Manual de sobrevivência do Apto. 408
2 01- Aquele com os tomates nossos de cada dia
Notas iniciais
Noites de sextas-feiras são sempre as mais difíceis no 408, porque não há comida. Na verdade, é correto afirmar que nunca há comida por aqui. Dois anos haviam se passado desde que Karin viera morar comigo e muitas coisas mudaram, mas apenas uma permanecera a mesma: o fato de que dificilmente há comida decente nesse apartamento.
Na maior parte do tempo, sobrevivemos à base de congelados e fast foods, mas nesse dia – em especial – as coisas se tornam mais complicadas por aqui, porque é o último dia útil da semana e quando não há convites para encontros fortuitos, em que alguém se proponha a pagar a conta, ou para festas em que a bebida aplaque o desejo de algo mais substancial, nós temos que nos conformar com a (des) agradável companhia um do outro.
Principalmente, quando estamos no meado do mês e o dinheiro do salário mal dá para pagar a passagem do metrô. Sim, sem dúvida, esses são os piores dias.
Por isso, quando sua querida colega for acometida por um de seus momentos sublimes ou pela síndrome do mal súbito, como gosto de chamar, e resolver cozinhar para poupar dinheiro com alguma pizza que, certamente, geraria encrenca por causa da temível disputa pelo último pedaço e que não seria proveitosamente nutritiva e saudável – como ela gosta de ressaltar –, por favor, prepare-se para tudo.
Tudo.
— Estou com fome. — Ainda me lembro de como os pés agitavam-se dependurados sobre o sofá. Ela estava com uma dessas meias esquisitas e coloridas que não entendo o porquê gosta tanto de usar e mordia os lábios daquele jeito tentador.
Já era noite e assistíamos algum reality show tão ruim que mal consigo me lembrar sobre o que era. Alguma coisa com anões cantores talvez... Não me recordo.
Só sei que diante daquela frase, olhei-a por alguns instantes e depois voltei minha atenção para TV. Apesar de sentir uma manifestação significativa do meu estômago, preferi me manter impassível, porque já previa bem onde aquilo ia dar.
— Vamos ao mercado? — Num pulo que fez com que me contorcesse no chão gelado onde estava deitado (já que aqui, infelizmente, só há um sofá), sobressaltou-se em mim cobrindo meu corpo com o dela.
Nesse momento de extremo (des) conforto, desviei imediatamente minha atenção para a TV como se o anão cantor a minha frente fosse o próprio Alex Turner na tentativa de ignorá-la, mas era impossível. Aos poucos, as mãos insistentes e olhos pedintes começaram a contornar meu queixo daquele jeito peculiar, como se tentasse desenhar algo por cima dele, me causando certos estremecimentos desagradáveis que, com certeza, notaria se não fosse tão desligada.
— Não! — Certo de que minha resposta – curta e grossa – a faria desistir, continuei tranquilamente na mesma posição imóvel.
Percebendo que eu permaneceria do mesmo modo, levantou-se e se encaminhou em seguida para seu quarto fechando a porta. Por um minuto, naquele dia, achei que havia vencido pela primeira vez.
Por um minuto. Apenas.
Assim, sem que eu pudesse calcular exatamente como tudo aconteceu, estávamos 20 minutos depois no supermercado a três quarteirões do nosso apartamento e o pior é que, sem que me desse conta também de como aconteceu, não fazíamos uma comprinha básica e, sim, uma compra para o mês inteiro.
Não sei ao certo como conseguiu me convencer. O curso de direito que fazia com tanto afinco certamente era o responsável pelo seu alto poder de persuasão. Contudo, confesso que sua capacidade persuasiva que consistia em gritar, me bater e me socar não foram necessárias dessa vez. Bastou apenas que saísse do quarto com uma roupa inapropriada para transitar aquela hora da noite pela rua.
Só porque estamos na primavera não significa que as pessoas, as mulheres, para falar verdade, sintam-se no direito de usar vestidos rodadinhos, curtos e leves. A essa altura, caro (a) futuro (a) morador (a), deve me considerar um machista. E, provavelmente, tem razão, mas é preciso que perceba que sendo Tóquio a cidade que é e sendo o horário que era, naquela sexta-feira, eu simplesmente não podia permitir que minha colega corresse um risco desnecessário andando desacompanhada por aí.
Sim, porque 19:00 horas já é um horário muito perigoso e qualquer um que disser o contrário estará mentindo.
— Wafer! — O modo como deslizava o carrinho pelo mercado era assustador. De fato, ela é um tanto quanto assustadora, às vezes (quase sempre), mas nada com que não se possa lidar eventualmente.
E devo dizer que, nessas situações, é preciso, caro (a) colega, que você deixe claro desde o início se vocês vão ou não dividir os gastos com comida.
— Não vamos levar isso! — Fui categórico e firme, devolvendo os vários pacotes de biscoito recheado para a prateleira.
Simplesmente não conseguia entender o porquê de termos que comprar aquela porcaria todo mês.
— Mas é claro que vamos! — retrucou, pegando novamente os pacotes.
— Não vamos!
— Vamos!
— Não vamos!
A partir desse momento, futuro (a) morador (a), é preciso que tome nota mental da primeira lição aqui explicitada:
Não a contrarie, em hipótese alguma. Jamais a contrarie.
O que se seguiu depois foi um jogo quase interminável de coloca os pacotes de volta no carrinho, tira os pacotes de volta do carrinho. Depois de incontáveis segundos naquele jogo de teimosia, no qual nenhum dos dois queria ceder, sua colega deu a entender de que havia desistido enfim.
— Tudo bem! — expressou-se, contorcendo os lábios em fúria. — Então, também não precisamos de café.
— Você é louca? — retorqui em pânico, pegando o saco de volta que ela acabara de atirar na prateleira. — Café é essencial!
— Essencial pra você, viciado.
Outra coisa que deve guardar sobre sua irritante colega é o fato dela não gostar de café. Isso mesmo. Você não leu errado: ela não gosta de café.
— Se não vamos levar o que eu quero, também não levaremos o que você quer.
E assim começou o jogo de empurra-empurra, no qual Karin e eu protagonizávamos uma cena ridícula no mercado, onde o saco de pó de café era o cabo de guerra através do qual mediamos nossas forças. Aquela altura o circo já estava armado e as pessoas ao redor nos olhavam com uma ponta de pavor e deboche.
(Nesse momento, você deve nos considerar bem infantis e, de fato, nós somos. Tudo o que posso dizer é que, infelizmente, minha maturidade se esvai quando estou perto dela).
Nem preciso dizer o quão errado deu isso tudo, preciso?
Também não é preciso ser muito inteligente para saber qual foi o fim daquela cena patética. Se ainda está tentando adivinhar, caro (a) colega, eu te digo:
Em questão de segundos, o saco de café, além de arrebentar bem em cima de mim e me cagar todo, também foi a causa da minha queda, pois assim que a sádica o soltara de repente (e propositalmente, tenho certeza), desequilibrei-me e caí em cima de uma pirâmide de latas de sardinha em conserva que, naquele momento, era finalizada por um empregado do mercado.
— Olha aí, olha aí o que você fez! — berrou em tom de reprovação. — Eu não entendo! É uma coisa tão simples e você complica. Quer dizer, eu sempre me esforço para fazer do nosso convívio o mais aceitável o possível, mas você se nega a colaborar.
— Karin... — Nem posso calcular quantas vezes a chamei para que encerrasse o espetáculo.
Minha vergonha era tanta que jurei nunca mais pisar naquele mercado.
— Sabe, eu trabalho tanto, estudo e me esforço e, no fim, não tenho direito a comprar alguns pacotes de biscoito que me darão o mínimo de alegria.
Inesperadamente, a coisa toda virara um lamento e eu era o babaca insensível. Todos no mercado me olhavam com indignação diante dos relatos de Karin que me transformavam num completo imbecil.
— Vamos levar seu wafer. — Mesmo furioso, reergui-me em meio ao pó de café e sardinhas em conserva e esbravejei para que ela parasse de falar.
— Acho mais do que justo!
— Eu te odeio — disse em voz baixa, pegando-a pelo braço assim que nos encaminhamos em direção ao caixa.
— Repita isso várias vezes até se autoconvencer — rebateu vitoriosa.
Por isso, desde desse dia, percebi que realmente não haveria possibilidade de que eu ganhasse uma discussão com tal criatura.
Sei que muitas vezes você, amigo (a), pensará na possibilidade de que há alguma chance de vitória e, ao longo do percurso, se irritará ao se deparar com a triste realidade.
Afinal, não há lugar mais terrível de estar do que o local reservado para os derrotados, mas acredite em mim quando digo que com Uzumaki Karin não há como vencer. Você nunca vencerá! E mesmo que um dia ache que venceu, você estará enganado. E quando vencer, o despertador tocará e você voltará para sua vida miserável com seu emprego miserável e seus afazeres miseráveis.
Deixe, então, que Karin abarrote o carrinho como uma criança feliz com seus doces, chocolates, refrigerantes e guloseimas de todos os tipos. A essa altura você deve estar pensando que era melhor ter comprado a pizza, porque não há nada de nutritivo nos alimentos citados.
Sim, você está certo de novo, mas enquanto não chegamos na parte deste artigo que explica as contradições de sua futura colega, tudo o que precisa saber até o momento é que se quiser dividir os gastos com comida: deixe que compre, deixe que seja feliz para que não lhe distribua apertões e socos no ombro, para que não comece a fazer escândalos pelo mercado afora e te envergonhe em público.
E, ao final, torça para ter saldo no cartão e torça também para que ela tenha, porque – na pior das hipóteses – você arcará com tudo sozinho e ouvirá um singelo:
— Te pago na próxima semana.
...
Agora, este é um momento em que necessito de sua total atenção, caro (a) futuro (a) morador (a), porque sua futura colega não sabe cozinhar. E, embora tente arduamente mudar este quadro, infelizmente, suas tentativas demonstraram-se infrutíferas ao longo dos anos.
Porém, uma vez que se dispõe a fazer tal tarefa, por favor, não a atrapalhe. Não tente ajudá-la, porque ela sozinha encontrará a maneira (ou não) para se entender com as panelas.
Acredite em mim quando digo que o melhor é não se envolver em seus assuntos culinários. Não relataria isso com tanta certeza se não tivesse passado por maus momentos.
— Espaguete à marinara.
Foi com um grande temor que a vi procurar a receita na internet assim que voltamos do mercado. Ainda me recordo de como estava empolgada ao dizer a especialidade italiana e de como mexera e remexera na armação dos óculos uma centena de vezes.
E aqui reside o início da contradição do segundo tópico deste manual e que, por sinal, é algo que para todo o sempre você deve lembrar sobre sua futura colega:
Ela não faz sentido.
Todas as pessoas possuem uma lógica interna. Algo sobre o qual pautam suas escolhas, seus relacionamentos, sua carreira profissional, mas Karin – definitivamente – faz parte da pequena porcentagem de indivíduos que não possuem tal lógica.
— Precisamos de doze tomates maduros, seis dentes de alho, ¼ de xícara de azeite oliva extra virgem, uma cebola branca, doze folhas de manjericão, sal a gosto, uma pitada de pimenta preta moída, ¼ de colher de chá de orégano, ½ colher de açúcar.
Mesmo muito puto depois do episódio do mercado, eu ainda estava com fome e atender a essa necessidade básica era a coisa mais importante no momento. Por isso, embarquei nessa empreitada ao seu lado e aos poucos separei cada um dos ingredientes que recitava sobre a mesa da cozinha.
(Mas assim que minha fome fosse sanada, iria me vingar. Ah, e como iria).
De qualquer modo, planos de vingança à parte, devo dizer que não íamos mal naquilo até a parte em que nos dispomos a cortar os tomates e os colocamos para ferver. Até esse momento tudo se encaminhava e transcorria tranquilamente. Contudo, agora tenho ao menos a decência de fazer o mea culpa e assumir que há em mim um espírito implicante quando se trata de Karin. A grande verdade, caro (a) colega, é que eu dedico os meus dias para infernizá-la sempre que possível.
O problema todo começou quando, em determinada parte da receita, tínhamos que esperar os tomates esfriarem para descascá-los e começar a esmagá-los com as mãos. Logo no início da tarefa ter o (des) prazer de ter as mãos dela encostando-se as minhas, na vasilha que dividíamos, de segundo em segundo – por si só – já começou a me incomodar profundamente.
Mas foi quando o celular dela tocou, naquele exato momento, que o meu espírito implicante ganhou vida para atormentá-la.
Deixando-me só na tarefa de descascar e esmagar os tomates, Karin lavou as mãos para pegar o aparelho e atender quem quer que fosse. Nesse momento, o incômodo crescente era como uma picada de abelha ou uma fisgada de agulha e me atingiu da ponta dos dedos até a nuca, fazendo com que eu involuntariamente estalasse o pescoço algumas vezes.
Afinal, uma ligação numa sexta, à noite, nunca é inocente. Principalmente, se passar das 20:00. Se passar das 22:00, então, pode contar que é uma ligação com/para fins sexuais.
— Ah, não sei. — A voz num tom um tanto quanto sensual respondia a pessoa do outro lado da linha.
Ela circulava pela cozinha estranhamente empolgada enquanto eu permanecia com cara de idiota a descascar e a esmagar os tomates.
Sozinho.
— Não, não estou fazendo nada demais.
Não estava fazendo nada demais? Como não? Simplesmente me obrigara a ir ao mercado para protegê-la dos perigos que ocorriam naquela cidade a partir das 19:00 horas (porque,como já dito anteriormente, é um horário muito perigoso). Privei-me até de saber o desfecho do maravilhoso reality show dos anões cantores para que depois afirmasse com toda calma do mundo que não fazia nada demais?
Desde quando eu sou nada demais?
O incômodo, aliado ao desejo de vingança, já se transformara numa revolta impossível de controlar, mas foi ao som da última frase que surtei, digamos. Não no sentido de surto, mas num sentido que... Ah, não há palavras para descrever o que senti ao som da seguinte da frase:
— Pode me pegar às 22:00.
Pronto. Estava óbvio diante de tais palavras que aquele era um encontro com/para fins sexuais.
“Pode me pegar às 22:00”.
Aquela frase ecoou na minha cabeça como uma granada recém-lançada e – agora mais sereno – admito que posso ter exagerado um pouco em minha reação. Não que Karin e eu tivéssemos algo, porque não tínhamos. E eu não queria ter absolutamente nada a ver com ela. Definitivamente, não. Mesmo assim, a minha revolta era devido à falta de respeito e consideração dela comigo.
Quando finalmente encerrou a ligação (com/para fins sexuais) e retornou para a vasilha onde esmagávamos os tomates, o meu surto (que só chamo de surto, porque não encontrei palavra mais adequada) alastrou-se completamente.
Instintivamente, comecei a esmagar os tomates com mais rispidez, deixando com que muitos deles respingassem um pouco sobre ela.
— Ei, cuidado! Vai com calma.
— Eu quero terminar isso de uma vez. — Confesso que mal consegui controlar a irritação na minha voz e continuei esmagando os tomates com mais força do que era necessário.
— Por que você está nervosinho? — indagou-me com desdém.
— Por que eu estaria nervosinho? — Fiz-me de desentendido. Eu poderia até gostar de perturbá-la, mas Karin também não deixava por menos. Às vezes, eu tinha a impressão de que disputávamos para ver quem faria outro perder a cabeça primeiro. — Do que você está rindo?
Outra coisa que eu não suportava era quando soltava os sorrisos de canto com ares de deboche. Toda vez que fazia isso me dava a entender que ela percebera algo que ninguém havia notado.
— De você — disse simplesmente. — Lembrei de como estava a sua cara quando estava caído no meio daquela pilha de sardinhas em lata e coberto de pó de café.
O sorriso de canto aos poucos se transformou em uma gargalhada contínua e aquilo era o suficiente para fazer meu sangue entrar em estado de ebulição. Além do mais, a constatação de que Karin nunca ria comigo e, sim, sempre de mim foi um dos motivos que me incentivou ainda mais a parar de esmagar os tomates e acertar um, em cheio, no meio da cara dela.
Assim, quando dei por mim, nós estávamos em uma guerra.
Sim, uma guerra.
As cadeiras da mesa da cozinha serviam de escudo para mim que, por vezes, tive que abaixar para não levar uma tomatada na cara. Durante o período em que tomates, alhos, pimentas e cebolas voavam, ressalto que me comportei como um exímio cavalheiro ao permitir que me encurralasse alguns minutos depois jogando azeite extra virgem na minha cara.
— Chega! — ordenei.
Apesar dos meus inúmeros apelos, continuava me jogando uma série de coisas até que finalmente consegui me impor e inverti as posições, ficando por cima dela.
— Parece que o jogo virou, não é mesmo?
— Ok. Ok. Acabou a brincadeira.
— Acabou de começar. Isso sim.
— Sui...getsu — tremulou a voz em súplica diante do pouco molho que sobrara e que eu estava prestes a jogar nela.
— Tudo bem! Eu paro, mas só se você disser a seguinte frase: “Suigetsu, você é o rei do universo e não há ninguém no mundo melhor do que você. Por isso, me rendo, porque reconheço que és o senhor absoluto deste apartamento e a partir de agora só farei o que você quiser”.
— Pro inferno!
— Errr... — retorqui, fazendo barulho de campainha. — Resposta errada! — Assim, inspirado e, provavelmente possuído pelo meu espírito de implicância, derrubei o resto dos tomates esmagados nela e me pus a enchê-la de cócegas.
— Por... favor... — As gargalhadas dela invadiram novamente a cozinha, porém tinham agora uma dimensão diferente das anteriores.
Admito que gostei de vê-la sem fôlego diante da minha tortura e de vê-la naquele estado deplorável.
O rosto todo coberto de tomate, as lentes dos óculos sujas e os cabelos vermelhos espalhados displicentemente pelo chão da cozinha traziam a sua futura colega certa graça que era delineada ainda mais pelos lábios com aquele sorriso – em linha reta travesso – que eu tinha vontade de contornar com os dedos só para verificar a veracidade. Ela toda, às vezes, me parecia tão irreal.
Talvez tenha sido naquela confusão interna entre realidade e fantasia que precisei me aproximar mais de seu rosto, deslizando ao mesmo tempo a mão sobre a coxa coberta pelo vestido rodadinho, agora sujo de tomate, curto e leve (perigoso para ser usado às 19:00 horas) só para me certificar se ela era mesmo real.
— O que foi? — Como se tivesse consciência dos meus pensamentos que se tornavam cada vez menos puros, indagou com certa inocência ou se fingindo de inocente. Karin me confundia de tantas maneiras.
— Você está com um pouco de manjericão grudado no rosto... — Não sei ao certo como aconteceu, mas o fato é que meu polegar ganhou vida própria e deslizou por sua bochecha coberta de tomate.
— Então tira...
A resposta era assim: simples, curta e grossa. Era quase uma intimação e possuía uma obviedade que me deixava confuso. Eu, um homem das finanças, me sentia ludibriado por aquela pirralha que mal estava na metade da faculdade. A verdade é que durante estes dois anos nunca consegui decifrá-la.
Quando achava que estava perto de compreendê-la, era surpreendido e tinha que recomeçar do zero. Ela era um enigma que me desconcertava dia após dia. O “então tira” no vocabulário de Karin poderia significar tudo, mas também poderia significar nada.
Todavia, antes que pudesse tirar minhas próprias conclusões e conseguisse desvendar ao menos isso, o celular dela tocara novamente e – ao som de algum hit pop desagradável – imediatamente me empurrou para atendê-lo.
— Eu tenho que ir — disse já de pé depois de encerrar a ligação. — Tenho que me tornar gente de novo — concluiu, olhando-se de cima a baixo. — Eu prometo te ajudar a limpar...
— Tanto faz — manifestei-me, fingindo pouco interesse.
Desde deste dia, então, caro (a) colega, enquanto ainda estava sentado no chão e recostado na geladeira e via Karin enfurnar-se mais uma vez em seu quarto a fim de se arrumar para seu encontro casual, cheguei à conclusão de que ela não fazia sentido.
Afinal, me obrigara a ir ao mercado e simplesmente decidira que era melhor fazer outra coisa ao invés de ficar e comer o espaguete à marinara comigo. Não que eu ligue para essas sentimentalidades, tampouco sinta que fui trocado ou algo do tipo...
Enfim, se ela fizesse sentido, teria recusado o convite.
Se havia arrumado um encontro fortuito, então, pra quê continuar me fazendo esmagar todos aqueles tomates? Eu preferiria muito mais ter assistido aos anões cantores tanto quanto Chaves preferiria ter assistido ao filme do Pelé.
Por fim, é exatamente aí que reside a contradição de Karin.
Guarde apenas as palavras da segunda lição:
Ela não faz sentido.
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