Manual de sobrevivência do Apto. 408
1 00 - Aquele onde tudo começou
Notas iniciais
Desde que me mudei para Tóquio com o intuito de fazer minha faculdade de economia passei por muitas coisas boas e ruins. Fiz alguns bons colegas, fiz amigos razoáveis, fiz amigos para toda vida, tive empregos horríveis e toleráveis.
Vivenciei as mais diversas experiências: morei em repúblicas, morei em pensões, dividi quarto com mais de três pessoas e até mesmo morei, durante um curto período, num motel beira de estrada quando a situação ficou realmente complicada.
Entretanto, de tudo que passei nessa cidade até hoje, nada se compara as dificuldades que me atingiram nos últimos dois anos. Nada se compara aos infortúnios pelos quais tenho passado. Não que minha situação financeira seja ruim, pelo contrário, minhas finanças nunca estiveram melhores. Tampouco fui acometido por alguma doença terminal ou algo assim. Minha saúde (física) vai muito bem, obrigado.
Os motivos de meus infortúnios têm apenas um nome e sobrenome, uma única voz, um único rosto que contemplo todas as manhãs e com o qual troco um rosnado e nunca um bom-dia.
Uzumaki Karin é seu nome e ela é, (in) felizmente, minha colega de apartamento. Agora, querido (a) futuro (a) morador (a), você deve estar se perguntando, nesse exato momento, por que resolvi expor este relato? Por que resolvi fazer este manual? A resposta é simples: eu, Hozuki Suigetsu, prestes a me dar por vencido e abandonar o barco, resolvi que é necessário que alguém relate – aos próximos moradores do apartamento de número 408 – os possíveis problemas que enfrentará. É preciso que alguém passe adiante esses ensinamentos para que os outros tenham alguma chance e saibam onde estão pisando.
Guiado, assim, por sentimentos totalmente nobres, peço que leia com atenção os conselhos que me propus a enunciar e enumerar. Deixe-me guiá-lo (a) para o mundo incerto de Uzumaki Karin. Deixe-me conduzi-lo por este labirinto. Deixe-me guiá-lo (a) pelos caminhos tortuosos deste apartamento e se, ao final deste relato, você ainda quiser atravessar aquela porta com suas malas talvez seja digno (a) ou completamente louco (a).
...
Era verão se bem me lembro de quando tudo começou. Tal estação é sempre muito querida pelos japoneses, em geral, porque tão rápido quanto se inicia tão rápido termina. Afinal, como não somos um país localizado nos trópicos, o verão aqui é sempre um acontecimento muito querido e os dias razoavelmente quentes nos proporcionam alegria.
Ainda me recordo de como passei a tarde toda entrevistando um bando de esquisitos e desajustados com a intenção de encontrar alguém com quem pudesse dividir as contas do mês e o aluguel.
— E você tem emprego fixo? — Na terceira entrevista daquela tarde, me encontrava diante de Aburame Shino, um rapaz um tanto quanto peculiar, diria.
— Sim.
Suas respostas curtas e grossas de cara me animaram em tê-lo como colega. Não porque eu fosse antissocial ou algo assim, e sim porque uma pessoa calada e reclusa seria mais maleável e não me causaria problemas desnecessários, permitindo que as grandes decisões referentes ao apartamento ficassem por minha conta.
Depois de alguns outros questionamentos e quando já estava prestes a apertar a mão do meu futuro colega para validar nosso acordo, eis que surge uma pessoa extremamente odiável para mim e que, com certeza, ao longo deste manual, será mencionada muitas e muitas vezes de uma forma nada agradável ou positiva, devo ressaltar.
— Suigetsu! — A voz estridente ecoou, abrindo a porta de maneira abrupta e interrompendo o momento exato em que minha mão estava a centímetros de selar o cumprimento com Shino.
Foi por tão pouco.
— Infelizmente, amigo, — o loiro de nome Naruto deu dois tapinhas leves no ombro do meu ex-quase-colega — o Suigetsu já arrumou alguém para dividir o apartamento.
— Mas...
Pobre Shino. Ainda hoje quase posso rever como seus lábios semicerraram com aquela notícia. Não podia ver seu olhar por detrás dos óculos escuros, mas tenho certeza de que deveriam expressar pura desolação.
Naruto simplesmente o empurrou, batendo com a porta em sua cara sem piedade. E depois se dirigiu a mim com toda a tranquilidade do mundo fazendo a seguinte afirmação:
— Você vai morar com a minha prima! — exclamou ofegante. — Ela vai fazer faculdade de direito aqui e não tem onde ficar.
Pronto. Estava feito. Não havia mais o que discutir e foi a partir desse dia que se deu início o meu calvário. No mesmo dia em que me intimara a abrigar sua prima, Naruto a trouxe e eu soube que teria problemas no minuto em que estabelecemos o primeiro “diálogo”.
— Eu não quero ficar aqui — afirmou sem rodeios. — Parece que um garoto de oito anos mora aqui.
Essas foram as primeiras palavras que proferiu assim que cruzou a porta. Se eu fechar os olhos, posso sentir a tensão daquele dia tão palpável e presente como a dos dias atuais. Diante daquilo, eu a olhei dos pés a cabeça me perguntando de onde vinha tamanha arrogância. E, assim que reparei um pouco em suas feições, entendi.
Karin é bonita.
O rosto de formato perfeito, o nariz afilado, a fisionomia delicada aliada a um par de olhos de um castanho tão intenso devem tê-la feito crer que o mundo é seu. Sem falar obviamente no atributo final: os cabelos longos e avermelhados concediam a ela o privilégio de pertencer à porcentagem única de 1 ou 2% da população mundial de ruivos naturais existes em todo o planeta.
E como toda mulher bonita – ciente de seus atributos – achava que ninguém se atreveria a lhe negar nada.
Talvez por isso sustentasse aquele olhar de superioridade e o semblante com ar de nojo, avaliando e circulando pelo meu apartamento como se fosse pouca coisa, como se não fosse digno de tê-la como moradora. Mexendo e remexendo nos objetos da minha estante como se pertencessem, de fato, a um garoto de oito anos.
— Karin! — Naruto, praticamente, esbravejou entre dentes a repreendendo.
— Olha só pra isso? — Pegando a réplica do senhor Spock da minha estante, balançou a miniatura de um dos maiores personagens de todos os tempos como se fosse um artigo barato.
— Isso — disse, arrancando a miniatura de sua mão — é um item de colecionador.
— Você não está muito grandinho para brincar com bonecos?
Meus olhos arregalaram-se diante de tal absurda afirmação. Bonecos? Como assim bonecos?
— Bom, vejo que vocês precisam de um tempo para se acostumar. — Apressando os passos em direção à porta, o loiro que me colocara naquela roubada preparava-se para ir embora.
— Naruto! Eu não a quero aqui!
— Naruto! Eu não quero ficar aqui!
Apesar de nossas manifestações contrárias, o loiro partiu a deixando lá e eu tive que aceitar. Tive que aceitar o shampoo com aroma de frutas que passara a preencher o banheiro, tive que aceitar suas meias coloridas espalhadas pelo chão da sala, tive que aceitar observá-la enquanto delineava um batom sempre de um tom muito forte e vivo pela boca.
Tive que aceitar até mesmo a insistência dela em assistir desenhos animados na minha TV no horário do meu noticiário. Tive que aceitar que para ela era mais interessante assistir à reprise de Sailor moon do que o canal da bolsa de valores.
Tive que aceitar até mesmo, entre suas crises de riso, que preferia os desenhos ao noticiário da noite não porque era fútil e egoísta e sim porque não confiava nos alarmes midiáticos de modo geral. Para Karin, os livros e os meios alternativos de informação – como a internet – eram mais confiáveis do que a opinião midiática vazia, como gostava de chamar.
E para completar tudo isso – com o passar dos meses – tive que aceitar também que possuía uma tríade de qualidades atrativas como persistência, inteligência e confiança aliadas a uma tríade de defeitos irritantes como teimosia, arrogância e ansiedade.
De qualquer modo, caro (a) colega, foi numa manhã de quarta – feira, antes de ir para o estágio, quando o perfume de uma flor – que depois descobri chamar-se frésia – invadiu meu apartamento com seu odor que me dei conta de uma coisa: eu estava definitivamente morando com uma mulher.
Uma mulher que, sem a minha permissão, espalhava seu toque feminino por todo o lado e que tirava toda essência masculina antes existente ali.
— O que é isso? — Ao me deparar com uma horrorosa e delicada caixinha dessas que não servem para nada sobre a estante da TV, indaguei – provavelmente – serrilhando meus dentes pela boca.
— Não é uma graça? — perguntou-me animada enquanto enchia a boca com seus cereais matinais. — Comprei numa lojinha de relíquias.
— Isso não pode ficar aqui!
Olhei-a de modo firme e decidido, afinal, minhas experiências anteriores com ex-colegas de quarto/apartamento sempre me mostraram que desde o início da convivência é preciso estabelecer o que será tolerado ou não. E uma caixinha cheia de detalhezinhos delicados, que de tão pequena não cabe nada e não serve para nada, não iria ficar decorando o meu apartamento.
— E por que não? — questionou-me, voltando-se para mim enquanto levava a colher à boca.
— Porque eu não quero.
— Pois é uma pena! Porque vai ficar aí — afirmou categórica, dando-me as costas em seguida.
E a caixinha, apesar de todos os meus protestos e das inúmeras vezes em que a joguei fora, permaneceu na estante e sempre voltava para seu cantinho reservado.
Depois de um tempo comecei a crer que a insuportável prima de Naruto tinha uma coleção delas no quarto, porque toda vez que me livrava de uma, surgia outra e mais outra e outra. Até que finalmente me dei por vencido e consenti que seu toque e senso de decoração invadisse todo o apartamento.
Aquela simples caixinha de madeira foi um símbolo, uma amostra de que eu nunca mais venceria. O maldito enfeite está aí até hoje e sobreviveu a mim, sobreviverá a você e a todos os outros. Simples assim. Tão óbvio como o dia segue à noite e vice – versa. Agora, o apartamento não era somente meu e, para falar verdade, com o tempo, passou a ser totalmente dela. Ela invadira tudo, dominara tudo, inclusive a mim.
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