Notas iniciais
EIS UM CAPÍTULO QUE NUNCA PENSEI QUE ESCREVERIA e cá estamos nós, como ele publicado nesse folhetim com todo um amorzinho, atenção e respeito à nossa Milena ❤ (talvez baseado em fatos reais? talvez) mas espero que tbm ajude em outras histórias e fatos pessoais :)

Assim que foi confirmada a sessão da terapia para as 15h, de primeira só precisava tomar um banho, vez que todos já tínhamos almoçado e fazer o preparo para a saída. Para me equilibrar os ânimos, deixei o mp4 tocando perto do chuveiro com músicas mais amenas. Madonna, por exemplo, com Frozen, me sustém bem demais. É como uma muleta que me segura no banho, principalmente frente às dores por todo o meu corpo e o cansaço que me bate. A água geladinha também aplaca essa resistência.

Vez que consigo me distanciar das coisas todas e viver um banho mais relaxado, quase não dá vontade de sair do banheiro. Mas tem uma vida me esperando do outro lado. Vida, pessoas, respostas. Ou só alívio. Plumas. Vou entregar tijolos e receber plumas.

Vou para isso. Muitas vezes, inclusive, digo isso pra mim mesma.

É por mim.

Tô fazendo por mim.

Assim como fiz com Djane, com a Iara, com o Vini, com o Murilo. Com as pessoas que são importantes pra mim.

Com a mente em ordem, o restante fica lidável.

Saio do banheiro e entro no quarto sendo levada pela Christina Aguilera e Turn To You. Nem parece que vou fazer o que vou fazer de tão serena que estou com a decisão. A coisa mais certa, sabe? Ousaria cantar algum trecho da música se me lembrasse da letra. No momento ela passa por mim sem eu capturar muita coisa, a não ser seu ritmo.

Ao estilo domingueiro, encontro umas opções de vestido sobre a cama que mamãe preferiu adiantar para mim. Dessa vez ela já não precisou me ajudar no banho, de modo que pôde ir tomar o seu também e pude aproveitar esse tempinho sozinha com meus pensamentos. Dessa vez também não reclamo de suas seleções e dentre uns coloridos, escolho um vestido verde cana neutro que me parece ser mais adequado.

Nem coloco acessórios, pois o quanto menos me mexer ou me deslocar, melhor. Também porque a caixinha com meus brincos e pulseiras estão do outro lado do quarto. Fico só com o cordão de bolinhas que o Murilo me deu e a pulseira do Vini, que não saem da minha cabeceira, de tanto que os uso.

Uma batida soa na porta quando já estou vestida.

— Vai colocar o plástico filme, filha?

— Acho que não. Tava pensando em testar calçar um tênis, desses casuais mesmo. Como a tornozeleira é tipo uma meia e é mais grossinha, não ia dar certo com a sapatilha, mas com o tênis... acho que dá.

Mamãe se antecipa e vai atrás de alguns dos meus tênis numa prateleira perto da mesinha de estudos. Ela volta com dois pares e uma meia.

— Testa esses.

Para calçar, entra direitinho, porém, o veredito fica por conta de como ando. Levanto e dou uns poucos passos.

— E aí? Tá machucando?

— Até que não.

— Podemos levar a sua sandália no carro, de reserva. Caso sinta algum prejuízo no pé.

— É, pode ser.

Considero essa possibilidade também para quando tiver que voltar ao trabalho, que será em breve, muito em breve. Então tenho mesmo que testar alguns calçados, avançar em termos de pisadas.

— E agora, tá machucando?

— Tá bem confortável, na verdade. Mais do que usar a sandália.

Não perambulo muito, assim, logo me sento. Logo também a toalha envolta do meu cabelo molhado pesa na cabeça. Meus braços caem ao lado do corpo.

— Algum problema, querida?

— Não é nada.

Nessa altura do campeonato, qualquer coisinha já me derruba, mas não quero dizer tais palavras a minha mãe. A gentileza e calmaria dela, no entanto, me quebram.

— Pode dizer se algo te incomoda.

— É só que não consigo enxugar o cabelo. Tô dolorida assim pra me mexer.

Me arrependo de ter molhado o cabelo, mesmo que durante o banho isso tivesse me revigorado um tantinho. A água descendo ao corpo foi um alívio físico imenso durante aqueles minutinhos. Até me relaxou a cabeça. Agora nem consigo acessar meu próprio cabelo.

— Isso eu faço. Pode deixar que eu faço.

Dona Helena puxa a toalha e vai pressionando algumas mechas com amabilidade.

Aproveito esse momento para saber mais sobre a tal terapeuta.

— O Murilo falou o nome da moça?

Sem se deter do que faz, mamãe parece pensar um pouco.

— Hmmm... Ele disse. Como era mesmo o nome? Ah! Cristina!

Arrisco um leve sorriso e isso mamãe percebe.

— Algo que eu possa saber?

— Coisa boba. Estava ouvindo ainda pouco uma cantora chamada Christina. Christina Aguilera.

— Temos então o prenúncio de algo bom!

Diz ela, capturando meu pente na cômoda ao lado.

— É, espero que sim.

Assim que estou pronta, de bolsa pronta, que caminho devagar para a sala, vejo só o Vinícius nela. Ele está de costas, falando com alguém no celular. Observo por um momento, quieta, vez que mamãe ficou para trás – ela passou no quarto de hóspedes para pegar alguns documentos – e me sento ao sofá, esperando.

— Só estou checando, mãe. Tá bom. Beijo.

Quando Vinícius se vira, pergunto, receosa, de cara:

— Falou para Djane? Sobre eu ir...?

— Não. Imaginei que não era pra contar. Pensei na tua privacidade.

Com isso, dou silvo baixo de alívio.

— Fez bem. E ela, como tá?

— Dolorida. E pra você ver, agora tá descansando. Talvez inspirada em certa figura. Pra todo caso, tem um agente especial lá de olho.

Vinícius menciona isso de uma maneira calorosa e surpreendida ao mesmo tempo. De quem não esperava por um cenário desses que conta. Penso na Iara de primeira, porém fico na dúvida se ela já voltou para o trabalho.

Acho que fica clara minha confusão.

— Tô falando do Renato.

O estado de pasmado dele passa para mim. Só que antes que eu possa pedir mais detalhes, mamãe se junta a nós com a dúvida que eu não pude expressar.

— Cadê o Murilo, hein? A gente já tem que sair.

— Ah, ele foi na frente, teve que resolver alguma coisa. Mas vai nos encontrar lá na porta do consultório.

Toco a mão do Vinícius para chamar sua atenção.

— Se ele tiver muito ocupado, não precisa ir.

Vinícius firma a mão na minha, para me dar suporte de levantar.

— Acho que ele faz questão.

É, penso, o Murilo faz questão.


~;~


Meio ausente de mim foi como fiquei durante o caminho. Com o fone grande na cabeça, preferi mergulhar nas músicas lentas, mesmo sem me deter à letra ou aos seus significados. Só sentir os sons, os ritmos, ver a vida passar pela janela de trás.

Puxo um lado do fone quando me vejo frente a uma casa de dois andares com cara de clínica, pois, depois do pequeno jardim suspenso à portaria, havia uma porta de vidro com uma plaquinha. Também puxo o fone porque o Vinícius me pede. Pelo jeito, o Murilo não pôde aparecer, por isso ligou. Vini coloca meu irmão no viva-voz para todos ouvirmos, porém, sigo tão além de mim, empurrada, que pouco presto atenção.

— Vou estar na porta quando você sair, em uma hora. Você conseguiu chegar até aí e isso é incrível, Lena. As coisas... Agora vai melhorar, tá? Esse é o caminho.

Sei que ele fala sobre o significado do meu passo, no entanto, minha maior preocupação nesse momento é se vou ter que subir escadas, pois não há muito de mim para chegar lá em cima. Depois da situação da manhã, já nem olho mais pro céu, só recoloco o fone na orelha e não me importo de dessa vez me fechar para o mundo.

Mamãe se adianta e toca a campainha. Sem demora, uma moça nos atende e nos direciona para a entrada do lado de dentro. O que, na casa, é a sala de estar. Também uma sala de espera, com as típicas revistas de clínicas. Diferente mesmo é um grande aquário. Fixo nele enquanto mamãe pega um papel. É um formulário, que ela logo começa a preencher, mas depois me apresenta, para finalizar.

A recepcionista recebe a folha e em menos de um minuto ela me toca no ombro para seguir ao consultório. Ao passo que levanto, tanto o Vini quanto mamãe se aproximam para deixar beijos ao meu rosto e me liberam para seguir com a moça. Vamos por um corredor pequeno – e sem escada, o que agradeço internamente. A recepcionista bate numa porta e abre para mim.

Somos saudadas pela terapeuta, que me direciona para uma poltrona enquanto pega uns documentos com a recepcionista. Não parece ser só o meu formulário. Enquanto elas trocam informações, me ajusto à poltrona toda morosa e pego um dos pufes do lado para deixar minha perna mais nivelada. Me sinto um pouco confusa, meio que só esperando isso tudo acabar.

Assim que a terapeuta se senta na poltrona à minha frente, ela me chama atenção balançando a mão, para que eu remova o fone. Estava tão fora do mundo que nem me toquei que permanecia com o acessório na cabeça. Puxo e desconecto, colocando o fone e o mp4 na bolsa à tira colo.

— Desculpe. Às vezes já nem percebo.

— Tudo bem. Milena, certo?

Ela olha para o documento apoiado numa pasta, de semblante cordial.

— Isso.

— Bom, Milena, meu nome é Cristina. Sou psicoterapeuta e atuo nessa área faz mais de sete anos. Tudo bem se isso é um pouco estranho pra você, mas já te aviso que aqui tudo é feito através de conversas e sem pressão. Aliás, gosto de deixar meus pacientes muito à vontade. Pode esticar a poltrona se quiser.

Ela aponta para o móvel e acho que é por conta da tornozeleira bem visível que cobre parte de minha perna. Eu sequer tirei o tênis, mas vez que não tá encostando no pufe para sujar ou algo tipo, me mantenho na mesma posição.

— Acho que prefiro do jeito que está mesmo.

— A qualquer hora que quiser mudar a posição da poltrona, você pode, tá?

Assinto, para mostrar que estou atenta, embora minha cabeça não capte tanto ou não tão rápido.

— Como eu estava dizendo, o método terapêutico é feito por conversas. Porque é na troca de ideias que a gente vai percebendo as coisas, não acha? É, muitas vezes, como a gente encontra umas respostas. Abre nossa percepção, sabe? Acho incrível também pela parte de a gente se ouvir sobre o que sente, como sente. É um dos privilégios de ser um animal pensante. Ter essa oportunidade de rever como estão nossas ideias e o que podemos fazer com elas. E nós podemos fazer muuuuita coisa nesse sentido.

Ao passo que concordo – internamente – com ela, o que ela diz também me parece ser coisas esquecíveis, dado o estado que minha cabeça se encontra. Mas não assinalo nada disso a ela, deixo que fale e tento não ficar tão ausente do momento.

— Como se vê, Milena, esse é um tratamento baseado numa abordagem comportamental. Comportamento físico e mental. Os dois estão interligados, embora nem sempre de maneira tão óbvia. Por conta disso também que nossas primeiras conversas, ou melhor, sessões, vão ser de papos mais abrangentes. Assim eu posso te conhecer melhor e ver as possibilidades de caminhos que podemos pegar. Tudo é sempre combinado com você, então não tem surpresas.

Será que ela vai ser paciente comigo?

Aperto a bolsa ao colo.

— Além disso, tudo o que aqui falarmos, ficará entre nós. Sem a tua autorização, não falarei nada a ninguém sobre o que estamos fazendo ou retratando. E em termos de discutir caso, não posso, pela ética, descrever e nem divulgar o seu caso, não sem autorização, e nunca, em hipótese alguma, revelar o seu nome. O máximo que posso fazer, se for mesmo para consultar umas referências ou indicações, é de contextualizar de maneira bem anônima. Tudo bem até aqui?

Assinto, demonstrando que sim. O Murilo já havia me falado algo nesse sentido.

Em consonância, Cristina acrescenta mais informações:

— E nem mesmo num tribunal, Milena, alguém poderia tirar algo de mim. A não ser que eu esteja sob risco de vida. E ainda assim, haveria um cuidado extremamente singular sobre que informações eu diria e como diria. Haveria uma escolha bem criteriosa de palavras do que eu poderia vir a revelar.

Tenho vontade de perguntar se ela fala enquanto dorme, mas me retenho.

— Fora isso, nossas conversas são totalmente nossas. Você, por outro lado, pode comentar com as pessoas que gosta, quem for de sua confiança e se você se sentir à vontade para isso. Tem alguma pergunta?

Encaro a terapeuta e faço que não, um tanto retraída.

— Bom, eu tenho uma pergunta, se não se importa. Como você encontrou meu contato?

— Foi o meu irmão, o Murilo. Acho que ele pediu indicações pra terapeuta dele.

— Ah, o Murilo. Falei com ele no telefone mais cedo. Ele pareceu bem atencioso.

— Ele é quando quer.

Dou de ombros e me arrependo do que que digo no mesmo segundo. Quer dizer, pelo modo que eu me expressei, como se estivesse fazendo pouco do meu irmão. Acho que falei de mal jeito. Mas a Cristina não leva dessa forma.

— Irmãos, né? Tenho dois. Sou a do meio. E vocês? Ele é mais velho ou mais novo?

— Mais velho.

A terapeuta mostra que está considerando algo sobre isso e depois pisca pra mim.

— Hmmm... Costumam ser os protetores.

Menos carregada, confirmo, dessa vez de um bom jeito.

— Isso ele é. Muito.

— Vocês são ligados?

— Bastante, eu diria. O que às vezes dá certo e às vezes dá muito errado. Mas ultimamente tem dado certo, acho. Ele tem sido bem paciente comigo e com minhas... dificuldades. Tem sido... Tem sido um verdadeiro guindaste.

Meio atrapalhado, mas de uma força tremenda, o que não comento e sei lá por quê. Só continuo a segurar em certo aperto a bolsa ao colo.

— Muito bem cotado esse seu irmão!

Amaino mais com essa sua observação, embora receosa do que mais teremos de falar aqui hoje.

— Então, Milena... Milena... Nem vi seu nome direito. Deixe-me checar aqui... Milena Lins Albuquerque Camargo. Nome forte e bonitão. Amei esse Lins? Amei.

Sorrio, porque ela fala de um jeitinho engraçado e agradável enquanto risca algo na folha acima da pasta. Então seu olho brilha em uma coisa mais. Como está de perna cruzada, ela balança o pé, de tênis branco, de maneira geniosa.

— Sabe uma coisa que amei também? Seu vestido. Por pouco não combinamos no tom!

Sorrio mais com essa, porque, de fato, ela também estava de vestido verde, só que num tom bem mais escuro que o meu, um verde bem intenso até. É desses mais longos, não exatamente o meu estilo, porém, nela ficou bem bonito. Combina com a vibe espirituosa dela.

— E eu quase peguei um estampado, que era verde também.

— Algum motivo especial para a escolha de hoje? Ou foi algo aleatório?

— Peguei o mais neutro. Como é algo diferente o que tô fazendo, novo e inesperado, preferi o simples. Fiz mal?

Acho que tô vulnerável assim, de pensar que uma mera escolha dessas seja uma coisa ruim.

— De modo algum. Fez conforme o que sentia, certo?

— É, algo assim. Mais neutro, menos vibrante. Não estava exatamente no clima.

— Entendo. E pelo que vi aqui no seu formulário, tem algo que vem te incomodando bastante.

Nessa eu me retraio, porém confirmo.

— S-sim.

— Pode me falar sobre o motivo que te trouxe aqui?

Esse é o momento crucial de que o Murilo falou e me sinto uma burra de não ter treinado uma resposta antes, vez que sabia que a pergunta viria. É claro que viria. Mas prometi ao Vini que não mais tentaria esmagar meu cérebro por cometer coisas estúpidas.

Também prometi ao Murilo que isso seria uma tentativa... Um experimento.

Pensar nele me faz lembrar do nosso papo de ontem, quando falou de agravantes. O que a Milena diria. O que a Milena gentil diria sobre isso. A pergunta logo me vem na cabeça: o que a Milena diria se fosse a Iara se sentindo essa burra sem noção?

Diria que faz parte do processo de fazer algo novo e diferente e em um estado de cabeça questionável. E que é pra isso mesmo que se faz terapia. Certo?

Para assumir o que sente e fazer algo a respeito. Certo?

É só sentar e responder. Certo? O que vier na cabeça.

E faz parte apertar os dedos uns nos outros por isso. Certo.

— E-eu... eu tenho... Eu tenho uma fobia. De trovão. E tenho há muito tempo. Tenho lembranças de mim, criança, com menos de 10 anos, já tendo crises com trovões. Mas nos últimos anos... Isso tem me atrapalhado. Bastante. Na faculdade, no trabalho... na vida particular.

Tomo um fôlego para poder colocar mais coisas para fora. Acabo encarando a terapeuta e seu porte mais sério me acompanhando na escuta.

— Na verdade, ando bem cansada disso tudo. Cansada de ter esse medo... de viver uma vida interrompida por eles... Cansada até de viver cansada das crises. Das dores no corpo. Da minha cabeça bagunçada. Da vergonha, do medo. Da culpa. De ficar sempre tão vulnerável e dependente das pessoas... Ou de me fechar para as pessoas... É tanta coisa.

Cristina rabisca algo e balança a cabeça, assentindo.

— É bem difícil mesmo lidar com isso sozinha... Sem entender o que acontece, por que acontece, só sabe que acontece, né? E quando acontece, geralmente é bem devastador.

— Siiiim, me estraga num ponto que... Como sabe? Tem alguma fobia também?

— Não tenho uma assim... não que lide com frequência. Tipo, eu não entro em barcos, por mais seguros que sejam. E já tive síndrome do pânico uns anos atrás.., Não pelo barco, foi depois de um assalto a ônibus. Foi um período difícil de entender. Não é o mesmo, claro. Mas entendo sua situação.

Isso me faz sentir menos anormal, acho. Quer dizer, até terapeutas têm problemas.

— Só que mesmo que eu não tivesse essas experiências, Milena, meu trabalho é te ouvir para poder cuidar dessas dificuldades... Para fazer algo a respeito delas. Para fazer com que elas não mais te interrompam... nem te atrapalhe na vida diária. Que deixem de ser pesadas. Estou aqui para seguir nesse caminho com você – um caminho estranho de aprendizados, mas crucial para chegar do outro lado sem tanto embaralho. E você não vai fazer isso sozinha... Claro, isso se me deixar ir com você. Você deixa?

Cristina me fita com uma afabilidade inesperada e eu engulo a seco de emoção, os olhos cheio d´água e tudo. Tomo um fôlego para dar uma resposta mais firme.

— Deixo.

— Que bom, porque acho que damos uma boa dupla. Às vezes eu posso ser um pouco falante, mas quero que se sinta à vontade para falar e se expressar no que puder e no que quiser. Tudo bem também se isso levar um tempo, até porque as primeiras sessões costumam ser um pouco estranhas para a maioria das pessoas. E eu entendo esse lado... Afinal, é um primeiro contato, né? E já estou falando demais de novo. É que sinto que podemos fazer muita coisa juntas.

— Acho que até ajuda. Digo, a senhora ser mais... espirituosa.

— Me chame de Cristina, sim? Não é uma Cristina Liiiins Bonitooona da Silva...

Ela joga o cabelo para trás, dramaticamente. Meu tipo de pessoa, eu diria.

— Mas é uma Cristina Gouveia que se compromete em te ajudar nessa jornada. Aliás, você prefere que eu te chame de Milena ou de algum apelido?

— Acho que Milena para começar.


~;~

Assim que saí do consultório e voltei para a sala de estar da clínica, a primeira pessoa que avistei foi o Vinícius, que estava sentado numa poltrona em espera, com a cabeça apoiada ao alto do punho fechado, o cotovelo no braço do móvel, o pensamento longe e preocupado. Cristina, que me acompanhava à entrada, repete baixinho o que me disse ao encerramento de nossa sessão:

— Aproveite as pessoas.

Na verdade, o que ela falou lá no nosso espaço foi “aproveite os lugares e as pessoas”, em reflexo de eu não ter aproveitado tanto meu período de férias, já que fui derrubada desde o último dia de aula. Vinha sendo derrubada pela vida em muita coisa até. Mas as pessoas, as minhas pessoas, sempre me faziam voltar a mim mesma. E diante dos trovões, dos que passaram e dos que podem vir a ocorrer, eu posso confiar nessas pessoas. Aproveitar elas e com elas os momentos com simplicidade.

Vinícius me arrebata num abraço quando me materializo a sua frente. Abraço-o, correspondente, agradecendo baixinho sua presença, espera e carinho. Mamãe vem logo em seguida para me encher de beijos o rosto. Em algum momento da vida, acho que teria vergonha disso, mas, nesse instante, me é muito reconfortante. Tanto que nem percebi que a terapeuta saiu com seu novo paciente para uma nova sessão, só vejo a piscadela final dela quando adentra a saleta com outra pessoa.

De mãos dadas ao Vinícius, sigo com as minhas pessoas até o carro. O Murilo, graças a Deus, seguiu minha mensagem a tempo – ou assim espero que tenha sido pelo texto que enviei. Mais ou menos lá pela metade da sessão, ou depois da metade, pedi uns segundos à Cristina para enviar uma mensagem ao meu irmão. Um pouco indelicado? Talvez. Mas julguei necessário e me manifestei quanto a isso. A esse ponto, já estava mais leve da cabeça. Escrevi rapidinho e nem pensei muito no que digitava, só enviei.


Oi, Mu. Não precisa vir, tá?

Termina o que tu tem pra fazer.

Tô com dois agentes aqui. Tô melhor, mto melhor.

Tá acabando aqui. Te ligo mais tarde.

Mas pode respirar, tá?

Para não me soltar, Vinícius destranca o veículo com o bipe da chave e dessa vez escolho ir no banco da frente. Eu mesma abro a porta. Até então, vinha sempre indo no banco de trás, por conta de ter espaço pro meu pé e pra poder ficar mais reclusa. Ninguém me pergunta nada, assim como ninguém perguntou algo assim que fui liberada. Mas eu me manifesto em uma coisa para quebrar o silêncio. Inclusive, antes mesmo de me sentar no banco do carona, olho para cima, para o tempo nublado, de certo sol e sem nuvens pesadas, e digo:

— O que acham de a gente ir tomar um sorvete?

Depois do exercício de relaxamento no final da sessão, me sinto renovada. Por uns segundos, acho que até apaguei, feito um sono repentino. Mas fui religada de um jeito extraordinário, que sigo impressionada. Tô de cara até agora com esse tal método. Mais do que o método do Murilo.

Nele, a terapeuta me fez fechar os olhos e soltar aos poucos os músculos, afrouxando mesmo cada parte do corpo, da cabeça aos pés. Uns sons da natureza, com barulho de água corrente e cantos de pássaros, foram um adicional interessante, pois, como ela disse, deixava a experiência muito mais completinha e me ajudou a concentrar melhor no passo a passo. Assim, quase aos sussurros e de maneira pausada, Cristina foi me orientando para o quê ou como observar partes do meu corpo, me focar neles e senti-los como são. Depois, tive que contrai-los com força, coisa de segundos, para então liberar a rigidez, um a um.

Foram nas respirações finais que meu corpo relaxou de vez e minha cabeça pendeu num repouso profundo e sereno, mesmo que por um instante só. Quando voltei a mim, piscando pra me reanimar, Cristina perguntou:

- E agora, como se sente?

- Parece que... que desligaram a chave geral do meu corpo... e agora religaram.

Quis perguntar também que “bruxaria” foi aquela, tal qual a expressão que roda por aí, mas não quis ser indelicada. Então só complementei com todo o meu estado de deslumbramento:

- O que foi isso? Foi hipnose?

- Chama-se relaxamento progressivo. Eles podem variar um pouquinho na ordem ou no modo de fazer, mas de modo geral é sobre aliviar o peso que fica retido nas partes do corpo, principalmente nos músculos. Às vezes até estrala os ossos. E revigora, não é?

Balancei a cabeça em concordância e em total fascinação.

A Cristina disse que vai fazer exercícios assim comigo ao final das conversas e acho que mal posso esperar pelo próximo. Ficamos para a quarta-feira que vem, só que em um horário mais para o final da tarde, vez que já terei voltado à rotina de trabalho.

Apesar da surpresa desse tal relaxamento, no final das contas, a sessão foi bem como o Murilo disse, de que a gente chega com o peso do mundo e sai leve como uma pluma. É assim que me sinto. Livre, leve e solta. Até as dores passaram.

Por isso quero aproveitar este dia. Quero aproveitar essas pessoas.

Um tanto emocionado, Vinícius faz uma sugestão, agora segurando a minha porta.

— Tem aquele no Center, perto da fonte.

— Ótimo, assim mamãe também conhece o Center de que a gente tanto fala. Pode ser, mãe?

Volto-me para trás, onde dona Helena está paralisada me encarando, também envolvida em suas emoções. Mas ela responde, bem animada.

— Com certeza, meus amores. E já digo logo que quero de chocolate.

— Quando que a senhora não pede de chocolate?

— E como vou saber todos os sabores de chocolate se eu não provar?

Sento ao banco da frente e o Vinícius responde essa, antes de fechar a porta.

— Acho justo. Algum pedido especial, amor?

Para pensar, levo o tempo que ele dá a volta no carro para poder entrar.

— Acho que creme com passas. Nada parecido comigo, mas com certeza algo marcante para um dia diferente como esse. E tu? Não vale imitar o meu.

Ele mostra que cogita algo conforme colocamos os cintos de segurança.

— Acho que de morango... com pedaços de morango. E cauda de caramelo.

Mamãe se anima atrás de nós.

— Agora você me abriu um muuuuuuuuundo de possibilidades, Vinícius.

Sorrio com mais frescor pelo entusiasmo dos dois. É também um modo – simples, porém gratificante – de comemorar esse grande passo que dei, que a Cristina mesmo afirmou. Nas palavras dela:

- Acredito que o passo de hoje te exigiu muito, Milena. Vir aqui, quebrar barreiras, quebrar ideias, experimentar o desconhecido. E vejo que você quer muito que dê certo. Como o início da recuperação do machucado em seu pé, esse começo vai parecer estranho, com algumas mudanças na rotina e na cabeça. Mas o passo maior você já deu e isso é digno de comemoração. Os seguintes logo não vão ser tão intensos... Vão até parecer mais simples. Mas todos são para se celebrar.

Celebrar os passos e fazer eles mais simples. Sim, quero muito isso e quero muito que dê certo. Só de pensar em como cheguei e em como tô saindo agora, faz tudo valer a pena.

A terapia, pelo jeito, faz valer a pena.

~;~

Guardando as louças do jantar, aproveito que o Vinícius está fora da área, por estar no banho, e lanço uma questãozinha para minha mãe:

— Então... Quem pagou a consulta?

É a primeira vez que abordo o assunto desde que saímos da clínica. Se não fosse por esse detalhe, acho que nem comentaria algo de imediato, pois quero deixar as coisas se assentarem mais aqui dentro antes de emitir qualquer opinião, mesmo que o saldo tenha sido mega positivo.

O que sei a respeito de valores é o que o Murilo disse mais cedo, que, das opções que me deu, duas eram profissionais particulares e uma atendia ao meu plano, porém, ele não as identificou nesse sentido. Meio que jogo o assunto desse jeito para também descobrir quem cobriu essa, se alguém fez isso. Rezo internamente para que o Vinícius não tenha se envolvido, porque é algo além demais para ele intervir. Se foi ele, vou restitui-lo e levar aquele papo de dinheiro que prometemos ter.

Mamãe termina de colocar umas colheres na gaveta e se vira para pegar de mim os outros talheres que acabei de enxugar.

— Fui eu mesma. Aliás, não é nada caro, achei bem em conta. É algo que podemos pagar.

Ainda assim, quero ter noção do valor.

— Quanto é?

— Cento e dez reais.

Considerando o dindim que eu paguei para o hacker, não me parece caro mesmo, apesar de o serviço ter sido naquela de coisa única e o Murilo até me reembolsou. Diferente desse caso, esse é um tratamento e algo contínuo, algo para o meu bem e para considerar dentre as contas de casa. Me parece razoável. Dá pra manter sem ter que me apertar toda.

Mas acho que o fato de eu ficar quieta matutando isso faz mamãe pensar que tô maquinando outras coisas. Já guardando os pratos, ela intervém:

— Não precisa se preocupar com isso, Milena. Damos conta sim. Até porque é por uma boa causa. É o que vai te levar pra frente.

Embora não tenha comentado nada sobre a terapia ou a experiência de estar na clínica – desde que saí de lá –, estou bem comunicativa. Presente ao momento até. Afora agora, que dei uma dispersada em meus pensamentos, tenho correspondido bem às minhas companhias e aproveito disso também para deixar as coisas bem esclarecidas.

— Não pensava sobre isso. Quer dizer, acho que posso pagar as próximas, encaixar nas minhas despesas e sem apertar minhas finanças. Só queria a informação mesmo.

— Que bom. Mas essa de hoje fica por minha conta, tá?

— Tá bom. Essa passa.

Falar em dinheiro e pagamento me faz pensar no trabalho. Quando me acidentei, Iara levou meu atestado pro RH para que minhas faltas de final de ano não fossem computadas e Thiago me disse para retornar só no dia 7 de janeiro, que será a segunda-feira que vem. Em tese, já era para ter voltado ao serviço, ainda mais que esse período de começo de ano envolve tantas cargas e reposição das frotas, porém, Thiago me frisou mesmo para voltar só na segunda semana. Naqueles dias, estava tão quebrada para pensar sobre isso que apenas passou batido. Agora, já não sei dizer o porquê desse pedido, se estava ou não relacionado ao estado do meu pé.

Olho para baixo e, encostada na pia, vejo que a fase de rotina quebrada já está acabando – já era para ter finalizado até. Afinal, meu pé e tornozelo estão quase inteiros. Significa que logo logo o arranjo que temos aqui vai ser desfeito. Por enquanto, só o Murilo voltou para o centro meteorológico. O Vinícius conseguiu driblar o serviço. E minha mãe...

Volto-me para dona Helena, esticando-se para colocar um copo na prateleira de cima. Logo logo também será tempo de dizer tchau.

Sem aviso, nem nada, simplesmente vou até ela e a abraço. Com ela esticada e tudo, concentrada na prateleira.

— Filha?

Ao passo que meus olhos enchem, dou uma dispersada neles, para que não se preocupe demais comigo.

— Só estou um pouco cansada. Acho que vou encerrar cedo e logo ir pra cama.

Não explico nada sobre o abraço, deixo apenas que fique no ar, esquecido. Mamãe, por outro lado, faz um carinho ademais aos meus cabelos.

— Depois de um dia exaustivo desses, nem objeção faço. Quanto ao Vini...

— Deixa que com ele eu falo. Que hoje ele vai pra casa.

Ele também tem vida e já deu de eu ficar alugando-o aqui. Agora mais consciente desse momento de reorganização de vida, sinto que preciso me movimentar para colocar as coisas nos seus devidos lugares e devolver as pessoas para seus afazeres. O ano, afinal, já começou.

— Então vou dar uma escapulida pro meu quarto, pra deixar vocês mais à vontade por aqui.

— Não precisa, eu posso conversar com ele no quarto. Só... diz pra ele ir me ver quando sair do banho.

— Se é o que prefere, tudo bem.

Dou um beijo na minha mãe e sigo caminho, para colocar o pijama definitivo. Depois que chegamos, até tomei meu banho – e sozinha –, mas mantive uma roupa de casa como de costume, vez que permanecia sociável. Enquanto troco de roupa, até me bate certo sono, mas seguro só para finalizar este dia com todas as missões cumpridas. Assim que termino, o Vinícius bate na minha porta.

— Sou eu. Posso entrar?

Respiro fundo antes de abrir. Encaro-o brevemente também com seu conjunto de pijama, uma visão e tanta ele de calça moletom cinza e uma camiseta lisa simples branca, que delineia bem seu físico. Nem em um milhão de anos eu poderia crer que, depois de uma crise, eu não só teria dado um passeio, como fitaria o namorado desse jeito, toda interessada em namorá-lo. Isso simplesmente parecia incompatível. Impossível.

E esse é o poder da terapia, pelo jeito. Religa partes inativas da gente.

— Lena?

Acordo pra vida quando Vinícius me sonda. Não se mostra exatamente preocupado, só observador. Pisco e fico sem jeito, porque as palavras que estavam se desenhando em minha cabeça há minutinhos atrás sumiram de um jeito inexplicável.

— Errr... é que...

Desvio dele, voltando-me para a beira de minha cama, e escuto a porta dando seu clique de fechada. Mentalizo o que tô fazendo pra poder voltar a reordenar a vida. Foco, Milena. É hora de enviar o namorado pra casa.

Até porque dá pra ver que os planos dele do momento envolviam passar mais uma noite aqui. O que não é errado pensar, é só que precisamos encerrar esse ciclo. O combinado, no final das contas, era para ser somente a virada de ano e já se passaram dois dias.

Vinícius até facilita um pouco pra mim quando se senta na ponta da cama. Não favorece muito é eu sentir que está me observando, esperando uma resposta.

— Tem algo que queira conversar?

— Sim.

— Posso dizer uma coisa antes?

Essa me pega desprevenida, a ponto de me virar para ele, surpresa. Vinícius aproveita esse movimento para segurar minha mão nas suas e seu rosto sereno me captura. Ainda mais que um sorrisinho encantado se desenha lá.

— Tem uma coisa que eu queria te contar desde ontem e acabou nem dando pra falar hoje. Acho que você vai gostar muito de saber dessa.

A leveza de seu papo me leva até ele, de modo que fico de pé entre suas pernas, com Vinícius me fitando, de baixo para cima, pasmo sobre esse algo.

— O que teve ontem?

— Então... é que de manhã, quando fui em casa pra saber mais sobre o que tinha acontecido com a minha mãe e tudo mais, eu vi o carro do Renato na porta. Entendi que ele passou a noite lá. E antes mesmo de conferir sobre o caso do carro, de saber o que houve... ali mesmo na calçada, eu não senti nenhuma raiva dele. Nem... Não senti como antes, sabe?

Acarinho o rosto do namorado, adentrando meus dedos por seus cabelos, admirando esse seu feito. O fato de ele se sentir assim e o fato de ele me contar essa.

— Tem razão, gostei muito de saber isso.

Num misto de acanhamento e confiança, meu Vini me segura pelo torso e volta a acomodar a cabeça no seu ângulo comum, o que acaba deixando-o frente ao meu pescoço.

— Foi assim que ele virou um agente especial, um parceiro, pra cuidar da minha mãe. Se bem que ele também tá meio quebrado, então não teriam lá muito espaço pra... Você sabe, aprontarem.

Sorrio com essa, fitando sua expressão encabulada de falar sobre a relação de Djane e Renato. Ao menos o tempo em que Vinícius ficou aqui foi algo positivo para os dois, de maneira a dar mais privacidade a eles.

Mas meu coração ainda diz que é hora de ele ir, mesmo que outras partes de mim agora repensem sobre isso.

— Obrigada por me contar essa... E obrigada por ficar aqui comigo hoje. Aqui e...

Vinícius outra vez levanta o rosto para mim.

— Não precisa falar sobre isso se você não quiser. Eu posso esperar o teu tempo. Posso falar de mil e outras coisas, até que se sinta pronta pra isso.

Quieta fico, mantendo minhas mãos em seus cabelos, quase que o segurando junto de mim, fitando-o em sua sinceridade e processando essas palavras. Porque, pelo treinamento do Murilo, a direção é falar de qualquer coisa aleatória e ser positivo. Então é possível que meu Vini tenha pensado nesse fato curioso como forma de preencher tempo e espaço enquanto os acontecimentos do dia assentam aqui dentro de mim. O que não é uma coisa ruim essa postura, lembro, é uma gentileza.

Vez que nada digo enquanto maquino as coisas, Vinícius outra vez preenche a conversa, sendo bem atencioso.

— Posso falar do meu avô.

Inevitavelmente, lembro de uma parte da conversa com a Cristina. Em dado momento, eu dispersei um pouco na sessão, do que ela explicava; assim, para me manter falante acho, vieram algumas perguntas sobre as pessoas do meu cotidiano e por um acaso mencionei o vô-sogro. E isso a intrigou.

- O que seria um vô-sogro? É sogro de quem no caso?

- É o avô do meu namorado. Se o pai dele é meu sogro, então o avô...

Cristina fez uma carinha engraçada nessa hora, batendo a ponta da caneta no rosto.

- Hmmmmmm. Faz sentido.

Expliquei também como esse senhorzinho sonha que eu o chame de vovô. Ele já me chama de netinha. E às vezes até que cedo, chamando-o de vô Júlio. No começo era mais por questão de manter certos limites de intimidade, hoje isso é mais pra atazanar ele mesmo.

— Lena?

— Oi... Eu. Desculpa.

Vinícius me puxa mais para si, de modo que abraça meu dorso e ficamos mais colados.

— Não tem pelo que se desculpar, sabe.

— É que às vezes lembro de umas coisas... e me desconecto.

— Faz parte.

Com uma leve contração ao rosto, ele revela um sorriso pequeno e compreensível. Suspiro, agradecida.

— Valeu por isso, Vini. Por tudo isso. Eu ainda tô mesmo absorvendo as coisas. O que foi feito, dito e... enfim, processando. E ajuda muito esse tipo de... isso, de preencher as conversas. Me contar coisas. Não falar diretamente sobre... Obrigada mesmo.

Como posso enviar um cidadão lindo desses pra casa, como? A essa hora? Sendo esse fofo e cuidadoso e respeitoso? Como? Me concentrando no que ele fez e porque fez e porque faz. E que isso é justo para poder alinhar os eixos da vida, porque o tempo das coisas provisórias acabou.

Assim começo, ou recomeço:

— Obrigada por ficar comigo hoje. Por ter escolhido isso hoje.

— De nada, amor.

Vinícius me acarinha o rosto e então cola sua boca na minha, o que me desperta para algo mais, porém, me detenho e me movo para nos espaçar. De imediato, ele abre os olhos, com certa preocupação, como se fosse o errado da história.

— Te interrompi?

— Eu tenho uma coisa a dizer.

— Desculpa, amor, pode falar.

Encaro sua face atenta e, por me manter segurando-o a mim, fico até sem jeito. Assim, baixo a vista para um risco qualquer que agora enxergo em sua camisa e lá me concentro.

— Acho que você precisa ir pra casa, Vini.

Leva uns segundos silenciosos para ele responder.

— “Precisa” parece ser uma palavra forte.

Solto sua cabeça, desarmada, mas não saio do espaço entre suas pernas e nem escapo de seus braços ao redor de mim. No entanto, sigo não o fitando de volta. Dessa vez, deixo o olhar vagar para um dos bichinhos de luz que pousa na minha cama. A temporada de chuva trouxe um monte deles e muitos eu consegui barrar do meu quarto.

— Você pode voltar amanhã.

Vinícius remove os braços de mim e puxa minha mão em atenção, para que tenhamos algum contato visual. No momento que elevo os olhos de volta, me sinto incerta do que tô fazendo. Mas também ficaria assim se ele permanecesse.

— Eu tô incomodando?

No mesmo segundo, a resolução faz sentido. Porque sou eu que acho que tô incomodando.

Vinícius afaga a mão minha que ele mantém contato.

— Você pode me dizer se eu t...

Nessa, sou firme.

— Você não tá incomodando, Vini. De modo algum. Nem consigo te ver incomodando. Tá sendo a companhia perfeita.

Sinto que não estou sendo muito clara, mas também não consigo lhe dizer muito. E sei que tô dando a brecha pra ele perguntar o porquê dessa dispensa, e até espero que faça, mas ele não faz. Vinícius apenas abaixa a cabeça, observando o que quer que esteja lá aos meus pés.

— É isso que você quer? Que eu vá pra casa?

Já nem sei mais dizer, se sim, se não. Mas pior do que ele me olhando diretamente é ver todo o seu porte se desfazer. Isso me desordena e me faz abrir o jogo dessa incerta decisão.

— Só acho que tive de você mais do que deveria.

Isso faz com que levante o rosto outra vez. E eu desato a falar.

— Você tem seu trabalho e tem Djane... Uma Djane que também precisa de atenção e não só do agente especial dela. Também quero que vocês tenham tempo um para o outro. E, como eu disse, você pode voltar amanhã. Não precisa amanhecer aqui na porta, nem vir cedo demais. Passa a manhã com ela. Almoce com ela. Talvez venha com ela, depois, se Djane estiver em condições... Não sei na verdade o que dizer sobre amanhã, só...

De semblante mais razoável, ele conclui o que deixei em minhas reticências e suspira. Talvez de alívio? Talvez.

— Tudo bem. Eu posso vir mais tarde.

Não foi bem da maneira que quis que saísse, mas a mensagem foi passada e aceita. Não foi?

— A gente ainda vai assistir alguma coisa ou...?

— Estou um tanto cansada. Vou encerrar por aqui mesmo e ir deitar.

Dá pra ver que ele não fica feliz com isso, mas que também fica sem opção.

— É bom mesmo descansar.

Fito-o com ternura, por querer ficar o máximo que dá. Ele viu o pior de mim e ficou e ficaria mais se pudesse.

— Desculpa se isso interrompe algum plano seu.

— Não, não interrompe... eu que... acho que tô... tô abusando da hospitalidade de vocês.

— Você foi essencial aqui, Vini. Fico agradecida de verdade.

Agora sim ele suspira de alívio, porém, logo se atina pra o que tem que fazer.

— Então... vou pegar minhas coisas. Você vai até a porta comig...? Melhor não, né?

— Vou sim. Vou te deixar lá.

Ver aquele seu sorrisinho pequeno, não tão satisfeito, mas resignado com o que tem, me faz beijá-lo brevemente. Quando o solto, no entanto, ele se levanta e puxa meu rosto de novo, para aprofundar esse carinho. Vou com ele nessa.

Por fim, ele recosta sua testa na minha e me sinto mais aliviada com tudo isso.

Em clima de despedida, ele diz:

— Te amo.

— Ama?

Nem sei por que questiono, porque não faltam evidências disso. Vini, no entanto, não leva a mal. Pelo contrário, ele me encara bem vaidoso.

— Mais do que o tamanho do universo. Tanto quanto estou orgulhoso de você.

— Orgulhoso de quê?

— Do que será, né, Lena?

A carinha piadista dele me dá o toque final de que, é, isso não se trata somente de incertezas. Na real, é aquela velha autodepreciação mesmo. Deixo que ela vaze de mim só pra ela não ficar mais em mim.

— É que não me parece grande coisa.

— Não quer dizer que não seja grande coisa.

Isso é. Como meu acordo com a Iara, eu falo pra ela, ela fala pra mim, e ele fala também. Precisamos de pessoas reconhecendo esses passos para podermos visualizar com mais nitidez quando nos falta essa sensatez. Precisamos de gente para reafirmar isso.

Mas enquanto considero tais coisas, Vini vem com outra abordagem pra ajudar a calibrar isso.

— Então fazemos assim: vamos nos concentrar em uma coisa de cada vez. Tá bom?

Balanço a cabeça, anuindo de maneira bem certeira e visual. Pra mim e pra ele.

— Tá bom.

Ainda com as mãos sobre o meu rosto, ele se aproxima de novo.

— Agora diz que me ama.

O quentinho de amor não me faz duvidar mais.

— Amo você. Mais do que o tamanho do universo.

Aquele sorriso dele, antes pequeno, se alarga daqui até Plutão – mesmo que Plutão não seja mais um planeta.

— Pode deixar que essa eu não conto pra tia Helena.

Ainda bem que ele sabe.

Notas finais
BEM-VINDA, CRISTINAAAAAAAAAAAA. Mal te conheço e já te adogo pacas! TrechinhoS do próximo? "Eu também não acreditei na cena que vivi, mas vivi. - Ela resistiu? - Pra caramba." e "Mas, enfim, tô lá fazendo o que posso sobre isso, tendo que separar os gangsters, os pilantras e os safados. Acredite, são categorias diferentes." e "- Alguém aqui acha que eu preciso de babá. Como se eu não soubesse me cuidar. - Alguém aqui só quer que a senhora não se exceda, mãe." e "Uma sessão e eu já não me sentia... destroçada. Ou despedaçada." e "Noutros tempos, acho que imaginaria um saco de pipoca aos braços enquanto ficasse olhando de um para o outro. Me parece até uma recompensa pela briga entre irmãos que a Iara não me serviu no outro dia." e "- Tu quer mesmo ir por esses lados? Com dois touros vingativos naquela sala?" ESSE NÃO TÁ DE TODO REVISADO E AS CRIATURINHAS ESTÃO ME CHAMANDO PRA ESCREVER MAAAAIS CAPÍTULOS. Então volto em breve e deixo mais um trechos, dessa vez do 190: (meu Deus, 190 capítulos o.o) "- Demorei muito? Deu tempo de planejar minha surpresa de aniversário? - E quem disse que já não tenho tudo planejado?" e "- Já disse que amo tua irmã, não disse? Porque amo. Falo eu tão na simplicidade, no amor e na paz no coração, e o namorado vem com malandragem, colocando um braço por cima do meu ombro, pra poder me puxar a ele, e ao colocar sua boca próxima do meu ouvido, sussurra: - Se for maior do que o tamanho do universo, aí vamos ter um problema."