Mansio Infernalis
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Estava de pé em um grande campo florido com rosas vermelhas. Usava um longo vestido branco, o mesmo que usara durante anos em Éden. Havia uma brisa que fazia as flores e meus longos cabelos vermelhos balançarem lentamente. Minhas grandes asas brancas estavam abertas, como se pedissem para voar.
- Ale!!! – gritou uma voz conhecida. Uma voz que fazia o meu coração se encher de alegria. Uma voz que faria qualquer um feliz.
- Amon! – olhei para o lado e lá estava ele, com o seu sorriso encantador. Aproximamos-nos e nos abraçamos com força. Senti sua respiração chegar perto de minha orelha o que me fez ficar arrepiada. Algo quente caiu em meu ombro, provavelmente eram lágrimas. O empurrei com as mãos para que pudesse ficar frente a frente com ele. Quando olhei em seus olhos, vi que estava chorando.
- Por que está desperdiçando suas lágrimas comigo?
- Porque eu sinto a sua falta. Faz dezesseis anos que você foi embora! Volte. Volte para mim. Volte para o senhor. Ele irá te perdoar eu sei que vai. – disse meu irmão soluçando. Nunca o havia visto daquele jeito, o que chegava a me assustar.
- Eu quero muito voltar, mas agora é tarde, não? Fuji de meu dever eterno. Meu dever de ser uma humana até o final dos tempos. Já cometi dois pecados gravíssimos Dois pecados que jamais um anjo deveria cometer. Assim nunca me deixarão voltar.
Amon caiu de joelhos no chão, apoiou sua cabeça em meus pés descalços e começou a gritar.
- PARE DE SER TÃO NEGATIVA ALE! VOCÊ IRÁ CONSEGUIR VOLTAR EU SEI QUE VAI! – “Pare com isso... Pare... Pare!!!!” era a única coisa que pensava. Aquela cena toda estava me matando, precisava acabar com aquilo. Pensei em algo que me tiraria daquela situação mas, me colocaria em outra pior ainda. Respirei fundo e o olhei. Aquela era a única coisa que eu poderia fazer. Eu sabia que não voltaria, então não podia o deixar sofrendo mais e mais a minha espera.
- Mas eu não quero voltar. – meu tom de voz estava tão frio que me assustei comigo mesma. O céu ficou preto, as flores morreram e a leve brisa sumiu. Meu irmão parou de chorar na hora, olhou para cima e tentou achar nos meus olhos se aquilo era verdade ou não. Eu o encarava tanto que a expressão de seu rosto mudou. Ele levantou e olhou mais uma vez em meus olhos para se certificar da verdade, e disse:
- Isso é realmente o que você quer? Largar todo o seu passado para trás? Você não me amava? Tanto não me amava que foi expulsa de Éden? – começou a gritar. Eu conseguia ver a raiva que sentia. A raiva que guardaria para sempre em seu coração. – Como pode fazer isso comigo Alethia? Se você foi expulsa do céu e fugiu da Terra, para onde irá? Para o inferno?
- Isso mesmo. Eu irei para o inferno! Kesabel voltou para me salvar.
- Então quer dizer que o tarado voltou das cinzas? Pensei que ele não duraria muito ao lado de Lúcifer.
- Pois é ele voltou. Voltou e me mostrou como o seu paraíso é tão podre quanto a Terra. – agora era eu quem gritava.
- Impura! Impura! Impura! Eu pensei que com a sua ida ao mundo humano você melhoraria, mas vejo que nunca podemos acreditar nas pessoas. Sempre esperamos que elas amadureçam mas, ao contrário disso, ela apodrecem... Você tem razão. Nunca conseguirá voltar. E depois disso eu espero que você não volte mesmo, pois eu nem consigo olhar na sua cara sem sentir nojo de ter uma irmã como você. – Aquelas palavras me chocaram tanto que meus olhos se encheram de lágrimas. Eu havia destruído a minha única família. A partir daquele dia eu não teria mais um irmão. Ele seria um inimigo, e isso me matava. Olhei em seus olhos, mas eles não demonstravam mais nada por mim. – Não chore suas lágrimas falsas Alethia, eu não as mereço. – Aquelas foram as últimas palavras que saíram de sua boca, pois a brisa agora havia voltado, e com ela levou Amon que aos poucos foi virando areia e sumindo ao vento.
- NÃO! – gritei. Cai de joelhos no chão, coloquei minhas mãos no rosto e chorei tudo o que foi possível. Até que comecei a escutar uma voz, mas dessa vez eu não a conhecia. Era irritantemente fina, e me chamava pelo nome. Tirei as mãos do rosto assustada para descobrir quem era. Mas quando olhei em volta não estava mais em um grande campo com flores mortas e um céu negro, e sim em um quarto.
Estava ajoelhada em cima de uma cama de casal, ao meu lado estava uma mulher jovem e loira sentada em uma cadeira de balanço tricotando.
- Você é bem estranha. – disse ela sem olhar para mim. A voz dela também era fina e irritante, provavelmente era a que eu havia escutado anteriormente.
- Por que diz isso?
- Que pergunta idiota! Não me diga que você estava sonhando enquanto gritava e chorava na cama? – Então tudo aquilo que eu disse a Amon fora apenas um sonho?
- Acho que estava... Ou você acha que sou tão louca a ponto de fazer essas coisas lúcida?
- Eu não sei... Há muita gente estranha por aqui.
Não liguei muito para sua resposta, apenas olhei para baixo e percebi que estava usando uma roupa diferente. Desci da cama e fui me ver em um espelho que havia em uma das paredes do quarto. Eu não estava mais com roupa de quando havia sido sequestrada, nem o vestido branco. Desta vez eu usava um corselet preto com detalhes em vermelho que ao seu final começava uma saia curta na frente e comprida atrás, como se fosse uma cauda. E em meus pés estava uma bota preta de salto fino. Exótico. Bem mais exótico do que eu imaginava que pudesse ser. Será que as mulheres daqui usam roupas desse tipo? Mas espere um pouco! A onde eu estava? Olhei para a loira e disse:
- Desculpe parecer um pouco ignorante, mas a onde estou?
Pela primeira vez ela olhou para mim e respondeu:
- No inferno querida... Oh Meu Lúcifer! Esta roupa ficou maravilhosa em você! – Maravilhosa? Como assim? Aquilo era ousado demais para um anjo superior.
- Sério mesmo? – disse desapontada.
- Sim! – disse abrindo um sorriso.
Para a minha sorte de alguém quebrar aquela conversa, e pela minha má sorte de me verem daquele jeito, alguém bateu na porta. A loira disse para piorar a minha situação “Entre”. Meu Deus! Olhei para os lados rapidamente a procura de um lugar para me esconder. Mas não encontrei nada, a solução seria deixar a bomba explodir. Deixe a bomba explodir e mantenha a classe. A classe que toda mulher deve ter. Fui em direção ao espelho mais uma vez e coloquei as mãos na cintura para formar uma pose, enquanto espera o que viria. A porta se abriu. Não! Porque tinha que ser ele?
- Kesabel!!! – a loira gritava de felicidade e abria os braços.
- Lilith! Sua linda! – disse Kesabel indo em direção a ela e se agachando um pouco para abraçá-la já que ela estava sentada. Logo se separaram e ele virou para mim – Nossa! Esta roupa é bem ousada para um Anjo Superior... Mas até que você ficou bonita nela, pelo menos da para o gasto.
- Da para o gasto? – Idiota! Ele acha que sou mais uma que vai cair na dele?
- Se sentiu ofendida? – disse rindo. Droga...
- Bem Kesabel, já está tudo pronto na sala de reuniões? – perguntou Lilith.
- Sim. Lúcifer me mandou chamar vocês duas.
- Ótimo! Quero ver logo o meu marido – disse ela se levantando e saindo pela porta rapidamente.
Agora estava apenas eu e o traste no quarto. Eu o encarava com uma cara feia.
— Que foi? – Perguntou
— Do que se trata esta reunião?
— É para você ser apresentada para as pessoas aqui do Mansio Infernalis.
— Mansio Infernalis?
— É a mansão onde você está. É onde vivem os principais Anjos Caídos no inferno.
Inferno. Esta é mais uma palavra como qualquer outra, mas carregada de um significado tão estranho para mim. Para qualquer outra pessoa o inferno é o lugar onde jamais devemos pensar em pisar. Um lugar horrível para onde apenas pessoas pecadoras vão. Pecadoras. Aquilo ainda soava estranho.
— Bem... Vamos logo. Os outros odeiam atrasos. – disse ele finalmente.
— Espera! – será que eu deveria contar isso a ele? – Eu queria te perguntar algo.
— Diga.
— É que eu sonhei com o meu irmão e... Isso é normal? – que pergunta idiota que eu estava fazendo! É óbvio que é normal, de vez em quando sonharmos com pessoas que fazem parte do seu cotidiano, ou melhor, faziam parte do seu cotidiano.
— Então você já teve o sonho do julgamento? – disse ele sério
— O que é o sonho do julgamento?
— É quando você sonha com uma pessoa com quem era muito próxima no céu. Ela que fará o seu julgamento, então dependendo do que você disse a ela e do que ela te disse, o velhote irá determinar se você voltará ou não para Éden. – então era tudo verdade? – Pelo jeito você ficará por aqui mesmo. – por aqui mesmo? – Mas isso não é ruim! – não é ruim? – Fará amizades! E além disso eu estou aqui!
Não posso acreditar que aquele sonho era verdade! Então o meu irmão me acha impura mesmo? O que eu vou fazer? Ei! Eu já participei de um sonho desse tipo uma vez, mas Kesabel estava nele. Pelo o que eu me lembre no sonho falamos sobre o fato dele ter sido expulso de Éden, então... Eu fiz Kesabel ficar preso aqui! Como sou estúpida! Eu o fiz sofrer! Droga Alethia! Já não bastava ferrar a minha própria vida?
— Vamos logo. – disse ele me tirando de meus pensamentos.
— Certo.
Fomos em direção a porta, entramos no corredor e por ali andamos em silencio. Haviam várias portas, provavelmente eram os outros quartos que alojavam os anjos caídos. Chegamos a uma grande escada. A descemos e encontramos uma outra porta, mas desta vez ela era gigante. Kesabel entrou na minha frente e a empurrou com as duas mãos. Agora era o momento. Não dava para voltar atrás. Aquela era uma decisão tomada pelo meu destino com base em tudo o que fiz. Eu me coloquei ali. E agora eu deveria aproveitar aquela situação. Aquilo no final das contas era muito interessante.
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