Notas iniciais
Ajoelhou, rezou.

Informação demais em um mesmo dia dá dor de cabeça. Eu já dizia isso no tempo da escola, principalmente no ensino médio e em dia de prova, sem contar o vestibular. Faz a pessoa entrar em parafuso.

No meu caso mais recente, antes fosse muita decoreba pra fazer uma prova, daquelas que damos “tilt” quando não conseguimos absorver mais nada e onde podemos cuspir palavras geniais que impressionassem professores e usar toda uma arte de embromação pra construir um argumento decente... ou pelo menos um que desse pro gasto. Não era esse o caso. Meu “tilt” da vez era bem diferente.

Logo após minha entrada num momento um tanto catastrófico, o diretor apareceu atrás de mim, animadão – nem quis imaginar o porquê de tanta animação do jeito que eu ainda parecia alarmada. Nem quis também imaginar que estivesse relacionado com aquela história sem-noção que Diogo me contou há pouco; ainda rezo para não ser – ele me cumprimentou e soltou a bomba, que explica boa parte da discussão de dois minutos atrás, acredito:

- E aí, já soube da alta? Eles já resolveram para onde vão levar o garoto?

Por um segundo eu ainda pensei “Que garoto??” Que jeito estranho de se referir a um cara... ele não é mais criança, mesmo estando nas mãos de dois adultos. Estes sim parecem duas crianças, o diretor não sabe ou finge não perceber. Mas lógico que vê o climão dentro do seu escritório. Resmunga um “aparentemente não” para sua própria pergunta. Ninguém parecia que ia responder de qualquer maneira.

Quase reviro os olhos. Até o diretor parece infantil. E já é moderadamente velho. Ele passa por mim para chegar a sua mesa e pegar umas papeladas. Filipe se joga de vez na cadeira em frente à mesa do diretor, atrás de si, todo ranzinza, e Djane mantém braços cruzados, encostada na parede de fundo do escritório, passando rapidamente uma mão no rosto pra, penso eu, acordar do transe que foi o fight deles. Mas ninguém, ninguém fala nada!

- Vim apenas pegar isso, podem continuar.

- NÃAAO...

Saio, finalmente, do modo estátua-que-mexe-os-olhos pra recuperar a fala, do jeito mais estranho possível, porque isso, meu grito, isso só atrai toda a atenção, toda pra mim. Com os três pares de olhos convergindo para onde eu me encontro, sinto a dor de cabeça começar. E diante deles, não consigo soltar uma sílaba sequer. Apenas deixo o diretor passar de novo por mim, presumindo o que ele queria fazer: fugir da situação. Porque, olha, a coisa toda não tá bonita. Mas nem assim eu arredo o pé. Esse constrangimento não é meu.

Sinceramente, Djane já tinha me falado que todo o rolo era uma longa história de família, que eu não precisava saber. Nunca que eu ia pensar que ia ser uma... história tão cabeluda. Como assim o Filipe é pai do Vinícius? Nem sei por onde começar, acho que não tem começo. Foi tudo jogado assim sem mais nem menos pra mim. Eu realmente preferiria ficar sem saber. Mesmo. Pelo jeito, o mundo é que quis que eu soubesse.

Não nego que ver o diretor escapulindo me fez também considerar a possibilidade de deixar os dois se engalfinhando na sala, pra depois ele ter que chamar a segurança, talvez. Só que, se isso não resolveu antes, claro que não vai resolver agora.

Às vezes é tão ruim ser uma pessoa decente...

Queria saber como um altruísmo só me mete em roubada.

Talvez seja o universo conspirando novamente. Conspirou pra eu que soubesse disso. Então mesmo com enxaqueca e querendo apenas um lugar pra relaxar, suspiro enquanto tomo as rédeas da situação. Porque se não for eu, não tem quem as tome. E isso já foi longe demais. Recobro minhas forças e chuto minha enxaqueca pra longe.

Bato a porta atrás de mim. Agora revoltei.

Paro do lado de Filipe, firme numa postura reta para verem que a brincadeira acabou. De braços cruzados, segura como nunca, esqueço toda a loucura do meu dia e entro nessa bolha:

- Hora de lavar roupa suja.

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Consigo fazer Djane sentar-se na cadeira ao lado de Filipe. Mesmo próximos, eles ficam sentados de lados bem extremos nas poltronas, como se repelissem um ao outro. Fico em pé, encostada na mesa do diretor, de braços firmes e cruzados, como se fosse uma mãe de dois garotos que brigaram e quer saber como tudo começou. Porque se é pra saber, melhor que eu saiba tudo. Ou quase tudo.

- Preciso apontar alguém pra começar aqui? Ou tenho que começar pelas acusações?

- Olha, eu já te agradeci por ter me avisado, mas não vou permitir que use esse tom comigo, mocinha. Você não pode simplesmente se intrometer e achar que eu vou falar da minha vida pra você.

- Viu como ele é grosseiro?

- Há! Como se fosse você a vítima, Djane. Tinha que arrastar alguém pra te defender, né? Melhor, pra comprar tua história.

- Olha aqui SEU...

Me meto no meio, interrompo a nova discussão.

- OLHA AQUI SEU NADA. VOCÊS AINDA NÃO VIRAM A PROPORÇÃO QUE ISSO TEM TOMADO, NÃO? Ninguém aqui tem direito de dizer um “ai”, ambos estão errados.

Por mais que eu tentasse entrar na bolha deles, Filipe dava um jeito de me manter de fora. Não que eu ligasse, me irritava era que ele não fazia nada pra melhorar a situação. Djane o mesmo, apesar de não atacar tanto quanto ele. Poxa, qualquer pessoa poderia ter entrado naquela hora que eles estavam gritando. Quem entrasse provavelmente não entenderia nada... só quem se machuca são eles mesmos. Interrompi mesmo a briga e interromperia de novo se fosse o caso:

- Nem vem com esse papinho de lado ou defesa, porque eu só tô aqui por uma pessoa, aquela que vocês esqueceram! Sim, o Vinícius. E nem fala sobre intromissão aqui porque se não fosse por mim – não que eu esteja querendo os créditos por isso – provavelmente você nem saberia disso tão cedo. Vá culpar o acaso, porque eu não entrei nessa por interesse. Então te quieta aí pra as coisas não piorarem pro teu lado.

Aponto o dedo significativamente na cara de Filipe. Porque merece, oras. Não é algo que ele gosta, vejo que logo me fuzila. Como se isso pudesse me ferir... Pode ter muita coisa errada nessa história, e mesmo com os erros de Djane, ele também não fica muito atrás.

- Mas que garota petulante. Só você mesmo, Djane, pra me arrumar uma... uma...

- Uma o quê? Fala.

- Quer saber? Melhor eu não comentar, não vale a pena contar minha vida pra uma pirralha que não tem nada a ver e ainda quer que eu dê satisfação.

Djane resmunga indignada:

- Há! Típico. Você só sabe acusar, mas quando se trata de você, dá pra trás.

Fico olhando de um pro outro. Parecem duas crianças mesmo, ainda mais emburrados e querendo se enfrentar. Balanço a cabeça negativamente e olho pra cima pedindo força. Eles que não tentem nada, não hesito em chamar a segurança.

- Djane, não começa. Eu já tô cheio de você o bastante.

- Alou! Hey! Parem vocês dois!

- Garota, quanto ela te pagou pra fazer esse papel? Eu posso pagar mais, só me dizer o preço.

- Dinheiro? Você acha que isso é por dinheiro? Que você enfie seu dinheiro lá onde o sol não bate. Eu não estou defendendo ninguém, não estou do lado de ninguém. A propósito, se não lembra, eu briguei com Djane e desde então mal nos falamos. Sim, ainda estou chateada com ela, mas isso não vem ao caso agora. Então para de criar desculpas e de ficar culpando se você não reconhece a própria merda que faz.

- Milena, sobre ontem...

- Não, professora, esqueçamos por um momento isso. Nem posso ficar feliz pelo Vinícius conseguir alta e os encontro quase aos tapas! E no meio do escritório do diretor. Vocês acham mesmo que se esgoelar anos e anos, pensando que resolve, vai endireitar alguma coisa? E outra, o Vinícius, sabe disso? Digo, desse senhor aí ser o pai dele? Me diz logo porque nem eu tô acreditando até agora...

- Milena, como eu disse... é uma longa história de família.

Fico fraca quando falam comigo de voz embargada. Vindo da professora então, já me dá água nos olhos. Balançada entre tantas emoções no mesmo dia, tanta informação ao mesmo tempo, uma torrente de coisas passando pela minha cabeça, procuro manter o meu ritmo de respiração. E esse bate-boca dos dois não ajuda também.

E como sempre, meu irmão tem um lado sensitivo de pensar em mim e me ligar nos melhores (ou piores?) momentos. Só que... espera, não é The Lazy Song que tá tocando.... É Good Life. Já pensava que estaria me ligando sobre os trovões, apesar de minutos atrasados. Quem será que deve estar ligando?

Com um pedido singelo de licença, que quebra nossa suposta bolha, pego minha bolsa que havia deixado sobre a mesa do diretor. Ao me virar, ouço um resmungo do senhor Filipe, num murmuro bem claro que dizia “insolente”. Uma vontade de virar e rir na cara dele me subiu, só pra enfatizar nossa antipatia, mas não, me detenho no mesmo instante, ao olhar o visor do meu celular.

Putz, aconteceu alguma coisa na faculdade. Só pode!

Fico sem coragem de atender... Entretanto, se tiveram a consideração de me ligar, devo ter a consideração de atender, certo? E atendo assim mesmo, olhando as “crianças” por soslaio.

- Oi, Bruno.

- Hey, Milena. Aconteceu alguma coisa? Daniela me disse que você só mandou uma mensagem...

- É. Acho que tirei o dia off pra... resolver uns pepinos. Teve algo de muita importância hoje? Quer dizer, já terminou a aula?

- Nam! Quem dera! Principalmente porque tô morrendo de sono... só queria saber se você tá legal.

- Ah, valeu. Tá tudo bem. Olha, tenho que desligar, tô no meio de... um caso delicado. Então...

- É sobre o que conversamos na madrugada? Por isso está sussurrando?

- Er... mais ou menos. Para as duas perguntas.

- Tudo bem. Qualquer coisa me liga, eu posso acordar de boa.

- Engraçadinho. Mas sério, tenho que ir. Tchau.

Desviro e encontro ainda os dois imóveis. Ele crispando pra janela, onde gotas deslizavam ainda pela chuva lá fora, e ela, mantinha um olhar baixo, com as mãos no colo, como da vez que ela desabafou comigo na lanchonete. Estava claro que Djane não aguentava mais a pressão e logo ia falar algo... talvez se segurasse apenas pela presença do... do... Meu Deus, ELES ERAM AMANTES? Me seguro na mesa atrás de mim para não cair pra trás pela minha própria constatação.

Ou deveria dizer pensamento assombroso?

Quebro o silêncio novamente, procurando silenciar esses pensamentos malucos – apesar de prováveis –, antes de falar alguma besteira:

- Então, onde estávamos mesmo?

- Preciso dizer? Você estava aí, fazendo um papel ridículo, nos atrapalhando.

- Filipe! Ela só tá tentando ajudar!

- Deixa, professora...

- Hunf. Tinha que ser sua aluna mesmo... só porque é mais nova acha que pode salvar o mundo. Crianças tolas.

- Há! E quem é que tava agradecendo há um tempo mesmo? Ou diria, brigando?

- Ô garota, baixa esse tom comigo.

- Não estou usando tom nenhum, quem tá alterado é você. O que ainda não entendi porque... quer dizer, além da briga de vocês, por que atingir a mim, que só tento ajudar?

- Porque não preciso da ajuda de ninguém. E você tá sabendo demais.

- Eu podia muito bem soltar um “quem dera”, porém não iria fazer jus ao que realmente quero, estar pelo Vinícius. Além disso, o que sei provavelmente é menos do que ele sabe da própria família. Mas se você “insiste”, eu vou lá conversar com ele, quem sabe juntando o que sabemos, alguma coisa conseguimos construir...

- Você não seria capaz...

- Te dou o benefício da dúvida.

- Djane, você não vai falar nada? Só vai ficar aí com essa cara morta deixando essa daí falar assim? Nos dando ordens? Eu devia saber, deve ser algum plano de vocês...

- Pense o que quiser, ô tio.

O cara foi chamado a vida toda de tio, no entanto, quando deixo isso escapulir da minha boca, percebo que não foi algo muito inteligente da minha parte, apesar de ter saído naturalmente, porque... o cara avançou em mim! Minha mente logo quis gritar “que venha!”, que aquela careta vermelha e sua respiração descontrolada não significavam nada.

Djane se meteu entre nós, preocupada, tentando o segurar. Mantenho minha postura, oras, sem mostrar medo, porque... o que ele poderia fazer mesmo? De quem é o papel ridículo agora? Ele se solta dela e volta a se sentar. Djane, em claros olhos avermelhados, era meu único ponto fraco. Tinha que evitar a todo custo olhá-la. Ouvi-la aflita era ruim o bastante e fraquejar não era algo que eu poderia me permitir agora.

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- Não sou a mãe... biológica... do Vinícius.

Parecia que mil anos tinha se passado para eu conseguir que me dissessem algo. Na verdade, só Djane parecia disposta a contar algo, pois Filipe continuava irredutível. E zangado. E não olhava pra nenhuma de nós. Até agora não sei porque ele ainda não saíra, porque ele podia muito bem ir, que eu não o impediria – não sabia se ele sabia disso; não lhe falaria ainda assim, da possibilidade. Quase ri do seu comportamento, falou tanto de mim como “criança tola”... só não ri por me surpreender com o que Djane começava a relatar.

Como que ela não era mãe biológica do Vini?

Mas... mas... Eles são incrivelmente parecidos! Que genética é essa? Pra mim parecia impossível – e um alívio ao mesmo tempo, por saber que ela não tivera um relacionamento com uma pessoa como Filipe, um cínico de duas caras.

Em pleno desabafo, reúno forças pra não me afetar tanto. Grito para mim mesma para não vacilar agora, vai que isso poderia acarretar outro ataque desse homem, vai saber. E por mais que tento, não consigo não olhar para a mulher encolhida na sua própria história a minha frente.

- O nome dela era... Viviane. Teve u-um caso com o Filipe... e Vinícius foi o fru-u-uto. Ao se descobrir grávida, Filipe pediu que fizesse um aborto. E graças a Deus, ela não o fez, apenas se afastou dele. Sumiu por muito tempo. Quando meu marido e eu descobrimos a história, ela já estava em seus 8 meses, e voltara, tentando convencê-lo de aceitar o filho. E ele na-ã-ão aceitou.

Como o Vini o tinha como boa pessoa, herói talvez, eu não sabia. Devia ser muita lavagem cerebral. E eu que ainda me achei ingênua demais, o coitado estava no mesmo barco que eu.

Não falo nada, claro, o momento era íntimo para que eu pudesse interromper. Djane mesmo respira fundo para poder continuar com uma voz mais segura:

- Eu e meu marido, Gustavo, irmão do Filipe, cuidamos dela... Era o certo a fazer, claro. Só que... um dia ela passou mal por uma briga que teve com o Filipe e assim se seguiu um parto de emergência. As condições de saúde dela não ficaram nada boas... Então, depois de dois dias, ela nos deixou... Não conseguiu resistir.

Como que esse... TRASTE queria avançar em mim?! Eu que deveria partir pra cima dele! Como que Djane o aguenta por anos? Algum dia deve ter batido nele, porque merecimento é pouco pra ele. Luto contra a água que quer descer na raiva que me sobe, do desprezo que sinto por esse homem.

- Eu falei com Gustavo e nós registramos a criança como nossa... como se eu tivesse tido nosso filho. É um tanto desagradável pensar que sua mãe teve que morrer para pudesse ficar conosco, mas sim, eu me senti feliz de tê-lo em meus braços... Um tempo depois descobrimos que Gustavo tinha uma falha genética e não poderia nos abençoar com filhos. Ele, ao contrário do irmão, parecia ter uma jóia em suas mãos. Eram tão ligados... que me dava gosto deixar meu lado meu trabalho para vê-los à noite. E não, nenhuma vez, Filipe o visitou. Ou quis saber dele. Nem do que tinha acontecido com Viviane.

- Mentira! Eu sempre o acompanhei! Gustavo sempre me atualizava... na época eu não estava interessado, admito, mas meu irmão ficava insistindo de eu conhecer meu... meu “filho”... Viu como você não sabe de nada?

- Shhh! Deixa ela continuar!

- Ô garota, eu posso falar quando eu quiser...

- SHHH!

Abano a mão na sua direção pra enfatizar que não interrompa. Ele não vê que dos maiores males da história, foi culpa dele? Pelamor, até eu já cansei de ficar aqui com esse homem. Ainda resmunga sobre “perda de tempo” até se calar e Djane continua, mais inquieta do que já estava.

- Conforme foi crescendo, o Vinícius encontrou umas más companhias... começamos a brigar desde cedo. Ele sempre se refugiava no meu marido, que, condescendente, dizia que era só uma fase ruim que logo passaria. Mas então, aquela mesma falha genética o levou de nós, e foi aí que Filipe “voltou”. No começo, ainda dizia que não queria saber do filho, mas depois começou a tramar contra mim e...

- Ô rainha do drama! Você não entende nada. Antes de meu irmão ir, ele falou para eu cuidar do garoto, só que você por perto só me atrapalhava. Com o tempo fui conhecendo-o e me afeiçoei a ele, tá? Não podia reaver meu direito de pai, não naquela época, porque meu irmão praticamente acabara de morrer. Mas agora, mais do que nunca, eu deveria fazer isso.

- Ele quer tirar meu menino de mim, ele faz de tudo pra eu parecer ruim.

- Não sei por que você ainda faz questão, ele não gosta de você.

- Independente disso, eu o amo. Ele é meu filho! Você não pode aparecer anos depois querendo reclamar uma criança que você nunca quis...

- E por quem ele chama agora, hein?

O bate-boca recomeça. Olho o relógio que marca 21h45 e não deixo de pensar que a noite ainda está longe de acabar. Dependendo desses dois, é possível ficar desse jeito até o amanhecer.