Manual de sobrevivência do Apto. 408

5 04 - Aquele em que ninguém segura esse bebê - parte final -


Notas iniciais
Oi, eu disse que postaria na segunda, mas acabou que num deu. Então, tô postando hoje e agora é fato que só postarei aos finais de semana. Bom, eu queria agradecer muito a Catarinne por ter recomendo a história com tão poucos capítulos. Nossa, tô boba até agora. Foi uma recomendação linda e inesperada e me alegrou muito. Você não faz ideia! Estou sem palavras e, provavlemente, não vou conseguir expressar o tamanho da minha felicidade e obrigada mesmo. E quero agradecer a galera que favoritou, comentou, visualizou. Vocês são ótimos! Bom, é isso é boa leitura.

Já imaginou qual seria a sua reação se pudesse assistir sua vida de fora? Como um mero espectador? O que você diria ao seu “eu passado” se o visitasse diretamente do futuro?

Eu nunca tinha me preocupado com tais questões filosóficas até o dia em que me vi ajoelhado na plataforma do metrô boquiaberto e estarrecido. Quando analiso os acontecimentos não só daquele dia – mas também os posteriores – sinto-me um pouco impregnado por esse poder.

Através dessas linhas, posso reavaliar meus erros e os poucos acertos e, sobretudo, adquiro as respostas e o posicionamento que gostaria de ter adotado. Infelizmente, rememorar tudo isso também traz consigo aquele gosto amargo da resposta malcriada que não foi dada na hora certa e que fica te remoendo depois que a discussão acabou.

Se o meu “eu futuro” encontrasse com o “eu passado", faria questão de que soprasse ao ouvido do desavisado todas as grandes sacadas que não tive no momento oportuno e, certamente, faria com que dissesse a frase que gostaria de ter ouvido naquele domingo:

Shikadai ainda está dentro do metrô enquanto você e Karin discutem.

Entretanto, lamentavelmente, o tempo é implacável e não há “eus futuros” para nos salvar dos nossos erros. Um instante de desatenção e o mundo que você conhecia desmorona. Os minutos depois do ocorrido foram – sem sombra de dúvidas – um dos mais desesperadores da minha vida. Não posso calcular quantas vezes tive que explicar a situação ao segurança do metrô e quantas vezes pedi que reportasse o caso ao maquinista para que voltasse ou parasse imediatamente.

— Você não está entendendo: tem um bebê lá dentro e eu o que quero de volta!

— Vamos nos acalmar! Eu não consigo entrar em contato com o maquinista, porque ele já deixou o trem no terminal.

— Mas em qual terminal? — Sabe aquele tipo de pessoa que quanto mais você explica, menos te entende? Pois é. Para minha desgraça, o guarda do metrô era uma dessas pessoas.

— Num de manutenção, provavelmente — disse como se não fosse grande coisa.

— Manutenção? — Karin, que parecia tão em choque quanto eu, arregalou os olhos de repente saindo de seu estado de silêncio e inércia. — Como assim manutenção? Vocês não podem fazer manutenção com uma criança lá dentro!

— Ei, moça, para de gritar. Eu não tenho culpa se vocês dois foram estúpidos o suficiente para esquecer um bebê dentro do metrô.

— Estúpidos? — Também não conseguirei relatar aqui, em palavras, a dimensão da ira de sua futura colega diante da passividade do guarda. — Eu vou te mostrar quem é estúpido, seu imbecil!

Só posso dizer que todos os chutes, pontapés, socos e cotoveladas acabaram recaindo sobre mim ao tentar impedi-la de agredi-lo.

— Karin! Para com isso! — Sacudi-a para que recobrasse a calma.

Meu estado não era dos melhores e, agora mais sereno, percebo que exagerei em meu descontrole a fim de tentar neutralizá-la. Contudo, bem ou mal, exagerado ou não, meus gritos foram severos o bastante para surtir o efeito necessário.

— E você, baka, está rindo do quê? — Voltei-me para o guarda imprensando-o contra o vidro da cabine de segurança e apertando seu pescoço. — Presta atenção no que você vai fazer: você vai pegar esse seu radinho de merda e avisará a todos os seus amiguinhos, em todas as estações, sobre o que aconteceu e você também vai me dar um mapa com todos os terminais de manutenção dessa cidade.

— Eu não posso fornecer esse tipo de...informação? — expressou-se com a voz sufocada.

— Ah, você pode e você vai — exigi, apertando mais minha mão contra o seu pescoço — Eu entendo perfeitamente que a culpa não é sua, mas você tem que entender a nossa situação e vai demonstrar um pouco de solidariedade. Você pode fazer isso, não pode?

— Seu super plano é sair procurando feito um maluco por todos os terminais de manutenção da cidade? — Assim que terminei minha conversinha com o segurança, Karin pôs-se a me seguir a passos corridos pela plataforma.

— Sim.

— Mas você ao menos deu uma olhada nesse mapa? São mais de vinte estações de manutenção, Suigetsu!

— Eu sei disso! É por isso que nós vamos ficar só com uma parte delas — afirmei convicto em minha resolução.

— Mas...

— Alô, preciso de um favor... — Antes que Karin continuasse me enchendo de perguntas, peguei o celular e liguei para a primeira pessoa que me veio à cabeça.

Desse modo, iniciou-se nossa procura em busca do pequeno Shikadai. De estação em estação, percorrendo e refazendo as principais trajetórias e desejando muito encontrá-lo a salvo. Não me perdoaria se algo acontecesse a ele e só de pensar que pudesse estar aos prantos, no metrô vazio, me batia uma aflição inimaginável.

— O senhor tem certeza de que não o viu e de que olhou em todos os vagões? — Já estava ficando cansado de obter sempre o mesmo balançar de cabeça quando fazia as mesmas perguntas para os seguranças e técnicos de todas as estações em que fomos. — Bom, de qualquer modo, vou deixar meu número e se o senhor vir alguma coisa, por favor, ligue.

A cada estação em que obtínhamos uma resposta negativa, o meu desespero triplicava. Tudo o que conseguia pensar naquele momento era como encararia Temari e Shikamaru e, internamente, agradecia por não ter conseguido falar com os dois ainda. Foi envolto nesses pensamentos que, de repente, algo chamou minha atenção enquanto subia a escada da estação onde a sua futura colega estava sentada. Ao pé da escada que dava acesso à saída do terminal, presenciei algo que nunca imaginei ver em dois anos de convivência:

Karin em meio a lágrimas.

— Ei, o que é isso agora? — Aproximei-me, curvando o corpo para encará-la.

— Nós o perdemos... nós o perdemos... Eu não acredito que nós fomos tão irresponsáveis a esse ponto... balbuciou, escondendo o rosto entre os braços cruzados.

— Sim, mas vamos encontrá-lo — consolei-a, segurando em seu queixo.

Para completar o meu estado emocional, que já não era dos melhores, vê-la daquele jeito me desestabilizou totalmente. Preferiria mil vezes que estivesse rindo de mim do que chorando daquela maneira.

Ok. Esse é o momento para esclarecermos outra coisa aqui, amigo (a), é bem provável que você deva estar se perguntando o porquê da minha consternação diante do choro de Karin. Talvez pareça estranha essa preocupação, afinal, escrever um manual que forneça conselhos sobre alguém dá a impressão de que a pessoa de quem se fala é totalmente detestável. Porém, antes que chegue a esta conclusão errônea, é meu dever alertá-lo para uma coisa, algo que aceitei depois de um árduo processo de negação:

Karin e eu somos (ou éramos) amigos.

Embora nos atormentássemos diariamente, desenvolvemos uma estranha relação de amizade ao longo do tempo. Relação essa que me intrigava muito, inclusive, pois não se assemelhava a nenhuma conexão que havia estabelecido com todas as pessoas que conheci durante o meu percurso universitário.

É certo dizer, sobretudo, que quando as coisas se complicavam, esse vínculo nos aproximava ainda mais e fazia com que nos ajudássemos nas situações mais corriqueiras ou complexas como, por exemplo, nossa épica união contra o síndico e o dono do prédio:

— Mas a economia...

— Olha, esse argumento da economia não é válido para nossa atual situação!

— Suigetsu, você – como um homem das finanças – deve saber que vários países estão em recessão.

— Sim. Vários países, mas esse não é o caso do Japão.

— Vocês têm que entender que os impostos estão muito altos, logo, o aumento do aluguel se faz necessário.

— Errado de novo. Apesar dos impostos terem seguido o percentual anual de inflação, o aumento do nosso aluguel, no início do ano, já acompanhou essa porcentagem e garantiu ao senhor o lucro justo. Portanto, o argumento da alíquota também não é valido.

— Alíquota?

Adorava usar termos de economia que ninguém entendia. Transmitia mais credibilidade aos meus argumentos.

— E, de acordo com a lei estadual, isso é ilegal!

— Ilegal, Karin-san? Creio que não seja! Eu estudei a legislação a fundo e...

— Pois se estudou sabe, então, que de acordo com o Art. 6, parágrafo 2º da lei de número 12.744 que o aumento de taxas referentes à água, luz, telefone e aluguel de imóveis deve acompanhar a inflação. Portanto, o aumento não é válido e se os senhores insistirem, teremos que tomar as medidas legais cabíveis.

Ninguém nunca nos passava a perna quando resolvíamos usar nossos super poderes:

Eu, com a base econômica. Ela, com a base jurídica. O quase economista e a futura advogada eram uma dupla imbatível.

Sem falar que – por mais de uma vez – quando ela precisou de mim, eu estava lá:

— Karin, que bom que te achei. Precisamos ir agora!

— Por quê?

— Porque aconteceu uma tragédia.

— Quem é esse?

— Ah, desculpe, Hayato-san... Esse é Suigetsu, meu colega de apartamento.

— Mas, Suigetsu, diga o que houve?

— Eu já disse, Karin, uma tragédia aconteceu.

— Amigo, seja mais claro. O que pode ter acontecido de tão grave para você interromper nosso jantar?

— Calma, Hayato, ele está nervoso. Vamos, Suigetsu, diga o que aconteceu!

Engraçado que tenha me xingado e batido por mentir para as mulheres do parque, uma vez que foi ela mesma que sempre me incentivou a mentir:

— Acontece que a Ino foi atropelada e a gente precisa ir, porque o estado dela é grave.

Inclusive, foram incontáveis os amigos que sofreram acidentes, ao longo desses anos, para resgatá-la de encontros mal sucedidos:

— Me deve mais uma! Estava na fase 5 do jogo quando você ligou.

— Obrigada. Ai, me lembre de nunca mais sair com advogados. Eles são tão chatos! O encontro estava horrível. Ele não parava de falar sobre o desfecho do último caso que defendeu. Que porre!

— São seus futuros colegas.

— Por isso mesmo não sairei mais com nenhum deles! Imagina que tédio será uma relação dessas. Não, eu não quero algo assim! Eu quero uma relação em que possa conversar sobre tudo, não só sobre o trabalho, casos, leis, réus, culpados e inocentes. Você acha que existe possibilidade de que eu consiga algo assim algum dia?

— Quem sabe...

E também – por mais de uma vez – quando eu precisei, ela estava lá:

— Experimenta. É bom!

— O aspecto não é dos piores, mas suas habilidades culinárias são um tanto quanto peculiares, Karin.

— Deixa de ser bobo! Eu melhorei muito.

— Tudo bem. Até que não está ruim, mas...

— O que foi? O que foi? Por que tá com essa cara?

— O que tem nisso?

— Damasco.

— Damasco? Sou alérgico!

Estava lá para segurar a minha mão no hospital e para ouvir, pacientemente, as repreensões do meu pai, que só foi chamado porque era o único (além do meu irmão) a conhecer todas as minhas alergias e, portanto, o único que sabia quais medicações eu poderia tomar:

— Você quase matou o meu filho, menina. Seja mais atenta!

— Sinto muito. Ele nunca me disse que era alérgico a tantas coisas.

Sem que pudéssemos prever, então, nossa convivência começou a ser permeada por pequenos detalhes, pequenos gestos, pequenos cuidados que se somaram a outros e outros e mais outros:

— Oh, garota, você esqueceu seu livro hoje de manhã no balcão da cozinha.

— Ah, esse livro é minha salvação! Putz... acabei de descobrir com a turma do primeiro horário que o professor dará quinze minutos de consulta. Nossa, me ferraria muito sem ele.

— Karin, espera! Quase ia me esquecendo... esse papel caiu de dentro dele na hora em que o peguei.

— Ah, obrigada... Escuta... você não leu o que está escrito aqui, não é? Quer dizer, se leu também não tem importância, porque não é o que parece, viu. Eu só gosto de ter o controle sobre tudo que me cerca.

— Não. Por que perderia meu tempo lendo suas colas? Pode ser desonesta a vontade, porque não estou te julgando. Na verdade, acho até que desonestidade é a cara da advocacia. Então, por mim...

— Ah, seu... seu.. Argh!. Não tenho tempo pra isso agora! Tenho que ir fazer minha prova.

Gestos que se tornaram tão significativos e habituais que confesso não ter me surpreendido tanto quando encontrei uma lista das minhas alergias anotada num papel dentro de um de seus livros de direito constitucional.

Nós adquirimos uma coisa que era só nossa. Obviamente, tais cuidados não fizeram com que nossos conflitos diminuíssem, pelo contrário, nossos atritos diários passaram a ser diretamente proporcionais ao nível do cuidado que delegávamos um ao outro.

Nossos vínculos tornaram-se mais fortes e mais indissolúveis gentileza não declarada após gentileza não declarada, briga após briga.

Sendo assim, qualquer expressão mínima de afeto era seguida de algo que quebrasse o momento. Implicância em cima de implicância era nosso jeito de dizer:

“Eu me importo, mas continuarei te perturbando, te irritando, te enlouquecendo, te infernizando dia após dia”.

Foi através de tudo isso que passei a compreender a natureza da nossa relação e entendi finalmente que, na nossa concepção, amizade tornara-se isso:

Alguém que se importava o suficiente para te salvar de um encontro tedioso. Alguém que se importava tanto para decorar todas as suas alergias.

— A culpa é minha acusei-me com remorso. Nunca devia ter usado o garoto para dar em cima daquelas mulheres.

— Não, a culpa é minha. Não deveria ter perdido a cabeça e começado a brigar com você.

— A culpa é dos dois! — Inesperadamente, uma voz estridente reverberou com revolta. — A única sorte de vocês e me terem por perto.

— Naruto?! — dissemos ao mesmo tempo, encarando o loiro em seguida.

— Você o achou? — Levantando e pulando praticamente em cima do primo, Karin questionou euforicamente.

— Claro! — gabou-se. — Está num abrigo a dois quarteirões daqui e temos que correr se quisermos encontrá-lo aberto. Ah, e acho melhor vocês pensarem numa desculpa para o tiramos de lá. Esses lugares não costumam entregar crianças para pessoas que nãos são seus responsáveis legais.

Pela primeira vez, em anos, fiquei feliz por ter ligado para Naruto que, sinceramente, não era a minha escolha óbvia. Não era nem uma escolha para falar a verdade! Mas, como a pessoa mais sensata e equilibrada que conhecia estava fora da cidade, me vi obrigado a recorrer a ele. É claro que até o final deste relato, colega, você perceberá que me arrependi amargamente de tê-lo chamado.

Mas não nos adiantemos muito. Chegaremos lá!

Guiados, assim, por Naruto nos encaminhamos rapidamente para o tal abrigo. Mal posso expressar o alívio que foi quando adentramos o prédio da assistência social e confirmamos que Shikadai realmente estava lá.

— É ele! É ele! — Karin pegou-o no colo com tanto afinco que por um minuto achei que cumpriria a promessa matinal de sufocá-la em seus braços.

Shikadai, por outro lado, alheio ao nosso desespero manifestou-se somente com seu sorriso semi-banguela de quem ainda está com dentinhos despontando da boca.

— Vocês são os pais? — É claro que para nossa aflição as coisas não seriam tão simples como pareciam. Pelas feições da mulher que nos interrogava, tudo indicava que não poderíamos simplesmente tirá-lo do berço, colocá-lo no carrinho e levá-lo para casa. — Vocês são ou não os pais?

— Somos. — A resposta saíra de modo rápido da boca de Karin para o meu total espanto.

— Documentação, por favor.

— Nós não trouxemos, porque viemos apressados justificou-se, tentando demonstrar alguma seriedade.

— Sem comprovação, vocês não podem levá-lo. E, sinceramente, o garoto não tem nada a ver com vocês.

Pois é. O irônico é que a única pessoa que finalmente percebeu isso durante o dia todo era a que eu mais gostaria que acreditasse justamente o contrário.

— Ele é adotado! — E mais uma vez me surpreendia com as mentiras que brotavam da boca de sua futura colega. — E, olha, a verdade é que no momento em que nós o perdemos — embargou a voz — estávamos discutindo sobre a nossa relação, porque descobri recentemente que meu marido é... é...

— É? — questionou com curiosidade a assistente.

— Gay.

— O quê? — De todas as mentiras que um dia pensei em contar, de todas as mentiras que já tinha contado, nenhuma se comparava aquela. Karin havia passado de todos os limites e havia ultrapassado até a minha rede de mentiras.

— Ah, Suigetsu, por favor. Eu te peguei assistindo aos vídeos. — Colocou a mão na boca para conter o falso choro.

— Tudo bem. Eu entendo, mas isso não justifica o fato de vocês terem perdido garoto. Isso é negligência! — reafirmou a mulher.

— A senhora é casada? — indagou a mentirosa, encenando ainda seu papel.

— Sou, mas...

— Então, coloque-se no meu lugar e imagine como foi difícil descobrir no dia do seu aniversário de casamento, um dia que reservou para comemorar ao lado da sua família, que seu marido é gay e tem um caso com seu primo! — berrou, apontando para Naruto.

— Oi? — E o cenário que já era horrível, tornou-se tenebroso. Naruto e eu? E depois a minha mente era fantasiosa!

— Por favor, não minta mais — pediu, contorcendo os lábios trêmulos e balançando Shikadai em seus braços. — Eu vi vocês dois juntos na piscina da academia!

Que atriz! Por um minuto até mesmo eu acreditei que era gay e tinha um caso com Naruto.

—A senhora tem que entender que perdi a cabeça no meio da discussão. Fiquei arrasada e, por isso, quase perdi o meu filho que é a pessoa que eu mais amo no mundo. Acredite em mim quando digo que isso não teria acontecido se não fosse o meu estado emocional...

— Ah, coitadinha — expressou-se o auxiliar da assistente social.

Um Oscar era isso que Karin merecia, contudo, a minha única vontade era sacudi-la até trazê-la de volta para a realidade.

— Isso é... isso é... — Meus os olhos e ouvidos atônitos não queriam acreditar que faziam parte daquilo.

— Verdade! — Quando menos pude esperar e antes de abrir a boca para negar tal absurdo, no entanto, Naruto – que permanecera calado diante do surto psicótico da prima – resolvera entrar na onda e enlaçou seu braço no meu de um jeito estranho, entrelaçando também nossos dedos. — Não vamos nos enganar mais, doçura. Ela já sabe! — Balançou-se de maneira caricata, sacudindo o cabelo longo que não tinha.

— Está vendo aí! A verdade nua e crua — choramingou, aspirando mais ar do que o necessário, provavelmente, com a intenção de que seu lamento fosse bem audível. — É por isso que preciso do meu filho. Ele é o único capaz de me confortar, por favor, não o tire de mim...

Ainda tentando comover a assistente social e abraçando o pequeno Nara com força, a ruiva teve a coragem de fingir um quase desmaio, sendo amparada pelo auxiliar que veio rapidamente em seu socorro.

Rápido até demais, eu diria.

— Tudo bem! — A mulher massageou as têmporas, demonstrando cansaço. — Podem ir. Só sejam cautelosos da próxima vez e não deixem que assuntos tão delicados interfiram no cuidado com o filho de vocês.

— Sim, senhora. — Milagrosamente, a farsante colocara-se mais disposta, saindo dos braços do homem que ainda permanecia com as mãos em volta de sua cintura e recolheu as bolsas, colocando Shikadai em seguida no carrinho.

— Ei, sei que o momento é difícil, mas caso queira conversar mais sobre o assunto... pode ligar. Sou um bom ouvinte.

Perplexidade era a palavra que melhor me descrevia naquele instante enquanto via o inconveniente auxiliar estender um pequeno papel para Karin com seu número de telefone.

Aquele imbecil estava mesmo dando em cima da minha mulher na minha frente?

Está certo que eu era supostamente gay, mas isso não dava a ele o direito de dar em cima da minha esposa. Quer dizer, ela não era de fato minha esposa, mas... Argh! Que dia confuso! Só não o esmurrei ali mesmo, porque Naruto me puxou antes que pudesse socá-lo.

...

Ao chegar em casa finalmente, nossa aparência era a pior possível. Descabelados, sujos, psicologicamente abalados e mais distantes do que nunca de uma consciência tranquila por causa das mentiras contadas ao longo do dia.

Em contrapartida, diferente de nós, Shikadai dormia como um anjo em seu carrinho. Para o coitado, o dia também tinha sido exaustivo, porém – no mundo dele – essa exaustão fora uma grande brincadeira e nós os palhaços.

— Precisamos dar um banho nele — afirmei entre bocejos.

— Sim, mas agora? — Em um estado deplorável, Karin caíra no chão do apartamento como um soldado morto em combate. — Vamos descansar um pouco... Que horas são?

— São 19:30! Estranho Shikamaru e Temari nem ligaram para saber como o filho estava.

— Os pobres coitados devem estar aproveitando o dia de folga.

— Ué, agora são coitados? — Estranhei o comentário de sua futura colega. Logo ela que antes os censurara no início da manhã.

— Sim, são. Nós demos uma de pais por um dia e eles serão pais durante a vida toda.

Fiquei cansado só de pensar naquela verdade irrefutável. Esse negócio de paternidade cansa mesmo. Não é a toa que meu pai sempre disse que ganhou muitos cabelos brancos por causa de mim e do meu irmão.

— Karin, anda... Levante-se para me ajudar a dar banho nele — falei, cutucando-a com o pé, com Shikadai já em meus braços e ainda dormindo.

— Você tem certeza de que quer acordá-lo para fazer isso? Manda o Naruto dar! Falando nisso, cadê ele?

— Está lá fora ligando pra Hinata, eu acho. Enfim, Karin! Levanta!

— Ai, por que você não deita aqui só um pouquinho? Hum... Olha só esse chãozinho, esse tapete... — De forma provocativa, a inconsequente pegara em minha mão na tentativa de me seduzir a tirar um cochilo. — Eu sei que você quer! Essa sua carinha não me engana.

Realmente, ela não tinha a menor noção de nada. Qualquer um que entrasse no nosso apartamento naquele momento pensaria besteira.

— Tudo bem, mas só um pouquinho. Mas, depois a gente...

— Shiuu! — Colocou o indicador na minha boca, fazendo biquinho. — Depois... depois...

Bom, a partir de agora é meu dever informá-lo, amigo (a), que as linhas a seguir não fazem parte de minha memória e, sim, da memória de terceiros, ou seja, dos ditos amigos de que tanto falei em passagens anteriores. Dizem tais criaturas, Sakura, Ino, Sai, Naruto, Hinata, Kiba, Temari e Shikamaru que – ao adentrarem nosso apartamento – sua futura colega, o ursinho idiota que ganhara de brinde e eu estávamos deitados com Shikadai dormindo em cima da minha barriga e abraçados como se fôssemos mais íntimos.

O que, na minha opinião, é algo extremamente delirante, porém é certo afirmar que me recordo realmente de estar mais próximo a Karin quando acordei.

— Ai que fofinho!

Lembro-me também de escutar o som de alguns flashs antes de acordar. O que me traz a ideia de que minha situação constrangedora ao lado de Karin, se de fato existiu, tinha sido registrada.

— Coloca na legenda assim: “dormindo com o inimigo”. — A voz de hiena irritante da Yamanaka fez-se presente me despertando enfim.

— O que foi? — resmunguei, espreguiçando-me ainda no chão.

Depois de alguns minutos a imagem dos pais do pequeno Shika e de todos os outros, ficou nítida e me dei conta de que meu apartamento fora invadido por todos eles. Não demorou muito para que Karin também se espreguiçasse e também acordasse, mexendo a cabeça sobre meu peito.

— Ah! — Embora ainda estivesse meio sonolento, admito que o grito de espanto e o afastamento súbito da Uzumaki foram suficientes para me colocar em alerta e também me fazer rejeitar aquele contato estranho. Colocando-nos em poucos segundos em lados opostos da casa.

— Own! Estavam tão bonitinhos — lamentou Sakura.

— Desculpe atrapalhar o momento — intrometeu-se Shikamaru — mas, enfim, quero agradecer por terem cuidado do Shika.

— Tem que agradecer mesmo, porque deu o maior trabalho, viu. — Ajeitando a blusa maltrapilha, Karin aproximara-se do casal Nara com certa revolta. — Engraçado que esse almoço de vocês cheira a sabonete de... — quase completou ao chegar perto de Temari e aspirar seu odor.

— Karin! — repreendeu Naruto.

— Eu imagino que tenha dado trabalho mesmo — desconversou Temari. — Mas fora isso teve alguma coisa incomum? Ele se comportou bem? Comeu direitinho?

— Sim, sim — respondi prontamente. — Não teve nada de errado, sabe. Só as coisas comuns de criança.

— Ah, que bom. Mas vocês tem certeza de que realmente não teve nada fora do comum?

— Certeza absoluta? — inquiriu também Shikamaru, colocando as mãos nos bolsos da calça.

— Assim, nada demais mesmo?

— Nenhum contratempo?

As indagações de Temari e Shikamaru começaram a ficar um tanto quanto estranhas demais.

— E vocês? Sakura, Ino, Hinata, Naruto, Kiba, Sai, vocês não souberam de nada anormal que possa ter ocorrido essa tarde enquanto esses dois cuidavam do Shika, não é? — O modo incisivo da Nara já começava a me assustar e instintivamente comecei a olhar para Karin com receio.

— Eu estava no plantão — defendeu-se prontamente a Haruno.

— Eu estava com o Sai no apartamento dele — justificou-se Ino, agarrando-se ao braço do namorado.

— Eu passei a tarde passeando e dando banho no Akamaru — completou Kiba.

— Hinata e eu passamos a tarde discutindo coisas sobre o nosso casamento. — Antes mesmo de serem interrogados, Naruto tratou de salvar a sua pele e a de sua noivinha.

— Sim, Naruto-kun e eu só fizemos isso o dia todo.

O clima tenso só esquentava e eu não via a hora de ver os Nara cruzarem a porta. Minhas mãos nunca suaram tanto como naquele dia.

— Que bom! Então, é isso! Vamos, Shikamaru. Parece que deu tudo certo — dirigiu-se ao marido com um tom de voz meio irônico. — Ah, e mais uma coisa — voltou-se novamente para nós antes de cruzar a porta — adorei essa foto!

Como se sacasse uma arma do bolso, Temari dedilhou rapidamente o smartphone nos mostrando em seguida a foto que Karin, Shikadai e eu tiramos em frente a fonte, no parque, compartilhada por ninguém menos que o idiota do Naruto com a seguinte legenda:

“Atenção! Criança desaparecida, por favor, entrem em contato através do número abaixo caso tenham informações de seu paradeiro. Seu nome é Nara Shikadai e a última vez que foi visto foi na estação de metrô de Oshiage. Peço encarecidamente que compartilhem essa foto ao máximo até o encontrarmos”.

Yamanaka Ino, Haruno Sakura, Hyuuga Hinata, Inuzuka Kiba e 575 pessoas curtiram isso.

Haruno Sakura: Mas como isso aconteceu, gente? Como assim perdido?

Uzumaki Naruto: Tudo culpa do Suigetsu e da Karin!

Yamanaka Ino: Meu afilhado! Eu vou matar aquelas pestes! Como assim perderam ele?

Hyuuga Hinata: Gente, estou tremendo de nervoso. Coitadinho! O que vamos fazer?

Uchiha Sasuke: Chamem a polícia. Simples. É a coisa mais inteligente a fazer.

— A culpa foi dele!

— A culpa foi dela!

O risco de morte iminente fez com que apontássemos um para o outro em meio a confusão.

Assim, foi graças aquele fatídico dia enquanto corria desesperadamente de uma Temari em fúria pelas ruas afora e enquanto perdia parte do fôlego dos pulmões, tentando despistá-la pelos quarteirões, que cheguei à conclusão da quinta lição que me disponho a compartilhar com você, pessoa desafortunada:

Nunca se aproxime de Uzumaki Naruto. Nunca. Jamais peça a ajuda dele para nada, porque esse idiota é incompetente o suficiente para postar a foto da criança desaparecida, tendo os pais da criança no facebook.

Procure também manter distância absoluta dos amigos de sua futura colega. Eles são perigosos, andam em bando, e sempre que puderem se aproveitarão de sua bondade ou da intimidade que acreditam ter com você para te explorar.

Evite, ao máximo, qualquer possível aproximação com tais criaturas para que não sofra represálias futuramente.

Notas finais
E aí gostaram? Foi muito louco, né?! Essa fic é só loucura... Então, eu inseri nas divagações do Sui sobre a relação dele com a Karin e o modo como ele encara isso, porque senti essa necessidade de mostrar como se começa a gostar de alguém e para mostrar que isso não é do nada, principalmente no caso deles. Porque senti a necessidade de mostrar que as pessoas não se apapixonam do nada, atrações podem acontecer meio que do nada, mas se apaixonar por alguém exige mais. Precisa demais. E eu achei que a melhor forma de fazer isso era voltar um pouquinho e deixar que os diálogos mostrassem como, a partir de determinado momento, as coisas começaram a se confundir e os limites dessa amizade começaram a ficar meio estranhos. Quer dzier, eu quis passar essa impressão de que eles têm um histórico de gentilezas ( a maioria não declaradas), de experiências que compartilharam, de brigas, de tudo ao longo de dois anos que contribuíram para o fortalecimento dessa relação. Enfim, eu tô dizendo isso tudo, porque não queria passar a impressão de que tá tudo muito jogado e porque eu gosto de falar pra caramba. Eu espero que tenha sido bem sucedida nisso e espero que vocês tenham gostado. Beijos!