Manicômio
5 Primeiro contato
— Os músculos da coxa são aguados em três regiões. Região antero-lateral, região posterior e região póstero-medial.
A voz ecoou firme pela sala de aula na medida em que segurava com uma das mãos um manequim colorido, apontando para as regiões musculares que queria evidenciar. O dedo fino passava gentilmente pela região antero-lateral, quase como se estivesse desenhando aquela região. Os olhos pretos olhando para aquela região com atenção.
— Hoje veremos a região antero-lateral, onde temos o tensor da fáscia lata, o sartório e o quadríceps femoral. – Apontava para cada região que falava, apertando levemente os músculos do manequim. – Na próxima aula vocês terão a oportunidade de sentirem a textura macia, e ao mesmo tempo firme dessa parte tão importante da coxa. E quero que se dividam em três grupos e apresentem para mim um seminário na semana que vem sobre cada uma dessas regiões.
O homem foi na direção do quadro branco para fazer algumas anotações na medida em que comentava sobre o tema da aula do dia. Quando seus alunos menos perceberam o quadro já estava cheio de textos e anotações importantes demais para serem simplesmente ignoradas. Além disso, surgiam alguns burburinhos referentes à alguns comentários do professor de anatomia. O homem às vezes comentava sobre a textura muscular, o odor da carne, como se estivesse profundamente familiarizado com isso.
Quando terminou de passar toda a informação, resolveu conduzir o restante da aula para tirar as dúvidas de seus alunos. Dava toda a assistência de que eles precisavam e foi assim até que o sinal para a próxima aula tocou, desta forma liberando a sua turma e ficando finalmente livre de aulas naquele dia. Quando a sala estava finalmente vazia, permitiu-se pegar o celular que estava guardado em sua mochila preta, vendo algumas ligações perdidas de seu companheiro. Acabou sorrindo involuntariamente, discando o número do mesmo, esperando ser atendido enquanto saía da sala e ia na direção da sala dos professores.
— Yoongi? – A voz conhecida do outro lado da linha disse em um tom animado que o fez sorrir. – Amor, eu te liguei tanto!
— Desculpe querido. Mas você sabe que estava em aula, Hoseok. Eu sequer deixo o telefone perto quando estou em aula. – O professor explicou, já chegando à sala dos professores para guardar as suas coisas antes de se dirigir para o lado de fora. – Como está no trabalho?
— Provavelmente vou sair mais cedo hoje, por isso estava te ligando. – Hoseok comentou, dava para ouvir alguns barulhos ao fundo, como se o rapaz estivesse cozinhando ou algo parecido. – Meus chefes me deram mais um dinheiro extra. Estava pensando em te chamar para sair, podemos ir naquele restaurante novo que abriu semana passada.
— Hm... Não sei se é uma boa ideia, querido. – Yoongi resmungou, mordendo o interior da boca. – Você conhece as minhas restrições alimentares.
— Eu sei amor, mas esse restaurante parece ter mais alimentos à base vegetal do que aqueles que estamos acostumados a ir. – O outro insistiu e Yoongi suspirou mais pesadamente. – Tudo bem se você não quiser ir, eu posso tentar fazer alguma coisa em casa quando chegarmos.
— Não, está tudo bem Hoseok. Vamos sair. – Yoongi resolver ceder, principalmente depois de ouvir o tom de voz chateado do namorado no outro lado na linha, que automaticamente mudou para uma animação sem precedentes, que automaticamente fez o professor sorrir satisfeito. – Depois você me diz que horas que você vai sair hoje, e então eu irei te buscar para sairmos. Acho justo irmos a um cinema também, o que acha? Tem uns filmes muito bons em cartaz.
— Não sei Yoongi. Eu não acho muito bom deixar o Jimin sozinho por muito tempo. Ainda mais porque o Jungkook vai estar fazendo uma patrulha hoje e não vai poder ficar com ele. – Hoseok comentou, fazendo Yoongi suspirar pesadamente.
Preocupava-se com o fato de Hoseok estar dividindo o apartamento com Jimin, principalmente levando em consideração os seus desequilíbrios de personalidade que poderiam colocar em risco a vida do namorado. Yoongi conhecia Jimin mais do que ninguém, sabia que o rapaz poderia fazer alguma besteira em meio a um rompante repentino.
Foi por esses motivos, também, que passou a frequentar ainda mais o apartamento do namorado, precisava ficar de olho em Jimin, que estava tendo algumas crises após a condenação de Namjoon. O rapaz simplesmente não conseguia aceitar o fato do mesmo ter sido pego na investigação de Jungkook, e admitia para si próprio que também era difícil de aceitar aquele tipo de coisa. Todavia, lembrava-se da conversa que tivera com o ex-rapper dias antes do veredicto no tribunal, e por mais que não entendesse os motivos do amigo, confiava plenamente em seus instintos.
— Bom, já que é assim, irei passar a noite com você então. Faz tempo que não dormimos juntos. – Yoongi voltou a se pronunciar, e sabia que Hoseok estava sorrindo do outro lado do telefone.
— Eu vou adorar isso! – Hoseok disse animado, o que acabou fazendo o professor de anatomia também sorrir levemente.
Yoongi finalmente passou pelo grande hall de entrada da universidade em que lecionava, contemplando os jardins externos que levavam à rua movimentada de Busan. Estava seguindo o seu caminho até a calçada quando, ao longe, viu um rapaz balançar um dos braços como se estivesse chamando-o. Quando franziu levemente o cenho e foi se aproximando, percebeu de tratar de uma pessoa conhecida, esta que vinha sorridente em sua direção.
— Hoseok, eu falo com você mais tarde, tudo bem? Pode me mandar uma mensagem me falando a hora que você irá sair, para que possa ir te buscar.
Não esperou o namorado responder e logo desligou o celular, guardando-o no bolso da calça antes de voltar-se para a pessoa que havia lhe roubado a atenção. Os olhos rasgados estavam levemente cerrados naquele momento, enquanto a figura masculina se aproximava cada vez mais.
— Estava difícil de te encontrar, já que não sabia em qual universidade você lecionava. – O homem disse quando finalmente estava a uma distância considerável, com um sorriso cordial no rosto.
— Eu não esperava te ver por aqui, Jin. – Yoongi comentou, colocando ambas as mãos nos bolso traseiros da calça, ainda olhando para o psiquiatra com os olhos cerrados. Não o havia reconhecido à distância, visto que não usava as roupas que costumava vestir quando estava de plantão. – De qualquer forma... O que o trás aqui?
— Bom... Você tem algum tempo livre agora? Acho que o assunto é um pouco longo, seria melhor irmos para um local mais apropriado. – Jin sugeriu, observando atentamente Yoongi ponderar sobre a proposta.
— Não vejo problema, desde que não demoremos tanto. Tenho um compromisso com o Hoseok mais tarde.
— Ah, o Jungkook me disse que vocês estão namorando! – O médico acabou sorrindo, recebendo um levantar de sobrancelhas como resposta. – Eu não irei atrasar o seu compromisso, mas eu realmente preciso ter uma conversa com você.
— É sobre o Namjoon? – Yoongi perguntou diretamente, olhando curioso para a forma como Jin engoliu em seco antes de se pronunciar novamente.
— Sim. Tem uma Snowfall aqui perto, podemos conversar lá se você quiser. – Jin sugeriu e Yoongi não viu problema em aceitar o convite do mesmo. Desta forma, seguiram lado a lado até o estabelecimento que era relativamente perto de onde se encontravam.
Yoongi tentava trocar o mínimo de palavras com o psiquiatra ao seu lado. Em outras palavras, podia-se dizer que estava um tanto receoso, porém, ao mesmo tempo curioso em saber o que o mesmo queria tratar consigo, principalmente quando sabia que envolvia Kim Namjoon.
Quando menos percebeu já estavam adentrando o estabelecimento. Seokjin escolheu uma mesa próxima à janela para que pudessem se distrair com a visão das pessoas caminhando pela rua, e sentiu-se um homem sortudo por encontrar um lugar à janela, levando-se em consideração o fato do local estar cheio.
No entanto, quando voltou os olhos castanhos para Yoongi, percebeu como que o rapaz encolheu-se de repente no banco, focando os olhos em um ponto em específico até que Jin finalmente se sentou, tomando a atenção dos pequenos olhos rasgados do professor de anatomia.
— Está tudo bem, Yoongi? – Jin perguntou assim que se sentiu confortável na cadeira, olhando atentamente para o professor, que apenas assentiu.
— Sim, só estou com um pouco de fome. – Yoongi chamou um atendente para fazer o seu pedido e Seokjin aproveitou para também pedir, e quando o rapaz se afastou novamente, o professor voltou a se pronunciar. – E então? Qual é o grande assunto sobre o Namjoon?
— Tão direto ao ponto. – Jin brincou, encostando-se melhor sobre o encosto do banco. – Eu estou um pouco curioso com relação a ele. Vêm acontecendo algumas coisas no hospital que envolve a ele, diretamente, e então eu pensei em vir falar com você, já que sempre esteve em contato com o Namjoon desde que terminamos o colégio.
— Isso não é uma verdade absoluta. – Yoongi interrompeu, mordendo o interior da boca levemente. – Namjoon e eu acabamos perdendo o contato depois da escola. Na verdade eu só voltei a vê-lo alguns anos depois, quando ele já era um idol.
— Mesmo? E como se sucedeu? – Jin inclinou levemente a cabeça para o lado, enquanto Yoongi, sem dizer absolutamente nada, estava estranhando as perguntas que o médico estava fazendo para si. Por breves momentos cerrou os olhos mais uma vez, deveria ser cuidadoso.
— Meu avô se encontrou com ele e o convidou para um jantar em casa. – Respondeu simplista, sem entrar em muitos detalhes.
No entanto Seokjin mordeu o lábio inferior com aquela resposta, engolindo levemente em seco em uma tentativa de não tentar demonstrar o fato de estar tão surpreso. E antes que Yoongi pudesse perceber a sua surpresa com relação àquela afirmação, Jin voltou a se pronunciar:
— Ah, interessante. Que bom que voltaram o contato desta forma. Mas como era o Namjoon daquela época?
Yoongi parou para pensar por alguns momentos, levantando o olhar.
— Basicamente como na época de escola. Acho que um pouco mais maduro por conta da responsabilidade que tinha com a carreira. – Disse o que era de fato verdade. Para Yoongi, Namjoon sempre fora uma excelente pessoa. – Você deve se lembrar de como ele era, não? Vocês dois eram muito próximos um do outro.
— Sim, eu me lembro perfeitamente. – O psiquiatra sorriu suave, e logo em seguida o atendente da Snowfall lhes trouxe seus respectivos pedidos. Jin achou curioso o pedido completamente natural de Yoongi, sem um tipo de complemento industrializado. – Você ainda tem todas aquelas intolerâncias alimentares? — Os olhos rasgados do mesmo se voltaram para Jin novamente. Yoongi movia a perna de forma um tanto frenética, o que obviamente não passou despercebido pelo médico. – Está acontecendo alguma coisa?
— Não é nada. Só estou... Testando uma nova dieta por conta das minhas restrições. – Respondeu levemente seco, desviando o olhar logo em seguida.
— Se eu puder ajudar em alguma coisa pode falar comigo. Eu conheço bons nutricionistas que podem te ajudar nesse caso. – Jin levou uma colher da sobremesa gelada à boca, sentindo o sabor adocicado do morango que havia pedido. – Mas, voltando ao assunto de Namjoon... Ele costumava de contar muitas histórias quando estavam juntos?
Naquele momento Yoongi travou, até mesmo descendo a colher que iria levar à boca, colocando-a novamente no potinho da sobremesa. Os olhos rasgados voltaram-se para o médico, tensos.
— Namjoon sempre contou muitas histórias, você sabe. – Yoongi resolveu ficar mais na defensiva por conta do rumo em que aquela conversa estava tomando.
— Mas ele não contava nenhuma história estranha para você? Como... Histórias em que ele tinha poderes especiais? – Resolveu usar aquele termo para não expor muito Namjoon, no entanto Yoongi entendeu exatamente onde Seokjin queria chegar com aquilo tudo.
— O que exatamente Namjoon disse para você, Jin? – O professor estreitou o olhar, deixando a sobremesa gelada de lado para focar inteiramente no médico, este que endireitou a postura mais uma vez.
— Ele me contou uma história engraçada esses dias. Disse que teve uma visão de um rapaz que estava sofrendo maus tratos em casa e então ele foi ajudar e acabou matando o avô dele. – Começou, fitando Yoongi com maior seriedade. – E coincidentemente ele me disse que esse rapaz também tinha graves alergias alimentares.
Yoongi perdeu a cor no rosto com as palavras de Seokjin, agora com um semblante mais sombrio no rosto. O professor levou ambas as mãos para baixo da mesa, fechando-as em punho como uma forma de aliviar a tensão, ao mesmo tempo em que praguejava Namjoon mentalmente por estar tocando nesses assuntos com Jin.
— Aonde você quer chegar com isso? – Perguntou já com o tom de voz mais arrastado. Era notável que o clima entre os dois estava ficando mais tenso. Seokjin, no entanto, apenas ignorou tal fato e continuou.
— Eu não percebi no momento em que ele me contou, mas precisei de poucos dias para fazer a associação. – Jin apoiou os cotovelos na mesa. – Yoongi, você é o Suga das histórias do Namjoon?
Um grande momento de silêncio se fez presente entre os dois homens à mesa, ambos encarando um ao outro com sentimentos completamente opostos um ao outro. Seokjin sentia como se estivesse começando a desvendar o grande quebra-cabeça que se chamava Kim Namjoon, enquanto Yoongi permanecia tenso.
Foi quando, de repente, a expressão do professor de anatomia mudou da água para o vinho, e o rosto sério deu lugar a um sorriso que logo se transformou em uma risada alta, o que pegou Jin completamente desprevenido. Yoongi gargalhava tão alto que até mesmo chamava a atenção das pessoas das outras mesas, colocando ambas as mãos sobre a barriga. Tal reação acabou plantando uma dúvida na mente de Jin sobre o que estava deduzindo.
— Isso só pode ser uma piada! – Yoongi finalmente se pronunciou, quando conseguiu controlar a crise de risos. – Você realmente cogitou esse tipo de coisa, Jin? É sério?
— Eu tenho a total convicção de que Namjoon estava falando especificamente de você, Yoongi. – Jin insistiu, apenas tirando outra risada do professor.
— Por causa das minhas restrições alimentares? Fala sério Jin! – O outro balançou a cabeça negativamente, rolando os olhos em seguida. – Namjoon conta muitas histórias. E a cabeça dele não anda muito boa, é só ver o que ele fez com aquelas pessoas.
Yoongi sentiu o celular vibrando dentro do bolso da calça e então retirou o mesmo, olhando o visor. Hoseok estava ligando para si, provavelmente para avisar que estava saindo do trabalho.
— Jin, eu preciso ir agora. Mas escute o que te digo, não leve a sério as histórias que o Namjoon conta. – Yoongi disse já se levantando e pegando as suas coisas. – Acreditar nelas ou não só depende de você, mas não leve a sério. Conselho de amigo.
Antes mesmo que Seokjin pudesse falar qualquer coisa, Yoongi atendeu a ligação de Hoseok e foi saindo do local, deixando o psiquiatra sozinho. Jin ficou olhando pela janela do estabelecimento o professor andando apressadamente enquanto falava ao telefone, desta forma perguntando a si mesmo o que havia acontecido ali. Estava convicto de que Yoongi era Suga, principalmente depois das reações do professor. Era, acima de tudo, um excelente profissional, Jin sabia ler as pessoas muito bem.
O psiquiatra terminou a sua sobremesa e então pagou a dele e a de Yoongi, que acabou saindo sem pagar, e então se retirou daquele local. Faria um plantão daqui há algumas horas, então teria tempo de passar em casa e organizar algumas poucas coisas antes de voltar a se concentrar em seu paciente. Jin estava inquieto desde a última conversa que tiveram, quando Namjoon estava trancado nas alas inferiores. Havia sido a primeira conversa íntima que tiveram desde que se reencontraram, e não imaginava que fosse ficar tão emotivo ao se lembrar das coisas do passado, o que apenas evidenciou o quão sensível e envolvido por Namjoon estava mesmo depois de todos aqueles anos.
Com um suspiro pesado, pegou um ônibus no ponto ali perto e partiu para a própria casa, sorrindo abertamente ao ser recebido pelo seu gatinho de estimação, Félix. O felino ainda era um filhote, desta forma sendo bastante ativo durante o dia, aprontando bastante. Assim que entrou em casa, Félix correu em sua direção, miando, pedindo por comida. Seokjin, então, foi até a cozinha e encheu o potinho do pequeno, além de ter trocado a água do mesmo. Aproveitou para separar algumas roupas sujas para lavar e secaria quando voltasse do plantão, além de ter conseguido ter um pouco mais de tempo para varrer a casa antes de subir para o quarto, tomar um banho rápido e se vestir com as tradicionais roupas brancas e o jaleco do hospital. E, para selar o seu ritual, contemplou-se no espelho por breves momentos e ajeitou os cabelos antes de finalmente se sentir pleno o suficiente para sair de casa.
Dessa vez preferiu usar o próprio carro para ir até o hospital, principalmente para poupar seu tempo no deslocamento. Estacionou em um lugar apropriado e então, finalmente, entrou em seu tão familiar ambiente de trabalho. Os corredores naquele dia estavam com um fluxo menor de pacientes, afinal, era o horário em que eles geralmente estavam nos jardins da parte externa socializando, conversando ou brincando entre si. Obviamente sendo supervisionados por seus respectivos profissionais.
E foi com isso em mente que tomou a direção do jardim externo, sentindo o cheiro maravilhoso das flores que desabrocharam naquela estação. O ambiente estava belo, porém a atenção de Seokjin fora roubada, como sempre, pelo seu paciente Kim Namjoon. Entretanto, dessa vez não havia sido roubada de uma forma negativa, o psiquiatra até mesmo sorriu, cruzando os braços enquanto se aproximava da bela cena que estava tendo o prazer de contemplar.
Namjoon estava sentado no chão gramado, rodeado de alguns outros pacientes e até mesmo de alguns funcionários do hospital. O ex-rapper estava cantando uma de suas músicas mais famosas, Do You, para aqueles que estavam à sua volta, até mesmo gesticulando como fazia no clipe.
Precisava admitir que independente do que Namjoon tenha ou não feito, ele possuía um talento genuíno para o rap como há muito tempo ninguém havia visto. Suas rimas eram impressionantes, a voz combinava perfeitamente com as letras que o mesmo escrevia, e a boa energia que ele conseguia transmitir para o seu pequeno público fazia o coração de Seokjin se encher de alegria.
Estava tão distraído que não percebeu a aproximação de Taehyung, dando um pequeno salto de susto quando o irmão tocou seu ombro, anunciando que estava ao seu lado.
— Ele é muito bom no que faz, não é? – O mais novo comentou consigo, e acabou acenando positivamente com a cabeça.
— Desde quando éramos mais novos. Ele nasceu para fazer isso. – Jin comentou, voltando os olhos castanhos para Namjoon. O ex-rapper estava no momento do refrão e alguns pacientes começavam a cantar junto com ele.
— O Namjoon sempre teve essa energia boa emanando dele. Pelo menos eu conseguia sentir bastante tudo isso. – Taehyung comentou mais uma vez, colocando as duas mãos dentro do bolso do jaleco branco. – Ele tinha uma filosofia de vida muito bonita.
— Como assim? – O psiquiatra desviou o olhar para o irmão, que devolveu o olhar.
— O que? Você não sabia? – O mais novo estava surpreso, e acabou sorrindo de canto. – Namjoon sempre esperou o melhor, mesmo na pior das situações. Digamos que ele sempre acreditou que conseguiria extrair o melhor do mundo com o esforço do trabalho duro. – Taehyung suspirou. – É um pouco irônico ele seguir esse tipo de filosofia e acabar fazendo o que fez.
Jin mordeu o interior da boca levemente, os olhos se voltando para Namjoon mais uma vez. Agora o ex-rapper cantava uma música mais calma e que as outras pessoas conseguiam acompanhar. Aquela cena fazia Seokjin se lembrar da época de escola e dos momentos em que pegavam o carro do pai de Jungkook e iam dirigindo até a praia perto do pôr do sol para fazerem uma fogueira e acamparem ali. Lembrava-se que sempre quando estavam preparando seus lanches ao redor da fogueira, Namjoon começava a improvisar um rap com Yoongi e Hoseok, e às vezes Jungkook também entrava na brincadeira.
Acabou suspirando tristonho, aquele clima de nostalgia que a voz de Namjoon trazia fazia o psiquiatra sentir falta dos velhos tempos. Ao mesmo tempo em que o fazia se perguntar:
— Como é que chegamos a esse ponto? – Disse em voz alta após alguns segundos em silêncio, atraindo mais uma vez a atenção do irmão mais novo para si. Taehyung piscou lentamente, à sua maneira, antes de responder.
— O tempo muda as pessoas, Jin, e cria situações que nos afastam. – Comentou, abaixando o olhar levemente. – Não é muito bom tentar entender o destino. O melhor a se fazer é aceitar e aguentar o que ele nos reserva.
— Se você diz. – Jin deu de ombros, desviando o olhar para baixo e para os próprios pés, que batiam contra o chão gramado no ritmo do rap de Namjoon.
— Ah, é mesmo. – Taehyung disse em um tom de voz levemente alto. – Eu liguei para o Jungkook hoje e marcamos de nos encontrarmos no próximo sábado no meu consultório, para que ele possa me dar mais informações sobre o Jimin.
— Eu fico feliz em ouvir isso, Tae. – Seokjin abriu um sorriso animado para o irmão. – Estava ficando preocupado, pensando que você talvez não fosse aceitar.
— Eu acabei aceitando depois de uma longa conversa que tive com o Jungkook. Não acho que o nosso passado terá uma interferência muito relevante em se tratar do caso dele. Até porque você sabe muito bem que eu levo o meu profissional muito a sério. – Taehyung comentou e o mais velho precisou concordar. De fato o Kim mais novo seguira tão a risca a ética profissional que chegava a ser uma pessoa um pouco chata no ambiente de trabalho. Além de ser engraçada a forma como Taehyung mudava completamente da água para o vinho no momento em que cruzava a porta do hospital ou de seu consultório.
— Se precisar de alguma ajuda com relação ao caso dele você pode falar comigo. Sabe que não vou hesitar em te ajudar. – Jin comentou, virando-se completamente para o irmão agora, que sorriu cordial.
— Claro, é ótimo saber que tenho a quem recorrer quando precisar. – Taehyung sorriu abertamente, dando alguns poucos tapas no ombro do irmão mais velho. – Eu preciso ir agora Jin. Mas vamos nos falando, tudo bem?
— Com certeza.
Despediu-se do irmão, que girou os calcanhares e caminhou apressadamente até o interior do hospital, desaparecendo das vistas de Jin no momento em que virou para entrar no corredor que levavam aos quartos dos internos. O psiquiatra suspirou levemente, sentindo um pequeno peso em seus ombros de aliviar rapidamente.
Iria voltar a contemplar os pacientes distraídos com a cantoria, quando de repente deu um salto involuntário para trás por conta do susto que levou ao ver que Namjoon estava bem na sua frente com um sorriso no rosto, encarando-o fixamente. O ex-rapper acabou rindo da reação do psiquiatra, suavizando mais a expressão.
— Eu te assustei? Desculpe Jin, não foi a minha intenção. – Namjoon rapidamente se pronunciou, levando uma das mãos ao ombro do médico, acariciando ali suavemente.
Seokjin não conseguiu evitar o arrepio que subiu pela sua espinha com aquele toque, entretanto, não estava com medo de Namjoon. Muito pelo contrário, estava com uma tranquilidade fora do normal. Quando recuperou sua postura, voltou os olhos rasgados para o ex-rapper novamente.
— O que você está fazendo? – Questionou, recebendo mais um sorriso bonito como resposta.
— Não é nada demais. – Respondeu simplista, e então segurou em uma das mãos de Jin, acariciando as costas da mão com o polegar suavemente. – Você pode me acompanhar? Eu queria te mostrar uma coisa, mas não posso mostrar aqui.
— Onde você quer me levar? – Perguntou, acompanhando Namjoon quando este o puxou pela mão para entrarem no hospital novamente.
— Para o meu quarto. – Seokjin engoliu em seco. – O que eu tenho para te mostrar precisa ficar apenas entre nós, e lá é o único lugar em que eu tenho mais privacidade para fazer esse tipo de coisa.
Jin franziu o cenho. No entanto resolveu não questionar, resumindo-se a acompanhar Namjoon até o seu quarto, passando pelo corredor que levava aos quartos da ala superior, onde o ambiente era infinitamente mais agradável que o das alas inferiores. Fizeram todo o trajeto em silêncio, e assim que chegaram na frente da porta do quarto do ex-rapper, o mesmo a abriu e deu passagem para que Jin entrasse, em seguida fazendo o mesmo antes de trancar a porta.
— Para que trancar a porta? – O psiquiatra questionou.
— Privacidade. Está com medo? – Namjoon perguntou, apontando para um espelho grande que havia ali no quarto, onde dava para ver o reflexo do corpo inteiro. – Não precisa ficar assim, eu nunca faria algo que pudesse te machucar?
— Eu sei Namjoon. Não estou com medo. – Respondeu, entendendo que o rapaz queria que ele fosse à direção do espelho, e então o fez, ficando de frente para o mesmo e encarando o próprio reflexo ali. – Na verdade estou curioso sobre o que você quer me mostrar, exatamente.
— Eu quero te dar uma amostra do mykrokosmos, porque eu entendo que deve ser difícil para você acreditar em tudo o que disse. Eu quero provar a você que eu não sou louco, Jin. – Namjoon se posicionou logo atrás de Seokjin, repousando as duas mãos sobre os ombros do mesmo, fazendo uma massagem suave, o que acabou fazendo o psiquiatra suspirar sem querer. Sempre gostou das grandes mãos de Namjoon em seu corpo quando este estava disposto a fazer massagens relaxantes em si. Tal comportamento acabou retirando um sorriso satisfeito do ex-rapper, que continuou com os movimentos, aproveitando para encurvar levemente o corpo de forma que ficasse com a cabeça próxima da de Jin, os olhos castanhos voltando-se para o reflexo do médico no espelho, relaxado. – É bom saber que não estou enferrujado.
Apenas naquele momento Jin pareceu cair em si, olhando para Namjoon pelo reflexo do espelho com maior firmeza, franzindo o cenho em descontentamento. Aquilo apenas fez o ex-rapper sorrir mais abertamente.
— O que você quer me mostrar, exatamente? – Perguntou sem rodeios e Namjoon intensificou mais a massagem nos ombros do mais baixo.
— Primeiramente eu preciso que você relaxe e procure ser receptivo. – Começou, falando com a voz baixa perto da orelha de Jin, este que sentiu os pelos de sua nuca se arrepiar levemente. – É um pouco difícil para aqueles que não enxergam conseguirem perceber o potencial do mykrokosmos. Mas eu estou aqui com você, eu irei te ajudar. — Seokjin engoliu em seco mais uma vez. – Olhe para os meus olhos pelo reflexo do espelho, Jin. Concentre-se no meu olhar e limpe a sua mente.
— Isso é realmente necessário? – O psiquiatra rolou levemente os olhos, no entanto o semblante sério de Namjoon respondera a sua pergunta. – Certo, certo...
Desta forma, Kim Seokjin focou os olhos castanhos nos rasgados de Namjoon, que encaravam o espelho de forma intensa, porém sem interromper a massagem em seus ombros em nenhum momento. Procurava fazer o que o ex-rapper lhe dissera e limpava a mente de qualquer tipo e pensamento que pudesse distraí-lo naquele momento, perdendo-se nos olhos intensos de Namjoon. Até mesmo sentiu o rosto enrubescer levemente tamanha a intensidade. Além disso, Jin estava curioso para saber como aquilo iria terminar.
De repente Namjoon ergueu um dos braços longos na direção do espelho, esticando o dedo indicador até tocar na superfície fria. E, para a surpresa de Seokjin, o que antes era uma superfície sólida de vidro agora se agitava como água em movimento, reagindo ao toque do ex-rapper.
Jin arregalou os olhos, incrédulo, na medida em que via Namjoon atravessar a mão pela superfície de vidro, agora maleável, e retirar de lá uma linda flor de lírio branco. O espelho, que até o momento estava em movimento, aos poucos voltou ao seu estado natural como uma superfície sólida de vidro.
O psiquiatra voltou-se para a frente de Namjoon ainda incrédulo, com os olhos arregalados e com os lábios entreabertos. Definitivamente não conseguia entender como era possível para o ex-rapper fazer algo daquele tipo. Na verdade até mesmo duvidava da veracidade do que tinha acabado de testemunhar.
— Confuso? – Namjoon perguntou, as maçãs do rosto levemente avermelhadas como se estivesse encabulado. O ex-rapper estava sorrindo novamente enquanto balançava o lírio por entre os dedos longos. – Essa é a sua flor preferida, não é? Eu me lembro perfeitamente do arranjo de lírios que te dei de presente de aniversário. – Namjoon continuou, finalmente erguendo o olhar ao médico e levando a flor até seu rosto. – Você é tão belo quanto esse lírio, sabia? – Aproveitou para repousar a flor atrás da orelha do psiquiatra antes de finalmente se afastar.
— Como? – Jin finalmente conseguiu se pronunciar, a voz um pouco baixa. – Como... Como você fez isso Namjoon?!
— Eu sei, é muita coisa para processar. Eu também passei pela mesma situação quando Jackson estava me ensinando algumas coisas. – O ex-rapper suspirou pesadamente, mordendo o lábio inferior antes de continuar. – Você não vai entender tudo de uma vez, isso demanda tempo. Mas sabe, Jin, quando você quebra as barreiras da mente, tudo se torna possível.
Seokjin tocou levemente no lírio preso atrás de sua orelha com os dedos finos, alternando o olhar entre Namjoon e o espelho imóvel. Naquele exato momento lembrava-se da última história que o ex-rapper havia lhe contado, e um tremor de repente tomou conta de todo o seu corpo.
Namjoon se afastou aos poucos, voltando para a porta de seu quarto e a destrancando antes de abrir, voltando-se para trás uma última vez.
— Sabe Jin. – Chamou, atraindo a atenção do psiquiatra mais uma vez. – Às vezes para se fazer o bem, é necessário se tornar o cara mau. Agora... – Voltou os olhos castanhos para Jin novamente. – Considerá-lo realmente um cara mau ou não, só depende do que você considera como bem e mau.
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