Manual de sobrevivência do Apto. 408
9 08 - Aquele com a festa de aniversário surpresa
Notas iniciais
Acaso você, futuro (a) morador (a), deste apartamento já sentiu como se o tempo tivesse congelado ao seu redor e você estivesse vendo sua vida passar diante dos seus olhos em câmera lenta?
Foi exatamente assim que me senti quando vi a casa de chá do velho Sarutobi envolta por bexigas, fitas e enfeites junto a todo o cenário de festa que me deixou extremamente tonto e confuso naquele momento.
— Surpresa! — Repetiam todos como se não fosse nada demais.
— Feliz aniversário! — disse uma Ino sorridente praticamente pulando em cima de mim ao tentar me colocar um ridículo chapeuzinho de festa.
— Meu aniver...
— Foi há dois meses atrás, nós sabemos — justificou Ino terminando de me colocar o ridículo chapéu — Mas não teria graça fazer uma festa surpresa no dia ou na mesma semana, porque você desconfiaria.
— Foi aí que...
— O Naruto teve a brilhante ideia de fazermos essa festa dois meses depois do seu aniversário, porque aí você não poderia estragar tudo. — Antes que Tenten prosseguisse com a explicação dada pela a Yamanaka, Karin a interrompeu.
— Eu? — A pergunta agora partia de Naruto que parecia meio sem reação diante da acusação da prima. Felizmente ou infelizmente não demorou muito para o que o loiro absorvesse aquela informação e se colocasse como idealizador de tudo aquilo. — Bom, eu só queria que você tivesse uma festa maneira, cara.
Aproximando-se para me cumprimentar agora, o loiro ergueu a mão em cumprimento, abraçando-me em seguida e me dando dois tapinhas nas costas.
— Suigetsu, eu...
— Eu sei! — Antes que Naturo denunciasse sua prima impostora e mentirosa ao pé do meu ouvido, eu cochichei ao pé do seu sinalizando que não era necessário.
— Bem, já está bom para começar a festa, não? — E lá estava quem eu menos esperava naquela – nada agradável – surpresa. Meu pai ao vivo e em rugas bem diante dos meus olhos.
O que Karin queria de mim, afinal? Me torturar? A essa altura você, caro (a) futuro desafortunado (a), está pensando:
“Mas o que a Karin fez de errado dessa vez? Pobre Karin! Só quis te dar uma festa de aniversário”.
Desde já é importante que deixemos as coisas bem claras aqui: Eu sou o redator dessa história. Sou eu que estou — por meio dessas linhas — dando este relato. Sou eu que estou gentilmente fornecendo a você estratégias para conviver com essa ruiva desequilibrada, então, em nenhum momento ouse voltar-se contra mim para fazer o advogado do diabo, nesse caso em específico, da diaba.
Motivo primeiro para entender meu descontentamento:
Meu pai e eu tínhamos uma relação extremamente complicada. Convidá-lo para essa bendita festa foi um erro.
Motivo segundo:
Eu odiava festas de aniversário. Karin sabia, mas me contrariando decidiu agir pelas minhas costas.
Ela agiu pelas minhas malditas costas!
Motivo terceiro:
Eu estava morrendo de dor e ainda tentando processar a acusação que Juugo fizera contra mim no hospital.
De qualquer modo, independente da minha vontade, a festa prosseguiu seguindo todos os rituais incômodos de uma festa.
Muita comida.
Muito falatório.
Muita bebida.
Música alta.
E... Verdades inconvenientes.
— O que você tem feito? — A pergunta de Hozuki Satoshi, senhor meu pai, veio carregada com certo ar de cobrança e já trazia consigo aquele ponto de desapontamento característico dele.
Enquanto todos se divertiam na minha festa, eu era obrigado a encará-lo no balcão da casa de chá onde o bartender fazia todos os drinks.
— Eu estou no último ano da faculdade de economia e estou prestes a...
— Eu te vi nos jornais! — sentenciou levando a dose de saquê a boca — Todas aquelas pessoas que você demitiu.
— A empresa demitiu! — retruquei enquanto passava os dedos pelo meu copo. — Só cumpri ordens.
— Hum... — sorriu de canto virando o copo de saquê finalmente. — Quando você era criança, você e seu irmão viviam brigando. Teve uma vez que num desses desentendimentos vocês brigaram tão feio que você deslocou o ombro dele, se lembra?
— Eu... — ensaiei uma resposta, mas não consegui externar qualquer palavra diante daquela história.
— Quando eu cheguei em casa e perguntei o que tinha acontecido, seu irmão simplesmente me disse que havia caído de skate. Mas eu sabia que era mentira, eu sempre soube. Naquele dia eu esperei a noite toda, desde o jantar até a hora que os coloquei para dormir para que você confessasse, para que dissesse a verdade, mas você nunca assumiu o que havia feito.
— Pai... — Aquilo tudo estava sendo difícil para mim. Meu pai era uma das pessoas que eu mais admirava no mundo. Sempre o tive como um exemplo por causa do fato dele ter criado meu irmão e eu sozinho. Portanto, decepcioná-lo daquele jeito me entristecia.
— Você não pode fugir para sempre das consequências dos seus atos, Suigetsu. Você é um homem. Não pode simplesmente se ausentar das suas escolhas e agir como se não tivesse feito nada.
E pela segunda vez no mesmo dia eu fui desarmado. Primeiro, Juugo, depois meu pai. Quem seria o próximo naquele maldito dia a me dizer coisas que eu não queria ouvir, mas que eu precisava tanto escutar?
— Um homem sempre sabe! — E foi quando meu pai, minutos depois de me dizer aquilo, se afastou para puxar assunto com o velho Sarutobi é que tive a chance de me voltar para dar atenção aos outros convidados daquela festa.
— Repito: Um homem sempre sabe! — Kiba não hesitou em dizer mais uma vez enquanto envolvia as mãos envolta da cintura de Tayuya, que rapidamente tratou de se desvencilhar.
— E o que faz você crer nisso? — retrucou Tayuya franzido o cenho.
— Vocês mulheres são muito previsíveis — decretou o Inuzuka.
— Rá! Óbvio que não! — Revoltou-se Tenten já com as mãos na cintura. Era incrível como as amigas de Karin tinham esse ar encrenqueiro de ser entranhado nas veias.
— Karin! — Assim, me deixando ainda mais curioso para entender do que se tratava aquilo sobre o que conversavam, a intragável Tayuya não hesitou em convocar a ruiva que naquele momento servia cachorro-quente para os outros convidados a alguns metros de nós. — Karin!
Ao som do segundo chamamento, a ruiva aproximou-se de nós com aquele seu velho ar de “mas o que foi dessa vez?”.
— Um homem — pausou de modo dramático a segunda ruiva encrenqueira encarando todos na roda e voltando o olhar em seguida fixamente na Uzumaki — sempre sabe quando uma mulher está afim dele?
Pronto. Estava feito.
Neste momento, querido (a) leitor(a), é preciso que você saiba apenas uma coisa sobre Nomura Tayuya: Ela sempre queria ver o circo pegar fogo e se esforçava muito para que isso acontecesse. E a julgar pelo modo como estava se esforçando aquele dia poderia jurar que era com o intuito de me irritar somente.
Inevitavelmente, aquela pergunta ecoou sobre a minha cabeça como uma granada recém-lançada. Então era disso que se tratava a roda de conversa que prendia a atenção de Hinata, Naruto, Kiba, Temari, Shikamaru, Tenten, Neji, Tayuya e Juugo aquela noite?
Karin sorriu de canto olhando para sua sádica colega de trabalho de um jeito estranho. Seu olhar continha esse universo de olhares cúmplices que as mulheres trocam entre si e que nós, homens, pouco conseguimos entender.
— Eu — Como se soubesse que sua resposta era aguardada, titubeou.
Fingindo desinteresse, desviei o olhar umas tantas vezes, direcionando minha atenção a uma partida de sinuca que se desenrolava entre Kimimaro e Sakon no meio do salão improvisado da festa.
Mas era difícil me conter. Ansiava por aquela resposta como se ela fosse o auge da minha noite. Por quê?
— Isso é relativo!
Uma reposta em cima do muro. Escorregadia como só ela sabia ser.
— É sim ou não, Karin! Sem rodeios! — Intrometeu-se Temari que até então estava em silêncio.
— Concordo que é relativo — cortou Tenten — O Naruto, por exemplo, nunca percebeu.
— Mas o Naruto é um idiota ! Não serve como exemplo! — pronunciou-se Kiba com deboche.
— Ei — ofendeu-se o loiro.
— Não falem assim de Naruto-Kun. — brigou Hinata já se agarrando ao braço do noivo em sinal de apoio.
— Karin? E aí? — Ainda esperando por uma resposta mais direta, a Nomura não se conteve e prosseguiu com seu questionamento.
O que Tayuya queria provar, afinal? Por que instigava Karin daquela maneira?
— Um homem percebe quando quer — disse finalmente a Uzumaki, apoiando a bandeja de cachorros quentes sobre uma mesa — Percebe quando está atento o suficiente para ler os sinais. Quando Naruto abriu a mente para perceber os sinais, as coisas com a Hinata fluíram, não?
— Mas alguns homens são de fato muito tapados! — exclamou por fim a Yamanaka com uma enorme gargalhada. — Nunca percebem mesmo se dermos todos os sinais!
Agora Ino também entrava naquele jogo de provocação. Parecia que todos sabiam de algo que eu desconhecia, mas o que era?
E assim chegamos agora a sétima lição deste manual:
A melhor maneira derrotar um inimigo é conhecer seu círculo de amizades. A melhor maneira de derrotar Karin em seu próprio jogo é descobrir o que suas amigas sabem sobre ela.
Eu sei que isso soa contraditório. Afinal, eu mesmo disse em um capítulo anterior deste artigo que não há como ganhar de Karin.
Nunca.
Porém, saber o que anda acontecendo em sua vida através de suas amigas é o único modo de ter sobre ela alguma noção. O que evitará que você fique totalmente às cegas nesse jogo.
Fosse como fosse, as amigas de Karin são mais transparentes que ela. Portanto, se algum dia quiser entender algo sobre Karin que esteja escapando entre seus dedos, algo que ela não esteja te contando. Dê um jeito de colocar a Uzumaki numa roda de conversa com suas amigas e deixe acontecer. Na maioria das vezes, a linguagem corporal e a língua enorme de suas amigas denunciarão o que está acontecendo. Infelizmente, isso não aconteceu naquele dia, mas foi a partir dele que eu senti que estava perto de saber alguma coisa que a Uzumaki não estava me falando.
— Perceber ou não perceber quando uma pessoa está afim de você não depende do seu gênero. Isso tem mais a ver com a personalidade da pessoa do que com ser homem ou ser mulher — concluiu sabiamente Shikamaru, retirando-me dos meus devaneios. — Se for alguém mais perceptivo, tanto faz se é homem ou mulher, vai perceber com certeza.
— Discordo! As mulheres são mais sagazes... — pronunciou-se agora um estranho se aproximando da roda e dando um passo em direção a Karin — mais perspicazes — continuou se aproximando de forma lenta em direção a ruiva até que... — muito mais rápidas quando o assunto é sedução — encurtou completamente a distância que havia entre eles selando seus lábios aos dela num leve, mas duradouro beijo.
Aquela inesperada imagem invadiu as minhas retinas como um furacão. Era como se de repente uma tempestade tivesse chegado num dia ensolarado.
O que estava acontecendo? Quem era aquele sujeito? E por que, DO NADA, ele saiu beijando a minha Karin?
Minha? De novo isso?
— Ei... Você! — Ela sorriu para o desconhecido que agora entrelaçava seus dedos nos dela.
Será que estavam nos vendo ali ao menos?
— Onde está sua educação, Karin? — Foi mais forte que eu. Simplesmente não pude evitar e com aquela frase adolescente iniciei minha fala como quem claramente está pedindo uma explicação.
Será que ela me conhecia pelo menos um pouco para perceber minha revolta diante daquilo?
— Esse é Daichi... — gaguejou dando a entender que não sabia como apresentá-lo.
— Um amigo de classe! Sato Daichi, prazer! — Percebendo o desconforto da ruiva ao tentar nomeá-lo, o insuportável tomou a frente e completou por ela para solucionar a indefinição entre namorado, ficante ou amigo e estendeu a mão para que eu o cumprimentasse.
E quem disse que eu conseguia fazer o movimento para cumprimentá-lo? Minha vontade era pô-lo dali para fora a ponta pés.
— De direito? — De modo altivo, indaguei só para sanar minha dúvida e estendendo a mão em resposta a contragosto, mas tendo o prazer de apertar a mão dele com bastante força.
Apertar a mão do meu rival com força era clichê? Sim. Mas não seria o ciúme o sentimento mais clichê da face da terra?
Não que eu estivesse com tal sentimento, quer dizer... A essa altura não vale mais a pena negar, pois o que senti era de fato ciúme. Mas não nos prendamos em mim e sim em Karin que havia dito que nunca mais sairia com alguém de direito e pelo visto havia mentido, como sempre.
Por fim, não era mesmo com Juugo com quem ela trocava todas as mensagenzinhas via whatsapp. Era com esse Daichi desde o início, provavelmente era com ele que ela havia saído ainda no episódio dos tomates.
— Daichi! Defenda seu ponto para explicar o motivo de as mulheres serem mais sagazes quando o assunto é paquera. — De modo inconveniente, Tayuya continuou de onde havíamos parado quando o “amigo” de Karin chegou.
Eu simplesmente não tinha estômago para ver aquilo e me afastei aos poucos para deixá-los conversando e desfrutando daquela desagradável festa.
Eu sei que nesse momento, caro (a) leitor (a), você espera que eu dê uma descrição detalhada desse serzinho, mas já vou avisando que não irei fazê-lo. Imagine-o como quiser. De mim, você só saberá que ele era feio e ponto.
Gostaria apenas que você pudesse vê-lo para não me chamar de leviano e para concordar comigo a respeito de sua feiura.
O cabelo castanho, curto e repicado davam-lhe um ar desgrenhado. Os olhos de um castanho claro eram melindrosos e pedintes. Parecia um cachorro implorando por atenção. O suposto porte atlético, sobre o qual vi Ino e Tenten comentarem dias depois, não era nada mais que resultado da esgrima que, segundo esse talzinho, foi praticada por ele desde a mais tenra idade.
Esgrima? Quem pratica esgrima nos dias de hoje? Que insulto!
Esgrima é um esporte elitista e aristocrático.
Sei que o que está pensando, futuro morador. Daqui já posso adivinhar você falando:
“Mas, Suigetsu, você faz polo aquático? Polo aquático também é elitista e aristocrático”.
Nada a ver. Polo aquático é muito mais povão que esgrima. Esgrima é um esporte almofadinha como esse... como esse:
Al.Mo.Fa.Di.Nha.
Isso mesmo! Finalmente havia entendido por que não tinha ido com a cara desse tal Daichi. Ele não passava de um almofadinha e eu simplesmente odiava almofadinhas, que desde sempre tinham tudo de mão beijada das mãos do papai rico.
— Legal esse “amigo” da Karin, não? — Pronto. Só me faltava essa! Juugo com certeza estava se divertindo com a minha aflição. Não era possível!
Aproximando-se do meu lado agora, Juugo juntava-se a mim no balcão da casa de chá.
— Não tive muita oportunidade de conversar com ele pra saber se é legal ou não — desconversei direcionando o meu olhar para mais uma partida de sinuca.
— Você está na situação 1 ou 2? — perguntou Juugo simplesmente.
— Do que você... — Sem entender do que ele falava, eu franzi o cenho.
— Hoje de tarde — continuou — eu disse a você que é possível que dois amigos se apaixonem, mas também disse que é possível que dois amigos sejam apenas isso: dois amigos. Eu me encontro na segunda situação! — decretou convicto. — Karin e eu somos apenas dois amigos. Mas gostaria de saber: Você está na situação um ou na situação dois?
Não! Aquilo não podia continuar! Eu não seria atormentado daquela maneira na minha própria festa de aniversário atrasada.
— Tchau, pessoal! — Antes que pudesse me manifestar contra Juugo, fui interrompido por despedidas que vinham da parte da frente do grande salão improvisado, sem sequer se dirigir ao aniversariante, ou seja, eu, Karin se despedia saindo do estabelecimento com o almofadinha.
Então aquela festa só tinha servido para isso? Para ela atraí-lo? Para sair com ele dali? Para poderem transar loucamente em algum lugar?
Ainda bem que eu havia jogado aquele sofá fora. Desviando rapidamente o olhar, mais uma vez fiz questão de fingir que não me importava.
De costas estava.
De costas permaneci.
Eu simplesmente não podia vê-la indo embora com outro. Aquilo me machucava mais do que eu podia admitir.
— Você devia dizer a ela — Ao perceber o meu semblante, Juugo ainda ao meu lado, aconselhou. — Diga o quanto antes!
Diante daquilo não disse nada e apenas pedi para que o bartender enchesse mais uma vez o meu copo. Se a dor na coluna, eu não poderia ignorar, pelo menos a dor que sentia naquele momento seria aplacada pela bebida.
...
Passado os momentos iniciais da festa, chegamos aquele estágio em que há em toda celebração. Aquele estágio em que as músicas são cada vez mais decadentes e a bebida já afetou tanto as pessoas que elas começam a se pegar loucamente por cantos espalhados.
Ino e Sai tendo sua recaída. (Como se agarravam! Minha vontade era pedir para que eles fossem para um quarto).
Hinata e Naruto (Não se pegavam, porque Hinata era tímida, mas se olhavam com aquele ar de peixe morto. Eca!).
Temari e Shikamaru (Os pais de primeira viagem pelo visto haviam tirado mais um dia de folga do Shikadai que provavelmente tinha sido deixado com os avós).
Kimimaro e Tayuya (Estranho casal, não? O álcool tem esse grau de imprevisibilidade. Você nunca sabe que casais ele vai formar).
Assim, foi inevitável. Todo mundo estava se agarrando e quem não estava ou já tinha ido embora ou queria se agarrar.
E eu? Bom, eu iria embora.
Não conseguia ficar mais ali. A vida era uma droga. Meu pai me considerava uma pessoa sem escrúpulos. Juugo me considerava um covarde e eu só conseguia pensar que os dois estavam certos.
Quando saí da casa de chá e me preparava para chamar um uber, vi uma figura que não esperava mais ver ali. Assim, aos poucos e bem devagar por causa da dor na coluna, fui me aproximando do banco da pequena praça.
— O que faz aqui? Por que você não foi à festa? — indaguei sentando-me em seguida ao seu lado.
A garota de cabelos róseos a minha frente tinha o olhar perdido e cara de quem tinha ficado ali durante horas.
— Eu não estava no clima! — Sentada com as pernas cruzadas em formato borboleta no banco da praça, a Haruno parecia não estar ali.
— Sakura, — ensaiei um pedido de desculpas que sabia que precisava fazer — sinto por ter dito aquelas coisas aquele dia...
— Tudo bem! No fim, você estava certo — concluiu, dando de ombros.
— Como...
— Ela morreu! — sentenciou antes que eu a questionasse — A minha paciente morreu hoje à tarde. Assim que terminei de te atender hoje, ela... — A voz da Haruno embargou num misto de choro e fala — só tinha dezesseis anos. Uma vida toda pela frente, mas não deu...
— Pessoas morrem todos os dias. Eu sei que parece insensível, mas...
— Você já sentiu que sua vida estava fora dos trilhos e que apenas uma coisa a deixava no lugar? — A pergunta soou como um pedido de socorro, daqueles que as pessoas fazem quando buscam por apoio.
— Me sinto assim o tempo todo! — declarei enquanto olhava para o chão.
— Então, o que me deixa no lugar é fazer o que eu faço, o que me deixava no lugar era saber que eu poderia ser uma médica competente e fazer algo pelas pessoas, só que dessa vez não foi assim.
— Isso não é culpa sua, Sakura! Você ainda está no começo, ainda é uma residente. Se quiser ser uma boa médica, vai precisar aprender a lidar com isso.
— Eu sei disso! — gritou indicando sua irritação com a minha fala. — Mas essa paciente foi operada pelas minhas mãos e no dia que eu a operei não tinha supervisão. Residentes não podem operar pessoas sem supervisão, mas o caso dessa menina se complicou. Tsunade e Shizune estavam em um congresso e disseram que eu seria capaz...
— Eu não fazia ideia — afirmei um tanto quanto chocado com aquela informação. — Mas isso não vai trazer consequências pra você? Vai?
— Tudo na vida tem consequências, Suigetsu. — Aquela afirmação me desestabilizou. Todos no grupo sabiam o quanto ser médica significava para Sakura, uma menina que veio de uma cidade do interior do país para realizar o sonho de ser médica. — Sakura, eu sinto muito...
É estranho não saber o que dizer a um amigo quando ele está triste e desacreditado, mas naquele momento eu era a última pessoa do mundo com bons conselhos ou alguma orientação que prestasse para dar.
E devo dizer que meu possível estoque de conselhos enfraqueceu-se ainda mais quando ao longe avistei alguém que pensei que já não estivesse mais ali.
Do outro lado da calçada, prestes a atravessar a rua, a causadora da minha aflição retornava. Vê-la de longe era sempre como estar admirando uma foto antiga à distância.
Com suas calças jeans rasgadas e uma blusa preta decotada que mostrava bem mais do que deveria, Karin era exatamente isso para mim: uma foto que eu só podia admirar à distância.
— Você deveria dizer a ela e rápido! — Sakura expressou-se já se levantando.
— Eu não sei do que...
— Eu tenho que ir, Sui!
E, assim, a cada passo em que Sakura se afastava e Karin se aproximava, eu tive a certeza.
Sim, caro leitor!
Eu, que havia sido denunciado por Juugo aquela noite, agora era denunciado por mim mesmo.
Não podia mais negar o que sentia.
— O que houve com a Sakura? — Quando finalmente se aproximou, Karin questionou-me preocupada.
— Nada. Ela só estava falando de como tinha sido o dia no hospital. — Voltei-me para ela tentando não explanar o que havia acontecido com a Haruno. — Então, uma festa hein?
Karin sorriu.
Aquele sorriso em linha reta travesso que deixava transparecer toda vez que aprontava algo.
— Ideia do Naruto!
— Sei... — Eu sabia que nunca arrancaria uma confissão dela a respeito. Confessar gentilezas não era a nossa cara.
— O que você achou? — perguntou-me, sentando-se agora ao meu lado no banco da praça.
— Você sabe que eu odeio festas! — declarei olhando o céu que estava estranhamente limpo aquela noite. Estávamos já nos aproximando do outono e as noites começavam a se tornar mais frias.
— Não da festa, mas do Daichi... O que achou dele?
— Normal.
— Normal? Só isso? — A inquietação dela parecia demonstrar certo desconforto com a minha resposta. Afinal, o que ela esperava que eu dissesse?
— Ele me pareceu meio almofadinha — confessei finalmente sem olhá-la.
— Hum... eu sabia que você teria alguma coisa a dizer, você sempre tem.
— Karin, sobre aquele dia... — Do mesmo modo que tinha pedido desculpas a Sakura, tentava aproveitar aquele raro momento de tranquilidade entre nós para me desculpar por tê-la diminuído no episódio do café da manhã.
— Eu sei. — Era sempre assim conosco. Nunca chegávamos a concluir um pedido de desculpas ou qualquer palavra reconfortante. — Eu também disse algumas coisas que... — Dando também o braço a torcer, ela também ensaiou um pedido de desculpas. Mas só ensaiou mesmo.
— É. Eu sei. — afirmei balançando a cabeça.
Nós éramos daquele jeito: Orgulhosos demais.
Toda vez que nos aproximávamos de um formal pedidos de desculpas, o outro cortava respondendo apenas com um "Eu sei". Eu era capaz de afirmar a você que o "eu sei" era a essência da nossa relação. Ele representava todas as palavras não ditas, mas sinceramente expressadas por nós no silêncio daquela complexa amizade.
Amizade?
— Frio? — Tentando fugir daquele desagradável assunto, perguntei retirando o meu casaco e já o colocando sobre ela.
— Seu pai te perturbou muito? — Sério o que deu em todo mundo aquele dia? Era uma pergunta ou uma afirmação inconveniente atrás da outra.
— Mesmas cobranças de sempre — expliquei, dando de ombros. — Eu sinceramente não sei o que ele quer de mim.
— Ele quer o que todos os pais querem. Quer que seja bem sucedido, que tenha princípios e alguns netos.
— Tem como ser bem sucedido e ter princípios? — indaguei a ela com um certo deboche.
— É claro que tem!
— Então, você está dizendo que todas as pessoas que moram naquela cobertura ali, por exemplo — apontei para o luxuoso prédio no outro lado da rua — são bem sucedidas e têm princípios?
— Não foi isso que eu disse — falou me esmurrando de leve no ombro — Parece que você sempre interpreta errado o que eu falo. Eu disse — prosseguiu pausadamente — que para algumas pessoas é possível ser bem sucedido e ter princípios.
— Duvido!
— Ah é? Pois, façamos o seguinte então: Um dia eu vou morar naquela cobertura ali — apontou — Porque serei uma advogada incrível e você verá que ainda terei meus princípios.
— Você vai morar naquela cobertura ali?
— Sim! O apartamento 408 daquele prédio já é meu, seu idiota! Você vai ver!
— 408?
— Eu gosto desse número! — Ela disse simplesmente, desviando o olhar de mim e voltando a encarar o grande arranha-céu que estava a nossa frente do outro lado da rua.
— Pois eu aposto que consigo morar naquela cobertura primeiro que você e não vai ser difícil, porque eu já estou no último ano da faculdade e você ainda está na metade. Estou a meio caminho do sucesso.
— Pois então está apostado! — declarou, estendendo-me uma mão para o cumprimento e contornando o meu queixo com a ponta dos dedos da outra mão, como se desenhasse algo por cima dele.
Há aqui uma informação extremamente importante sobre esse estranho hábito de Karin que você, querido (a) amigo (a), deve saber. Faz-se necessário a abertura desse pequeno parêntese, mas não se preocupe porque não demoraremos muito nele.
Havia três situações em que Karin contornava o meu queixo:
1 — Ela o contornava quando queria alguma coisa de mim.
2 — Contornava-o quando debochava de mim.
3 — E uma terceira quando... Bem, não falemos do terceiro caso agora, porque ainda não é o momento.
De qualquer modo, está dito aí para que se lembre. Memorize esse hábito para que não se esqueça. Talvez ele seja útil lá na frente para entender um pouco mais sobre a personalidade de sua futura colega.
Bom, voltemos agora à narração.
Um banco de praça.
Uma noite de céu limpo.
Karin e eu
Uma aposta.
Segurei sua mão antes que ela a retirasse do meu queixo. Aos poucos, fomos nos aproximando cada vez mais até que...
— A ponta do seu nariz está gelada — Ela afirmou quando, por alguns segundos seu nariz encostou no meu. Assim, desenhando uma linha imaginária da minha testa até o meu queixo prosseguiu com seu estranho gesto até se afastar por completo. — Você sabe que eu não te devolverei esse casaco, não é? — desconversou, passando agora as mãos sobre o meu casaco.
— Eu sei. — declarei, tentando disfarçar o desânimo que aquele afastamento me causou. — Por que você voltou? Achei que passaria a noite com o seu amigo.
— De repente, eu não me senti muito bem, sabe. E sua coluna como está? — desconversou novamente, voltando a despejar os olhos de um castanho vivo sobre mim.
— Melhor... Quer dizer, melhor na medida do possível, mas confesso que se começar a esfriar eu provavelmente vou sentir mais dor — Fiz-me de pobre coitado, serrilhando os dentes pela boca e supervalorizando a dor que sentia para ganhar atenção.
— Também! Não para um segundo, não é mesmo? Deveria estar de repouso, mas só fica por aí em treino de polo aquático!
Puta que pariu. Sakura linguaruda do caralho. Comunicação via whatsapp havia estragado a privacidade das pessoas, deduzi.
— Eu... Como vou descansar sendo obrigado a participar de uma festa surpresa? — esbravejei. Pronto. Éramos nós de novo. O momento de gentilezas mais uma vez tinha passado.
— Vamos para casa, bastardo imbecil! Um banho quente e um pouco da pomada que a Hinata me deu devem resolver. — Levantou-se rapidamente me deixando para trás.
— Você vai preparar meu banho? — Já de pé, provoquei aos risos enquanto tentava acompanhá-la.
— Vou é afogar você dentro da banheira! Isso sim!
E assim aquela noite se encerrou. Parecia finalmente que uma trégua tinha sido estabelecida entre nós.
Claro que do nosso jeito. E o nosso jeito era aquele mesmo:
Entre gentilezas e desaforos.
Ainda assim, seria muito afirmar que estávamos bem e que tínhamos voltado ao normal. Afinal, aquela altura eu já não sabia mais qual era o nosso normal.
O nosso normal era que éramos amigos não declarados, mas agora nós estávamos nos tornando algo indefinido. Aquela relação foi ficando densa e sólida de um jeito que nunca imaginei que ficaria.
Por agora, querido (a) leitor (a), basta você saber que depois daquele louco dia:
Cruzamos a porta do apartamento.
Estávamos em uma trégua não declarada.
Estávamos em paz.
— Suigetsu! — o chamamento continha certo ar de espanto e foi proferido da sala enquanto eu trancava a porta. — Onde está o nosso sofá?
Paz? Trégua? Oi?
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