido. Dadas as condições, eram poucos os que queriam se aventurar no jogo, ainda que fizessem parte do grupo que o hackeava. Seria muito melhor se o escolhido fosse um voluntário, afinal.


-25! — ele chamou, e o assistente se virou a meio caminho da porta, encarando o chefe — Mande chamar o Altair.


O homem assentiu e abriu a porta, agradecido. O chefe voltou seu olhar para a tela. Ao fazer isso, viu novamente a parte que continha as informações sobre aquele guerreiro, que poderia representar um problema se upasse tão rápido. Não era o "top 1", mas agora que tinha conseguido a armadura do Berserk por completo, era esperado que passasse a upar mais rapidamente.


E ao pensar nisso, o chefe sorriu, desejando que pudesse ver quem quer que fosse aquele jogador, quando a Berserk fosse ativada.


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-Esperem aqui — Guilber disse de repente, fazendo um gesto para que parassem. Tanto o guerreiro com a foice quanto o pirata fizeram caretas de desaprovação.


-O quê, acha que a gente não consegue dar conta de uns zumbizinhos? — zombou o primeiro, mas o mago com a venda não lhe deu atenção. Apenas repetiu a ordem e recomeçou a andar lentamente, as botas com grampos fazendo barulho ao espetar a neve a Floresta das Árvores Mortas.


Os quatro tinham chegado até ali usando Pergaminhos de Retorno para a Mina dos Mortos, já que seu alvo estava se dirigindo até elas. Para chegar à mina, era necessário subir o Desfiladeiro dos Lobos, então passar pela floresta. Como eles tinham os pergaminhos, chegaram lá antes deles e planejavam pegá-los de surpresa.


Os pergaminhos levaram o grupo para a entrada da Mina dos Mortos, de onde começaram a andar de volta para o Desfiladeiro. Naturalmente, chegaram aos zumbis. Davien e Bruken, até mesmo Helion, estavam com vontade atacar os zumbis: os dois primeiros porque adoravam uma boa briga, o último porque queria uma oportunidade para testar o dano extra que as habilidades sagradas inflingiam nos zumbis. O único que parecia relutar quanto a isso era Guilber.


-Dez níveis atrás eu arregacei esses babões — Bruken disse começando a apertar o passo, mas foi impedido pela mão de Davien.


-Não. Ele é seu superior, lembre-se disso.


O pirata fechou a cara, parecendo uma criança cujo professor tivesse acabado de confiscar seu brinquedo favorito. Mas ele não tinha como discutir. A Death Star era um clã formado por cinco membros, Davien como o líder e Guilber o segundo em comando. Bruken tinha sido o último a se juntar a eles, e na época, era vários níveis mais fraco do que o menor dos outros.


Eles o tinham encontrado por acado em Nautilus, quando homenzinho brigão e de pavio curto matava um grupo de Porcos de Laço Azul. Não era muito inteligente e nem de longe podia ser considerada uma pessoa controlada, mas era forte e sabia bem usar os punhos. O problema era que, impulsivo e batalhador como era, sua noção de upar consistia em matar o maior número de monstros fortes possível. Com a ajuda da Death Star, ele tinha progredido muito, apesar de que seu temperamento agressivo não tinha mudado nem um pouco — não que eles esperassem que acontecesse. Tinha sido justamente essa a razão pela qual eles o tinham recrutado: precisavam de alguém para lutas rápidas, alguém para ser os punhos do grupo. Além disso, aquele rapaz parecia nunca se cansar, tampouco reclamava de dores e machucados. Era ele quem incentivava o grupo a continuar quando todos estavam cansados, insultando e reclamando que pareciam mais crianças despreparadas. E isso incentivava o grupo, nem que fosse pela culpa de estarem sendo superados pelo novato do clã.


No entanto, um dos efeitos colaterais era que ele se mostrava pouco inclinado a obedecer ordens e a seguir a agenda do clã quando não lhe convinha. Eles até aceitavam, mas exigiam respeito por parte do pirata. E Bruken não era exatamente tolo. Não se esquecia de que tinha ganho tantos níveis e quipamentos melhores graças ao clã. Também sabia que, se não se controlasse, eles talvez não hesitariam em expulsá-lo.


Isso não o impedia de imaginar vários palavrões para o mago vendado, aparecendo como caretas desagradáveis.


Davien até concordava com Bruken, mas confiava mais ainda em Guilber. O instinto do homem nunca os tinha decepcionado, e ele há muito havia aprendido a deixar o mago tomar as decisões quando ele achasse necessário. Afinal, ele mesmo tinha perdido duas batalhas para o mago, e se isso não fosse suficiente, o fato de que Guilber tinha sido indicado para aparecer na terceira colocação dos maiores níveis do jogo certamente seria.


-Não acredito que ele vai usar aquele trequinho. Sabemos o nível deles! Mais ainda, sabemos que podemos matá-los!


Helion olhou para ele, as sombrancelhas levemente erguidas.


-São só alguns segundos, Bruken. Deixe de ser impaciente.


Como ele dissera, Guilber aproximara-se dos zumbis, a uma distância segura para que eles não o vissem. Tirou do inventário um dispositivo que parecia um celular vermelho com clamshell(sabe, celular de abrir). Só que naquele, a tela ficava na parte de baixo e ele não tinha teclado. Uma esfera verde ficava onde seria a câmera, e ele a apontou para um dos monstros.


-Zumbi Operário — Guilber leu, alteando a voz — Rumores dizem que um vilarejo inteiro morreu sem razão aparente. Estas pessoas agorasão zumbis escravizados pelo espírito maligno de Zakum, que domina as cavernas abaixo da mina. As unhas apodrecidas e cheias de bactérias podem ser extremamente danosas ao ser humano. Fraco contra: Holy. Resistência a magia negra, imune a envenenamentos. Habilidades: Envenenamento. Nível — ele fez uma pausa — 132.


-O quê? — Davien explodiu, chegando mais perto para olhar a tela do dispositivo — Isso é impossível! Eles eram 70, ou 74 se não me engano...


-Ouvi dizer que o nível deles foi aumentado — tornou Guilber com delicadeza — Se quiserem enfrentá-los, são todos seus.


Eles hesitaram. De repente, ninguém parecia mais atraído àquela luta. Guilber era o nível mais alto, mas os monstros resistiam ao gelo, sua principal habilidade. E nenhum deles queria se arriscar a ser envenenado por um monstro daquele nível. Por fim, Helion tomou a decisão.


-Acho melhor guardarmos nossas forças para o Gatts — ele disse, e os dois companheiros ao seu lado assentiram em concordância.


Minutos depois, eles ouviram o grito.


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A neve cobria o chão em seu tapete gelado permanente, na larga estrada delimitada por milhares de árvores secas e mortas. Gatts olhou para trás. O topo do Desfiladeiro dos Lobos ainda era visível, e abaixo dele, toda a imensa extensão das geleiras de El Nath.


À frente, só o que se via era a neve e as árvores. Grandes e grossas, milhares delas, criando as bordas da estrada que tinha espaço para que várias carroças passassem lado a lado por ela sem problema. Obviamente estavam ali para delimitar o mapa — e também para impedir que a pessoa caísse desfiladeiro abaixo.


-Isso deve ter sido uma linda floresta — Kiara comentou, mirando as árvores com tristeza.


-Eu tenho uma idéia de quem acabou com ela — o companheiro respondeu.


Nisso ele caiu, apoiado num joelho, os dentes à mostra numa careta de dor. Kiara se agachou ao lado dele, pondo as mãos nos ombros largos e cobrindo-o com a Cura. A magia pareceu ajudar o guerreiro a recuperar as forças, por ele se ergueu levemente quando a magia o atingiu. Mas ele não demorou a se apoiar no chão outra vez.


-Pelos deuses, o que é isso? — ele perguntou, a boca aberta e os olhos fechados enquanto tentava conter a dor.


-Acho melhor descansarmos — Kiara sugeriu. Gatts sacudiu a cabeça, tentou se levantar e caiu novamente — Deixa de ser idiota, se você morrer de dor misteriosa eu vou ter que lutar sozinha com os zumbis!


Agora ela estava levemente zangada. Quando isso acontecia, Gatts sentia uma estranha e repentina vontade de concordar com ela.


A garota o ajudou a se sentar na pedra azul, afastando a capa e apoiando o enorme guerreiro. Fazia alguns dias que alguma coisa errada estava acontecendo com ele. Gatts parecia bem, firme e determinado como sempre. De repente, caía sem avisar, reclamando de dores de cabeça e pontadas pelo corpo. Esses momentos, que inicialmente não duravam mais que alguns segundos, aconteciam com frequência cada vez maior.


O que o ajudava era a Cura de Kiara. Sentar na grande pedra azul também o acalmava.


-Kiara, essa pedra é realmente uma bênção — ele suspirou aliviado — Será que a fada Mar me consegue uma dessas?


A menina riu.


-A Quest é bem difícil. Além disso, você precisa completar a do animal de estimação primeiro. Se você cuidar muito bem dele, ela te dá outra Quest pra você ganhar a pedra. Ela é realmente incrível, não é? — seu tom se animou — Por isso que eu vivo usando ela. Recarrega MP e esfria a cabeça.


Gatts apenas assentiu, os olhos fechados e a boca torcida num suspiro de prazer. Realmente, aquela pedra era uma maravilha, principalmente depois que ele tinha um daqueles acessos de dor.


-Entregue-me a capa. Agora.


Gatts já se levantava, Kiara guardava a pedra e recuava alguns passos, pronta para deixar o amigo lutar enquanto providenciava suporte. Ela chegou mesmo a erguer o braço esquerdo e murmurar uma bênção, fazendo um par de fadas derramar ponche divinoso na armadura do rapaz.


Era óbvio que aquela mulher era uma inimiga. Mesmo se não tivesse dito aquelas palavras no tom frio, sua armadura teria falado por si própria. Um vestido negro curvado, botas duras da mesma cor coberta de espinhos, ombreiras grossas e a espada, uma lâmina cinzenta de dois gumes com placas pontudas em um deles, o mesmo que tinha um chifre curvo projetando-se da ponta. Era uma visão ameaçadora, que combinava com a expressão fria e perigosa da menina, apesar de ser tão jovem, pequena e...


-Anna? — Gatts arregalou os olhos sem acreditar no que via. Atrás dele Kiara congelou quando também reconheceu a figura dura vestida de preto.


(em caso de dúvida pesquise -erza purgatory armor- e compreenda)


-A capa — ela repetiu quase sem mover os lábios — Agora. É sua última chance.


Gatts apertou mais o punho da espada.


-Não, sinto muito. Você vai ter que lutar comigo se a quiser.


Ao ouvir isso, Kiara abandonou qualquer expressão séria prestes a batalhar.


-Gatts, o que você está dizendo? Você não pode querer lutar com...


-CUIDADO!


Ela caiu para trás empurrada pela pesada armadura que bateu contra ela como um aríete. Mas foi melhor do que o que teria acontecido se ele não o tivesse feito. Num piscar de olhos, Anna saltara e atacara.


A espada de Gatts subiu para bloquear o ataque, a capa esvoaçando atrás dele. Anna girou a arma e tentou um ataque pela lateral, mas a pesada lâmina de Gatts, maior e mais pesada, a desviou com facilidade. Vendo que não conseguiria romper aquela defesa, Anna recuou.


Ela fez um círculo no ar com a espada, depois o preencheu com uma série de símbolos complicados. Uma luz brilhou pálida, e do círculo surgiu um portal de onde saíram duas criaturas aladas, pequenos dragões do tamanho de uma pessoa, negros e vermelho-escuro, asas de morcego e cabeças pequenas e compridas. Eles voaram e abriram as bocas, cuspindo jatos de energia maligna contra Gatts.


Assim que foi atingido pelos raios, ele caiu, sentindo aquela dor estranha novamente. Ele arregalou os olhos de pavor. Não podia ser... Nao pode se!(lê-se "não pode sê"). Estava acontecendo de novo, duas vezes mais forte, e justo naquele momento! Ele precisava se levantar... Precisava encontrar forças, ou sua amiga morreria...


Mas Kiara não era uma garotinha indefesa. Abateu o primeiro dragão com duas Flechas Divinas, inflingindo dano sagrado nas criaturas demoníacas. O segundo tentou se aproximar, mas a Cura que ela usou em Gatts atingiu o monstro, que gritou — um segundo antes de ser destroçado pela espada do guerreiro.


A menina rosnou ao ver seus monstros sendo destruídos com tanta facilidade. Mas não importava. Como acontecera com a Sunrise of Astoria, ela teria que acabar com aquilo por si própria. Não podia confiar em idiotas.


Ela atacou, uma sucessão de golpes rápidos e pesados que Gatts bloqueava, mas ainda assim estranhava como ela poderia ter tanta força. E ainda tinha o fato de que ele não queria matá-la. Não queria revidar. Apenas bloqueava os golpes movendo a espada de um lado para outro, impedindo que ela se aproximasse.


-Anna! — ele gritava, embora soubesse que seria inútil — O que está fazendo? Cadê os outros?


Então ele teve uma idéia assustadora. Desejou ver o diamante de Anna e ele apareceu, um losango flutuante laranja-claro.


Ele não tinha como saber que ela tinha matado apenas Sheddeer, por isso supôs o que tinha acontecido da maneira errada. Achando que ela tinha matado todos os companheiros, ele rugiu e, quando o próximo golpe veio,ele o rebateu com tanta força que a espada espinhosa foi jogada para trás.


Gatts girou arrastando os pés, acertando a espada com força na lateral da menina. O golpe não a atravessou como normalmente aconteceria, mas causou bastante dor e dano ao HP.


Ela tentou bloquear o golpe seguinte, porém a espada de Gatts era superior. A força física do guerreiro, também. Atingida, ela pulou para ficar longe dele. O guerreiro seguiu com o ataque — e Anna pôs a mão no peito dele.


Se fosse um guerreiro normal, teria apenas sentido o empurrão que era o objetivo da habilidade. Na condição que estava, sofrendo aquelas dores estranhas, o que aconteceu foi que ele caiu de joelhos, largando a espada e colocando as mão na cabeça. Sem saber o motivo, mas chegando à conclusão de que magia negra tinha grande efeito em Gatts, Anna continuou com a mão na armadura, a outra preparada para cravar a espada na cabeça dele.


A mão da menina ardeu como se a armadura tivesse repentinamente esquentado como uma frigideira no fogo. Ela retirou a mão, sacudindo-a surpresa. Então viu o que era — Kiara estava curando Gatts, e a magia sagrada a queimava como chamas ardentes.


Anna se preparou para atacar, mas recuou ao sentir a Flecha Divina em seu ombro. A habilidade podia ser apenas nível 1, mas o dano era sagrado e muitíssimo eficaz contra demônios e seres malignos. Kiara se viu desejando que não tivesse focado nas habilidades de suporte — deveria ter colocado um ponto em Anjo Brilhante, que seria muito mais forte do que aquela flecha.


Gatts já se levantava, Anna o atacou e ele caiu ao chão novamente. E agora o corpo dela inteiro doeu quando Kiara usou a Cura não no amigo, mas na própria Anna. E Cura era uma habilidade que ela tinha no nível máximo. Anna chegou a respirar fundo quando foi envolvida pela aura verde.


Ela viu Kiara erguer a mão para usar a habilidade novamente e se esquivou para o lado, evitando que a aura a atingisse. Gatts esforçava-se para se levantar, aparentemente melhorando da dor de cabeça, e ao ver isso Kiara usou a habilidade nele. Anna deu dois passos para impedir o guerreiro de se erguer quando sentiu outra flecha, desta vez no peito, queimando e ardendo.


Anna olhou para Kiara, furiosa. Decidiu que, se quisesse matar aquele guerreiro e pegar a capa, teria primeiro que se livrar daquele inseto inoportuno. O rosto corado de raiva, ela guardou a espada e levantou Gatts pelos ombros, olhando-o bem nos olhos.


Ambos os pares de olhos brilharam com uma luz negra, numa habilidade que funcionava apenas em inimigos cansados ou incapacitados. Gatts não tinha sofrido mais do que dois golpes em toda a luta, mas a misteriosa dor cuidava disso. Ele sentiu o corpo arder e enfraquecer até que Anna teve que soltá-lo, sem suportar mais as ondas desesperadas de Cura que Kiara jogava nela e no guerreiro.


Gatts caiu ao chão, não desacordado, mas fraco demais para continuar a lutar. Anna encarou a garota, os olhos frios e a boca fechada numa linha dura e determinada. Fez movimentos com a espada e conjurou dois portais, liberando cinco demônios alados para atacarem Gatts. Se Kiara quisesse intervir, teria que ter MP para disparar flechas e para curar a si mesma e a Gatts.


O que, realmente, ela não tinha. O MP dela estava pela metade e não haveria como usar poções. Dois dragões a atacaram, e ela só pode se curar para evitar morrer pelos inimigos. Depois os outros três monstros também foram para cima dela. Então a própria Anna começou a andar lentamente para atacá-la, parando apenas ao sentir uma mão fraca, porém pesada, segurando seu pé.


Ela se livrou de Gatts com um chute sem olhar para ele. Agora o guerreiro observava a amiga, mal tendo forças para se curar e manter os inimigos afastados. Um dos dragões caiu, mas ainda haviam quatro. E agora Anna estava se aproximando.


Ou o MP de Kiara finalmente acabou ou ela resolveu parar de usá-lo, para que ainda pudesse contar com a Proteção Arcana. Os dragões continuaram a atacá-la sem piedade. Anna chegou a menos de dois passos dela, a espada preparada...


-NÃO!


Gatts ficou de joelhos, tirando forças sabe-se lá de onde, mas não conseguiu mais do que isso. A pesada lâmina com espinhos atingiu a amiga em cheio e a jogou na neve, onde ele viu o HP descer quase até a metade. O guerreiro puxou a espada, sem forças para se levantar. O que estaria acontecendo com ele? Sentia muita dor, seu corpo inteiro gritava em protesto, ele queria descansar, mas se fizesse isso, descansaria para sempre...


Ele urrou quando Anna deu um pulo e atingiu Kiara com a espada durante a queda, fazendo o chão tremer. A magia emitiu um grito fraco, mas estava viva. Mas por um fio.


Sem piedade, Anna levantou a espada mais uma vez. Gatts assistia a tudo em câmera lenta, como se estar perto da morte o fizesse pensar numa velocidade maior. Ele estava planejando, buscando uma saída, pensou até em jogar uma poção de HP para a amiga, mas aquilo não era possível.


Alguns dos dragões atacavam Kiara, outros cuspiam energia negra em Gatts. A cada ataque, ele sentia sua força decrescendo cada vez mais, sua energia se esvaindo à medida que o HP descia lentamente. Tinha mais de 80% da barra vermelha, mas se sentia como se estivesse com a mesma quantidade da amiga. Ele tentava a todo custo levantar a espada, mas sabia que não conseguiria. Não tinha jeito. Veria a amiga morrer, então seria o próximo.


Ao pensar nisso, ele sentiu não tristeza, mas raiva. Uma raiva cega que não lhe dava forças para se levantar, mas que o fazia refletir como era frustrante estar ali parado, sofrendo com uma dor que não fazia idéia do que era, enquanto sua amiga, que passara os últimos minutos lutando para protegê-lo, estava prestes a morrer. E ele não poderia fazer nada. Perderia não para Anna, mas para si próprio. Seria aquela dor o resultado de algum bug do jogo? Talvez ele jamais soubesse. Ele viu Anna terminar de levantar a espada e sua raiva foi crescendo, a dor aumentando em seus ossos, até ele sentir uma fúria extrema que parecia mastigar seu cérebro...


Então, subitamente, ele não sentiu mais nada.


-Anna... — Kiara conseguiu dizer. Por um momento, as duas garotas se encararam, os olhos verdes encontrando os castanhos. Era incrível como os da menina de negro estavam desprovidos de qualquer expressão além de uma frieza aborrecida, como se estivesse prestes a se livrar de um incômodo, nada mais do que isso.


-WOAHOAHAHAHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHAAHAHAAAA!


O berro se fez ouvir por toda a floresta, chegou ao desfiladeiro como um rugido e foi como um sussurro alto para os que estavam na entrada junto de Jeff e Gibber, o vendedor de poções da entrada do Desfiladeiro. O som era tão alto que os dragões se desintegraram e Anna foi jogada para o lado, deixando uma Kiara atônita encarando a cena que se desenrolava perto dela.


Gatts estava de pé, os braços e as pernas abertas e a cabeça jogada para trás, a capa ondulando como que viva atrás dele. Seu corpo emitia uma aura estranha, e enquanto olhavam, o dia pareceu se transformar em noite à medida que a escuridão espulsava a luz como que uma energia viva, mais do que ausência da luz, era a própria escuridão, uma eneriga viva, poderosa e material que parecia sair do próprio guerreiro.


Seus olhos estavam muito abertos, as veias parecendo prestes a estourar nas órbitas. A armadura queimava, mas logo ele pararia de sentir. Ele ainda gritava naquele rugido alto que parecia não terminar nunca, a armadura parecia estar apertando, o capacete se fechou e escondeu o rosto sofrido e torturado...


Tão rapidamente quanto se apagou, a luz voltou e elas puderam ver o guerreiro com clareza agora. O que estava ali, entretanto, não parecia ser Gatts.


A armadura ainda tinha o formato de antes, mas agora ela era preta, completamente negra. O capacete tinha se fechado, deixando entrever um "V" aberto brilhante, onde seriam os olhos. O "rosto" tinha um formato como o de um animal selvagem, talvez algo que lembrasse vagamente uma raposa.


A visão durou apenas alguns segundos, pois Gatts correu menos de cinco passos e Anna recebeu um golpe tão poderoso que a arremessou como uma bola de futebol. Ela caiu rolando na neve, e antes que pudesse se levantar, o sol foi coberto pelo pulo da figura escura e sua espada erguida.


Gatts desceu a espada na inimiga e Anna gritou. Ele já girava a lâmina para um próximo golpe e a arremessou novamente. A menina conseguiu se pôr de pé e tentou atacar, mas o golpe foi completamente ignorado. A própria espada negra pareceu rugir ao atingir a menina, fazendo-a cair no chão novamente.


Ao ver o guerreiro se aproximar mais uma vez, Anna se deu conta de que não conseguiria vencer aquele monstro. Agora era ela quem estava caída olhando uma espada negra prestes a matá-la, exatamente como Kiara tinha sentido poucos segundos atrás.


Repentinamente, Gatts parou, sentindo dor. Virou-se para ver quem o atacava e viu Kiara, a mão erguida prestes a usar outra Cura. Então ela recuou, assustada. Aparentemente, a magia sagrada só tinha machucado o amigo, ao invés de curá-lo.


E Gatts, em meio à sua fúria, pareceu não reconhecer a amiga. Ignorando completamente a menina derrotada atrás dele, ele foi até a amiga, a espada erguida à frente para causar o máximo de dano possível.


Kiara se teleportou, Gatts acompanhou o movimento e virou-se para ela. No entanto, sua espada atingiu um corpo antes do previsto. O gelo cobriu a armadura, mas quem estava dentro dela não sentiu frio.


A menina gritou para as costas do homem que a tinha salvado, jogando-se na frente dela no último instante. A boca de Guilber estava reta e suas sobrancelhas estreitas, os braços abertos, o HP quase zerado. Tinha sido salvo pela Proteção Arcana e pelo pilar de gelo, que além de atacar aumentava-lhe um pouco a defesa.


Gatts sentiu uma Flecha Divina e imediatamente dirigiu uma estocada ao infeliz que a tinha usado. Helion soltou um suspiro profundo antes de se desintegrar.


Kiara curou o mago, este jogou uma Lança de Raio em Gatts, que se virou imediatamente para encará-lo. Rápido, Guilber usou o dispositivo vermelho e fez uma careta estranha ao observar a tela. O guerreiro já estava em cima dele, e o bruxo teleportou.


Era mais experiente que a menina, e sabia como usar o Teleporte para se esquivar. Ele era capaz de usá-lo de tal forma que desaparecia quando a espada de Gatts estivesse a centímetros de seu corpo, aparecendo então atrás dele.


-Imune a magias, HP cortado pela metade e ataque e defesa quadruplicados! — ele berrou para os companheiros enquanto escapava dos ataques traiçoeiros de Gatts. Havia mais efeitos extras, mas ele não tinha tempo para listar todos.


-Precisamos sair daqui — Davien disse, mas Kiara agarru-lhe o braço.


-Não! Ele é meu amigo! Vocês não podem matá-lo assim! Ele só estava me...


Então ela olhou ao redor e não viu Anna em lugar nenhum. Aparentemente, a menina tinha aproveitado a confusão para fugir. Bruken moveu as mãos, nervoso.


-Você tá com medo de nós matarmos ele? Ele é um monstro! Precisamos...


-Cala a boca! Ele é meu amigo! Vocês não podem fazer isso com ele!


-Ele matou nosso amigo! — Davien gritou para ela — Ah, seu desgraçado, eu vou te pegar!


Ignorando os gritos de Kiara, ele correu e enterrou a lâmina da foice nas costas do guerreiro.


Mais tarde, eles descobririam que pouquíssimas lâminas conseguiam atravessar aquela armadura. Só que Myth, a foice de Davien, podia orgulhar-se de pertencer a esta rara classe de armas. Ela entrou até o cabo nas costas do guerreiro, a ponta saindo pelo outro lado do corpo.


Gatts gritou novamente. Guilber tentava atacá-lo, mas com havia dito, magias não o afetavam — exceto a Cura de Kiara, pelo que ela tinha visto. Bruken avançou e deu três socos na armadura negra. Foi como bater numa parede de aço. Em resposta, recebeu um corte lateral tão forte que o arremessou longe.


Davien parecia ser o único que tinha algum poder para enfrentá-lo. Sua foice penetrava a armadura, e agora Gatts estava encarando o novo oponente. E ao fazer isso, Davien viu o capacete fechado, reconheceu o formato da armadura de placas de telhado e a espada negra. Seus olhos se arregalaram.


-Gatts? — ele perguntou, e o rapaz rugiu dirigindo a espada para ele.


Davien foi atingido no peito e recuou. E agora, a espada de Gatts havia mudado. Estava coberta de fogo — um fogo azul, ondulante, maligno, emitindo um calor tamanho que paralisava o oponente.


Davien nada pôde fazer para evitar ser atingido pela espada em chamas. Só não morreu porque a mente rápida de Kiara resolveu curá-lo naquele instante, mas ainda assim o HP caiu para menos da metade. Guilber tentou distraí-lo, mas Gatts não estava interessado em lutar contra um inseto. Iria enfrentar o verdadeiro guerreiro, o que podia causar-lhe dor.


Kiara o curou, jogou uma flecha divina, mas nada parecia ser capaz de pará-lo — exceto, talvez, uma explosão.


Era magia, de fogo, sim. Mas como Anna havia dito dias atrás — e que você provavelmente não se lembra — era fogo sagrado, uma espécie de chama abençoada. A menina estava parada na frente do guerreiro, vestindo a armadura vermelha e laranja e com o cajado com ponta de pirâmide comprida invertida. Kiara franziu a testa surpresa ao vê-la de novo. Ela não parecia mais aquela Anna, mas não tinha sido só a armadura que mudara. Os olhos castanhos ainda estavam firmes, porém cheios de um calor vivo e... Humano.


Ela apontou o cajado novamente e dele saiu uma bola de fogo que explodiu em Gatts, espalhando fogo e um pó brilhante que devia ser o elemento sagrado. Ele recuou novamente.


-Use a Cura nele. É o único jeito de fazê-lo parar!


Kiara nem discutiu com a menina — descarregou todo o MP que tinha na magia curativa, até ele acabar e ela precisar usar uma poção. A Cura ficou mais forte quando Anna ergueu o cajado e Kiara foi coberta de um fogo que emitia calor, mas não machucava. E agora a Cura era uma magia verde e vermelha. Como se ela estivesse usando fogo sagrado.


Gatts tentava se levantar com um joelho apoiado no chão, caindo quando pingos de água atingiram-lhe as costas: Guilber lhe jogava Água Benta. Davien também ajudou, Bruken bebia uma poção de HP com sofreguidão. E finalmente, depois de vários minutos, a Água Benta e o fogo sagrado fizeram a luta de Gatts terminar.


O guerreiro estava caído de quatro no chão, a cabeça baixa e respirando com dificuldade. O capacete se abriu e ele olhou para cima e encarou Kiara, cujos olhos verdes estavam arregalados e tomados pelo susto. Isso fez Gatts se lembrar — ela estava assustada correndo perigo, ele precisava salvá-la...


Mas ela não parecia precisar ser salva. E mais, havia um grupo de pessoas que o encarava com as mesmas expressões estranhas e abobadas. Gatts olhou de um para o outro, a expressão confusa e desorientada. A cabeça doía, ele se lembrava de ter sido atacado por Anna, e depois...


Lá estava ela! Vestida numa armadura que parecia ter a ver com fogo, mas ainda assim, era ela! Não o encarava com a cara amarrada e indiferente, mas sim com a mesma careta surpresa dos outros.


-Você! — Gatts estreitou os olhos, levantando-se e erguendo a espada antes que ela pudesse se mexer.


Gatts arqueou a coluna e largou a arma ao sentir uma mão fria em seu pescoço. Guilber o encarava, as sobrancelhas franzidas entrando dentro da venda com a concentração. A boca murmurava uma série de palavras rápidas e desconhecidas para eles. A mão que segurava o guerreiro brilhou azul, o rapaz revirou os olhos e caiu sem sentidos no chão.


O mago se virou, de frente para um monte de rostos confusos e assustados. Ele olhou mais demoradamente para as duas meninas, e sua expressão não se suavizou.


-Acho que quero algumas explicações — ele disse, baixando o cajado com a cabeça de bode.