Notas iniciais
Não disse que Murilo ia aprontar uma? Mas não é ele quem rouba a cena como queria. Filipe. E escolheu um ~bom~ #not dia para isso.

Enjoy.

– Onde você encontrou esse colírio? Faz tempos que procuro por ele.

– Vi na cozinha antes de sair.

Murilo diz na maior naturalidade, após me jogar o tubinho pelo qual tanto procurei nos últimos dias, vasculhei nas bolsas, cacei no meu quarto, busquei a última lembrança de ter usado e nada. Estava na cozinha. Menor ideia de como foi parar lá.

Às vezes me dá vontade de entrar na cabeça do meu irmão ou tirar o cérebro dele para ver como funciona, como sua imaginação e planos “mirabolantes” são construídos. Até os que Kenan arquitetava no programa “Kenan e Kel” eram mais bem elaborados, apesar dos grandes riscos, como estar do lado do Kel. Quando Murilo me propõe inventar um choro, penso ser brincadeira, mas quando me lança o colírio, a dúvida do quanto esse menino bate bem da cabeça é a questão principal da minha por uns segundos. Ele estava exagerando no meu “papel”.

Na sala adjacente de seu departamento no centro de meteorologia da cidade, estamos apenas nós dois – Vinícius até quis vir para ver meu show de atuação, mas uma emergência com uns documentos o levou para o escritório da firma imobiliária aos resmungos em má-vontade. Ainda bem que assim foi, porque eu não queria pagar esse mico na frente dele de jeito nenhum, daria um jeito de empurrá-lo para o trabalho. Só aceitei fazer porque ver meu irmão apaixonadinho é uma graça e, de acordo com aquela expressão popular “ajoelhou, agora reza”, como eu “ajoelhei” ao contar a história de que mostrar que cuidar de irmãs é uma boa imagem para as mulheres, ele quis que eu provasse, “rezasse”, o meu ponto. Além de ele me creditar um favor, claro.

Eu precisava de créditos com ele na verdade. Ainda desconfiado do que rola entre mim e Vinícius, ele faz questão de nos manter separados. Quando chegou em casa para o almoço, rapidamente levantei da cama, repuxei a colcha para voltar às normalidades, e fingi estar procurando algo na minha estante de livros, tendo minha agenda em mãos como se estivesse ocupada. Vini continuou na cama, sentado na beirada, mas encostado no apoio de trás, uma perna dobrada em cima e a outra apoiada no chão. Na correria de mudar o clima pela entrada do meu irmão em casa, me esqueci de guiá-lo quanto ao seu disfarce, deixando-o por conta própria em seu papel.

Murilo logo apareceu na porta, olhou de mim para Vini e não fez uma cara tão boa, como se Vini estivesse muito íntimo no meu quarto, e eu confortável demais de tê-lo ali. Perguntou o que fazíamos e respondi que estávamos discutindo enquanto eu arrumava uma ala da minha estante. Perguntou então sobre a discussão, que foi quando Vini abaixou a cabeça mostrando-se indignado, o que eu não soube interpretar de primeira se era atuação ou se de fato ele ainda sentia aquilo. Era melhor que fosse só atuação. Assim, com calma, eu lhe respondi que tinha algo para conversar com ele, mas que fosse só depois do almoço, pois estava com fome – mentira – e que seria melhor conversar com calma se tivesse algo no estômago – ah, isso era bem verdade.

Ele retrucou que tinha algo para falar também. Imaginei que fosse sobre a discussão de ontem quando liguei avisando que ia ficar na casa da minha amiga e ele não tinha aceitado. Só poderia ser isso, né? Bom, se isso fosse quem sabe eu não estaria no centro de meteorologia fazendo um palco para meu teatro. Fomos almoçar então. Quer dizer, Murilo disse para Vini ir primeiro e eu terminei de ajeitar os livros que tinha remexido. Meu irmão tinha aquela postura desconfiada, me olhando e analisando a situação de acordo com seu ritmo, processando o que tinha presenciado. Antes de sair do meu quarto, ele questiona sobre minha roupa, que era muito “mini” e íntima para a presença de um cara ali.

Claro que revirei os olhos para ele – e agradeci mentalmente por Vini não ter escutado essa – soltei um “fala sério” bem jocoso e tentei sair do quarto de boa. Isso mesmo, eu tentei... Ele me fez voltar e colocar a calça-moletom do pijama por cima do meu short, puxando de debaixo de meu travesseiro, para parecer mais “decente”, principalmente sendo o hóspede homem e ele não queria ninguém me olhando demais. Mas só aceitei a calça.

Na mesa de almoço, ele fez questão de mostrar nossos lugares, pegou nossos pratos e tudo. A mesa era retangular, com dois lugares no comprimento maior e um no outro. Ele me fez ficar na cabeceira e, como seguindo uma reta, ele ficou ao meu lado e no outro canto, Vini. Quando dona Bia anunciou que estava tudo no ponto e se virou nos encontrando tão bem “postados”, ela nos lançou um olhar divertido muito curioso. Meu irmão, perdido, interroga a mulher, que embroma uma desculpa qualquer – é, ela piscou pra mim e tudo – dizendo que era difícil pegar os três de uma só vez para o almoço.

De papo descontraído dona Bia contava-nos o que tinha acontecido, a boca do fogão estava com um problema, o qual já havia marcado com o cara que conserta eletrodomésticos para ir mais tarde verificar o caso. O assado de panela ela teve que refazer às pressas, para garantir o almoço. Murilo confirma deixar umas notas para o conserto e as coisas só fluíam.

Ao término, puxei meu irmão para a sala, mais precisamente o sofá. O sofá era já grande sinal de más notícias pra mim, sugerindo algo acolhedor para amenizar o que viria a ser contado. Vini ficou na poltrona e eu do lado do meu irmão.

– Sim, o que era a discussão mesmo?

Ele parecia ter esquecido que tinha gritado comigo horas antes. Deu até vontade de dizer “nada não” só pra não levantar o assunto novamente. No entanto, saberia que eu mesma não fizesse, Vini o faria, agora que eles se juntaram para me “proteger”. Eu sabia me defender, era a personagem rosa do Power Rangers, que todo mundo acha que é indefesa e delicada, mas na hora do “vamo-ver”, descia o braço em todos os bonecos molambentos. Filipe já foi vitimado por mim. Mesmo um pouco sobressaltada pela atitude meio exagerada do tio, eu não queria guardas, queria companheiros de luta. Dizer isso para eles que ainda pensava como...

– Filipe.

– O quê que esse canalha fez dessa vez? Ele tentou algo mais?

Murilo levantou-se de vez, cerrando os punhos para enfatizar sua raiva. Ah sim, sua raiva tinha voltado. Proferir nome desse cara é meio que pedir por isso.

– Ele... me ligou. Queria me encontrar.

– Cara-de-pau. Você não aceitou, aceitou? Era com ele que estava ontem à noite? Tá mentindo pra mim, Milena? Diz!

– Credo, e eu lá ia sair com o cara? Pelamor, né! Claro que não.

Vinícius não interferiu, ficou na dele. Talvez achasse que era coisa de irmãos. Murilo diminuiu sua agitação e sentou-se novamente, aquela cara de “é bom mesmo”.

– Hum.

– O fato é que... ele deixou bem claro que tem me vigiado. Quer dizer, não exatamente ele.

– Como assim? O que quer dizer com “não exatamente ele”?

– Ele bem falou na segunda que havia deixado um vigia na faculdade. E a Flávia comentou comigo que viu uma mulher ruiva de moto no estacionamento na segunda, viu também a mesma quando saímos com a galera e...

– E...?

– E ela apareceu ontem novamente. Ela veio nos pedir umas informações, mas em nossas inocências, não dava para imaginar que ela fosse... bom, a Flávia a reconheceu depois.

– Quer dizer que tem uma louca atrás de ti também? Quê que é isso? Eu vou na polícia!

Ele levantou-se mais uma vez, mais nervoso. Calmo ele não estaria, já imaginava. Mas polícia? NÃO!

– Não! Polícia, não!

– Por que não?

Os dois falam ao mesmo tempo, sincronizados, como se tivessem combinados. Nem se ligam que falaram juntos, só eu mesma pareço notar. Ou Vini estava se malucando de novo para o lado do meu irmão ou era encenação, saber qual dos dois que eu ainda ficava na dificuldade. De novo.

– Porque não, oras. Não nego que é assustador ter alguém me seguindo, mas a essas alturas o Filipe já sabe onde é nossa casa. Ele não seria tão... tapado de tentar algo, sabendo que tem dois marmanjos em cima de mim.

– E se ele te machucar para chegar a mim?

Vini intervém, fazendo ser bem ouvido. Murilo aponta e concorda com a cabeça, querendo saber o mesmo. Sério, será que eles andam conversando sobre mim? Estão muito juntos nessa...

– Burrice, sabendo que eu... eu sou sua amiga. Fazer mal a mim é fazer mal a você.

Tudo bem, o “amiga” quase num saiu. Porém o tão bom observador – para não dizer o contrário – de meu consanguíneo estava mais preocupado com o quase sociopata perseguidor. Vini deve ter percebido, mas também passa por cima, ele também parecia ficar nervoso.

– Ele já me fez mal, muito mal. O que vai impedir de te fazer também? Se me “amando” como ele disse que amava ele fez barbaridades, que garantia temos de sua segurança?

– Ah, não vamos começar novamente. Vocês já colocaram a guarda em cima de mim, querem o que mais?

Esperava que a conversa do quarto tivesse feito algum efeito em Vini. Claro que estava preocupado, mas ele sabia o que tinha que fazer... ou pensar em fazer. Meu irmão não, quer porque quer chegar aos extremos:

– Ir na polícia.

– Mais nem que a vaca tussa uma música inteira.

As boas convivências dão nisso, a gente acaba pegando expressões dos outros e de uma aqui e outra acolá, vai interagindo com elas de acordo vão ocorrendo as situações. Não me imaginava usar essa última até que precisei dela. Quase me valeu um facepalm, contudo, ela exprimia bem o que eu queria dizer e não haveria outra que ficaria tão bem nesse contexto, infelizmente. De qualquer forma, peitei meu irmão, mesmo que eu fosse mais baixa que ele, tendo em resposta, mais bufadas. Ele não cansava disso?

– E eu só estou dizendo porque tinha que dizer, então vocês parem de inventar coisa. Mais uma e eu deixo vocês falando sozinhos.

Os dois tinham uma cara de desgosto. Meu irmão parecia zangado, já Vini, parecia resignado... Ainda bem, minha teimosia e determinação pelo menos o ajudava a se conformar. Pra fechar logo a conversa, já de braços cruzados, pergunto a meu irmão sobre o que tinha mencionado mais cedo:

– E aí, era disso que ia falar, quando disse que tinha algo?

– Não. Era... era uma coisa bem diferente.

Era sobre o que ele havia planejado a caminho de casa.

De certa forma ele estava me dando a oportunidade para mudar de assunto.

O plano – se é que isso pode ser chamado de plano – é que ele chegasse atrasado ao exercício do R.H., que iniciava às 13h. Desde aquela bagaça que teve quando seu super plano foi descoberto e que fora suspenso, o departamento, constituído por seis pessoas, passa por exercícios antes de começar o trabalho. Assim eles chegam de manhã cedo como dita o horário normal deles às 7h30, exercitam por meia hora e saem às 11h, voltando às 13h para começar a segunda parte do exercício, que leva mais tempo que a primeira, caso de quarenta e cinco minutos a uma hora. Isso tudo por dia, com atividades que reforcem o companheirismo e profissionalismo deles. Chegando atrasado, ele se desculparia e diria à coordenadora do programa de restituição profissional, a Aline, o porquê de sua demora.

Eu era o porquê do caso. Na sua cabeça projetava dizer que eu estava sofrendo por uns problemas pessoais e que ele não poderia me desamparar numa situação dessas, fazendo dele o herói que me protege das coisas. Tinha cabimento nisso?

Por isso me encontro sentada na mesa de um funcionário numa saleta próxima de onde acontece o “treinamento” do R.H. com os caras que aprontavam. Nem precisava fingir muita cara de frustração, era só me lembrar da discussão e da história de querer meter polícia no meio, isso consegue deixar uma pessoa bem injuriada. Olhar o colírio em mãos já não me convencia muito. Claro que falei que isso era enganar as pessoas, que se fosse para provar algo, que fosse ao natural. Armar ele já havia provado que não era bom nessas coisas, mas me tendo como cúmplice, acho que isso dava mais segurança a meu irmão. Sem falar da carinha fofa que ele mostrava e eu fazia questão de zoar. Nessa parte eu consigo tirar uma diversãozinha.

– Aproveita e fala bem de mim, cada vez que tiver oportunidade.

– Se você acredita na minha teoria de que a imagem dos homens fica melhor por eles terem respeito, carinho e cuidado por suas irmãs, devia aceitar também que comentários forçados elevando o outro sempre são suspeitos. É mais fácil demonstrar em ações do que utilizar-me das palavras para expressar. E nem me venha dizer que mulheres falam demais, fofocam e outra besteira que passe por sua cabeça, digo porque sei. Se eu falasse que gosto de alguém você também iria querer conhecer o cara para comprovar, não é o que você diz?

Ele larga a mochila de trabalho dele sobre a mesa, estava a procura de seu celular – e ainda dizem que é bolsa de mulher um buraco sem fundo carregado de tralhas. Olha quem está perdido agora... – larga, olha a parede a sua frente e com aquela cara de quem está pensando muito, termina por retrucar:

– Hum. Parece fazer sentido.

– Parece?

– Então tenho que armar mais situações para parecer um cara legal? Ai!

De fato, ele nunca limpa os ouvidos. Porque toda vez eu falo uma coisa, ele entende outra! Sempre arranja um jeito de distorcer, incrível. Merece, claro, o tapa que lhe dou no braço pra ver se acorda.

– Não, tapado, você tem que mostrar isso em naturalidade, não em armações. Você ia querer que alguém te enganasse para provar algo que é?

– Quem disse que me deixo enganar?

– Se você diz... E eu não vou fingir choro.

Pra mim é melhor não puxar esse lado da conversa, porque se disser que ele é engado – e é – ele ia querer comprovações e se eu contasse pelo menos três experiências, eu estaria me entregando. Não, ele não é mais esperto que eu. Se isso foi um verde, que não parece pelo seu tom bem confiante e cego, maduro de mim ele não ia colher. Por isso cortei trazendo-o de volta à ação, mudar de assunto sempre é minha estratégia. Pulo da mesa e espero que ele comece a andar... Mas ele me impede. Diz que devo ficar onde estou que ele ia fazer a grande “entrada”, eu deveria ficar e fazer uma cara triste. O que a gente não faz nessa vida...

– Hora do show.

– Não precisa ficar dizendo isso, dá má sorte.

– Dá má sorte é falar isso. Retira.

– Agora não adianta mais, Murilo.


~;~


Sem palavras para o que aconteceu naquele centro de meteorologia.

Murilo me usou de desculpa novamente para sair, emendando com uma vistoria que ele ia fazer e foi a hora que ele me deixou em casa, porque eu não teria aula. Cheguei cedo, o sol ainda nem tinha ido embora. Tomei um banho, fiz um lanche e fiquei olhando duas atividades da aula de Marketing que faltava para terminar, uma para passar a limpo e a outra revisar, então digitalizar e imprimir. Eram pra essa sexta, finalizaria minha nota.

Não acredito que está mesmo no final do ano... mesmo com todas aquelas decorações nas lojas que começaram antes mesmo da entrada de dezembro. Ainda não ouvi as músicas natalinas, mas logo logo estaria as ouvindo. Uma vizinha já preparava as árvores de seu terraço, vi quando cheguei, ela numa escada repuxando uns fios. Umas nuvens bem carregadas davam seu ar da graça no céu, confirmando o que Aline tinha me falado mais cedo, que iria chover forte, mas não sabia se ia trovejar... não era uma informação da jurisdição dela pra poder afirmar, a chuva só estava prevista por assim dizer. Mas vento até que não tinha.

Deixei a TV ligada num canal de músicas só para não ficar no silêncio. Voto de silêncio eu fiz comigo mesma a fim de aporrinhar meu irmão... ele tentava a todo custo ainda no carro arrancar toda a conversa que tive com Aline. Não resisti a torturá-lo um pouco. Era tão legal ter uma informação em mãos e ele fazer de tudo para apelar. Carinhas fofas, bicos e mais bicos, eu consegui resisti – não perdi de fato minha resistência. Estar apaixonada pode me deixar meio mole às vezes, porém, consigo ser firme, pelo menos com meu irmão.

Estava imprimindo na sala a primeira atividade, quando ouvi um ruído da rua, de carro estacionando. Já estava anoitecendo e imagino que seja Vinícius, deve ter saído do trabalho mais cedo ainda e não pegou muito do trânsito do horário de pique que devia estar iniciando. Calcei uns chinelos e fui para o portão de alumínio abrir para ele. Só não gosto da expressão que ele traz ao fechar o carro. Algo... algo está muito errado. Ele olha para trás e da esquina um carro entra, faróis ligados, deixando-o claramente nervoso. Era Filipe, deu pra reconhecer.

Por que sinto que dali coisa boa não viria? Porque não viria mesmo. Filipe saiu de seu carro, que estacionou atrás do de Vini, e caminhando apressado pela rua, tentou chegar perto do filho. Ele também não tinha uma cara boa... não soube identificar o que era, olhando de um para o outro tentando entender o que era aquela situação na porta de minha casa.

– Não é nada que você está pensando!

Tenta Filipe, seguindo o filho, rondando o carro. Vini se afasta o máximo possível, sobe a calçada, ajeita a mochila de trabalho nas costas e fala sobre os ombros, voz carregada pelo desprezo. Com medo de interferir algo, mantenho-me quieta assistindo a cena.

– Eu não quero saber.

– Vamos conversar, eu explico.

– EU NÃO QUERO SABER. Me deixa em paz.

Filipe chega à calçada quando Vini está prestes a passar por mim para entrar e deixar o pai do lado de fora. Só que Filipe toma uma postura sombria ao me perceber ali. O que foi? Que tinha eu? Desconcertada fiquei sem saber o que fazer... afinal, o que tinha acontecido? Céus, alguém ia me dizer?

– FOI ELA, NÃO FOI? QUE TE VIROU A CABEÇA... FOI ESSA... VAGABUNDA!

Eu poderia dizer o clássico “foi tudo muito rápido”, mas se eu puder descrever como um rápido em câmara lenta eu o faria. Vinicius estava me puxando para entrar quando ouviu o que Filipe acabou por proferir. Enrijeceu na mesma hora. Congelou. Seu corpo só mostrava vida pela respiração que foi se alternando para rápida, irada, perigosa, senão eu diria que ele tivesse virado uma estátua na minha frente.

Nem deu pra eu me preocupar com o estado perplexo que, realmente, nem sei se fiquei ante as palavras do Filipe, eu só tinha em centro Vinícius a minha frente, de como toda sua expressão muda, a mandíbula bem mais travada, um cerrar de mãos fechando-se na alça da mochila que trazia de lado, o olhar duro e cego, algo que me deixa bem alarmada, sem saber se haveria força em mim para controlá-lo. “Não, não, não, não, não” corria pela minha mente.

Antes fosse uma estátua como por um segundo pensei que ele tinha virado, pois logo em seguida ele joga a bolsa no chão e avança sobre o pai, virando-se bruscamente para alcançá-lo pelo colarinho, segurando-o tão forte que quando o jogou contra a parede da minha casa, o baque surdo pareceu ter sido bem sonoro ao meu desespero. Vinícius o tinha em punhos, firmes como sua expressão, numa fúria que nunca pensei em presenciar dele. O medo que me abraçou eu não saberia dizer pelo que era mais, mas o sentia... badalações agitavam meu coração que queria sair pela boca sem ter percebido de primeira lágrimas que começavam a correr.

Gritei uns “Não” seguido de mais uns “solta ele”, mesmo sabendo que me ouvir seria algo muito difícil devido ao seu estado de alteração. Nessas horas saem qualquer coisa. Eu não me importava com aquela palavra suja de quem Filipe me acusou, ele só queria provocar, aposto. Eu tinha que pensar em algo para fazê-lo parar e rápido. Mas o quê? Como? Pensa, pensa!

– NUNCA, NUNCA MAIS SE REFIRA A ELA. NUNCA SE META COM ELA, NUNCA FALE MAL DELA, TÁ ME ENTENDENDO?

A cada “nunca” ele puxa Filipe para si, afastando-o da parede e torna a jogá-lo nela, batendo secamente com força bruta. Sua voz, suas mãos, seus olhos, seu aspecto... eram os mais perturbadores. Tinha que fazer algo, pelamor, eu tinha... Um último encontro de Filipe com a parede Vinícius o solta, como se tivesse nojo da pessoa que tinha em mãos, o que provavelmente era ou pior. Bastou então um olhar desviado daquele homem a mim e um sorriso maldoso, não satisfeito, debochado, sádico, que Vinícius não se controlou e deu um soco... no próprio pai – aquele que ainda trazia no nariz um curativo da segunda-feira. Iria lançar outro, mas fui mais rápida e praticamente me joguei a eles para impedir.

– Não! Não! Não faça isso!

– Ouça o que essa daí tem a dizer. É só o que você faz, né?

Consegui me meter entre eles, no entanto, o olho vidrado que Vini tinha de raiva parecia me deixar invisível, pois ele mantinha o contato visual alucinado no seu alvo. Empurro-o para trás, para que se afaste, confrontando-o em força também. Nada parecia poder resolver esse comportamento transtornado, nem mesmo meu medo tão em contato com ele.

– Ele quer te provocar, não dê esse gostinho a ele.

– Eu não vou deixar que ele fale de você!

Sibila num estado que me deu medo dele. E olha que não sou de sentir medo de ninguém. Mas era um medo pela besteira que ele poderia fazer, não a mim claro. Sinto minhas mãos trêmulas ao tentar segurá-lo pela camisa, assim como minha voz que sai entrecortada, já em choro aberto e silencioso. Tinha que ter sua atenção em mim, na busca por segurança.

– Que ele fale, eu num tô nem aí!

– MAS EU TÔ!

Vinícius desvia de mim, deixando-me de lado, sem dar conta de minha aflição. Escapa de minhas mãos para voltar a dar mais um soco naquela figura jogada na parede, sangrando um pouco da boca, dava para ver pela iluminação dos postes. A rua escurecia cada vez mais, as nuvens acobertando mais a lua. Chover agora contribuiria mais com essa cena dramática.

– Deixa ele, deixa!

Eu tento mais uma vez, me meter entre eles. Vinícius até que se distanciou dele, saindo da calçada deixando o homem aos trôpegos, como se estivesse bêbado ou algo assim. Ideias do que fazer nenhuma tinha me aparecido, nenhuma decente. Tampouco me dei conta do que comecei a fazer, uma reação meio “trilouca” de minha parte, de empurrar Filipe pela porta de minha casa, para que entrasse. De repente uma coisa surgiu na minha cabeça e eu precisava tentar.

Ao perceber o que eu estava fazendo, Vinícius grita para me parar. Só que... sei lá, acho que eu também não estava nos meus melhores juízos, porque eu praticamente joguei Filipe para meu terraço e fechei a porta de alumínio deixando Vini de fora. Não sei se é possível explicar o que eu queria com isso, só fazia, tentava... também tinha uma batalha dentro de mim me dizendo a loucura da minha atitude. Quê que eu tava fazendo? Me trancando com um louco? É o que parecia...

– Não! Milena, ABRE ESSA PORTA! MILENA, VOLTA AQUI... ABRE A PORTA!

Um pouco pra lá do que pra cá, Filipe se toca do que estou fazendo, a testa franzida para mim sem entender a merda que eu tava fazendo. É nessas horas que a gente usa aquela desculpa de “situações trágicas exigem decisões drásticas”? Pois acho que era a única explicação, porque nem eu mesma me entendia, não adiantasse quem perguntasse.

Abri a porta de casa, que dava para a sala, fazendo com que entrasse. Ele foi, desconfiado, ouvindo os gritos de Vinícius vindo da rua. Eu não tinha muito tempo, logo o ouvi ligar para meu irmão, dizendo que ia dar um jeito de pular o muro e chegar ao terraço. Assim, logo que Filipe passou da entrada, fechei a porta da sala com chave.

E foi nessa hora que, do céu, correu um estrondo meio baixo. Trovão.

Notas finais
EITA!
E agora?
Que ideia foi essa, Milena????????