Mantendo O Equilíbrio (Temp 1 + Temp 2)
15 Capítulo 15
Dani é o tipo de pessoa que não se abala por nada, é cara-de-pau quando precisa, dá cara a tapa, enfrenta quem seja pela mínima razão e sempre a admirei por sua coragem. Mas nunca que eu ia saber que sua fobia era de cachorro.
Sentada no sofá do terraço de Natália, ainda tremia meia hora depois do ataque com um copo de água na mão, mais gelada que a própria água. Sério, eu tava com medo por ela. Bruno foi atacado, tava machucado um pouco no rosto e também sua maior preocupação era Dani, por isso permanece a seu lado tentando comigo acalmá-la desse choque. O susto realmente foi grande porque eu podia ver como ela segurava o copo com uma mão, apesar de ainda tremer, apertando com a outra a mão do Bruno, mantendo o olhar baixo. O guri sumiu com o cachorro, ainda não reapareceu, apenas Natália que trouxe a água. Esta se mantinha de pé, sem saber o que propriamente fazer.
- Se você tinha pavor de cachorro, porque você correu? Queria me matar do coração ou o quê? Eu disse pra você não se mexer.
- Sei-i-i lá, achei que-e-e poderi-i-i-a entrar no ca-a-arro a tempo. Nessas horas, a-a-a-a gente não pensa-a-a mu-u-u-ito.
- Tudo bem, já passou, já passou. Acha que pode levantar?
- E o-o-o cachorro?
Passo uma mão por seu rosto tirando os fios de cabelo que caíam por seus olhos. Queria poder passar calma também.
- Já tá preso. Vamos, a gente te segura. Não tem mais perigo. Foi só um susto.
- Isso, Dani, foi só um susto. Me dá aquele sorriso que só você sabe. Te levo pra casa.
Ela olhou Bruno do seu lado e ainda retraída, tentou esboçar um sorriso que não saía. Tenta levantar e a apoiamos. Quase carregada, ela se joga nos braços de Bruno e eles caminham pro carro. Fico com a Natália observando, nem tinha parado pra reparar nela com essa confusão. Eu estava mais calma por mim, mas pela minha amiga, ainda estava nervosa. Bebo o resto da água e entrego o copo a Natália, agradeço e me desculpo pelo... incidente.
- Nada, eu que me desculpo. Eu disse pro meu irmão deixar o cachorro preso, mas ele acabou esquecendo. Ela tá bem mesmo? Tem algo que eu possa fazer? Você também tá arranhada... e ele ainda tá ferido. Eu posso buscar uma caixa de primeiros-socorros e...
- Não, não precisa. Acho melhor levá-la pra casa pra descansar. Obrigada de qualquer forma. A gente dá um jeito nesses arranhões depois... Não atrapalhamos você não, né?
- Não, já estávamos nos despedindo quando ouvimos os gritos. Fico feliz de que ele realmente esteja em boa companhia.
- Hã... é. Ele pode contar conosco pra isso. Então já vou indo.
Digo e vou andando de costas até topar no guri que vinha na minha direção e eu não tinha o visto. Quando me viro, ele me abraça, quer dizer... o menino se joga em mim, suplicando desculpas. Bem fofo, o abraço de volta e digo que desculpo. Essas coisas acontecem e agora eu só prezava pela minha amiga. Me despeço deles pra rumar pro carro que deviam estar me esperando. Um último olhar pra Natália me faz pensar que ela não era bem o que eu imaginava... não que eu tivesse imaginado muito, mas ela parecia ser uma ótima pessoa.
A única coisa que me intrigava era: que tipo de pessoa nomeia o cachorro de Drifus??
~;~
Ficamos na casa de Dani até a hora de ir pra faculdade. Claro que ela não iria pra aula, eu daria um jeito de falar com os professores dela sobre o assunto no intervalo, pelo menos pra justificar sua falta. Só saí de lá depois de muito ela insistir pra eu ir, Bruno também estava relutante. A mãe dela não estava em casa, apenas a tia. Ela que nos ajudou com nossos machucados... Enquanto assoprava meus arranhões no braço e via alguns na minha perna, pensei em não mais usar vestido tão cedo. Não que a calça fosse me proteger mais, só que, pelo menos esconderia os machucados. Quando chegamos na entrada da faculdade, Bruno a meu lado com uns esparadrapos no rosto nada discretos – na falta do band-aid, foi na gaze e esparadrapo mesmo – o diretor Fabiano, que acabava de sair de seu carro também, nos para preocupado.
- Meninos, o que aconteceu? O que foi isso? Vocês estão bem?
- Sim. São só uns machucados, nada demais. Eu vou seguir pra minha sala e... Lena, qualquer notícia, me avisa.
Bruno dá no pé rapidinho e asseguro ao diretor que estamos bem mesmo. Sigo como se fosse pra minha sala. Penso melhor e dou a volta. Com a bagaça dessa tarde, eu tinha me esquecido que ia conversar com a professora, então como chegamos atrasados, resolvo procurá-la e usar esse tempo, se ela estiver disponível, já que não valeria a pena esses últimos minutos na aula.
Quando entro na sala dos professores a encontro com mais dois colegas. De repente todas as atenções se viram pra mim e eles vêm em minha direção, preocupados. Estava tão ruim assim aparentemente? Eu tinha me olhado no espelho do banheiro da casa da Dani, não tava tão mal.
- Milena, o que foi? Foi assalto?
- Nada, eu... eu só... tive um incidente. Mas está tudo bem. Só a Daniela, Daniela Azevedo que não pôde vir, ela passou mal. Estou vindo da casa dela.
- Ela está na minha turma. Mas nos diz, é grave?
- Não, ela só precisa de um pouco de descanso. Amanhã já deve vir. Professora Garra, posso conversar com a senhora lá fora?
- Claro.
Quando chegamos no banquinho do pátio, ela segura minhas mãos ainda aflita, olhando meus arranhões. Eu até poderia rir da situação, minha preocupação que não me deixava relaxar... enquanto não visse minha amiga bem, ficaria inquieta.
- Você não disse o que foi isso. Não é melhor ir à enfermaria, ao hospital, sei lá?
- Calma, professora, são só uns arranhões. Eu nem fui mordida.
- Mordida? Como assim?
- Foi... um ataque de cachorro.
- NA RUA?
- Não, foi... bom, não importa onde foi. Eu estou bem. Juro. Agora me diz, como anda as buscas?
- As buscas...
- Professora, não vai querer dar pra trás agora, né?
- Eu sei, eu sei... é que só de estar perto desse homem, eu... num sei, ele me prejudica até de longe.
- Justamente, a senhora não quer acabar com isso?
- Quero, tudo que mais quero é ter meu filho perto de mim...
- Então. Vamos resolver isso, tenho certeza.
- Mas me conte essa história de cachorro. Seu irmão sabe?
- Deus me livre de ele saber disso. Tô pensando em dormir na casa da Dani pra ele não me ver e ficar no meu pé. Também queria ficar por lá pra vê-la... o cachorro tava atrás dela, sabe, e ela tem fobia. Até agora estou agoniada por ela.
- Milena, não! Essas coisas a gente comunica. Ele sabe cuidar de você.
- De um jeito meio tosco, eu sei, eu sei que ele cuida. Mas tem coisas que eu não gosto ou quero compartilhar com ele... principalmente quando eu sei que ele vai se alterar. Capaz de até brigar com o Bruno... não, antes ele nem saber. Vai ficar me amolando o resto do ano com isso, conheço a peça.
- Mas... Milena, eu não me sentiria bem em esconder isso. Eu...
- Professora, sério. Nem precisa esconder, deixa que isso eu faço. Além do mais eu só corri de um cachorro. Joguei uma jaca nele. Viu, eu sei me cuidar. Foi assim que me arranhei... quando tava na árvore.
Djane me olha inquieta, na certa de que não gostou muito do que eu reclamei.
- Tudo bem, eu não falo nada. Mas não quer dizer que eu concorde. Eu ainda acho que ele deve saber.
- Pra quê? Só pra ele se preocupar de besta. Isso não foi nada... nem foi reeeeealmente um ataque, ele só correu atrás da gente. Meu irmão ia fazer pergunta demais.
- E onde vocês estavam? Eram só vocês três? Quem se machucou? Vocês caíram?
- A senhora sabe imitar meu irmão direitinho... Só faltou uns gritos mais enérgicos. Sério, esquece isso. Eu tenho costume de me machucar, isso foi nada. Mas me diz, e o caso do Filipe?
~;~
- Hey, tô te ligando pra avisar que hoje não vou dormir em casa. Vou ficar na casa da Daniela, ela mora num bairro próximo.
- Hum. Preciso te buscar amanhã de manhã, é isso?
- Não, precisa não. Eu me viro.
- Tem certeza? Eu vou acordar cedo mesmo.
- Milagre você se oferecendo. Mas acho que vou dormir tarde, sacomé, noite de trabalho sempre emenda uma festinha de pijama...
- Hum. E quem é essa Daniela mesmo? Conheço?
- Lembra de ontem quando você apareceu aqui na faculdade e eu tava na lanchonete? Pois é, ela tava comigo.
- Ah, sim, lembro. Era bem tímida...
- A Dani, tímida? Só se pareceu isso pra você.
- Deve ter ficado tímida com meu charme.
- Devia estar comendo uma coxinha mesmo. Então tá avisado, não precisa ligar pra polícia, não fui sequestrada.
- Engraçadinha. Tchau. Ah! Você vai ao hospital hoje?
- Tava pensando em ir... por quê? Você quer ir?
- Não exatamente. Se você encontrar a enfermeira Mônica, diz que eu tentei ligar pro número que ela me deu, mas só dá uma mensagem dizendo que o número não existe. E eu tentei três vezes.
- Ai, Murilo, você ainda não sacou? A mulher te deu o número errado.
- De propósito? Nam, ela não faria isso.
- Aham. Acredite no que quiser.
- Hum. Então deixa. Como você vai pra casa da Dani, então?
- Se eu for pro hospital, peço pra Djane me deixar na casa dela.
- Tudo bem. Mas se vir a Mônica, já sabe. Pega o número certo. Tchau.
Desencosto da mureta perto da minha sala e sigo caminho pra passar na sala de Bruno pra ver se ele já foi pra sala dos professores. Mais uma reunião de monitoria significa mais gente perguntando sobre nosso estado físico. Ele me mandou mensagem no segundo horário dizendo que vai abraçar o próximo que não perguntar sobre o esparadrapo dele; e que recebeu uma mensagem da Dani dizendo que já estava bem. Consegui sair da sala pra falar com ela logo após e marquei de ficar na casa dela, o que ela achou maravilhoso. Nem parecia que tinha tido um piripaque hoje, voltou a ser a mesma transloucada de sempre.
Desço as escadas segurando o vestido, cuidadosa. Apesar de saber que não vai chover, tá tendo umas ventanias por aqui. Ainda mais que o espaço da minha faculdade é bem aberto. Ou será que Murilo quis me enganar de volta? Ainda tenho que preparar uma pra ele, preciso de ideias. Chego na sala de Bruno, mas não tem ninguém por lá, então sigo para a sala dos professores, que a galera já deve estar encaminhada.
Nem me deixam aproveitar meu intervalo, passo pela lanchonete só sentindo os aromas, desejando um lanche. Só desejo mesmo, fome acho que não era. O diretor Fabiano tinha outro horário não?
Paro em frente à porta da sala onde estava acontecendo a reunião e fico debatendo se entro ou não. Não estou no clima de ficar em cima de professor, verificando as coisas e fazendo relatório dos procedimentos. E mais ainda, de ficar me explicando pra professora Djane... A mulher me enrolou e não falou muita coisa do senhor Filipe.
Bom, eu acho que ela me enrolou.
O caso é que eu fiquei incomodada com ela insistindo na história de mentir e omitir coisas do Murilo. Quer dizer, sério? É fazer tempestade em copo d’água. Parece que nunca fugiu de cachorro na vida. Imagina se eu tivesse sido mordida mesmo... a mulher era capaz de me internar, do jeito que falava. Ficar aflita por uns arranhõeszinhos? Grande infecção! Nem a tia da Daniela não ficou assim, cuidou de mim e do Bruno, preocupada com sobrinha sim, mas era bem razoável. Além do mais, já tinha passado remédio e nem precisei cobrir nada. Só o Bruno mesmo porque se feriu.
Toda vez que interrompia pra falar do Filipe e das buscas, ela falava algo e tratava de emendar algo sobre o Murilo. Quê que tinha a ver? Eu tava era querendo saber das notícias do cara lá. Acho que ela sentiu que eu fiquei meio indignada, então me deu o número do tal Filipe. Eu disse que ia ligar somente quando estivesse com ela novamente, pois iria entrar na aula logo, mas agora... num sei.
Não quero deixar o Bruno sozinho na reunião, fico nessa dúvida de entrar ou não. Quem sabe ligar pro Filipe? Não é garantia, porque ele parece que ainda não voltou de viagem e pelo que Djane falou, nem contato com as redes sociais ele tem tido. Isso ela me mostrou, eu insisti. Já não sei de quem é essa luta... Tem hora que ela se aplica tanto, agarra a chance de viver bem com o filho... e tem hora que desanima. Geralmente quando tem a ver com o Filipe. Eu sei que a história é longa e eu nem sei metade, só que... acho que tem alguma coisa, algo muito importante, que ela esteja omitindo.
Decido não entrar. Vagueio até a entrada do prédio e sento numa mureta. Miro ora o céu, ora o celular. O céu escuro, de brisa forte levando meu rabo de cavalo, um tanto nublado. Não parecia que ia chover mesmo, vai ver Murilo foi sincero dessa vez. Olho o celular nas mãos e... Ligo? Djane anda tão hesitante quanto a isso. Eu sei que é difícil, mas alguém tem que dar esse passo. Seria eu imprudente em ligar assim? Sem a supervisão dela? Apesar de que seria bom não compartilhar dessa aflição dela, provavelmente ela me deixaria agoniada se tivesse perto de mim.
Aff, ainda tem o fato de que o cara está fora, não sei se é apenas da cidade, Estado ou país. Mesmo querendo ligar, o que eu iria falar? Nem tenho muito dinheiro pra creditar a ligação, de qualquer forma.
Esqueço até da fome e penso em como posso me comunicar. Tenho o número, não? Será que sms é válido? Mas... mas o que eu escreveria? “Hey, Filipe, não? Pois é, sou amiga do Vinícius, seu sobrinho. Precisamos conversar, é urgente. Está fora da cidade ainda?” Tudo bem, não seria uma das melhores mensagens, mas dá pra trabalhar com isso. Não tem jeito de dizer que o sobrinho teve um coma e que acordou. Vai que ele pensa que é trote? Eu pensaria. Mas retornaria pra confirmar, eu ficaria curiosa... e ansiosa. E nervosa, eu sei.
Começo a escrever qualquer coisa e ajeito a mensagem como posso. Me identifico como Milena no final. Hesito por uns 10 segundos até finalmente apertar o botão de ir.
Foi.
Ah tá, faço eu o quê agora? Isso pode demorar pra ele me responder.
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