Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
11 Capítulo 11
Notas iniciais
- Ainda está chateada?
- Pelo quê?
- Por eu ter falado aquilo de você. Sobre minha... mãe. Você... demorou a vir.
Quando cheguei, Vinícius descansava um pouco do almoço. Haja sono. Sentei na poltrona e fiquei jogando no celular até a hora que ele acordou e começamos a conversar. Permaneci onde estava, até que confortável, não queria ainda me aproximar dele.
- Fiquei chateada sim, mas não foi por isso que demorei. Tinha umas coisas para resolver.
Pensando a respeito antes de dormir, percebi algo que eu mesma vivia, só que em circunstâncias diferentes, claro. Não chegara tão tarde em casa, então me surpreendi de encontrar Murilo me esperando na porta. Pensei que ele tinha piorado ou algo assim, ele poderia ter me ligado.
- E aí, como foi a farra?
- Hum?
- A gente acha que pode confiar na pessoa para ir à faculdade até que chega uma mensagem dizendo que na verdade estava vadiando. Desde quando você vai pra pagode? E quem é esse tal Bruno, hein? Responde, Milena!
- O quê? Mas... hein? Como assim?
- Chegou uma mensagem no meu celular. Dizia “Hey, a professora tá estranha. Da próxima eu que arrumo de matar aula. Mereço. Fala sério, como você foi parar num pagode mesmo? De fato, deve tá melhor que aqui. Manda melhoras pro Bruno”. Quem diria que a Flávia estava te acobertando, hein.
Lembrei que Flávia tinha mesmo comentado sobre uma mensagem de celular enquanto ele relia a sms. É bem possível que tenha apertado o destinatário errado enquanto remexia escondida no celular, porque, para todos os efeitos, Djane não deixava ninguém pegar o celular durante as aulas. O nome de Murilo devia estar bem abaixo do meu.
- Não é o que você está pensando. Eu... eu estava com uns amigos sim, mas foi uma necessidade. Não preciso te contar cada detalhe, Murilo.
- Ah precisa. Se é péssima companhia, precisa. Foi esse vagabundo que te trouxe? Pode deixar que amanhã apareço nessa sua faculdade, vou ter uma conversinha com esse Bruno aí.
- Nem se atreva. Eu não sou a errada aqui, já te disse que era uma necessidade. Se você não acredita, problema seu.
Simplificando: Proteção e comunicação – excesso de um pela falta do outro, sem falar do principal, a confiança. Como pequenas coisas podem fazer tamanha diferença. Murilo sempre foi e possivelmente sempre será muito protetor, para minha decepção. Às vezes não parece confiar no que digo ou nas minhas decisões... o que é muito revoltante, fica difícil confiar de volta. Eu poderia também ter esclarecido mais as coisas, só que a raiva e o cansaço me venceram, então ficamos brigados mesmo. Daí que me veio o “clic”.
Pelo pouco que vi, ouvi, da situação da família Garra, parecia ser isso: ressentimento pelo exagero. Muita proteção e pouca comunicação... Bem possível mesmo. Djane não dava espaço ao filho e isso só o fazia querer distância, se apoiando no tal tio, da mesma forma que sempre quero manter as coisas fora do alcance de meu irmão, só que sem ter em quem me apoiar exatamente. Nos amigos talvez que me cobrem, mas não consigo me afastar do meu irmão. Já Vini... Eu realmente o entendia, acho. Suas reações eram sua única defesa.
Acredito então que estava na hora de aplicar uma nova tática. Quando Djane me ligou pela manhã, mal a deixei falar e logo emendei que faria uma visita ao Vini. Nem preciso dizer o quanto ela ficou animada, apesar de disfarçar. E quando me disse que em breve ele teria alta, sua felicidade também me contagiou, mesmo ainda brigada com o Murilo. Fiquei preocupada com o que ele poderia fazer... mas depois me resolvo com ele.
- Eu sou uma das monitoras supervisionadas pela sua mãe. Trabalhei bastante ontem com o evento que o departamento está promovendo... ainda levei bronca do diretor, mas foi por uma boa causa. Eu fiz uma besteira, por um bem maior, claro, só não podia espalhar aos quatro ventos o que era. Nem sempre ficar calada é bom, apesar de ser um bem feito.
- Sei como é. Desculpa por ter... me precipitado quanto a você. É que isso já aconteceu tantas vezes que foi meio que praxe. Não justifica, mas eu sinceramente peço desculpas. Acho que mereci ficar sozinho.
- Você sabe que não estava sozinho...
- Acho que você já sabe isso não conta muito.
- Pois devia. Se pra mim já são águas passadas, pode ser pra você também. A gente aprende a perdoar com o tempo.
- Falar é fácil, lidar com uma mulher como minha mãe que é difícil, você não imagina...
- Ah imagino sim, acho que cada um daquela faculdade imagina. Se você soubesse das fofocas que rolam soltas por ali... A professora passou por uma época muito ruim sim e descontou nos alunos, por assim dizer. Difícil encontrar um cidadão que não a tema.
- Você a teme?
- Não, não mais. De fim eu entendi o comportamento dela, então relevo as coisas. Depois do contato maior que tivemos, as coisas ficaram mais claras. Na realidade, depois desses dias, eu ainda desejei vê-la como sempre a via na faculdade, bruta como era, porque... o que ela sofreu e ainda sofre por você não é algo a se desejar a alguém.
- Bom, ela não é a única, mas em questão de culpa, acredito que sim, ela é a única. Ela queria interferir até no meu trabalho, nunca me apoiava nas minhas decisões, sempre me via como errado... só com meu tio eu podia contar, mas nem agora eu consigo falar com ele. Ela não me deixa falar com ninguém. Você vê o quanto ela quer me ver miserável? Me controlar?
- Quer saber o que eu acho?
- Diga.
- Você se acostumou a se manter longe dela, acredita que tudo ela faz é para lhe atingir. Mas se ela gostasse realmente de te ver mal, o que ela ainda estaria fazendo aqui, lhe acompanhando? O que você acha que ela ganha com isso? Você devia pensar melhor nessas coisas.
- Num sei. Você talvez esteja sendo mole demais, perdoa muito fácil.
- E você, não está sendo duro demais? Com ela e com você mesmo? Você gosta de se sentir assim? Você que não quer mudar as coisas, Vini, encare. É visível o quanto ela já cedeu, e você nem isso. Como você quer que as coisas sejam diferentes se você não dá a oportunidade? Pra quê mesmo tanto rancor? Isso só vai te estragar.
- Como eu disse, falar é fácil.
- Então começa pelo menos pensando melhor sobre isso. Eu também vou fazer minha parte.
- Como assim?
- Eu briguei com meu irmão ontem por algo que fiz e ele não entendeu minhas intenções. Acredito que está na hora de eu ser mais sincera, isso certamente evita situações como esta.
Pego minha bolsa e me aproximo da grade de proteção de sua cama. Dou-lhe um beijo na testa e com seu sorriso, tomo isso como consentimento de que pelo menos ele vai pensar a respeito. Sinto que isso foi bom para os dois. Ainda me mantenho próxima.
- Por que eu sinto que isso é uma despedida?
- Porque é uma. Preciso encontrar meu irmão e ainda tenho que chegar cedo na faculdade hoje. Matar aula nem tão cedo...
- Ah, então você estava matando aula?
- Nem fala, apenas lembre-se: foi para um bem maior.
- Hum... sei. Você vai voltar amanhã, né?
- Vou pensar no seu caso... E não, você não está sozinho. Soube que logo você terá alta também. Seus exames estão ótimos... o médico está impressionado com seu desenvolvimento. Boas novas.
- Queria poder logo sair daqui. Só que... não quero ter que ficar na casa da minha mãe... provavelmente é pra lá que ela vai me levar.
- Claro, sua melhora foi milagrosa, mas não dá pra sair daqui e pintar o sete. Tem que ter cuidado e muito descanso. Conheço uma galera que imploraria por uns dias de folga ou férias mesmo e você estar renegando isso é feio.
Ainda encostada na grade de ferro de proteção da cama, divido uma gargalhada gostosa com ele. O que tem de gente sonhando com amadas férias, já não pode ser calculado. Isso porque é fim de semestre já. Aproveito dessa descontração pra tratar melhor do assunto:
- Olha, aceite isso como... como... uma oportunidade de virar o jogo. Quem sabe resgatam um pouco da relação de vocês... Mas claro, tudo devagar, no seu tempo.
- Ficamos combinados que eu ia pensar. Não acelere isso.
- Tudo bem. Vamos por partes, né?
Envergo fingindo que vou fazer um cafuné de leve e bagunço a cabeleira clara dele. Tiraram a bandagem de sua cabeça e agora seus fios estão livres... Fica difícil ir embora quando você não consegue soltar o cabelo do cara reinventando modelos de penteado.
- Eu já tinha arrumado.
- Ah tá na moda. Hoje em dia quanto mais bizarro, melhor. Agora deixa eu ir...
Dou uma última remexida no seu cabelo com apenas uma mão, não agüento segurar um riso e aceno antes de chegar à porta. Queria não ter que ir à faculdade hoje... sou muito preguiçosa?
- Milena?
- Oi?
- Eu... eu queria poder falar com meu tio... você não poderia, err... tentar falar com ele? Eu te dou o número. Pelo menos avisar ele... Eu sei que ele fica incomunicável quando viaja, mas deve haver algum jeito.
TÁ, O QUE EU DIGO AGORA?
~;~
- Hum.
- Agora que você já sabe por que eu tive que faltar aula, desamarra essa cara e me dá um abraço, coisa.
- Na frente de todo mundo? Aí as mulheres vão pensar que estou com você.
A gente tenta ser amorosa com os irmãos, mas eles não são tão amorosos assim conosco. É certo falar que nossa relação é estranha assim mesmo e é desse jeito que gosto. Quer dizer que estamos sendo verdadeiros e isso é confiança o bastante que posso tirar dele.
- Nem tem tantas aqui mesmo... mas tá bom, depois não vem pedindo colo e cuidados quando precisar de mim...
- Ai, chantagem emocional plena quatro horas da tarde não, né? Além do mais tenho que voltar a trabalhar, minha folga tá acabando.
Abraço-o mesmo assim, com todo mundo da cafeteria olhando. Estou cuidando bem da imagem dele, mulheres gostam que os homens cuidem bem de suas irmãs. Ele que é burro e ainda não sacou essa. E eu devia era estar lhe dando porradas, por ter gritado comigo e me interpretado mal, ainda mais por ele trabalhar numa central de meteorologia e ele nem pra me avisar das chuvas. Acho que aquela porrada que dei nele com o treco no hospital compensou um pouco... Naquele dia que eu estava de vestido branco, ele me viu saindo de casa e não falou nada. Tive sorte de não pegar a chuva forte que caiu, pois cheguei na faculdade bem antes de cair... foi uma virada de tempo muito brusca. Ainda assim não impediu de eu sujar meu lindo vestido de lama.
- Murilo, ainda tenho mais uma coisa pra te dizer. Te conto essa quando chegar em casa, agora tenho que ir.
- Tudo bem. E boas novas: o carro está pronto, vou buscá-lo mais tarde...
- Já era tempo, apesar de você quase não me dar carona e ter que eu arranjar com alguém quando não tem mais ônibus.
- Mas esse Bruno não me escapa. Ele tá te respeitando, né?
Ciúmes ou proteção? Difícil lutar contra isso quando é tão inerente nele... O que não seria de mim sem meus desdobros aqui e ali... mas o melhor mesmo é inverter o caso: deixar ELE com raiva.
- Claro. Ele sempre paga os serviços da pousada e ainda me indica ginecologistas.
- O QUÊ?
~;~
Sem reunião de monitoria, ô felicidade. Com tudo atualizado com a professora Garra, fui para a aula normal. Antes disso tive um pequeno momento com ela... disse que eu iria contar pro meu irmão sobre o Vini, porque não valeria a pena continuar escondendo, até porque a alta dele está bem perto. Talvez sexta ele já esteja liberado. E falei da procura dele por seu tio, que eu tinha lhe respondido que ia procurar o cara... Mentirinha? Ah, bem pequenina. Quer dizer, nem é bem mentira, eu vou procurar o cara, só não disse de que jeito. Como já ia começar minha aula, fiquei de conversar melhor com Djane sobre isso depois.
Na aula, não matei a Flávia por mandar a mensagem errada, ela mesmo se martirizou por isso. Disse a ela que tudo já estava bem. Com tudo entrando nos seus conformes, nem disse pro Bruno que meu irmão queria o matar... ele já tinha mais com que se preocupar.
No intervalo foi a hora de pagar minha aposta com a Dani. Quem diria que a outra vaca do prédio tinha me liberado da última avaliação? Opa, vaca não, me desculpo por pensar assim, é o costume. Os professores tocam tanto terror que acabamos nos apegando a essas coisas. O fato é que ainda estou besta pela atitude dela... com a professora Djane foi sorte, mas dessa aí, nem sei dizer o que foi. Na verdade, não é nem que eu tenha me livrado da última avaliação, fui liberada dessas últimas aulas e vou apenas fazer um trabalho – que nem é muito grande assim – para compensar e não deixar um buraco nas notas do semestre.
Então imagine eu admirada por isso conversando com uma deliciada da Dani – por ter um lanche completo a sua frente, com direito a mousse de chocolate com maracujá como sobremesa, que não resisti e comprei pra mim também – quando do nada... Eis que Murilo surge no pátio.
Como que ele entrou aqui? Será que ele tinha esquecido que eu já tinha esclarecido tudo? Pra todo caso, tenho que esconder o Bruno e rápido.
- Bruno, você ficou com aquela... aquela lista de material do pedido, né?
- Foi, por quê?
- Porque... porque... eu acabo de lembrar de que a gente só colocou materiais para os participantes. Ainda tem aqueles que vão apresentar e palestrar.
- Ih, é mesmo! Vou lá na sala e já volto.
Pode demorar o quanto quiser! Melhor, fica lá – eu queria gritar ou mesmo tentar uma telepatia. Dani me olhou com cara de que entendeu que eu estava querendo me livrar dele, mas com sua boca cheia de frango de uma coxinha não a deixou fazer a pergunta que eu imaginava que ela queria tanto fazer. Nessa hora Murilo se aproxima:
- Hey, Milena. Aquela sua professora me ligou e pediu pra vir aqui. Você está sabendo de algo?
Quase que eu cuspi o suco. Pior, me engasguei. Impressão minha ou de repente TODO mundo virou pra me olhar? Antes fosse todo mundo e não o Bruno para aparecer bem nessa hora... Dani gritou para me ajudar. Só vi os olhos de Murilo se tocarem de quem era Bruno, aí que perdi o ar mesmo achando que ele bateria no meu amigo, ainda sem razão.
Aos risos e meu sofrimento, Bruno me ajudou a tomar um pouco de suco, eu tentando avisar-lhe por olhares e gestos mínimos para não fazer isso – e o coitado pouco entendia. Murilo então inventa de bater nas minhas costas não sei pra quê... Até saiu líquido pelo meu nariz, talvez por eu ter entrado em pânico. E todo mundo da lanchonete vendo isso...
Ao recuperar meu fôlego, Dani me ajuda com uns guardanapos para secar minha blusa – ainda bem que era preta! – e para meu espanto (ou devia dizer alívio?), Murilo cumprimenta Bruno:
- Ah, então você é o Bruno.
- Ah, oi. E você?
- Irmão da Milena. Prazer, cara.
- Ah, prazer. Vocês se parecem mesmo. Você... estava na porta ontem quando fui deixá-la, não?
- Sim. Valeu por deixar minha irmã em casa. E...
Mesmo com as pessoas se dispersando na lanchonete e os olhares da geral acreditarem ter acabado o show, eu ainda não tinha voltado a respirar direito, com lágrimas enchendo meus olhos pelo engasgo. Dani agora estava estranha... não sabendo se olhava pra mim, Murilo ou Bruno, como se realmente eu tivesse sido pega no flagra de alguma coisa, que ninguém parecia saber o que era...
Ainda sentadas, seu silêncio para quem fala muito me deixou mais nervosa. No entanto, tinha esse ar leve com os dois conversando, eu não sabendo se era encenação do Murilo preocupada com que veria a seguir, principalmente com o suspense que meu irmão deixou ao fazer uma pausa em seu “e”:
- E... vocês não estão juntos, estão?
- Nós? Não, não, não... somos apenas amigos.
- Bom saber.
Murilo abriu aquele sorrisão de “ainda bem que não tenho que te bater por ficar de gracinha com minha irmã”, deu uns tapinhas no ombro de Bruno e ambos sentaram à nossa frente. É, acho que isso é um alívio. Sabendo que posso respirar melhor, penso em levantar e puxar Dani até ao banheiro para desabafar isso, quem sabe rir do meu papel ridículo... Deus, como eu pensei longe! Quando vou puxá-la, no entanto, ela está meio aérea olhando para os meninos com um singelo sorriso de canto. Tento acompanhar seu olhar e não sei para qual dos dois ela direciona...
Penso então que todas as besteiras que cogitei foi uma distração e só agora percebi que Dani possivelmente estava olhando meu irmão com outros olhos. Justamente o que eu já tinha pensado mais cedo, parece que as mulheres gostam de quando os homens cuidam bem de suas irmãs... e só os bestas não sacam essa. E o Murilo é muito besta de pensar que não estou vendo ele tentar pegar meu sanduíche. Ele que tire o olho do meu lanche. Ele parece que adora fazer isso.
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