Manual de sobrevivência do Apto. 408
3 02 - Aquele em que ninguém segura esse bebê - parte I -
Notas iniciais
Depois dos primeiros e lamentáveis acontecimentos narrados durante estas despretensiosas e humildes linhas, você já deve ter percebido que, caso aceite este desafio, enfrentará uma série de obstáculos pelo meio do caminho, porém, antes que caia na ingenuidade de achar que Karin será o único empecilho que te impedirá de alcançar a paz, devo lhe informar que está redondamente enganado (a).
Explicitarei, agora, outros motivos que poderão acabar com sua tranquilidade futuramente. Bom, como já é de conhecimento geral e aceito por toda a humanidade, nenhum homem é uma ilha, nenhum homem consegue viver só. Tendo consciência, portanto, deste fato me sinto no dever de alertá-lo, pobre alma, sobre a bagagem que todas as pessoas adquirem com os anos. Sobre as malas que se agregam e das quais você simplesmente não consegue mais se livrar após certo tempo.
Alguns acreditam até que tais componentes são essenciais à vida e que sem eles não sobreviveríamos; outros chegam ao ponto, às vezes, de valorizar mais essa bagagem adquirida ao longo dos anos do que a biológica que já nos fora destinada desde o nascimento.
Mas não nos percamos muito nessa análise, porque minha intenção aqui não é discorrer sobre as origens dos laços humanos e, sim, ensiná-lo (a) a preservar e manter a sua saúde mental. Sendo assim, deixando de lado esta inútil e desnecessária linguagem metafórica, os elementos aos quais me referi têm muitos nomes e muitos rostos, mas podem ser designados por meio de uma única palavra: amigos.
Infelizmente ou felizmente, eu sempre fui cercado por eles. E, justamente por isso, posso afirmar com toda certeza que essas criaturas foram, muitas vezes, as causadoras das minhas piores mazelas. Isso, provavelmente, ficou claro na introdução deste manual quando Naruto me forçara à convivência com sua prima. O problema disso tudo é que o Uzumaki não era o único a tirar vantagem de mim e, em muitas ocasiões, posso dizer que fora o menor dos meus males.
Comecemos, então, esse relato com o significado de paz para mim. O que me trazia conforto e tranquilidade? Qual era o meu ideal de mundo perfeito? E quem foram os responsáveis pela destruição dele?
Pois bem. O meu ideal de mundo perfeito só era concretizado aos domingos de manhã. Por que aos domingos de manhã? Porque era o momento em que Karin dormia, dormia muito, uma vez que sempre chegava exausta de suas baladas o cansaço a dominava a tal ponto que necessitava recuperar todas as horas perdidas de sono.
Afinal, como ficou claro nas páginas anteriores, sua futura colega tem uma vida social agitadíssima. Desse modo, durante as sextas e os sábados, era difícil que permanecesse em casa e quando isso acontecia as coisas não terminavam bem como já foi explicitado no episódio dos tomates.
Portanto, saber que estava, ao lado, segura e dormindo já me deixava muito tranquilo e isso auxiliava na construção do meu mundo ideal. Mas não me entenda mal! Eu pouco me importava com suas saídas, menos ainda me pegava preocupado ao pensar nos perigos aos quais estava exposta durante a madrugada, tampouco me atormentava e me tirava o sono a ideia de que, no caminho de volta para casa, pudesse ser assaltada, sequestrada ou mesmo... (não gosto nem de pensar).
Não. Isso nunca abalou.
Eu era tão despreocupado com as noitadas de Karin que jamais fiz o papel ridículo de descer à rua para ver se já estava próxima ao nosso apartamento só para ter a certeza de que ninguém se colocaria em seu caminho com intenção de lhe fazer algum mal. Nunca fui patético a esse ponto.
Nunca.
Quando saía à rua de madrugada, era só para caminhar e verificar a que horas o caminhão de lixo passaria.
E, se por acaso algum dia, a irresponsável me encontrara acordado, na sala, a tomar café, quando chegara de uma de suas noitadas, fora apenas uma mera coincidência, que fique claro.
Voltando ao relato, eu só gostava dos domingos, porque Karin dormia até tarde e não me perturbava. Porém, houve um domingo em que minha paz foi terrivelmente destruída. Um domingo em que Karin não dormira até tarde e em que dois elementos – sua futura colega e o fator amizade – uniram-se para me fuder.
— Mas... Mas... Vocês já falaram com a Ino? — perguntei pela milésima vez. — Não é que eu não queira, mas é que não tenho jeito para cuidar...
— Não faço ideia de onde esteja e, para completar, a criatura também não atende o celular de jeito nenhum — expressou-se com revolta. — Ai, aquela loira aguada me paga por isso. De qualquer jeito — voltou-se para mim novamente. —, você não precisa se preocupar, porque ele é muito tranquilo e está numa ótima fase.
A figura imponente da mulher a minha frente era carregada de um alto teor persuasivo. O poder de convencimento de Temari, diferente das ameaças de Karin, não precisava utilizar de gritos e violência para conseguir o que desejava. O modo como transparecia confiança acabava fazendo com que todos a sua volta acreditassem que eram capazes de lidar com qualquer coisa.
— Na dúvida, chame Sakura ou Hinata. Sei que as duas estão meio atarefadas com suas próprias vidas, mas acredito que não se incomodarão em ajudar.
— Sem falar que a Sakura tentará sair mais cedo do plantão hoje, então, não se desespere. — Já próximo à porta, Shikamaru – que permanecera calado diante de todos os conselhos da esposa – pronunciou-se com a intenção de acender uma luz no fim do túnel.
— Shikadai, você vai ficar com o tio Suigetsu e com a tia Karin. — De forma maternal, Temari tentava explicar ao filho a situação.
Admito que ainda era estranho vê-la naquela posição. Ela que sempre fora muito durona e portadora de uma personalidade fechada e rígida; agora se desmanchava diante do filho de apenas oito meses. Tornar-se responsável por outra vida realmente produzia milagres.
— Comporte-se bem, viu! — completou docemente. — Prometo que esse almoço de negócios do papai e da mamãe não vai durar muito tempo. Bom, é isso. — Aproximou-se já colocando o menino em meu colo. — Segure-o direito, Suigetsu, ele não é uma granada — alertou-me de modo bem humorado.
Contudo, contrariando as afirmações de Temari que me transmitiram muita tranquilidade, Skikadai não parecia muito feliz ao se deparar comigo. Quando a loira colocou seu filho em meus braços, pude ver nos olhos do pequeno certo marejar que anunciava a pior das catástrofes.
— Vamos! — Shikamaru já começava a puxá-la.
Maldito. Sabia muito bem o que iria acontecer. Luz no fim do túnel é?! Sei...
— Acho que talvez fosse melhor — ponderou por um segundo.
— Nem pensar, Temari! Temos que ir.
— Suigetsu, as roupas, as fraldas, a papinha estão nessas duas bolsas. Se precisar de qualquer coisa, é só ligar e viremos correndo. — dizia em meio aos puxões do marido. — Cuidado com o carrinho! Precisa ter jeito na hora que for fechar e... — As advertências e conselhos prosseguiam incessantes e, sinceramente, já estava tão confuso e perdido que mal conseguia escutá-la. — Ai, esqueci a bomba de leite em casa. Vamos voltar!
— Não! — exclamou Shikamaru. — Ele não vai ficar com a gente, logo, você não precisará tirar leite.
— É, mas será que trouxemos leite suficiente para o dia todo? — Antes que a mulher conseguisse terminar, no entanto, o marido a puxara definitivamente para fora do apartamento, impedindo que continuasse com suas indagações.
— Boa sorte.
Estas últimas palavras do Nara foram carregadas de pena, receio e tinham um tom meio sombrio, quase fúnebre, eu diria.
Assim, quando a porta se fechou completamente, o meu maior medo se concretizara:
Shikadai – dando-se conta de que seus pais haviam partido – transformou aquela carinha triste num berreiro interminável.
— Mas que merda é essa?
E lá estava ela, a outra metade que arruinaria minha paz, surgiu escancarando a porta de seu quarto com uma dose de força e revolta. A respiração entrecortada indicava a irritação de ter seu sono perturbado. Chegamos agora à terceira lição deste manual que é, praticamente, um livro de memórias:
Jamais interrompa o sono (precioso) de sua futura colega.
Ela fica péssima quando acorda antes da hora, o humor fica intragável e a convivência – que já não é das melhores – vai pelos ares.
É claro que o jovem Nara não fazia ideia do dragão em fúria que acabara de despertar. E é claro, também, que – como não passava de um bebê – aquela raiva toda seria direcionada a mim.
— Você é cega? — respondi a altura enquanto balançava-o em meus braços na tentativa de fazê-lo parar de chorar.
— Cadê os pais dessa criança? — indagou, elevando ainda mais o tom de voz.
— Foram para um almoço de negócios.
— Almoço de negócios num domingo? — inquiriu com incredulidade. — Porra nenhuma! Isso é desculpa pra...
— Karin! — repreendi-a no mesmo instante.
Que vocabulário era aquele? Realmente, passar tanto tempo com a Tayuya não estava fazendo bem a ela. Se as primeiras palavras de Shikadai fossem palavrões, Temari nos mataria.
— Olha só — suspirou pesadamente — faça-o parar.
— Estou tentando — afirmei, colocando-o de volta na cadeirinha.
A partir daí começou outro problema, Shikadai não queria parar de chorar e olha que tentei de tudo: fiz gracinhas, rolei no chão, fiz um espetáculo de marionetes com meias, cheguei ao ponto de tirar da estante alguns de meus itens de colecionador preciosos de Star Wars, encenando uma batalha intergalática completa com direito, inclusive, a célebre cena entre Luke Skywalker e Darth Vader.
— Luke, I’m your father.
— O que fiz para merecer isso? — Pressionando os dedos sobre os olhos, Karin prosseguia com seus resmungos.
— Você também só reclama.
— E o que você espera que eu faça? — esbravejou, praticamente partindo para cima de mim. — Eu preciso dormir! Pre-ci-so — silabou. — Não é uma questão de escolha!
— Pois eu acho que é uma questão de escolha, sim, sabe... Na verdade, foi uma questão de escolha — Me impus a encurralando. — Se você não tivesse passado a noite toda na farra, não estaria tão cansada. A irresponsabilidade é sua! Não queira descontar isso em cima do garoto.
Diante da minha denúncia, o rosto de Karin nublara-se de repente e adquirira a famosa expressão boquiaberta com a qual ficava nas raras vezes em que eu conseguia desarmá-la.
— O que você tem a ver com isso? — inquiriu entre dentes. — Se passo a noite fora ou não, o problema é meu.
Enquanto perdíamos tempo com nossos atritos, no entanto, o pequeno Nara permanecia a plenos pulmões. Seu rostinho aquela altura já possuía uma coloração muito avermelhada e por um momento cheguei a acreditar que fosse passar mal de tanto chorar.
— Minha cabeça vai explodir — desconversou, colocando a mão sobre a testa. — Por que você é tão estúpido? Por que não inventou uma desculpa?
— O que? Para não ficar com ele? — perguntei abismado. — É nessas horas que a gente vê a amizade, hein, dona Karin! Muito lamentável esse seu pensamento! — reprovei um tanto quanto decepcionado. — Bom, talvez esteja com fome... Vamos ver... — pus-me a remexer na bolsa que Temari havia deixado. — Aqui! — exclamei animado, pegando a mamadeira com leite. — É só por para esquentar.
— Você ficou doido? Tudo o que você vai conseguir com isso é fazê-lo engasgar. Não vê o jeito que essa criança está gritando? — disse, dando-me, em seguida, um tapa no pescoço como se eu merecesse por não fazer uma constatação tão óbvia.
Antes que continuasse a discutir comigo, entretanto, um sorriso sonoro o suficiente para chamar a nossa atenção se fez presente. No meio de nosso conflito, sem que nos déssemos conta, Shikadai nos encarava com seus olhinhos já não tão lacrimejantes.
— Ih, acho que ele gostou disso. — Karin empolgou-se, dando-me mais dois tapas no pescoço.
— Menos. Também não precisa exagerar. — Segurei sua mão antes de levar o terceiro. — Shikadai, poxa, pensei que estivéssemos desenvolvendo uma relação de amizade — resmunguei, passando a mão pela nuca.
— Own, que gracinha. — Num instante seguinte, o jeito meio bipolar de Karin já expressava outro semblante para o pequeno.
Que criança estranha! Num minuto parecia que se esgoelaria e no outro já sorria como se nada tivesse acontecido.
— Olha essas bochechinhas, esses olhinhos, esses dedinhos... Por que eu estou falando assim? Por quê? Porque você é coisa mais fofa que eu já vi na minha vida — completou, fazendo aquela voz bizarra de gente adulta retardada. — Ai, que vontade de te morder e de te apertar até te sufocar. — expressou-se, pegando-o no colo.
Diante de tal afirmação lhe lancei um olhar de estarrecimento. De fato, Karin era assustadora quando furiosa, porém era ainda mais assustadora quando gentil.
Pena que essa demonstração de carinho demorou poucos segundos.
— Epa! Que cheiro é esse? Ah, não! — Balançou a cabeça, estendendo-me o garoto. — Aí não! Isso não é nada fofo. Não sou obrigada!
— Ei, ei. Muita calma nessa hora — respondi, recuando um passo para trás. — Acho que você precisa trocá-lo.
— Eu? Quem aceitou ficar com ele foi você, assim sendo, essa é sua responsabilidade.
— Mas você é mulher!
— O que tem uma coisa a ver com a outra? O fato de ser mulher estipula, por acaso, que já nasci sabendo trocar fralda?
— Tudo bem — gesticulei em concordância. — Vamos fazer isso juntos, ok.
Tentei contornar a situação da melhor maneira possível a fim de evitar maiores conflitos. Tudo o que mais queria naquele momento era evitar um discurso de Karin sobre machismo.
— Coloque-o aqui — ordenei meio temeroso ao estender uma toalha sobre o chão da sala.
— Vamos lá. O que você está esperando?
— Calma. Então, eu tiro e você limpa.
— Não. Nem pensar! Eu tiro e você limpa — Era impressionante como sua futura colega sempre tentava empurrar tudo o que parecia muito complicado para mim. Era de igual maneira quando tínhamos que limpar o apartamento.
De qualquer jeito, tentativas evasivas de Karin a parte, começamos a limpar o bebê Nara e tudo que me vinha cabeça enquanto passava o lencinho umedecido nele era como um ser daquele tamanho era capaz de expelir tantos gases tóxicos. Temari estava certa desde o início, pois o filho dela não era uma granada e, sim, uma bomba nuclear.
— Agora sim! — Coloquei-o de volta em meu colo. — Muito melhor.
— Você gostou do meu cabelo? Gostou? — Karin, por sua vez, finalmente parecia ter se livrado do mau humor matinal e já fazia gracinhas e mais gracinhas, permitindo que Shikadai, inclusive, puxasse seu cabelo e perdesse suas mãozinhas em seu rosto.
Era gracioso vê-lo ensaiar o que seria uma tentativa de conhecer a pessoa a sua frente através do toque. Confesso que aquela imagem, por um segundo, me trouxe uma sensação estranha. Não que me deixasse comover por experiências familiares. Imagina. Contudo, aquele momento era um tanto quanto curioso no qual – sentados no chão da sala – Karin e eu desfrutávamos da companhia um do outro sem gritos e sem brigas.
E, de repente, instalou-se em mim a ideia de que o meu mundo ideal poderia ser aquele:
Um domingo. Uma esposa. Um filho.
É claro que esse desejo absurdo perdeu-se em seguida com a seguinte frase:
— Vamos ao parque!
Por quê? Por que sempre tinha que destruir meus momentos de tranquilidade? Estava tudo perfeito: o garoto parara de chorar, o apartamento estava aconchegante e silencioso.
— Vamos! Vai ser divertido. Crianças precisam rolar um pouco na terra para adquirir anticorpos.
— Rolar na terra?
Sinceramente, o que essa desajuizada tinha na cabeça?
Embora contrário a essa proposta, não tive como negar. Simplesmente não consegui negar o pedido e, não, não foi porque me batera ou me xingara como está imaginando, amigo (a), e também não me convencera, porque decidira usar alguma roupa inapropriada.
Diante de mim, naquele instante, havia a única coisa que me fazia concordar com qualquer uma de suas loucuras sem questioná-la: seu sorriso.
Não tinha como lhe negar nada quando cismava em estampá-lo de modo tão espontâneo. Talvez seja patético admitir, caro (a) colega, mas é fato que meu mundo tornava-se dela toda vez que isso acontecia, meu mundo ideal era Karin toda vez que ela sorria.
...
E lá estava eu, em pleno domingo, num parque no centro de Tóquio, desfilando com uma blusa ridícula do Pikachu e correndo, de um lado para outro, de uma maluca que guiava um carrinho de bebê e insistia em tirar uma foto minha.
— Por favor, me deixa tirar só uma — insistiu pela milésima vez. — Eu prometo que não vou postar. Volta aqui!
O cenário não era dos piores, admito. Apesar da chatice constante de Karin, as crianças, as brincadeiras, os balões e as bicicletas compunham uma paisagem da qual não me aproximava desde os mais remotos tempos de minha infância.
Estar ali, a céu aberto, em meio a muitas as árvores e a grama, me proporcionou uma sensação indescritível.
— Não! — gritei, ainda correndo.
A expressão de Shikadai, por sua vez, não conseguia conter as gargalhadas e a empolgação de ter a tia maluca a empurrar seu carrinho como se estivesse em uma fórmula um. Com o passar da tarde, comecei a crer que alegria daquele garoto era me ver ferrado e humilhado.
— Para, Karin, sério. Não vou tirar foto nenhuma vestindo isso. — Lembra-se, querido (a) leitor, quando confessei o que o sorriso de sua futura colega significava para mim? Pois bem. Pode esquecer tudo o que foi escrito nas linhas acima.
Acredito que me excedi, por isso, peço encarecidamente que não seja levado tão ao pé da letra o que foi escrito anteriormente. Quando falei sobre seu sorriso, quis apenas ressaltar que prefiro as situações em que a causa de sua alegria não é fruto da minha desgraça.
— Eu falei para você não sacudi-lo tanto, não falei? — Irritou-me com sua indagação cheia de deboche, parando de correr.
Apesar de ter consciência de que fui avisado, não uma, mas sim várias vezes para que não brincasse de atirar Shikadai para cima, eu ainda estava revoltado com o ocorrido, mesmo sabendo que a culpa, dessa vez, era minha mesmo.
Como poderia imaginar que tal brincadeira faria o garoto soltar parte do que havia comido em cima de mim?
— Eu avisei. — Ah, como gostava de reafirmar que estava certa. — Agora não seja chato e me deixa tirar uma foto de você com essa blusa linda do Pikachu.
Sádica.
Para completar a minha desgraça, tudo o que conseguira comprar naquele parque para substituir a minha tão amada camisa fora aquela blusa humilhante. Eu deveria estar parecendo um turista idiota. Só turistas e pessoas que ainda não cresceram mentalmente usam roupas de animes.
— Ah, não faz essa cara. — tripudiou novamente. — Você prefere trocar pela minha da Sakura card captors? — indagou, balançando sugestivamente a sacola que tinha em mãos.
(Hum...Como eu disse: só turistas e pessoas que não cresceram mentalmente).
— Shika, — voltou a atenção para garoto, tirando-o do carrinho e colando-o no colo — o tio Sui não quer tirar a foto, mas ele vai ter que tirar. Ah, vai sim — corroborou sua intenção aproximando-se, em seguida, de uma senhora para pedir que nos registrasse através do smartphone. — Vamos anda... Eu vou colocar a minha blusa da Sakura card captors por cima para você não se sentir tão mal — insistiu, puxando-me pelo pulso.
Assim, na frente de uma fonte, depois de me fazer correr quase o parque inteiro, Karin finalmente me convencera a tirar a bendita foto.
— Ficou linda. Own, olha o sorriso dessa coisa fofa... Acho que vou até revelar! O que você acha? — perguntou-me com entusiasmo.
— Tanto faz — respondi sem humor.
— Pois eu acho que vocês deveriam revelar — intrometeu-se a senhora que tirara a foto. — Vocês formam uma linda família.
— Nós não... — Mas que diabos aquela velha estava dizendo? Nós não éramos uma família e isso era nítido, porque o garoto não tinha nada a ver com a gente. Ah, estranhos que se intrometem onde não são chamados.
— Só sejam mais espertos da próxima vez e tragam só o essencial quando forem sair com o bebê — alertou-nos ao observar as várias bolsas e o carrinho que trazíamos ao lado. — Sei que pais de primeira viagem acham que tudo é necessário, mas não se preocupem, porque com o tempo vocês pegarão o jeito.
— Nós não... — Ainda tentei corrigi-la novamente sobre sua interpretação errônea, porém quando mal abri a boca, ela já havia partido.
Diante disso, para meu total desagrado, o clima estranho que aquela senhora deixara no ar foi o suficiente para que um constrangimento se instalasse entre Karin e eu.
— Eu vou comprar alguns... alguns dangos — afirmou do nada, passando Shikadai para o meu colo. — Você quer alguma coisa?
— Não — respondi surpreso com o rubor em sua face.
Era impressão minha ou ela ficara mesmo corada?
De qualquer jeito, sentado na beirada da fonte com o pequeno ao colo, tentei dizer a mim mesmo que, no fundo, não desejava a vida que aquela senhora acreditou que eu tinha.
Não. Definitivamente, não.
— Ei, sabe o que eu descobri enquanto estava na fila? — Com o aspecto mais próximo do habitual, a Uzumaki surgira, após alguns minutos, como se nada tivesse acontecido – carregando seu dango – como se o clima todo ainda não estivesse estranho.
Essa capacidade de fingir e de evitar conversas complicadas era outra coisa que me irritava muito em sua futura colega. Não que eu achasse que devêssemos ter esse tipo de conversa sobre coisas que se sentem quando não se devem sentir.
Não que eu sentisse alguma coisa que não devesse sentir, só para deixar claro. Pois era óbvio que não sentia nada de diferente por ela. Confuso, não? Mas a ideia é essa aí.
— Suigetsu, está me ouvindo?
— Sim, claro. — respondi, levantando-me. — O que você descobriu?
— Vai ter uma apresentação de alguns personagens infantis na zona leste da cidade.
— E daí?
— E daí... Eu pensei que, de repente, nós poderíamos...
— Não! — Fui categórico.
— Não seja chato. Vai ser divertido! — Mostrou-me o folheto entusiasmada. — O Shika vai adorar ver a apresentação. Tenho certeza.
— O Shika ou você? — perguntei provocativo. — Por um acaso “a hora da aventura” não é aquele desenho que você me força a assistir todas as manhãs na hora do café?
— Não me lembro — desconversou, desviando o olhar. — Nem sabia que ia ter apresentação dos personagens desse desenho.
— Sério? O banner dá total destaque a eles. Sem falar que tive a impressão de te ver juntando os bonequinhos do Mc lanche feliz desse mesmo desenho. O que é muito engraçado já que você adora me censurar por causa da minha coleção de Star Wars.
— Estou juntando para o Shika e também só quero ir nessa apresentação por causa dele... A Temari disse que ele adora esse desenho.
— Ah, ela disse isso? Quando? Tem certeza que o Shikadai gosta disso? Esse mesmo que ainda coloca o pé na boca? E nem disse sua primeira palavra?
— Pois é. Pra você ver como as crianças estão cada vez mais espertas hoje em dia! E mesmo que eu viesse a gostar desse desenho, o que não é o caso — frisou, fazendo-se de desentendida. — Ele não é voltado somente para o público infantil se quer saber.
— Sei... Bom, então, — suspirei pausadamente — vamos lá!
— Sério?
— Por que não? A gente pode até aproveitar e passar no MacDonald’s depois.
— Ai que bom! — Precisei me equilibrar para não cair com Shikadai devido ao modo animado que sua tia maluca pulara em nós, depositando-me em mim, ainda por cima, um beijo bem no canto da boca.
Será que Karin tinha noção das coisas que fazia ou sempre agia impulsivamente? Não era possível que não percebesse que algumas atitudes como essa, por exemplo, eram totalmente inapropriadas.
— Só falta a princesa jujuba para minha coleção. Digo, para a coleção do Shika, afinal, eu estou juntando para ele — retomou o assunto como se nada de anormal tivesse acontecido.
Não era possível! Como conseguia fingir que nada estava acontecendo? Será que aquela sensação de que nossa relação estava mudando era só minha?
Continua...
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