Manual de sobrevivência do Apto. 408
6 05 - Aquele em que Karin fala o que não deve
Notas iniciais
— Há quanto tempo você estagia aqui mesmo, Suigetsu? — E lá estava eu diante do que algumas pessoas chamariam de “pergunta gatilho”.
Em algum momento da vida todos serão pressionados a fazer parte da farsa que compõe os questionamentos impulsionadores de conversas indesejáveis. É interessante observar como o tempo pode ser realmente uma “imagem móvel de uma eternidade imóvel” e que, mesmo diante de momentos como esse, algumas pessoas dotadas de certa sagacidade conseguem prever que o pior está por vir.
Sim, caro amigo (a) leitor (a), iniciamos aqui mais um capítulo de nossa trajetória elucidativa sobre a aterradora convivência com sua futura colega. Peço, por favor, que não se intimide diante da frase altamente filosófica e que não se preocupe em entendê-la agora. Nesse instante, peço apenas que continue comigo neste percurso antropológico e esclarecedor e deixe-me guiá-lo mais uma vez. Antes de dar continuidade e saciar sua curiosidade inicial sobre o questionamento de Osawa Hayato, meu incompetente supervisor, é preciso esclarecer algo muito importante sobre este capítulo:
Ele ainda pretende ensiná-lo a como sobreviver às manias, às inconveniências e à personalidade de Karin.
Não importa o quanto, aparentemente, você tenha a impressão de que me distanciei do nosso tema central. As linhas a seguir ainda estarão ligadas à difícil personalidade de Karin e ao fato de que ela – e somente ela – é a maior responsável por todas as mazelas que me atingem e logo será a responsável pelas suas caso, mesmo após o encerramento do fatídico relato, você ainda insista em morar no 408.
Pois bem. Tudo começou com um ranger de porta, o ruído da TV sendo ligada e a voz de uma dubladora irritante, indicando que mais um dia começara em nosso apartamento, entretanto, esse não era o dia qualquer, devo ressaltar. Esse era o dia que separaria os vencedores dos perdedores e não havia possibilidade de que eu deixasse Karin arruiná-lo ou, pelo menos, era isso que eu desejava.
Levando em consideração tal importância, então, não demorei muito a abrir os olhos e a me colocar a postos, livrando-me do enlace dos cobertores e me levantando rápido o suficiente para praticamente deslizar até a porta do meu quarto abrindo-a com cautela. Foi aí que, através daquela pequena brecha, iniciou-se uma de minhas torturas diárias assim que me deparei – logo de cara – com sua futura colega na sala e seu micro pijama.
Devo admitir que, diante daquela visão, precisei segurar – com certa dificuldade – o princípio de um arquejo que se alojou em minha garganta para não ser descoberto, principalmente depois que, ao se espreguiçar, ela deixou transparecer mais pele do que eu gostaria de ver. Não era como se nunca a tivesse visto daquele jeito, afinal, morávamos juntos. Porém, havia uma grande diferença entre o olhar que era direcionado a ela quando estávamos em companhia um do outro e o olhar que era direcionado a ela quando não sabia que eu a observava.
Não sei ao certo identificar quando isso ocorreu, quando a segunda percepção preencheu-me com algumas sensações estranhas com relação à Karin, mas era fato que tais sensações se intensificavam mais e mais a cada dia. Era algo que simplesmente fugia do meu controle. Isso não significava, obviamente, que o segundo olhar fosse dotado de alguma malícia, pelo contrário, querido leitor. Que espécie de homem acha que sou?
Diferente das respostas errôneas que devem sobrevoar sua mente corrompida nesse exato momento, devo avisá-lo de que o segundo olhar dirigido à Karin era dotado de puro desconforto moral e nada além disso. Afinal, quando Karin trajava-se daquela maneira, mesmo para dormir, transgredia as regras de convívio social, pautadas na decência, na moralidade e nos bons costumes.
E eu como defensor de tais valores só poderia reprovar seu comportamento e responsabilizá-la pela má distribuição do sangue que começava a fluir para partes inóspitas do meu corpo toda vez que a via naquele estado. Sendo assim, se era capaz de me causar tal impacto, era ela a transgressora e, portanto, a culpada do meu desconforto moral e não eu o safado e falso moralista, que fique claro.
Ofeguei um segundo, recuperando a consciência e me preparando para o objetivo que me fazia estar à espreita. Sim, pois o objetivo era o mais importante e não podia me desviar dele. Controlando-me, então, dei um passo à frente enquanto ela, de pé, olhava para a TV. Nesse momento, quase senti que tinha chance quando percebi que ainda não notara a minha presença. Após isso, não demorou muito para que meu pé esquerdo desse o segundo passo, mas foi aí que surgiu o problema: os olhos castanhos voltaram-se para mim instintivamente. Era como se pudesse pressentir meus movimentos e, por alguns segundos, permanecemos imóveis nos encarando enquanto a tensão aumentava.
Nossa troca de olhares, sem dúvida, faiscou naquele instante tanto quanto a de inimigos históricos declarados. Não tinha Tom e Jerry que fizesse jus a nós. Tudo estava ali concentrado numa ação que ainda não se desenrolara completamente e que se iniciou a partir do momento que direcionamos nossa atenção para a porta de pintura descascada e dobradiça enferrujada.
Ela franziu a testa, eu estalei o pescoço.
Meu corpo promoveu um impulso veloz, dando a partida, assim que a vi atravessar a sala a pleno vapor. Pulei o sofá como um atleta das olimpíadas no salto a distância. Quando ficamos lado a lado, ela puxou-me pelo braço e conseguiu uma vantagem de centímetros a minha frente.
Trapaceira.
Movido mais do que nunca por um desejo de vitória, contudo, livrei-me de suas garras e devolvi o pequeno empurrão, tomando agora a dianteira e alcançando com minhas mãos ávidas o portal para o paraíso. Quando meus pés finalmente cruzaram a linha de chegada, não pude evitar a alegria que me consumiu ao fechar a porta e me escorar nela, jogando todo meu peso sobre a mesma para impedir sua entrada.
— Vitória!
— Suigetsu! Se você demorar, eu juro que te mato! Não posso perder a primeira aula, porque já estou completamente perdida nessa matéria! Qualquer cinco minutos que perco já é o bastante para não entender mais nada. Acho bom você não demorar, seu... seu... Agrh! Suigetsu!
Os murros impacientes sobressaltaram-se na madeira divertindo-me ainda mais com seu desespero.
— Se estivesse tão preocupada com a aula, não teria perdido tempo ligando a TV — falei com intenção de espantá-la e ciente de que estar dentro do banheiro não significava necessariamente que conseguiria usá-lo primeiro. — Ah, e já estou nu, ok! Acho bom nem tentar invadir — alertei-a logo para que desistisse da ideia de se aproveitar do fecho enferrujado que inutilizava o trinco da porta.
— Agrh! Seu nojento! Ah, que droga!
Brigas e desentendimentos a parte, é preciso que você entenda, caro colega, porque me dispus a lutar de modo tão empenhado para usar o banheiro aquela manhã. Acontece que, exatamente naquele dia, seriam escolhidos na empresa em que eu trabalhava os estagiários que – no último ano da faculdade – permaneceriam no quadro de funcionários efetivos. Dá para imaginar o tamanho da minha ansiedade diante daquilo? Eu estava no penúltimo semestre e isso significava que me formaria em poucos meses, portanto, ansiava muito por alguma estabilidade financeira.
Espero que ciente da pressão psicológica que me afligia você, caro leitor, não me julgue pelas linhas a seguir. Afinal, eu era pura tensão e necessitava descarregar um pouco do estresse que sentia pesar sobre os meus ombros. Assim, quase que ao mesmo tempo, quando os filetes de água quente finalmente percorreram o meu corpo, uma certa visão começou a povoar a minha mente. Não fora algo proposital ou que eu tivesse planejado, pelo contrário, ouso dizer até que repudiei com certa veemência a imagem que começara a invadir meus pensamentos, entretanto, a ânsia que me preenchia era tão grande que me fez descer a mão devagar até a virilha com a imagem de Karin tragando-me por completo. Imaginei-a exatamente como estava na sala: pernas expostas, cabelo desgrenhado, barriga à mostra e os seios encobertos somente pela presença do micro top.
A única diferença era que na minha fantasia estávamos bem mais próximos um do outro, a milímetros de distância, a milímetros – tentadores – de distância e ela retribuía meus olhares repletos de “desconforto moral” numa intensidade assustadora. Hesitei por um instante procurando manter a racionalidade e me considerando o maior dos imbecis por não conseguir evitar o que claramente não passava de uma excitação adolescente. Eu não poderia mesmo estar agindo como um, poderia? Que ridículo! Essa ideia, por si só, já deveria ser suficiente para que recobrasse a razão.
O que estava prestes a fazer? Para o meu azar, no entanto, o desejo nunca foi algo que pertencesse ao campo da lógica e por isso prossegui sem pensar muito em como aquilo me afetaria depois. Quando dei por mim já havia fechado os olhos e a imagem de Karin e seu micro-pijama tinham me dominado por completo, passei a imaginar como seriam seus sussurros, como gostaria de ouvi-la de novo dizendo meu nome da mesma forma que pronunciara na cozinha, no episódio dos tomates, assim pela metade...
“Sui... getsu”
Como se necessitasse de um esforço muito grande para completar, como se minhas carícias a tirassem tanto do eixo que precisasse dizer aos poucos para não morrer de uma única vez. Minha mente nublou-se e tudo o que conseguia pensar era em como seria bom tocá-la, em como seria excitante suspender aos poucos o top indecente que usava e como seria prazeroso envolver um de seus seios com a boca, em como seria enlouquecedor descer a mão até...
— Isso! — Em baixo do chuveiro agora desligado, senti os músculos do meu corpo retesarem a cada movimento.
— Você não vai acreditar no que aconteceu... — Foi aí que iniciando mais uma de suas falas descontextualizadas, Karin invadira o banheiro inesperadamente. — Ino e Sai terminaram! Ela acabou de mudar o status de relacionamento no facebook!
Porra. Literamente porra.
Chegamos agora à sexta lição deste manual:
Esteja preparado para não ter privacidade e para conviver com o falatório interminável de Karin.
Sim, porque se tem uma coisa que sua futura colega gosta de fazer é falar. Veja bem: eu disse falar e não conversar. Atente-se de que há uma distância enorme entre as duas concepções. Lamentavelmente, tal inconveniência aquele dia me proporcionou um momento de puro desespero.
A minha patética figura, no box do banheiro, estava completamente em pânico porque a criatura inoportuna chegara no momento exato em que eu estava prestes a engravidar o ralo. Eu tremia de nervosismo e parei o que fazia no mesmo instante e o pior é que quanto mais nervoso ficava, mais medo tinha de que ela notasse a situação em que me encontrava. Para minha sorte, no entanto, todo o vapor d’água quente, aliado a meu encolhimento no canto do box, ajudaram a encobrir minha constrangedora condição.
Em contrapartida, apesar de ter cessado meus movimentos, meu corpo pareceu enrijecer-se cada vez mais quando – de repente – pelo box do chuveiro e de uma parte onde o vapor não encobrira tudo, consegui entrever o semi-short do pijama que usava, a semi-blusa que deixava a metade da barriga à mostra e o semi-vão que a mesma abria, delineando o vale dos seus seios.
Eu estava muito duro.
Aquela ruiva inconsequente estava praticamente semi-nua na minha frente. Não me entenda mal, querido (a) colega, não é que eu seja pervertido ou algo assim, mas – por favor – peço que compreenda o meu estado e se lembre também de que eu estava há seis meses trocando fluidos corporais apenas com a minha mão.
Assim sendo, complicando ainda mais aquele cenário, lidar com uma Karin semi-nua era mais do que podia suportar. Sua figura provocante me deixou totalmente aturdido, principalmente quando se curvou para lavar o rosto. Quanto mais eu a olhava, mais imaginava como seria imprensá-la contra pia e...
— E aí ele simplesmente disse que a carreira de atriz dela não daria em nada. Às vezes, acho que o Sai foi criado no meio de lobos. Tenho certeza de que terminaram por causa desses absurdos que ele fala. Como o Sai consegue ser tão insensível? — indagou com a voz abafada pela presença da escova de dentes na boca.
Só sei que depois de inúmeras coisas entre as quais falara e das quais não me recordo, ainda de costas para mim, começou a me interrogar, desejando saber minha opinião sobre o confuso relacionamento da Yamanaka e, sinceramente, o relacionamento de Ino pouco me importava. Tudo o que conseguia fazer naquele instante era pensar em coisas broxantes para tentar refrear meu estado:
“Senhorita Ming e sua verruga nojenta”
“Naruto de calcinha”
“Mulher com pernas cabeludas.”
“Costas... Aquele sinal do lado direito é uma graça...”
“Coxas... que coxas ! Todas aquelas horas na academia estão surtindo efeito.”
“Não, pera... volta... volta... Verruga e senhorita Ming, verruga, Ming, verruga... Peitos... se ela estivesse de frente pra mim, eu com certeza veria melhor o que esse maldito espelho do banheiro não reflete direito.”
“Naruto de calcinha”
“Naruto de calcinha”
— Karin, por favor, você pode me dar licença! Estou tentando terminar meu banho e um pouco de privacidade seria ótimo! — grunhi de raiva ao notar que todas as minhas tentativas eram falhas.
— Nossa! Que estresse! — Saiu, batendo a porta do banheiro com força. — Depois sou eu que acordo de mau humor!
...
Como pode ver através do último relato, leitor e futuro morador desafortunado, sua futura companheira de apartamento realmente possui uma personalidade inoportuna e volúvel que é preenchida por uma série de manias igualmente inconvenientes e difíceis de tolerar. Poderia passar horas, inclusive, descrevendo-as, mas decidi que talvez seja melhor ir aos poucos para que você memorize tudo com calma e tenha tempo para respirar. Por isso, por enquanto, vamos nos ater a algo que também me irritava bastante...
“Cadê o Perry?”
Ao som do irritante desenho, adentrei a cozinha já vestido e um pouco mais recomposto de meu constrangimento matinal observando a folgada – com seus fones de ouvido – deslizar pelo cômodo, embalada certamente por alguma música que seu gosto duvidoso escolhera. Devo admitir que, naquele exato momento, permaneci estático, recostado ao balcão da cozinha, perguntando-me internamente de onde surgira aquele inesperado bom humor matinal já que o seu normal, pelas manhãs, era justamente o oposto.
É correto afirmar que vê-la tão alegre e desconhecer o motivo já era o suficiente para me fazer bufar de raiva. Tudo nela me perturbava, me descontrolava, me inquietava. Ela toda parecia um turbilhão, uma manhã quente de algum país tropical perto do Atlântico que dominava tudo a sua volta e desvirtuava a ordem natural das coisas.
— Nós realmente temos que assistir isso todos os dias?
— Não! — Mudei de canal, respondendo a Kiba que – como sempre – ao lado dos outros aproveitadores encontrava-se enfurnado em meu apartamento só para tomar café.
Sim, caro colega, aproveitadores! É necessário que se lembre que no capítulo anterior deste manual, eu introduzi a natureza de uma relação problemática. No entanto – se bem me lembro – não apresentei tão bem os desagradáveis indivíduos para que pudesse conhecer melhor cada um desses parasitas ou, como eles insistiam em se denominar, amigos.
Por isso, desde já aviso que é bom estar preparado também para as inconveniências matinais que incluem Ino e Sakura, moradoras do 407, localizado bem a frente do seu futuro apartamento; Tenten, a intrometida do 303, que tem a coragem de subir um lance de escada a mais só para desfrutar de comida de graça e – por fim – Kiba, um vagabundo preguiçoso, que nem sequer mora no prédio. A verdade é que fosse por desejar nossa companhia ou fosse simplesmente por falta de vergonha, os amigos de infância de Karin cismavam em tomar café da manhã quase todos os dias no já não tão meu apartamento.
— Ei! — retrucou a Uzumaki ao perceber a súbita troca de canal.
— Você não está assistindo!
—E você está com uma cara péssima — replicou, com a frigideira ainda em mãos, aproximando-se de mim e contornado o meu queixo em seguida com a ponta dos dedos. — Isso são olheiras? — Odiava quando fazia isso, de todas as manias que me enlouqueciam, circular meu maxilar com seus dedos era uma das que mais me irritava.
— Karin, então, você vai ou não me emprestar aquele seu vestido azul royal? — Interrompendo nosso momento de implicância mútua e disputa pela TV, a Yamanaka pronunciou-se, interrogando-a sobre um assunto que, provavelmente, precedia a minha entrada na cozinha.
— E eu posso saber por que a senhorita quer tanto esse vestido? — Agora Sakura envolvia-se no assunto ao lado de uma Tenten que também não conseguia disfarçar sua feição de curiosidade para a loira enquanto eu lutava para tirar o controle das mãos de Kiba que, no meio da confusão, aproveitara-se para colocar no canal de esportes.
— Não é nada demais! É só mais uma audição — respondeu simplesmente. — Karin, e então? — Insistente, a Yamanaka prosseguiu enquanto a Uzumaki, sem lhe dar a devida atenção, perdia alguns minutos respondendo a uma mensagem qualquer vinda do seu smartphone.
— E então o quê? — perguntou, deixando escapar um sorriso um tanto quanto peculiar e colocando o aparelho sobre a mesa.
— O vestido, Karin. O vestido! Por Kami!
— Você não tinha aquela aula super importante ou coisa assim? — intrometi-me antes que Ino obtivesse sua resposta — Por que ainda está aqui?
— Eu desisti de ir... — deu de ombros como se não tivesse perdido grande coisa. — Já tinha acordado atrasada mesmo. Semestre que vem não pegarei nenhuma matéria antes das dez.
— Nossa, que ideia maravilhosa! Com sorte você terminará a faculdade quando eu estiver no doutorado — Soltei com escárnio enquanto enchia a xícara de café e ela dedilhava rapidamente outra resposta a quem quer que fosse sem, ao menos, me olhar.
Com quem falava, afinal? Quem merecia tanta atenção a ponto de fazê-la ignorar minhas farpas?
— É possível! Mas terminar a faculdade não me importa tanto no momento se quer saber... Até porque, a curto prazo, só consigo pensar no que vou fazer com meu bônus de funcionária do mês.
— Mentira que você é funcionária do mês! — surpreendeu-se Tenten.
— Parabéns! Quanto você ganhou de bônus? Cinco, talvez, dez ienes? — debochei, levando mais um gole de café a boca. — O que dá pra fazer com isso?
— Então, Sakura, conte-nos como está aquela paciente de quem tanto tem falado nesses últimos dias. — Sentindo um tom mais ácido na minha voz, a Mitsashi desconversou, impedindo que Karin respondesse a minha provocação.
— Bom, — tomou fôlego a Haruno. Tenho que admitir como foi louvável a tentativa dela e de Tenten de controlarem os ânimos. — O quadro dela não é dos melhores — emendou, respondendo a morena — mas estamos confiantes, afinal, ela está nas mãos de uma das melhores neurocirurgiãs do país. Enfim, estou torcendo para que tudo dê certo. Ela é uma garota incrível e eu realmente quero vê-la bem.
Enquanto isso, Karin permanecia grudada ao aparelho celular e atenta a cada notificação.
— Hum... — retruquei, olhando de esguelha para a Haruno.
— O que foi agora? — Sakura perguntou, despejando um olhar curioso sobre mim.
Outra mensagem, mais um sorriso e um descontrole tomando-me cada vez mais.
— Sei lá, acho que você não deveria se apegar assim aos seus pacientes — expliquei, servindo-me de um pouco de misoshiru. — É só a minha opinião — completei, por fim, contorcendo os lábios a cada novo som que o smartphone de Karin emitia ao receber uma nova mensagem.
— Engraçado não me lembro de ter pedido a opinião de alguém que não é médico, não sabe nada sobre a profundidade da relação médico/paciente e não conhece a realidade de um hospital.
— Realmente, eu não sou médico e, pelo jeito, nem você deveria ser. Não preciso conhecer a realidade de um hospital para saber que você está cometendo um erro, Sakura! Se continuar se apegando a eles desse jeito, vai se sentir um fracasso – cedo ou tarde – quando perceber que não há como salvar todos.
— Acontece, Suigetsu, que as pessoas não são números e eu não posso, simplesmente, escolher não me apegar a elas!
— Qual é o seu problema hoje? Por que está agindo como um perfeito e completo idiota? — Visivelmente irritada com que eu acabara de dizer a Haruno, Karin finalmente reservou seu valioso tempo para gritar comigo.
— Qual é o meu problema? Você fez todo aquele estardalhaço hoje de manhã para usar o banheiro, me interrompendo com suas fofocas matinais na hora do meu banho e, do nada, decide que não quer mais assistir sua aula estúpida. Sabe qual é o meu problema? O meu problema é você e sua total falta de senso de responsabilidade ou respeito com a privacidade alheia.
— Que fofocas? — indagou subitamente a Yamanaka olhando de um lado para o outro. — Fofocas sobre quem?
— Você interrompeu o banho dele? — Gargalhou o Inuzuka. — Não se faz isso com um homem! Ainda mais um como Suigetsu que não transa há seis meses.
— Cala boca, Kiba! — Pronto. A confusão estava oficialmente formada e eu definitivamente estava prestes a voar no pescoço daquele maldito sarnento e expulsar aquelas folgadas do meu apartamento. — Se continuar levando as coisas desse jeito, nunca vai arrumar um estágio decente. Você já percebeu que está no quarto período? Quer passar a vida toda servindo chá? Consegue ao menos perceber a ironia disso? Vai passar a vida toda servindo uma bebida que não suporta!
— Eu não me importo em ter que trabalhar numa casa de chá a vida toda, porque tenho certeza de que farei isso com o mínimo de dignidade. E você? Sabe ao menos o que essa palavra significa? Ah, desculpa. Eu acho que não, não é mesmo? Afinal, você trabalha para uma empresa que ajuda a destruir o mundo. Quanto vocês pagam mesmo para aquelas criancinhas chinesas? Cinco, talvez, dez ienes? — devolveu a minha provocação de um modo ainda mais ácido
— Não vamos nos exaltar, ok. — Intrometeu-se Tenten.
— Isso dá quanto em renminbi, Suigetsu? E em dólar? Cinquenta cents a hora, talvez?! Converte aí! Faça a sua mágica!
— Já chega! Parem com isso vocês dois! — Ainda tentando apaziguar os ânimos, Sakura pronunciava-se como uma mãe irritada.
— Nunca ficou provado que a Osawa compactua com o trabalho escravo!
— Ah, por favor! Deixa de ser cínico! Eu sei, você sabe e o país todo sabe e, sinceramente, uma vez que se trabalha para pessoas assim, você é tão ou mais desprezível do que elas.
— Quer saber... sua opinião é indiferente pra mim! — Pegando minha pasta em cima do balcão, pronunciei-me prestes a sair dali. — Você não paga o meu salário e, para falar a verdade, mal consegue pagar sua parte do aluguel.
— Realmente, você tem razão. As criancinhas chinesas contribuem muito mais para o seu salário do que eu!
— É por isso que nunca se interrompe o banho de um homem! — O comentário fora de hora de Kiba fora a gota d’ água para mim e o início das gargalhadas de Karin que, com certeza, foram ouvidas para além do corredor do prédio. — Veja só como ele está mal humorado agora!
— Karin! — Sakura, visivelmente corada ao lado de uma Teten e uma Ino que tentavam esconder o riso, colocava-se novamente como aquela que tentava acalmar a todos.
— Cresçam! — gritei antes de sair. — Cresçam!
...
Desprezível?
— Estamos de fato em déficit...
Desprezível?
Como ousou me chamar daquilo? Embora eu não fosse o melhor dos seres humanos, aquela palavra atribuída a mim era, no mínimo, uma injustiça descabida. Eu que por mais de uma vez cedi as suas vontades a contragosto, que por mais de uma vez lidei com seus caprichos infundados, que por mais de uma vez permiti que ela se apoderasse das minhas coisas.
Des. pre. zí.vel.
Pressionei a caneta digital sobre o tablet com mais força do que era necessário enquanto meu olhar impaciente vagueava mecanicamente sobre a projeção de lucro dos últimos meses que o parasita do meu chefe me mostrava.
— Suigetsu, o que me diz? Você pode fazer isso, não pode?
De repente, a intimidadora frase despertou-me de imediato, lembrando-me da triste realidade no qual estava inserido. Minha atenção, naquele instante, voltou-se toda para incompetente figura a minha frente. Seus trejeitos e seu sorriso amistoso já eram motivos suficientes para me fazer ter vontade de socá-lo ali mesmo. O escritório agora parecia menor do que o habitual e tive a ligeira sensação de que de alguma maneira me enclausurava.
A garganta seca.
A gravata apertada.
As mãos suadas.
Tudo me enclausurava naquela sala.
“Acontece, Suigetsu, que as pessoas não são números e eu não posso, simplesmente, escolher não me apegar a elas”
Em determinado momento, senti uma pontada de dor alastrar-se na boca do estômago ao relembrar as palavras matinais da Haruno que, para o meu azar, pareciam voltar-se contra mim naquele momento. Que ironia! Não que eu fosse o tipo de indivíduo que era facilmente atingido pelo lastimável sentimento de culpa, mas assumo que talvez tenha sido um pouco rude em meu tratamento com Sakura pela manhã. Um pouco rude, talvez, porém era preciso admitir que minhas palavras, embora amargas, continham uma dose de verdade.
Por que as pessoas recusavam-se tanto a aceitar a verdade?
Eu, por exemplo, já havia me habituado a triste verdade de que teria que aturar os desmandos de Osawa Hayato, o incompetente sobrinho do meu chefe, para conseguir ascender naquela empresa. E isso, sem dúvida, era uma verdade incontestável que me assombrava todos os dias, uma vez que ser assistente de Hayato exigia mais do que eu poderia imaginar, pois requeria que eu fizesse coisas estúpidas:
— Você pode começar a curtir minhas postagens no facebook e me fazer alguns elogios?
— O quê?
— Quero aumentar minha popularidade na rede.
E isso, inevitavelmente, me colocava em situações constrangedoras:
Hozuki Suigetsu: Que vídeo incrível! Nossa, maravilhoso! Realmente, uma superação. Como o Hayato-sama conseguiu pegar todo esse peso? Eu com certeza não conseguiria.
E quando eu achava que não podia ficar pior, as mensagens por inbox só me indicavam o contrário:
Osawa Hayato: Suigetsu, apaga seu comentário e coloca de novo sem usar o sufixo “sama”. É muito formal e não muito convincente.
Hozuki Suigetsu: Que vídeo incrível! Nossa, maravilhoso! Realmente, uma superação. Como você conseguiu pegar todo esse peso? Eu com certeza não conseguiria.
Editado
E, acredite, quando eu pensava que as mensagens por inbox não poderiam ser mais ridículas, ele ia lá e me surpreendia de novo:
Osawa Hayato: Suigetsu, não edita. Dá para perceber que foi forçado, ao invés disso, apaga e coloca de novo. Tem que parecer natural!
Natural era tudo o que aquilo não era.
Sem falar nas fotos em que me marcava... Ele não parecia ter muitos amigos, mas eu tinha alguns que nunca perdiam a oportunidade de rir da minha desgraça nos grupos do whatsapp:
Uchiha Sasuke: Suigetsu, tsc.
Mal pude acreditar quando até Sasuke printou uma de minhas mensagens no perfil daquela ameba para tripudiar de mim.
Inuzuka Kiba: O Naruto sabe que você tem um novo amigo? Pensei que a história de vocês fosse especial.
E devo dizer que não satisfeito em me humilhar pela rede ser assistente dele também exigia que eu passasse por situações de humilhação pública:
— De quem é isso?
— É meu! Eu só estava...
Foi com extrema revolta que sob seu olhar inquisidor me vi obrigado a admitir, na frente da gerente comercial, que era minha a revista pornográfica encontrada por ela entre as pastas com as planilhas que lhe enviei.
— Senhor Suigestu, peço, por favor, que tenha mais profissionalismo!
— Eu sinto muito,Tsuki-sama, ficarei de olho nele a partir de agora. Isso não voltará a se repetir, não é mesmo, Suigetsu?
Dá para imaginar como quis socá-lo naquele dia?
Desprezível era, de fato, a ameba que se encontrava a minha frente e não eu. Mas admito que de todas as coisas humilhantes que me mandara fazer nenhuma se comparava aquele pedido.
— Preciso de uma resposta agora!
— Eu... eu...
— Você leva seu futuro nessa empresa a sério, Suigetsu?
— É claro que levo... — Levantei-me de modo abrupto.
— Então o que está esperando?
Ao som daquela intimação, obriguei-me a sair finalmente do escritório e me preparei para a pior tarefa que já recebera até ali. Será que conseguiria fazer aquilo?
— Suigetsu? Suigetsu? Suigetsu? Sabe... o Masao, do recursos humanos, está interessado em você. Ele insistiu tanto que dei seu número pra ele, você não se importa, não é mesmo? — disse a voz enigmática, retirando-me de mais um momento de reflexão.
— Não. Eu não... — Antes de confirmar, entretanto, parei um segundo me dando conta do que acabara de aceitar. — Muito engraçado — retruquei, encarando agora a mulher a minha frente e aproximando-me da minha cabine de trabalho.
É certo afirmar que Amaya e suas gracinhas diárias já faziam parte do meu cotidiano e, embora sua extrema eficiência, às vezes, me incomodasse um pouco, devo dizer que se não fosse por seu jeito bem humorado, sua solicitude, compreensão e suas pernas incríveis, meus dias seriam piores do que já eram.
O que foi, caro leitor?
Por favor, não leia este último e singelo elogio ignorando todas as qualidades não físicas que concedi a ela, porque seria displicência de sua parte e daria a mim esse ar canalha que sei que não mereço.
— O que houve? — perguntou-me preocupada. — Você está bem?
— Estou — respondi finalmente. — Por quê? Não pareço?
— Não, não parece. — debruçou-se sobre a cabine, dedilhando as unhas na divisória que nos separava — Estou te achando mais calado hoje... Você geralmente chega reclamando de alguma coisa ou implicando com alguém ou falando mal da pobre coitada que mora contigo.
— Pobre coitada? — indaguei, bufando. — No dia em que Karin for isso, a terra entrará em colapso, porque – sem dúvida – haverá algo fora do lugar.
— Não creio que ela seja mesmo tudo isso que você diz. Nesses dez meses de convivência ficou claro para mim que você gosta de exagerar um pouco as coisas.
— Gosto de exagerar? Você não tem ideia do quão insuportável ela pode ser e se soubesse, não diria que estou exagerando.
— O que te irrita tanto nela, afinal?
— Tudo! — expressei-me, massageando as têmporas. — Absolutamente tudo. Todas as manias que já conheço e as que ainda vou conhecer.
— Não faça! — cortou-me de súbito, parando bem em minha frente.
Como Amaya fazia aquilo? Era sempre muito perturbador quando parecia que conseguia ler meus pensamentos.
— O quê?
— Seja o que for que ele te mandou fazer, não faça.
— Não é tão simples assim. — Recusando o tom quase profético de sua voz, distanciei-me pelo corredor afora, entrando no elevador com duas constatações em mente. A primeira era de que, para minha imensa revolta Karin estava certa, eu realmente era tão desprezível quanto Hayato e a segunda era de que aquele seria um longo dia.
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