MapleStory Online
38 More Haunted House
Antes eles imaginavam que a Casa Assombrada seria... assombrada — pensaram em fantasmas, abóboras brilhantes, ghouls assassinos, gritos assustados e um monstro inteiramente feito de escuridão com olhos vermelhos e penetrantes. Mas nada disso se comparava a um bom corredor de pedra dentro de uma lareira.
South se levantou de imediato e se deu conta de que estava preso. Estava numa esquina, com um caminho à frente e um à esquerda — por este lado vinha um monstro, e aí sim ele entrava na categoria de coisas que eles esperavam encontrar. A criatura era baixa e atarracada, mais ou menos da altura de um garoto. Parecia uma bola gorda vestida com roupas amarelas de bobo da corte, com um chapéu ridículo com um guizo na ponta. O rosto era uma máscara pálida sem olhos, com uma bocarra aberta sorridente que parecia gritar, mas o único som que saía era um leve zumbido. South recuou instintivamente ao vê-lo. O monstro se movimentava devagar, um passo de cada vez, que fazia as paredes ficarem escuras, e limosas, como se ele carregasse uma sombra ao redor dele que preenchia o corredor por onde ele andava.Mais além dele, alguma coisa brilhava: pequenos túmulos cinzentos. Quando um jogador morria, deixava para trás um daqueles túmulos, e ali havia uma dezena. –Caaaarne... O monstro grunhiu e South correu, como jamais havia corrido — pra cima do monstro. Jogou uma Concha de Lesma Vermelha nele, uma habilidade de Aprendiz que sempre tirava 40 de dano(ou zero). O monstro nem recuou. Continuou a caminhar no mesmo ritmo lento, mas logo South o alcançou. Golpeou-o três vezes com a espada, recuou para ganhar força e desferiu uma estocada. O monstro jogou a cabeça para trás e algo semelhante a um brilho, porém negro, saiu do monstro, atingindo South e reduzindo cerca de 10% do HP. Mesmo assim, ele não parou, e continuou cortando a criatura que zumbia. Lampejos avermelhados que lembravam relâmpagos surgiam quando a espada atravessava o monstro, numa espécie de efeito especial. A criatura não durou muito tempo e logo caiu. –Uau! — South exclamou quando sua barra de EXP praticamente deu um salto. Isso o animou um pouco, mas ele ainda estava com dúvidas. Pra onde deveria seguir agora? Certamente aquela lareira levava os jogadores pra lugares diferentes, pois Nick não estava à vista. Seguiu rapidamente pelo corredor, que terminava em um espaço quadrado por onde os túmulos se espalhavam. A única saída era um buraco escuro no canto da parede que mais lembrava uma entrada de esgoto, onde mal se podia engatinhar. "É ruim de eu entrar aí", pensou, dando meia-volta e seguindo de volta por onde viera. Virando à esquerda, o corredor seguia reto durante vários metros, sem ter nenhum fim aparente. South corria, exasperado. Ele estava sozinho, então era lógico supor que os demais também estariam, e isso o fez se apressar. Thugles e Nick eram os mais frágeis do grupo, e ainda havia Anna... Ele a tinha visto durante a batalha contra Dark Corpse e achou que, se ela fosse surpreendida por um bando de criaturas como a que tinha acabado de enfrentar, talvez não mantivesse tão bem o controle quanto ele. O corredor de pedras parecia mesmo não ter um fim. Então Nick gritou — um berro agudo de dor que parecia vir de todos os lugares, mas que foi como um bônus de velocidade para South. Ele precisava fazer alguma coisa, e rápido. Justamente nesse momento, o corredor fez uma curva para a direita. Foi nessa esquina que aconteceu o que mudaria South para sempre, e o transformaria num homem menos impulsivo e mais cauteloso. Assim que ele virou, sua espada foi automaticamente para o vulto escuro que vinha na direção oposta, a mão esquerda segurando o lado do corpo do atacado, a direita enterrando a espada em seu peito até o cabo. Talvez tivesse sido um ótimo golpe, um reflexo afiadíssimo, só não foi perfeito porque que o inimigo era Vampiritico. Ao puxar a espada, South reconheceu a careta de olhos arregalados e sofridos de dor. –Nossa cara, me desculpa — ele pediu, exasperado, segurando o garoto com as duas mãos para evitar que caísse. Tinha sido mesmo um belo golpe: se fosse mesmo um inimigo, South poderia tê-lo matado com mais dois ou três cortes de espada. –Aprendiz, não é? — Vampiritico retrucou conseguindo manter um pouco de sarcasmo — Eu jurava que esses eram reflexos de Gatuno... Dessa vez, South se permitiu sorrir. –Hehe, não, isso é reflexo meu mesmo. Mas, você ouviu o grito? Eu jurava que era o Nick. –Eu também. Será que... ich... Confuso, ele mostrou o menu de amigos a South. Os diamantes verdes acesos mostravam que os demais estavam todos vivos, mas o de Nick acendia e apagava, como uma lâmpada pisca-pisca de Natal super rápida. South franziu a sobrancelha. –Vivo, morto, vivo, morto... Nick virou um zumbi? –Gente! — alguém gritou da direção do corredor por onde vinha Vampiritico: era Thugles — Ainda bem! Corram aqui! Vampiritico deu Agilidade a todos, e dispararam pelo corredor. Chegaram num ponto em que o caminho durava alguns poucos metros, depois virava para a esquerda, mais alguns metros retos, depois virava a esquerda e assim sucessivamente, sempre subindo, como se contornassem um quadrado e o caminho eram rampas. Num ponto em que o caminho virava para a direita, Thugles apertou o passo.
–Ali, é logo depois daquela curva. Precisamos ajudar o Nick! Mal Thugles acabara de falar e um homem alto surgiu no meio do caminho, bloqueando-lhes a passagem. Os três pararam. –Ah não, cara — South resmungou — De novo? O homem tinha pele branca, camisa branca e casaco marrom aberto, e calças jeans. Carregava uma pistola em cada mão e tinha um curativo que passava pelo nariz, e seus cabelos eram brancos. O rosto magro sorria, os olhos brilhavam com uma indiferença perversa, o que o fazia parecer uma máscara assustadora de filme de terror. –Huhahahahahahaha... Dark Corpse riu, quase sem mexer os dentes. Caminhou, como se não tivesse pressa. Aí South se esqueceu de que agora era um homem sensato e cauteloso, e investiu para atacá-lo. Quando a espada o atingiu, o corpo do pistoleiro desapareceu em uma explosão de flores cor-de-rosa. –Que diabo foi isso? — perguntou ele, incrédulo. –Deve ser alguma ilusão — falou Thugles, mais calmo — Um de vocês dois tem muito medo do Dark Corpse. No caminho pra cá, vi um potão cheio de pó de sulfa, que também desapareceu. –Você tem medo de sulfa? O que é isso? –Ele tem — confirmou Vampiritico — É alérgico. –Severamente alérgico — acrescentou Thugles, fingindo ar de importância. Sem mais delongas, viraram a curva. À frente, o corredor de pedras continuava por uns dois metros, com uma passagem de cada lado(Thugles deve ter vindo de uma delas). Já o caminho da frente alargava-se em forma de funil quadrado até dar num enorme quarto, de paredes de madeira. Inúmeros quadros retratando paisagens, doces e pessoas descoravam a parede da frente. À direita viam-se escrivaninhas e, à esquerda, uma cama. Mas era tudo de tal tamanho que aquele poderia ser o quarto de um gigante. Espalhados pelo chão, minúsculos em comparação com os demais móveis, estavam os monstros. Eles se moviam, e havia três tipos. Um deles usava uma roupa amarela com chapéu com guizo, o mesmo tipo de monstro que South enfrentara. Outro monstro parecia um boneco de pano azul gordo e de olhos negros, cheio de agulhas com extremidade de bolinha cravadas na cabeça. O terceiro tipo era como esse, porém roxo, menor e sem as tachinhas. A cama era alta o bastante para que vissem Nick debaixo dela. Os monstros o rodeavam e o cobriam com uma aura. South gritou para desviar a atenção deles, o que funcionou, em seguida atirou duas conchas de lesma nos dois tipos de monstro(havia uns vinte no total) que ainda não tinha enfrentado. Ambos perderam 40 HP. Thugles abençoou o colega, que atacou. Deu três golpes, então foi atingido por uma enxurrada de fantasmas de sombras, raios negros e estrelas — as magias de ataque dos monstros. Não tinha sido uma atitude muito brilhante de South, visto que ele perdia HP rapidamente, mas ignorava a dor e continuava a golpear os monstros. Ele confiava no Sacerdote atrás dele, e como esperava, Thugles o curou. E foi aí que, ao passo que South deixaria de ser um atacante impulsivo para se tornar um lutador mais cauteloso, Thugles deixaria de ser um suporte cauteloso e passaria ao posto de atacante, pelo menos contra monstros como aqueles. Pois, assim que curou o amigo, cinco dos sete monstros que o enfrentavam também ficaram cobertos de cura estremecendo e recuando, perdendo uma considerável quantidade de HP. Vampiritico encarou o amigo. Os olhos de Thugles brilharam. Eram, de fato, monstros do tipo fantasma, em que a Cura era fatal. É necessário mencionar que Thugles naquele dia sentiu toda a magia de um RPG, sentiu-se como um verdadeiro Sacerdote sagrado cuja função era expurgar o mal, assim como South que se sentia como um grande guerreiro. O jogo às vezes provocava coisas engraçadas nas pessoas. Vampiritico foi socorrer Nick, já que não havia necessidade de ajudar na luta. Os demais monstros se aproximavam, e South lutava com determinação, girando e cortando com a espada, coberto pela aura verde que Thugles conjurava nele. Ao mesmo tempo que o curava, a aura afetava alguns monstros em volta, o que os mantinha desconcertados, eles atacavam menos e ainda perdiam HP. Quando restavam apenas alguns poucos, Thugles mudou para a Flecha Divina, esta, embora em nível baixo, afetava muito mais os monstros. Vampiritico estava quase chegando debaixo da cama. Da escuridão, surgiram mais seis monstros. Eles pareceram empurrar Nick, ou o rapaz fugiu, ou escorregou — seja como for, ele foi na direção da parede debaixo da cama e desapareceu na escuridão. –Nick! — Thugles gritou para ele segundos antes de vê-lo sumir. O amigo nem o olhou. Deveriam ter esperado que Vampiritico fosse, já que ele tinha a Visão Noturna que o protegeria — em vez disso, sem pensar, precipitaram-se todos para a parede. Atravessaram o portal... E caíram no vazio. Abaixo deles, via-se um espaço não muito grande — talvez fosse a chaminé do gigante, larga como um pequeno quarto. Acima, a luz do luar entrava pelos espaços entre a chaminé e o telhadinho posicionado acima alguns centímetros acima dela(a fumaça saía pelos espaços) — abaixo, o chão era brilhante e fluido como lava. Viram de relance Nick cair nela. Vampiritico conseguiu segurar-se numa saliência da chaminé — mas Thugles conseguiu segurar-se em Vampiritico, que largou a saliência e South caiu em cima da cabeça dele. Os três, aos gritos, caíram na lava. –----------------------------------------------------------------------------------------------------------------- A lava devia estar ali por pura toragem(e pra deixar a chaminé iluminada) pois ela era, na realidade, feita de luz enganosa, de modo que os três a atravessaram e caíram estrondosamente no chão de madeira. Rapidamente levantaram-se e olharam ao redor, atônitos. Estavam de volta à sala de estar da mansão, no segundo andar, debruçados sobre a sacada ao lado da escada. No primeiro andar, Nick se encontrava cercado por uma dezena de monstros.Ele gritava. Os monstros azuis, os roxos e os bobos da corte amarelos o golpeavam, usando suas magias nele, cegando e machucando. Viram o rosto de Nick ficar enegrecido pela magia. Se alguém olhasse no menu, veria que o diamante dele continuava a piscar(e isso era apenas um bug do jogo) , mas ninguém se preocupou com isso agora. Thugles e Vampiritico correram pela escada – South pulou direto sobre a sacada e chegou num piscar de olhos. Ele começou a atacar os monstros, embora estes não dessem atenção a ele. Continuavam concentrados em Nick, que gritava esganiçado — sentia muita dor, isso era claro. Thugles levou somente alguns segundos para que sua Cura ficasse ao alcance, quase ao mesmo tempo em que Vampiritico saltava logo ao lado dele: deu uma cambalhota no ar, a adaga erguida para um lado e caiu direto em cima de um monstro. Seu corte pegou impulso para virar uma estocada, depois outro corte e então mais um corte, em arco. Logo o monstro azul estava morto, e ele passou o Ataque Selvagem para outro. A rapidez dos golpes era incrível e ele acertava primeiro os que não eram afetados pela magia de Thugles, com South ao lado cortando e retalhando. Levou menos de dois minutos até todos os monstros estarem mortos. Cessou a confusão. Nick estava encolhido, tremendo e soluçando. Os amigos chegaram perto dele, os corações batendo forte. Thugles tentou acalmá-lo, mas ele os afastava e recuava, como se fossem os fantasmas. –Vocês me deixaram sozinho! — ele não parava de gritar — Vocês... Onde vocês... — mas seus soluços lutavam com os gritos enraivecidos. South tentou ser racional, mas Nick não ouvia, parecia fora de si. Pelo menos tivera a presença de espírito de tomar uma poção de HP, ao que parecia, pois seu HP estava milagrosamente cheio. Por fim, conseguiram acalmá-lo, mas seus grandes olhos azuis pareciam ainda maiores de medo. –Desculpem — ele pediu, então foi tomado por uma forte onda de soluços — É... É... –Fique quieto — recomendou South — Foi apenas um susto. Vamos sair daqui, já passou. –Passou não — sentenciou Vampiritico — Vem vindo mais uns montão dali, Nick. Pode ficar assustado. South o olhou com ar de repreensão, mas era verdade: de um corredor, aproximava-se uma horda daqueles monstros, amarelos, roxos e azuis, e também uma dezena de cavalos azul-cinzentos, com olhos vermelhos e cobertos por uma aura fantasmagórica esbranquiçada que parecia fogo-fátuo. Eram muito mais do que poderiam enfrentar. Ao vê-los, Nick se desvencilhou e correu... Bem na direção dos monstros.
–Nick! — berrou Vampiritico — O que você está fazendo? O garoto havia alcançado os monstros, conjurando um pilar de gelo ao redor de si. Foi um massacre: seis dos monstros foram congelados, o que não representava nem um quarto da quantidade restante, que pôs-se a atacá-lo. O HP de Nick caiu pra menos de 20% quando a massa de fantasmas caiu sobre ele, não tinha nem ligado a Proteção Arcana. Nick só não morreu naquela hora porque Vampiritico o pegou no ombro, saltando para fora da cena no mesmo instante. –Vamos por aqui! Os monstros bloqueavam a escada, então Thugles os precipitou pro primeiro lugar que viu: uma porta de madeira larga e lascada, que ele abriu e os amigos pularam lá dentro. Estavam em outro quarto muito parecido com o primeiro, porém com móveis em tamanho normal(e sem monstros). Aparentemente, os monstros não sabiam abrir portas, porque não foram incomodados. Nem sequer houve batidas de corpos forçando a madeira. Vampiritico pôs Nick no chão e Thugles o curou, mas o menino gritou ao ver a magia. –Sai! Tira isso de perto de mim! Ele tremia, e Thugles recuou com ar de culpa. Ofereceu então uma poção, mas nem isso ele aceitava. South e Vampiritico tentavam acalmá-lo, mas... Thugles teve uma súbita lembrança de quando Nick assistira um filme de terror, muitos anos atrás. O garoto tinha negado, mas todos achavam que ele tinha ficado com medo de dormir à noite. Agora, as suspeitas pareciam se confirmar. Nick tremia tanto que seu corpo se sacudia e ele batia os dentes. Seus olhos estavam muito arregalados, e ele evitava olhar os companheiros. –Vamos! — Vampiritico disse certo momento, sem paciência — Não é você que vive alugando filme de terror? Vai dizer que está com medo agora? –O que você sabe sobre isso? — South disse com raiva — Dark Corpse apareceu pra nós naquela ilusão, lembra? Nick ficou sozinho contra vários monstros de uma vez. Quem sabe o que obrigaram ele a ver! Iniciou-se uma discussão, em que Vampiritico dizia que South não tinha nada a ver com aquilo("Nick é meu amigo! Você não tem nada que se meter"), mas as coisas não terminaram melhor para ele. South também tinha um lado muito sério, e não ficou nada feliz com Vampiritico ralhando com Nick. Já Thugles, ali perto, tinha o semblante surpreso e a boca fechada, tão surpreso quanto assustado. South, ao contrário, mantinha a expressão inflamada enquanto falava. –Não fale assim com ele. Você não sabe o que é... –...não sou tão medroso, ele vivia se gabando de não ter medo de filme, e agora isso... –...isso não é um filme, é a realidade! –Não é a realidade, é um jogo... –...é um jogo, mas é a realidade, se duvida então deixe eu te dar uma espadada, aqui... –...vem então, eu sou... Espera — Vampiritico ergueu uma mão, no sinal que combinaram de "calem todos as bocas, sinto perigo por aí" e South imediatamente se virou, a testa franzida. Na parede oposta à cama, a pintura se distorceu no tamanho exato de uma porta, por onde saiu uma figura(a parede fechou-se instantaneamente logo atrás): uma mulher, vestida no que pareciam ser roupas de festa de dois séculos atrás, um vestido negro e elaborado cheio de babados, mãos morenas e rosto coberto por um véu. South tinha a espada à mão, mas não atacou(era um homem sensato agora). Seguiu-se quase um silêncio, cortado apenas pelos soluços de Nick. A mulher aproximou-se sem mover o corpo, como se flutuasse. Ou, como soaria mais dramatizante, como um fantasma. Quando chegou a poucos centímetros do grupo, moveu as mãos sonhadoramente e afastou o véu, revelando um rosto queimado de sol que talvez pudesse ser absolutamente lindo, exceto pelo fato de ela ter órbitas vazias no lugar dos olhos. Então ela falou, sem nem mesmo mover os lábios: –Um de vocês precisa me dar a visão. Somente assim poderemos sair este lugar. –Do que está falando? — Thugles sussurrou baixinho — Como assim? A mulher não disse nada. Então, suas roupas começaram a sacudir como que agitadas pelo vento, ainda que não houvesse vento algum ali. Os pés descalços apareceram debaixo do vestido quando ela flutuou levemente, agitando ainda mais as roupas. Agora parecia que estava no meio de uma tempestade. Os olhos vazios encaravam a frente, sem ver, os cabelos esvoaçavam e rodopiavam. Um ruído começou a surgir de todos os lugares e, subitamente, a casa tremeu como se um terremoto a estivesse sacudindo. A mulher começou a subir cada vez mais... South deu um passo à frente. –Tá, tá, eu lhe darei a visão. Seja lá como q... –OoooooooOoOoooOooooooOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOhhh! . A boca da mulher se abriu e dela saiu um grito alto e macabro, como uma cantora de ópera distorcida. Se ela tivesse olhos, certamente estariam arregalados. Houve um clarão, dos olhos de South, e a luz iluminou o rosto moreno. South gritou e caiu para trás, amparado pelos braços por Vampiritico e Thugles — este recuando assustado, ao perceber que os olhos de South eram suas ovais completamente negras. –Não consigo ver, não consigo ver! — gritava. –E o que você achou que "dar a visão" significava? — devolveu Vampiritico, olhando preocupado para Thugles — Use a Cura nele! Mesmo que a Cura não tenha funcionado, a mulher flutuou rapidamente até a porta e a abriu, gesticulando para que os amigos a seguissem. Nick foi o primeiro, e os amigos não tiveram escolha senão seguí-lo. A porta bateu atrás deles — estavam de volta à sala principal da mansão. –Ali! — gritou Nick, o que surpreendeu e aliviou os dois amigos(pelo menos ele parecia ter voltado à lucidez) — Os monstros! Deixem comigo! –Quê? Peraí cara, você... — mas Nick já corria para o outro lado da sala onde havia um monte de monstros, ignorando Vampiritico. Os monstros eram pelo menos vinte. Havia todos os tipos: os amarelos com chapéu de bobo da corte, os roxos e azuis com agulhas no corpo, os cavalos cobertos de fogo azul-pálido e até umas bolhas esverdeadas com dentes. E estavam prestes a ser atacados por Nick, o poderoso mago. Nick não atacou de longe — pulou dentro da massa de monstros e ficou envolto por um pilar de gelo, que congelou cinco monstros, o que não representava nem um quarto deles. Os demais juntaram-se em uma confusão de zumbidos e barulhos, cobrindo Nick completamente e bloqueando a visão dele aos demais. –Sigam-me — disse a mulher, flutuando tranquilamente pela escada. Não havia tempo a perder, se quisessem seguí-la e salvar Nick ao mesmo tempo. Enquanto Thugles curava, Vampiritico atacava as costas dos monstros, mas ainda assim eram muitos. South nada podia fazer e sabiam que, sem a Proteção Arcana(e mesmo com ela) Nick não aguentaria muito. Seus gritos sofridos eram aplacados pelo barulho e pelo chiado dos monstros que o rodeavam. Não podiam ver quando HP ainda lhe restava, mas se pudessem, veriam menos da metade. –O Nick. Cura ele — falou Vampiritico. –Não dá — Thugles sacudiu a cabeça, desesperado. Ele usava a Cura nos monstros, infligindo dano em área — Essas coisas estão na frente, fica difícil acertá-lo. –Pula no meio, então — disse o rapaz — Eu tenho uma idéia. Thugles não parecia muito animado enquanto Vampiritico anunciava a grande idéia a South. O colega fez um gesto de cabeça mostrando que concordava, então Vampiritico virou-se para dizer o que pretendia ao Sacerdote. Ele arregalou os olhos, mas os fechou e pulou para o bolo de monstros em seguida. Socos, brilhos rápidos e golpes doloridos o atingiram por todo o corpo. Mas ele conseguiu segurar o braço de Nick logo depois de curá-lo. Viu então grandes pontos cor de ouro no chão e sentiu o braço de South segurando sua mão livre. Tentou puxar Nick dali, mas os monstros não permitiam. Em meio à dor e ao barulho, a voz de Vampiritico se fez ouvir. Thugles fechou os olhos com força, prendeu a respiração e puxou Nick ao mesmo tempo que era puxado por South. A sala foi preenchida pelos estalidos e ricochetes das moedas no chão enquanto explodiam, criando uma nuvem de fumaça que subiu quase até a metade da parede. Com um grunhido de esforço, South jogou o corpo para trás puxando Thugles e Nick como numa pequena corrente humana. Os monstros se espalharam, confusos e atordoados pela explosão. Nick ofegava e tremia, recusando-se a olhar os companheiros. Ainda sem soltar o braço do amigo, Thugles olhava para todos os lados, procurando. –Pra onde ela foi? Pra onde? –Foi por ali — Vampiritico apontou e os quatro correram escada acima, virando à esquerda e entrando em um outro corredor. No fim dele havia uma parede com um túnel em arco de pedras, levando para um corredor que parecia-se exatamente com o que havia dentro da lareira. Vampiritico foi o primeiro a chegar ao final, onde havia uma bifurcação ortogonal(havia um caminho à esquerda e outro à direita). Vampiritico sufocou um grito de reconhecimento e pegou o caminho da esquerda. South, Nick e Thugles chegaram logo após. O caminho percorria uns dez metros antes de virar para a direita, e na esquina estava a mulher, olhando para eles com impaciência. Assim que a viram, ela seguiu pelo corredor, desta vez, um túnel longo que estendia-se até um quadrado de luz laranja tremulante. Eles corriam, Vampiritico segurando South e Thugles arrastando Nick, que xingava e berrava, dizendo que podia ir sozinho. À frente deles ia a mulher, flutuando vagamente. As rendas e babados das roupas esvoaçavam com suavidade ao redor do corpo. Por fim, ela saiu do túnel e se adiantou, dando espaço. O túnel terminava no canto esquerdo de uma sala ampla como um ginásio, quadrada, sem janelas e sem outra saída que não a própria entrada. Na parede oposta ao túnel, o chão no espaço de metade da metade da sala era um buraco com lava quase até a borda. A lava fumegava nos pontos onde bolas de fogo saíam dela, flutuando como fantasmas. Eles se concentravam em um ponto à direita, onde Zeru os atacava com a espada. A pesada armadura e os golpes precisos e fortes o protegiam. Perto dele, Anna também os enfrentava, envolta em sua armadura negra com a espada grossa com espinhos. A visão fez Thugles e Vampiritico hesitarem, mas certamente não afetou Nick. –Fogo! — ele cerrou os dentes e atacou. Thugles gritou em advertência, porém desta vez os resultados foram melhores do que no saguão de madeira. As chamas congelavam instantaneamente, e perdiam tanto HP que quase morriam, e Zeru as abatia enquanto ficavam congeladas no ar. –Fiquem longe de mim, fiquem longe de mim! — South gritou para os amigos. Rodeava e golpeava o ar aleatoriamente, às vezes acertando algum inimigo. Felizmente, não estava perto da piscina de fogo. –Valeu a ajuda — Zeru agradeceu sorrindo para Nick, que atacava com raiva, usando o pilar de gelo sem se importar com o MP que baixava cada vez mais rapidamente. Ainda estava sem a Proteção Arcana e alguns dos fogos conseguiam atingi-lo, ele perdia dano, mas parecia alheio à barra de HP. Aí ele desmaiou. –Mas... — Zeru sobressaltou-se, guardando a espada e aparando-o antes que caísse. Thugles o curou algumas vezes, mas ele não acordou — O que há de errado com ele? –Não sei — Vampiritico sacudiu a cabeça, impotente — Ele endoidou. Precisamos seguí-la — ele apontou para a mulher parada no lado oposto da sala, como que observando os companheiros agirem. Mais esferas de fogo surgiram do rio flamejante e voejaram pela sala como um enxame de abelhas. Nick foi sentado no chão com as costas recostadas à parede. South rodava e se sacudia pela sala, atacando sem ver, mas recusando-se a aceitar que não estava em condições de lutar. Zeru dava golpes mais lentos, porém fatais, e Vampiritico pulava nas bolas de fogo antes mesmo que se aproximassem, cravando nelas a adaga — e Thugles dava suporte a quem precisasse, de guarda ao lado do amigo desacordado. Cautelosamente, tentavam manter-se o máximo possível de distância da garota. Então, curiosamente os inimigos pareceram resolver que ela era uma oponente mais valiosa do que os garotos. Agora todo o fogo rodeava ao redor de Anna, que tinha o semblante irritado e os dentes cerrados. Ela lutava com afinco, cada golpe produzindo uma minuscula explosão quando uma bola de fogo morria, mas a cada ataque outras cinco ricocheteavam em seu corpo, causando dano ao HP. Como Nick, ela não parecia se importar com a defesa, e sempre que seu HP baixava consideravelmente, ela erguia no ar uma das mãos que seguravam a espada e da palma estendida surgia um globo negro que explodia e a curava. –Ela não pode ser assim tão invencível — admitiu-se Vampiritico. Ele se adiantou para ajudar, mas os olhos perversos se voltaram para ele.
–Saiam daqui! Escória inútil, vocês serão os próximos. Sumam enquanto podem! Eles recuaram, intimidados. A voz era dela, mas o tom era diferente e eles tinham medo dela. Ainda assim, Anna logo pareceu esquecê-los, voltando a direcionar sua ira para as bolas de fogo. –Onde está a próxima Kansou? — ela perguntou com um autêntico tom ríspido, mas que não assustou as bolas de fogo — Pouparei as outras se me disser. Onde ela está? — outra bola de fogo explodiu, morta — Você! Me diga agora! –Quem é Kansou? — Zeru perguntou sem entender. –Não faço idéia — Thugles disse, sacudindo a cabeça — Mas agora isso é um problema. Como vamos sair daqui com ela? –O que está querendo dizer? — a menina retrucou, virando-se para ele de repente — Afaste-se agora! A fala brusca tinha ainda um tom sério que o convenceu, e ele pulou para trás arrastando Nick e puxando South consigo. Anna então se acocorou no chão, baixando a testa como que fazendo uma prece. O enxame de fogos se aproximou como as moléculas de um gás que se contraía. As chamas batiam na armadura como bolas de tênis, recuavam e investiam novamente. Ouviu-se um grunhido, um rosnado baixo e então, sem aviso, Anna ergueu-se, girando o corpo ao ficar de pé. A espada girou ao seu redor subindo e descendo num movimento de onda. De seu corpo saíram círculos de luz prateada, como fitas de água ondulante, e todo o espaço ao redor dela foi tomado pelas pequeninhas explosões quando as esferas eram destruídas. Ainda surgiam algumas da piscina de lava, mas uma vez que todas elas foram destruídas ao mesmo tempo, novas chamas pararam de aparecer. Anna guardou a espada atrás das costas, caminhando a passos lentos até eles. –Vocês foram poupados para me ajudar. Digam-me, onde está Kansou? –Bom... Ah... — gaguejou Thugles. Agora não havia mais a confusão dos fogos voadores. Era o silêncio tenso e frio, cheio de ameaça, e ele achou que a garota poderia matá-lo agora mesmo, se dissesse algo errado. –Também não sabemos — disse Vampiritico, claramente pensando rápido. E apontou a mulher — Ela sabe onde fica. South é o único que pode nos guiar por ela. –Isso é mentira! — vociferou a menina. –Kansou — disse South, os olhos negros arregalados e a boca bem aberta — Leva a gente pra lá. Qual o próximo passo? A mulher morena que tirara-lhe a visão pareceu entender a última frase como a deixa. Virou-se para a parede, logo à esquerda de onde entraram e pôs a mão nela. Uma porta se abriu. Anna imediatamente tomou a frente, deixando os rapazes atrasados ao ajudar Nick e South. Estavam em outro túnel, e no fim deles, os monstros aguardavam. Nick e South não poderiam lutar. Thugles, desta vez, tinha vantagem com a magia sagrada, Vampiritico era ágil e eles agora tinham Zeru, e os três eram capazes de lidar com os monstros daquele nível. No entanto, nenhum deles teve a oportunidade de erguer a arma ou o cajado. O túnel às vezes dava em um quarto, ou numa sala ou às vezes de volta à chaminé — em todos os casos, cheios de monstros, e sempre que isso acontecia, Anna brandia a pesada espada por alguns segundos e já estava seguindo o caminho para o desafio seguinte quando os demais chegavam. O tempo todo ouvia-se os grunhidos nervosos, os xingamentos que ela proferia e o som da arma cortando o ar e matando monstro atrás de monstro. A mulher que os guiava às vezes parava para dizer alguma coisa, mas era evidente que a Quest não fora projetada tendo em vista que um dos jogadores poderia ter tamanha força. Várias vezes, a mulher parava de falar abruptamente quando Anna acabava com todos os monstros antes que a fala pudesse ser terminada. Ela chegou a ganhar dois níveis. Finalmente chegaram num ponto em que o caminho se dividia em três. A mulher que sempre os acompanhava seguiu reto, mas Anna virou à esquerda sem hesitar. –Vão com ela, depois eu acho vocês! — Vampiritico gritou para os amigos, dobrando a esquina e seguindo Anna. Thugles fez um gesto de cabeça, guiando South pelo braço(Zero carregava Nick). Tomaram o caminho reto e o grupo se separou. Anna não pareceu ter percebido que só uma pessoa a acompanhava. Ela corria rapidamente, mas ainda assim, Vampiritico era um Gatuno. –Quem é esse Kansou que você esta procurando? — o menino questionou enquanto corriam. –Não é da sua conta. A Kansou é minha, e vim reconquistá-la. –Ah, então Kansou é uma mulher? Te peguei — ele riu ao se esquivar de um golpe desferido contra sua cabeça. Eles seguiram por mais alguns minutos, e agora passavam por escadas de pedra(e de madeira, quando o túnel saía das chaminés e os levava de volta à casa). Vampiritico percebeu que estavam sempre descendo, e embora sempre houvesse mais de uma opção de caminho, Anna parava apenas por alguns segundos antes de escolher um deles, como se sempre soubesse pra onde ir. O garoto estava com uma piada semiformada na mente quando ela finalmente parou e ele bateu em suas costas, sem conseguir parar. Anna não pareceu se importar. Estavam no meio de um corredor de madeira, de frente para uma porta numa das paredes, que dava a um quarto grande como seria o quarto de um casal da realeza. Mas a mobília era simples e mal cuidada: escrivaninhas de madeira, camas com colchões velhos e um armário de aço de cujas arestas superiores pendiam várias lancheiras para criança. Era um quarto como outro qualquer, que dificilmente seria notado por alguém explorando a casa(já que havia centenas daqueles quartos ali) mas havia, definitivamente, uma peça especial. Na parede à direita, ao lado do armário com as lancheiras, uma roupa pendia do que parecia ser um cabide de chapéus. A roupa era de tecido azul cortado diagonalmente no decote e nas mangas, com uma barra de saia que cobriria os pés. Broches em forma de caveira enfeitavam a frente, e o chapéu era uma meia abóbora sorridente no meio de um enorme chapéu de aba circular e larga. Os olhos de Anna brilharam. Eles entraram e a porta se fechou atrás deles. Vampiritico tentou, mas não conseguiu abri-la. Por um segundo, o quarto ficou escuro, mas logo eles conseguiram enxergar(como era um jogo, não era impossível obter visão sem iluminação alguma). E foi quando duas coisas aconteceram. O quarto espaçoso repentinamente ficou apertado pela terceira presença que ocupava o quarto... E Vampiritico notou o quanto o aposento era alto. Embora a largura e o comprimento do quarto fossem razoáveis, o teto elevava-se a pelo menos quinze metros, dando a impressão de estarem numa caixa retangular com móveis e paredes de madeira. No centro do quarto estava um grande espantalho cujo corpo, da cintura para baixo, era uma confusão de lençol azul-escuro com pedaços de maçã, caveiras, ossos e madeira grudados. Um pouco acima do meio do corpo ele se alargava numa bola peluda, acima dela, um pescoço grosso como uma árvore e formado por osso, carne decomposta e frutas estragadas. A cabeça era uma abóbora apodrecida com olhos e boca, uma luz fraca brilhando dentro dela. Era tão grande o pescoço ficava ligeiramente curvado e a cabeça tocava o teto, e os braços(osso puro) enroscavam-se nas no interior das duas paredes. –Ele quase nem cabe no quarto — Vampiritico murmurou. Tentou abrir a porta do quarto, mas ela estava firmemente trancada. Uma barra de HP surgiu na testa da criatura. Eles teriam que enfrentá-la. –O guardião da Kansou — Anna cuspiu as palavras, um sorriso feroz em seus lábios — Ela é minha! Vampiritico quase suspirou de alívio quando ela deu um salto para frente, atacando as vestes do monstro com dois golpes rápidos e pesados. O monstro grunhiu e tentou pegá-la com os braços longos, mas ela os golpeou, agachou-se e pulou, golpeando o monstro uns cinco metros acima. Ele estava no centro da sala, mas a força do golpe foi tamanha que o contra a parede oposta à porta. Tendo o caminho livre, Anna correu para a roupa ao lado do armário. Cerca de 5% foram removidos do HP da criatura com aqueles poucos golpes. Vampiritico comemorou, sacando a adaga — enquanto Anna o distraísse, ele iria atacar. Então o monstro gritou e conseguiu acertá-lo com um golpe de braço, jogando-o contra a porta com tanta força que ele caiu sentado. Lá em cima, a abóbora olhava para ele. Um brilho amarelo surgiu dos olhos esculpidos da criatura e Vampiritico olhou para Anna, agora vestida com a roupa nova. Ela não usava mais a armadura negra. Estava com um joelho semidobrado como se tivesse acabado de se recuperar de uma perda de equilíbrio. Apoiou-se no armário e se virou, olhou então para a porta onde Vampiritico ainda não se levantara. Os olhos do rapaz encontraram os castanhos, grandes e confusos. –Vampy...? Acima deles, a criatura rugiu e o quarto inteiro estremeceu.
Fale com o autor