Manos Antes das Minas

6 Welcome To Los Angeles


Notas iniciais
Então, finalmente, o dia de minha viagem havia chegado. Eu passara tantas noites sem dormir contando as horas para que esse dia chegasse, e quando chegou, meu coração quase que não parava no lugar. Estou apenas indo de férias, para esfriar a cabeça e relaxar um pouco ─ aproveitando para matar a saudade que sinto de meus familiares que moram lá ─ mas algo me diz que essa viagem irá mudar minha vida mais do que eu imaginava.

Aquela era a minha primeira vez que voava. Já havia ido á casa de meus avós antes, mas eu tinha meus três anos e não me recordo claramente como foi, por isso desconsidero. Antes de pegar o avião eu estava bastante nervoso, era uma mistura de medo e ansiedade que tomavam conta do meu corpo. Medo esse não de voar, isso era o de menos, mas sim pela viagem. Era a minha primeira viagem que eu recordava e ainda estava sozinho.

Ao embarcar, foi só eu encontrar o meu assento, guardar a minha mochila e assentar na poltrona que o medo passou. Tive a sorte de pegar o lugar ao lado da janela com uma das visões mais privilegiadas. Preparei meus fones de ouvido, enviando uma ultima mensagem para minha mãe alertando que já havia embarcado e logo após colocando o celular em “modo avião”, já que o mesmo não poderia ficar ligado á rede durante o vôo. Uma garota linda ─ loira de olhos azuis, pouco magra e de seios fartos ─ para de frente a fileira que eu estava assentado, verificando mais uma vez em sua passagem e colocando sua mochila no compartimento sobre os assentos, sentando ao meu lado.

─Oi. – cumprimentou-me com um sorriso simpático. ─Primeira vez?
─Praticamente. – respondi com o mesmo sorriso.

Virei-me para o lado e avistei o solo brasileiro pelo ultima vez antes do avião começar a se locomover. Um sinal luminoso no teto do avião nos indica para que coloquemos nossos cintos de segurança, pois já iríamos partir. Ele começa a mover-se lentamente, fazendo curvas e indo em direção á pista reta que daria partida ao voo. Ao chegar, foi pegando velocidade aos poucos e de repente soltou um impulso que estremeceu todo o avião. Me viro para os lados e vejo algumas pessoas, provavelmente em sua primeira viagem, com um olhar espantoso fixo para sua frente, cravando seus dedos aos braços da poltrona como garras de águia ─ com uma postura reta que deixava claro seu apavoramento. As rodas do avião se desprendem do chão e aos poucos as construções e automóveis lá em baixo vão ficando cada vez menores, parecendo pequenos carros e casas de brinquedo em uma enorme e bem feita maquete.

Encosto-me nas costas do assento e solto um suspiro de alívio, pois tudo havia dado certo, agora só teria que esperar uma longa e cansativa viagem de 14 horas e 47 minutos, nada de mais... Ponho meus fones de ouvido e ligo novamente o aleatório, torcendo para que caísse em qualquer musica, menos a minha preferida. Aquele não era o momento, a viagem era para me distanciar dos problemas e preocupações do meu dia a dia. A escola, meu pai, meus estudos e claro, a Lucy. Ouvir uma musica que tenho o costume de ouvir todos os dias, á quase todo momento, não seria o melhor remédio para esquecer-me de tudo. E por sorte, eu não a escutei durante toda a viagem.

…


I remember the day you told me you were leaving
Lembro-me do dia em que você me disse que estava partindo

I remember the make-up running down your face
Lembro-me da maquiagem escorrendo pelo seu rosto

And the dreams you left behind you didn't need them
E os sonhos que você deixou para trás, você não precisa deles

Like every single wish we ever made
Como não precisa de cada desejo que nós fizemos

I wish that I could wake up with amnesia
Eu queria poder acordar com amnésia

And forget about the stupid little things
E esquecer as pequenas coisas estúpidas

Like the way it felt to fall asleep next to you
Como a sensação de adormecer ao seu lado

And the memories I never can escape
E as lembranças que eu nunca consigo esquecer

Cuz' I'm not fine at all
Porque eu não estou nem um pouco bem
...

É, caiu em outra musica que adoro, mas eu relevei. Durante a noite pude observar o lindo contraste que o brilho da lua dava sobre as nuvens, e algumas vezes, quando apareciam brechas entre as nuvens, podia ver o oceano lá embaixo sendo banhado pela luz da lua que refletia sobre o movimentar das águas. As estrelas, que pareciam acompanhar o avião, estavam mais próximas do que podiam-se ver do solo. Aquela cena estava tão maravilhosa que não pude tirar meus olhos dela, era tão memorável e inusitado que me fez sentir como uma criança de oito anos novamente. Pensava em sair e tocar nas nuvens que tando diziam ser de algodão, e realmente, aparentavam ser.

Depois de algumas horas, finalmente peguei no sono. Não sei por quanto tempo dormi, mas sinceramente, não foi o suficiente. Acordei-me e ainda as luzes estavam apagadas e pouquíssimas pessoas estavam acordadas. Retirei meus óculos e passei minhas mãos sobre os olhos, limpando a face e expulsando o intruso do sono. Sentei-me melhor sobre o assento e peguei meu notebook que havia deixado sobre meu colo, ligando-o e preparando meu livro. Escrever sempre serviu para me deixar calmo e servia como uma forma de expressar coisas que minha mente reprimia ou simplesmente de coisas que normalmente eu não tinha coragem de dizer ou fazer na vida real. Deslizei meus dedos sobre o teclado com entusiasmo, minha mente esbanjava criatividade e as palavras saltavam dos meus dedos, algo tão natural que me espantei ao terminar e notar que já havia escrito três capítulos inteiros de duas mil palavras em pouquíssimo tempo. Avistei uma pequena tevê que ficava acoplada na parte de trás de cada poltrona e vi que ainda faltavam 10 horas de viagem. O tempo parecia não passar, eu adorava voar de avião, mas ao mesmo tempo eu detestava. Não só apenas por ficar horas sentado em uma cadeira com pouca coisa para se fazer, mas também pois a ansiedade me torturava e me provocava a todo momento. Eu sempre fui bastante ansioso e isso sempre me incomodou, principalmente quando a relação era viagens ou quando eu iria finalmente fazer algo que eu tanto almejava. As musicas, a leitura e a escrita sempre foram minhas “válvulas de escape”. As opções secundárias que me tiravam um pouco da atenção sobre o relógio e me colocavam em uma paz temporária que aliviava minha mente e me desconcentrava da noção de tempo. Então naquele momento, escrever era a minha única saída. O que não era tão ruim, já que eu estava passando por um bloqueio criativo nas ultimas semanas e naquele momento parecia que o bloqueio havia sido quebrado, portanto, eu não poderia perder aquela oportunidade vinda do céu, literalmente falando.

***

Finalmente o avião pousou. Eu não aguentava mais ficar sentado naquela poltrona confortável, sendo servido com deliciosos lanches de hora em hora, com uma vista deslumbrante e uma gata ao meu lado (sarcasmo). Ao sair, após buscar minhas malas e passar pelo portão de desembarque, dei-me de cara com meus primos, Miley e Theo, ao lado de seus pais com uma placa escrita: “Welcome To Los Angeles, Diego!”. Corri até eles e os abracei.

─Que saudade de vocês. – disse.
─Nós também estávamos de você, Dih. – respondeu Miley.
─Como foi à viagem? – indagou minha tia pegando uma de minhas malas de minha mão.
─Ótima e também cansativa. – suspirei com cansaço. ─Preciso de uma cama para ontem. – completei notando que Miley me olhava dos pés á cabeça.
─Você cresceu, hein. – comentou após corar a bochecha ao ter visto que notei sua fitada. ─Tá bonito.
─Obrigado. – sorri. ─Posso dizer o mesmo de você, mas eu não estou dizendo apenas por caridade.
─Bobo, eu também não estava. – sorriu dando um leve tapa em meu ombro. ─Já me havia esquecido desse seu humor.
─Esqueceu da minha maior qualidade? Aí não.
─Uma das únicas também. – comentou meu tio ironicamente, aproximando de mim e bagunçando meu cabelo com sua mão enquanto ria. ─Deixe-me levar para você.

Pegou a outra mala de minha mão e pôs-se ao lado de minha tia que tomava frente, indo em direção ao estacionamento. Miley se aproxima de mim e agarra meu braço, encostando a cabeça em meu ombro.

─Vamos tirar uma selfie. – disse Theo arrancando seu celular do bolso e preparando a câmera do mesmo.

Tiramos algumas fotos e Theo postou-as segundos depois, me marcando e recebendo curtidas logo após. Aproximamos-nos da porta eletrônica do aeroporto e Theo me para.

─É o seu primeiro passo nos Estados Unidos, melhor começar com o pé direito. – aconselhou-me.
─Não sou supersticioso. – rejeitei o conselho com uma risada fraca. ─Mas também não quero arriscar.

A porta se abre e estendo meu pé direito, dando o primeiro passo. Solto um suspiro leve e calmo e logo admiro todo o local ao meu redor.

─Então, vamos? – Miley olhou para mim, estendendo sua mão.
─Claro. – consenti com a cabeça, agarrando sua mão e indo em direção ao carro.

Continua...

Notas finais
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