Mantendo O Equilíbrio - Um Novo Amanhã (T4 + T5)
49 Capítulo 19
Notas iniciais
Como uma pessoa experiente no quesito de falta de sorte, sei que não posso sequer pensar em rir, muito menos esboçar uma reação dessas enquanto alguém sofre do mesmo mal, se quero me preservar sobre essas odisseias, que sim, eu dispenso se possível. O que vai, volta, e tá voltando tudo pra Daniela, pelo jeito.
Na noite anterior, Flávia simplesmente capotou em sua cama, assim levantou mais disposta para mais um dia de EREAD. Já Dani, quem realmente devia ter dormido cedo, tava muito pilhada sobre a comunicação oral que faria, ainda mais sozinha. E essa apresentação seria das primeiras do dia, então, como combinamos de sairmos todos juntos, teríamos que levantar o mais cedo possível para chegar na hora. Eu até tinha uma apresentação também, mas seria uma no meio da manhã e outra depois do almoço, ambas com Gui e mais um pôster para expor junto de Flávia. Eu havia avisado Dani sobre fazer sozinha, ela que não quis me ouvir.
Fui dormir quase 23h por causa dos falatórios de Murilo no celular, o que foi culpa minha também porque fiquei puxando assunto pra saber do projeto que Armando havia apresentado no centro meteorológico. Deu tudo certo, ainda bem, e ao que parece tem grandes chances de ser aprovado, ainda que meu irmão não tenha estado lá.
Mas não era bem sobre isso que a gente conversava, é que Murilo estava querendo arrancar de mim o que mamãe fez com Aline, que resolveu de aparecer junto com Armando lá na casa de Djane. Na verdade, quem me ligou para relatar esse “encontro” foi a própria namorada dele, e só depois que eu falei com mamãe. Isso, porém, são outras histórias.
O caso é que faltavam alguns 20 minutos para dar 8h da manhã e todos nós na porta da faculdade caminhávamos para seguir para as respectivas salas de apresentações orais que nos inscrevemos. E não bastando a corrida alucinada que foi o despertar de Daniela nesse novo dia que raiou, eis que quando parou para comprar uma garrafa de água na cantina da instituição, eu vi um problema e fiquei com receio de lhe comunicar, dado o estado de nervoso que ela se encontrava.
– Hã... Dani?
Ela terminava de pegar o troco com o moço, quem também percebeu o “problema” e sorriu sacana. Não havia alternativa senão avisá-la.
– Er... Dani, sua blusa, hã... tá aparecendo o que não devia aparecer.
– Quê?
Ela se vira pra mim depois de guardar seu troco ao mesmo tempo em que olha pra baixo, para sua blusa que se abria bem ali. No desespero de não demorar muito nessa manhã, ela apenas pegou a primeira blusa que viu e uma calça que estava bem em cima do seu monte de roupas na mala. A apresentação lhe consumia tanto que nem pra roupa ela tava ligando muito de escolher, o importante era estar preparada para a argumentação sobre atendimento ao cliente. Ela temia que alguém a questionasse sobre as questões mais ligadas ao Direito que infelizmente era tão característico daquele tema.
A blusa era uma simples camisa formal de botões que pegava todo seu tronco, de cima a baixo, branca, e dois botões estavam fora de suas “casas” ao busto, o que deixava exposto seu sutiã muito rosado. Tava muito na cara, mano!
E se a tristeza já não era pouca, ela tratou de piorar quando uma Dani desesperada foi fechá-los e um botão cai da roupa. Os nossos amigos estavam na outra portaria do pátio à nossa espera, ficamos pra trás nessa pausa de comprar água, então só quem assistiu por câmera lenta o botão se jogar ao chão, foi eu e ela, que urrou em um “não” em desgraça total. Isso bem chamou a atenção das pessoas que estavam por perto e alguns de nossos amigos retrocederam seus passos.
Eu bem que ofereceria para trocar de roupa com ela, assim como Flávia, mas ambas estávamos de vestidos e nossos números não batiam. Dessa vez eu não poderia salvar minha amiga como da outra vez que machucou seu pé. Infelizmente estávamos sem tempo pra procurar linha, agulha ou mesmo um broche que pudesse segurar a blusa de Daniela. Flávia tentou ajudar com uma pulseirinha de fita que tinha ao pulso fazendo um laço nos furos onde o botão deveria segurar, mas isso deixava mais na cara ainda e minha amiga já choramingava baixo pela tamanha falta de sorte.
Os meninos estavam inquietos, afastados como pedimos, sem saber o que acontecia, pois era vergonhoso dizer em voz alta do que se tratava o problema. E um colega meu, William, não havia voltado com nenhuma garota que pudesse nos socorrer. Podia parecer uma coisa bem idiota para uns, mas na verdade era bem trágico.
– Qual é o problema, droga? Ela tá chorando por quê?
Bruno simplesmente se materializou enfurecido ao meu lado pela falta de informações que, ao que parece, lhe atingiu muito. Dani em desespero deu um pulo e se virou bruscamente para que ele não pudesse ver o que era. Mas ali, já não tínhamos mais por que esconder se ela teria que se apresentar daquele jeito mesmo. Porque era isso ou perderia sua vez, e consequentemente seus créditos extras e... enfim.
– É a blusa dela, que simplesmente caiu o botão e revela bem... hã... o sutiã. Ela pode perder sua oportunidade de apresentar ou pior, se insistir em ir assim, ser repreendida por essa falta. E não há muito tempo para se decidir.
Desafortunada, não havia nem aqueles vendedores de camisetas que geralmente oferecem umas roupas turísticas aos visitantes, já que era muito cedo da manhã e eles só aparecem lá pelo meio dela.
Bruno ficou meio sem ação também; estarrecido, na verdade. Quando fui o empurrar para que se afastasse, ele simplesmente começou a tirar a camisa dele. Quer dizer, desabotoá-la, assim, sem mais nem menos, sem aviso prévio. Quem ficou de cara fui eu.
– Veste a minha camisa.
Como efeito bala, num segundo ele estava no primeiro botão, no outro, já puxava a camisa quadriculada pelos braços, revelando, para alívio geral da nação, que ele vestia uma camiseta por baixo. O caso é que a camisa quadriculada estava tão fechada que não se poderia dizer que havia uma sob esta. Com isso, Daniela voltou-se para nós novamente e assistiu ao nosso amigo enquanto se despia da veste para entregar a ela.
Sem que eu mesma notasse, tanto Sávio quanto Aguinaldo já estavam ao nosso lado querendo entender o que era aquela situação absurda. Para evitar perder mais tempo, tive uma ideia.
– Ok, meninos, o banheiro é muito longe daqui e temos apenas 10 minutos, então se vocês puderem se juntar bem aqui, a fazer uma barreira, a gente consegue esse milagre.
Eles estavam mais atrapalhados que outra coisa, continuavam a perguntar o que era e foi Bruno, mais uma vez, para a surpresa de todos, que tomou a frente, empurrou os outros dois para perto da parede de pedra que tinha no pátio, se virou e puxou os demais, dando chance a nós meninas de fazermos a troca de roupa de Daniela, quem mal podia acreditar no que acontecia e menos ainda de responder algo.
E assim fizemos. Flávia ficou de vigia para supostos olhares que os alunos que chegavam pudessem nos lançar e os meninos permaneceram de costas firmes na barreira. Tamanho eles eram que poderia dizer que eles formavam era uma muralha.
A camisa de Bruno ficou um pouco grande, o que era de se esperar. Improvisamos colocar o cinto do vestido de Flávia e deu uma melhorada no look, deixando Dani mais despojada e, enfim, tranquila. Mais uns últimos toques e pronto. Chegamos a tempo na sala da apresentação dela, justo na hora que o monitor de organização fazia a chamada. Acabou que todos ficamos para sua comunicação oral, pois a dos meninos não seria por aquele primeiro tempo.
Um pouco antes de Daniela levantar-se para colocar seu pen-drive na máquina oferecida pelo monitor, ela deu uma pausa e abraçou meu amigo em agradecimento. Foi um momento único, muito admirável por sinal. Pelo menos de começo, pois Daniela disse a Bruno algo que não pude ouvir, e não sei o que ela poderia ter dito para que ele ficasse com uma expressão nada boa. Parecia machucado.
~;~
– Tá, foi divertido no começo, agora vocês dois podem parar?
Gui paralisa seu lançamento de bolinha de papel no ar e eu paro de me proteger. Sem querer começamos uma guerra de vinganças pelo dia todo, desde a roubar o suco do outro a sumir com os documentos identificadores do evento. Eu fui barrada na entrada da segunda palestra por causa dele e fiquei sem assinatura de presença. Tive que passar um papo num dos monitores para conseguir.
Parecíamos duas crianças, verdade, e Flávia já havia puxado a orelha do namorado, eu que consegui escapar. Mas agora era sério, eu e ela iríamos apresentar um projeto em formato pôster no pátio no intervalo de atividades e só faltava isso para darmos por encerrado. Gui provocava e eu não cedia pro lado da amiga também.
– Por que só olha feio pra mim?
Deus, como Gui não andando com meu irmão estaria pegando as manias dele? Que dramático esse garoto!
– Parem de graça os dois! Tu já apresentou, Gui, tá me deixando nervosa. Não aguento tomar mais um gole d’água.
Quando Aguinaldo começa a encher de beijos e abraços para lhe acalmar e minha amiga começa a empurrá-lo já zangada, me sinto de vela e quero meu Vini, quem está tão longe. Mais uma vez desejei que fôssemos da mesma área no campo universitário.
Ao longe em pensamentos, me pergunto por um instante sobre a vez que comuniquei a meu irmão sobre a viagem e num momento um pouco alterado, Murilo questionou se Vinícius também viria. Não sei se gostaria de saber qual seria sua resposta se eu dissesse que sim. Ora ele faz meu namorado de guardião, ora o afasta de mim como se não pudéssemos nos tocar. Mas isso foi bem antes de Murilo descobrir que a irmãzinha dele e o grande amigo eram bem mais íntimos que ele pensava.
– MILENA, poxa!
Dou um pulo pelo grito de Flávia no pé de meu ouvido. Gui só não gargalha porque, ao que vejo, ela tinha colocado ele na linha.
– O quê, hein?
– Os avaliadores já estão andando pelo pátio. Parem de me pilhar pelo menos só hoje? É pedir demais?
Assentimos os dois, sabendo de antemão que ou ficávamos quietos ou ela ficaria realmente fula conosco. Até porque ela havia tomado tanta, mas tanta água, que não demoraria pra todo esse líquido fazer efeito e era melhor que não se exaltasse, senão a vontade aumentaria e sabe-se lá que horas a gente estaria liberada.
Uns 15 minutos depois um avaliador passou por perto de nós, seguiu para um pôster mais ao lado, para o desespero de Flávia, quem sofria os malefícios de tomar água demais. O jeito era distraí-la, e foi o que fizemos. Puxei um assunto que ouvi de uns colegas da faculdade:
– Ouvi falar que a turma de Cardoso alugou um carro, um grupinho se juntou pra dividir as despesas. Acho que sai mais em conta pra a gente também, além de facilitar. A sorte nossa de hoje de manhã é que o porteiro do hotel chamou um táxi já prevendo nossa saída, porque ninguém lembrou.
Gui apoiou a mão ao queixo, pensativo:
– Faz sentido. Como é que eu não tinha pensado nisso antes?
Às vezes aqueles seus cabelos claros lhe facetavam a la loiro e o enchia de inocência, eu ficava admirada. Mas meu melhor amigo de anjo só tinha a cara, e até então não havia me perdoado sobre a aposta, nem sobre a história de ter maquiado ele enquanto dormia, menos ainda por aqueles 40 reais que lhe tomei – e olha que ainda tentei devolver, ele que era orgulhoso.
– Você não vai querer minha resposta sobre isso, Gui, juro.
– Viu como ela me trata, Flávia? Só eu sei o que o Murilo passa com essa pentelha.
Flávia, porém, nem liga para o resmungo dele, e praticamente só me sobra rir do bico da criatura, concorrente de meu mano. Só que também nem pude me abrir assim, já que um avaliador se aproximou de nós, deu boa tarde e examinou nosso trabalho enquanto eu e minha amiga nos esforçamos para apresentar a proposta do projeto de pesquisa sobre testes de qualidade de atendimento que era o nosso pôster. O trabalho lidava com alternativas de como extrair dados reais e a apreciação do público.
Fizemos essa pesquisa faz pouco mais de um ano, a partir de estudos psicológicos e administrativos sobre questionários de qualidade que clientes recebiam ao fim de atendimentos de serviços privados. Nosso foco foi sobre as clínicas em prédios comerciais, que se mostravam geralmente em bairros longínquos e de complicado acesso. Acabamos por incluir a problemática de localização dessas clínicas, o que ajuda muito no planejamento de qualquer formação de empresa ou prestadora de serviços.
Minha melhor amiga poderia estar/ser uma pilha de nervos, mas era só começar a falar que você juraria que ela estava a mais confortável impossível. A conversa fluía tão bem que logo havia mais dois avaliadores participando da discussão e nem foi preciso abusar de nossos amigos para fazer a aparência – às vezes a gente tem que pedir uma ajudinha deles para que façam “audiência”, de forma que aparentam visitantes interessados na proposta ou curiosos com perguntas previamente combinadas.
Na apresentação de Daniela, por exemplo, algumas questões foram combinadas. E outras mais a gente se meteu em prol de dar moral a nossa amiga, defendendo-a de feras que queriam humilhá-la com perguntas nada a ver. Sempre tem desses, por isso o apoio.
Depois de muito debate os avaliadores seguiram para outro pôster, mas não podíamos sair dali, pelo menos não enquanto desse 18h – faltavam 45 minutos, afinal, para apresentação de pôsteres assim, o ideal é mostrar o trabalho não só para os avaliadores, mas também outros interessados na pesquisa. Até aparecer outros visitantes, voltamos para o papo. E Flávia começou a se agoniar:
– Deus, eu preciso fazer xixi.
De tanto que insisti, ela foi, sob muitos protestos. Como já havíamos feito uma boa apresentação, permaneci mais relaxada. Se alguém mais parasse para ouvir sobre a pesquisa, o que achava difícil já que no pátio havia muitos pôsteres e poucos visitantes perambulando, eu não estava mais preocupada. Ninguém mais veio a não ser alguns de nossos amigos, saindo de outras apresentações. Trouxe a história de alugar um carro à tona novamente quando Flávia voltou e Dani com Sávio apareceram.
Todos pareciam concordar, assim, além do que posso chamar de “meu grupo”, outros também aproveitaram para reservar um carro que nos ajudasse na locomoção. Pelo menos o caminho do hotel para a faculdade já tínhamos aprendido. Ficamos de acertar as coisas na locadora depois do nosso “expediente acadêmico”, que dali se estenderia a mais palestras e mesas-redondas com convidados do evento.
Mas acabamos voltando mais cedo, já que o reitor deu um comunicado sobre uma obra de manutenção urgente que teriam de fazer na universidade, não teria água ou luz por um dia inteiro. Por um lado era ruim por causa da programação que estava toda certinha e confirmada, por outro, nos pareceu ótimo para aproveitar a viagem.
Aglomerados todos no auditório, Bruno se virou de sua fileira para alcançar a mim e a Gui, querendo saber:
– E aí, a gente mantém ou não mantém o contrato com a locadora?
Demos de ombros com um sorrisinho já pensando num esquema:
– Mantém.
~;~
– Preciso de uma bebida.
Dani mal tinha passado pela porta de nosso quarto, se jogou na sua cama e estava só o bagaço. Na verdade, todo mundo tava o bagaço e ainda assim uns e outros insistiram em dar uma saída na cidade, respirar uma tranquilidade e ver qual era a da boate que vimos em uns panfletos. Anunciava uma noite só de house music e mulheres pagavam metade de entrada. Por que não dar pelo menos uma passadinha?
Jogo um travesseiro meu em Daniela:
– Tu ainda nem tá viva pra tomar banho, imagina para uma bebida.
– Pois então, tô quase desistindo da vida nessa cama. Preciso de uma bebida para poder levantar dela e tomar banho pra sair.
Tava difícil mesmo de arrumar coragem. Apesar de termos saído um pouco mais cedo do evento, jantamos logo e fomos atrás da locadora para acertar os detalhes do carro, que então constava no estacionamento do hotel. Depois de um dia cansativo, não sei como a gente ia aguentar uma noitada de zoada, mas estávamos indo.
Foi uma luta para entrar no banho e nos arrumar, porém, uma vez fora do banheiro, parecíamos revigoradas. Quem nos visse no pique diria que realmente tomamos algo. Isso não impediu de os meninos, que foram chegando aos poucos, implicarem conosco, em nossa suposta demora. Na verdade, era só Gui mesmo. Eu mal tinha desligado a ligação de Murilo, iria terminar minha maquiagem, quando ele foi nos apressar. Nem havia falado com Vinícius ainda!
– Fala no caminho.
Gritou ele do corredor, ao bater na nossa porta.
– Gui, não te conheci esse insensível.
Flávia foi abrir para esse bendito, quem entrou já fazendo seu teatro. Aguinaldo estava dando um de meu irmão, senti, quando ele levou a mão ao coração e fez sua cara mais inocente possível, como se o que eu tivesse dito fosse um ultraje, enquanto que eu quem devia estar fazendo isso.
– Eu? Horas atrás tu disse que eu era dramático, agora sou insensível?
Apenas olhei pra cara de pau dele através do espelho enquanto terminava de passar o rímel. Não iria falar mais nada se não tivesse o rolo de Daniela se seguindo, com a entrada de Bruno ao quarto também. Porque ela havia terminado primeiro que eu e Flá de se arrumar, e ela parecia tão constrangida em devolver a camisa que preferi manter o drama com Gui, que não demorou muito a falar de nossos looks.
Dani havia tentado entregar a roupa na hora do almoço, quando conseguiu comprar uma camiseta turística no pátio da faculdade, numa bancada simples, mas Bruno se negou a aceitar, pois “essa blusa aí não faz jus e não vai te salvar do frio do auditório”. O que era bem verdade sobre o frio danado que fazia o ar-con das salas, mas de nossa galera preferimos não soltar qualquer comentário sobre a outra coisa que ele mencionara. A não ser Yuri e umas garotas da sala de Daniela, que complementaram algo parecido.
– Mas que bando de perna são essas?
Gui tinha tomado chá de Murilo ou o quê?
Apenas Flávia estava de vestido, o que conseguia ser mais discreto, sendo um preto básico, enquanto eu havia investido numa saia com uma blusa um pouco mais extravagante e Daniela um shortinho preto com blusa brilhosa e um blazer. O clima da cidade era um pouco quente, mas até que à noite fazia um friozinho. Nada que nos impedisse de sair de vestido, saia ou short.
– As que a gente tem, né? Queria que a gente saísse de burca?
– É uma ideia... Ai.
Flávia volta do banheiro, já que não havia muito espaço para fazer maquiagem no espelho que eu usava na penteadeira do quarto, só para dar um tapa no braço do namorado.
– E tu, acha que quer sensualizar quem desse jeito?
– Ô amor, era só dizer que eu tô lindo e pronto. Não precisava me bater.
De rabo de olho vi ainda que Bruno conversava com Daniela, e um momento depois ele voltou para seu quarto para guardar a camisa. Sávio ainda não havia dado as caras. Depois falam é da gente!
A “discussão” dos pombinhos ainda se fazia ser ouvida. Ainda mais quando Flávia evocou o nome da criatura por completo:
– Aguinaldo de Santana Villaça, o que tu disse?
– Que eu tô arrumado para as gatas. Vocês são minhas gatas. Nem deixa eu falar tudo, amor, só pega pela metade. Viu, dá nisso. Nessa veia saltando dessa linda testa que amo.
Se diziam que Vinícius era meloso – ele não é, só pra constar; às vezes um pouco dengoso, mas é quando envolve estar cansado ou querendo ficar doente – eis a prova de que Aguinaldo estava num patamar maior. Não consegui nem terminar de passar o batom, porque eu não conseguia passar nada nos lábios que tremelicavam em risos.
Foi com muito custo que consegui, e depois do perfume – que ele resmungou também, que estava muito “chamativo pra macho”, como se o dele não tivesse forte o suficiente – a gente conseguiu sair empurrando-o para o hall. Eu, claro, pendurada no celular, esperando Vinícius atender. Outras vezes havia conseguido falar com ele durante o dia, mas àquela hora só chamava.
Foi enquanto Gui arrumava outra desculpa pra resmungar, como se fosse o Bruno 2, que eu me toquei de algo. E parei no meio do corredor, chamando a atenção de todos antes de qualquer coisa.
~;~
O caso é que se alugamos um carro na cidade, algum dos meninos iria dirigir. O problema era por se tratar de seis pessoas e como iríamos nos distribuir no carro que pegamos – na hora de alugar ninguém pensou nisso, só quem tinha ido atrás foram os meninos, enquanto que nós pegamos um táxi direto para o hotel. Então imagine agora um carro de 5 vagas e três homens feitos, que não eram nada de pouquinhos quando se tratava de espaço. Pela lógica, outro teria que ir na frente, enquanto o resto de nós, meros mortais, se esmagaria lá atrás cobrindo todo os espaços de ar.
Aproveitando a deixa de Sávio, quem nos esperava há muito no corredor, de nos elogiar (ainda que isso o fizesse ficar todo tímido a la seu jeito) e que rendeu um resmungo dessa vez de Flávia, quem apontou pro namorado que aquilo sim era o que nós esperávamos e não reclamações, levantei essa problemática do carro.
O negócio é que Sávio não poderia ficar no banco de trás, porque né, tanto corpo que tinha já pegava quase dois espaços; e Gui também não porque ninguém tava a fim de ficar na vela com ele e Flávia (ainda mais se tinham essas discussões meigas). O esquema que se deu foi que um dos dois dirigiria, o outro ficaria no banco carona, eu, Flávia e Bruno atrás, com Daniela “divando” em cima de nós. O plano estava de boa, mas aí, já no estacionamento do hotel, me toquei de outra coisa.
– Peraí, gente. Temos que saber quem vai ou não vai beber. Alguém tem ficar sóbrio, até porque vai dirigir.
Aposto que eles já estavam pensando na birita antes de eu mencionar o caso, fica claro pela maneira que meus três amigos se olham sem saber a quem acusar. E seria um deles, já que iriam tomar conta do volante. Ou isso ou arcavam com despesa de táxi, que eu não ia deixar ninguém virar a chave alterado.
Bruno foi o primeiro a deixar claro que não sabia que alternativa tomar:
– Como que a gente pode definir isso?
Dei de ombros:
– Tira no palitinho.
– E cadê o palitinho?
– Isso é força de expressão. Quer dizer que é pra tirar na sorte, pra não dizer que teve roubalheira. Só cada um pegar uma moeda, jogamos juntos pra cima, verificamos. Quem tiver coroa pra cima, fica sóbrio. Conferimos até ficar uma ou duas pessoas.
É o que fazemos.
Quem aparece com coroa é Sávio e Dani, quem não gosta nada.
– Ah não, gente, eu tô a fim de umas hoje. Qualé, eu quase fui de blusa aberta para um seminário, tô merecendo. E a Milena nem bebe, vai fazer nada com essa sorte.
– Esse drama todo pra conquistar meu status?
– Tá funcionando?
– Pode ficar. Como você disse, não bebo, não ia saber aproveitar essa sorte... Mas vê se não me dá trabalho, tô sóbria, isso não quer dizer que virei babá!
Ela saltitava e seu salto fazia um barulho engraçado no chão:
– Obrigada, obrigada, obrigada, obrigada, obrigada!
Fiquei na dúvida se aquela era uma boa decisão mesmo. Me restou dar-lhe o benefício da dúvida, e apenas enviar uma mensagem para o Vini, quem não me atendeu de jeito maneira. O que devia estar fazendo?
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