Notas iniciais
Acho que hoje tô a fim de postar ~lá vai mais um combo~

– Alô?

– Milena, é o... Bruno.

– Oi, Bruno, e aí?

– Lena, estou ligando porque acho que não vou pra faculdade hoje, então pode me cobrir caso tenha alguma reunião, algum movimento da monitoria? Me manda mensagem me falando como foi.

– Poder eu posso sim, mas por que você não vai? Algum problema?

– Não é bem problema... Er... hoje eu vou falar com a Natália. Vou daqui a pouco pra casa dela e não sei que horas devo sair de lá. Quero ver se hoje ela coloca tudo em pratos limpos sobre nossa relação... ou antiga relação... ou o que foi nossa relação... você entendeu. Quero saber como nós parecemos dois estranhos agora.

– Mas tá tão cedo, Bruno, acabo de almoçar. Ainda tem umas 6h até a aula...

– Eu não quero ter que me prender a horários, Lena. Só me diz que pode me cobrir.

– Então me responde algo primeiro: você tem certeza que está em condições pra ir nessa? Quer dizer, lembra o que aconteceu das vezes passadas?! Se você quiser, eu vou com você, fico no carro, mas vou pra te apoiar.

– Valeu, mas não precisa. Acho que tenho que lidar sozinho.

– Bruno, toda vez que você lidou sozinho não prestou.

– Não sei o quanto isso pode demorar, Lena. Vai que você passa a tarde no carro me esperando? Você deve ter outros compromissos, trabalhos, sei lá.

– Se for importante pra você, eu até carrego a Dani. Você sabe que com a gente dá pra “vomitar” tudo! Levamos uns salgadinhos e temos com o que nos entreter.

– Só vocês mesmo pra inventar uma coisa dessas.

Ouço um tom diferente seu, um de reconsideração?

– Isso quer dizer que você tá cedendo?

– Ok, me convenceu. Só porque... TALVEZ... talvez eu precise de um bom apoio. Passo aí dentro de uns 45 minutos. Se a Dani puder aparecer aí, melhor. Compramos os salgadinhos no caminho.

– Bom plano, boa escolha. Vou falar com a Dani.

Falo com a Dani logo em seguida e vou me arrumar para encontrá-los. Deixo logo meu material da faculdade pronto para o caso de ir direto pra lá. Aproveito e mando uma mensagem à professora que hoje só converso com ela por lá mesmo, essa tarde tenho “compromisso” e ela me responde que até a hora da aula já deve ter algo sobre o Filipe para conversarmos.

Topo com Murilo no corredor, ele atrasado para o serviço... me apresso também para não demorar, sabendo que o Bruno logo iria aparecer. Sem que um atrapalhe o outro, passo correndo para o quarto e ele segue indo e voltando do seu.

Penso em vestir calça, mas se eu realmente ficar no carro a tarde toda esperando, vou ficar inquieta. Além do mais, minhas calças ainda estão enxugando no varal... como amanheceu nublado, muita roupa ainda não secou. Apesar desse tempo, o dia estava bem quente, e pelo que me lembre, o ar-condicionado do carro do Bruno ainda ia ser consertado. Logo, usar calça não é boa opção, assim como saias e vestidos brancos... A última vez que usei vestido branco na virada de tempo não foi agradável, então prefiro não arriscar. Pensando no que dá pra vestir mais rápido e nas condições do dia, ainda ouço Murilo correr de um lado para o outro, arrumando suas coisas antes de sair de casa e me lembro de perguntar a ele sobre o tempo. Grito:

– Hey, HOJE VAI CHOVER?

– POR QUÊ?

– PORQUE DA ÚLTIMA VEZ QUE USEI VESTIDO, VOCÊ NÃO ME AVISOU QUE IA CHOVER! E ERA BRANCO!

A porta do meu quarto estava fechada e eu o ouvia perambulando pelo corredor até que ele parou. PRA RIR. DE MIM. Indignada, abro minimamente a porta do meu quarto para encontrá-lo às gargalhadas se segurando na parede do corredor. Saio e fico diante dele com a mão na cintura me lembrando desse dia... ele teve folga por quase o dia inteiro, só saiu depois de mim e não me avisou de nada da chuva. Nem comentei depois porque foi nesse dia que aconteceu a confusão no hospital, mas agora olhando pra cara dele, me veio um “clic”. Estreitando meus olhos, começo bem devagar:

– Você sabia que ia chover e não me disse de propósito, né?

– Yeah, eu sabia.

– Por que eu tô achando que tem mais nessa história mesmo?

– Tudo bem, eu conto... Até eu já tinha esquecido isso, mas agora que você falou, eu não me aguentei mesmo, sério. Lembra da vez que você foi lavar roupas e um monte de peças minhas saíram coloridas, quer dizer, rosas?

– Aham. Foi difícil de tirar a coloração, mas consegui. O que tem a ver?

– Pois é, antes de você conseguir isso, eu tive que ir pro trabalho de camisa social rosa porque não tinha camisa branca limpa. O pior não foi esse... minha cueca também estava rosa e os caras lá do departamento acabaram vendo numa hora que eu tava largado dormindo na cadeira. Então eles armaram de jogar café na minha calça do trabalho pra que eu tivesse que trocar... Quando fui no vestiário pra tirar, eles me encontraram de cueca rosa. Eu tentei explicar pra galera que a culpa era sua, só que aí eles começaram a tirar fotos e... e eu fui parar no mural da vergonha...

Soltei a melhor gargalhada que tinha no momento, imaginando essas fotos. Onde será que elas estão? Se eu soubesse disso antes, teria falado com os caras quando apareci lá no trabalho dele. Eu queria, porque né, caramba, essa cuequinha rosa fez sucesso! Será que se eu pedir pra ver esse material, ele ficaria muito zangado?

Bom, ele me olha com raiva de primeira instância para depois voltar com um sorrisinho que não gostei nada, a ponto de me fazer parar de rir quando ele me diz:

– Bom, aí eu pensei “tenho que aprontar uma com ela também”. Pensei o final de semana todo, mas nunca me aparecia boas situações. Até que na segunda, vi que você precisaria da impressora... então dei um jeito de desconfigurar tudo.

– AH SEU... Eu tinha trabalho pra entregar naquele dia.

– Eu sei, mas era só você imprimir em outro lugar. De começo, só fiz te atrasar.

– E de fim, o que foi que você fez?

– Bom, eu não fui trabalhar cedo nesse dia, mas tava acompanhando os processos com meus colegas online... tinha que me manter atualizado, né? Vi que teria uma chuva forte no começo da noite... e ao te ver doida tentando imprimir o trabalho, lembro que você pegou um vestido pra ser mais rápida. E eu sei o quanto você odeia usar vestido em dia de chuva, principalmente branco... então me mantive calado. Mas não se preocupe, maninha, hoje não vai chover. Isso eu garanto.

– Não acredito que você fez isso, não acredito. Putz, nem foi culpa minha a história das roupas brancas virarem rosa na máquina de lavar! Você que não foi cuidadoso de verificar antes.

– Eu? Você! Era sua vez de lavar... quem tinha que olhar era você.

– Ah tá, da próxima que eu encontrar dinheiro, vou nem fazer a boa ação do dia de te devolver, você é muito ingrato. Eu sou a inocente aqui, você deveria se vingar era deles, oras!

– Ingrato? Você que aprontou comigo! Quem foi que riu quando eu tive que sair pra trabalhar naquelas condições? Mas não se preocupe, não é só com você, o que é deles tá guardado. Nem deu pra te ver molhada, então desse plano só me serviu te ver doida gritando com a impressora. Quando foi mais tarde e te liguei, você estava muito calma pra quem devia estar ensopada, então achei que o plano tinha falhado. Quando você chegou em casa, não reclamou nem nada... nem comentou no dia seguinte. Então achei que você tinha escapado da chuva. Me contentei então de ter te filmado com a impressora mesmo...

– Não me diz que você postou isso na internet...

Uma vez Murilo quase fez isso, no auge de uma briga nossa. Só que mamãe descobriu e confiscou sua câmera. Pra consegui-la de volta foi uma dificuldade só, o que achei bem feito, porque isso na mão de meu irmão significa desastre.

– Eu iiia postar... mas não deu, porque o cabo da câmera tava com mal contato e depois eu esqueci de passar pro computador... mas pode deixar que te mostro quando eu conseguir.

– MURILO! NÃO! Cadê essa merda, cadê?

– Ah, você acha que vou te entregar assim mesmo? Te toca, Lena! Isso é ouro de troca em minhas mãos.

MEREÇO? MEREÇO?

MEREÇO NÃO! Encaro-o de olhar semicerrado, parada no mesmo local, com a mesma pose de antes, querendo fuzilá-lo com um laser que devia – DEVIA! – sair de meus olhos. Ele ficou no mesmo lugar, de braços cruzados se deliciando com meu eminente ataque. Uma raiva foi subindo e só pude soltar um urro baixo, fechar minha mão com raiva e... e... respira, Milena, respire, mulher! Inspira, expira, inspira, expira...

Um-dois-três, quatro-cinco-seis, sete-oito-nove. Tenho que me controlar. Abaixo a cabeça momentaneamente buscando ar pra arejar o cérebro, quem sabe clarear um pouco...

Não tenho tempo pra isso, logo a Dani vai chegar aqui e o Bruno também. Não adianta eu brigar, avançar no meu irmão, se ele é isso que quer... me ver com raiva, vingado. Tenho que usar a cabeça, isso sim, reverter para não sair prejudicada. Pensa, pensa, pensa rápido! Como sair dessa situação?

Levanto a cabeça devagar por uma luz rápida passar pela minha cabeça.

Me sinto num momento Jimmy Neutron – é, eu assistia o desenho – quando ele falava “ideias a mil”. Uma brilhante ideia aparece quando mais preciso: indiferença. Isso! Quanto mais eu parecer me importar, ele mais vai provocar; se eu mostrar que não estou abalada, ele que vai ficar frustrado. Vou transformando minha expressão facial de raiva e indignação pra calmaria e superioridade.

Ele que fazer graça? Vamos fazer graça...

Impressão minha ou estamos começando um ciclo vicioso de vingancinhas?

– Quer saber, Murilo? Guarde esse vídeo mesmo, é bom ter uma moeda de troca de vez em quando...

E entro no meu quarto, batendo a porta bem forte. Me encosto nela e fico lá escorada até ouvir ele sair do corredor. Pelo menos ele me deu uma informação boa, quer dizer, algumas informações:

1. O desastre daquele dia foi tudo planejado por ele. SACANA!

2. Existe um vídeo meu escondido, que, a propósito, preciso achar (um caso para investigar depois). Se eu achar o vídeo de vigilância dele no hospital, quem sabe ajude também... mas fica pra depois.

3. Devo me perguntar se é esse tipo de pessoa, apesar de amá-lo incondicionalmente, que deveria empurrar pra cima da Dani?

4. E mais importante no momento: NÃO VAI CHOVER. Já mais satisfeita, vou ao guarda-roupa pegar um vestido solto pra esse calor.



~;~



– E quando eu voltar é melhor que vocês não tenham acabado com tudo, hein! Sem falar que eu mandei lavar o carro ontem, então se sujarem, eu vou cobrar.

Bruno enfia a cabeça pela janela do motorista que ele deixou aberta – para arejar mais, o dia estava beeem quente e o ar-condicionado dele ainda não estava bom – e aponta o dedo pra Dani que estava no banco de trás toda esticada com um salgadinho em mãos. Aproveito que agora que ele saiu do carro para me esticar também... tiro as sapatilhas, me acomodo mais no banco do passageiro e jogo as pernas para o banco do motorista, sem deixar de ajeitar meu vestido para que não aparecesse coisas demais. Dani retruca antes de ele ir.

– Se você demorar... não posso prometer nada.

– Deixa pra lá e vai logo, Bruno, quanto mais você enrolar, mais demora, mais a gente come besteira e fica nada pra você. Qualquer coisa só me avisar no celular.

Ele foi, desconfiado e ansioso, mas foi. Aposto que estava de birra com a Dani pra aliviar seu nervosismo de vir aqui na casa da “moça que destroçou seu coração”. Digo moça porque a Dani já deu outro nome não muito agradável à garota, então prefiro ser mais elegante e tentar não me rebaixar ao nível daquela vaca que atordoou meu amigo. Ops!

A vaca... digo, a garota, vive numa mansão de um bairro nobre da cidade. A garanto tá PODENDO como diriam algumas pessoas... Não sei quem ela é, mas Dani e eu ficamos curiosas logo ao entrar na parte da garagem-pátio-jardim da casa. Era de céu aberto, tudo muito lindo, muito verde o jardim, muito azul a piscina mais a frente, muito cinza o cimento do pátio, com várias árvores por trás da piscina, bem tranquilo. Era enorme, isso sim. Grana não devia faltar por aqui.

Ligo a rádio procurando alguma coisa pra não ficarmos no silêncio e paro na primeira que me aparece algo decente. Era alguma da Alanis Morissete, reconheço pela voz e estilo dela de melodia, mas não sei dizer qual era o nome da música. Quase passei e Dani me pediu pra deixar nessa mesma.

– Será que isso demora muito?

– Sei lá. O que importa é que de fim ele pode acabar de uma vez por todas. Ele tava bem determinado quando me ligou.

– Pelo menos. Essa... “moça” como você bem chamou, não o merece. Devia ser jogada nessa piscina e afundar de vez.

– Dani, só porque o Bruno tá meio atordoado com a garota não quer dizer que ela seja má pessoa. Já ouviu aquela história de “conheça primeiro, depois fale com a certeza”? Desse jeito. Se ela fosse tão ruim assim, você acha que ele teria ficado tanto tempo com ela assim? Eles eram amigos acima de tudo. Agora que ela vai embora, bem, melhor eles darem um ponto final decente, né?

– Hum. Eu sei... mas não dá vontade de jogar essa menina na piscina e afogá-la?

Encostada na porta do lado do passageiro, posso ver, no breve e vago espaço do apoio de cabeça do banco e do vidro do carro, Dani na mesma posição que a minha, com o pacote de salgadinho no colo, com uma cara bem pensativa, olhando em direção da piscina um pouco mais a nossa frente. Não parecendo estar muito brincalhona, fico assustada com o que quer que ela esteja pensando. Não que eu tenha pouca estima pelo Bruno, mas ela não está exagerando?

Divago.

– E do que adiantaria você jogar a garota se ela está na casa dela? Você também ia se molhar tentando matá-la... Então quando o Bruno finalmente te fizesse largar os cabelos da menina, você molharia o carro dele e teria que pagar.

– Não sou tão rica quanto ela, mas dá pro gasto. Seria um dinheiro bem “gasto”. Só que não pegaria pelos cabelos, dava logo um soco pra ela voar. Ou mesmo uma voadora. E ainda ajudaria no calor...

Sabe aqueles momentos que a pessoa fala serinha e no fundo só está brincando? Geralmente é assim com a Dani. No entanto, dessa vez, ela falou como se... se visse fazendo isso, não exatamente sendo irônica.

Só me restou levantar uma sobrancelha em total estranhamento de seu comportamento que ela não podia ver. Aí que começa a rir sozinha. E a última vez que estive num carro com uma suposta maníaca... bom, melhor não comentar.

– Hã... Dani, você... você tá de brincadeira, né?

– Claro, não mato nem mosca, apesar de ter vontade.

O que será que ela quis dizer com isso? É pra se preocupar também?

Balanço a cabeça em negação pra não levar isso pra outros lados. Deve ser pegadinha dela mesma comigo, deve ser isso...



~;~



– Eles estão demorando...

– Dani, num faz nem quarenta minutos ainda.

– Ih, olha!

– O quê, onde?

– A música, adoro essa música.

Ela se mexe no banco de trás, senta no meio e se aproxima do espaço entre os bancos de frente para aumentar um pouco o volume. Me aproximo e abaixo de novo já sabendo o que ela ia fazer – ela costumava fazer isso quando o motorista do ônibus deixava a rádio ligada – e como estávamos em uma residência desconhecida, melhor manter o nível baixo. Ela não se importou, porque quando vocalista fazia a entrada musical, ela o acompanhou teatralmente e vocalmente. Nem eu resisti, o legal era desafinar mesmo.



Trilha citada: My Chemical Romance – Welcome To The Black Parade

http://www.youtube.com/watch?v=-q9q6zl3WIs



(...)

– WE’LL CARRY ON, WE’LL CARRY ON…

Justamente como fazíamos meio “triloucas” cantando no ônibus, soltamos a voz. A casa era grande, tranquila e até meio deserta. Até alguém nos ouvir, seria difícil, porque, mesmo não tendo a plateia do bus dessa vez, a gente manerou na voz. E desafinadas como somos, não tinha como alcançar bons e altos tons mesmo.

Depois de My Chemical Romance, prestamos mais atenção na lista de músicas. Cantamos a seleção boa que se seguiu, dando umas alternadas... Ô se estivéssemos no ônibus. Era tudo muito misto e bom, mas foi só se vangloriar que a lista da rádio começou a decair... Mas era uma ótima forma de passar o tempo, não dava para negar.



~;~



Não tem ninguém nessa casa além deles, não?

Sério, faz quase duas horas que estamos sentadas aqui e nada de alguém aparecer, passar, nem ouvirmos passos de longe.

– E então Lena, como anda a vida?

– Pregando peças de vez em quando, o normal de sempre. E você?

– Tô com a bunda dormente.

Tentando achar uma nova estação de rádio boa, tive que virar pra trás pra ver essa doida se remexendo no banco de trás. Pior que eu também já estava ficando assim, já tinha me virado umas trezentas vezes, cruzado e descruzado as pernas umas quinhentas e confortável não estava mais.

– Vo sair, tô nem aí.

Dani abre a porta e sai. Faço o mesmo e nos esticamos um pouco, dando uma boa alongada e dando uns “crec” no corpo enquanto observava mais a casa. Dani quebra o silêncio com mais uma das suas:

– Quer saber? Eu vou lá. Isso tá demorando mais do que deveria.

– Não, Dani, tá louca? Interromper a essa altura da história... Vai ficar é aqui.

– Não é como se eles estivessem se agarrando ou algo assim... mas pode deixar, não vou interromper, vou ver como que o negócio está. Essa curiosidade tá me matando, num tem jeito. Vou lá, com ou sem você.

Tento puxá-la de volta quando sai a caminho no pátio da garagem, tentando achar uma entrada aberta. Do lado onde o carro estava tinha uma, fechada, assim como todas as janelas da lateral da garagem-pátio. Não tendo sucesso, me resta acompanhá-la, chegando mais a frente onde encontramos um terraço-social, cheio de mesas e cadeiras, sofás e TV. Mais uma vez, silêncio. A nossa frente tinha outra parte da casa, com escadas e um andar e pra trás uma entrada da parte da casa que se estendia ao longo do lado da garagem, com a área aberta. Mais pra esquerda, o pátio seguia pra área da piscina com jardim e atrás do muro do fundo dessa parte, tinha aquelas árvores que vi quando entrei. Tinha uma passagem ao lado do muro lateral da piscina que levava a essas árvores.

Pra uma mansão, parecia mais uma chácara misturada com sítio do que uma casa convencional. Dani me cutuca e aponta pra cima, onde uma de duas janelas do primeiro andar estava aberta e mostrava alguém encostado nela. Era Bruno, reconhecemos pela camisa escura. Não dava pra ouvir nada, mas tão logo ouvimos algo que não pensamos em encontrar e anunciou logo sua presença: cachorro. Quer dizer, cachorro brabo.



Trilha Indicada: Arctic Monkeys – Brianstorm http://www.youtube.com/watch?v=WYtTXBrY9Fk



Dani se joga pra cima de mim com um “Ave Maria” e ficamos as duas paralisadas olhando “praquilo”. O cachorro estava sentado apesar de parecer em posição de ataque. Ele nos olhava mostrando os dentes e nós o olhávamos tentando esconder o terror. Nem sei dizer qual era a raça, porque de cachorro eu não saco nada, mas que era grande era, enorme. Sussurro pra louca, que me abraçava tremendo no ponto de entrar em desespero a qualquer movimento do animal, para não se mexer. Quando mais nos mexêssemos, mais ele ia nos ameaçar.

Dani, no entanto, quer se aventurar.

– Será que dá tempo de chegar no carro?

– Melhor não arriscar, mais fácil nós...

Pra quem é muito medrosa, até que ela foi corajosa – sem falar de burra – porque correr do jeito que ela se mandou e ainda me deixando sozinha, claro que era ela quem o cachorro ia perseguir. Ela seguiu o caminho da garagem-pátio pra chegar ao carro com o cachorro latindo os pulmões. Mal conseguia gritar, faltando-lhe voz, talvez por desespero. Fui atrás e logo o cachorro também me perseguia.

Topo com a Dani pra entrar no carro. Mas quem disse que as portas estavam abertas? Devem ter se trancado quando saímos, não vimos ou pensamos nisso. Conseguimos uma pausa nos escondendo do bicho atrás do carro enquanto ele ficou nos ameaçando da outra ponta. Ele tinha muita força pra latir.

– Puta merda, eu não sabia disso de tranca. Agora só com a chave do carro.

– Ai que vergonha, ai que vergooonha... Ai mamãe, ele vai me morder!

– Calma cachorrinho, cachorrinho bonito... Somos apenas visitantes, não somos ladras...

– Lena, acho que fazer voz bonitinha não ta ajudando. Grita logo!

– Então grita comigo. Porque do jeito que tô tremendo, não sei se um grito vai sair. No três a gente grita socorro... Um... dois... Três!

– SOCOOORRO! SOCORRO!

Foi só começar a gritar que o cachorro inventa de avançar. Grande ideia a nossa! Puxo Dani pra corrermos em volta do carro, seguimos pelo pátio arfando já – isso que dá não fazer exercícios regularmente – e avançamos pra área da piscina. Sem estratégia mesmo, gritamos o que tínhamos pra gritar e logo vemos Bruno do outro lado, descendo as escadas, transtornado, ao nosso socorro, seguido da Natália.

Damos a volta na piscina com o cachorro que só avançava e avançava em cima de nós, nos metemos pela passagem lateral da piscina e fomos parar nos fundos da casa, que realmente parecia um sítio, cheio de árvores. Nós, transloucadas, corríamos entre elas tentando achar um lugar de proteção. O único jeito era subir.

Dei um jeito de subir numa árvore lá, acho que era de jaca e Dani ficou no chão atrás da mesma. Podia ouvir seu choro misturando soluços com arfadas da corrida. Grito por ela pra ela subir e ela me grita de volta dizendo que não sabe subir em árvore. Não podia deixá-la, o cachorro já ia avançar na minha amiga. Bruno? Esse eu não sabia o que ele tava fazendo, cadê ele pra nos socorrer?

Sem saída, puxo a jaca, me arranhando toda não sei como e miro no cachorro enquanto pulo pra interceder pela Dani. A jaca caiu perto do bicho que finalmente se afastou, mas logo correu atrás da gente. Seguimos aos gritos, passando pelos troncos de árvores até nos depararmos com fim da linha, o muro da casa. Sem saída, sentindo o coração batendo no cérebro, me uno com Dani numa tremedeira vendo o cachorro se aproximar.

Procuro de tudo que é jeito algo, pensando no próximo passo, quando vemos Bruno vir correndo com Natália e um guri a seu lado, devia ter uns 10 anos. Bruno grita dizendo pra não fazermos nada, que isso só atiçaria mais o animal. Quando eles chegam próximo do bicho, o guri pega ele pela coleira e puxa pra se afastar da gente...

– PARA, DRIFUS, SENTA!

Ainda assim o cachorro tinha muita força e quando ia avançar na Dani, o Bruno se meteu na frente e o cachorro acabou por atacá-lo. Natália também gritou e puxou o bicho com o guri até se afastar.

Notas finais
Ainda tô me adaptando com as postagens no site, então sorry se os links e os espaços estão indo desproporcional ao texto. Tô tentando ver como reorganizo.