Mantendo O Equilíbrio - Um Novo Amanhã (T4 + T5)
41 Capítulo 11
Notas iniciais
Intimidade é algo que vem com o tempo. Que a gente compartilha quando vale a pena, quando se confia em alguém para ceder um pouco de si, algo que de alguma forma te define e te junta com essa pessoa.
Tenho sim um alto nível de intimidade com Vinícius, e não falo apenas do corpo-a-corpo. É de muitos jeitos. Temos segredos compartilhados, assim como descobrimos uns outros. Por exemplo, ele sabe sobre meu trauma dos trovões e, com a ajuda de meu irmão, descobriu como tudo começou. Isso foi bem no começo de ano.
Pelo meu lado, sei de seus problemas com o pai, assim como descobri as reais questões de sua família, que eram segredos que se sufocaram por anos. Então sim, temos muito conhecimento sobre o outro, ainda que não sabendo exatamente o quanto, mas compartilhamos muito. Até porque se trata de um dos ideais que tratamos de consertar quando deu ruim no ano passado.
Dito tudo isso, esclareço também que algumas linhas... foram ultrapassadas. Não que fossem barreiras exatamente, elas eram apenas limitações que foram sendo deixadas para trás conforme um relacionamento firme foi se desenvolvendo. E não tenho arrependimentos quaisquer sobre isso. Pelo contrário, é algo que nos mantém mais próximos ainda, mais e mais, impossível de esquecer, até mesmo por uma piscada de olho que hoje já ganhou outros significados.
Acredito que o brilho em nossos olhos, o sorriso no rosto, eles nos entregam nesse quesito. Mas como dizia, existem também outros tipos de intimidade, que são, por isso, coisas difíceis de lidar, de perguntar, responder ou mesmo compartilhar.
Principalmente se envolve uma relação nora-sogra. Não me denuncio, mesmo que saiba que ela lá tem suas suspeitas... Ainda fico vermelha e sem jeito para tratar dessas coisas com ela. Mas não é esse meu ponto... de falar de mim com seu filho. Não, o fato é que não é da minha conta o que tenho que tratar, assim como não me sobra outra alternativa. Tenho de avisá-la sobre o que aconteceu, quase como um dever. De amiga até. Que tipo de pessoa eu seria se não lhe dissesse? Terrível!
Então, sou forçada pelas circunstâncias de questionar. Puxo minha cara dura sabe-se lá de onde para encarar Djane, atravessar esses limites que meio que nos separa. Porque uma coisa é que somos amigas, outra bem diferente é tê-la como a mãe de meu namorado, o tipo de coisa que complica tudo. Por que complicamos mesmo?
Não sei, não deixa de ser estranho. Vinícius tem razão quanto a isso. O que posso dizer, de qualquer forma? É assim e não dá pra mudar. É com essa conexão que temos que julgo ser importante lhe avisar. Estranho ou não, aí vou eu. Já estou cara a cara com a mulher mesmo, vou guiar para o fim.
– Querida, do que você quer falar a respeito?
Djane fecha a porta do quarto de hóspedes delicadamente, sem ideia alguma do que se refere a conversa que pedi a ela. Lá fora ficaram os dois metidos com seu Júlio, fingindo que não têm interesse sobre a resposta de Djane. É domingo Dia das Mães, um almoço especial está sendo feito para a data, chegamos mais cedo dessa vez.
Minha sogrinha tem esse sorriso marcado ao rosto sem deixar de mexer no pingente da correntinha que ganhou do filho, um colar que traz pingente da palavra “Mãe” em ouro. Já foi coberta de beijos, abraços e mimos desde que acordou, e até de meu irmão e de mim quando nos encontramos ainda no jardim da casa – ok, nem tanto pela parte de meu mano, afinal, ele ainda tem aquele troço no olho. Murilo a presenteou com perfume enquanto eu a mimei com uma super caixa de chocolates, para a boa chocólatra que é. Que minha mãe não saiba disso!
Ligamos eu e meu irmão para ela logo que deu meia-noite. Acordamos nossa mãe, que não se importou nem um pouquinho. Mimamos com palavras, com tudo que ela gosta de ouvir, se isso era a única coisa que podíamos fazer. Quer dizer, preparamos uma surpresinha para ela, mesmo à distância. Mandamos o presente dela embrulhado por um amigo do meu irmão que passaria pela cidade, além de mancomunar com meu pai sobre uma mensagem especial.
Só meu pai para alugar um outdoor com uma propaganda, fazer um acordo publicitário para sua livraria. Mandou escrever “Amor às letras, amor a três delas: Mãe”. E assinou com seu nome, assim como o meu e de meu irmão. Depois do almoço, papai prometeu nos ligar para ouvirmos tudo. Como minha mãe e minha avó não têm noção de nada, Murilo e eu apenas as atentamos pela manhã, lamentando as saudades e a distância. Que se não fosse o fato de meu irmão não poder dirigir ou viajar, estaríamos lá.
Então chamei Djane para conversar antes do almoço, para que não interrompessem em nada os planos da minha família. Sei bem do que tenho de falar, mas começar? Fico perdidinha. Sento na ponta da cama de hóspedes, pulo conforme o colchão me faz pular, me sinto um pouco boba.
– Eu... hum... bom, é só que...
– Que...?
Ai, como dizer o que tenho para dizer com Djane brilhando esses olhos?
Talvez no efeito band-aid? Num puxão? Ok. Respira, Milena.
– Tá, eu vou ir direto ao ponto, ok? Eu vi... VI a senhora com o professor Renato. E outra pessoa viu... e mais outra pessoa também, um tempo depois.
Djane se senta ao meu lado na cama, aquele seu sorriso some ante ao choque, cobre o rosto parcialmente com as duas mãos, embaraçada como nunca. Acho até que ela parou de respirar.
– Ai meu Deus, que vergonha!
E eu!
Digo, eu, que não queria ser a mensageira. Mas já pensou se fosse Vinícius? Seria um desastre. Provavelmente eu teria que intervir de qualquer jeito.
Aposto que ela não teve vergonha de confessar pra mim que já havia me pego com seu filho na cama – mesmo sabendo que se tratava de algo muito inocente, pois só dormimos e nada mais – menos ainda de me cochichar que esperava por um namoro nosso. Eu sim morri de vergonha.
– Onde? Quando? Quem? Quem são esses outros?
– Errrrr... bom, na primeira vez...
Especulo desviando o olhar de minha sogrinha. Enrolo a ponta do vestido, como se estivesse distraída, para que Djane não ficasse tão desconfortável. Só que não adianta muita coisa...
– PRIMEIRA VEZ? Houve outras?
– Bem, sim. Estaria mentindo se dissesse não.
– Ai, Deus.
Ela se acomoda melhor na cama, porém, nenhum momento deixa de cobrir a boca, espantada por “saberem”. Isso porque nem fiz a pergunta crucial. Quero muito dizer-lhe para não se preocupar, que isso na verdade é bom. Quero que o choque se disperse logo para que possa lhe dar essa segurança.
– Pois então, eu e... Gui, vimos uma vez perto da sala dos professores, um pouco antes da confusão do professor Bart. Mês passado foi Gui que os viu perto do almoxarifado... e essa semana...
– Essa semana...
Sussurra um pouco nervosa. Nem posso dizer nada se sei bem como é estar desse outro lado.
– Vi no estacionamento. O que foi nada demais... só que Vinícius tava lá também, e de acordo com o que fomos conversando, ele foi juntando 1+1, foi sacando...
– Então... ele sabe? Meu filho sabe?
Nunca vi Djane roendo unha, essa é inédita. Riria se não parecesse tão trágico à mulher. Compadecida dela nesse estado, sei que qualquer comentário ademais que meu Vini fizer sobre o assunto, eu a guardarei como falara no outro dia, “defenderia com unhas, dentes, tacos de beisebol e máquinas de choque-elétrico”. Porque ela merece muito ser feliz.
Agora... como falar sem desestabilizá-la?
– Errrr... sim? Quer dizer... ninguém tem uma confirmação. Eu não quis mencionar antes por... sei lá, é estranho. Agora que as circunstâncias mudaram, a senhora me entende, não entende?
– Sim, sim. Eu só não queria que... soubessem dessa forma.
Me viro para ela, cubro sua mão que espalma o colchão, como muitas vezes já fiz, para dar força, apoio. Enternecida, Djane retribui o carinho, mesmo com um aspecto confuso, cobrindo-a. Mais confortável, jogo logo a pergunta que é dona de fazer comoção por onde passa:
– Então... tem algo rolando mesmo?
– Acredito que sim... e acho que é a primeira vez depois de muito tempo que chego a falar isso alto para alguém.
~;~
De repente sinto uma liberdade maior, nada de intrusa, nada de receio. Vejo nos seus olhos como é sincera, como tem seus medos, como confia em mim para conversar a respeito. Gosto tanto de vê-la assim.
– Se me permite dizer, creio que isso é bom. Muito, muito, muito bom, sabe.
– Você acha, querida?
Sorri, ainda acanhada.
– Claro, Djane! Pelo que me consta, esse é um dos melhores feelings depois da relação familiar. Nada como dar espaço para o coração... e você tem trabalhado tanto! Vida não é só isso.
– Eu sei... é que fiquei presa às questões de família por tanto tempo que... tive de esquecer e me afastar de muita coisa. Renato fez parte desse pacote.
Me sinto como se tivesse de papo com uma amiga, tratando de garotos, amores e sentimentos. O lado sogra e nora é esquecido por uns minutinhos. Cadê aqueles chocolates? Ah sim, dona Fanny tomou para não afetar nosso apetite.
– Posso perguntar uma coisa? É um pouco íntimo...
– Por que não, ram? Diga.
– A senhora gosta mesmo dele? Quer dizer, sei que amou muito seu marido Gustavo, mas não dá pra viver de luto no coração para sempre, dá? Já faz uns anos e... tá, tô tagarelando, né?
– Não, de maneira alguma. Isso... isso me alivia, Milena.
Deus meu, Djane suspirou.
– Como assim?
– Como eu disse, abdiquei praticamente de minha vida para não perder o meu bem mais precioso, que é meu filho. Demorei tanto para me restabelecer que pensei ter perdido o fio da meada...
– Acho que não entendi.
– O que quero dizer, Milena, é que isso não é... bom, não é de agora.
Djane aperta os lábios, ansiosa. Com certeza ela tá mexida. Se fosse outra pessoa, eu estaria pentelhando a essa hora. Vontade não me falta, na realidade.
Contudo, respeito em primeiro lugar.
– Eu sei. Os vi faz um tempinho...
– Não, Milena, não é nem de quando você nos viu.
– Não? De quando então?
Ela coça a cabeça, desconcertada de novo.
– Errrr... Renato e eu... nós começamos um tempo antes do acidente de Vinícius.
Wow! Quem tá chocada agora sou eu.
Antes! Antes do acidente de Vinícius! Como que eu não vi isso?
– Mas...? E...?
– Você deve se lembrar, Milena, que quando lhe disse, durante a recuperação de meu filho, eu não havia comunicado a ninguém da família sobre o acidente. Mas nunca mencionei que outras pessoas mais souberam. Apenas duas, Fabiano e Renato. Fabiano por ser meu amigo há muito, muito, muito tempo. Sua família se dava muito com Gustavo, velhos bons tempos. E quanto a Renato... bom, aconteceu apenas. Nos aproximamos muito durante um simpósio que participamos, representávamos a nossa instituição. Uma coisa foi levando à outra...
Ela suspirou de novo. Djane. Por essa sim eu não esperava.
Não deixa de ser lindo, de qualquer maneira.
Nem a interrompo com esses meus pulos mentais.
– Porém, por mais entrada que dei a ele para minha vida, ainda havia essas histórias, esses segredos sufocantes me rondando, as batalhas com Filipe e... enfim, eu tive que me concentrar no que eu queria. E agora...
– E agora com tudo resolvido, vocês estão se dando uma chance...?
História de novela, é quase o que afirmo.
– Sim. Ele disse que me esperaria... Esperou.
– Ai que lindo.
Mordo o lábio, junto as mãos e faço uma carinha doce. Bom, imagino que seja doce, por causa da fofura que ela conta. Um franzir, no entanto, perpassa por sua face.
– Também não é tão simples assim, querida. Nós somos colegas de trabalho, a instituição tem uma política forte quanto a relacionamentos desse tipo. Até um tempo fiquei insegura, sem saber se ele havia mesmo me esperado... então ele confessou que seus sentimentos eram os mesmos de meses atrás. Fora isso, ainda tem meu filho... quer dizer, o que digo a ele?
Ai de Vinícius, já disse que a ele que está sob aviso se der uma de filho protetor demais. O safado teve a coragem de confessar que estaria quite com a mãe, por toda a implicância que recebeu dela por anos. Eu só não bati nele porque Djane e seu Júlio estavam próximos o bastante para ver o que seria a cena.
– A verdade, oras. Que você gosta do professor Carvalho. Vinícius não tem nada para implicar, a senhora não tem que dar explicações, tem vida, é independente. É mulher. Se tem algo para se preocupar, é com essa história da política da instituição, afinal, agora é como se a senhora fosse chefe dele, né?
– Sim.
Assente, tristonha, pela sua realidade. Para mudar esse status, aperto sua mão. O olhar que mantinha baixo se elevou para mim, que não perdi a chance dessa atenção.
– Se o que tanto pensa é sobre aprovação, da minha parte a tem. Até de meu irmão. Quer dizer, ele quer muito conhecer para saber se aprova ou não...
Djane entra em ponto alerta de novo, o que, a essa hora, pode ser considerado engraçado. Exclama com meios risos abafados:
– Ai, Senhor, Murilo também?
– É, ele ouviu... Sabe que com a senhora ele também fica todo protetor.
– Acho lindo da parte dele. Uma pena que vocês não puderam passar esse dia com a Helena. Mas posso ser um pouquinho egoísta de dizer que amo ficar perto de vocês?
Ela levanta uma mão, aproxima o dedo indicador do polegar para enfatizar esse “pouquinho” que cita. Seu espírito, assim como seu aspecto, é dos melhores e dos mais engraçados também.
– Pode se não permitir isso chegar aos ouvidos de certo Lins. Murilo ficaria podre, a senhora sabe. Já posso ver ele besta quando confirmar a patern...
– Paternidade? Murilo vai ser pai?
Olho para cima, converso com o universo por um segundinho, como faz tempo que não o fazia. Até quando essas coisas ficarão a me escapar da boca, hein? Assim vão pensar que não sou boa com segredos!
Dessa vez acho que o universo responde de volta.
Ajoelhou, agora reza, Milena.
~;~
– Estamos aqui, diretamente da Avenida Escudo Borges, acompanhando a saga ansiosa que nosso querido cidadão, senhor Otávio, preparou para esse Dia das Mães. Ele promete ser inesquecível. Dona Marília, segura esse coração!
Todos ao redor da mesa ouvem o discurso de Lucas, meu “vizinho”, que ajudou meu pai na empreitada publicitária. Meu avô me ligou para que ouvíssemos tudo, desde a hora de todos chegarem à porta da livraria até puxarem o pano que cobria o outdoor. Era um grande movimento, por isso Lucas se preveniu, preparou um equipamento de som, tomou o microfone e mandou bala. Se ele não fosse dj, seria um baita cara da área de Comunicação, jeito ele tem muito.
No viva-voz, deixei meu celular disposto no meio da mesa de almoço, enquanto demos um tempo antes da sobremesa. Dispensamos dona Fanny, afinal, ela tem filhos, deveria estar com sua família, nos certificamos de cuidar de nos servir nós mesmos. Ela só confiou porque nos viu em ação no domingo anterior, quando a turma tomou conta de sua cozinha depois que meu irmão fez a graça de derrubar um pudim.
– Aproveitando a oportunidade, mando beijo para minha mãe e meu pai... Gente, tô no telão, olha que bonito. Sempre quis dizer isso. De mandar beijo para meus familiares, digo, pois sou bonito por naturez... tá, tá, calma, gente. Vocês estão muito inquietos para ver o que tem debaixo do pano, né?
A zoada é enorme, tanto de gente quanto de automóveis. É gente gritando, é gente buzinando. Para que seu Júlio não fique perdido, Djane vai lhe explicando quem é quem, como é tudo lá, lembrando-se bem da viagem que fez até a casa de minha mãe.
– Um oferecimento da Livraria Lins Páginas e da família Lins. Não esquecendo da Milena e do Murilo, que tão ouvindo a gente de longe mesmo. Quem quiser dar um alô pra eles, pode gritar um Oi comigo. No um... no dois... no três! Oooooooooooooi!
Vou matar o Lucas!
De abraços, talvez. Por todo esse carinho que tem com nossa família. Ele é como o primo brincalhão que eu nunca tive, porque irmão palhaço eu tenho. O mesmo que, enquanto conversa com seu Júlio, implica com Lucas. Meu querido irmão não perde a chance de contar a história da premiação da minha avó, quando levou a culpa por ter aprontado.
– Ele que sabota o microfone, eu que levei o puxão de orelha.
– Mano, com tua fama, foi mais fácil de acreditar.
Aporrinho um pouco, travessa. Ele aponta para mim, se achando cheio da razão:
– Viu, viu como ela é?
– Meninos, vocês também não ajudam em suas credibilidades acusando um ao outro.
Dou língua para meu mano que faz bico, na cabeceira da mesa, um pouco distanciados de nós, para evitar contágio. “Murilin” nesses dias enfim aprendera, mesmo na marra, a se comportar. Como seu projeto com Armando está num ponto bem crítico, meu irmão tem passado bastante tempo em sua casa. O que foi muito bom para mim, que fiquei mais perto de Vinícius sem ter que me preocupar com regras ou alguém de olho na gente. Aperto a mão do namorado debaixo da mesa, capto seu sorrisinho meia boca intencionado, continuamos a ouvir a bagunça do outro lado da ligação.
– Então, tudo pronto? Tudo pronto, galera! Que rufem os tambores e... Feliz Dia das Mães!
Fogos de artifício soaram, foi uma barulheira danada, eu não entendi mais nada, mas estava altamente feliz, tão feliz que quando o microfone deu aquele probleminha de som, aquele que falta ensurdecer a gente, não entendi o que estava acontecendo. Um grito ao fundo foi ouvido:
– Espera... Dona Marília!
E a ligação caiu, assim, sem mais nem menos. O silêncio reinou sobre a mesa.
Anestesiada, me ouvi falar:
– Vovó?
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