Mantendo O Equilíbrio - Tempo de Mudança (T6 + T7)
190 Capítulo 85
Notas iniciais
Dentre dias tão agitados, acho que não lembro da última vez em que me coloquei simplesmente a existir, a observar ou a encarar minha história, não sem algum estímulo de fuga ou sem estar toda contrita pela minha realidade. Não me encontro exatamente em paz, porém, me sinto cômoda e segura de fitar o universo para além do meu terraço.
Ao livre silêncio da casa, ouço apenas o farfalhar de alguma árvore da vizinhança, uns gritos infantis brincando ao longe, alguma televisão ligada num programa e uns carros que vez e outra atropelam as pedras de um buraco no começo da rua. Quase imóvel, fico assim, em suspenso, observando o céu. Está nublado naquele ponto da atmosfera ficar toda encoberta, tipo cheia de neblina, porém, sem indícios de tempestade tão cedo. Tudo branco, nada cinza ou carregado.
Abraço-me mais por conta do frio do dia, mas agora passo a crer que é por conta do que aqui dentro se aflora. Sem nome e sem explicação, só uma sensação presente. Algum tipo de receio, sei lá.
Algo interno e também à superfície.
- E sobre esse momento... aqui e agora... o que está sentindo?
- Receios. Medo.
- Dos trovões da temporada?
- De não dar certo. De isso não dar certo.
Acho que depois do que foi o alívio – e descanso até – após a conversa com a Cristina, pensei que as coisas aqui dentro se manteriam esperançosas, maravilhadas e dispostas. Mas não foi assim que acordei nessa manhã gelada e úmida.
Não havia aquele rebuliço em mim, de me fazer vomitar algo, tampouco havia um peso ao corpo, de me fazer me arrastar pelos cantos. Tô até andando melhor, já quase sem necessitar da tornozeleira, o que significa que isso no meu pé tá mesmo acabando.
Mas a minha situação não. Na verdade, o frio dessa manhã me fez perceber que estamos só no começo da temporada de chuvas, com muitos possíveis trovões, e a vida está aí me pedindo alto vigor no corpo e um tanto de sanidade para ser uma pessoa responsável e contribuinte à sociedade. Mesmo hoje sendo um sábado.
De alguma maneira, estou cansada de descansar e ao mesmo tempo não sei se estou pronta para uma vida completa. Faz sentido isso?
Parece-me que me falta um “agravante”, embora eu tenha uma lista monstra deles. Só que nada me move no momento, somente o piscar lento dos olhos, carregado de questões.
- Não vou mentir e dizer que isso não é uma possibilidade, Milena. Por mais que eu me coloque aqui para te ajudar, essa relação depende de como você se entrega ao processo. Mas não é uma exigência. Esse é só o nosso primeiro encontro. Temos o daqui pra frente para explorar esses campos... Não é de um segundo para o outro que tudo fica bem.
Cristina falava da minha apreensão sobre não dar certo.
- Mas conforme você for pisando, dando novos passos, haverá segundos de iluminação e de mudança. Também são possibilidades. E são maiores do que as de não dar certo. Essas ideias também vão ser revistas durante nossas sessões.
Como agora, lá fiquei sem respostas. Quieta mesmo. Até porque meu cérebro travava lutas que mexiam com a minha consciência, de modo que eu realmente não sabia o que esperar. Então muitas vezes, durante a sessão, só existi naquele consultório, contrita e sem saber o que dizer.
A Cristina nessas horas me perguntava sobre outras coisas. Numa dessas, foi sobre a tornozeleira, se foi algum acidente, como aconteceu. Acabei contando bastante sobre o meu período de recuperação. Nessa parte até que fui bem falante e encadeei as ideias de uma maneira organizada.
- O começo foi ruinzinho, como toda recuperação é, acho. Fiquei dependente das pessoas para fazer coisas básicas, como ir ao banheiro, tomar banho, me deslocar pela casa ou fazer minhas refeições. Não tomo um banho sozinha faz muito tempo... Minto, hoje deu para ter um banho desses. Mas tive muitas situações de constrangimento. Minha rotina, então, mudou completamente. Além disso, tenho que fazer exercícios no pé com certa constância e sempre deixá-lo numa posição alta, como agora. Também precisei tomar remédios para dor, o que às vezes me deixava enjoada. E precisei de muito gel para os inúmeros roxos que fui encontrando. Foi... foi tudo bem bagunçado.
- Essas fases são bem bagunçadas mesmo. Nos tiram da zona de conforto de forma abrupta.
- Sim, de um segundo para o outro.
Não usei a expressão dela – “de um segundo para o outro” – para provocar ou algo do tipo, só pareceu adequado conforme a conversa foi rolando. Mas aí ela fez a tal mágica que o Murilo já me contou, de que terapeutas pegam recortes de situações e de expressões nossas e juntam, ligando os pontos, semelhante ao que investigadores fazem.
Não usando-os contra nós; pelo contrário, é a favor de nós.
- Como os trovões, você diria?
- Pela questão de ser abrupto, sim. Mas... envolve mais do que... do que dependências ou constrangimentos. Porque eu fico num estado... lastimável. Como agora. Não consigo pensar direito, fico bem cansada... Não tenho vontade de fazer muita coisa. E, até pouco tempo atrás, eu nem falava com ninguém. Ficava reclusa durante horas... ou dias.
- Tem tido bastante trovões nos últimos dias. Como tem sido pra você?
- Desastroso... Incapacitante.... Doloroso. Mesmo com a ajuda dos meus familiares. Meu irmão até inventou umas técnicas... pra me ajudar a atravessar esse período. Ele faz terapia tem um tempo e aprendeu algumas coisas. Acontece que eu era relutante de fazer terapia, então... só acontecia, sem eu ter muito como agir. E nesse período de chuvas, o Murilo veio com essas... ideias... de respiração e... Ele fica bem martirizado com tudo isso. Por isso ele tenta demais... e inventa demais.
Nessa hora Cristina apontou para minha bolsa estufada.
- Por isso o fone?
- Sim. Tenho andado com esse grande e um pequeno. E um mp4. Pra me ajudar a me manter distante e às vezes a focar. Pra atravessar as crises. Porque elas vêm.
- Você chegou a ouvir um trovão hoje?
- Sim. Estava terminando o café da manhã com a minha mãe e o meu namorado. Eles basicamente foram se moldando e treinando conforme minhas crises para saber o que fazer, como fazer... Então houve uma intervenção deles e deu para atravessar com eles. Mas aí... quando meu irmão chegou do trabalho... ele disse que essa crise foi diferente. Eu ouvi ele dizer isso.
Só de lembrar disso, me dá um quente estranho, que reverbera em um calafrio pelo corpo. Mais do que o teor da razão que fez o meu irmão dizer isso.
- Diferente como?
- Eu... errr... Depois da crise, eu dormi. E como dormi por cima do braço, tive um sonho ruim. Pelo mecanismo de defesa, sabe? De ter um pesadelo para o corpo se mexer.
- Ô se sei. É odioso e pavoroso como o corpo nos acorda. Mas que é eficiente, isso é... Acha que pode falar do sonho?
- Eu sonhei com... um... amigo. Na verdade, uma pessoa com quem eu briguei no final do ano e estamos afastados desde então. E no sonho, a maneira com que ele apareceu pra mim foi bem... perturbadora. Eu tava no quarto de uma amiga, como se tivesse dormido lá, e ele tava me vigiando, não sei.
De todas as coisas que meu cérebro cria, sigo pasma como até ele me tortura.
- Quando eu acordei, dentro do sonho, perguntei do meu irmão, e esse... ele disse que o Murilo tinha saído atrás de uma chave. Daí perguntei do Vinícius, meu namorado, e ele agiu como se o Vini nem existisse. Foi tão insano que acordei com o coração na mão. E não muito tempo depois, o Murilo apareceu pra mim, no meu quarto e eu tava tão alucinada que eu não sabia mais dizer em que realidade eu tava. Se era outro sonho, se um sonho dentro de outro sonho, se era mesmo um sonho. Porque meu irmão parecia diferente e porque já aconteceu, acho. Foi muito confuso. E horrível.
- É, a sincronia dos fatos não facilitou.
A sincronia dos fatos. Acordo dessa sincronia quando, de repente, ouço um barulho de chave virando no mecanismo da tranca da porta da rua e quase salto quando o portão é aberto. Volto a mim quando a cabeça do Murilo surge. Ele também parece surpreso de me encontrar assim.
— Tava me esperando?!
— Não.
A gente se encara por uns segundos por esse encontro inesperado.
— Chegou cedo.
Murilo bate de leve na testa.
— A genialidade aqui esqueceu o contrato. Só vim buscar e vou voltar.
— Ah, ok.
Mas o meu irmão não se mexe. Ele me observa, cauteloso.
— Tá tudo bem, mana?
Voltando à minha posição de antes, também com o olhar vago, respondo bem pacata:
— Tá sim, de boas.
Murilo segue mais ou menos o caminho do que estou olhando, em busca desse algo que estou mirando, porém ele não entende do que se trata. Mesmo assim, ele toca no assunto de novo.
— Não parece que tá tão de boa na lagoa assim.
Dou de ombros, com os braços firmes ao abraço que continuo me dando.
— Só tava observando o tempo nublado... É algo que eu não fazia, só fugia. Mas não é nada demais. Só tô observando mesmo.
Ouço o suspiro baixo dele, o que me leva a fitá-lo. Seus olhos tremelicam rápido, em sinal de que ele está pensando em algo, calculando algo.
Assim insisto no que digo, para que não se preocupe com isso.
— Tá de boas, Murilo. Pode ir.
Ele fecha a porta da frente, guarda a chave no bolso e vem pro meu lado, encostando as costas na parede. Também cruza os braços ao ventinho frio que faz.
— Nem vai chover e tá frio desse jeito.
— O documento, Murilo.
Acho que ele faz que não me ouve.
— É até bonito como o céu fica branco desse jeito, né?
Ele tá sendo gentil, então vou ser gentil de não ficar pentelhando.
— Um pouco, eu acho. Deixa as coisas em suspenso.
— A Aline diz que atrapalha um pouco o astigmatismo dela, por conta da luz indireta do sol, mas é algo que ela gosta de observar também. Às vezes ficamos os dois assim, lá na área dos funcionários, só olhando mesmo. No caso dela, geralmente é para não trucidar alguém. Que não sou eu.
Sorrio de leve com o modo que ele frisa isso. A criatura não vê, pois segue encarando o céu à distância. Mas no seu complemento, eu vislumbro aquele seu sorrisinho besta que amo.
— Bom, até então não tem sido eu.
Mas seu sorriso logo se desmancha e volta àquela expressão inquieta dele. Sem olhar para mim, seu sentimento fala por si.
— Eu quero perguntar algumas coisas, mana. Não agora, claro. Só tô dizendo que quero. Em algum tempo, sem pressa.
Abafo um suspiro.
— Tudo bem.
— Pode ser daqui uns meses ou até daqui um ano... Eu posso esperar.
O embolo que havia se formado dentro de mim agora faz mais sentido. Não era um mero receio, embora esse esteja no meio. São as expectativas.
Solto elas ao terraço antes mesmo de me dar conta do que digo.
— Acho que... tenho medo de retroceder.
Mas não me importo tanto em liberar assim. Porque no Murilo eu confio.
E até me dá vontade de falar que ouvi parte de uma conversa dele com mamãe. Não aquela em que disse que minha crise estava estranha, não... é outra. É sobre ser “eu mesma”, sobre eu estar “sendo eu”, com naturalidade, como resultado da primeira sessão.
Esse papo foi ontem e foi bem por acaso mesmo que ouvi. Eu estava procurando o cabo do carregador na estante da sala quando o Murilo chegou com umas sacolas. Só que ele entrou na casa pela porta da cozinha, sem passar pelo ambiente da sala de estar, e lá meu mano encontrou nossa mãe. É claro que ele perguntou de mim.
- E hoje, como ela tá?
- Como eu te disse, tá sendo ela mesma. De riso solto e tudo mais. Nem parece que... A sacola vai rasgar, Murilo!
Depois eu passei pela entrada da cozinha para que vissem que eu estava por perto.
Não é como se eu não soubesse que estavam à espreita, observando, à disposição. Naquela hora foi até interessante de ouvir, mas, agora que o primeiro efeito evaporou e me sobraram as velhas questões, a coisa toda pesou. Não esperava que essa sensação master magnífica fosse tão volátil dessa maneira. Ao mesmo tempo, também não sabia o que esperar, afinal, é uma coisa nova e recente. E as coisas estão se assentando de um jeito diferente dos meus anseios, mesmo que não houvesse tantas referências assim para me assegurar.
Mas no aqui e agora, nesse terraço e nessa quietude confusa, imaginava que o Murilo fosse se estabanar todo pra me tranquilizar nessa, para ser positivo e tudo mais. Ele, porém, se mantém do jeito que está e, reflexivo e complacente, também revela algo.
— Tenho esse medo de vez em quando.
Isso me pega desprevenida.
— Tem?
Ele dá de ombros e, no que responde, permanece em tom ameno, sem qualquer exaltação, como quem pensa longe. Bom, eu penso.
— É, acontece. Temos altos e baixos em termos de tratamentos, principalmente quando se trata da nossa mente. Acho que isso é até esperado?
Balanço a cabeça, assimilando o que diz.
— E o que... o que você faz... quando acontece?
Ele dá uma estremecida de frio, firmando mais os braços ao corpo.
— Eu penso no meu objetivo. No que eu já fiz e no que eu tô fazendo pra chegar lá. Dá pra fazer uma série de coisas pequenas no nosso dia e isso ir acumulando... O importante é fazer, por mais idiota e minúsculo que possa parecer. Faz uma baita diferença.
Isso ecoa dentro de mim. Faz uma baita diferença.
Então o Murilo volta o rosto para o meu lado, dessa vez para me jogar uma direta.
— Já pensou sobre o teu objetivo do momento?
Fico tão surpresa que me retenho, muda.
Murilo retoma a posição anterior, de lado comigo, novamente de olho nas nuvens.
— A meta do Natal a gente já bateu. Quer dizer, reunimos as famílias numa mesma casa e teve de um tudo naquele feriado. Agora é preciso um novo sonho para se sonhar.
— Eu nem lembrava mais disso... Tipo, que isso foi uma meta de verdade. Um objetivo.
— Pensa então esses dias... Pensa sobre o que tu quer pra ti mesma. Pra poder dar passos nessa direção.
No final das contas, ele me aponta um caminho. Um que abraça esse momento. Ele ficou, ele me ouviu, ele não ficou alvoraçado. Ele não tentou demais. Murilo respeitou a sensação. Aceitou o problema para lidar com o problema. E lidou na maior paz.
Acho que é isso mesmo. Preciso de um novo sonho para sonhar e realizar.
Fazer algo que me orgulhe.
— Cadê mamãe?
Volto a mim, a nós, como se ele tivesse dado um estalo ao meu rosto.
— Acredite ou não, ela tá dormindo.
Ele se descola da parede, chocado.
— A essa hora?
— A gente dormiu bem tarde ontem, sabe... maratonando Dawson’s Creek. Eu acordei não faz muito tempo, mas mamãe levantou cedo, como de praxe. Então coloquei ela pra dormir mais um pouco.
Murilo ri, meio bestificado. Eu também não acreditei na cena que vivi, mas vivi.
— Ela resistiu?
— Pra caramba.
Ele me dá um soquinho no antebraço, com graça.
— Mas você conseguiu colocar a leoa pra dormir. Isso é um feito e tanto.
Sorrio, também meio besta, entrando na dele, porém, logo me lembro de como ele veio parar aqui no meio da manhã. Ou melhor, porque ele veio bater aqui em casa em horário de serviço – mesmo num sábado.
— Ih, Murilo. O documento.
— Vamos fingir que eu tava procurando.
Então a criatura faz que vai entrar e me puxa o pulso, pra eu desfazer os braços cruzados e seguir com ele.
— E o teu chefe?
Fico na soleira, assistindo ele folhear uma pilha de arquivos na mesa de estudos. De lá ele responde sem tirar a cara dos papéis.
— Agora eu também sou chefe, esqueceu? Um coordenador ao menos... Daí tenho alguns privilégios. Agora não levo esporro, eu que dou esporro.
Meu irmão leva ao ar umas folhas grampeadas, dando sinal de que encontrou. Ainda assim, complementa.
— Mas é esporro com responsabilidade, claro.
Murilo vai para a cozinha e vou junto para acompanhar. Aproveito quando ele pega o litro de água, também para beber.
— Os caras estão aprontando muito?
— Se eu te contar o que eles estão fazendo, tu vai achar até que é mentira. Porque agora entraram umas mulheres técnicas, então tá um alvoroço doido. Parece que esses malucos nunca viram uma mulher na vida.
No que sorrio, é por sua expressão alucinada.
— Antes era só homem no nosso setor e eles estão com dificuldade de entender isso. Ainda assim, tinha uns problemas bem doidos entre eles. Mesmo com o acompanhamento... Terapia. Mas, enfim, tô lá fazendo o que posso sobre isso, tendo que separar os gângsters, os pilantras e os safados. Acredite, são categorias diferentes. Caramba, só deu maluco na minha vez de ser coordenador.
Não à toa ele tava lendo e relendo livros sobre gestão de pessoas.
— Depois me conta, que parece ser das boas histórias.
— Separo o sorvete pra de noite pra quando vocês voltarem.
— Vocês quem? Voltarem da onde?
— Ué, o Vinícius disse que... O caso é que vou ter que ficar até um pouco mais tarde hoje. Tipo, até umas 17h e não venho almoçar. O Vini disse que ia vir buscar tu e mamãe pra ir na casa do seu Júlio. Agora não sei se era uma surpresa ou se vocês só não se falaram ainda.
— Hum. Fiquei um pouco ausente lá fora, acho. Vou ver se ele mandou mensagem.
— Beleza. Agora eu tenho que ir mesmo.
De volta à sala, acompanho ele em seu caminho à saída. Também pego meu celular no sofá. No terraço, quando Murilo saca a chave para abrir a porta outra vez, ele para um segundinho, sem se virar pra mim.
— Lena.
— Oi.
Meu mano toma um tempinho em pensamentos. Então declara, muito convicto:
— Uma sessão alivia, mas é a continuidade que realmente resolve nossas questões. Então só continua, tá?
Assinto, com mais presença.
— Tá.
~;~
- Primeiro sábado do ano. O que as minhas lindas estão fazendo?
Isso porque meu pai ligou ontem falando “primeira sexta-feira do ano”, com a mesma pergunta. Ontem, no entanto, precisei amassar um lábio no outro, sentando-me devagar de volta ao sofá, na maior cautela mesmo, pois observava o estado enervado de minha mãe. Além de se manter de braços cruzados e bem firmes ao corpo, ela detinha um profundo olhar fulminante, desses que queria fuzilar com vontade. Não eu, graças a Deus.
Esse olhar estava direcionado para a televisão. Mais precisamente, para o episódio de Dawson’s Creek que ela insistiu em assistir. Queria porque queria maratonar de novo. Com um bico do tamanho do mundo e de mandíbula travada, dona Helena queria estraçalhar um personagem que é professor – e com toda razão. Porque ele detonava e humilhava seus alunos.
- Pai, a mamãe tá espumando de raiva.
- O que seu irmão já aprontou?
Um sorrisinho me escapou, porém, mamãe e as fumaças que saíam dos ouvidos dela se viraram devagar na minha direção e eu disse logo que se tratava de uma série de televisão. Mas para o meu bem – e o dele – hoje, ela está bem serelepe, pois vamos sair para almoçar. Inclusive, ela passa por mim de toalha para responder a questão:
— Estamos nos arrumando, já que nosso agente especial vem nos buscar, para ir almoçar com a fadinha irmã dele.
Não só responde, como tira o celular da minha mão e sai andando com o aparelho, enquanto conversa algo que, pelo que tudo indica, não é para eu ouvir e acho até bom não ouvir certas conversas dos meus pais. E não falo sobre os papos sérios da semana, que eu sei que eles têm conversado, mas também estão falando de outras coisas... Só acho bonito que eles estão de bom humor assim e tento me espelhar neles.
Depois da conversa com meu irmão, me permiti focar no que ele disse. Eu penso no meu objetivo. No que eu já fiz e no que eu tô fazendo pra chegar lá. Dá pra fazer uma série de coisas pequenas no nosso dia e isso ir acumulando... O importante é fazer, por mais idiota e minúsculo que possa parecer. Faz uma baita diferença.
Tomar uma boa chuveirada me arejou bastante a cabeça. Colocar uma roupa diferente e sair para espairecer com minhas pessoas favoritas também estão nessa categoria de coisas pequenas. Quanto às coisas grandes, ainda não sei o que quero como um novo sonho. Ver meus pais animados até me faz querer manter eles perto de mim, só não sei mesmo como posso fazê-los ficarem aqui. É algo para descobrir esse ano, acho.
Uma buzina soa na porta de casa, justo do jeitinho que o namorado costuma fazer, o que me coloca de volta à realidade. Nem termino de me pentear, sigo com a toalha nos ombros e vou lá atender o Vini. Só que quando abro o portão, uma figura distinta se apresenta primeiro. E uma bem chateada, diga-se de passagem.
— Djane! Eita, chegaram bem cedo. Vamos precisar de mais uns minutinhos... Podiam ter avisado.
— Porque surpresa a gente não avisa, né.
Olho da cara do malandro, todo presunçoso enquanto checa algo no pneu, para uma Djane emburrada a minha frente. Inclusive, de braços cruzados, do jeitinho que minha mãe estava ontem: com fumaça saindo pelas orelhas.
Volto-me para o namorado, para obter alguma resposta, mas Djane faz esse favor de explicar, toda trabalhada no seu desagrado, entreolhando o filho de rabo de olho.
— Alguém aqui acha que eu preciso de babá. Como se eu não soubesse me cuidar.
— Alguém aqui só quer que a senhora não se exceda, mãe. E até parece que não gosta da Lena desse jeito. Ou da tia Helena.
Zangada, Djane se vira de lado, resmungando.
— Não estou é gostando muito de ti nesse momento.
Seguro a boca, porque não acredito eu que vivi para ver Djane falar uma coisas dessas. Fico bestinha pela discussão e ainda mais bestinha que o Vinícius tá mais do que sorridente. Ele não se afeta em nada quando chega na calçada. Pra completar, entrega logo a mãe, que, apesar de estar de lado, coloca-se praticamente de costas para nós dois.
— Acredita que ela ia trabalhar em pleno sábado – e toda machucada?
Djane se vira de volta, mas o que respondo sai entremeado ao que ela fala.
— Eu não...
— Acredito.
Seus arranhões só não estão à mostra porque ela usa uma blusa de mangas até os pulsos e uma calça jeans que vai até suas sapatilhas. Mas ainda dá pra ver uns riscos ao pescoço dela, uns tracejos já naquela fase de casquinha depois de cicatrizar. Se estivesse com os cabelos mais longos, ela teria escondido, com certeza.
Ainda mais nesse seu estado de furacão raivoso. Birrenta como ela ama ser, principalmente quando é contrariada sobre saúde e trabalho, Djane torna a se colocar virada, distante de nós. E Vinícius aproveita pra entregar mais dela.
— Depois que ficou famosa, dona Djane acha que tá podendo com umas aventuras.
Agora pedante, ela se vira mais furiosa.
— Eu não admito, Vinícius, que...
Meu Vini, no entanto, dá uma beijo estalado no rosto da mãe, pegando-a de surpresa. Logo depois, ele levanta ao ar algum chaveiro com uma chave de carro, para me entregar. Quando sussurra, mesmo entre só nós três, isso atiça ainda mais Djane.
— Tive que pegar as chaves do carro dela.
— Vocês que me esperem, viu, que depois dessa, eu vou fazer trezentas cópias dessa chave. Trezentas! Vou espalhar em tudo que é canto!
Me mantenho calada só mesmo para a fera não se virar contra mim – apesar de ela bem saber de que lado estou. Se bem que... ainda não entendi por que ela iria pra faculdade essa manhã e, pelo jeito, no meio da manhã, a ponto de o Vini ter que intervir. Essa informação nenhum dos dois solta.
— Fala sério, mãe. Da última vez que a senhora pegou as minhas chaves, eu nem chiei.
— Não chiou onde? Porque foi um parto pra te fazer voltar.
Nem digo que me delicio de ver a discussão dos dois Garra, vez que nem imaginava eu ter humor para isso nesse dia, mas do jeito que a coisa tá indo, fico assistindo mesmo e trancando um sorriso imenso.
Isso porque no outro dia até fui com mamãe para a casa deles, e eles estavam num misto de amorzinho, cuidados e bobices, dessas coisas lindas de se ver, bem o tipo de expectativa que tive quando despachei o namorado da minha casa. Mas, pelo visto, ficou um clima gostosinho até Djane decidir pegar as chaves de seu carro e ir para a faculdade hoje. Julgo? Não sei. Acho que não. Talvez faria o mesmo – o mesmo que os dois.
Pensando bem, sou só eu que fico comportada quando tô doente ou algo do tipo. O Murilo fica exigente (e bagunceiro), o Vinícius fica carente (e desajuizado) e Djane fica desatinada, querendo quebrar paredes e fugir no seu carro para o trabalho. Posso com esses três, Brasil? E eles ainda tem a audácia de reclamar de mim, tão nobre paciente.
Mas até achei que Djane demorou pra aprontar? No dia de ano, disse o Vinícius que ela só foi para a casa do seu Júlio porque eu apareci debaixo de chuva, mas que, de modo geral, estava ajuizada. Disse que até “inspirada em minha pessoa”. E não era somente porque o Renato estava lá cuidando – vigiando? – a parceira.
E sou testemunha disso também, porque quando fui lá na casa deles, Djane se manteve quieta. Inclusive, assisti o DVD do Matchbox com o Vini enquanto as nossas mães se curtiam no quarto. Não sei nem dizer se mamãe vazou informações minhas sobre certo atendimento – coisa que, no momento, prefiro acreditar que não.
Essa visita foi no dia que o Vini teve que voltar ao trabalho – então foi quinta-feira, o dia que ele amanheceu em casa. Eu e mamãe fomos desde cedo passar o dia por lá, pra fazer companhia pra Djane, já que ele iria pro serviço de tarde. Foi até bem bom, pois eu mesma precisava sair da toca em busca de novos ares.
Estava naquele clima bom de pós-sessão, de que tudo parecia possível, bem mais aberta ao mundo. Uma sessão e eu já não me sentia... destroçada. Ou despedaçada. Eu conseguia olhar ao redor e perceber as pessoas e estar presente a elas, sem me fechar.
Os fones de ouvido, por exemplo, deixei apenas por perto, sem lá grandes usos. O mp4 o mesmo. Em parte, porque nem estava chovendo tanto assim, menos ainda tem tido trovões, e, em outra parte, porque não queria mesmo me tampar toda. Queria aproveitar as pessoas e queria aproveitar meu restinho de férias. Queria, na real, aproveitar o restinho desses eventos provisórios todos. Colocar o pé no chão, literalmente e não literalmente.
E depois de passar tanto tempo em casa, eu não queria o mesmo para minha mãe. Saber e ver que ela não estava mais tão preocupada comigo, sobre como eu estava reagindo, e ela saber e ver que nada do que eu fazia era uma atuação, era tudo verdade, foi algo bem precioso. Isso permitiu que ela relaxasse e costurasse conversas sem fim com Djane. Isso também abriu um espacinho para o Vinícius e eu ficarmos mais livres. Mas não fizemos nada demais, nada além de assistir ao DVD do Matchbox Twenty.
Elas até nos pegaram dançando na sala.
Mas agora, pra Djane ficar emburrada desse jeito, e discutindo absurdamente com o Vinícius na minha porta, pra insistir em ir resolver algo da faculdade, só posso pensar que algo aconteceu. Meu Vini, no entanto, não liga esses pontos.
Pelo contrário, continua provocativo:
— A senhora ainda tá com o seu celular.
— E ai de ti – ai de vocês – se me arrancarem o celular. Além disso, Fabiano tá precisando de mim e temos muitas coisas para...
— Ele ia te mandar de volta quando a senhora pisasse lá. Foi o próprio que me disse, ele ligou antes de a gente sair de casa.
— C-comoasssssim... tu falou com ele?
Vinícius tem a coragem de dar de ombros, enquanto coloca as mãos nos bolsos da calça.
— Atendi seu telefone, só isso. Tocou, atendi. Ele também disse que vai passar lá em casa, para atualizar a senhora. Viu só? Eu teria avisado se alguém não estivesse sendo tão teimosa. Que até então estava tão responsável e cumprindo tão bem o descanso médico.
Ai, Vini, me ajuda a te ajudar, cara. Não se atiça uma leoa dessas e dessa forma.
Eu não queria nem rir.
Massss... Ele tem um ponto. Muitos pontos, na verdade, o que dá vontade de enlaçá-lo daqui mesmo (mais provável que para tirá-lo de campo do que tirar uma casquinha), mas a confusão tá tão doida que sequer me mexo, nem mais interrompo, só balanço a cabeça em negativa, descrente dessa cena. Noutros tempos, acho que imaginaria um saco de pipoca aos braços enquanto ficasse olhando de um para o outro. Me parece até uma recompensa pela briga entre irmãos que a Iara não me serviu no outro dia.
Só que Djane está mesmo mega chateada e tá difícil defender qualquer um deles.
— O que foi que mudou tão rápido, hein? Ainda tô com o seu atestado.
Djane ralha com ele, desacreditada da postura do filho.
— Vinícius!
A sogrinha está tão alucinada que a própria ficha parece não ter caído.
— Você atendeu meu telefone?!
— Pode conferir aí, ele ligou umas 10h30. E falou que vai aparecer lá pelas 9h ou 9h30 da noite, então pode sossegar que a senhora vai estar em casa a essa hora, tá? Agora entra. Anda, mãe.
Djane, no entanto, não se move um milímetro. Muito possivelmente porque seu filho querido está fazendo tudo do jeito mais trágico possível, pois, no lugar dela, se fosse o Murilo, eu faria pior. Claro, em outros tempos. Dessas brigas já nos livramos, ou assim espero. Temos novos acordos justo para não ter desgastes desse jeito.
Diante do cenário, Vinícius resmunga, outra vez provocativo. O pior é que, mesmo falando sério em todas essas coisas, ele fala rindo, o sacana!
Não à toa Djane esteja sendo a teimosa. Nesse ponto, ela tem esse direito.
— Se fosse há um ano, a senhora estaria flu-tu-an-do com isso tudo. Queria minha atenção e agora tem minha atenção. Aproveite. E aproveite os cookies da dona Bia.
Não acredito eu que ele jogou essa, não a-cre-di-to!
Djane só bufa, sem se mexer, claro.
— É sério que vocês querem me convencer com cookies? Eu não sou o Fabiano. E para o caso de não terem me ouvido, eu tenho muitas coisas para resolver.
— Segunda, a senhora resolve na segunda.
Vendo que a situação não vai pra frente e nem pra trás, resolvo intervir. É o jeito. Até porque quem ousa dizer um A sobre os cookies da dona Bia na minha frente, vai levar uma chamada de atenção sim.
— Olha, eu não sabia que a senhora era da blasfêmia, Djane. Não se fala assim dos cookies da dona Bia não. Que bom que ela não veio hoje pra ouvir um dessas. Massss... ao contrário de certas pessoas, que não sabem negociar, eu tenho uma proposta bem melhor pra fazer: liga pro Fabiano pra confirmar a história e a senhora mesmo diz que hora vocês podem se encontrar. Poderia ser, inclusive, na casa do seu Júlio, sem problema nenhum. Se for assim, né, algo urgente.
Djane não só suaviza, como faz uma cara debochada pro filho, o que me faz querer gargalhar com sua postura – e seguro o riso com todas as minhas forças – e me faz sentir estar no lugar certo com as pessoas certas. Minha cabeça não está de todo ok, porém, eles fazem ficar ok de novo. Mesmo com confusões na porta de minha casa.
— Djane, querida! O que voc... O que estão fazendo aí fora?
Mamãe aparece já vestida e assim Djane passa por mim de bom grado, já anunciando a morte de certo cidadão.
— Helena do céu, você não vai acreditar no que o Vinícius acabou de fazer comigo!
Quando elas enfim entram dentro de casa, Vinícius ri um riso de “tô lascado” e me puxa mais para a calçada.
— E aí, devo ter medo?
— Nada, tá seguro comigo. Só se manter pertinho, assim.
Seguro ele pela barra da camisa e rio boba, fazendo graça e certa antecipação. Mas o Vinícius não curte essa enrolação e vem logo me tomando a boca, beijando-me com gosto, com vontade e com eletricidades. Logo me envolve e me segura pelo torso e sorri animado, mas quando me solto dele, ele ousa falar da minha jogada.
— Pensei que tava no meu time, amor.
— Posso muito bem jogar dos dois lados... A questão é o objetivo. E tu, bonitinho... Tu te entrega demais, caramba! Precisa calibrar mais isso se quer convencer Djane de algo. Viu só? Ainda te ajudo. Muito bondosa sou eu.
Jogo o cabelo de lado, nada presunçosa.
— Ainda bem que tô seguro contigo, né, ainda bem.
Ele só desdenha porque não é maluco o suficiente de ficar fora do meu time.
— Tu quer mesmo ir por esses lados? Com dois touros vingativos naquela sala?
— Não tá mais aqui quem falou. Só quem te beijou e quer mais desse beijo.
— Viu só? A questão é o objetivo.
Falo divertida, mas aceito a minha direta como indireta direta pra mim. O objetivo, tudo é o objetivo.
Preciso eu descobrir o meu objetivo.
Para dar passos nessa direção.
Fale com o autor