Tentava ignorar os olhares de interesse da mulher que estava ao seu lado, que por mais que tentasse se ocupar com os papéis em cima de sua mesa, provavelmente os que usava para organizar a agenda de consultas do consultório, não conseguia ficar sem, vez ou outra, voltar os olhos rasgados para si.

Imaginava que talvez fosse por conta do uniforme que estava usando. A farda preta da polícia de Busan realmente se destacava, principalmente quando estava em todo o seu esplendor, usando os coturnos de cano curto e a calça grossa com bolsos, além do cinto onde guardava sua pistola, que no momento se encontrava na viatura, e o teaser, a arma de choque que ainda estava em sua posse apesar de não estar mais em seu turno naquele dia. Isso sem levar em consideração a camisa de botões preta, de tecido grosso e com alguns bolsos na altura do peito, que apenas evidenciavam ainda mais a pequena plaquinha metálica onde os caracteres “JEON” estavam gravados, evidenciados em relevo, identificando-o.

O policial acabou suspirando, rolando os olhos levemente na medida em que voltava os orbes pretos para o relógio na parede que marcavam dez e meia da manhã. Havia marcado aquela consulta com Taehyung há alguns dias para que pudessem finalmente falar sobre Jimin e que pudesse situar o amigo psicólogo a cerca de onde estaria se envolvendo, e, segundo o Kim, o primeiro contato com alguém próximo era extremamente importante para que tivesse uma ampla visão do caso. De certa forma, precisou concordar com Taehyung, era basicamente a mesma coisa que fazia quando estava investigando um crime.

Foi tirado de seus devaneios quando a porta do consultório foi aberta e então um jovem rapaz passou por ela, seguido pelo tão conhecido amigo psicólogo que usava o seu jaleco branco, com um lindo bordado na altura do peito com o símbolo da psicologia, e logo abaixo com a gravação “Kim Taehyung, psicólogo e psiquiatra”. O policial acabou sorrindo na medida em que o amigo terminava de conversar com o rapaz para liberá-lo.

— Não se esqueça de vir aqui na semana que vem, pode combinar o melhor horário com a Ji Ah Ro. – Taehyung disse ao rapaz, apontando para a secretária que sorriu amigável para o jovem paciente.

— Tudo bem, doutor Kim. Muito obrigado por hoje. – O rapaz fez uma leve mesura em cumprimento antes de se voltar para a secretária.

Finalmente os olhos rasgados e delineados de Taehyung foram de encontro ao rosto duro do amigo policial, que acabou suavizando suas feições ao finalmente contemplar diretamente o amigo psicólogo.

— Jungkook... Você chegou bem cedo. – Taehyung comentou, e então o policial se levantou do banco onde estava aguardando, levando uma das mãos ao bolso da calça do uniforme que usava. O moreno simplesmente não conseguia desviar os olhos escuros do psicólogo, que estreitou o olhar levemente para si. – Aconteceu alguma coisa, Jungkook?

— Ah, não Taehyung. Eu apenas acordei muito cedo para o meu turno de rondas pela cidade e não consegui descansar direito antes de vir para cá. – Respondeu rápido, a desculpa aparentemente surtindo efeito pela forma como o psicólogo balançou a cabeça de forma suave.

— Vamos entrando, Jungkook. Nossa conversa pode ser um pouco longa. – Taehyung comentou, dando espaço para que o policial passasse, este que endireitou a coluna e mais do que depressa se moveu, passando pelo amigo e entrando em seu consultório.

Há muitos anos que não via ou entrava em contato com Taehyung, desta forma ainda tinha na cabeça a imagem do adolescente magro e infantil que era acostumado a ver quando estudavam juntos. Por conta disso que estava tão surpreso ao reencontrá-lo finalmente, deparando-se com um homem alto, de ombros largos e rosto marcado. Seus olhos, sob o ponto de vista de Jungkook, pareciam ainda mais delineados do que na adolescência, e o cabelo em estilo mullet apenas complementava o visual estonteante do jovem médico, que agora fechava a porta e caminhava graciosamente até a própria cadeira, atrás de sua mesa.

Taehyung apontou para a cadeira mais à frente e Jungkook se sentou mais do que depressa, correndo os olhos escuros pelo local enquanto o médico terminava de anotar algumas coisas em uma espécie de ficha. Percebeu, logo atrás do psicólogo, uma enorme estante repleta dos mais variados livros sobre psicologia e comportamento humano, um acervo enorme e de causar inveja em muitas pessoas pela variedade de conteúdo. Mais ao lado havia uma espécie de área infantil, com o chão emborrachado em uma espécie de quebra cabeças, puffs coloridos e alguns brinquedos que Taehyung provavelmente usava para deixar seus pacientes mais novos à vontade. Olhar para aquilo acabou fazendo Jungkook sorrir antes de voltar sua atenção para o psicólogo, que agora o encarava com um olhar firme, o que fez o policial engolir em seco, levemente desconfortável.

— Está tudo bem, Jungkook? – Taehyung perguntou mais uma vez e então o policial relaxou os ombros ao apreciar a voz firme do amigo.

— Sim, como disse só estou um pouco cansado. – Repediu, observando a forma como Taehyung se encostava à própria poltrona, relaxado, segurando em uma das mãos uma prancheta com a ficha que estava preenchendo anteriormente, enquanto a outra mão estava ocupada com uma caneta esferográfica azul. Os olhos delineados estavam focados no papel.

— Park Jimin, tipo sanguíneo A pelo o que eu me lembro... – Taehyung começou, parecendo pensar um pouco. – Sua mãe é Park Eun Kyung, seu pai biológico é Park Dong Yul... – Taehyung fez uma pausa, escrevendo alguma coisa na ficha. – O atual marido da senhora Park se chama Kim Hyun Shik se eu bem me lembro, não é?

— Sim, é o pai biológico do Kim Sungchang. – Jungkook complementou, e Taehyung achou interessante anotar aquela informação também.

— Você ainda tem contato com o Sungchang? – Perguntou, erguendo o olhar para o policial, que respondeu balançando a cabeça negativamente, o que retirou um suspiro do jovem médico. – Tudo bem... Também não acho prudente entrar em contato com ele no momento. Se houver a necessidade eu posso tentar entrar em contato com o escritório dele.

— Escritório? – Jungkook fez uma expressão confusa, atraindo novamente a atenção do psicólogo.

— Kim Sungchang tem um escritório de advocacia, SPAX Advogados Associados. – Respondeu simplista, observando o psicólogo voltar a escrever sobre a sua prancheta.

Jungkook não sabia dizer se estava se sentindo daquela forma por já ter conhecido Taehyung, ou por conta da extrema seriedade do mesmo no decorrer daquela consulta. Mas era a primeira vez que estava diante de um psicólogo e estava se sentindo tão inquieto ao ponto de não conseguir deixar as pernas paradas sequer por um momento, movendo-as de forma involuntária. Obviamente aquilo não passou despercebido por Taehyung, era muito observador. No entanto o médico achou melhor não comentar nada sobre isso.

— Vamos começar Jeon Jungkook. – Taehyung finalmente disse, suspirando profundamente antes de voltar, novamente, os olhos delineados para o policial. – Conte-me o que está acontecendo com o Jimin, como vocês se encontraram, como é a relação de vocês... Quero entender melhor qual o tipo de relacionamento que vocês possuem.

— Bom... Jimin e eu ficamos muito próximos depois que eu o encontrei em uma ronda que estava fazendo com o meu parceiro Youngjae. – Jungkook começou, contando exatamente a mesma história que havia contado à Jin dias antes, quando pediu a ajuda do amigo para zelar pela saúde mental de Jimin. Taehyung prestou a atenção, principalmente, na forma como Jungkook descrevia as reações e aspectos da personalidade de Jimin, fazendo as anotações que lhe era conveniente. Já tinha uma pequena ideia do que se tratava o caso do antigo amigo da escola pela forma como Jin lhe contara os fatos, que apenas estavam se confirmando na medida em que conversava com Jungkook. – Jimin e eu ficamos muito próximos depois desse episódio em específico. Foi então que eu descobri sobre a real situação em que ele se encontrava. – Continuou, suspirando pesadamente. – Ele havia perdido o emprego de jornalista e não estava conseguindo arcar com as despesas do apartamento depois que o Namjoon terminou o relacionamento com ele.

— Ah... Então ele ainda se relacionava com o Namjoon? – O médico ergueu as duas sobrancelhas, fazendo questão de anotar aquele detalhe tão importante na ficha que estava fazendo.

— Sim, e eu sinceramente acredito que muitos dos transtornos que Jimin possui hoje foram por causa dele... Enfim, não irei entrar nesse detalhes investigativos. – Jungkook cortou a si mesmo, voltando ao ponto de interesse. – Eu não conseguiria ajuda-lo financeiramente, até porque na época eu estava noivo e tinha acabado de me mudar para uma casa maior com minha falecida noiva. E como era um novato na corporação meu salário não era tão bom assim. Foi então que eu lembrei que Hoseok estava procurando alguém para dividir o apartamento que tinha acabado de comprar. Era um espaço muito grande, e ele tinha alugado o apartamento para morar junto com Yoongi, mas não conseguiram realizar isso por causa do trabalho dele, já que ele morava perto da faculdade onde dá as suas aulas. Na época eu lembro que o Hoseok ficou muito entusiasmado com a ideia de dividir o apartamento com o Jimin.

— Sim, eu lembro que o Hoseok sempre foi uma pessoa... Alegre demais. – Comentou, mais para si mesmo do que para Jungkook, porém o policial acabou sorrindo mesmo assim. – E então eles dividem o apartamento do Hoseok agora?

— Sim, o que me tranquiliza um pouco, já que pelo menos o Jimin está com uma pessoa de confiança. Desta forma eu consigo trabalhar tranquilo, mas ainda assim eu gosto de estar presente, para que ele não se sinta sozinho, e para ficar de olho nele também. – Jungkook se encostou melhor na cadeira, olhando para cima por breves momentos. – O Jimin... É extremamente dependente, e ele precisa que eu esteja perto dele para que se sinta seguro.

— Certo... Vocês dois parecem ser muito próximos um do outro. – O médico ergueu os olhos para o policial. – Vocês são namorados, ou algo do gênero?

— De forma alguma! – Jungkook respondeu levemente surpreso, fazendo Taehyung erguer uma das sobrancelhas, curioso. – Eu tenho um carinho muito grande pelo Jimin, isso é verdade. Mas eu o tenho como... Um irmão mais novo, apesar dele ser mais velho do que eu. – Riu nasalmente, balançando a cabeça. – Eu vejo o Jimin como alguém que eu preciso proteger, e eu quero que ele fique bem, por isso o mantenho muito por perto.

— E o Jimin sabe disso? – Taehyung franziu o cenho, o que fez o policial parar por breves momentos, pensativo. – Pelo o que você me disse, ele tem você como um porto seguro, e essa dependência excessiva dele pode significar que ele possui sentimentos por você.

— Eu não acredito nisso. – Jungkook suspirou pela enésima vez, mordendo o lábio inferior com certa força. – O Jimin... Sempre diz que precisa voltar para certo alguém, que ele nunca revela o nome. – Taehyung estreitou os olhos, prestando uma maior atenção no que ele dizia. – Isso acontece principalmente quando ele está tendo os seus surtos.

— Como assim? O que ele faz ou fala? – Taehyung se encostou melhor em sua cadeira, inclinando a cabeça para o lado.

— Eu acredito que ele esteja falando do Namjoon na maior parte do tempo. Tive essa certeza porque os surtos dele pioraram depois que ele foi condenado. – Explicou, fazendo uma pequena pausa ao se lembrar das cenas dos episódios de Jimin que já presenciou, fazendo uma carranca. – Ele diz coisas como “Por que eu não consigo ver o que ele vê?” ou “O que eu preciso fazer para que ele volte a me amar?”, coisas assim, geralmente seguidas de ataques violentos. Às vezes Jimin quebra o quarto inteiro quando está tendo seus picos de raiva, ou então ele... Acaba se cortando. – Jungkook engoliu em seco. – Sempre que ele começa a se mutilar eu temo por sua vida, pois eu realmente acho que ele vai se matar. Porém... Ele sempre diz que não pode se matar, porque não era permitido que ele acabasse com a própria vida. Houve momentos em que ele implorava para que eu o matasse em meio aos surtos.

— Certo... – Taehyung escrevia freneticamente sobre a ficha de Jimin na medida em que Jungkook falava, até mesmo passando para a próxima folha quando o espaço da primeira acabou. Novamente ergueu os olhos delineados para o policial, que não estava com uma expressão boa. – Ele fica violento com outras pessoas?

— Sim, principalmente quando tem alucinações.

— Alucinações? – O médico franziu o cenho, até mesmo repousando a prancheta sobre a mesa por alguns momentos. Jungkook, mais uma vez, suspirou pesadamente.

— O Jimin às vezes... Vê coisas. – O policial fechou os olhos, apertando os próprios olhos com os dedos. – Eu não sei explicar, mas Hoseok geralmente me diz que às vezes, quando ele se olha no espelho, ele surta sozinho. Surtos desse gênero nunca aconteceram comigo, então eu tenho apenas o ponto de vista dele.

— O que o Hoseok diz sobre isso? – Taehyung suspirou pesadamente, voltando a escrever na ficha de Jimin.

— Parece que a mente dele o distancia da realidade, o Jimin às vezes perde a noção espacial, não sabe onde está de fato. Hoseok diz que já pegou Jimin várias vezes vendo coisas que não existem, ou descrevendo objetos completamente distorcidos. Provavelmente, quando Jimin se olha no espelho, às vezes ele também se vê dessa forma distorcida.

Naquele momento Taehyung repousou, mais uma vez, a prancheta e a caneta sobre sua mesa, em seguida levando os dedos à ponte do nariz, apertando levemente a região na medida em que fechava os olhos e respirava fundo. Até mesmo para si, um profissional acostumado com esse tipo de coisa, estava sendo informação demais para digerir de uma única vez. Quando Jin havia comentado sobre a situação, não imaginava que Jimin estivesse com um quadro tão grave como aquele. O que deixava Taehyung extremamente preocupado com a saúde mental do antigo amigo.

— Ele nunca teve um acompanhamento antes? – O médico perguntou após alguns momentos de pausa, atraindo a atenção do policial para si mais uma vez, que também se encontrava na mesma situação preocupada.

— Acredito que não. – Respondeu simplista, vendo Taehyung balançar a cabeça negativamente. Jungkook então ergueu o olhar para o psicólogo, apoiando uma das mãos sobre a mesa do mesmo na medida em que se aproximava sutilmente. – Consegue entender agora o porquê de ter pedido a ajuda de vocês? Eu não sei mais o que fazer para ajuda-lo e eu temo que Jimin possa fazer alguma besteira grave.

— Sim Jungkook, eu entendo perfeitamente o que quer dizer, e eu também estou muito preocupado com a saúde mental do Jimin depois de receber todas essas informações. – O médico comentou, encostando-se mais uma vez na própria poltrona enquanto fitava um ponto qualquer do consultório, pensativo. Era observado por um Jungkook curioso. – Eu gostaria de falar com o Hoseok também, já que ele convive com o Jimin todos os dias. Acredito eu que seria interessante e me ajudaria a me situar ainda mais no caso.

— Tudo bem, eu posso falar com ele e combinamos o melhor horário. – Jungkook disse com um sorriso, aproximando-se mais da mesa de Taehyung, que agora apoiava as mãos sobre a mesma. O policial as segurou, desta forma fazendo o médico descer o olhar para o toque. – Taehyung eu não sei como agradecer pela ajuda.

— Não precisa agradecer Jungkook. É o meu trabalho. – O psicólogo sorriu levemente, procurando passar um pouco de tranquilidade para o outro. – Você já falou sobre mim com o Jimin?

— Ainda não, mas pretendo em breve. Na verdade quando você achar melhor. – Jungkook apertou mais as mãos do médico.

— Seria bom você comentar sobre isso com ele, mas sem mostrar que é algo imposto. Precisa convencê-lo a vir por conta própria, o tratamento flui melhor dessa forma. – Aconselhou enquanto o policial ouvia atentamente cada palavra de Taehyung. – Como ainda quero ter uma conversa com Hoseok, você terá tempo suficiente para conseguir convencer Jimin.

— Eu espero que sim... É um pouco difícil de lidar com ele. O Jimin geralmente recusa a ajuda de muitas pessoas, principalmente quando se trata das suas... “Competências mentais”, por assim dizer. – Jungkook fez aspas com os dedos e Taehyung ergueu uma das sobrancelhas.

— Jungkook. – Dessa vez foi o médico quem tomou a iniciativa de segurar as mãos do policial, que se calou imediatamente com o toque. – Pelo o que eu pude entender, você é a pessoa em quem o Jimin mais confia. E sendo essa pessoa, ele irá compreender o que você quer para ele, ele vai entender que está preocupado com o seu bem estar. Talvez você precise insistir um pouco, mas não será tão complicado. Eu posso garantir que irei pegar a maior parte dos problemas dele, desde que você continue sendo o porto seguro em que ele possa se apoiar por enquanto.

Jungkook piscou algumas vezes, um pouco surpreso com a declaração do psicólogo, no entanto, acabou sorrindo. Taehyung estava certo em tudo o que dizia, e se quisesse que o tratamento do amigo desse certo, precisava primeiro mostrar ao mesmo que podia contar consigo para o que desse e viesse.

— Pode deixar comigo Taehyung, eu irei conseguir. – Sorriu firme e empolgado, arrancando um sorriso mais animado do psicólogo.

O médico voltou os olhos delineados para o relógio de parede do seu consultório. A conversa com Jungkook realmente havia ocupado uma grande parte de seu tempo e foi muito inteligente de sua parte deixar para atende-lo em seu último horário. Desta forma conseguiria chegar ao hospital em tempo para o seu plantão.

— Bom. – Levantou da poltrona, sendo acompanhado pelo policial. – Eu gostei de ter tido essa conversa com você, Jungkook.

— E eu digo o mesmo. – O rapaz respondeu com um sorriso bonito no rosto, os olhos brilhando levemente para Taehyung.

— Se não fosse pelo plantão que preciso fazer hoje no hospital eu te convidaria para almoçar. Acho que precisamos colocar nossos assuntos em dia. – O psicólogo comentou, levando as duas mãos aos bolsos do jaleco.

— Está indo para o hospital agora? – Jungkook ajeitou o uniforme na medida em que caminhavam lado a lado para sair do consultório. – Eu posso te dar uma carona se você quiser. Assim conversamos durante o caminho. – Sugeriu e Taehyung pareceu ponderar enquanto abria a porta, olhando para Ji Ah Ro que ainda estava concentrada em seus afazeres como secretária.

— Na verdade acho essa uma excelente ideia. – Comentou, acabando por sorrir. O médico voltou-se para a mulher à sua frente com um sorriso cordial. – Eu já estou indo. Depois me atualize sobre os horários das consultas da próxima semana. Talvez precisemos remarcar algumas.

— Sim, senhor Kim. – Ah Ro comentou, olhando mais uma fez para Jungkook com um sorriso amigável, que o policial apenas ignorou por estar concentrado demais em Taehyung.

Os dois homens então deixaram o consultório, que ficava em um edifício comercial próximo do hospital psiquiátrico onde Jin e Taehyung trabalhavam juntos. Para o Kim mais novo a distância era extremamente cômoda, primeiramente por estar próximo do seu segundo trabalho, e também por estar próximo de locais onde poderia comer rapidamente quando alternava entre as consultas e os plantões.

Assim que desceram, seguiram na direção da viatura de Jungkook que estava estacionada do outro lado da rua, onde a parada era permitida. O policial destrancou o carro e abriu a porta do carona para que Taehyung pudesse entrar, em seguida dando a volta para entrar pela porta do motorista, entrando na mesma. Observou a forma como o psicólogo se ajeitava no banco, colocando o cinto de segurança e ajeitando graciosamente o jaleco para não amassar. Sequer percebeu que havia se perdido ao contemplar o outro em toda a sua graça e beleza, aos olhos de Jungkook, Taehyung era um homem muito bonito e atraente, o que o fez engolir em seco levemente.

— Jungkook? – O psicólogo se pronunciou mais uma vez, estalando os dedos na frente do rosto do policial, que finalmente acordou de seu transe. – O que houve?

— Ah... Não é nada. – Rapidamente recuperou a compostura, colocando o cinto de segurança para dar a partida no carro. O médico sorriu, balançando a cabeça negativamente. – É só que você mudou muito desde a época de escola, e eu ainda estou um pouco surpreso por causa disso.

— Foi uma mudança boa, pelo menos? – Perguntou ainda com um sorriso bonito, voltando os olhos para o policial.

— Demais. – Jungkook disse sem pensar, sentindo o rosto se avermelhar levemente. Taehyung ergueu uma das sobrancelhas com aquela afirmação. – Quer dizer...

— Está tudo bem Jungkook. Já deu para entender que você me achou bonito. – Suspirou, fechando os olhos, em seguida voltando-os para a rua.

— Você pode me mandar uma mensagem quando estiver disponível para sair? – Perguntou, olhando para Taehyung com o canto do olho por breves momentos. O psicólogo pareceu ponderar sobre a pergunta do policial.

— Sim, eu quero conversar com você em um ambiente mais descontraído. – Comentou. – Acredito que este final de semana estarei livre se conseguir conversar com Hoseok durante os próximos dias.

— Então irei conversar com ele para marcarmos um dia. Assim vocês podem conversar o quanto antes. – Jungkook acabou sorrindo, o que fez Taehyung voltar os olhos para ele em curiosidade.

— Você está muito animado para o nosso almoço. – Apontou, e Jungkook apenas deu de ombros.

— Faz anos que não nos vemos, você mesmo disse isso Taehyung. E... – Olhou de canto para o médico mais uma vez. – Bom, eu senti a sua falta.

— Certo...

Taehyung voltou os olhos para a estrada mais uma vez e então permaneceu em silêncio, curioso pelo interesse repentino de Jungkook em sua pessoa. Já estavam praticamente na porta do hospital, e então o policial estacionou a viatura para que o psicólogo pudesse sair do carro.

— Irei enviar uma mensagem caso consiga tempo esse final de semana. Espere pelo meu contato. – Taehyung comentou do lado de fora, sorrindo de canto ao ver como os olhos de Jungkook se iluminaram com suas palavras.

— Estarei esperando então. Bom trabalho hoje.

Despediram-se, e Jungkook ficou ali acompanhando Taehyung com os olhos até que perdesse o médico de vista, suspirando e finalmente voltando a dar partida no carro. Precisava voltar até a corporação para deixar o veículo e terminar alguns afazeres antes de voltar para casa e ter um tempo para si. Geralmente aproveitava esses momentos para descansar, seja dormindo ou jogando algum videogame que tinha em casa, obviamente, quando não estava cuidando de algum caso em específico.

Suspirou pesadamente, ainda estava se recuperando das noites em que passou em claro investigando o caso de Namjoon, em que seus amigos policiais insistiam em dizer que estava obcecado em prender o rapaz. No fim todo o esforço acabou valendo a pena, havia resolvido o caso do estripador de Busan, e havia recebido várias homenagens de seus superiores, assim como uma promoção na corporação. Acabou sorrindo de canto ao se lembrar do dia em que finalmente colocou Namjoon atrás das grades e se permitiu dormir uma noite inteira pela primeira vez em meses.

Jungkook foi tirado de seus pensamentos quando sentiu o celular vibrando no bolso da calça, e aproveitou o sinal vermelho no semáforo para atender a ligação. Viu no visor o nome de Hoseok, e então franziu o cenho, estranhando o fato do rapaz liga-lo de forma tão repentina.

— Alô? Aconteceu alguma coisa, Hoseok? – O policial disse assim que atendeu, encostando-se melhor sobre o banco do carro. Todavia, estranhou a respiração ofegante do amigo.

— Jungkook, você precisa vir aqui agora! O Jimin se trancou no quarto e está quebrando tudo lá dentro! – Hoseok falou rapidamente. Dava para Jungkook ouvir o barulho que o rapaz fazia quando batia na porta do quarto de Jimin, chamando-o.

— Merda... Você está sozinho, Hoseok? – Perguntou, já ligando a luz da viatura, assim como a sirene mais do que conhecida.

— Sim. Eu liguei para o Yoongi, mas ele vai demorar para chegar. Vem logo Jungkook! Hoje ele... – Hoseok interrompeu a própria fala e um som alto de vidro se quebrando pôde ser ouvido. – Jimin?! Jimin o que houve?! Abre essa porta Jimin!

— Hoseok eu já estou a caminho, continue chamando pelo Jimin, eu já chego!

Sequer esperou pela resposta do amigo e antes mesmo que o sinal abrisse, saiu em disparada com a viatura policial. Jungkook precisava ser rápido, e como conhecia Busan como a palma de sua mão, não demorou para começar a cortar o caminho por rotas alternativas e com pouco trânsito para acelerar a sua chegada ao apartamento que Hoseok dividia com Jimin. Desta forma, não demorou para chegar ao prédio, já saltando para fora do carro e correndo, pelas escadas mesmo, até o andar do amigo.

Jungkook encontrou a porta principal fechada e então bateu algumas vezes, logo vendo a mesma ser aberta por um Hoseok trêmulo e levemente assustado. O policial acabou suspirando com aquilo, por mais que os surtos de Jimin fossem comuns e acontecessem com frequência era compreensível o espanto do amigo, que sempre foi tão sensível para esse tipo de situação.

— Obrigado por ter vindo tão rápido, Jungkook! – Hoseok disse, quase chorando de nervoso. O policial apenas tocou levemente em seu ombro.

— O Jimin ainda está trancado lá dentro? – Perguntou e recebeu um acenar positivo como resposta. – Certo... Estou indo.

O policial foi adentrando o apartamento do amigo, que o seguiu logo atrás ainda extremamente nervoso. Os quartos da casa eram interligados por um corredor que levava à sala integrada à cozinha, e então, quando percebeu, já estava diante do quarto de Park Jimin. Jungkook conseguia ouviu o soluço chorão de Jimin do outro lado da porta, assim como o barulho de coisas caindo ou sendo jogadas no chão.

— Jimin. – Chamou, batendo levemente na porta. Conseguiu ouvir o outro fungando do outro lado. – Jimin, se estiver me ouvindo abra a porta.

— Vai embora, Jungkook! – Ouviu o outro dizer com a voz trêmula, embargada pelo choro incessante. O policial apenas mordeu o lábio inferior com certa força, respirando fundo antes de continuar.

— Jimin, o que houve para você ficar assim, huh? – Perguntou, ainda com a voz branda, procurando passar alguma tranquilidade para o amigo.

— Eu mandei você sair, cacete! – Respondeu novamente, desta vez em um tom de voz agressivo. Jungkook iria insistir mais, se não tivesse ouvido um som muito alto de algo se quebrando.

— Jimin! Ei, Jimin! – O policial bateu na porta mais vezes, porém não obteve uma resposta. Voltou então os olhos pretos para Hoseok. – Se afasta, eu vou arrombar a porta.

Hoseok obedeceu e mais do que depressa Jungkook tomou distância e começou a chutar a porta com violência. Na primeira e na segunda vez a mesma apenas tremeu violentamente, até que na terceira conseguiu arrombar, o barulho da madeira se chocando com força contra a parede do quarto tomando conta do ambiente. Mais do que depressa o policial entrou no cômodo, arregalando os olhos ao ver o quão bagunçado o mesmo se encontrava, com as roupas de cama reviradas, vidros de perfume quebrados no chão, móveis jogados ao chão e o enorme espelho ao lado da cama completamente estilhaçado.

Em meio a toda aquela confusão estava Jimin, sentado no chão encolhido, abraçando os próprios joelhos enquanto se balançava sozinho para frente e para trás. Estava com o rosto escondido entre as pernas, porém Jungkook conseguia ver como o mesmo estava inchado de tanto chorar.

— Jungkook-ie... – Ouviu a voz chorona de Jimin o chamar, finalmente acordando do transe do choque que levou, e então Jungkook se abaixou em frente a Jimin. O policial conseguia ver os cortes que o mesmo havia feito nos braços e em como a mão de Jimin sangrava bastante por estar segurando um grande pedaço de vidro com força.

— Ei... Jimin-ssi. – Jungkook falou com a voz baixa e calma, tocando levemente no ombro do menor enquanto a outra mão tocava no caco de espelho. – Solta isso, meu anjo... Não é bom para você...

— Eu mereço Jungkook-ie... Eu mereço... – Balbuciou, fungando repetidas vezes enquanto apertava ainda mais o espelho.

— Não, meu pequeno, você não merece essa dor... Deixa-me tirar isso de você, deixa... – Jungkook segurou nas mãos de Jimin, que aos poucos foi afrouxando o aperto que fazia no caco cortante até finalmente soltar o mesmo. – Isso... – Jungkook deixou o objeto ao seu lado no chão. – Me deixa ver os seus braços, querido?

Jimin, aos poucos, foi soltando as pernas do abraço que dava em si mesmo, possibilitando à Jungkook avaliar o estrago feito. O policial acabou mordendo o lábio inferior ao ver que tinham pedaços de vidro em alguns ferimentos abertos, sequer querendo imaginar a dor que o mesmo estava sentindo.

No entanto a surpresa maior veio quando ergueu os olhos para Jimin novamente, que havia levantado a cabeça para o policial. O mais baixo estava com o belo rosto completamente ferido, os lábios com as marcas de seus dentes, que haviam furado os mesmos e que agora sangravam manchando o rosto bonito. As bochechas estavam arranhadas, dava até mesmo para se acompanhar o desenho que as unhas de Jimin fizeram em suas bochechas na medida em que ele próprio se arranhara.

Aquilo fez o estômago de Jungkook se revirar e Hoseok, que estava em silêncio até então, desviou o olhar para o outro lado.

— Jungkook-ie... Por que eu não consigo enxergar também? – Perguntou ao policial, ainda aos prantos. – Eu tenho que enxergar Jungkook-ie... Só assim ele vai voltar para mim...

O policial iria comentar alguma coisa, porém foi interrompido por Hoseok:

— Yoongi! Ainda bem que você chegou!

Todos os ali presentes voltaram os olhos para o professor de anatomia que acabara de chegar e que estava ofegante ali, o que indicava que havia corrido bastante até o local. Hoseok estava sorridente e aliviado por ver o namorado ali, porém Yoongi estava completamente paralisado.

— Y-Yoongi... – Jimin se pronunciou finalmente, atraindo a atenção de Jungkook para si, que estranhou a expressão de completo espanto do mais baixo. Todavia, estranhou mais ainda a reação do professor, que respirou profundamente na medida em que os olhos arregalados acompanhavam lentamente o rastro de sangue que escorria dos braços do Park.

— Jimin... – A voz do professor saiu rouca, e Yoongi engoliu em seco para a cena. Aos olhos de Jungkook e Hoseok, parecia que o mesmo estava fazendo uma força descomunal para se conter de avançar em cima de Jimin. – Park Jimin... O que você pensa que está fazendo?

— Y-Yoongi... Desculpa eu... Eu não pensei... – Jimin começou, porém Yoongi não deixou que o rapaz terminasse, já deixando o local. – Yoongi! Yoongi volta aqui, por favor!

— Jimin, calma! – Jungkook disse preocupado quando o menor levantou de repente para correr atrás de Yoongi, que correu para fora do apartamento de Hoseok visivelmente alterado.

Jimin continuava gritando por Yoongi desesperadamente, até que sentiu o corpo pesar. Jungkook precisou pensar rápido e segurar o corpo do menor para que o mesmo não fosse de encontro ao chão.

— Puta que pariu... Hoseok, eu vou levar o Jimin para o hospital! – O policial avisou, puxando o Park para os seus braços para correr para o lado de fora, onde acabou passando por um Yoongi que se apoiava nos próprios joelhos, com a respiração ofegante como se não conseguisse respirar.

O policial e o professor de anatomia trocaram olhares intensos uma última vez antes de finalmente se separarem e Jungkook correr para socorrer Jimin. No entanto, faria uma nota mental para que se lembrasse de questionar Yoongi a cerca do que havia acontecido consigo para reagir daquela forma com Jimin.

Notas finais
Comentários?