Notas iniciais
Para quem shipa/torce por Milena & Vinícius... e gosta de uma dose de Murilo.
E Hoobastank!

Na manhã seguinte, acordo bem melhor, com disposição. Não queria mais ter que pensar no que estava por vir, a conversa com Flávia pela noite – e madrugada – foi bem esclarecedora para ambas. Além de desabafar e tirar um pouco do peso das preocupações, eu estava me sentindo melhor por não ser a única “gaiata” que acabou caindo nessa história.

Quando meu irmão me disse que Vinícius viria me buscar, no meio da nossa pequena discussão, eu realmente não pensei sobre. Antes de dormir ele me enviou uma mensagem perguntando se estava bem e que iria parecer umas 9h. Respondi que sim, que não precisava se preocupar e que também não havia necessidade de ele se deslocar e fazer um caminho bem diferente do que de seu trabalho. Não sei por que ainda tentei, sabendo que ele usaria a mesma desculpa do meu irmão: segurança. Mas claro, apelou um pouco mais, sabendo que só ele poderia deter o argumento de que estar comigo valia mais a pena. Agradeci mentalmente por ele não ter me ligado, pois ouvir sua voz poderia entregar um pouco do que eu estava sentindo no momento. Não era uma boa hora para dividir com ele ainda.

Dito e feito, 9h ele estava na porta. De roupa casual, camisa escura, jeans e tênis, esperando-me encostado na porta do motorista. Eu devia estar feliz, não? Não estava, isso quer dizer que eu estava o atrapalhando no serviço e não era algo que eu poderia gostar – ok, confesso, ele estava lindo, mas eu não queria me deixar levar pelas emoções. Flávia vive falando desse meu lado muito pensante, muito racional, que num me deixa por vezes relaxar.

Antes que ele se abaixasse e me desse um beijo, que deixa em evidência meu tamanho mediano, não baixa e nem alta para ele, consigo pará-lo e deixá-lo na antecipação. Com seu muxoxo, rio um pouco descontraída por ser aninhada por ele, antes de começar meu suposto interrogatório.

– Não me diz que hoje vai trabalhar à paisana.

– Não, não vou trabalhar hoje.

– Por que não?

– Consegui uma folga.

– Me diz que não foi por minha causa.

– E se eu disser?

– Vini!

– O quê? Não tenho visitas imobiliárias hoje, nenhum cliente marcou algo, eu só ia ficar com umas papeladas... isso eu posso arrumar depois.

– É que isso me deixa numa má situaç...

É difícil ter que articular algo quando a pessoa acaba te distraindo com lábios nos seus, numa conversa interrompida e beijo roubado. Essas coisas não dá pra negar, só se entregar, porque da mesma forma que ele quer, eu quero. Garoto esperto.

– Vini... Vini...

Eu tentava, ele sempre me ocupava. Mas uma hora eu consegui! Tive que intervir com a mão como na outra noite senão não sairíamos dali, plena rua, em frente à casa da minha amiga. Que falta de respeito! Tá, eu adorava...

– O que? Não posso beijar... minha namorada?

Fala divertido entre meus dedos, sua respiração inconstante batendo em minha mão, com aquela inflexão de voz tão característica dele. Será que é assim que ele convence seus clientes? É esse seu poder de persuasão que tanto fala? Ou é ou são as palavras por ele escolhidas que se aproveita para me amolecer. Acho que ele anda me estudando, porque sinto que ele faz de propósito, de não apenas me fazer feliz.

– Namorada? Que novidade é essa que não estou sabendo?

Faço draminha, claro, adoro um. Logo ele entra no meu jogo. Com uma carinha bem sacana ele segura meu queixo com seu polegar e indicador, aproximando nossas faces dando impressão que iria me convencer com seus lábios, mas acaba por encostar nossas testas, ainda mexendo comigo, abusando do seu tom persuasivo. Preciso dizer que sua atuação de transtornado era a mais linda?

– Como assim MINHA namorada não sabe que é MINHA namorada? O que houve com o implícito?

– Eu diria que é muito subjetivo. Nunca se sabe o que o implícito pode deixar no ar. Brincar com o implícito é perigoso.

– Não, perigoso é ter minha namorada duvidando de minhas intenções. Pois agora sabe, namorada, és minha.

Ele afaga meu rosto bem rente ao dele, fazendo cada palavra tomar seu sentido, cada pelinho do meu braço arrepiar-se e cada batida do meu coração se tornar cada vez mais impossível de contar com tanta movimentação dentro de mim. Mas pra mim o jogo ainda não tinha acabado:

– Isso costuma ser um pedido. Como que agora virou uma declaração tão... afirmativa?

– Para não dar margem de fugas a minha namorada que adora me enrolar e me deixar ansioso antes de beijá-la, né, namorada?

– Afirmativo, namorad...

Mas ele não me deixa mais terminar minhas sentenças!

Quem liga mesmo? Eu o tinha, a felicidade nos cobria cada vez mais, traçada por lábios tão ambiciosos e ansiosos. Ele, ainda encostado ao carro, me puxa cada vez mais a ele, como se fosse possível nos unir mais ainda. Não sabe ele que dois corpos não podem cobrir o mesmo espaço? Física devia ser uma de suas disciplinas na faculdade de arquitetura, não? Ou é matemática? Por que que eu tô pensando nisso mesmo?

Minha empolgação dá uma retesada ao ouvir a partida de uma moto. Como um baque no estômago, eu paro, mas para Vini é como se eu ainda estivesse brincando, assim ele demora a assimilar, ainda me dando provas de seu beijo. Se é ou não é a ruiva, eu não olho, só tenho foco para a pessoa que me tem nos braços, porque era ele que me daria a segurança. Mas não deixo de pensar que... Putz, vou ficar na paranoia a cada vez que ouvir ou ver uma moto?

– Vini... temos que conversar.

– Mas já vamos engatar uma DR?

– Não, é sério.

– Que tal irmos a um restaurante e esperar a hora do almoço?

– Acho melhor... melhor irmos para casa.

– Por que eu não estou gostando dessa sua carinha?

– Porque sabe que não vai conseguir nada de mim até conversamos. Bora.

Olha, uma coisa difícil é se desvencilhar dele. Seja consciente, seja inconsciente, já tive experiências em ambos os casos. Sempre me arranca risos de sua atitude, e não é do seu charme, é das minhas comprovações mesmo. Deixo que pense o que quer que esteja pensando, porque seu sorriso vitorioso é algo que gosto de ver brilhando no seu rosto.


~;~


Dona Bia sai logo que chegamos, às pressas para o mercadinho da esquina, pois ao que ela consegue nos dizer é que houve um problema na cozinha, mas que tudo estava sobre controle, foi apenas uma das bocas do fogão que parecia estar descontrolado e tinha prejudicado o assado que ela preparava. Prometeu logo voltar e, aproveitando estar na rua, iria consultar um cara da outra rua que conserta aparelhos eletrodomésticos. Digo-lhe que não precisava ter tanta pressa quanto ao almoço para se acalmar mais.

Ao chegar à sala, deixo minhas chaves em cima do móvel da TV, coloco a bolsa transversal na mesa e me viro para Vini que me observava da porta. Ele tentou arrancar de mim pelo caminho de casa o assunto, achando que meu suspense era brincadeira. O ruim de sempre estar brincando é esse, pois quando a coisa fica feia, as pessoas demoram a acreditar. Sento no sofá sobre uma perna e o convido para sentar-se ao meu lado.

– Agora vai me contar?

Balanço a cabeça em confirmação, quieta procurando pelas palavras certas. Muita muita calma nessa hora... bom, diz isso pra minha ansiedade gritando do estômago! Fica bem difícil falar qualquer coisa com toda a atenção virada a mim e esse silêncio na casa.

– Então... eu queria saber como você está em relação ao... ao Filipe.

– Como assim?

– Os dias estão passando, Vini. Não dá pra fugir, você sabe. Todos nós sabemos o que ele quer. Você é a chave.

Sentado de lado também, estamos praticamente frente a frente, apoiados numas almofadas pequenas que compõem o conjunto do sofá. Uma dessas deixo uma deitada no meu colo e pego a mão dele como sinal de que estaria o apoiando. Porém, sem vontade alguma, ele retruca só porque tem que retrucar, bufa antes de responder, contrariado:

– Eu não quero ser essa chave.

Seguro forte sua mão, quero que sinta a minha preocupação em relação ao descaso dele quanto ao assunto. Ele mantém um olhar baixo e travado para nossas mãos unidas, deitadas sobre a almofada, sendo seu desagrado a grande marca de sua expressão.

– Também não quero ser a mensageira, mas estou nesse papel. Só você pode... pode acabar com isso. E só porque a poeira baixou, não quer dizer que as coisas foram resolvidas. Agora que você sabe tudo, o jeito é levar em frente.

Comprime seus lábios numa linha antes de mostrar o aborrecimento que começava por eu tratar do assunto. Mas eu tinha que tratar, oras! Fugir estava fora de questão, como outras vezes eu havia falado. Eu não ia desistir também. Num piscar de olhos, ele me deixa como centro de atenção. Sua outra mão alcança meu rosto, enquanto levanta melhor o dele para me encontrar, não mais cabisbaixo. Pra mim também não estava sendo nada fácil, é uma visão que definitivamente não me agrada, tornando cada vez mais tenso e complicado de lidar. Com um carinho ele tenta me dissuadir.

– Por favor, Milena, não... não vamos começar.

Toco sua mão no meu rosto com a minha outra livre para que não tente me distrair, o assunto é sério demais para que eu simplesmente deixe pra lá. Não estava lhe desprezando, não, quero que veja que não era hora para um toque terno e que, por me importar de verdade com ele, devia dar mais atenção ao que eu lhe dizia.

– Mas eu tenho, Vini, porque se depender de você, vai deixar pra trás. Ele deixou claro na segunda que não vai desistir e você o conhece bem mais que eu o familiar que tem.

A simples menção referencial carregada na palavra “familiar”, a que encontrei ser a mais apropriada para não ter que citar pai ou tio, age em conjunto com a comparação que faço, pelo fato dele conhecer bem mais a figura que eu, fazendo com que ele tente mais uma vez se esquivar num comentário displicente, que quer por que quer ignorar a conversa. Por que me deixar em maus lençóis também? Eu só quero conversar, ver o que ele tem em mente sobre tudo isso. As coisas aconteceram tão rápidas que até então não havia dado tempo de parar, sentar e discutir o assunto.

– Por que que quando as coisas pareciam ficar boas você tinha que falar nisso?

Também pareceu um lamento, quase sussurrado. A vontade que cresce em mim é de ter minhas mãos no seu rosto para trazer a mim e convencê-lo de vez. No entanto, sei no fundo que se o fizesse, estaria dando abertura para que me distraísse e meu esforço seria em vão.

– Porque se não for eu, quem será?

– Eu... eu não quero falar disso ainda.

Um novo escape é pelo que procura seu aspecto chateado. Até fecha os olhos, a respiração quase bufante marcando sua indignação. E eu? Eu também fico chateada por ele tentar a todo custo me evitar com essa discussão. Espero de verdade não estar querendo exigir muito dele, mas uma conversa, nem isso ele me cede? Ele vai esperar por um tapa na cara para poder reagir?

– Então quando? Fugir agora, fugir depois, depois e depois... quando você vai estar preparado se nem conversar sobre isso você aceita?

– Eu... eu...

Ele começa a mostrar sua insegurança, estava deixando de segurar a parede que havia se agarrado para desviar-se do tópico. Perdido nas ideias, acho que o melhor que posso fazer é resgatar o que havia lhe omitido no dia anterior, emendando na conversa outro tópico relacionado, aproveitando de seu momento mais quieto. Mesmo de olhos fechados, a inquietação de seu corpo me transmite seu desconforto.

– Além do mais, tenho que te falar uma coisa... que aconteceu.

Pequena sentença diferencial. Abre os olhos para mim e seu timbre deixa o lamento para articular algo mais sério, preocupado. Sua fronte é tomada por linhas que deixam em evidência aquela sobrancelha receosa:

– O que? Ele voltou a te procurar?

Antes mesmo de pensar a respeito, me permito falar de acordo com o que me vem à cabeça, tomando claro uns cuidados básicos, quase eufêmicos, para amortecer a “notícia”. Pra mim é muito importante que me ouça e não se altere.

– Bom, ele me ligou, pedindo para nos encontrarmos. Claro que dispensei, só que... lembra quando ele tinha dito que tinha me vigiado, me seguido e tal? Eu perguntei pra ele como ele faria se eu tivesse saído pelo outro lado e ele me disse que tinha deixado um vigia. Confesso que não botei muita fé nisso, achei que era o maior blefe... e me enganei. Descobri que há, de fato, uma vigia. Flávia a reconheceu, a viu na segunda no estacionamento de trás observando o local, a viu na terça quando estávamos na danceteria e ontem... ontem essa pessoa conversou comigo. Quer dizer, fingiu pedir uma informação qualquer e Flávia se lembrou dela. Na ligação ele mencionou que sabe que estamos juntos...

– Quando foi isso?

– Eu a vi ontem na hora de entrar na faculdade.

– Me referi à ligação.

– Ah, não importa.

Tento não dar importância mesmo para não ter que falar que foi em uma hora que ele estava quase ao meu lado. Isso pode parecer que não tive confiança nele ou algo assim, o que não foi. Eu queria pensar a respeito antes, saber como abordá-lo, para que pudesse mencionar de uma forma que não o deixasse preocupado. Talvez foi esse detalhe de querer deixar passar que ele notou mais, pois é nele que insiste:

– Quando?

– Ontem, antes do almoço. Naquela hora que você disse que meu celular estava tocando... Era ele.

– Por que não me falou?

– Ai, Vini, tanta coisa. Sério, não se atenha a isso, é besteira.

– Tão besteira que me escondeu.

– Tão besteira que achei irrelevante na hora. Tô contando agora, não? Quer que eu pare, eu paro, mas saiba que também não vou deixar de lado.

Com essa me solto de suas mãos, tiro a almofada de cima do colo, levanto aborrecida por não me fazer entender e o deixo sozinho no sofá. Ele bem tenta me chamar de volta. Meu quarto agora parecia o melhor lugar para me ater a meus pensamentos. Ele precisava colocar as ideias no lugar, tinha pelo menos deixado a pulga lá para se questionar quanto a seu comportamento, pois agora sozinho ele teria pensamentos demais para organizar. E só ele pode o fazer.

Ainda assim ele segue meus passos, mesmo que não lhe dê atenção. Quando vou fechar a porta do meu quarto, ele coloca a mão impedindo-me, porém até sua expressão não sabe o que me dizer, não proferindo mais que um “espera”. Espera o quê? Balanço a cabeça leve e ouço ao longe dona Bia chegar mexendo na porta e gritar que o almoço está a salvo. Só que para mim realmente estava longe, mais longe do que nossa distância real de metros pela casa, meu eu em estado pensativo. Dou uma olhadela para o lado para o caso de ver dona Bia, mas não a vendo, lanço um último olhar já também sem muita expressão a ele e murmuro um “converse consigo mesmo primeiro” antes de fechar a porta em cima dele.

Praticamente debruçada sobre minha porta, segurando-a como se pudesse senti-lo se ele pudesse me tocar através dela. De testa encostada nela, cabisbaixa, dá para ver que ele ainda estava ali na porta, a sombra vinha pela fresta da porta embaixo. Viro a chave para que tranque, aumentando ainda mais nossas distâncias. Um leve tremor a atingiu, que imagino ter sido num acesso de frustração ele ter batido nela, mão aberta mão fechada não sei dizer, só pude ouvir um último murmuro de “droga” antes de ele sair dali.


~;~


Se se passou um minuto, dois, vinte, sessenta, mil, eu não soube conferir. Perdida em questão de tempo procurei esvaziar a cabeça e não ficar chateada mais com o que houve mais cedo. Deitada fiquei o tempo todo longe dele, abraçando uma almofada como geralmente a chateação nos pede para acalmar os sentimentos.

Tempo mesmo só fui me perguntar quando ele fez toc-toc na porta e chamou-me pelo nome, em uma voz fraca. Isso me doía de fazer, só me vinha na cabeça dizer que era necessário, uma porra de mal necessário que o deixava em agonia e me levava junto. Ele insistia, batia levemente à porta, pedindo para conversar. Aquela necessidade de cuidar dele, de tirar suas dores me iça para atender, porém a razão me confronta ainda dizendo-me para ir com calma caso fosse, ele tinha que vê por ele mesmo o que estava fazendo, não depender de mim para que fizesse as coisas.

Isso não seria companheirismo, eu não queria ser um refugio, apenas um apoio, não, estaria ao seu lado, mas não abdicaria do que acredito só por ele não concordar. Ainda era sua amiga e conselheira, discutir pontos era a essência do nosso dinamismo, importante para qualquer construção de pensamento por ter dois pontos de vista em contraposição.

Ao desvirar a chave, diminuindo nosso obstáculo de estar mais próximos, torço para que tenha pensado melhor, não só de mim, mas que tenha abarcado toda essa situação em que fora arrastado. Eu era um intermédio que, por ter sentimentos demais em relação a ele, acabei por distrai-lo em sua recuperação. Que foi bom, foi, é, mas toda essa perseguição em cima de nós não vai parar simplesmente porque nos entendemos, eu não tenho esse poder. Só ele não quer aceitar que ele em si é a chave da situação, o centro, o porquê de tudo ter começado. Não que fosse culpa sua, claro, mas o grande motivo pelo qual seus pais entraram em guerra.

Não abri a porta. Após destrancar, voltei a minha cama e posição antiga. Não estava mais com as roupas de ontem, havia trocado por camiseta e short folgados, por causa do leve calor que tomava o ambiente. Pelo meu senso comum não iria mais chover e nem frio mais fazia, estava bem ameno e nem tão nublado como no dia anterior, o sol conseguia alcançar mais que as nuvens e sua luz adentrava meu quarto pelas frestas da minha janela, clareando um pouco o espaço.

Percebendo que não iria abrir a porta e que estava então destrancada, faz ele mesmo com calma. De onde eu estava, no meu lado da cama, tinha a visão bem privilegiada por ter frente a frente comigo sua entrada. O que me salva é olhar para a porta, literalmente a porta, pois mirar ele seria praticamente uma derrota, já que o que batia dentro de mim doía sem mesmo o ver.

De periférica, ainda sinto sua frustração e indignação, fecha a porta e caminha para minha cama, estudando-me, sondando-me, queimando-me com um simples fitar fixo num pedido mudo de ter minha atenção direta também. Resisti por muito, até que não aguentei e de fim, fitei-o de volta. Acho que ele aceitou isso como uma passagem, pois só então se sentou na beirada da cama, ainda afastado de mim. Eu estava estirada ao longo do leito, apoiada na cabeça por dois travesseiros que me deixavam relativamente elevada, abraçada a almofada macia, apertando-a em receio do que havia de vir.


Trilha indicada: Hoobastank – Disappear

http://www.youtube.com/watch?v=FoP-Vjcfxu0


There's a pain that sleeps inside

It sleeps with just one eye

And awakens the moment that you leave

Though I try to look away

The pain it still remains

Only leaving when you're next to me

Do you know that everytime you're near

Everybody else seems far away?

So can you come and make them disappear?

Make them disappear and we can stay

Existe uma dor que dorme dentro de mim

Que dorme só com um olho aberto

E acorda no instante em que você vai embora

Apesar de eu tentar me distrair

A dor permanece

E só desaparece quando você está perto de mim

Você sabia que toda vez que você está por perto

Todos parecem estar tão distantes?

Então, você poderia vir e fazê-los desaparecer?

Faça-os desaparecer e nós poderemos ficar juntos


– Isso é tão... difícil para mim. Eu não quero te perder só porque não quero me envolver com esse problema. Não queria ter que te magoar com isso, pela aversão que sinto deles, pois é o que sinto por eles, indignado por tudo que me fizeram... e como dizem por aí, o incomodado que se retire, assim eu me retirei da vida deles, não merecem nada vindo de mim, ao contrário de você, que agora... agora é minha pouca esperança que me resta.

Meus olhos se enchem e sinto um leve tremelicar em meus lábios, me fazendo respirar fundo para não chorar ali. Eu não quero ser seu centro, que ele pense assim, não quero que se afaste de tudo, que faça as coisas por mim... Meu Deus, sou muito idiota por pensar isso? Não é o que a maioria das mulheres alega, reclama, pede ao Senhor para que abra os olhos daqueles que elas amam para ter isso? Sou tão louca, retardada, de ter justamente isso e não o querer? Isso me torna uma pessoa ruim? Felizmente ainda há controle de minha voz.

– É difícil para mim também, pois não quero que pense em mim tanto para o que quer que seja quanto ao que vais fazer em relação a eles, se me magoa ou não. Não quero que me tenha como refúgio, em quem pode se amparar, mesmo que eu lhe ofereça isso. Se não sabe o que acho que merecem de você, é porque não me tem dado oportunidade de dizê-lo. Convencer não é meu propósito, é fazer você ver que de fim, haverá bem maior e melhor se você enfrentar essa dor que vai lhe corroer. Se exijo demais de sua recuperação é por me preocupar em você ignorar tudo isso que te espera.


So I stand and look around

Distracted by the sounds

Of everyone and everything I see

And I search through every face

Without a single trace of the person

The person that I need

Do you know that everytime you're near

Everybody else seems far away?

So can you come and make them disappear?

Make them disappear and we can stay

Então eu fico de pé e olho ao redor

Distraído pelos sons

De todos e de tudo o que eu vejo

E eu procuro em todos os rostos

Mas não consigo achar rastros

Da pessoa de que eu preciso

Você sabia que toda vez que você está por perto

Todos parecem estar distantes?

Então, você poderia vir e fazê-los desaparecer?

Faça-os desaparecer e nós poderemos ficar juntos


Ele se aproxima de mim, arrastado pela cama, repuxando a colcha num franzido que o trás para mim, ansiosa pelo que viria a me dizer. Aquele quente, meio mal-estar, descia do pescoço ao meu tronco, sempre chegando ao meu estômago, que me grita para que pare.

Mas a sensação não para, cresce e ganha novos efeitos quando ele me toca no rosto, abaixando em mim o quanto seu corpo consegue da posição que se encontra. Suas palavras são firmes, apesar de às vezes parecer meio perdido de me falar, de não saber como se expressar:

– Lena, não tem como não pensar em você... não se faça por menor em relação a tudo isso. Te quero demais para lhe magoar, me dói demais por... por tudo que vem acontecendo, que te atinge para chegar a mim. Isso me dá mais raiva dele, dela que também tem um pouco de você e ganha seu respeito não sei como.

– Não quero que esqueça, Vini. Que eu tenha que te lembrar toda hora, porque pra mim também custa, mas o faço justamente por não saber se realmente você vai se comprometer... e o caso é você, não eu.

Presos naquela nossa bolha, ele me toma o rosto em ambas as mãos, para, resoluto, fazer-me ver o que lhe é importante. Só que sei disso e sua força de expressão não deixa de mexer comigo.

– Mas é você que me interessa.

– Eu sei. Quero que pense em outras coisas também. Só por ter sentimentos por mim que não faça esforço por mim, entende? Quero que faça isso por você, que... enfim, supere isso.


Can you make them disappear?

Make them disappear...

Whoa

Você poderia fazê-los desaparecer?

Faça-os desaparecer...

Whoa


Por um segundo ou dois, ele só me olhou. Quis ler o que nos seus estava escrito, porém os fechou e em mim se concentrou em mostrar o que com palavras ele não estava conseguindo acredito. Com um significativo beijo, de começo suave, ele parecia me relatar em textura o arrependimento que lhe afligia. Se pareço ultrarromântica em descrevê-lo assim, não me importo, pois era meu âmago que interpretava e, se tratando de sofrimento, não era um grande risco de expressão imagino.


There's a pain that sleeps inside

It sleeps with just one eye

And awakens the moment that you leave

And I search through every face

Without a single trace

Of the person, the person that I need

Do you know that everytime you're near

Everybody else seems far away?

So can you come and make them disappear?

Make them disappear and we can stay

Existe uma dor que dorme dentro de mim

Que dorme só com um olho aberto

E acorda no instante em que você vai embora

E eu procuro em todos os rostos

Mas não consigo achar rastros

Da pessoa, da pessoa de que eu preciso

Você sabia que toda vez que você está por perto

Todos parecem estar distantes?

Então, você poderia vir e fazê-los desaparecer?

Faça-os desaparecer e nós poderemos ficar juntos


Pensei que seria um relato mais profundo, porém, ele mesmo o pausa, deixando em mim uma vontade maior de continuação. Entendo então que ele precisava daquilo. Ainda rente a mim, tão próximo que suas palavras chegam numa expiração de ar a tocar-me, indica-me seu temor maior, o que lhe angustiava. Ele fracassava por tentar afastar-se do assunto principal:

– Por que não posso ser feliz só com você? Por que não consigo fazer que desapareçam?

Sua voz me dizia muito, o bastante para interpretar. Mantenho meus olhos fechados, assim como ele mantém as mãos firmes em minha face. As sensações me cobriam por demais para sequer abrir uma fresta de olho.

– Porque tudo depende de você para que desapareçam, não cabe a mim.

Ele ri um sorriso nervoso, inquieto, fechado.

– Por que não você? Você tem poder mais que eu.

– Engana-se. Se por um segundo que eu pareça conseguir isso, eu não vou te dar a liberdade e a felicidade completa. Seria ilusão.

– Você não é ilusão. Mais real que isso, não pode ser.

E me toma mais uma vez em si, sem urgência ou força, colocando em evidência o sentir, mostrar o real, comprovar seu ponto. Mas eu... eu tinha o contraponto perfeito para encerrar sua insistência.

– Se não consigo tirar meu irmão do meu pé, quem dirá resolver algo que não depende de mim.

Pelo menos para isso meu irmão soube fazer um bom trabalho, ser tão pentelho que me coube usá-lo como objeção genial. Isso pôde arrancar de nós um riso baixo e sincero, sabendo por dentro que ali ele estava começando a aceitar a ideia, que dois, três, cinco passos já era o começo desse longo caminho, e mesmo que seja demorado, tínhamos um ao outro para amenizar os efeitos.

Em minha cabeça começava a armar o itinerário de como recomeçar a abordagem. No entanto, o que mal começo se perde quando um ser lá de fora grita em energia sua entrada, causando em nós, entretidos, uma separação bem repentina:

– CHEGUEI, FAMÍLIA.

E a tensão pós-susto recomeça.

Notas finais
Murilo é uma peste e adora roubar uma cena. É já que ele apronta.