O sol nascia, um espetáculo alaranjado na linha do horizonte, belo como somente o mundo virtual poderia captar. As nuvens rosadas espalhavam-se pelo céu e aquela luz não incomodava, de modo que o garoto de casaco podia admirá-lo sem precisar estreitar os olhos.

–Então... É hoje — falou Dark Corpse — Já chamei todos pra cá, e estão esperando. Só falta você pra dar as ordens... Será um grande dia, você não acha? E aí, já tem as estratégias planejadas?

Italo permaneceu sentado, de costas para ele no topo de um pequeno morro. Dark Corpse riu e começou a caminhar ao redor.

–Ah, semana que vem vai ser um grande dia... Hein, Italo? O bando de gente fraca que vai vir lutar contra a gente, nossos colegas mais fracos matam. Depois, restam os de nível médio, sim, acho que o Evil Corpse já dá conta de ir contra eles, se tiver HB máxima, mais uns feiticeiros pra dar apoio... E aí ficam os mais fortes — ele esfregou as mãos — Os desafiadores, que duram tempo suficiente pra dar pra sentir o gostinho da luta! E então a EXP que ganharemos deles, e o ouro... Ah, mal posso esperar! Vai ser um grande massacre, vou testar minhas habilidades e talvez eu até consiga 120 antes do mês que vem. Então, Italo, você não acha? — ele se voltou para o rapaz, e resmungou — Italo!

–Silêncio, estou meditando — Italo ergueu as costas da mão para ele. Dark Corpse bufou.

Passados alguns minutos o guerreiro ficou de pé e se virou para encarar a pequena multidão que aguardava logo abaixo. Automaticamente, todos olharam para ele, com certo respeito. Magro, estatura mediana, rosto de um garoto sério e casaco azul-marinho aberto com uma blusa azul por baixo e uma calça também azul, porém menos escura. Não dava a impressão de se parecer com o que realmente era: o nível mais alto do servidor e o único a ter adquirido o quarto avanço de classe.

Estavam nos arredores de Edelstein, perto da floresta no litoral, numa planície de grama longe de monstros. Dark Corpse havia passado horas reunindo seus membros e os trouxera até Italo, que meditava num pequeno morro. Agora esperavam que ele falasse. Ele ajeitou o capuz baixado atrás da cabeça e disse, com voz grave:

–A guerra de clãs começará na semana que vem. Edelstein pode não ser uma cidade tão popular, mas a Mina Verne e os monstros que ainda não temos nível para enfrentar chamam o interesse de muita gente. A maioria dos outros clãs vai querer disputar Henesys ou Orbis, mas Edelstein vai ser conquistada pelos fortes.

Houve murmúrios e risadinhas animadas de desafio entre seus membros. Italo continuou:

–Quando as pessoas começarem a pegar níveis mais altos, vão querer verificar os monstros daqui. Se dominarmos Edelstein, vamos ter controle do que daqui a alguns meses vai ser o local de treino da maioria dos jogadores e as pessoas vão ter que pagar pra entrar, vão comprar pots e vender equipamentos pros NPCs daqui, e parte do dinheiro virá para nós.

–Uhuuuu! — gritou um mago.

–Eis o que vamos fazer: Somos... Trinta e dois, então... Hm... Vamos discutir nossa estratégia, mas primeiro o Poke vai explicar pra vocês sobre a região.

–Ei, e eu? — Leslie adiantou-se enquanto Dark Corpse falava aos demais em tom alto e autoritário — Você disse que não ia me deixar com eles! Você mentiu pra mim? Como devo confiar em você?

–Você vai vir comigo — disse — Tem uma skill boa de Cavaleiro Branco que você precisa ter pro grupo. E acho que consegui uma armadura nova pra você.

O rosto dela rapidamente mudou de acusação para animação.

–Uma armadura? Legal, uso essa nível 30 há um tempão! Como ela é? É rosa? Não é laranja listrada de carmim com detalhes limão, não é? Porque uma cor dessas seria muito feio. Se tiver estampa de passas ao rum, por exemplo, também não seria legal, queria uma cor neutra, ou uma cor só, talvez um vermelho, aí poderia combinar com um rosa ou talvez um prata...

Eles deixaram o local enquanto Dark Corpse separava os membros do clã de acordo com algumas orientações anteriores do Italo.

–Vocês cinco, desse lado — mandou, separando alguns lanceiros — Cada grupo deve ter um Lanceiro, mas como HB dura mais que fúria, cada grupo de guerreiros deve ter dois Soldados. Quantos são feiticeiros do Gelo e Raio? Um Mago, ótimo, você vem pra cá. Tem Lentidão? Ótimo, vai liderar esses quatro.

–E eu vou liderar quem? — perguntou um arqueiro de cabeça de cavalo — Aí pessoal, larga o Dark Corpse e venham fazer parte do grupo do hue. Só gente linda e festa por minha conta.

–Disse o cara que fica o tempo todo de máscara — Dark Corpse sorriu para ele — Certo, Slayer, você pode liderar seu grupo, mas deixe os Piratas comigo, leve no máximo uns Guerreiros e alguns Gatunos. Quanto à Mad Shadow: atenção aqui, Mad Shadow vai ser chefe do grupo de reconhecimento, ou seja, pessoal bom de sneak e skills furtivas.

–Quem vai querer vir comigo? — perguntou Mad Shadow com uma piscadela travessa. Não foram poucos os que se ofereceram, mas Dark Corpse disse que nenhum grupo furtivo tinha mais de vinte pessoas. No fim, foram escolhidos quatro Gatunos, que rapidamente foram com ela treinar.

–Certo... Quanto a você...

O olhar de Dark Corpse endureceu e ele encarou o rosto risonho, sarcástico e divertido de Professor "Rockfield" Lord.

(Ou Rock "Professor Lord" Field, se preferir)

–Eu o quê, Dark Corpse? — disse com um sorrisinho — Sou Gatuno também, e minha Furtividade é nível 30. Eu não deveria ir com a Mad Shadow? — perguntou, inocentemente.

–Não sei o que fazer com você — respondeu o outro.

–E nem precisa saber, sei cuidar de mim mesmo. Vou ficar pelo campo de batalha, andando por aí e vendo os pontos que mais precisam de ajuda.

–Não, essa não é uma função que eu pensaria pra você — o pistoleiro sacudiu a cabeça com veemência — Eu tenho que ver. Talvez você se adequasse mais à limpeza do estrume do Bolkie, mas infelizmente os cavalos daqui não cagam. Ou preparar mais uma poções, pois usei tudo naquele grupo idiota. Talvez dessa vez você possa preparar um veneno que funcione.

–Não tem como envenenar balas — retorquiu o Gatuno, pacientemente — Por que se preocupa tanto comigo? Eu já disse o que vou fazer. Vá decidir as posições dos que ainda estão esperando serem despachados.

–Você vai ficar onde eu achar que deve — Dark Corpse disse com raiva — Estou no comando aqui, caso não tenha percebido.

–Sério? Não ouvi o Italo dizer isso, e olha que meu nível de Detecção Auditiva é bem alto. Pensando bem, ele quase nunca fala... E quando fala, tenho certeza que não é pra dizer que você deve me liderar, Dark Corpse.

–Cuidado, Professor Lord — ameaçou o pistoleiro. Ambos eram altos, sendo o gatuno alguns milímetros mais — Agora tenho minhas skills de Pirate. Posso usá-las pra garantir minha autoridade aqui, se precisar.

–Filho, eu derrubo você sem minhas skills especiais da Nightingale — Professor Lord disse num bocejo — Mas não acho que o Italo gostaria disso. Mas eu posso provar a você, porque...

No segundo seguinte ele estava agachado, a perna direita fazendo um semicírculo à frente numa rasteira. Dark Corpse saltara, desviando-se e sacando as pistolas — mas antes que pudesse atirar, teve os pulsos segurados pelas mãos rápidas do Gatuno, e os tiros se desviaram longe. Dark Corpse girou os dedos a fim de apontar ambas as armas para a cabeça de Professor Lord. Este liberara uma pequena adaga do punho da blusa, apontada para o pescoço dele. Agora os dois estavam frente a frente, num estranho e constrangedor abraço, um com as mãos sobre os ombros do outro e as armas apontadas para as cabeças.

–A lâmina tem 20% de chance de dar stun — Rockfield disse como quem não quer nada.

–Minhas pistolas têm 100% de chance de acertar essa cabeçona vazia, seu monte de bosta — Dark Corpse tinha o rosto muito próximo do oponente — Dois cliques e adeus a metade do seu HP.

Fez-se um breve silêncio enquanto eles se encaravam. Uma voz chorosa falou:

–Desculpe Italo, não foi culpa minha, não consegui impedí-los! Tenha piedade!

Os dois recuaram e se viraram no mesmo instante, guardando as armas. Mas o rosto que os encarava com ar de deboche era o rosto metade coberto por um tapa olho de Bloody Tarantula, também conhecido como Rabisco. Ele riu, assim como os demais membros. Italo não riu, porque ele não estava ali.

–Não sei o que fazer quanto ao Professor Lord — Dark Corpse disse com fúria, voltando a atenção ao outro Gatuno — Mas você vai tomar conta da casa. Quem sabe limpar algumas teias de aranha... Tarantula.

As risadas continuaram, e Rabisco endureceu os lábios de raiva. "Tarântula Sangrenta" não tinha sido idéia dele, afinal.

–Mas aí, Dark Corpse — falou um guerreiro com ar risonho — Eu sou Soldado. Em qual grupo devo ficar?

–Eu já te disse — o pistoleiro virou-se para ele um momento — Não vou dizer de novo.

–Ei, eu não me lembro bem, estava prestando atenção na...

–Não importa, descobre sozinho, já te falei! Não vou falar de novo!

E Dark Corpse deixou o lugar. O guerreiro cuspiu no chão e rosnou com raiva.

–Deus, será que ele não sabe que parece uma bicha louca quando faz isso? É sério, dá nos nervos...

–Alguém tem que falar isso pra ele — concordou um outro, de topete — Vile Slayer, você conhece ele há mais tempo, podia dizer...

–Eu? — Cara de Cavalo apontou para o próprio peito — É rúim, aí ele fica com raiva e usa Critical ou sei lá... Eu não, vocês que se virem pra descobrir onde vão ficar agora. Falei pra virem pro grupo do hue, aqui não tem nada disso, mas nãããããão, vamos com o Dark Corpse, ah o Dark Corpse, ele é fodão... agora se fode aí flws.

–Eu vou ver se cuido daquele cara que vem nos seguindo — anunciou Rockfield — Andei seguindo ele e estou com um pressentimento...

–O que foi, Professor Lord? — quis saber um Lanceiro. O homem vestido de preto sacudiu a cabeça displicentemente.

–Nah, não sei se é verdade, quero fazer mais algumas buscas antes de confirmar. Enquanto isso, alguém faça uma lista com as poções e venenos que vão querer usar, que eu preparo pra um dia antes da batalha. Até mais.

Com isso, a rápida reunião foi suspensa, e logo o ataque de nervos de Dark Corpse passou e ele voltou para dizer que não deveriam se afastar muito da cidade, pois iriam reunir-se novamente à tarde. Ninguém ficou muito satisfeito com isso, mas não foi difícil convencê-los — principalmente quando descobriram que a Sunrise of Astoria estava liberando uma boa verba para cada um se hospedar em Edelstein.

–Escolham os hotéis que quiserem, nem se preocupem com o preço: semana que vem, a cidade vai ser nossa mesmo! — Dark Corpse gritou em meio aos vivas animados, aparentemente de melhor humor agora que Professor Lord havia saído. Então subiu em seu cavalo e se virou para a saída de Edelstein.

Ora, os outros tinham que ficar por ali, mas ele era Dark Corpse e podia se movimentar um pouco. A batalha de clãs seria um grande evento e ele queria participar dela já no nível 90. Bolkie já começara a galopar em direção ao aeroporto, mas então pensou melhor e voltou até encontrar uma figura parada, meio isolada e indecisa no monte de pessoas que conversavam.

–Ei, Evil Corpse — chamou, rindo quando o garoto de armadura azul-claro virou-se assustado — Não tenha medo, sou só eu, não faço mal a ninguém. Estou indo upar em goby — falou — E você tá me parecendo muito fracote. Quer vir comigo?

–Ainda não peguei o terceiro avanço — Evil Corpse, ou Rakyaat, comentou com tristeza. Dark Corpse bufou.

–Sem problema, a gente acha umas quests mais de noob pra você e você consegue. O importante é ter nível alto, não costumamos ter gente fraca na Sunrise. Você não quer fazer parte da lista dos fracos, quer?

–De jeito nenhum! — o garoto respondeu com assombro — Vamos então. Goby... Isso é... Aquarium, não é? Nunca fui lá...

–Vai ser divertido — Dark Corpse comentou enquanto o menino subia atrás da sela, lugar reservado para pessoas capturadas — Quem sabe a gente não encontra alguém pra fazer uns mesos...

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Gatts corria para salvar sua vida como jamais correra antes, no meio de uma enorme caverna no fundo do mar. Ele, como Kiara, fora jogado ali e ambos experimentavam pela primeira vez o que era a prisão de Aquarium.

Não era como em Orbis, onde o prisioneiro passava apenas alguns dias de castigo numa cela escura com outras pessoas podendo bater papo, discutir e refletir sobre seu mau comportamento. A de Aquarium era muito maior, um enorme espaço nas rochas abaixo da cidade, iluminado como se a própria água tivesse uma luz fraca. Mas seus colegas de cela não eram outros jogadores ou ladrões de mãos pesadas, e sim tubarões.

Eram grandes, azuis, de corpo largo e cabeça achatada com olhos grandes e enormes bocas abertas cheias de dentes. Mal foram jogados na prisão e as criaturas vieram atrás deles, famintas.

Gatts tentou atacar, mas os tubarões eram fortes demais e ele percebeu que não poderia usar nenhuma poção. Estava em muita desvantagem porque, embora a água tornasse as coisas mais leves, seus movimentos com a espada eram um prejudicados, ao contrário da facilidade com que os tubarões tinham para golpeá-lo.

Gatts conseguiu uns três golpes antes que os tubarões o cercassem e atacassem. Não atacavam com mordidas, como ele esperava, mas sim com potentes cabeçadas que o jogavam de um lado a outro como num triturador. Tentou Intimidar, mas aqueles tubarões, acostumados a viver na escuridão do oceano, não tinham medo de um fantasma de olhos brancos. O guerreiro resolveu tentar outra técnica: guardou a espada e abraçou a cabeça de um tubarão, girando-o para um lado e começando a correr.

Uma idéia surgiu em sua mente, provavelmente uma daquelas idéias que o jogo impõe automaticamente na cabeça, e sacou a espada novamente. Correndo, não conseguiria escapar de cinco tubarões que vinham a nado, mas percebeu que sua velocidade aumentava quando golpeava a àgua à frente dele, como que eliminando a resistência do líquido.

Os pés calçados com todo aquele bronze vermelho faziam um barulho forte nas pedras. A capa flameava atrás dele como que medindo a distância entre Gatts e os tubarões famintos enquanto ele corria e atacava a água, correndo ao redor daquela gigantesca caverna. Quanto a Kiara, os tubarões estavam mais concentrados na carne maior e a garota, sem saber muito o que fazer, ficou sentada em sua pedra azul.

–Você consegue! Força nessas pernas, seu molenga! — ela ria para ele, que ofegava ao completar uma volta inteira. Os tubarões pareciam estar se divertindo também: às vezes um dava impulso com a nadadeira e acertava uma cabeçada nas costas de Gatts, fazendo-o correr mais depressa.

As paredes ao redor daquele imenso espaço ficavam abaixo de Aquarium e, do lado de fora delas, ficava o caminho que descia para as profundezas. E ali, uma dupla passava alheia a tudo o que acontecia na prisão...

–Não posso enfrentar isso — reclamou Evil Corpse vestido em sua armadura azul. Ele encarava os montes de esqueletos de peixes do tamanho dele, com cabeças quadradas e dentes finos e afiados — Isso aí deve ser nível 90.

–Por isso eu estou aqui — Dark Corpse deu-lhe um tapinha no ombro — Não se preocupe. Nada pode prejudicar ninguém enquanto o Poke estiver por perto. Eu sou um pirata, esqueceu? E aqui é o mar.

–O fundo do mar — corrigiu-o Evil Corpse com olhar preocupado — É pra onde piratas mandam seus inimigos quando afundam os navios deles, e piratas não costumam gostar quando seus navios vêm pra cá. Isso não deveria te dar desvantagem?

Dark Corpse apertou os lábios antes de responder.

–Bem... É, não tinha pensado por esse lado. Mas que se foda! Eu sei quem tem desvantagem aqui no fundo do mar, olha só!

Ele atirou para cima duas vezes e soltou uma breve luz, invocando um polvo cheio de armas numa borda do morro. No mesmo instante, o peixe-esqueleto se voltou e viu o molusco. Nadou rapidamente, as órbitas vazias dos olhos não demonstrando nada em contraste com a boca que sorria raivosa. Em resposta, o polvo fez uma careta e disparou uma chuva de balas de pistola, metralhadora e chamas quando o peixe chegou perto.

Dark Corpse ajudou com alguns tiros. Evil Corpse, um pouco assustado, recuou, mas soltou uma exclamação surpresa quando o peixe morreu.

–Caraca, isso aqui dá muita EXP! — espantou-se. Dark Corpse virou a cabeça para ele e sorriu.

–Não é? Como meu nível é bem maior que o seu, quase toda a EXP vai pra mim e pro polvo, mas ainda dá pra te upar.

–Pro polvo...? — ele começou a perguntar, mas parou. Dark Corpse mexia em alguma coisa no menu e agora as pistolas do polvo mudaram, ficando maiores e ganhando uma pequena crosta de musgo marinho. Dark Corpse sorriu triunfante.

–É uma habilidade especial que peguei com a Kyrin. Quando matamos monstros, parte da Experiência vai pro polvo. É como se ele fosse um... Integrante extra do grupo, sabe. No momento ele pode upar até nível 4 e posso escolher upgrades pra ele.

–Que daora — Evil Corpse comentou animado.

–Mas ele não pode se mover — continuou o pistoleiro — Portanto, eis o que vamos fazer. Vou atrair os monstros pra cá com meus moves ultra velozes de pirata e o polvo vai ajudar a matar. Você não vai acertar muito por causa do seu nível, vai missar bastante mas...

–Não tem problema — interrompeu ele, feliz por ter feito algo certo — Pedi ao Professor Lord pra me dar umas pots de Precisão... Se a gente fosse enfrentar gente forte na luta de clãs, sabe...

–Nós vamos — garantiu Dark Corpse — E melhor ainda, você vai poder acertar os monstros. Vou atrair os peixes pra cá e você ajuda o polvo, mesmo que seu dano não seja muito grande, vai puxar um pouco mais de EXP pra você. Entendido?

–Sim — assentiu ele, bebendo a poção e puxando a katana.

Dark Corpse sumiu morro abaixo por alguns minutos, voltando com um monte de enguias cor de rosa com olhos grandes e esbugalhados. Evil Corpse preparou-se, um pouco nervoso. Tinha medo de fazer errado... Mas logo percebeu que seus medos eram infundados, pois o polvo ao seu lado matava tudo com os tiros e as chamas. Como estava no grupo de Dark Corpse, não sofria dano do polvo, então podia aproximar-se para golpear os inimigos sem problemas.

Ele chegou a ganhar três níveis facilmente, liberando uma habilidade que melhorava e muito sua velocidade com a katana — mas teria que voltar ao dojo para treinar. Estava criando coragem para pedir isso a Dark Corpse quando ele voltou com uma dúzia de enguias e o polvo desapareceu.

–Vamos lá pra baixo — disse o pistoleiro — Acho que acabei de descobrir uma fonte de ouro pra nós.

Ambos desceram até as profundezas de Aquarium, onde já não há monstros, onde a água é mais escura, onde Gatts foi largamente derrotado por Davien e seus amigos e onde um homem aguardava numa pequena caverna, sentado como se estivesse curtindo o fundo do mar.

–Não estou detectando nada lá dentro — Dark Corpse sussurrou para o garoto — Ele deve estar sozinho, aqui no fundo do mar... Um alvo perfeito. Acho que já é hora de você aprender a pegar seu próprio dinheiro.

–Mas... — Evil Corpse parecia relutante, apesar do sorriso encorajador do colega — Você quer que eu... Roube ele? E se tiver Gatunos lá dentro? Ainda não dominei todas as habilidades da Mizu-Ori...

–Bah, deixe isso pra lá. Você só vai ali jogar uma moral pra ele e ver a grana aparecer. Se alguma coisa der errado, eu apareço e acabo com ele. Não há com o que se preocupar.

–Ãh...

Rakyaat olhava o rapaz. Vestia uma armadura leve verde, no formato usado comumente por Gatunos, com uma bandana amarela na cabeça. Já ele tinha sua armadura azul-claro de Quest Única, uma espada igualmente única e habilidades especiais mas mesmo assim... Ele tinha medo. E a idéia de assaltar um outro jogador ainda era algo novo demais para ele.

–Tá, tá — Dark Corpse resmungou impaciente — Vem, eu te mostro como faz. Mas só desta vez.

Rakyaat assentiu e, agradecido, seguiu o mentor até a entrada. Assim que os viu, o Gatuno se levantou e ficou em posição de defesa, uma shuriken pronta na garra. Dark Corpse sabia o que ele olhava: o diamante vermelho no alto de sua cabeça.

–Ah... Que bom saber que as pessoas me recebem com o devido respeito — comentou com satisfação — Olá, meu amigo. Pode baixar esta arma, não estou aqui para bater em ninguém. Sou só um viajante perdido, não tenho dinheiro, só tenho essas duas armas aqui... — ele sacou as as pistolas casualmente — E algumas skills que são excelentes pra matar Gatunos, mas fora isso, não tenho nada. Você poderia me dar uma força — sorriu sarcasticamente — Não?

O Gatuno o observou, mas logo relaxou e baixou a garra, devolvendo a shuriken ao inventário.

–Eu só tenho essa garra — respondeu — E umas shurikens. Não tenho nada para ajudar, sinto muito.

–Será mesmo? — Dark Corpse falou com um olhar de falsa acusação — Hm... Você tem cara de mentiroso. Será que o deus dos mares pune mentirosos? É... Parece que vai sobrar pra mim de novo. Dê-me o que você tem — seu tom de voz mudou — Ou vai morrer aí mesmo.

–Vou ter que concordar com você — o Gatuno disse sem o menor sinal de medo — Vou acabar morrendo aqui, mas você vai junto.

Dark Corpse riu.

–É mesmo? Não adianta blefar. É muito simples, se você não pagar, eu vou te matar...

–Dentro dessa caverna, há um monstro incrivelmente forte — o homem o interrompeu — Se tentar qualquer coisa, eu pulo lá dentro.

Dark Corpse estreitou os olhos. Não parecia um blefe.

–Você está mentindo — disse sem muita convicção. O Gatuno deu de ombros.

–Então atire uma vez. Tenho uma esquiva aqui que posso usar pra me jogar rapidamente. E eu juro pra você, meu chapa, se chegar a esse ponto, eu vou puxá-lo também. Então finalmente vou descobrir o que foi que matou meu amigo.

–Que tipo de monstro é esse? — Evil Corpse perguntou timidamente.

–Não faço idéia — o homem lhe disse — Só sei que é muito forte e matou muitas pessoas de uma vez, e não será nem um pouco difícil para ele acabar com vocês. Estou aqui para avisar os jogadores.

Ele os olhava com uma indiferença hostil, mas sem demonstrar medo e com perfeita convicção no que falava. Dark Corpse resmungou e deu-lhe as costas, antes que perdesse o controle. Voltou a passos longos para a subida de Aquarium, com Rakyaat atrás de si. Quando passaram pelos monstros(Dark Corpse atirando apenas nos que impediam a passagem) e chegaram a Aquarium, o menino se manifestou.

–Pra onde vamos? — ele quis saber, estranhando não terem voltado a ganhar nível.

–Chamar o Italo — disse o pistoleiro — Se tem um monstro forte ali, certamente tem Experiência e itens bons para nós. E o Italo vai querer saber disso. Quem sabe aí você pega seu terceiro avanço — Dark Corpse riu para ele, e os dois subiram.

Passaram bem em cima da prisão, onde um rapaz de armadura ainda corria dos tubarões. Eram agora pelo menos sete, todos nadando em perseguição ao grande guerreiro Gatts. Kiara surpirou para si mesma, cobrindo o rosto com as mãos.

"Vai ser uma longa estadia...", pensou ela.

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Fazia silêncio na pequena caverna de teto alto. Só o que se ouvia era o crepitar das chamas nas tochas(ou o grito da menina morrendo ali fora, mas isso era para quem tivesse Detecção Auditiva lá no alto). Isso era estranho porque Leslie estava ali. E acordada.

De fato ela estava sentada no chão, de pernas cruzadas usando sua armadura nova, um conjunto prateado com símbolos e asinhas em dourado. Só as luvas, vermelho-sangue, e a maça, de cabo metálico com uma esfera negra cheia de pontas brancas, não combinavam. Tinha um capacete prateado que estava guardado no inventário, pois a menina o achava desconfortável, permitindo que os cabelos castanhos caíssem numa tira a um dos ombros. Normalmente, Leslie falava e opinava muito, mas permanecia atenta e quieta como uma criança cujo pai fosse o rapaz sentado ao lado.

E havia, sim, uma figura sentada ao lado dela. Calças azuis, era da classe dos Lanceiros, mas ao contrário de sua acompanhante, não usava armadura, e sim um casaco azul e calça. Tinha capuz, mas ele não o usava agora. A lança de lâmina dupla lembrava um garfo de duas pontas, serrilhada nos gumes, e era levada às costas do rapaz, brilhando com uma fraca luz roxa. Nível 131, quarto avanço, líder do clã mais temido por muitos jogadores. Quem estivesse ao lado dele tinha realmente motivos para se calar. Mas não era por causa dele que Leslie estava quieta, e sim pelo velho de tanga tossindo à frente dela.

–Perdoem-me, é o pulmão — recuperou-se o chefe Balrog — Creio... — ele tossiu mais duas vezes — Creio que possamos começar. Como está indo a sua jornada, Italo?

–Legal — Italo lhe respondeu.

–Bom. É uma honra para mim saber que você, que chegou aqui como um aprendiz tentando usar um cajado como espada, hoje é o líder de um clã. E quem diria — seu olhar caiu na menina — Um de seus membros é minha gentil aprendiz Leslie. Você tem um excelente guerreiro ao seu lado.

–Sim, ele me deu essa armadura e essas botas! E me ensinou um monte de Quests legais pra me upar, ah, dropei até um capacete! Só que ele é chato, incomoda e eu fico sentindo o cabelo.

–Não sinto isso — chefe Balrog riu com cordialidade, alisando seus cachos feitos de penas. Então voltou-se para o rapaz — Como líder de um clã, você deve saber que haverá uma disputa pelos territórios do mundo, em que somente um clã pode tomar cada um.

–Sim, sei bem disso, senhor.

–E você estará aqui para lutar por Perion? Irei ver seus lembros combatendo aqui, para que seu clã represente minha terra e a terra dos meus demais aprendizes?

–Hm, não. No momento, voltamos nossos olhos para outras terras. Pretendemos lutar e conquistar Edelstein.

–Hm — fez o chefe — Edelstein. Bem no leste, o sol nasce antes lá do que em qualquer outro lugar conhecido. Mas na maioria do tempo ele fica por aqui em Perion, fritando nossos habitantes. Eu disse ao Grendel que queria a floresta... Mas um bom guerreiro reconhece a derrota. Também já me acostumei com essas pedras duras, e não me arrependo de ter ficado aqui, no final.

–Peguei uma Quest que diz que Perion já foi uma grande floresta — Leslie comentou animada — É de um arqueólogo chamado Winston, me fez juntar um montão de fósseis e disse que tinha muitas árvores por aqui há um milhão de anos. Eu não sei como isso é possível, já que o jogo só começou há uns dois meses, mas mesmo...

–Decididamente estou vivo há mais do que dois meses — chefe Balrog falou rapidamente, aproveitando a pausa da garota para respirar — E nunca vi uma só árvore nestas rochas. Agora, em Edelstein, sei que elas existem em grande quantidade. Vocês provavelmente vão ter alunos meus como aliados — acrescentou — Mas também enfrentarão alguns que foram meus aprendizes. Devem me entender se eu não torcer pra nenhum dos lados — ele encarava Italo nos olhos — mas posso lhe oferecer algo que talvez lhe dê vantagem. Será difícil e exigirá todo o seu treinamento. Sei que você consegue, mas preciso de sua confirmação.

–Se o senhor acha que sou capaz, não vou discordar — Italo disse com solenidade.

–Muito bom. Então tenho uma nova missão para lhe dar. Você é meu aluno mais forte, é quem mais se destacou dentre todos os demais. Preciso de vários guerreiros capazes para isso, e por isso você está aqui.

–E eu, estou aonde? — Leslie disse com certa timidez.

–Lamento, esta missão só está disponível para Lanceiros.

–Ah...

–Há outras missões para seu estilo de luta — chefe Balrog disse para ela num tom menos automático — E não é seu momento por enquanto. Italo, devo avisá-lo de que esta missão envolve um caminho diferente de tudo o que venho lhe ensinando. É sobre o caminho das trevas, não lutar contra ele, mas seguí-lo e usar a magia negra para aumentar suas forças. É um tipo muito perigoso de magia que pode dominá-lo e matá-lo, mas também pode te deixar mais forte se você souber como usar.

–Certo... — Italo não pôde deixar de mostrar uma leve hesitação surpresa na voz.

–Há uma pequena história. Nos tempos antigos, o primeiro Lanceiro era calado, orgulhoso e corajoso. Tinha dois grandes amigos e lutavam sempre juntos até o dia em que escolheram caminhos diferentes, e seguiram suas vidas. O primeiro Lanceiro usava suas armas longas com precisão e mantinha os maiores inimigos longe, assim, ao 70º bimestre de luta, foi escalado para lutar contra dragões. Por volta do 120º, no entanto, ele traiu os demais e usou a energia dos dois primeiros Gatunos para entrar numa busca por algo novo e poderoso. Ele entrou num nível muito profundo de magia negra, matou muitos e e nada o impedia. Por fim, foi parado pelos seus antigos companheiros: o primeiro Cavaleiro Branco caiu derrotado, mas o primeiro Templário desferiu o golpe fatal, recebendo em seguida um reflexo de magia maligna que o matou.

Italo e Leslie ouviam atentamente. O chefe Balrog fez uma pequena pausa, que se prolongou por causa de um acesso de tosse. Recuperou-se e continuou:

–Aquele impacto instintivo de magia pôde matar um dos melhores guerreiros, mas não podia curar o golpe causado por uma espada. O traidor sangrava e agonizava, mas antes de morrer, o primeiro Bispo teve piedade e expulsou a magia negra daquele corpo, para que a alma pudesse ser absolvida e descansar em paz.

–Uau — fez Leslie.

–Assim terminou sua busca pelo mal. O primeiro Templário, que morreu para derrotá-lo, foi consagrado Herói. O primeiro Cavaleiro Branco jurou eliminar o resto do mal que causara a morte do amigo, mas sabia que não poderia fazer isso sem o risco de sofrer a mesma morte. Sabia que era preciso conhecer magia sagrada para enfrentar a maligna, então pediu ao primeiro Bispo que o treinasse, tornando-se assim o primeiro Paladino.

–Quanto ao Lanceiro, que chamavam de Cavaleiro das Trevas ou — nisso o chefe Balrog fez uma longa pausa, com uma expressão divertida para o rapaz — Cavaleiro Negro... O primeiro Bispo anos mais tarde aprenderia a abrir os portões do paraíso e lá veria a alma do antigo companheiro. Então os anos se passaram e ele também morreu, e o mal foi eliminado para sempre. Temos então um final feliz, não é?

–Você não falou do que aconteceru com a magia que o Bispo expulsou — Italo lembrou-lhe, e o chefe Balrog assentiu satisfeito.

–É aí, meu jovem aprendiz, que sua missão começa. Recentemente, senti a presença de uma magia muito forte e conhecida, que só podia ser aquela magia negra formando-se novamente. Pensei em destruí-la... Mas o Dark Lord de Kerning achou que seria melhor se aproveitássemos para estudá-la. Veja, o mal nos ataca cada vez mais, então seria uma grande idéia nós o entendermos. Compreender seu inimigo é o primeiro passo para derrotá-lo...

–...mas compreendê-lo demais pode transformá-lo em aliado, então ambos servirão ao mesmo mal — completou o rapaz — Sim, você me disse isso uma vez, e ainda me lembro.

–É bom mesmo, pois você deve compreender a magia negra, mas deve tomar cuidado para não aprofundar-se demais ou irá acontecer o mesmo que aconteceu com o primeiro Lanceiro. Um grande cavaleiro, salvador de muitos territórios, corrompido pelo mal que ele mesmo um dia lutou para destruir. Ele era mais velho naquela época do que você é hoje, Italo, e não hesito em dizer que ele tinha muito mais habilidade do que você tem hoje. Mesmo assim, o mal o dominou. Então por que, ainda assim, você aceita essa missão?

–Porque... Você disse que precisa de vários guerreiros — disse-lhe Italo — Deve significar que talvez mande mais pessoas, então não é como se eu fosse lá sozinho pegar o poder do cara.

–Sim — o chefe assentiu satisfeito — Não posso mandar uma pessoa sozinha, por mais forte que parecesse, o Dark Lord de Kerning foi muito firme nisso. No plano, a combinação linear de quaisquer dois vetores forma um terceiro também pertencente ao plano.

–O quê? — espantou-se Leslie. O chefe Balrog foi tomado por um forte acesso de tosse.

–Desculpem... No plano, o Dark Lord vigia o poder maligno, enquanto eu procuro os guerreiros com maior capacidade. Não tem sido fácil porque é como se meus melhores guerreiros lutassem na base da pirâmide, cada um tão forte e competente quanto o outro. Já você, Italo, está no topo, isolado dos demais. Ainda não sei quanto aos outros — ele sorriu — Mas já sei que você será um deles, então vamos começar pelo mais fácil que é mandar você logo.

Italo não respondeu, deixou o chefe Balrog terminar suas tossidas sossegado.

–As possibilidades são infinitas — continuou — No fim a magia negra não é muito diferente dos outros tipos de magia, só tem um potencial muito maior e é mais... Instável. Dependerá muito da pessoa para conferir extremos poderes.

–Que tipo de poderes? — Italo quis saber, interessado.

–Ah, isso você vai ter que perguntar ao Dark Lord de Kerning. Sei sobre os guerreiros e suas armas e armaduras, mas este tipo de poder envolve muito mais a área dele do que a minha.

–Não deveríamos ver o Grendel? — foi a vez de Leslie perguntar — Sou meio novata em bruxos, mas sei que é o Grendel, o Muito Mais Velho que Você, quem entende de magia. Se bem que só sei de ele ensinando magias de gelo, fogo e essas coisas, nunca sobre trevas ou magias que podem dominar sua mente ou coisa assim, ele me parece tão sábio e correto e tudo, é, não deve saber mesmo...

–Grendel saber sobre magia das trevas? — chefe Balrog riu com vontade — Você está menos errada do que imagina, Leslie. Mas ele não dedicou a vida a estudá-las, nem passou anos nas trevas para compreendê-las e lutar melhor contra elas, nem é ele quem recusa os convites pra sinuca porque está ocupado enfrentando monstros malignos de outra dimensão. Não, o Dark Lord conhece muito mais as trevas do que eu, vocês ou aquela menina que fingiu morrer logo ali e nenhum dos dois escutou nada. Ele dedicou a vida a isso, então é justo que seja ele quem explique.

Veio a pergunta final, se Italo aceitava definitivamente ou não. O rapaz aceitou e o chefe assentiu.

–Muito bem, eis o que você precisa fazer. Encontre o Dark Lord em Kerning, ele lhe falará mais sobre a magia. Depois... Tenha uma boa luta — disse, solenemente, e se calou.

Assim que deixaram a caverna, Leslie pôs-se a falar:

–E então, o que você acha? — perguntou como se quisesse compensar os minutos que passara sem falar — Será que vai ser mesmo uma grande Quest? Ah meu Deus, será que você pode morrer nela? Seria ruim porque eu vou também, então eu poderia morrer também! E eu não quero morrer, eu quero viver! Você não vai morrer, vai?

–Provavelmente não — Italo lhe disse — E vai ser sim uma grande Quest. Viu como o chefe Balrog falou hoje? Ele não costuma fazer esses discursos, geralmente é "vai até ali e mata 3567 Tocos" e aquelas Quests de cotoco. Quem sabe eu não ganho uma skill legal?

Seguiram até o táxi para uma rápida viagem a Kerning. Leslie foi falando o tempo todo, sobre a Quest, sobre ela não poder participar e sobre a necessidade de comprarem um bom analgésico pro chefe Balrog.