Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
44 Capítulo 15
Notas iniciais
Dificilmente eu acordava na mesma posição que havia dormido. Só se o sono fosse tão brutal que o cansaço me prendia numa mesa disposição pelo colchão, sendo muito provável eu ter dormido por cima de um braço ou mão, assim meu cérebro receberia uma alerta de que a circulação de uma parte do corpo estava comprometida e que ele devia me acordar, por isso abusaria de suas engenhosas e aleatórias imagens e sons surreais para que me dessem um susto e eu acordasse, me mexesse. A parte do corpo que tinha a circulação impedida respirava novamente, onde tudo correria como deve correr e formigaria dizendo que estava tudo bem. Li isso uma vez numa revista, pensei estar acontecendo mais uma vez.
Ao abrir os olhos assustada não era por um sonho maluco que minha mente poderia produzir, era o zumbido vibrando abafado do dispositivo manipulado por mim para despertar. Ainda assim chequei mãos e braços para ver se não formigavam. Deste modo que sinto algo preso a minha perna. Meio desorientada, puxo o celular e desligo-o antes que me perturbasse mais ou acordasse mais alguém. Ah sim, as razões de ter feito isso antes de dormir voltam ao seu lugar, dizendo-me que era hora de dali sair, pois, por mais que os problemas que poderiam vir dessa cena caso fosse vista pelo meu irmão não fossem uma grande preocupação pra mim, era melhor evitá-los. Meus ouvidos agradeceriam.
Levanto minimamente a cabeça do travesseiro entreabrindo melhor os olhos naquele ambiente obscuro, mal iluminado pelo abajur que poderia pifar a qualquer hora, o qual não impediu de ver algo em particular. Vinícius, ainda de bruços, estava próximo de mim, na realidade, bem encostado a minha perna, onde via seu braço quase entrelaçado a ela, como se estivesse a abraçando. Seu rosto ia de encontro a minha cintura, abaixado de tal forma que eu poderia ver somente seus cabelos do ângulo que eu estava. Definitivamente não foi assim que eu lembro ter dormido.
De certa forma estava engraçado. Tento mexer a perna, mas ele a segura firme. Poderia gargalhar com mais essa. Tinha que pensar num jeito de eu levantar sem que o acordasse, pois não queria perturbar seu sono que, poderia não ser dos melhores, porém, era importante que ele descansasse um pouco. O dia anterior foi horrível, verdade, e os próximos poderiam não ser muitos explosivos, mas seriam tensos tanto quanto o primeiro.
Levanto um pouco, observo melhor a situação como dava, procuro uma saída, afinal, não havia muito tempo. O frio ainda estava dançando por ali, principalmente porque eu não fui inteligente o bastante de nos cobrir. Isso talvez explicava porque ele estava meio encolhido, assim como o fato de ele estar grudado a mim, buscando calor quem sabe. Bem devagar tento então remover seu braço de minha perna, onde torna ele a manter-se mais preso. O inconsciente dele era forte, tinha que admitir.
Mais uma tentativa. Mexo a perna a fim de movê-la a afastando dele. Para minha surpresa, não só mantém o aperto como ele resmunga baixo um “não” que meus tímpanos naquele silêncio conseguiram captar, sussurro o qual amoleceu meu coração e trouxe-me mais uma vez um sorriso simples aos lábios. Ele conseguia ser engraçado até mesmo dormindo. Não que eu fosse contar isso a ele, não. Seria um tanto vergonhoso pra mim...
No entanto, uma cena específica da minha memória me dá um oi para duvidar do que exatamente está acontecendo. Quer dizer, ele está ou não está dormindo agora, de verdade? Pois eu naquele dia na sua casa, não estava. O sono me carregava, porém ainda não tinha me dominado daquela vez. Hum.
O fato é, como descobrir isso?
Não dá. Pouco tempo me restava, eu tinha que sair dali depressa. Já fui vista uma vez numa situação bem parecida, a testemunha no caso concordou em manter segredo, diferente do escândalo que meu irmão faria se nos pegasse assim. Ele tinha batido no Vini noite passada, não queria dar uma outra razão a ele para ficar violento e ciumento. Vini tinha machucados demais pra adicionar mais um na lista, um caso diverso daquela história de “um a mais, um a menos, não faria diferença”. De onde eu estava não dava para ver como estava seu machucado na boca, imagino apenas que esteja inchado, mesmo depois de termos colocado gelo nele.
Foco, Milena, foco. Sair do aperto dele, sair da cama, sair do quarto, plano simples. Consegui uma vez, conseguiria de novo, mesmo tendo todo aquele aconchego tentando me seduzir. Espanto o sono um pouco, como se estivesse guardando para quando chegasse ao meu quarto, respiro fundo para deixar de rir da situação, concentro no meu propósito.
Com uma mão puxo a dele, soltando minha perna e calça de dormir. Era um bom começo até que ele começasse a mexer a cabeça, fazendo com que seu nariz encostasse na minha cintura em leves cócegas, e uma força vinha dele para não me deixar sair, por isso, ainda rindo, esquivo-me de sua procura e coloco um travesseiro que consegui pegar para que ele o abraçasse em vez de mim. Um pequena vitória foi deslizar e me afastar por completo dele. Resmungou mais uma vez, abraçando o travesseiro mais ao seu encontro como se ali estivesse um corpo. Ficava muuuuuuuito difícil não rir.
Levanto da cama, calço meus chinelos, dou a volta no quarto e sento atrás dele, que, pelos movimentos recentes, deixou a posição de bruços para ficar de lado, de frente para a porta. O quarto escuro não me deixava ver muita coisa, só se chegasse bem perto. Aproximando-me dele, via uma serenidade que me acalmava os ânimos preocupados, num sono profundo e regular que parecia levá-lo a um mundo alternativo melhor do que este. Trazer de volta seu brilho e vivacidade não era apenas uma esperança, era uma promessa.
Um carinho nos seus fios, um carinho no rosto, eu me despedia. Dessa vez, no entanto, bem diferente de outras despedidas minhas, era minha vez de deixar uma marca ousada nesse seu estado adormecido. Da testa, alcanço seus lábios num ato simples e suave, devolvendo o que ele tinha começado. “Nada como o primeiro beijo” dizia um filme de comédia romântica e “Nada melhor que o segundo beijo”, visto numa série de drama adolescente. Eu concordava com os dois, só queria saber quando haveria de fato algo mais consciente que isso.
~;~
Depois de ter andado por um campo minado e ter estourado eu mesma algumas bombas, não imaginaria eu acordar com um doce sorriso no rosto. Mas sabe como é, dizem que pessoas apaixonadas vivem nas nuvens por alguma razão, que é esta razão que chuta qualquer outra coisa ruim para longe caso queira incomodar. Se antes eu já ria sozinha, agora eu tinha arranjado motivo pra isso.
O bom do dia de domingo é que ele é basicamente o dia da preguiça. As certezas que eu tinha enfiado na minha cabeça me fazia esquecer os problemas mais presentes, assim fiquei por um tempo mais na minha própria cama. Para chegar ao café-da-manhã dei-me um tapa no rosto – meio dolorido, na verdade... assim que se descobre a mão pesada para o caso de uma defesa – para voltar ao eixos e assumir minha cara de preocupada, porque eu não ia me entregar fácil assim para meu irmão que devia estar me esperando acordar.
Ao chegar na cozinha, encontro-o encarando o celular na mesa da cozinha com uma cara bem preocupada. Isso capturava bem sua concentração, pois o café quente esfumava pouco do seu lado e ele nem parecia estar ligando para isso.
– O que foi?
– Ah. Oi. Estava pensando em ligar para nossos pais e... falar da minha suspensão. Eu tinha dito que ia falar, vou falar... Vou?
Ele deixa de olhar para o aparelho a sua frente para me observar pegar minha xícara no armário, como se eu fosse resolver a indecisão dele. Murilo às vezes se igualava a um garotinho medroso. Ou o caso é que só o corpo dele cresceu durante os anos que se passaram, pois logo percebo seu receio em ligar, dado a unha que ele roía só de olhar para o celular.
– Se você não quiser contar, não conta, oras. Prometo que não conto, se for o caso. Apesar de ter sido algo bem infantil, eles não vão te colocar de castigo, afinal você está bem crescidinho para isso... Se bem que isso me lembra que a vovó quer te pegar por tramar com o vovô.
– Ah, muito legal saber disso quando se está indeciso de contar. Se eu falar, eles vão ficar bravos, mas pelo menos vou estar sendo sincero, e se eu não contar, estou dando chance para você me ter em suas mãos de novo.
Reviro os olhos pra ele enquanto coloco café na xícara e pego o pão do dia anterior que sobrara. Ele não se cansava de me acusar, seja por brincadeira ou seriedade.
– Ah, não, maninho, essa história de novo não. Já disse que isso eu não iria contar. Faz parte de nosso acordo implícito entre irmãos... lembra da vez que você furou o pneu do carro de papai uns anos atrás e ele pensou que tinha sido um pivete? Pois ele ainda pensa, porque eu não contei. Pra mim você tá é me usando como desculpa, só não sei porquê.
Abro a porta da geladeira pra verificar o que tinha para oferecer no café-da-manhã ao nosso hóspede. Não vivemos de luxo, tampouco tinha pensado nisso no dia anterior. Se ele viveu sozinho num apartamento, quem sabe não estivesse acostumado com pouco? Me animo ao encontrar queijo e presunto na prateleira de cima – dona Bia é uma benção –, desanimo em pensar que talvez ele não tenha apetite para isso, pois ontem mesmo o pouco que comeu, foi na marra. Teria que fazer ele tomar o garrafão de água de coco todinho. Cresci sabendo que água de coco é um soro natural e, ele precisando se alimentar, não ia deixar que a fraqueza o abatesse mais.
– Se eu disser que também não sei o porquê, você acreditaria?
– Provavelmente. Se tratando de você, é bem possível.
– Pô, maninha, assim você me acaba.
– Eu sei. Vê como meu amor é incondicional?
Preparando meu sanduiche, penso nos meus pais. Sendo fim de ano, tenho uma ideia melhor que talvez resolva esse impasse dele:
– Pensando bem... como acabamos de entrar no mês de dezembro, você pode esperar um pouco e contar isso no Natal desse ano. Isso se você não tiver uma merda maior pra contar.
Todo ano na madrugada do Natal, quando os convidados iam embora, reunimos nossa família na sala para fazer confissões, uma boa e uma ruim. Como que falar uma conquista e uma derrota sua. No círculo que formamos não pode haver repreensões ou coisas do tipo, pois de acordo com a tradição, era um momento para se perdoar e não olhar o outro com más olhos. Era uma chance de falar alguma besteira que fez durante o ano, só que a chance era só uma, então se você fez muitas ao longo desse tempo, é melhor saber escolher qual se quer confessar e ser perdoado.
Era uma das coisas que eu mais amava de fazer nessa data comemorativa, além de estar com meus familiares mais próximos, que eram meus pais, avós por parte de pai – os outros morreram quando eu ainda era pequena – e a peste do meu irmão. Depois dessa “sessão”, todos iam dormir, menos eu e vovô, que sempre tivemos o gosto por ver o amanhecer chegar. Termino meu sanduíche e deixo-o do lado do meu café. Só sento à mesa após guardar tudo que usei de volta na geladeira.
– Às vezes você tem ideias geniais, maninha.
– Às vezes?
– É, só às vezes... AI.
Também é tradição na nossa família dar um tapa na cabeça do Murilo quando fala besteira demais. Essa, no entanto, não precisa de data comemorativa pra se expressar.
– Então, tomando mais um rumo sério... Você conseguiu dormir?
– Até que sim, só demorou um pouco. Meus olhos ardem um pouco por ter chorado.
Esfrego os olhos tentando lembrar onde foi a última vez que vi meu colírio para aliviar o ardor. Não o tinha achado na minha cômoda. Devia estar em alguma de minhas bolsas, saber qual delas que eu precisava descobrir.
– O que você acha que vai ser agora?
Ele começa a tomar seu café também. Apesar de sério, noto seu olhar para meu sanduíche. Ele que fizesse o dele.
– Sinceramente eu não sei... vamos ter que esperar Vinícius acordar. Acho que vou ver como ele está... Ele não comeu muito ontem e temo que ele fique fraco por isso.... E é melhor que meu sanduíche esteja aqui quando eu voltar. Faça o seu.
– Você confia tanto em mim, mana.
Ele levanta com seu sorriso colgate atrás do queijo e presunto na geladeira, sabendo que era melhor pra ele que deixasse o meu em paz. Estávamos evoluindo com o tempo.
~;~
– Vocês sabem do meu celular?
Vinícius surge no corredor meio arrastado enquanto eu e Murilo terminávamos o café-da-manhã. Quando fui checá-lo antes de começar meu desjejum, ele dormia tão profundamente que não quis incomodar. Agora na nossa frente ele parecia... diferente. Não sei bem explicar, mas estava distante. Como se o abalo do dia anterior fosse apenas um sonho ruim que não tivesse acontecido... Isso não era bom. Murilo parece ter notado também, dado sua sobrancelha levantada e olhar desconfiado que me deu, como o meu devia estar. Meu irmão que responde:
– Eu deixei as coisas que encontrei no seu carro aí na mesa. Essas coisas chamam atenção para roubos nas ruas, achei melhor deixar aqui dentro.
– Valeu.
E assim como ele tinha se materializado, ele desaparece ao achar o aparelho. Troco mais um olhar suspeito com meu irmão. Tem algo muito errado nisso aí. Deixo minha louça suja na pia, arrumo melhor a mesa da cozinha para o desjejum de Vinícius, com frutas, café, pão, queijo e presunto bem dispostos. Pouco tempo depois, antes mesmo de meu irmão terminar de lavar a louça, Vinícius volta à sala vasculhando uma mochila sua que estava numa cadeira do conjunto da mesa. Mexe num notebook que devia ser seu e só então noto que ainda estava pendurado no celular.
– Desculpa... tive uns... problemas. Estou passando os documentos agora. Checa tua caixa daqui uns minutos... Tá... Eu levo amanhã.
Mais uma vez sai da mesa, dessa vez entrando no banheiro. Tempos depois ouço o chuveiro ser ligado e eu não mais sabia o que estava acontecendo. Impaciente, me dirijo até onde ele tinha deixado o notebook fechado, ainda estava ligado. Meu irmão saca o que eu ia fazer:
– Lena, é melhor não olhar.
– Eu preciso verificar. Algo não está batendo.
Abro o notebook, recebida por uma área de trabalho de imagem simples de um pássaro grande, acho que uma águia talvez, voando ao longe num céu aberto. Tinha que ser rápida, ele não podia me pegar bisbilhotando, assim não dava pra ficar observando muito. Vou ao menu e procuro dentre as opções por “Itens recentes” para checar o que ele estava fazendo, averiguar se ele realmente estava se fechando após o choque. No topo dos arquivos recentes tinham dois arquivos documentos, nomeados por “Formulário B” e “Cópia Contrato”.
Desconfiava que ele estaria ignorando seus problemas, vestindo uma máscara de indiferente para não ter que enfrentar as coisas. Tinha ele dito no carro quando mal tinha saído de sua casa ontem que tudo tinha acabado – isso porque naquela hora ele sabia apenas uma mínima parte de um todo – e da vez que ele brigara com a mãe na faculdade ele tinha decidido que ia se afastar, esquecer aquilo que não queria ser descoberto. Era algo para se preocupar, não?
Minha mente começava a maquinar sobre isso até que meu olho bateu no título de um arquivo específico no meio de outros tantos documentos. Ler “agridoce5” me fez gelar não sei porque. Olho a indicação do endereço do arquivo e sigo passando as pastas até encontrar as de fotos e pela exibição em miniatura identifico o que ansiava. Era a minha foto mesmo. Aquela minha perfeita com ele.
Co-o-omo ela tinha parado ali? Eu não tinha mostrado a ele... Ah, mas a Flávia mostrou no primeiro dia do evento. Ela não tinha me falado que ele tinha copiado... Sabe ela que ele copiou? Fecho tudo quando Murilo chega perto:
– E aí?
– Se for mesmo o que estou pensando... se sofrimento tem estágios, ele saiu da negação para indiferença. Talvez vá querer se afastar o máximo possível. Pode ter certeza que isso não pode ser deixado para se resolver sozinho...
– O que sugere então?
– Não sei. Quantos choques de realidade ele vai ter que tomar pra ver que disso ele não vai poder fugir?
– Num sei, mas parece ser algo difícil.
– Não disse que ia ser fácil. Quando ele sair do banheiro vou logo tomar um banho. Temos que estar preparados para qualquer coisa...
– O que eu faço enquanto isso?
– Faça-o comer alguma coisa, puxe um papo, sei lá. Aproveita e começa logo o almoço.
– Por que eu tenho que fazer o almoço?
– Porque quem fez semana passada fui eu.
Estava preocupada com o comportamento estranho de Vini, porém não podia deixar de colocar meu irmão pra botar a mão na massa. Era a vez dele, oras. Domingo passado parecia tão distante. Djane estava tão contente e agora devia estar o caco... era melhor que eu pudesse falar com ela cara-a-cara, porém, não dava pra deixar Vini sozinho, desse jeito, estranho.
Depois do banho, vesti o primeiro vestido que vi no guarda-roupa e fui ver como estava tudo na sala. A TV estava ligada num canal qualquer sem a atenção de alguém. Meu irmão estava na cozinha e Vini na sala, concentrado, mexendo no notebook, apático. Vestia a roupa do dia anterior, roupa formal de trabalho, a camisa dobrada nos cotovelos. Ai, meu irmão só deve saber ficar no meu pé, porque eu quando eu peço pra ele ficar no pé do outro, ele não o faz. Vini nem parecia ter me notado quando cheguei à sala:
– O que está fazendo?
– Eu fiquei de analisar e mandar uns documentos pra fechar alguns contratos.
– Hum. E você já se alimentou?
– Lena, não vamos começar de novo.
– Digo o mesmo, Vini. Larga isso e vai comer.
– Eu num to a fim... depois eu tento.
– De depois em depois, você enrola e fica fraco. É isso que você quer?
Ele bufa, fecha o notebook e vai para a cozinha. Toma uma xícara de café morno quase numa golada só, come um pedaço de pão e pega duas uvas. Eu não acreditava. Da cozinha ele não volta pra sala, ele passa para a porta da cozinha que leva à garagem, segurando o chaveiro de seu carro preso na passagem de cinto de sua calça. Ah, mas só ele pensa que pode sair assim...
Vou pela porta da sala para chegar ao pequeno terraço ao lado da garagem. Seu carro estava na rua, pois nossa garagem só tinha espaço para o carro do meu irmão. Ao perceber isso, ele tenta abrir a porta da frente para poder sair. Ainda bem que estava trancada.
– Lena, abre pra mim, por favor.
– Onde você vai?
– Eu... eu vou pegar minhas coisas.
– Não faça isso...
– Eu preciso, tá? Preciso de um plano para me reestabelecer... pego minhas coisas e, sei lá, fico com meu avô. Não dá pra voltar pra casa ou para meu antigo apartamento.
– Eu sei o que você está fazendo. Ou tentando fazer. Você quer fugir disso tudo.
– E se eu quiser, hein? Isso tudo não faz bem pra mim, então porque tenho que me desgastar mais com isso? Estou cansado de viver com pessoas que só me machucam, que não sabem viver senão mentindo...
– Quando uma goteira cai na nossa cama, não podemos simplesmente mover a cama a fim de se afastar. Nós devemos consertar a goteira, para então dormirmos em paz. Porque ela não vai se resolver sozinha.
– Só... abra a porta, Milena.
– Vou só pegar minhas coisas.
– Como assim?
– Eu vou com você.
– Não, não vai.
– É, eu vou. Alguém vai ter que segurar sua mãe. Nenhum de vocês está preparado para esse encontro.
Emburrado ele ficou todo o caminho, naquele silêncio desconfortável. Como era domingo de manhã, as ruas estavam livres, tornando o tempo rápido e curto até sua casa. Ele achava que podia me enganar. Sabe que sou teimosa, não ia deixá-lo sair sem mais nem menos assim no meio de uma crise.
Sem uma palavra sequer, ele abre a porta de casa e me deixa entrar primeiro. Logo ele corre para dentro sem me esperar, para arrumar suas coisas rápido antes que a mãe percebesse que estava ali. Bufo impaciente querendo dar um tapa na cabeça dele para ver se pegava no tranco, porque esse plano dele era muito do falho. Ele achava mesmo que podia entrar e sair sem ser notado?
Da sala eu podia ouvir que tinha alguém mexendo na cozinha – só podia ser dona Ana, começando o almoço – assim entro no corredor como se fosse minha casa, sem pedir por permissão, andando em passos silenciosos para que não me notassem. Mas notam, pois Djane abre a porta de seu quarto, que ficava de frente para o corredor e me encontra.
– Milena?
Sua voz fraca e arrastada quase não saía. A mulher estava um caos. Descrever seu estado seria quase pleonasmo por estar esperando algo daquele tipo. Ela pareceu ouvir o movimento do filho no quarto ao lado e ia se dirigir para lá se eu não a impedisse.
– É meu filho, você o trouxe de volta.
– Não, Djane, ele não está de volta.
– Porque não? Essa é a casa dele, ele deve voltar. DEVE.
Vini sai do quarto com uma mala de mão cheia e passa por nós como uma bala sem nem ao menos nos olhar. Se ele achava que isso era ser forte, estava muito enganado. Se fosse preciso, eu jogaria na sua cara que não era, porque fugir não era a solução.
– Filho?
– ...
Djane corre para alcançá-lo na sala. Eu vou atrás também. Logo dona Ana aparece enxugando as mãos num pano de prato alarmada com a cena que se seguiria. Djane tenta mais uma vez chamar a atenção dele. Dessa vez ele vira, mas é tão frio que até eu senti o gelo no meu coração. Ele estava se fechando.
– Filho?
– Você não é minha mãe.
– Vinícius!
Repreendo-o na mesma hora. Isso só pioraria o caso. Djane quase engasga no choro que estava começando mais uma vez, deixo-a com dona Ana e sigo o Vini que estava apressado para sair dali. Só que eu não iria dessa vez.
– Vamos, Milena.
– Não.
– O quê?
– Vai você, eu vou ficar.
– Mas...?
– Ela também precisa de mim.
Ele passa a mão no rosto indignado e finge deixar isso pra lá. Devia pensar que não tinha tempo para discutir comigo, provavelmente sabendo que perderia, porque, mesmo com o que ele chama de “dom da persuasão”, eu tenho teimosia o suficiente para defender uma causa. Não me convenceria fácil, não sem antes uma bela discussão. Como o que mais ele queria era sair dali, ele deixou o vácuo do que seria essa discussão.
– Milena, o que está acontecendo? Eu não entendo.
– Vamos entrar Djane, vou contar tudo que quer saber.
Conto mesmo. Desde a hora que tudo começou na calçada de sua casa até quando eu achei que ele soubesse tudo, que na verdade, não era tudo. Djane engasga com a água que dona Ana levou para ela ao saber que eu tinha contado a história toda para ele. Eu não sentia culpa, de forma alguma.
– Eu tive que contar, era o jeito, não dava pra mentir sobre isso. Você sabe que eu não mentiria a esse ponto. Claro que não era meu papel, mas eu tive que representá-lo. Ele não aceitou nada bem, Murilo até... bem, meu irmão meio que o agrediu quando explodiu para cima de mim.
– O QUÊ?
– Foi apenas um soco no calor do momento. Ele se arrepende, achou que era a única forma de contê-lo ao se manifestar daquela forma. Depois veio o entorpecimento, foi aí que ele dormiu.
– Eu per-perdi meu filho ago-gora, Milena. E-ele não vai... não vai me per-perdoar. Saiu tu-tudo errado.
– Isso ia acontecer uma hora ou outra, Djane. Quanto mais esperasse, pior ficaria. Agora se trata de quebrar todas as barreiras, de se expor para que encontre o equilíbrio... o fato é que ele quer se fechar, quem sabe achando que isso o proteja de novas mágoas, mas isso não resolve. Enquanto ele também não ceder, deixar de fugir, essa ferida não vai cicatrizar, muito menos ser fechada. Ninguém pode viver de raiva e ódio por muito tempo...
– Como eu faço isso? Ele mesmo acredita que não sou mais sua mãe. Meu menino está escapulindo de minhas mãos.
– Dê tempo ao tempo, dê um pouco de espaço. Tentar controlá-lo só vai deixá-lo mais revoltado e sufocado. Tenha esperanças de que ele vai cair em si...
– E se... e se issssssso não acontecer?
– Vamos continuar tentando.
Cuido dela com a ajuda de dona Ana pelo resto do dia. Faço que coma um pouco para que também não ficasse fraca. Consolo-a e converso acalmando-a mais. Percebo que fica mais segura de ter-me ao seu lado. Evitei ao máximo chorar com ela para que não desmoronasse mais, o que foi bem difícil, pois era complicado engolir as lágrimas para que não escorressem. Quando estava para anoitecer e tinha conseguido fazer Djane dormir um pouco, ligo para meu irmão. Pergunto de Vini, se havia voltado... Ainda não, nem notícias. Poderia estar com o avô, não queria ligá-lo e ficar questionando... tinha que dar espaço a ele também. Murilo não demora muito e chega para me buscar.
Djane acordou pensando que era Vinícius, frustrando-se mais uma vez as esperanças que lhe seguravam. O tornado ainda não tinha passado, não podíamos esperar mais que isso mesmo. Em urgência, ela nos pede para cuidar do seu filho, pois tinha uma tamanha confiança em nós para entregar seu bem mais precioso. Essa foi uma das horas mais difíceis pra mim de aguentar, assenti e esperei sair daquela casa para chorar um pouco. Murilo também se abatia, apesar de se aguentar mais.
– Como vai ser amanhã?
– Ela não poder dar aula desse jeito. Vai falar com o diretor avisando que não vai poder ir. As provas finais que ela vai aplicar estão prontas, falta só marcar o dia. Isso ela vai resolver com o diretor sobre como vai ficar.
– E você?
Deito a cabeça no vidro da janela do carro. A noite começava, a lua crescente me chamava. Me dizia que a aparente calmaria era só uma máscara, que ainda haveria muita coisa até que ela se tornasse cheia e minguante. Me alertava sobre o fim do ano e todas as coisas que vêm com isso, viagem, festas, família... o tempo se esgotava. Deixar que mais um ano começasse desse jeito estaria dando tempo para que as barreiras se estabelecessem...
– Até tenho prova amanhã. Minha sorte é que consegui estudar antes... agora preciso é me concentrar nele. Antes que ele faça alguma besteira.
– Num sei não. Não é melhor que ele dê um tempo?
– Ele já tem tempo. Vai querer usar da forma errada, vai querer fugir. Você viu como foi hoje de manhã. Vai ser mais difícil se ele se afastar assim...
– Qual é o plano?
– Ainda não sei. As coisas estão muito incertas pra traçar algo.
Ao chegar na nossa rua, vemos o carro de Vinícius estacionado do outro lado da rua e este sentado na porta de nossa casa, de cabeça enterrada nas próprias pernas. Pelo menos ele tinha voltado.
~;~
Ele ia ficar na casa do avô. Só que um detalhe havíamos todos esquecido: Filipe.
Ele voltou de sua viagem, ligou para Vinícius quando estava na casa do avô... seu Júlio que atendeu o celular do neto, avisando para o filho o que tinha acontecido. Por isso Vinícius mais uma vez pegou suas coisas e saiu de lá, antes que Filipe aparecesse e... ele não estava preparado para lidar com aquilo no momento. Filipe não sabia onde eu morava, então Vinícius teria onde se “esconder”. Só que eu não queria que ele se escondesse, não assim.
Agora mesmo que ele não aceitava comer. Consegui empurrar pelo menos a água de coco. Filipe ligou tanto para seu celular que ele teve que desligar. Depois que saí do banho, encontrei de novo ele no notebook. Ao perceber minha presença, noto que ele se apressou em fechar o que estava fazendo. Murilo não estava no recinto.
– Não me diga que está trabalhando de novo.
– Estou apenas... checando umas coisas.
– Está fugindo das coisas, você quer dizer, né?
– Quer que eu faça o quê? Que fique chorando pelos cantos pelos erros dos outros? Que fique me matando procurando respostas para o que eles fizeram? Você ainda quer ver minha derrota?
O deboche dele não me atinge. Era uma defesa, fraca, mas era a única que ele tinha no momento. Por isso eu tento trazê-lo de volta à realidade.
– Antes vê-lo no chão do que de pé, forçado, moldando-se à dor. Fugir é uma péssima ideia, não percebe? Isso vai te consumir.
– Não preciso de sua pena.
– Quem falou em pena? Tenho preocupação. Eu me importo com você, oras.
Agora ele tenta fugir de mim. Levanta-se e vai pra a cozinha, abre a geladeira em busca de água... devia achar que eu ia deixar o assunto sem mais nem menos. Ah, mas eu não ia mesmo. Sento na mesa da cozinha e começo a desabafar também. Não seria nada fácil me expor diante dele, mas era algo que eu tinha que confessar um pouco. Assim, com os nervos começando a ficar alterados, o coração batendo mais forte, evito de olhar diretamente para ele, encontrando uns riscos na mesa os quais eu poderia me concentrar melhor:
– Você tinha razão. Costumo falar para as pessoas fazerem isso e aquilo, dar conselhos e quando se trata de mim eu também fujo, para evitar mágoas e outros problemas mais. Eu não vejo o real problema e acho que escapando, evitaria mais constrangimentos. Quando se tem uma fobia, por exemplo, a raiva geralmente se direciona a nós mesmos por fraquejar ante uma coisa que normalmente é uma besteira para tantos outros. Pra mim não é, é motivo de vergonha mesmo... me expus tanto naquela noite que se pudesse apagar, eu o teria feito.
Ele senta-se a minha frente. Ainda assim não deixo de olhar para a mesa.
– Mas você não deixou, você me enfrentou. Você fez com que eu me questionasse... Desde que nos conhecemos, eu só pensava em ajudar. Desconsiderei que também precisava de ajuda. Como uma vez me falaram, quando se trata de nós mesmos, é fácil se esquivar até que alguém nos faça parar e encarar as coisas de fato. É mais fácil dizer ao outro o que fazer se é você que está do lado de fora da ordem... Então desculpa, desculpa por falar uma coisa e fazer outra. Por às vezes exigir tanto de você e não pensar no seu lugar. Por ter desprezado o que era sua ajuda. Espero que não despreze a minha.
– Não desprezo. Pode ter parecido que ignorei você, mas o que eu tinha em mente era não fraquejar também... eu não quero ser um derrotado a sua frente. Sua opinião me é algo muito valioso para... para...
Ele captura minhas mãos que acompanhavam os riscos da mesa, abaixa um pouco a cabeça para ver se eu o olhava. Ele queria total atenção... como poderia ignorar? Não resisto.
– Para?
– Para deixar de lado. Ainda tem muita coisa embaralhada na minha cabeça, uma confusão de sentimentos que ora me faz querer gritar, ora abafar, ora questionar, ora esquecer... Estou uma bagunça. Mesmo assim quis mostrar que poderia estar superior a isso. Sei que posso superar.
Uma determinação me bate. Aperto um pouco suas mãos em resposta para enxergasse melhor o que estava fazendo. O que me movia podia ser meus sentimentos verdadeiros por ele, porém não era hora de trazê-los a tona. Havia conflitos demais numa conversa só.
– Mostrar superação não é o mesmo que sentir a real superação. Por que se iludir ou me enganar quando isso ainda está aí te confundindo? Eu te quero bem, que lide com isso, pois eu estou aqui para te apoiar. Quando eu entrei naquela sala do diretor e ouvi sem querer o que Filipe dizia, lembro de ter pensado que, por anos eles estão nessa briga justamente por exigir demais e não ceder, numa guerra que te arrastaram e se preocuparam em apenas se defender. Anos, Vini... anos perdidos. Quanto mais eles não cediam, mais o outro contra-atacava, numa briga infinita. Se deixasse seria infinita mesmo... por isso eu peço que também não fuja, pois isso não vai se resolver por si só. Sei que estou pedindo demais, mas sinto que se não for você para dar um basta, quem o dará?
– E-eu... eu não sei como fazer isso parar. Eu não posso... não dá pra olhar para o Filipe como meu pai, não dá pra respeitar minha “mãe” quando ela não a é, não dá pra acreditar em mais nada que eles me disserem, não dá. Não dá pra dizer que foi por amor a mim que eles fizeram isso, eles foram muito egoístas... traidores.
– Você sabe que estou do seu lado. Que não concordo e nunca concordei com o que eles fizeram... mas sabe que não é bem isso que eu penso deles. Eu acho que ainda tem muita história para explicar isso... e, se uma vez você tentou ir atrás, e tendo conhecimento disso agora, você poderia “cavar” melhor. Que vai doer vai, mas já está doendo, e vai continuar doendo e machucando.
Espero que isso o anime mais, pare e pense sobre o tem feito e no que pode fazer para melhorar a situação. Minhas mãos nas dele, firmes na esperança de logo as coisas começarem a andar novamente. Ele as aperta um pouco mais e eleva para seu rosto, onde deixa um despretensioso beijo que me faz querer algo bem mais “pretencioso”. Suspiro baixo ante meu desejo. Não, agora NÃO, Milena. Você tem outras coisas mais pra se preocupar.
– Às vezes é difícil acreditar que você está aqui. Ou que eu estou aqui. Você sempre parece ter uma resposta na ponta da língua... E eu pensando que tenho o dom da persuasão.
Deixa um leve sorriso, meu querido sorriso que desejava ver, escapulir. Eu também. Estávamos naquela bolha novamente.
– Fico pensando se esse dom não é algo que... pessoas como nós, rodeadas de pessoas muito protetoras, têm que desenvolver.
– Murilo pega mesmo no teu pé, né?
– Você não faz ideeeeia do quanto. Também temos nossas batalhas... Mas agora, vamos dar uma olhada nesse seu corte aqui.
– Aw.
O clima estava friozinho de novo, por isso estávamos de pijama quentinho, com calça e camisa. Na verdade, eu ainda estava de meia, pois hoje parecia mais frio. Quando ele levantou seu braço para dar-me um beijo na mão ainda pouco, eu vi o arranhão que tinha lá. Só que ele pensa que eu falava do corte no seu lábio, do soco de Murilo ontem, passando a mão por cima em pequenos toques verificando o quão dolorido estava.
– Não esse, bobo. Esse aqui do seu braço.
– Ah.
Levanto e procuro numas gavetas da cozinha algum medicamento cicatrizante. Ao encontrar, deixo em cima da mesa e saio para arranjar algodão. Quando volto do meu quarto com umas dessas bolinhas, ele está lendo o rótulo do vidrinho. Pior que só tinha álcool-iodado... e isso arde consideravelmente. Entretanto, atua que é uma beleza.
– Isso não arde, arde?
– Um pouquinho... você aguenta.
– Aw.
– Vini, você já sofreu um acidente de carro, esteve no hospital por quase 4 meses, viu mais agulhas que o Murilo, vai fazer cara feia pra esse remedinho? Eu assopro se for o caso.
Reviro os olhos pra ele, divertida, feliz por ele estar bem mais receptivo e até fazendo graça, pois cada vez que tento colocar o algodão molhado do remédio no seu braço, ele move. Desafiante, agarro seu braço, estico-o na mesa e passo o remédio de vez. Ele aperta os olhos e amassa os lábios ante aquele pequeno ardor, visão que me faz desejar estar mais perto e poder... hum. Engulo em seco. Deixa pra lá.
– Assopra, assopra, assopra...
Se pudesse gargalhar, teria o feito. Estava a coisa mais fofa. Assopro um pouco e deixo um beijinho na palma de sua mão lembrando que eu tinha falado sobre isso dias atrás com meus amigos. Não resistindo, começo a rir abertamente. Antes que ele abra os olhos, levanto para jogar o algodão fora e guardar o remédio.
– Você faz é rir, né? Eu aqui sofrendo...
– Tá é bem... nem Bruno conseguiu beijinho.
– Hum?
– Sexta ele escorregou num piso molhado, tentou se apoiar numa porta, mas não deu jeito, fez foi piorar porque ele caiu e ainda arranhou a mão. Aí ele ficou resmungando, que eu estava rindo da desgraça dele. Disse a ele que estava sendo uma boa amiga, que amigo que é amigo, faz o outro rir, então eu estava cumprindo meu papel, rir. Ele reclamou de dor e eu disse vagamente que era só dar um beijinho que passava... mas essa foi pra Dani. Estou pensando em ser cupido desses dois.
– Ah, tá. E ele não conseguiu nada?
– Só um band-aid meu. Mas mais engraçado mesmo foi a cara dele quando eu disse que a caixa de band-aids na minha bolsa tinha sido um presente de amigo-da-onça da Flávia. Quase igual a essa que você está fazendo agora. Imagine quando souber o que dei a ela em retorno... e sim, de um grupo todo, nós tiramos uma a outra.
Lavo minhas mãos na pia e verifico no forno se meu irmão tinha deixado algum jantar lá. Ainda bem que sim, a fome começava a me pegar de jeito. Puxo a travessa de macarronada – tinha que ser macarronada, a cara dele – colocando-a para esquentar no micro-ondas.
– Tenho medo de perguntar o que você deu. Você sempre me surpreende...
– Olha pra baixo.
– Pra baixo?
– Olha para meus pés.
Ele olha para minhas meias e levanta o rosto de volta num misto de surpresa e espanto. Eu usava um pés de meias diferentes. Uma branca e outra colorida do mesmo tamanho, chegando um pouco acima dos tornozelos.
– Como eu não vi isso antes?
– Num sei. Murilo já está acostumado.
– Mas... eu ainda não entendi.
– Meu presente foi um par de meias diferente, oras. Ganhar um par de meias não é um presente legal por si próprio, mas como a intenção da brincadeira é zoar, eu comprei dois pares de meias e troquei as peças entre si. Ela tem uma branca com colorida assim como eu.
– Lembre-me de fazer apenas amigo-invisível com você.
– Foi o mesmo que o Bruno tinha me dito. E agora até agora ninguém comentou se vai haver um ou não, pois logo vamos entrar de férias...
Falto devorar a macarronada da travessa só com os olhos depois de pronta. Só não o fazia porque ele estava olhando... e, impressão minha ou ele também parecia com vontade? O apetite voltou, foi?
– O que é que você tanto olha? Pensei que você não queria comer.
– Agora olhando...
– Tá, vou pegar um prato.
Notas finais
Quer mais uma prova?
Olha o trechinho do próximo:
[...]
- Hoje teve um assalto na rua.
[...] Se ele dissesse que tinha havido um ataque a uma moradora, eu teria até concordado. Mas assalto? Isso não teve. Eu estava lá, fui eu a vítima. Eu não queria ter que falar sobre o assunto... só aproveito que ele fez o gancho.
- Ah, eu sei. Fui eu.
- O QUÊ?
Os dois gritam ao mesmo tempo e eu me escondo atrás da minha xícara. [...]
- Como assim? Eu te busquei lá na padaria.
- É que foi antes disso... E não foi assalto, apesar de eu ter achado que era no começo, por isso gritei ladrão quando o cara me pegou pelo braço.
- E VOCÊ SÓ DIZ ISSO AGORA?
- Tá, maninho, eu falo o resto amanhã...
- Milena!
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