Manual de sobrevivência do Apto. 408
11 10 - Aquele com a versão de Karin sobre os fatos – parte I -
Notas iniciais
Todo o tribunal concede ao réu uma oportunidade para falar. Todo o tribunal tem por hábito considerar todo e qualquer indivíduo que senta em sua cadeira inocente até que se prove o contrário. Levando em consideração, assim, as prerrogativas da democracia que as pessoas tanto gostam de falar, decidi abrir espaço de forma extraordinária para que sua futura companheira de apartamento possa falar.
Mas que fique claro que isso será breve e logo retomarei meu posto de...
“Chega! Você já falou demais! Ninguém aguenta mais as suas enrolações. Vamos direto à narração!”
“Você não pode invadir a história como se ela fosse sua. Eu sou o autor desse...”
“Livro de memórias. Já sei! Eu já sei! E todos também já estão cansados de saber de tanto que você repete isso, mas agora é chegada a hora de termos a minha versão da história e, por favor, fique em silêncio quando EU estiver narrado”
“Mas...”
“Silêncio!”
Nem acredito, leitor(a), que estamos juntos enfim. Prepare-se para uma narração livre de divagações e filosofias baratas de vida. Prepare-se para uma narração DCO: direta, clara e objetiva. Aqui não haverá lições! Nesse espaço agora ocupado por mim só haverá constatações. Isto é, fatos que se comprovaram verídicos a partir da minha observação meticulosa.
“Meticulosa? Que diabo de palavra é essa? Você sabe lá se os leitores sabem o significado dessa palavra? Você não ia ser clara, objetiva e direta?”
“Cale-se!”
Bom, creio que no último capítulo paramos bem na cena em que Suigetsu sai do quarto expulso por mim após o nosso, como digamos, beijo.
Sim, beijo.
Suigetsu e eu, após dois anos de convivência bélica, havíamos nos beijado. Sei que você que já lê essa história desde seu capítulo piloto espera que eu siga daí a narração e, para falar a verdade, eu gostaria muito de relatar logo os acontecimentos que se sucederam após esse episódio. Porém, algo me trava. Não posso prosseguir sem antes voltarmos um pouco para que você entenda bem exatamente o que está acontecendo. Ou melhor, entenda o que está acontecendo através do meu olhar.
Sei o que está pensando... está pensando que retornaremos a todos os fatos já aqui narrados e teremos sobre eles agora a minha visão.
Bom, sim e não.
Vamos sim passar levemente por alguns fatos já conhecidos, mas a maior parte do que narrarei agora é de total desconhecimento dos senhores. Afinal, Suigetsu não é um narrador onisciente e onipresente. Logo, ele não sabe de tudo, ele não está por toda a parte, ele não conhece afundo o sentimento de todas as pessoas envolvidas nessa história, incluído a mim, embora acredite no contrário.
Suigetsu é tão tapado que nunca sequer conseguiu enxergar o óbvio, mesmo que esse estivesse diante dos seus olhos...
Dito isso, voltemos então há alguns meses atrás. Revelarei agora os acontecimentos ocultados por Suigetsu. Os acontecimentos que, por desonestidade ou esquecimento, ele simplesmente não lhes contou.
Adentremos então finalmente à minha versão. Aprecia-a com moderação.
— Posso anotar o seu pedido? — Todos os dias a mesma frase. Todos os dias o mesmo sorriso forçado. Sim, eu odiava trabalhar naquela casa de chá, mas do que odiava tomar chá.
Dois anos fingindo estar tudo bem. Não é que eu odiasse a casa de chá do velho Sarutobi em si. Eu apenas odiava o fato de estar no 4º semestre e ainda não ter conseguido um estágio em direito.
Fracassada.
Era assim que eu me sentia.
— E lá estão eles de novo! Parece que alguém gosta de vir aqui na hora do lanche, não? — Não precisei voltar meus olhos para direção que Tayuya olhava para saber exatamente de quem ela estava falando.
Suigetsu e Amaya.
“Amaya”
Em minha cabeça, proferi seu nome daquela forma enjoativa que fazemos toda vez que queremos demonstrar desgosto com algo.
E era exatamente isso que A — enjoativamente falando – maya me provocava:
Desgosto.
— Você os atende ou eu... — Tayuya ponderou.
— Eu vou! — sentenciei — Vocês de novo... — disse, aproximando-me da mesa e entregando o cardápio nas mãos da colega do Hozuki.
— Sim, como todas as tardes. — Bastardo infeliz. Ele tinha o dom me tirar do sério. Eu tinha certeza de que ele gostava de me irritar.
Sim, ele gostava. A cada implicânciazinha isso ficava mais nítido.
— O que você quer? — Perguntou o escamoso insuportável a sua colega de trabalho.
— Um muffin de chocolate e um chá verde!
— Perfeito! Eu vou querer o de sempre — disse o idiota, sorrindo irritantemente, tirando o cardápio das mãos de Amaya e me entregando em seguida.
Por quê? Era a pergunta que eu me fazia toda vez que os via cruzar aquela porta. Com tantos lugares na cidade, por que tinham que tomar chá logo ali quando poderiam ir num Starbucks ocidentalizado da vida?
— Gostoso! Mas eu faço um melhor. — Tudo em Amaya me irritava, não porque ela fosse uma pessoa ruim, pelo contrário, ela era irritantemente perfeita e simpática. Era justamente isso que eu não gostava nela. E eu juro que tentei não alimentar em mim isso que chamam de rivalidade feminina, mas não conseguia gostar dela.
Ela era extremamente gentil e nada parecia tirá-la do sério.
Era exatamente o meu oposto:
Equilibrada.
Irritantemente equilibrada.
Eu não conseguiria ser daquela forma. Nunca conseguiria transpirar aquele nível de simpatia. Nunca conseguiria ser esse tipo de pessoa que agrada a todos.
Nunca.
— Sério? Quero um dia poder apreciar seus dotes culinários. — E quanto mais o Suigetsu parecia encantado com ela, mais eu queria socá-lo.
“Quero um dia – imitação com voz enjoativa – poder apreciar seus dotes culinários.”
O que tinha demais em fazer um muffin idiota? Era só um bolinho e nada demais. Eu também poderia fazer um desses se eu quisesse.
Sim, eu poderia. Afinal, meus dotes culinários melhoravam a cada dia.
Melhoravam?
Bom, é verdade que na semana passada quando tentei fazer um espaguete a marinara não dera muito certo, mas a culpa foi do Suigetsu que no meio do processo iniciou uma guerra comigo.
Inclusive, por um momento naquele dia, tive a impressão de que ele ia me... de que nós íamos nos...
Eu queria tanto que ele tivesse me...
Já afastada dos dois patéticos, balancei a cabeça em negação com a intenção de afastar aqueles pensamentos. O que estava acontecendo comigo, afinal?
— Quando isso começou? — do outro lado do balcão que dava acesso à cozinha, Tayuya disse assim do nada, disparado aquela pergunta bem no meio da minha consciência.
— Do que você falando?
— Você sabe exatamente do que estou falando, Karin! — acusou. — Você está...
— Não! — neguei veementemente. — Jamais!
Os dias se passaram e a acusação de Nomura Tayuya ainda planava sobre a minha cabeça. Sabe quando do nada você está bem e do nada lembra de algo que te desestabiliza? Assim era aquela pergunta para mim.
De qualquer jeito, tentando recuperar um pouco da minha sanidade, passei o resto da semana procurando na internet uma receita de muffin que me agradasse.
Não porque queria impressionar Suigetsu. Não mesmo. Mas porque queria provar para mim mesma que eu poderia fazer aquilo.
Foi aí que eu achei a receita que desencadearia uma série de eventos catastróficos:
— Muffin de chocolate com damasco!
Sim, querido(a) leitor(a), damasco!
Essa fruta seca exótica que o insuportável do Suigetsu já relatou brevemente aqui ser alérgico, o que ele não contou disso tudo foi como se desenrolou os acontecimentos desse evento. Em pensar que fiquei horas me dedicando para fazer o bolinho perfeito.
— Experimenta. É bom! — exigi praticamente jogando a bandeja sobre o balcão da cozinha.
— O aspecto não é dos piores, mas suas habilidades culinárias são um tanto quanto peculiares, Karin.
— Deixa de ser bobo! Eu melhorei muito.
O que aquele escamoso ridículo também não lhes contou é que, antes de passar mal de fato, ele comeu uns três bolinhos daquele.
— Interessante — afirmou engolindo o terceiro. — Tudo bem. Até que não está ruim, mas...
— O que foi? O que foi? Por que está com essa cara?
— O que tem nisso?
E foi exatamente aí, no momento em que o terceiro bolinho atravessava a sua garganta, que a desgraça aconteceu.
— Chocolate e damasco.
— Damasco? — inquiriu com a voz falha em desespero. — Eu sou alérgico!
A reação alérgica teve efeito retardado, mas quando ela veio, veio com tudo.
Do nada, vi o rosto dele se encher de manchas roxas e quando menos pude esperar, ele demonstrava uma enorme falta de ar.
— Minha garganta... fechou — murmurou sem ar
E lá fomos nós direto para o hospital. Meu Deus! Que desastre!
— Você quase matou o meu filho, menina. Seja mais atenta! — No quarto de hospital, o pai de Suigetsu, Hozuki, Satochi, surgia para conferir o estado do filho.
— Sinto muito. Ele nunca me disse que era alérgico a tantas coisas. Eu não...
— É brincadeira — tranquilizou-me, do nada, com um sorriso — Suigetsu é alérgico a uma série de coisas. A maioria dessas alergias eu mesmo descobri ao longo de sua vida Certa vez, quando ele tinha seis anos, estávamos no parque de diversões e ele teve um ataque de diarreia no meio da montanha russa por causa de um cachorro quente repleto de mostarda, acredita? Quem é alérgico a mostarda? — Acariciou a testa do filho que naquele momento dormia a base de muito soro na veia.
— Ele sempre me disse que detestava mostarda!
— Conversa! Ele não pode nem chegar perto disso — confessou — Mas não se preocupe. Ele vai ficar bem! Vai ficar no soro a noite toda e amanhã estará novinho em folha. Só precisa de uma pequena desintoxicação de damasco — sorriu de forma reconfortante.
— O senhor pode — pegando rapidamente minha bolsa, lembrei-me de uma folha de anotações das aulas de direito constitucional que estava perdida dentro dela — me dizer ao que ele é alérgico? Sabe... é para que isso nunca mais se repita.
Arriscaria dizer que o pai de Suigetsu me olhou aquele dia com certa admiração.
— Ok. Mas já vou avisando que talvez não caiba tudo nessa única folha! — brincou.
Anoiteceu.
E o pai do Hozuki tivera que voltar para casa. Na verdade, nas palavras dele:
— Eu não preciso ficar aqui. Sei que você cuidará bem do meu filho.
Gentileza dele dizer aquilo, mas a verdade é que eu queria esganar aquele bastardo infeliz. Como ele não percebeu o damasco? Como?
Está certo que eu o bati junto com o chocolate no liquidificador para fazer o recheio, mas pelo amor, ele não percebeu o gosto?
“Como você queria que eu percebesse, Karin? Eu sou alérgico a damasco e por isso mesmo não o como. Logo, não fazia ideia do seu gosto.”
“Sim, mas como foi que você descobriu ser alérgico a damasco? Em algum momento teve que comer para descobrir”
“Sim, mas isso foi na infância. Há anos não colocava aquilo na...”
“Calado! Você é o único culpado e me deixe narrar em paz. Eu não fico atrapalhando a sua odiosa narração!”
Como eu dizia...
Anoiteceu.
— Você é da família? — perguntou-me a enfermeira de plantão, entrando no quarto.
— Sim, ela é... — antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, o alérgico acordou e expressou-se entre murmúrios.
— Se você não for, não poderá permanecer aqui — explicou com o prontuário em mãos a enfermeira que não parecia muito convencida de que fossemos parentes.
— É minha esposa!
Ora vejam só, mas quem mentiu que era cônjuge de quem primeiro? Se bem me lembro no trágico episódio do Shikadai no metrô, fui descrita como uma atriz digna de Oscar por ter fingido ser casada com ele.
E agora? Quem é o verdadeiro ator? Para que prossigamos essa narração, é preciso, então, leitor(a), que se dê conta da primeira constatação aqui revelada:
Suigetsu não é e nunca foi um santo!
Mesmo que ele insista em me culpar por tudo, desconfie sempre de absolutamente tudo que ele disser. Afinal, toda história tem três versões. Nesse caso, existe a dele, a minha e a verdadeira.
— Karin, fique, por favor! Não me deixe — pediu suplicante com uma carinha de cachorro arrependido.
— Meu marido precisa de mim — juntei-me a mentira, segurando com força a mão dele — A senhora entende, não é?
— Óbvio! Se a senhora é a esposa não há o que discutir.
Ele podia ter dito que éramos primos, irmãos, mas esposa? Esposa? Por que logo esposa?
Com a saída da enfermeira do quarto, meus dedos percorreram a mão dele num carinho leve, mas persistente. E de repente eu sabia e pela primeira vez parecia que ele sabia também.
Era estranho.
Nos olhamos e estava ali todo aquele sentimento concentrado e confuso.
“Quando isso começou?”
Era a pergunta que Tayuya havia me feito. Eu não soube responder àquilo naquela hora. Eu não soube responder àquilo naquele momento do hospital, enquanto segurava a mão dele, e mesmo após todos esses anos eu também não sei responder.
Quando aquilo havia começado? Quando aquele sentimento crescera dentro de mim? Daquela forma? Naquela proporção? Em que momento você percebe que ama alguém?
— Não seja idiota. Eu não vou a lugar nenhum! — tranquilizei-o por fim.
Aquele sentimento que me movia, me impelia a sentir uma necessidade absurda de estar ali.
— Suigetsu...
— Eu sei... — e de novo e de novo e de novo. O “eu sei” foi dito por nós em tantos contextos, de tantos jeitos e formas diferentes.
Ele adivinhava o que eu falaria? Ou aquela era uma tática para me calar apenas?
— Sei que não fez por mal — completou para a minha decepção. Ah Suigetsu... você nunca entendeu nada mesmo. — Sei que é maluca, mas não assassina. Não tinha como adivinhar!
— Maluca?
E pronto. Estava quebrado o momento. Desenlacei minha mão da dele.
— Ainda bem que você reconhece que não sou obrigada a ter uma espécie de lista com as suas alergias. Ah, sinceramente, era só essa que me faltava!
— Karin! — pronunciou-se com a voz embargada. Confesso que especificamente naquele momento senti pena porque, apesar das gracinhas, Suigetsu estava visivelmente ainda meio anestesiado de medicação — Fica comigo — pediu feito um bebê chorão, abrindo espaço na cama do hospital para mim.
Um Suigetsu saudável já era insuportável normalmente, mas um Suigtesu adoentado era muito pior. Melindroso como só os homens podem ser. É impressionante como um homem doente é capaz de fazer um drama sem tamanho.
Eles não aguentariam cinco minutos de cólica menstrual. Não aguentariam cinco minutos de qualquer perrengue que nós, mulheres, passamos.
— Não vamos caber os dois aí — respondi, ajeitando o travesseiro para ele.
— Por favor!
Desarmada.
É vergonhoso admitir como aquele pedido me desarmou por completo.
— Tudo bem! — cedi finalmente, afastando o lençol e me deitando ao lado dele.
Que loucura? O quão dopado ele estava, afinal?
Fosse como fosse, não demorou muito para que seus braços logo estivessem me envolvendo num abraço apertado e supreendentemente possessivo. Não era como se nunca tivéssemos estado nessa posição antes.
Eu.
Suigetsu.
Um cobertor.
Uma conchinha.
Lembro-me bem da primeira vez que isso aconteceu. Chovia muito e eu estava paralisada no sofá da sala quando Suigetsu simplesmente surgiu de seu quarto dizendo:
— Garota medrosa! Vai ficar a noite toda aí?
— Onde quer que eu fique? — encolhendo-me no sofá, retorqui — É impossível dormir naquele quarto. Tenho a impressão de que os trovões estão na minha janela.
— Vem! — estendendo a mão em minha direção, arrastou-me pacientemente para a sua cama onde ficamos exatamente como naquele momento, abraçadinhos.
Então, dormir juntos numa tempestade passou ser uma coisa nossa. Afinal, amigos podiam fazer isso, não é mesmo? Podiam dormir juntos sem que houvesse algum tipo de maldade envolvida? A verdade é que eu só desejava me sentir segura e ali ao lado dele eu me sentia desse modo.
Por outro lado, as coisas começaram a ficar esquisitas quando, por diversas vezes, me pegava olhando a previsão do tempo, dias a fio, desejando que caísse uma chuva daquelas. Mas, quando o céu abria e o sol aparecia, uma forte decepção me inundava.
Chocado, querido (a) leitor(a)?
Eu disse a você, desde o início, que Suigetsu havia ocultado boa parte dos acontecimentos cruciais que transformaram a nossa relação no que ela é hoje, que transformaram essa amizade em algo maior.
Se até agora eu tinha sido pintada como a única vilã, a provocadora, sem moral e sem escrúpulos, saiba que ele também tem sua parcela de culpa nisso. Ele alimentou a nossa relação nesse nível a cada tempestade que abria a porta do quarto para que dormíssemos agarradinhos. Ele era tão culpado e tão responsável quanto eu por estarmos naquela situação.
Bom, quando os raios da manhã finalmente invadiram aquele quarto de hospital, eu pude sentir a respiração dele em meu pescoço.
Quente e forte.
— Karin — O chamado tinha um tom descompassado e ofegante. Embora tenha tentado me virar para ficar de frente para ele, não conseguia. Ele me apertava com força entre seus braços e me arrastava para uma proximidade extremamente perigosa.
— Karin... — repetiu de forma arrastada. Ele estava sonhando comigo?
E foi aí que eu senti mais do que deveria...
Aquele volume.
Aquele volume literalmente contra mim, me imprensando na parte traseira. Senti meu corpo esquentar na hora. Nesses dois anos em todas as nossas conchinhas de tempestade, eu nunca sentira isso antes, pelo menos não que eu lembre e, para dizer a verdade, lembrando bem desses episódios de dias de chuva, eu não me lembro de uma única vez em que tenha acordado com ele a meu lado na manhã seguinte.
Toda vez era a mesma coisa. Ou eu acordava com ele já de banho tomado bebendo seu precioso café na cozinha ou ele simplesmente evaporava do apartamento me deixando só. Essa era a primeira vez que ele permanecia ao meu lado efetivamente até de manhã, sem ter como fugir.
— Karin — pela terceira vez me chamou.
Ofeguei.
De repente, o quarto todo esquentou. Por Kami! Que tipo de teste era aquele? Era uma pegadinha?
Calor.
Calor.
Calor.
Senti-me umedecer onde não deveria.
— Karin! — Felizmente, uma outra voz — dessa vez repreensiva — no meio dos delírios de Suigetsu me trouxe novamente a realidade.
— Sakura! — respondi prontamente — Eu não... — titubeei — não consigo sair! Ele me prendeu e eu não quero acordá-lo — murmurei entre dentes.
— Eu ajudo — expressou-se a rosada, desenroscando os braços do Hozuki de minha cintura.
Depois que finalmente consegui me livrar daquela constrangedora conchinha, uma Sakura me olhava com cara de altos julgamentos já fora do quarto.
— O que estava fazendo? Já pensou se entra outra pessoa? Poderiam pensar besteira!
— Não foi por mal. Você sabe como ele fica melindroso quando fica doente.
— Sim, eu sei e também sei que você sempre faz todas as vontades dele quando ele fica assim.
— Ah, por favor! Eu faço do meu jeito né. Você sabe muito bem que não dou folga pra esse bastardo imbecil! E o que você faz aqui? Esse não é o seu setor!
— Vim ver como ele estava, ué — respondeu simplesmente a Haruno. — A sua mensagem no grupo do wpp ontem parecia tão lamuriosa.
— Não é para tanto! Eu apenas me senti um pouco...
— Culpada? Que seja! Não precisa mais se sentir assim! Ele vai ter alta hoje pelo que andei perguntando. Leve-o para casa e tente não parar na cama dele de novo. — riu de forma debochada. — Ele precisa descansar!
Meses se passaram desde os acontecimentos ocorridos no hospital. Depois daquilo, as coisas com Suigetsu só pioravam. Era horrível. Brigávamos quase todos os dias e não era mais daquele jeito leve com as pequenas implicânciazinhas diárias. Eram brigas feias como a que ocorreu no café da manhã em que o chamei de desprezível.
É certo que quando houve o triste acontecimento no trabalho que o lesionou na coluna estabelecemos uma trégua. Só mesmo uma situação daquelas para nos religar de forma mais branda.
Passei a cuidar dele religiosamente.
A fazer suas vontades do meu jeito, claro, mas fazia. Num desses muitos dias cuidando dele e de sua coluna ferrada, vocês tinham que ver o drama que ele fez quando lhe disse que ia me ausentar por algumas horas.
— Vocês não podem fazer isso outro dia? — Falou da porta do meu quarto, vendo-me escolher a roupa que ia vestir para sair.
— Não posso! Hinata não me perdoaria — expliquei pacientemente. Era incrível como um par de muletas me fez tratá-lo com delicadeza. Fosse em outros tempos, teria gritado com ele e pronto. Na verdade, talvez isso nem fosse uma questão já que provavelmente eu só sairia sem dizer para onde estava indo como sempre.
Mas, como bem os senhores acompanharam no episódio do hospital, um Suigetsu adoentado era extremamente melindroso e fazia uso como ninguém da famosa chantagem emocional.
— Tá legal então. — Deu as costas com voz desgostosa — Vou fazer minha comida!
— Acho ótimo! Até onde eu sei você não é nenhum inválido — impliquei.
— Vai lá com seus amigos! Sei que você precisa dar atenção especial a todos eles. Talvez para um deles você dê uma atenção mais especial, inclusive.
Senti a pontada de deboche de longe. Sabe aquele comentário maldoso? Aquele que te faz acender uma luz de alerta na cabeça? Mas para qual amigo, naquela mente doente dele, eu estava dando uma atenção especial?
Estranho.
Do que ele estava falando?
Apesar de incomodada com esse comentário, vesti-me rapidamente. Quando saí do quarto lá estava ele, jogado no sofá com o controle remoto da TV na mão, passando de um canal para o outro.
Amuado.
Patético.
Triste.
Agachei-me apoiando meu corpo no braço do sofá, ficando ao seu lado.
— Não é como se você fosse ficar aqui sozinho por horas. Quer que eu chame os meninos para cá?
— Não! Quero ficar sozinho!
E assim era Suigetsu. Se as coisas não fossem do seu jeito, revoltava-se. Fazia uma cara feia como se o mundo fosse acabar. Parecia um menino mimado nessas horas.
Irritava-me.
Respirei fundo e me controlei para não tratá-lo mal ou socá-lo.
Deus.
Como eu queria poder socá-lo!
Entretanto, sabia que aquela situação para ele já estava insuportável e por isso me policiava para ser compreensiva. Passar semanas sem sair de casa, a base de muletas, ele que sempre fora tão ativo, eu sabia que estava cansado de tudo aquilo, mas ao mesmo tempo eu também estava.
Se meu gênio era ruim, o dele era mil vezes pior.
— Não faça essa cara hein — falei com biquinho, acariciando-o no rosto e desenhando por cima do queixo dele. Essa era uma mania antiga e eu sabia que, no fundo, ele gostava. Durante esse período, me permiti ser mais carinhosa com ele quando estávamos a sós, confesso.
Eram os nossos raros momentos.
Foi aí que ele segurou minha mão, parando minha carícia e a colocando-a sobre sua boca, fechando os olhos para beijá-la em seguida.
Está vendo só como ele era, querido leitor? Está vendo como era irritantemente malicioso! Observe bem para não dizer depois que sou eu que provoco.
— Dá licença! — Pronto. Estava feito. Naquele instante, uma Ino acompanhada de uma Sakura, uma Tenten, uma Temari, uma Tayuya e uma Hinata, adentrava o apartamento.
— Vocês não sabem bater? — perguntou o mal humorado Hozuki.
— Desculpe, querido, não achamos que tivesse algo a ser interrompido — respondeu Ino na ponta da língua.
— Já vou indo! — Mesmo com as meninas ali, não consegui me policiar por completo, dando-lhe um beijo no canto da boca, mas que fique claro que, apesar da proximidade, o beijo foi na bochecha. Apenas. — Eu volto logo!
E lá fomos nós para a butique mais cara da cidade a fim de ajudar Hinata na difícil missão de escolher o vestido de noiva. Infelizmente, eu fui do caminho de casa até a loja de vestidos de noiva tendo que ouvir gracinhas de todos os lados.
Minhas amigas, se é que posso chamá-las assim, não me deram um minuto de paz.
— Calda de peixe? — Entortou a boca em desaprovação Ino para o vestido no corpo da amiga. — Ai não! Pelo amor de Kami, Hinata, tira isso agora. Imediatamente!
Nada agradava Ino que se achava no direito de escolher o vestido mais importante da vida de Hinata.
— Isso vai levar horas! — decretou Temari, bebendo mais um gole de champanhe e rolando os olhos de tédio. — Será que o Suigetsu vai sobreviver, Karin?
Pronto.
E lá estava de novo. A piadinha, o debochezinho, a brincadeirinha.
Todas gargalharam.
Até Hinata não conseguiu esconder o riso enquanto olhava-se no espelho pela milésima vez, com o milésimo vestido.
— O que está acontecendo entre vocês? — Curta e grossa, a Haruno questionou. — Estou percebendo algo estranho desde o episódio da alergia.
— Desde a alergia somente? — debochou Tayuya. — Pois eu já percebo essa movimentação entre eles desde que Suigetsu começou a aparecer lá na casa de chá com a amiguinha de trabalho dele só para irritar a Karin.
— Me irritar? Duvido muito! — desconversei, levantando-me da poltrona acolchoadíssima da butique e aproximando-me de Hinata para fazer um ajuste no outro vestido que colocara com um alfinete.
— Ah, por favor, Karin — iniciou Tenten — existe claramente uma tensão sexual entre vocês!
Ao som daquelas palavras, estarreci. Sakura que bebia um gole de champanhe naquele momento cuspiu-o no chão. Como a Mitsashi tinha coragem de jogar aquelas palavras no ar daquele jeito?
Todas ficaram inertes.
— Agora a pergunta que me faço é até onde vocês dois vão fingir que não há nada acontecendo.
— E o que você sugere que eu faça, Tenten? — Abri os braços perguntando-lhe, revoltada.
— Uma festa! — E foi assim do nada que essa ideia surgiu através da Yamanaka.
— O quê? — perguntei sem entender.
— Quem é aquele bonitinho da faculdade com quem você sai às vezes para passar o tempo? — continuou falando Ino, levantando-se também para me ajudar a fazer os ajustes no vestido da Hyuuga.
— Daichi... Sato Daichi — respondi ainda sem compreender onde ela queria chegar.
— Pois então — prosseguiu a loira oxigenada — Vamos dar uma festa de aniversário para o Suigetsu e convidar nosso querido amigo Daichi.
De repente, desenrolou-se na mente de todas o mirabolante plano da aspirante a atriz.
— Mas o aniversário dele foi há dois meses! — sentenciei.
— Aí está! — explicou como se fosse óbvio Ino — A nossa desculpa vai ser justamente essa, que não fizemos no dia para que ele não desconfiasse e porque perderia a graça e, além disso, acho que uma festa iria animá-lo. Ele anda tão para baixo desde o incidente no trabalho.
— Eu ainda não entendi qual seria o propósito, Ino? — questionou Temari, querendo ir afundo naquilo.
— O propósito é só um: fazer com que o Suigetsu surte de ciúmes! — completou de forma diabólica e sem pudores.
— Isso é ridículo — condenou a rosada — Por Kami! Quantos anos você tem? 15? Karin, por favor, se você está apaixonada apenas...
— Diga a ele — completou Hinata que até aquele exato momento ainda não tinha aberto a boca. — Só diga, Karin. Eu tenho certeza que ele sente o mesmo.
— Pode até sentir, mas nunca vai confessar. — Colocou-se ao lado da ideia de Ino, Tayuya. — E você precisa fazê-lo confessar!
— Não, gente, isso loucura! — falou Temari.
E ali estávamos nós:
Temari, Sakura e Hinata discordavam daquela ideia absurda. Já Ino, Tenten e Tayuya achavam que essa armadilha, por assim dizer, seria a única forma de arrancar algo do escamoso.
— Qual é, Karin! Você o conhece mais do que ninguém. Acha mesmo que ele vai se declarar com todas as letras? — insistiu Ino.
— Você pode se declarar, Karin — aconselhou-me a Hyuuga — Estamos no século XXI. Você não precisa esperar que ele dê o primeiro passo.
— Disso você entende né, querida — julgou Tenten, olhando de esguelha para Hinata — Agora, é um risco que você corre. Ele pode simplesmente te rejeitar.
Rejeitar?
— Isso seria horrível! — decretou Ino.
E eu? Eu estava perdida no meio daquilo tudo. Mal conseguia respirar. Parecia que havia corrido uma maratona.
O coração acelerado.
As mãos suadas.
A sensação de pânico me invadia.
Uma parte minha dava razão a voz da sensatez composta pela tríade Haruno-Nara-Hyuuga, mas a outra parte tinha medo do que pudesse acontecer, de que confessar ao Suigetsu meus sentimentos destruísse nossa amizade para sempre.
Eu não suportaria.
— Vamos fazer! — decidi enfim, dando razão a tríade Yamanaka-Nomura-Mitsashi.— E se ele não demonstrar nada eu só vou superar isso de uma vez por todas!
Superar?
Daqui posso ouvir suas gargalhadas, querido(a) leitor(a). Ah eu posso sim...
— É esse! É esse, Hinatinha — gritou Ino após o último ajuste que terminou de fazer no vestido da Hyuuga com ajuda de um alfinete. — Que os jogos comecem!
Eu não sabia ao certo se Ino falava dos preparativos do casamento de Hinata ou se falava dos preparativos para a emboscada que armaríamos.
Continua...
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