Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Você consegue. Você consegue.
É só uma chuva. Temporal, temporária. Trovões não são nada, não atingem, só fazem a zoada de um raio que caiu. Pronto, já caiu. Agora, cérebro, diz isso pro meu coração que ainda não sacou, porque tá pulando de besta, me deixando louca.
Ao receber meu chamado pra diretoria – o que soa coisa de filme policial, e de filme adolescente ao mesmo tempo – pego minhas coisas e me direciono, aos instintos apenas, ao corredor para encontrar o elevador, totalmente absorta em como enfrentar aqueles dois de uma vez só. Mas antes isso que ficar sozinha enquanto cai o mundo na rua com esse torrencial. Foi Djane mesmo que ligou, me pedindo para comparecer na diretoria, que ela me esperava com o diretor-médico e o senhor Filipe. A voz estava controlada, mas não segura.
Eu ainda pensei em responder algo decente, buscando o controle tal como ela, só que o estrondo soou novamente e não pude deixar de soltar um gritinho esganiçado. Não sei bem se ela ouviu porque bem a tempo eu tapei minha boca, ouvindo meu próprio grito do meu cérebro. Pra num deixar aquele vago de resposta, disse apenas um “já chego por aí” e desliguei. Na cara dela.
Ops... Já era.
Chegando ao corredor, bato de frente com alguém. Acho que ser distraída já virou risco pra mim, porque tem sempre que acontecer uma dessas comigo. Pior é meu estômago, que sofre ao ver o sanduíche voar e chegar ao chão, desenrolando-se de seu plástico protetor. Devia ter comido naquela hora... por que não comi?
Alcanço minha mão ao rosto em um facepalm, enfatizando minha indignação, sem propriamente me tocar de quem eu havia topado. Visivelmente não havia quase ninguém no corredor, ouvia de longe uma ala de recepção com telefones tocando e atendentes administrando pra aliviar meu lado de pagar mico toda hora.
Do chão levanto o olhar pra encontrar a pessoa a quem eu devia desculpas, que me devia em reciprocidade de educação... e travo ao perceber que é aquele moço que entrara no vestiário masculino mais cedo, agora vestido em bata branca e estetoscópio no pescoço. Hum. Médico. Jovem. Bonito. Alto... Nem tive oportunidade de olhar antes. Pigarreio de sorriso amarelo e ele... bom, ele mantém aquele ar sacana que encontrei desde a primeira vez. Quê que Diogo andou falando pra esse cara aí?
- Olha com quem eu topei de novo.
- Lena, você por aqui ainda? Pensei que estivesse lá embaixo já.
Mal abri a boca pra falar quando ouço Diogo responder. Isso me dá a dica que não era bem comigo que o cara tava falando... Era com Diogo que vinha logo atrás de mim. Me viro pra falar com ele, porém minha atenção ocular é chamada por um flash forte que passa pela janela a fundo do enfermeiro bonito. Abro os olhos assustados sabendo que agora o trovão vai ser forte só pela intensidade de luz emitida no céu e seguro um suspiro agoniado; me agarro à bolsa e fecho os olhos com força, me encolhendo em mim mesma, na esperança burra de que isso iria amenizar os efeitos naturais da chuva violenta.
- Hey, o que foi?
Diogo chega perto e o sinto puxar minhas mãos, fechadas em punho. O som vem logo em seguida, me fazendo segurar um gritinho ante ele. Odeio trovões, como eu os ODEIO! Por que têm que ser tão tenebrosos? Míseros segundos me dão raiva por ter que reagir assim, paralisada entre arfadas com o coração querendo sair pela primeira via que achar. Não tendo minha resposta ou sucesso em puxar minhas mãos, presa na minha própria bolha, percebo quando Diogo passa seus braços ao meu redor. Deve ter percebido o motivo do meu comportamento. Bom, quem não sacaria com uma medrosa como eu?
Ao passar o estresse da natureza, o ódio só cresce dentro de mim... Ai QUE ÓDIO de ter que aparecer assim. Posso ouvir a chuva, continua a jogar forte suas gotas no chão — sim, impossível não ouvir. Devagar vou me afastando dele, me erguendo e baixando seus braços de mim, encontrando o seu brincalhão e sacana sorriso de compreensão. Desvio o olhar pra que não perceba também o ódio que continua a se levantar dentro de mim, por ele estar rindo do meu acesso.
- Medo de trovões, hein? Quem diria?
- Nem fala, nem comenta. Vamos... vamos apenas esquecer esse episódio.
Evidencio minha seriedade no caso apontando o dele para ele e me afasto quase num pulo. Mas que safado!
Sem-graça, dou meia-volta e... o tal médico tá lá. Ainda. Tava esse pouco tempo todo me olhando, de braços cruzados, numa postura descansada de um pé, com aquele mesmo ar de “tô sacando tudo”. Mas sim? Ele não tinha que trabalhar não?
Encontro meu sanduíche – o que sobrou dele – nas mãos dele. Quando ele percebe meu foco, se move e o joga na lixeira próxima:
- Você não ia querer, né? Eu compro um, sem problemas. Quer dizer, se o Diogo aí não ver problemas.
Impressão minha ou ele quis insinuar algo mais? Olho de rabo de olho pra Diogo, que me sinaliza um dar de ombros daqueles que diz não saber do que estão falando, e volto a focalizar o médico. Rum. Quer saber? Não vale a pena saber, já tiveram de mim o bastante, não vou ficar aqui para me sacanearem não. Antes que digam qualquer outra coisa que me leve a dar na cara de um deles, fecho a cara e saio em passos apressados:
- Pode deixar que eu vou.
De braços cruzados e bico de indignada ando pelo corredor querendo que o elevador fosse mais próximo. Ainda assim não deixo de ouvir isso:
- Não precisa ficar constrangida. Eu já ia deixar vocês à vontade...
O médico me alcança, dá uns tapinhas nas minhas costas, passa por mim na boa e quebra pra um corredor transversal de mãos nos bolsos do jaleco branco com o maior sorrisão. Agora pronto! Não hesito em virar e me aproximar do enfermeiro para reclamar:
- Ele tá falando do que eu tô pensando que ele tá falando?
- Hum?
- EU SEI que você entendeu. O que você falou pra ele?
- Eu? Nada.
- Mas é esse nada que tá causando aqui. Melhor você dizer logo antes qu...
- Calma, calma! Tudo bem, eu conto... tenho ainda uma meia hora antes de começar meu expediente.
- Acho bom mesmo. Agora vamos pra lanchonete antes que eu tenha um treco de fome, porque meu sanduíche já era.
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- Pera, deixa ver se eu entendi. Você ganha créditos com os médicos, que são um dos seus superiores, se eles entenderem que você tá “ficando” com pacientes ou visitantes de pacientes? Cadê o profissionalismo desse mundo?
- Nem olha pra mim, eu não entrei nessa... só os deixo pensar que sim para eu poder acompanhar uns bons casos. Pode ver que nenhuma vez eu faltei com o respeito com você. Meu... er... “concorrente” essa semana caiu de nível porque levou uma bofetada de uma garota, então meio que fizeram um bolão pra mim. Não precisa me olhar assim, eu sei quão errado isso parece, só não tenho como impedir.
Paro de sugar meu milk-shake já no final pra fazer uma pausa dramática, porque tamanho besteirol é difícil de engolir. Ele tem que estar brincando sobre isso, do mesmo jeito que brinca com a colher remexendo sua gelatina. Tendo um sanduíche no meu estômago pra aguentar outras ansiedades, me sinto mais enérgica pra falar:
- Errado? Você acha que estou julgando errado? Errado é pouco! É muito sem-noção, isso sim! E aquela vez que você me chamou de “amor”, era por isso?
- Hã... não. Eu tenho esse costume mesmo... olha, fico muito sem jeito de estar te falando isso, mas pensa, pior seria eu te dissesse pra pactuar comigo e fingir que... estamos juntos.
Sério, espero pelo momento que ele vai falar que isso é invenção. Observo que ele se esforça pra parecer sério, sentado reto na cadeira, como me apresento. Mas tudo me parece não ser sério... O que se faz tendo uma informação dessas?
Batuco o canudo no copo do milk-shake me questionando se eu poderia denunciá-lo ao diretor ou algo assim. E se o diretor estiver no meio da sujeirada? Ai minha nossa, eu tô acreditando nessa baboseira? Pior: o diretor e os outros estão me esperando! Nem vai dá tempo de resolver essa história direito.
Me levanto devagar, pego dinheiro e o deixo perto da bandeja dele, para que possa pagar por mim, que estou atrasada. Ainda muito decepcionada com Diogo, evito que a ira suba de vez e eu tenha que apelar para o tabefe.
- Que sinta vergonha mesmo! Eu devia te dá umas bolachas na cara pra ver se você começa a pensar direito. Isso é brincar com o sentimento das pessoas, você sabe.
- Eu sei, eu sei, mas...
A gelatina dele está pela metade faz uns bons minutos. Deve ser dor na consciência. Me seguro cada vez mais para não deixar transparecer nada em minha voz, abaixando o volume dela o quanto posso para que a lanchonete, um tanto cheia, não perceba o vexame. Incrivelmente sinto que tem pessoas, além do Diogo, me observando. Pessoas curiosas demais.
- Pois num parece. Agora eu num sei se todo esse tempo você estava sendo meu amigo ou tava se aproveitando pra pegar uns “créditos”. Meu Deus, você se ouve falando isso? Digo, você percebe quão sujo isso parece? Acho que eu nem consigo te olhar, viu.
- Eu sei, tá? Pode ficar zangada, eu mereço. Só não comenta com ninguém, ok? Eu nunca dei em cima de qualquer paciente ou visitante, isso eu posso garantir. Eu só me pegava ao que aparentava quando tinha algum deles por perto, nada mais que isso. Mas acabou, você está certa. Sei que fui influenciado sim, mas isso não justifica... Eu sinceramente peço desculpas por qualquer incômodo que causei.
Saio da mesa sem nem ao menos o responder. Que abusado! E em lembrar que ainda pensei, quando o conheci, que ele ia me cantar! Às vezes quando me acho madura o bastante, parece que me dão um banho de ingenuidade... Se o Murilo souber de um negócio desse... nam, não ia prestar de jeito nenhum! Pior que eles também viraram amigos.
Sério, tem horas que pergunto onde fui me meter! Cadê as pessoas decentes desse mundo? Existe pessoas decentes ainda? Tem que existir... sou decente mesmo fazendo besteira. É, até fazendo merda eu penso nos outros.
Ai, vovó, se eu não tivesse tão aperreada, eu lhe ligaria no mesmo instante!
Entre meus lamentos de saudades de minha maior conselheira e raiva dessa situação toda, me deixo esquecer até da chuva. Finalmente deu uma trégua e mal a ouço quando vou chegando à recepção a caminho da diretoria. Antes tarde do que nunca, devem achar que eu me perdi no caminho do jeito que demorei a aparecer.
Finalmente chego à porta e coloco minha mão na maçaneta, antes de bater. Não deixo de ouvir uns gritos vindos de lá, numa clara briga entre Djane e Filipe. Putz, mas eles não se comportam nem com o diretor, não? Dou duas batidinhas na porta e nada... Nenhuma resposta.
Não consigo ouvir bem o que eles estão falando pelo ruído que faz do lado de fora, pelos atendimentos e chamadas no microfone de médicos. No entanto, fica claro a força dos gritos do lado de dentro, e do jeito que andam, tão logo giro a maçaneta de vez pra abrir a porta e interromper...
- PORQUE VOCÊ SABE QUE EU SOU O PAI DO VINÍCIUS E ISSO VOCÊ NÃO PODE ME TIRAR, POR MAIS QUE VOCÊ TEM TENTADO ESSES ANOS TODOS!
Oi? Eu acabo de ouvir o que acho que acabo de ouvir?
Chocada com tamanha informação, paraliso na entrada com a porta ainda semiaberta, segurando a maçaneta. Djane, de pé atrás da mesa do diretor, nota que “entrei” e também fica imóvel, apesar de seu claro estado de nervosismo e abalo. Assustada, com minha boca em forma de O, olho para Filipe, de costas arfando nervoso, até se virar e me encontrar.
O silêncio ganha seu espaço. Quer dizer, sem contar o ruído do ar-condicionado. Não há mais briga, só uma enxurrada de perguntas perdidas, começando pelos óbvios “o quê?”, “como?”, “hein?” na minha cabeça, sem propriamente eu conseguir colocá-las pra fora. Totalmente sem fala.
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