Manual de sobrevivência do Apto. 408
10 09 - Aquele em que não é possível esquecer
Notas iniciais
Ah... o tempo! Soberano de tudo e todos. Querido (a) leitor (a) há quanto tempo não nos vemos, não? Há quanto tempo não o divirto com essas adoráveis peripécias, não o cerco com essa narração humilde, porém feita de coração aberto.
Bom, dado a demora na continuidade dessas memórias, sinto-me no dever de fazer uma singela retrospectiva para que não nos percamos muito e possamos avançar com qualidade. Sendo assim, retomemos os fatos mais importantes narrados até aqui:
1. Há dois anos fui obrigado por Uzumaki Naruto a conviver com sua terrível prima.
2. Também há dois anos nossa convivência é norteada de desaforos e brigas, trafegando entre gentilezas não ditas executadas por ambas as partes.
3. Recentemente juntos, promovemos uma guerra de tomates, perdemos um bebê no metrô, sua futura colega quase me viu engravidar o ralo, brigamos no café da manhã, eu tive um acidente de trabalho, sua colega cuidou de mim (mesmo que a contragosto), tive Juugo como denunciante dos meus sentimentos, ganhei uma festa surpresa atrasada de aniversário, fizemos uma promessa e, por último, mas não menos importante, estabelecemos uma trégua.
Trégua?
Recuperado os principais pontos, sigamos daqui então...
Trégua?
Palavra desejada por metade do mundo em guerra. Palavra deseja por mim diante de uma Karin em guerra.
Sim, uma Karin em guerra.
Uma Karin em guerra contra mim?
Caro(a) leitor(a), para que não lhe pareça confuso o relato, voltemos há algumas semanas atrás para que você possa compreender melhor do que se trata.
— Vem, anda! — Na calada da noite, aquela voz denunciava algo.
É estranha a sensação de se estar dormindo, mas permanecer em alerta. Era como se meu cérebro não se desligasse por completo e ao som daquelas duas palavras abri os olhos prontamente.
— Vem, anda! — A voz insistente repetiu.
Aquela voz melodiosa e sorrateira que eu conhecia muito bem. Era somente por saber que sua futura colega ainda estava na rua que eu ainda não tinha pregado olho imaginando onde pudesse estar aquela hora da madrugada.
Levantei-me em direção a porta do quarto pé ante pé, com o coração apertado e acelerado, abri uma pequena fresta da porta para compreender o que se passava ali.
Era madrugada de domingo para segunda. Apesar de sua futura colega de apartamento ter essa pré-disposição para festas e baladas, sabemos bem que a madrugada de domingo para segunda deve ser usada somente para descansar e não farrear. Afinal, é na segunda que se inicia tudo de novo: trabalho e faculdade.
Contrariando assim essa lógica, Karin não só farreava quando devia descansar, como também não estava só, indo, portanto, contra a regra máxima desse apartamento.
1ª regra máxima do 408:
Não se aceita aqui visitas íntimas de qualquer tipo! (se é que entendem a que me refiro quando falo "intima")
Caso sua amiga queira ter algum encontro fortuito, que o tenha em um... Só a possibilidade de mencionar tal palavra me embrulha o estômago, não porque eu me importe com qualquer encontro que ela tenha. Acho que isso já ficou bem claro no episódio dos tomates, mas só porque aqui não é lugar para isso e acabou.
— Karin... — Foi então, graças à meia luz do abajur da sala através da pequena fresta da porta, que eu vi uma cena que por si só me reviraria mais que o estômago, que me reviraria por inteiro, de ponta a cabeça, de cabeça para baixo.
O almofadinha da minha festa surpresa e Karin se beijavam.
Aquela cena me desorganizou.
Senti um profundo ódio percorrer meu corpo, um ódio que me invadia e transitava feito uma corrente elétrica do fio de cabelo até o meu punho. Tive um ímpeto de entrar na sala esmurrar aquele mauricinho ridículo, pondo-o para fora da minha casa a ponta pés.
Mas não o fiz.
Encostei-me na porta e pedi a Kami-sama discernimento para aceitar as coisas que não posso mudar. Afinal, do que adiantaria socar a cara daquele sujeito? Do que adiantaria abrir-lhe um buraco na face? Esse prazer sádico só serviria para você leitor me acusar.
Sim, você mesmo!
“Ah lá o machista do Suigetsu que sucumbiu ao ciúme doentio... Olha como ele é”.
Sei que você diria isso, caro leitor, sabendo disso então não vou lhe dar esse prazer. A partir desse propósito, modulei minha respiração e voltei a me deitar.
Não dormi.
Não conseguia mais. Tentava adivinhar no silêncio daquelas falas baixas o diálogo que ali se desenrolava. Tentei captar o som. Absorver, mesmo que de longe, as palavras.
Mas nada.
Nadica de nada consegui ouvir.
De olhos abertos estava, de olhos abertos fiquei até a fatídica manhã. Aquela noite em claro me trouxe pela primeira vez em dois anos a razão que sempre me faltou.
A manhã chegou e quando meus olhos recaíram sobre os de Karin na cozinha, eu tive a certeza de que cumpriria o meu propósito.
— Bom dia! — respondi com sorriso pontiagudo, serrilhando meus dentes pela boca.
“Bom dia?”
Sim, caro(a) leitor(a), é isso mesmo que ouviu. O que esperava de mim? Um escândalo? Uma ação infundada como a que me levou ao hospital na desavença com Juugo? Uma guerra de tomates?
O que? O que?
— Bom dia — A Uzumaki me olhou de esguelha, desconfiada. Se eu não a conhecesse bem, diria inclusive que senti um estranho desconcerto de sua parte.
— Dormiu bem? — Ino perguntou de súbito me lembrando de que a desavergonhada e eu não estávamos a sós.
Ao som dessa pergunta, notei uma leve inclinação de cabeça de todas as mulheres presentes naquela mesa de café da manhã.
Kiba era o único que permanecia alheio a tudo atento ao canal de esportes. Enquanto isso, Sakura, Tenten e Tayuya (que as vezes também dava o ar da graça por ali) estranhamente pareciam ansiar pela minha resposta.
Seria impressão minha?
— Muito bem! — respondi finalmente — Como não durmo há semanas, inclusive. Bom, vou indo — disse engolindo rapidamente o copo de café e pegando minha mochila sobre a bancada. — Que tenhamos uma ótima semana, amigos! Uma ótima semana!
E lá fui eu...corroído por dentro? Sim! Dolorido? Certamente! Tive que me esforçar muito para não por abaixo a mesa do café, para não derrubar tudo no chão. Acusar Karin de imoral, sem vergonha, xingá-la dos piores nomes que só o ciúme pode proporcionar.
Sim, eu me segurei, porque daquela noite em diante jurei a mim mesmo que enterraria isso que sentia por ela. Isso que não tinha um nome. Isso que era irracional. Enterraria a sete chaves. Superaria esse desejo infantil de qualquer maneira.
Dali em diante, inexplicavelmente, minha relação com a ruiva só fez piorar. Ela mal olhava na minha cara. Passei dias e dias dando “Bom-dia” sem receber um de volta. Quanto mais eu tentava tratá-la naturalmente, quanto mais eu tentava prosseguir com nossas vidas normalmente, mais ela me ignorava, mais ela me tratava com uma indiferença sem motivo.
O que eu tinha feito, afinal?
Era ela a imoral, sorrateira que convidara um homem para nosso apartamento. Eu é que não deveria lhe dirigir a palavra, não o contrário.
Tudo se seguiu daí para o desastre.
Até que um dia simplesmente não saíra mais do quarto. Ou quando saía, evitava-me para não cruzar comigo no apartamento.
O que estava acontecendo ali?
“O almofadinha”
E foi assim numa manhã em que os insuportáveis não vieram tomar café conosco que cheguei a essa conclusão. Na verdade, os amigos de infância de Karin que antes viviam no nosso apartamento passaram estranhamente a evitar o local. No fundo, nem eles pareciam suportar o baixo astral da amiga.
O que nos leva agora a causa, razão e circunstância de seu baixo astral:
“O almofadinha, é claro.”
Era ele o culpado.
Acontece que sua futura colega tem, infelizmente, um dedo mais que podre para homens, o que resultou ao longo dos anos numa lista enorme de ex-namorados horríveis, cada um mais babaca do que outro, devo dizer. Todos eles, sem exceção, não passavam de um bando de cafajestes com quem perdeu tempo e que não davam a mínima para seus sentimentos e não a tratavam como merecia.
E, mesmo já conhecendo os tipos, era insuportável a habilidade que tinha para atrair os mesmos imbecis. Eram sempre os mesmos caras que só mudavam de aparência, mas que – no fundo – possuíam a mesma lógica interna:
“Sou cafajeste. Me ame.”
Era insuportável como eu sempre era arrastado para um panelaço de brigadeiro, pote de sorvete e comédias românticas previsíveis quando tudo terminava da pior maneira possível, porque sempre terminava da pior maneira possível.
— Karin! — Ao chegar a conclusão de que tudo aquilo não passava mais uma vez de uma decepção amorosa, pus-me a bater na porta de seu quarto.
Esmurrando a porta do quarto dela com força, exigi que reagisse e fosse para faculdade. Era um absurdo que há uma semana não pusesse os pés no campus por causa de um imbecil qualquer.
Para meu infortúnio e extrema revolta, aquela vez era a pior de todas. Nunca a tinha visto daquela maneira antes. Ela nunca deixara de fazer qualquer coisa por causa de cara nenhum e a ideia de que aquela vez fosse diferente, a ideia de que aquela vez ela estivesse realmente...
Recuso-me a escrever tal palavra neste manual. Complete você se quiser, caro (a) colega.
Só sei que tal ideia, por si só, já me atormentava, me tirava do rumo e me fazia ter vontade de esmurrar a porta com mais força até quebrá-la ao meio para fazê-la sair do quarto e dizer que aquilo era mentira e que passaria depois de algumas doses de sorvete de pistache que, por sinal, eu odiava, mas que me pegava comprando no mercado só por causa dela.
— Está na hora de sair daí, anda!
Apesar de todos os meus pedidos, o silêncio era a única resposta que Karin destinava a mim para minha mais profunda desolação. Ela, que sempre fora tão falante, não emitia um único som nem ao menos que fosse para me xingar ou me mandar ir embora.
Diante daquilo não tive alternativa a não ser tirar o paletó, afrouxar a gravata e ligar para o estágio para informar que não compareceria aquele dia em um tom bem baixo e afastado da porta para que não pudesse me ouvir.
Afinal, uma hora ia ter que sair daquele quarto e se achasse que eu não estava mais lá, provavelmente, se sentiria livre para transitar pelo apartamento. E assim dei início aquela loucura, sentando-me com as costas apoiadas na porta – no mais profundo silêncio – esperei e esperei.
O que eu não podia mais era permanecer num apartamento com uma Karin em silêncio. Ah isso eu não poderia! Aquela situação se resolveria naquele dia de qualquer jeito. Eu me encarregaria de chama-la de volta a realidade.
Depois de uma hora finalmente senti a porta abrir e me desencostei rapidamente e, antes que tornasse a fechá-la para me deter, enfiei-me tão rápido no pequeno vão entre o batente que – sem alternativas – acabou me deixando entrar.
— O que quer? — perguntou, jogando-se sobre a cama e afundando o rosto no travesseiro.
— Quero que vá para faculdade e depois vá para aquele seu emprego patético!
— Por quê? Por que te interessa tanto que eu...
— Siga em frente — completei, sentando-me na cama. — Não me interessa! Mas o aluguel não se paga sozinho e eu preciso da sua metade se quiser continuar morando perto do estágio e da faculdade.
— Pois eu não vou!
— Não seja mimada! — repreendi, puxando-a pelos ombros a obrigando a me encarar. — Não vai deixar que um simples término de namoro te impeça de cumprir suas obrigações.
— Você não entende, Suigetsu! É que...
A voz falha e trêmula dela trouxe o pior dos receios para mim e até a gravata, mesmo já frouxa no pescoço, era como se já me sufocasse. Então, era isso. O olhar dela não negava. Aquela vez não era como as outras.
— Entendo sim. — Forcei-me finalmente a abrir a boca depois de encarar as olheiras profundas que se abatiam sobre os olhos de um castanho tão vivo que me tragariam a qualquer sinal de fraqueza. — Você está...
— Não! — Antes que eu conseguisse terminar, entretanto, cortou-me rapidamente e o nó na minha garganta aliviou-se um pouco mais. — Eu não estou apaixonada por ele. — Balançou a cabeça em negação como uma criança que diz com toda certeza que não fizera algo de errado.
— Então, por que... — Tentei ensaiar uma pergunta, mas não tive coragem para concluí-la.
— Só estou cansada — decretou, fazendo-me arregalar os olhos. — Estou cansada desses caras. Eu queria ficar com alguém como... alguém como... como...
E aí reside outra dica de sobrevivência, futuro morador, caso seja do sexo masculino:
Nunca – em hipótese alguma – deixe-se levar por aqueles olhos, por aqueles cabelos, por aquela boca.
Aquela boca que parece uma afronta. Um convite que te instiga a todo o momento, mas para o qual você não tem passe livre.
— Como quem? — Ainda me lembro do modo como meus dentes, instintivamente, arrastaram-se sobre o meu lábio inferior e como sucumbi à vontade passional de agarrá-la.
Quando menos pude esperar estava sobre Karin, beijando-a como só o fiz em meus sonhos e, para o meu total espanto, ela não me repeliu – pelo contrário – puxou meu corpo de encontro ao dela e eu – que ainda me encontrava com o terno – fiquei extasiado quando aquela ruiva maluca começou a desfazer completamente o que ainda restara do nó da minha gravata e começou a desabotoar a minha camisa social branca.
Sentir suas unhas deslizarem sobre o meu tórax já fora o suficiente para me fazer perder completamente o controle. Era tudo tão bom e ao mesmo tempo tão inacreditável que mal consegui esconder minha decepção quando num lampejo – provavelmente – de consciência, tão rápido como me puxou para si, me afastou de modo ofegante como se tivéssemos cometido o maior crime do universo.
— Vai embora! — Empurrou-me de modo tão abrupto que caí com tudo no chão.
— Mas...
— Vai embora! — sentenciou, elevando o braço e apontando o indicador em direção à porta.
Desde desse fatídico dia, tive a certeza de que estava perdido. Por isso, o maior conselho deste manual e volto a repetir para que fique claro, memorize a oitava lição! Anote-a, se for preciso:
Nunca – em hipótese alguma – deixe-se levar por aqueles olhos, por aqueles cabelos, por aquela boca. Não sucumba a tentação.
Para evitar o terrível constrangimento, para evitar a terrível pergunta que veio a minha mente minutos depois que a porta do quarto de Karin fechara-se com força, mantenha distância daqueles lábios a todo custo.
Porque certamente você não vai querer passar pelo mesmo que eu. Você não vai querer fazer a temível pergunta:
“E agora? Como esquecer?”
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