Notas iniciais
Esses capítulos foram um pouco difíceis de escrever por tamanha carga emocional que implicou aos envolvidos. Espero que estejam transpassando bem todos os feels e... Alexz Johnson é umas das cantoras que compõe minha playlist de apoio. Boa leitura.

Como que eu ia saber que ele não sabia? Ele disse que tinha ouvido tudo. Só que o que era “tudo” pra ele não era “tudo” pra mim. Já que eu tinha ajoelhado, tinha que começar a rezar, como no ditado. Eu era a mensageira. Esperava não ser aquela que diria “hey, não mate o mensageiro se a notícia é ruim”. Esperava de verdade.

– Milena, me diz.

Pelo menos ele já tinha comido metade da sopa. Não estaria tão fraco depois que eu contasse a história por completo. Seria demais ter que levá-lo para o hospital por fraqueza. Ele bate na mesa não muito de leve para chamar minha atenção.

– Milena!

Coço a cabeça sem-jeito, procurando falar algo. Qualquer coisa menos o principal. E evitar olhar direto pra ele, isso, sim, deve ajudar. Era minha vez de ficar inquieta.

– Hã... me diz o que você sabe.

– Não, me diz o que VOCÊ sabe.

Ferrou. Ferrou bonito agora. Vai começar tudo de novo.

– Eu tenho que ter um ponto de partida. Se não, como eu vou saber o que você não sabe? Eu pensei que você soubesse... e olha como está!

– Mas...? Como...? Você disse que ouviu Filipe e minha mãe discutindo, que ouviu quando ele falou que era meu pai. Essa outra parte você não comentou.

Encolho os ombros, saindo de perto do que era meu jantar. Eu tinha que mantê-lo calmo acima de tudo. Agora, como fazer isso se a bomba maior foi eu que joguei? Pô, Milena, o que já te falaram tantas vezes sobre manter a boca fechada? É por alguma razão, caramba!

– Achava que estava implícita, sei lá. Eu te disse por alto... disse que eu poderia muito bem ter deixado pra lá, mas não, eu fui atrás de saber a história direito. O que eu tinha de perspectiva era quase nada perto da história toda. De fato, eu não sabia de nada.

– Agora sabe demais. Eu quero saber disso também. Você é a única que vai ser sincera de me contar, não é? Não é?

– Assim você me deixa em má posição. Sabe bem que eu, mesmo tendo a sua resposta, não deveria ser aquela que falaria primeiro.

Ele não gosta de saber disso. Afasta seu prato e levanta da mesa nervoso. É visível que procura se segurar, passando a mão pelo cabelo, deixando cada vez mais bagunçado. Por que eu estava achando que teria que revelar ali? Ele poderia fazer mais besteira. Devo chamar meu irmão?

– Milena, eu vou pedir só mais uma vez. Se você não me explicar, eu... eu vou dar meu jeito de descobrir. E não importa quem você chame, o exército se necessário, ninguém vai me segurar.

– TÁ, TÁ, EU FALO.

Enterro-me nas minhas próprias mãos, cotovelos na mesa. Começava a ficar nervosa também, porém lágrimas não vinham dessa vez, não sei porque. Ouço ele sentar-se na sua cadeira de novo e sinto quando levemente toca meu braço. Eu não queria olhá-lo nos olhos, não, não.... merda. Olhei.

Presa naquele contato visual, eu tinha mais noção do seu aborrecimento, da tristeza que lhe abatia e do ódio que ele segurava para não machucar-me mais uma vez. Eu ia falar, mas antes...:

– Com uma condição.


~;~



Ele aceitou minha condição. Não tinha opções mesmo, ou aceitava ou nada feito. Como sabia que ele estava desesperado por qualquer fio de informação que pudesse ceder, sei que ele faria mesmo se desse uma lista enorme de condições. Uma apenas me bastava pelo momento.


Murilo sabia tão pouco quanto o próprio, por isso partilhavam de praticamente o mesmo olhar perdido e questionador. Senhor, onde fui parar? Como me meti nisso mesmo? A condição era deixar que meu irmão participasse da conversa, para o caso de eu não conseguir contê-lo, Murilo estaria ali para ajudar. Tinha medo sim, não nego, de que reação poderia vir dali. Insegurança também.

Certo, como começo?

– Passa logo a faca, Milena. Se isso vai me destruir, que o faça logo. Não vou aguentar esse suspense por muito tempo.

– Tudo bem. Er... vamos recapitular primeiro. Você escutou uma conversa de Djane e seu avô... quem disse o quê?

– Meu avô disse que “estava demorando muito”, que falasse logo sem mesmo esperar pelo meu tio, que ainda não chegou de viagem. Minha mãe falou que tinha esperado por muito tempo, mais uns dias “talvez a preparassem melhor”. Então ele respondeu que era melhor eu saber de uma vez por todas, que mesmo ele continuando sendo meu avô, meu pai não era Gustavo, e sim Filipe. Foi a hora que corri, bati até num vaso de plantas, machuquei meu braço, nem me importei... só queria sair dali.

– Você machucou o braço? Eu nem vi isso.

– Eu também não. Só fui ver quando tirei a camisa e no banho, ardeu. Num foi nada demais, de qualquer forma. Só não me enrola de novo, Milena, fala.

Eu estava sentada na mesinha de centro da sala, Vini no sofá inquieto, e meu irmão em pé atrás dele, de braços cruzados espreitando cada reação. Com essa ele dá um tapa na cabeça de Vini, repreendendo-o pelo seu apelo meio agressivo. Não acreditava que teria que conter mais um também.

– Olha aqui, cumpade, não fala assim com minha irmã, não. Mais um vacilo e eu te bato, de verdade.

Agora eu quem quero dar um tapa na cabeça de meu irmão.

– Murilo!

– O quê? Só porque ele tá todo nervosinho, ele não vai descontar em você. Eu num deixo.

Vinícius acaba concordando com ele.

– Tem razão. Desculpem-me. Eu só quero acabar logo com isso.

– Tá. Isso não vai ser algo bom, Vini. Só peço que... não faça nada que possa se arrepender depois. Não me faça me arrepender por falar isso, por favor.

Ele passa a mão no rosto, respira forte, se preparando para o que eu ia dizer. Internamente eu me preparava também, não seria nada fácil. Olhar pra ele eu não consigo, esfregava uma mão na outra, desconfortável quanto eles na iminência da bomba.

– Então. Djane não é sua mãe verdadeira. Isso já descarta a infeliz possibilidade de que eles tiveram um caso. Ainda bem que não. Ao que parece, pelo que eu consegui tirar deles naquele dia na sala do diretor do hospital, foi que Filipe se envolveu com uma mulher. Seu nome era Viviane. O que talvez explique a origem do seu.

– Viviane... não lembro de ninguém chamado assim.

– Porque não chegou a conhecer quase nada dela. Mal o ventre que ela lhe cedeu. Filipe ao saber que ela estava grávida, insistiu num aborto. Ela não o fez, também não o avisou, só sumiu. Um tempo depois ela reapareceu, estava com uns 8 meses parece. Queria convencer Filipe de voltarem, de ele aceitar você... Ele... ele a desprezou. Foi então que seu Gustavo e Djane descobriram, não sei como, e passaram a ajudar a moça.

– Não... ele não faria isso. Não comigo. Por que ele faria isso? Ele disse?

– Não. Filipe... bom, ele não gosta muito de mim. Nesse dia eu quase parti pra cima dele, pra ser sincera. Djane que me segurou mais.

Murilo que se altera:

– Mas que desgraçado. Merecia uma surra isso sim... Ele não te agrediu não, né? Me diz que eu vou atrás desse aí, quebrar o cara. Me diz, Milena.

– Não, mano, não. Ele não tentou nada. Não mais que tentar me ofender, mas isso ele não conseguiu. Vira e mexe, eu que o provocava, admito.

Vinícius assente com um olhar perdido, refletindo algumas de minhas atitudes passadas. Se eu pudesse parar ali, eu pararia.

– Bem que eu via algo estranho com vocês, achava que era porque você a defendia sempre. Mas agora... eu não sei bem o que pensar... É como se eu não soubesse por qual dos dois eu deveria nutrir um ódio.

Era quase um tratamento de choque. E eu que estava aumentando os “Volts” daquela carga, tendo uma visão privilegiada que não queria de seu sofrimento. Por que tinha que ser eu a mensageira? Por que eu sentia que se não fosse eu, as coisas se embaralhariam mais, o destruiriam mais? Ainda assim, tão dependente, não queria que fosse eu! Mas era eu que queria trazer a razão de volta a ele...

– Por ninguém, Vinícius. Ninguém. Ódio gera mais ódio, discórdia, ressentimento. Isso não é saudável. Não faça isso, por favor.

Nervoso ele levanta, sendo bem exato em seus gestos, abrindo os braços, intensificando seu argumento sobre ódio. Como eu queria refrear isso dele.

– Milena, você não entende. Olha o que eles fizeram, o que eles tem feito comigo por todos esse anos. ANOS, Milena, ANOS.

– Milênios fossem, Vini. Ninguém merece ser odiado assim pelo quer que tenha feito. Isso não me faz gostar dele também, mas ódio, por que eu perderia meu tempo e sentimentos sentindo ódio de alguém que não me merece? Ele que remoa, oras. Quem fez merda foi ele!

Murilo se mete para nos apartar. Nem eu tinha percebido que estávamos quase cara-a-cara, bufando para o outro. Ele nos faz voltar onde estávamos sentados num minuto antes, evitando maiores exaltações.

– Hey, hey, gente. Vamos manter a calma aqui. Estão perdendo o foco...Mi, você parou quando disse que Gustavo e Djane descobriram sobre a mulher grávida e passaram a ajudá-la. Pois então...

– Então... Um dia ela conseguiu falar com Filipe, tiveram uma briga feia. Tão feia que ela teve que fazer um parto de emergência. Vinícius estava bem, mas Viviane... ela não aguentou mais que dois dias.

– Não... não... NÃAAO! ELE A MATOU? ELE NÃO CONSEGUIU ME MATAR, ELE A MATOU... ASSASSINO, É ISSO QUE ELE É, ASSASSINO.

Vini mais uma vez descontrolado tenta avançar, que eu não sabia pra quem seria, mas ainda bem que Murilo o segura pelos ombros. Ou tenta. O caos estava começando.

– EPA, epa... calma. Senta.

– ME DEIXA... MINHA MÃE, MINHA MÃE SE FOI, POR CAUSA DAQUELE DESGRAÇADO. COMO VOCÊ SEGUROU ISSO, HEIN? COMO PODERIA ME OLHAR NA CARA, COMO PODERIA FALAR COMIGO SABENDO TUDO ISSO?

Vi o horror descendo em forma de água por seu rosto, revoltado, descontrolado, desiquilibrado. Medo não tinha dele assim, medo tinha do que isso estaria ecoando dentro de si. Estava vendo sua queda de camarote.

Mas não podia deixar que duvidasse de mim... NÃO DE MIM!

– EU TINHA QUE FAZER, TÁ. NÃO PENSE QUE EU GOSTAVA DISSO TAMBÉM. VOCÊ TINHA QUASE UMA ADORAÇÃO POR ELE... COMO VOCÊ QUERIA QUE EU ABORDASSE?

– FALAVA NA MINHA CARA, EU AGUENTARI...

– NÃO, MURILO.

Meu irmão parte pra cima dele, dando-lhe um soco certeiro no rosto. Murilo não via que aquilo não era pra mim? Que mesmo me magoando de novo, eu sabia que ter Vinícius explodindo ali era para o bem dele. Antes conosco ali, a salvo, do que na rua, no perigo. Ele tinha seu porquê de estar fora de si e abordá-lo com violência não faria bem para ninguém, só impulsionaria mais brigas e mais violência. Tento fazer com que Murilo o solte, punhos presos na camisa erguendo-o do sofá, sem dar a chance de mínima defesa. Seu lábio agora estava cortado...

Ele não precisava sentir mais dor do que já sentia.

– SOLTA ELE, MURILO.

– NÃO ENQUANTO ELE NÃO FALAR QUE VAI BAIXAR ESSE TOM DELE. QUE VAI MANEIRAR ESSE COMPORTAMENTO... DIZ, VINÍCIUS.

– VOCÊ ESTÁ SUFOCANDO ELE, SOLTA!

Murilo solta na marra. Puxo para que saia de cima de Vini, que cai como um boneco pesado no sofá. Abaixo-me para ver se está bem. Está, em físico apenas. Revoltada, peito meu irmão, empurrando-o com as mãos para ele ver a gravidade ali do que tinha feito.

– VOCÊ FICOU MALUCO? Ele já tem dor o bastante.

– EU ESTAVA TE DEFENDENDO, CARAMBA. NÃO FOI POR ISSO QUE VOCÊ ME CHAMOU? EU ME SEGUREI POR MUITO TEMPO...

– EU TE CHAMEI PARA CONTER QUALQUER EXALTAÇÃO, NÃO SAIR BATENDO NELE, MURILO. OLHA O ESTADO DELE.

Aponto para o que “restava” do Vini, muito resignado para a situação dele. Além de lábio cortado, começava a tremer pelo choro desesperado que começava a sair de novo dele. Razão ou emoção pareciam se mesclar um num só, numa batalha querendo sobrepor um ao outro, sem saber a quem dar passagem para mais uma reação. Mais uma vez derrotado. Murilo sabe que perdeu a cabeça, sabe que não poderia consertar, mas tenta... afasta-se apertando sua mão que aparente doía por surrar.

– Tá, eu me alterei...

Sério? Eu nem tinha percebido. Por pouco não respondi isso. Eu mesma queria bater nele. Não! Chega de machucar o outro... Murilo se aproxima do sofá novamente, arrependido do que fizera, procurando uma forma de se redimir... Era o mínimo que ele poderia fazer. Só que Vini não queria mais conversa... Ali era seu fim do poço, para chorar pelo desconhecido, pela falta, pelo que não teve oportunidade. Tinha iniciado baixo, tomando cada vez mais proporções de um choro alto, quase engasgando enquanto tentava desabafar:

– Nãã-ãoo acredito q... que... ele... que ele fez isso. Que ele me tirou o pouco... que eu tinha. Eu o amava, pensava que era meu amigo. TRAIDOR.

Minha dor de cabeça voltara ao seu posto. Esfrego uma mão na testa como se fosse achar o nódulo e desfazê-lo. Eu tinha que continuar a falar, pois ainda havia mais para contar. Murilo também se sentia perdido, se segurando no apoio do sofá, eu via que ele também começava a desmoronar.

– Vini...

– ....

– Me dói dizer, porém a história... a história ainda não acabou. E você pediu por ela completa.

Abaixo-me para ficar bem a sua altura, jogado no sofá, ele segurava a cabeça que talvez fosse explodir também. Sentia a minha da mesma forma, se preparando para espocar. Grita mais uma vez botando seu sofrimento pra fora:

– MAIS? O QUE MAIS ELE FEZ?

Passo uma mão por seu rosto, tão agitada quanto ele, frustrada, magoada... ele não me nega ou afasta, deixa que eu o tenha nas mãos... se era algo bom não dava pra saber. Ser explosivo parecia dizer mais do que um simples consentir. Sua voz começava a fraquejar também.

– Shiiii. Não fale assim.

– Como você pode estar tão...

– Não estou, acredite. Também quis machucar aquele cara. Não valeria a pena, de qualquer forma. Então, posso falar?

Ele assente devagar ante meu toque prolongado no seu rosto. Respiro fundo para poder falar o que faltava. Ao levantar a cabeça, os olhos, que estavam um pouco embaçados pelas lágrimas que eu não queria mais deixar sair, encontram meu irmão, consentindo também, esperando pelo fim que parecia não querer chegar.

– Logo que Viviane se foi, Gustavo e Djane te adotaram. Você foi a alegria dele, ainda mais porque em pouco tempo ele descobriu que não poderia ter filhos. Djane me falou que foi esse problema que o levou deste mundo... Filipe disse que enquanto ele esteve vivo, cuidando de você, Gustavo fazia uma... uma espécie de ponte entre você e ele, para que Filipe o conhecesse.

– Meu pai... com tanta... bondade. Parece tão a cara dele...

– Filipe foi relutante. Antes de Gustavo ir também, deixou Filipe para cuidar de você. Foi então que ele se interessou por você... Você o conquistou com esse seu jeito determinado de ser. Você conquista as pessoas mesmo sem sua persuasão. Daí começou a rixa com Djane.

Tinha seu rosto em minhas mãos, segurando-o como se ele dependesse disso tanto quanto eu. Estávamos presos um no olhar dolorido do outro. Precisava de sua atenção, por isso falava manso. Perpasso pelas boas memórias do seu pai Gustavo para que, quem sabe, não se sentisse um desprezado. A história estava encontrando seu fim, finalmente... só não saberia quando seria o fim desta batalha, da rixa.

– Como assim?

– Ele queria te assumir. Na época não, porque Gustavo tinha morrido há pouco tempo. Diz ele que queria cuidar de você, como um pai deveria, só não quer Djane por perto, acha que ela o atrapalha. Ele se aproveitou da desavença que você tinha e tem até hoje com sua mãe... é por isso que muitas vezes ela te sufocou. Porque temia te perder, e com esse comportamento, ela foi te perdendo aos poucos.

– Me diz que agora acabou...

– Acabou. De verdade.

Ele levanta-se quase num átimo, me abraçando atrás de algum conforto que eu poderia lhe dar. Queria, queria muito poder dá-lo, mas... seria suficiente?


~;~



Tempos e tempos ele se manteve preso a mim. Meu corpo doía do mal jeito que eu tinha ficado, mesmo mudando de posição, nenhuma era confortável. Cada vez que eu tentava sair do seu aperto, ele não deixava, enroscava-se mais em mim. Sinceramente não era isso que eu queria ver ou sentir dele, não nesse estado.


Quando ele encontrou um sono, foi mais fácil conseguir manipulá-lo para o quarto de visitas. Murilo me ajudou a carregá-lo para lá... não era muito luxuoso como sua casa, era o que tínhamos a oferecer. Quando nossos pais nos visitavam, Murilo cedia seu quarto, que é o maior, aos meus pais e ficava nesse quarto de visitas, que era um pouco pequeno. Mal cabia a cama de casal e umas cômodas pequenas.

Era tarde, meia-noite quase, quando conseguimos deixá-lo na cama. Meu irmão se retirou para descansar também, não haveria mais nada que ele podia fazer. Eu? Eu queria ficar lá, para todo o caso. Murilo que não queria deixar:

– Melhor você ir para seu quarto... Ele precisa descansar, dormir um pouco.

– E se ele precisar de alguma coisa?

– Não vai.

– Como você pode ter certeza?

– Só... fique no seu quarto. Qualquer coisa ele nos chama. Você também precisa de descanso.

Faço que entro em meu quarto resignada. Eu não ia desistir fácil. Sentia que Murilo queria me proteger de mais sofrimento, por isso queria me afastar de Vini. Mas ele precisava de mim, poxa. Não conseguiria ficar longe dele assim... então espero que meu irmão feche seu quarto e dou um tempo para que eu possa sair do meu. Aproveito e checo meu celular que tinha deixado sobre a minha cama. Tinha apenas uma ligação de Djane, de 22h. Melhor não perturbar seu sono se estiver dormindo agora. Isso se ela conseguiu dormir. Além do mais, ela sentiria o meu alarme e abalo que conteria em minha voz se falasse com ela. Sendo assim mando uma mensagem sendo a mais simples possível, dizendo que agora ele conseguiu dormir. As coisas iam melhorar, eu tinha minhas esperanças.

Depois de uns 20 minutos inquieta no meu quarto, não aguento mais esperar. Devagar saio do meu quarto, verifico o do meu irmão... num sono profundo e cansado. Sabia que eu não conseguiria dormir assim, tampouco Vinícius. Chego ao quarto de visitas, iluminado apenas por um abajur fraco, que piscava às vezes pelo mal contato da tomada. Fazia quase 1 ano que Murilo tinha dito que ia arrumar aquilo.


Trilha indicada: Alexz Johnson – Your Eyes


http://www.youtube.com/watch?v=SnmCFcCX66g


If I was drowning in the sea...


Would you dive right in and save me?

If I was falling like a star…

Would you be right there to catch me?

If I was dreaming of your kiss…

Would you look right through me?

Se eu estivesse me afogando no oceano…

Você mergulharia e me salvaria?

Se eu estivesse caindo como uma estrela…

Você estaria bem ali para me pegar?

Se eu estivesse sonhando com seu beijo…

Você veria através de mim?

On the street I’m waiting

In my heart it’s raining

Na rua, estou esperando

No meu coração, está chovendo


Vinícius estava de bruços, distante dos travesseiros, olhos abertos e caídos, cada vez mais sem vida, irritados e secos pelo tempo, virado para o lado da porta. Me olhou por uns 3 segundos quando a abri e voltou ao mesmo estado. Cansaço eu via nele, da vida, das brigas, das pessoas, das mentiras, das distâncias... de tudo que lhe fazia mal. Sua respiração estava mais calma, apesar da dificuldade de inspirar, dado pelo nariz entupido do passado choro. Não estava mais desmoronando, ele tinha chegado ao chão já, despedaçado.


Era uma derrota minha também. Sua dor era minha dor, sua angústia, minha angústia. Era demais até de se olhar, porque doía vê-lo tão pequeno. O que sentia por ele me fazia ter uma vontade louca de pegá-lo, segurá-lo, e com um único beijo, mostrar tudo que ele fez crescer em mim, que isso fosse o suficiente para que ele reanimasse e deixasse esse estado, voltando a ser aquele meu Vini, que povoa minha mente sem minha permissão.


Your eyes… are holding up the sky


Your eyes… make me weak, I don’t know why

Maybe your eyes… make me scared to tell you the truth

I thought my heart was bullet-proof

Now I’m dancing on the roof

And everybody knows… I‘m into you

Seus olhos... estão sustentando o céu

Seus olhos... me deixam fraca, eu não sei por quê

Talvez seus olhos... me deixam com medo de contar a verdade

Eu pensei que meu coração fosse à prova de balas

Agora estou nas nuvens

E todos sabem… que estou a fim de você


Ele devia não saber, mas um simples olhar dele me dizia tanta coisa. Costuma me deixar com receio, com dúvida, pensativa, especulativa, hipnotizada. Por isso evitava-os, temendo mais um efeito que poderia fazer em mim e que isso desencadeasse mais do que eu queria permitir. Olhos e olhares sagazes, que me pegavam desprevenida, enérgicos, divertidos, brilhantes, me puxavam e me envolviam cada vez mais nele. Como eu fugia dele? Num sei, só sei que fugia. Por que? Porque eram uma arma perspicaz, perigosa... daquela que te joga significados para decodificar, numa pegadinha para te deixar pensando nele. Como era esperto...


Desajeitada, seguro a barra da minha camisa para começar minha aproximação. Não tinha mais aquele brilho, mas ainda me chamava. Fazia pedidos silenciosos, apelos de amparo, piscadelas lentas...


If my heart was sadder than a song…


Would you still listen?

If my tears fell on you, one by one…

Would you see them glisten?

Se meu coração fosse mais triste que uma canção…

Você ainda ouviria?

Se minhas lágrimas caíssem em você, uma a uma…

Você as veria reluzir?

On the street I’m waiting

In my heart it’s raining

Na rua, estou esperando

No meu coração, está chovendo


Sento-me com cuidado na vaga que ele havia deixado ao lado. Lembro-me de uma cena uns dias atrás, quando ele procurava se reestabelecer de novo, quando me disse que precisava de mim e não era brincadeira. O amor que descobria sentir se frustrava por querer algo mais que do que a amizade que ele pedia e agradecia. Disse que nunca tinha necessitado de uma amiga tanto quanto a situação requeria. Quase suplicou por minha permanência, e que, acima de tudo, não desistisse dele.


E ele não desistiu de mim, por mais que eu o afastasse naquele dia... tampouco pareceu tê-lo feito depois. Tinha medo do que isso desencadearia para nós, temor de me machucar se continuasse em frente.


Your eyes… are holding up the sky


Your eyes… make me weak, I don’t know why

Maybe your eyes… make me scared to tell you the truth

I thought my heart was bullet-proof

Now I’m dancing on the roof

Seus olhos... estão sustentando o céu

Seus olhos... me deixam fraca, eu não sei por quê

Talvez seus olhos... me deixam com medo de contar a verdade

Eu pensei que meu coração fosse à prova de balas

Agora estou nas nuvens

Every single thing you say, makes me want to run away

Sometimes love’s a rainy day but life goes on

Cada coisa que você diz me faz querer fugir

Às vezes o amor é como um dia chuvoso, mas a vida continua


De verdade eu tentei. Abandoná-lo, quero dizer. No entanto, ele já fazia parte da minha história e eu da dele, não havia mais volta. Ele havia me conquistado, chamado minha atenção, desde a vez que ele quis se soltar dos fios de aparelhagens que o mantinham estável no hospital, e eu avoada, atrapalhada, só queria acalmá-lo. Essa era a grande verdade.


Precisava de mim, era fato. Requeria o mesmo que o pedido daquele dia, que não saísse de perto dele. Isso eu o faria, sem pestanejar, seria seu apoio enquanto me quisesse. E mesmo que estivesse sendo movida pelo carinho e outros sentimentos mais por ele, devia deixá-los de lado para cumprir meu papel como havia prometido. Era hora de ser a amiga, não a boba apaixonada. Pois paixão poderia confundir mais as coisas.


Your eyes… are holding up the sky


Your eyes… make me weak, I don’t know why

Maybe your eyes… make me scared to tell you the truth

I thought my heart was bullet-proof

Now I’m dancing on the roof

And everybody knows… I‘m into you

Seus olhos... estão sustentando o céu

Seus olhos... me deixam fraca, eu não sei por quê

Talvez seus olhos... me deixam com medo de contar a verdade

Eu pensei que meu coração fosse à prova de balas

Agora estou nas nuvens

E todos sabem… que estou a fim de você


Ainda assim, amolecia perto dele, era algo inevitável. Se isso ele viu, via, verá, fica por conta do que está a nossa frente, pois essa verdade por mim não seria proferida, não ainda. O principal, o seu brilho de vida, eu traria... Ah, mas eu traria de volta. Essa era a ordem que vinha do meu peito, a certeza que me dava a energia-exemplo para que ele seguisse. Isso aliviava mais o pesar que figurava sua imagem deitada... ainda mais quando minha mão alcança sua face e cabelos, aqueles fios que tanto gostava de mexer, bagunçar, brincar... meu carinho por toda essa extensão o fazia fechar os olhos, piscando para manter-se acordado ao meu toque.


– Durma.

– Não quero. Dormir pode me levar a sonhos estranhos. Prefiro ter sua imagem, sentir o real contato enquanto está aqui.

– Não vou sair daqui. Não até meu irmão acordar... até lá, você me tem.

Sorrio fraco em pensar na imagem do meu irmão me pegando com Vinícius. Um trágico hilário... pois eu enfrentaria a briga que fosse se antes eu pudesse estar aqui como estou. Não seria meu irmão ou a força de braço dele que me impediria. Se viesse com pedras, eu iria com tijolos.

– Isso seria um problema?

– Sem muita importância, na verdade. Ele sabe que não pode tentar nada.

– Não quero trazer mais problemas pra vocês.

– Pode até não ter parecido, mas ele também está cuidando de você.

– Eu sei... é só que...

– Shiiii. Durma.

Quando ele fecha os olhos, ativo o alarme do meu celular, que estava no bolso da minha calça de dormir, para as 5h45 da manhã. Deixo-o debaixo do meu travesseiro para que quando tocasse, o alarme fosse abafado e somente eu pudesse ouvir. Tinha cerca de 5h mais para ficar ali, então deito-me, aconchegando-me mais perto dele. Era o máximo que teria essa noite.

Notas finais
E aí, será que a Milena vai trazer o brilho dele de volta? Ela conseguirá um equilíbrio?