Mantendo O Equilíbrio - Um Novo Amanhã (T4 + T5)
42 Capítulo 12
Notas iniciais
Balanço a colher na minha xícara de café, não devia ter vindo trabalhar.
Quer dizer, esse é meu espírito dormente falando, esqueci meu lado responsável por uns tempos. Se comigo estivesse, me importaria muito com a advertência que meu chefe Thiago me deu na sexta-feira passada. Como previ, ficou minha palavra contra a de André, nosso caso está em averiguação. Fomos até dispensados do trabalho após umas sessões de “depoimentos” com os coordenadores do R.H.
O fato de eu ter lutado para consertar o erro me ajudou um pouco, assim como a meu bom comportamento na empresa, sempre pró-ativa, interessada e disciplinada, ao contrário de André. Não que isso pudesse provar muita coisa, não há tampouco testemunhas. Pelo menos não por enquanto.
Ficou por conta de nosso supervisor algum tipo de punição. Com o documento recuperado, na sexta pela manhã ele não tinha muito ideia do que fazer ainda. Não era uma falta tão grave assim para uma medida administrativa tão drástica, como a suspensão. Somos meros estagiários, no entanto, dentro da empresa nosso comportamento equipara-se ao de funcionário, temos as mesmas responsabilidades, só não ganhamos por isso. É apenas uma experiência para a faculdade. Se formos admitidos ao término, é outra história.
Nem por isso a imagem que fica é legal. Cada passada minha ao entrar na empresa hoje foi captada pelas pessoas ao redor, cochichos começaram, eu entrei de cabeça erguida – para depois me remoer sofrida no banheiro enquanto esperava notícias de meu pai. Thiago mudou um pouco em sua conduta para comigo e com André. Parece que ligou a desconfiança, desligou a simpatia. Não o culpo por isso.
Mas não consigo me importar nenhum pouquinho nesse instante. A única coisa que me importa no momento é ouvir notícias, notícias boas sobre minha avó, que teve um problema no coração no meio da atração de Dia das Mães que meu pai arquitetou. Mal dormi essa noite, meu cérebro se centrou nas palavras de meu amigo Lucas quando disse minutos antes da tragédia “segura o coração, dona Marília”, como se fosse um aviso.
Mal como fiquei, Vinícius também não dormiu muito. Meu irmão só deixou que ele se deitasse em minha cama porque diante das circunstâncias, ele mesmo não o poderia fazer. Não ainda com aquele troço no olho, que apesar de ter desinflamado um pouco, ainda pode contagiar. Isso me impediu de dormir junto de meu irmão, também muito preocupado, como costumamos fazer quando acontece algo assim, apreensivo, porém, não liguei muito para suas condições quando o abracei forte logo que a ficha caiu, ainda na mesa de almoço na casa de seu Júlio.
Foi uma comoção grande pela cidade, Lucas foi o primeiro a nos dar notícias, enquanto seguia para o hospital. Meu pai ficou tão inconsolável se culpando que nem mesmo atendeu a mim ou a meu irmão. Minha mãe disse que nunca o viu assim.
Eu só quero que ela esteja bem.
É pedir um pouco demais, universo?
– Você tá com uma cara péssima, Lena. Aconteceu alguma coisa?
Nem percebi quando Iara sentou-se a minha mesa, na lanchonete. Como Thiago anda desconfiado de qualquer coisa, me deu um tempo de dispensa enquanto ele teve que dar uma saída, me deixou apenas com um trabalho de planilhas que fiz rapidamente para me livrar. De qualquer maneira vou ter que revisá-lo, não posso confiar que não fiz algo de errado ali.
– Só pre-preocupada... minha avó tá em observação. Pode ser que... dessa vez...
Meus olhos se enchem novamente só de cogitar essa possibilidade. Estou tão longe dela... Quis pegar um ônibus de viagem ainda ontem, mas ninguém me deixou fazer isso. A espera tem matado a gente assim mesmo.
– Lena, não pense assim, ok? Nem sei o que te dizer.
– Não diga. Torça comigo para que a próxima ligação que receber seja da notícia que tanto esperamos.
– Com certeza... queria tanto poder te ajudar. Tem algo que eu possa fazer?
Fungo, respiro fundo. Tento melhorar a mim mesma, o que não sei se fez diferença.
– Conte-me sobre sua viagem.
– Ah, não teve muita coisa, você sabe. Não obtive coisas novas sobre minha mãe... Sobre Viviane, por outro lado, meu pai agora tem umas poucas coisas que conseguiu resgatar, já tem um material por onde começar.
Fungo mais um pouco, bebo do meu café quase frio de tanto tempo que passei só batendo colher. Expiro forte para tomar centro de mim, não ficar pensando em coisas negativas.
– Que bom.
– E... Milena? Me contaram sobre o que houve na quinta-feira. Acredito que não esteja envolvida, mas preciso ouvir de você essa confirmação. Porque eu vou me inteirar sobre isso, quero me envolver na apuração desse caso. Nunca confiei mesmo nesse André.
– Ah. Você não precisa fazer isso, você sabe.
– Mas eu quero. Um dos meus encargos também é manter a boa conduta e funcionamento da empresa, não me importo de averiguar. Só preciso de sua confirmação quanto a sua justificativa.
– Que ele fez para me prejudicar? Ele confessou pra mim na cara dura. Tão dura que logo levou um soco meu. Perdi o juízo quando veio com baboseiras, ganhei uma advertência na faculdade também...
Detalho bem como foi toda a situação, isso me ajuda a dispersar mais a cabeça. Iara só me interrompe com o que soube pelos outros da empresa, com quem viu o alvoroço quando retornei para entregar o documento, com o que pegou do boca-a-boca das pessoas. Me sinto melhor conforme vou extraindo isso de mim.
No relógio de parede da lanchonete me retraio ao ver que excedi meu break, encerro a conversa. Iara segura meu braço antes de ir:
– Mais uma coisa... Você não vai ficar chateada por isso, vai? Sei o quanto preza pela discrição, que prefere lutar pelas suas batalhas.
Com um ar de quem levou na cara para aprender, retruco:
– Não, Iara. Essa lição eu já aprendi. Nem toda batalha se vence sozinha.
~;~
Meu supervisor pode não confiar muito no momento nem em mim, nem em André, porém, não nos chuta para o canto quando aparece uma oportunidade de real ação. Nossas vagas de estágio atuam na área de consultoria, o que por muito só lidamos com a parte de escritório e documentos. Dessa vez fomos para uma reunião de consultoria, pegar o jeito de como se comportar, como se apresentar as ideias ao cliente, verificar as vantagens, tratar das possibilidades e outras coisas mais.
Engoli todo meu mal-estar físico e mental a fim de me dedicar a isso, dei meu melhor na reunião, me mantive aberta às opiniões do cliente, conversei, chequei opções, trabalhei com a demanda, fiz minha parte, independente de André, que não sabia se comunicar com o outro, às vezes ignorante. Teve uns momentos que eu o cobri, senão o próprio Thiago, que também percebeu a reação do cliente toda vez que André tomava voz da consultoria.
Foi ao fim da reunião que senti meu celular vibrar ao bolso. Era papai com notícias de minha avó, as boas notícias que fervorosamente esperei. Não dava para falar com a vovó ainda, talvez quando chegassem em casa. Estava doida para ouvir sua voz... e ralhar com essa senhorinha que quase me matou do coração. Me recolhi no banheiro por uns 10 minutinhos só para agradecer ao bom Deus que não levou minha avó de mim.
Agora estável, foi um alívio tão grande, que quase me desfiz ao me jogar na minha cadeira ao voltar à sala dos estagiários. O cansaço era visível por mais que eu o escondesse sob máscara de maquiagem, era sentido por cada músculo meu. Meu corpo doía, mas meu coração já não. Debruçada sobre minha mesa, pensava no conselho do Gui de faltar aula essa noite.
O problema é que já havia faltado demais. Na semana passada mesmo, faltei no dia que o Murilo foi atendido pela conjuntivite, perdi aula para desfazer a armação de André, perdi a do dia seguinte por capricho. E em pensar que no outro dia Bruno me convidou para matar aula junto. Desse jeito vou virar turista da faculdade, só aparecendo ora e outra. Não, não dá. Vou assim mesmo, nem que durma na carteira, não cedo fácil não.
Com todos os meus músculos pulsando, não levanto a cabeça da mesa quando alguém bate a porta da sala dos estagiários quando entra. O silêncio da sala, fora a zoadinha do ar-condicionado, é quebrado pelo ser detestável que eu devia ignorar:
– Qual é seu problema, hein, garota? Thiago veio reclamar que minha abordagem não era adequada. Eu que praticamente fechei aquele contrat... e, ei, tá me ouvindo?
– Que tu quer?
– Eish, mas tu é ignorante.
– Eish, mas tu é chato.
– Cadê todo mundo?
Taí uma coisa, faz tempo que estou na sala dos estagiários e nem sinal deles. Nenhum. Nem Gui. Devia ligar para ele talvez. Se o meu celular não estivesse tão fundo na bolsa e a bolsa não estivesse tão longe (mentira, do meu lado), se houvesse forças em mim... eu ligaria.
Dou de ombros. André pega algo na sua mesa, sai sem implicar mais, o que agradeço. Volto a me deitar sobre o braço na mesa, perigando o sono e cansaço me dominar. Faço parte dos 0,0000001% (alô, mãe, tô nas estatísticas) da população que fica imprestável quando não alcança a cota de sono do dia. Pior que isso é quando o cérebro entra em fuso e, por vontade quase involuntária, ele desliga, e desliga tão abruptamente, como uma queda de energia, que logo em seguida vem aquele choque, parece que a tomada é reposta, você salta da cadeira, porque a sensação é de queda.
Dizem que é quando o corpo desiste de você mesmo, quem devia cuidar, e por não ter cuidado, cai nesse sono de vez. A mente humana tem desses mistérios. Enquanto pensamos que estamos sobre controle, ele dá um jeito de passar a rasteira. É o que xingo mentalmente ao meu coração pulsando loucamente pela dormida de um segundo que tive, acordei num pulo.
– Milena?
– AAAAH!
E agora tenho visagens!
– Desculpe se te assustei, você está bem? Você parece... hum... por que não está no pronunciamento da Associação?
– Hã? Que pronunciamento?
– O pronunciam... deixa para lá, estava a sua procura de qualquer maneira. Eu... errr... eu vi meu filho com você mais cedo, quando ele veio te deixar.
Meu cérebro parece tão off que perdeu até o comando de piscar. Pisco alucinadamente, como se isso fosse me ambientar ou mesmo me acordar para vida que tá chamando minha atenção. Ou melhor, Filipe, que puxa a cadeira do cubículo ao lado para se sentar. Ou estou vendo coisas ou ele parece preocupado com algo.
Mal senta, desata a falar. Abafo um bocejo, pois ele pode entender errado.
– Tem algo acontecendo? É com meu filho? Pode me dizer, Milena... e-eu... eu aguento. Ele tá com problemas?
– Problemas? Do que o senhor tá falando?
É que Filipe viu quando Vini desceu do carro para me deixar na portaria da empresa. Murilo ainda tá de atestado em casa, também não dormiu bem. Já voltou a dirigir, com seus cuidados; no entanto, pedi que ele não o fizesse se ele não estava 100% para encarar o trânsito. Como Vini dormiu na minha casa, não quis me deixar por minuto que fosse, me deu carona para o trabalho. Só compareci mesmo por responsabilidade.
– Ele pareceu tão abatido. Você também está. Milena, me diga.
– Não é nada... bom, nada com ele. É que minha avó parou no hospital ontem e... não importa mais, ela já está bem. Só que ninguém dormiu muito essa noite.
– Ah, sinto muito. Se eu puder fazer algo para ajudar...
– Não precisa.
Um bocejo daqueles incontroláveis me pega.
– Você precisa de descanso, mocinha.
Filipe pega no meu nariz como se eu fosse criança. Normalmente eu fico com raiva de quem me faz parecer infantil, só que como é Filipe e não sou acostumada com ele desse jeito, deixo que passe. Chega a ser engraçado. Ele havia feito a mesma coisa à sobrinha do meu chefe, uma que apareceu faz tempo no meio do trabalho, Thiago jogou eu e Gui para cuidarmos da garotinha. Nem preciso dizer que desastre foi, ainda bem que Iara apareceu e tomou nosso lugar.
– Eu me aguento, durmo na aula se for o caso.
– Ainda pretende ir para a aula assim? Devia te deter para que fosse para casa.
– Nem me fale em detenção! Tô passando longe.
– Oh, sim, eu soube. Quer dizer, soube por alto. Ainda não tive uma oportunidade de conversar com seu supervisor sobre o caso e...
Interrompo-o antes que esse assunto vire pauta, estava cansada de discutir sobre isso. A fúria sobre André poderia ter passado, porém, a raiva e a frustração de saber que é minha palavra contra a dele, me faz querer dispensar qualquer comentário.
– Por que o senhor estava me procurando?
– ... ele está envolvido nas reuniões sobre o projeto social... Procurava por você porque queria lhe avisar que consegui o material, aquele sobre a Viviane, um bom que ajude o investigador. Vou me encontrar com ele esta noite... Com o que tenho talvez ele não demore a nos dar respostas.
Fecho os olhos por um instante para saborear a segunda boa notícia do dia. E para melhorar o ardor dos meus olhos também, claro. Tenho a mínima ideia onde meu colírio foi parar... Se bem que se passou pela mão do Murilo, possivelmente está contamin...
– Alô, Milena?
Uma mão produz um estalo rente ao meu rosto. Filipe.
Oh, sim, estou conversando com Filipe.
– Oi?
– Você parece desorientada.
Me sinto desorientada.
– Vou ficar bem.
– Você devia ir para casa.
– É, pensando bem...
– Me prometa que vai para casa.
– Mas eu não posso faltar aula novamente. E vão ser só dois horários!
Estou mesmo discutindo com meu chefe/sogro isso?
Está mesmo parecendo que tô fazendo birra?
– Não quero você brincando com o coração do meu filho desse jeito. Quando der 18h, venho aqui te buscar, viu, mocinha?
– Mas... mas...
– E tenho dito. Vai desacatar o chefe?
Preciso de um plano.
E de um cérebro não tão detonado como esse meu.
~;~
Sabe quando o sono é tão grande que, depois um tempo, ele começa a te “aliciar”? É, ele gosta de seduzir. Começa com pequenas mentirinhas, tão, tão bonitinhas e agradáveis. Caí nelas sem perceber.
A promessa era de que eu me desligasse por aqueles famosos 5 minutinhos. E foram os 5 minutinhos mais relaxados que tive, apenas o começo de muitos minutos excedentes. Porque eu apaguei. Apaguei mesmo.
Apaguei até a minha memória mais recente. Porque só é essa a explicação de acordar no meu quarto com tudo escuro, o relógio digital marcar 03h49 da manhã. Não tenho a menor vaga lembrança de como vim parar aqui, ainda estou com as roupas do dia anterior, debaixo de meu lençol.
Devagar sento à cama, bocejos à parte, tateio a mesinha de cabeceira do lado, procuro o celular. Depois de praticamente varrer o local às escuras, decido levantar para acender a luz. Cega pelo momentâneo choque de claridade, caço meu material até achar meu celular. Nele constam 10 mensagens de Vinícius.
Lerda como estou fico pensando se aconteceu algo. Que nada.
“Amor, descanse bastante, vc tá precisando. Apagou antes msm de chegar em ksa. Gui que cuidou de vc. ”
“Digo isso pq aposto q vc tá bem non-sense. Lembra-se da última vez, lá na praia? Tlvz não, pq, como disse, essa sua cabecinha entra em fuso”
“Gui me ligou, ia te enganar. Prometeu te levar pra aula qnd na vdd iria te levar pra ksa. Nem precisou fazer nada, se vc apagou no caminho”
“Passei aí qnd saí da aula. Murilo ficou de olho, sabe... Como se eu fosse aproveitar a situação! Nem pude deixar um bjo na testa. Culpe ele.”
“Na vdd, não culpe não. Ele apenas zela por vc, normal. Anormal seria ele não me vigiar, certo?Anyway, durma um pouco mais.”
“Para constar, hj é terça-feira, 13, maio, de 2012. E o Gui fez um vídeo enqnt estavam no trânsito. Te minto não, tô doido pra ver.”
“Ao q parece, vc comia macarronada c/ ketchup dentro do carro. Preocupado de sujar o carro, reclamou. E vc começou a divagar sobre ketchup”
“Ele não quis entrar em detalhes, só disse q vc ainda contou mta hst. Agora sou eu quem tá tagarelando mto. Ok, vou parar e... DURMA MAIS.”
“Vc prometeu que não aprontaria nada essa semana, lembra? Então volte a dormir. Msm que seja 10h da manhã, vc precisa. Te vejo no almoço. Bjo”.
“"PS: Faz tempo q não enchia sua caixa, hein? Homem apaixonado e preocupado sempre é uma coisa. Me aguente. Sei q me ama. E eu a vc. DURMA.".
Rio besta por esse namorado zeloso demais. E até por Gui, mesmo aprontando comigo. Quero saber desse vídeo já! Tenho a mínima, mínima, mínima ideia do que falei naquele carro. Na realidade, nem lembrava dessa parte do carro, tampouco da macarronada, imagine do ketchup. Que besteiras posso ter falado? Que loucuras Gui deve ter ouvido? Será que chegou a tempo na aula?
Ok, o cara me filma no meu momento mais pra lá do que pra cá e estou preocupada se ele chegou à aula? Sou muito boa amiga, Gui devia reconsiderar isso e apagar a prova. Exijo deletar esse vídeo! Se chegar nos ouvidos de certa pessoa, quero nem ver que tipo de ouro de troca isso pode se tornar.
Ai de meu irmão se me chantageasse! Devia era puxar sua orelha por ficar em cima do Vinícius desse jeito. Isso porque são amigos, imagine se não fosse. De todos os meus relacionamentos, apenas com Vini que Murilo se deu bem. Tipo, bem mesmo, apesar de todas as implicâncias. Ainda merece um puxão de orelha por ficar se metendo onde num deve, minha avó diria isso.
Suspiro mais calma por saber que ela está bem. Se não fosse de madrugada, ligaria para ela e ralharia, no bom sentido, pelo baita susto que nos deu. A louca já havia sentido umas pontadas no dia anterior, preferiu não levantar assunto, ficou por isso mesmo, a emoção bateu na hora, o Dia das Mães virou loucura. Papai deve tá ainda se sentindo o pior cara do mundo, por quase ter matado a mãe.
Por mim, eu estaria lá com eles agora, tranquilizaria meu pai, teria pegado o primeiro ônibus de viagem, se não fosse os outros que me aconselharam a não fazer nada precipitado. Até meu mano pediu para que eu não fosse. De primeira achei que fosse para ele não ficar sozinho, já que não poderia viajar, mas quando usou minha viagem da faculdade como argumento, fiquei estática. Ele não a apoia, continua não apoiando, e ainda assim, pediu que eu permanecesse com ele, que estivéssemos juntos para receber as notícias.
Assimilo devagar as mensagens que leio enquanto troco de roupa, a cabeça à espera da memória de me devolver meus atos antes de apagar geral. Não é nada legal ter parte de sua vivência apagada, como um sonho. Principalmente se tudo aconteceu de verdade. Posso ter dito coisas bobas assim como valiosíssimas, nunca vou saber. Vou à cozinha, tomo um iogurte, escovo os dentes, deito de novo. Vinícius fez questão de frisar bem para que eu descansasse.
Todavia, me sentindo melhor, ter tanto sono já não tenho. Busco meu notebook para dar uma olhada nas minhas coisas, atualizar a rede. Enquanto a página de e-mail tomava coragem de abrir, escrevi uma sms para o namorado. “Tô desorientada agora, tem razão. Mas espera eu acordar pra tocar terror em todo mundo!” me pareceu o bastante, porque é assim, tem que ameaçar mesmo.
Limpava o lixo eletrônico e a caixa de spam do meu e-mail quando uma janelinha de talk apareceu na minha tela. Quem estava acordado às 4h15? Sávio.
S – Vc não deveria estar dormindo agora?
M – O mesmo para vc, senhor coruja. O que tá fazendo a essa hora?
S – Aquela atividade de Silvana. Esqueci que era para hj, não teria outro tempo para fazer. Gui contou que vc apagou no carro dele. Está melhor? Melhoras para sua avó.
M – Valeu. Apaguei e “liguei” só agora. Fico imprestável qnd tenho mto sono, aí cedi. Gui chegou para a aula ainda?
S – Sim. Prof. Amália só deu uma olhada de rabo de olho nele. Sabe que é o favorito dela né? Se fosse eu, que me lascasse.
M – Hahaha Imagine comigo que faltei... Vê se não demora mto, senão quem vai apagar essa noite será vc. Dormi por horas.
S – Eu tento, esse exercício não me deixa.
M – Ok, ok, vc me convenceu. Sou boa samaritana. Me situe, em que parte está?
...
Quase às 6h da matina Sávio se retirou, o papo foi levando a uma coisa e outra sem percebermos. Alterei algumas coisas de minha atividade, a mesma que Sávio fazia, formatei e tudo, para voltar a dormir. Antes de enfim deitar-me, passei no banheiro rapidinho. Ao corredor encontrei meu mano de pijama e cara amassada.
– Lena? De pé a essa hora?
– E tu? Tu num vai trabalhar.
– Vou. Posso não ir ao centro meteorológico, mas tô indo na casa do Armando. Nosso prazo tá curto... e com esse troço no olho não vou poder me apresentar junto a ele. Assim precisamos terminar o projeto logo e... e você pra onde vai a essa hora?
– Pra cama, oras. Pra onde mais você achava?
– Hum. Só pra saber... e, no que consta, extrato de tomate nunca vai se equiparar a ketchup.
O que...? Oh no.
– Você sabe!
Murilo com cara de sabichão passa por mim para a cozinha, apenas me diz:
– É, eu sei. E o Vini contou da mp3 de choro de bebê, viu? Arranquei dele.
– Como?
– Tenho meus métodos.
– E você sabe que não consegue competir com os meus. Boa noite, “Murilin”.
Ao ouvir o mais novo apelido, ele me bota carreira de volta para o quarto, como se fosse uma ameaça. O gato e o rato de sempre, me sinto feliz de concluir ao fechar a porta. No início de uma manhã depois de horas difíceis é sempre bom ter uma garantia.
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