Notas iniciais
Pequenas descobertas e pequenos consolos... Boa leitura.

- Po, Milena, por que você não me contou?

- Eu... eu...

- Eu tinha pedido que ela não contasse. Desculpa se isso causou alguma confusão entre vocês...

- Nam, senhora, não precisa... Eu entendo. Então não tem nenhum projeto nem nada de direção hospitalar?

- Não.

- Por um momento eu acreditei naquele seu argumento de que você estava abrindo seus horizontes... acho que você devia ver, pelo menos. Quem sabe se interesse.

- Puxar meu saco, Murilo, não vai me fazer te oferecer essa gelatina. Se você não conseguiu o mousse, imagina a última gelatina. Tira o olho.

- Eita mania de perseguição. Mas valeu a tentativa.

- Vocês são uma graça.

Agora que tudo está bem esclarecido, ficamos na lanchonete do 3º andar esperando o Vini voltar de uma de suas baterias de exames. Parece que já tínhamos uma mesa separada para nós, foi o que Diogo me disse quando nos viu sentar, pois desde as primeiras vezes que vim por aqui, eu só sentava de um lado de uma mesa em particular. Pra mim era inconsciente mesmo, sempre estava preocupada com algo.

Professora Djane dá de ombros sabendo que não pode atender ao pedido de meu irmão e até ri do coitado. Quem nos visse de longe talvez até pensasse que somos parentes mesmo, como no começo nos confundiram. Ela estava tão mais solta, mais sorridente... me sentia tão melhor de vê-la assim. Respirando mais livremente, com tudo em pratos limpos já, o clima está tão bom que aquele que ousar quebrar, eu mesma parto a cara. Murilo então resolveu implicar.

- E aquele enfermeiro, ainda deu em cima de você?

- Enfermeiro? Não estou sabendo disso... Milena?

- Eu? Isso é mentira do Murilo... implica com o cara só porque eu disse que não ia segurar o soro pra ele pod...

Murilo pula de sua cadeira e se joga em cima de mim para tapar minha boca. Acrescento mais uma ceninha no hospital na minha cota. Nem protesto mais, depois daquela cena na lanchonete da faculdade pensar demais só me fez tirar conclusões erradas. Me basta aproveitar o momento de agora.

- Deixa pra lá.

Conversamos por mais uns tempos até que avisto a “enfermeira bonita” que Murilo tinha conquistado naquele seu surto da semana passada. Sinto que preciso desviar sua atenção... Seria muita audácia minha tentar juntá-lo com minha amiga? Tão logo ele a vê também e se levanta para ir atrás da enfermeira. O tonto me disse que tinha perdido o telefone dela e não sabendo se ainda a encontraria, tinha que correr atrás. Permaneço sentada, olhando de longe os dois, até que Djane menciona de algo que eu já tinha me esquecido:

- Então, apesar de seu irmão estar sabendo de tudo, pelo menos por alto, eu queria conversar melhor agora a sós sobre o Filipe, meu cunhado.

~;~

Ainda bem que a aula de hoje havia terminado cedo, pois nos deu tempo de conversar muitas pendências. Tem tido cada conversa decisiva e importante nessas últimas 24h que, o que me levaria a pensar que podia complicar, no entanto, abriu caminhos e oportunidades. Me resolvi com meu irmão e me aliviei do que escondia. Pelo menos compensou as confusões do dia anterior. Ainda assim, trouxe novas questões:

- Parece que esse... er... Filipe? Hum, Filipe... ele atrapalhou muito a vida de vocês mesmo... porém, de uma forma ou de outra a senhora vai ter que encará-lo do mesmo jeito. Não adiantaria todo esse esforço de se reaproximar de seu filho se a senhora não se resolvesse com o cara. Quer dizer, eu acho né. Acho que a senhora tem que mostrar a seu filho o que ele não vê do tio, como a senhora... digo, você, vê. Antes bater logo de frente do que ficar nesse suspense de quando ele voltar.

Ainda estamos na mesma lanchonete, na mesma mesa e cadeiras, ela na minha frente debruçada na mesa tal qual eu estava. Murilo sumiu depois de ver a tal enfermeira e nada de voltar. Se se perdeu, não sei, talvez teria ligado para meu celular. Enquanto o Vini também não voltava para seu quarto, por causa de seus exames últimos que verificariam seu estado e possível alta, me deixei entrar um pouco na história da família Garra.

Quando tudo isso começou, me senti tão intrusa, tão “outsider” e mal correu alguns dias e me vejo... hã... não exatamente por dentro, mas sei lá... mediadora? Seria essa a palavra? Não acho muito que esteja no meio, quem sabe apenas uma boa samaritana das histórias antigas que topou com uma ponte quebrada e resolveu ajudar. Se for mais imaginativa e sem-noção, veria como a cidade que é atacada pelo Godzila, que atende por Filipe, e que adora, aparentemente, destruir a civilização. Isso que dá assistir filme demais com seu irmão, a gente acaba fazendo altas relações que no fim poderiam ser consideradas muito bestas, por isso digo logo que teria que ser muito “imaginativa”. Se conto um negócio desses para alguém, é capaz de me perguntarem o que ando tomando – ou não tomando.

A professora me relata o geral dos últimos anos e o que o tal Filipe fazia, na frente e pelas costas de Vini. Muitas vezes fico boquiaberta com o que ela me conta e só me dá vontade de vê-lo cara a cara, não deve ser tão cínico assim. Ele não é do tipo perigoso ou bandido, ele só parece um cara frustrado que desconta nos outros seus antigos problemas de família... como se fosse algum tipo de vingança. E eu que pensava que isso não existia mais, isso de ficar influenciando, colocando coisa na cabeça dos outros – menos chifre, claro, que não é bem o caso.

Apesar de saber que a história é bem mais profunda do que a que ela me relata, insisto em trazer logo o cara, pensando também no Vini. Percebo Djane tentar se esquivar, mas é um mal necessário, senão, ela vai se manter presa a essa sensação de perda o tempo todo e seu esforço não valerá quase nada. De fim, ela disse que vai tentar falar com o tal, deixar recado na rede social para que ele retorne, já que em termos de telefone o cara some quando viaja.

- Sabe Milena, nunca pensei que estaria aqui falando isso com você, nem mesmo depois do que já passamos. Nem imaginei que você poderia estar me aconselhando... você sempre me pareceu tão calada nas aulas.

- Deve ser porque a senhora....digo, você... Você sempre meio que exige tanto de nós que ficamos acanhados de falar, sei lá. Suas aulas não eram bem o que podemos chamar de dinâmicas por esses tempos...

- É, eu estava pensando sobre isso esses dias. Acho que todo mundo se surpreendeu logo quando os cumprimentei. Juro que quis rir quando olhei a surpresa nos olhos deles. Não sei se isso é bom também, eles não corresponderam muito bem.

— Ouvi falar. Estão pensando se não é uma nova tática para assustá-los ou coisa parecida. Melhor ir com calma, se você risse assim, é capaz de pensarem que é uma risada macabra e aí sim eles vão ficar paranóicos.

- Pelo jeito nem sendo boazinha eu me livro dos boatos. Não dá pra dar muita entrada pra aluno mesmo.

- Ah, vocês professores que começam.

Com certeza essa dose de carinho nenhum aluno naquela faculdade vai conseguir. Sortuda eu, não? Agora sim me sentia bem, mesmo, podendo gargalhar verdadeiramente com essa mulher que aos poucos conquistou minha amizade. Quando Diogo aparece para nos avisar que Vini voltou ao seu quarto, me despeço dela e, ao chegar à porta da lanchonete... tenho essa vontade estranha de voltar e abraçá-la.

Deixo Diogo seguir no corredor a minha frente e olho para Djane mexendo no seu Ipad, provavelmente procurando pelo cunhado na rede. Eu sei, chique a mulher. Ela ainda espera pelo dia que poderá falar bem com seu filho, encontrá-lo acordado e apenas ser mãe. Sentindo que isso ainda é possível, volto e a abraço de costas mesmo. Surpresa pela minha atitude, ela não fala nada, só suspira um sorriso abafado.