Manicômio
4 Nem tudo é o que parece
Foi dormir na noite anterior com a história de Jungkook pairando em seus pensamentos, fazendo uma nota mental para que não esquecesse de falar com Taehyung sobre o caso de Jimin. Por mais que tivessem suas diferenças por conta do passado do período da escola, ainda sentia aquela ponta de amizade que insistia em gritar em seus pensamentos, pedindo para que o ajudasse de todas as formas.
E foi com esses pensamentos que foi trabalhar no dia seguinte, divagando sobre isso durante todo o caminho enquanto algumas imagens da época de escola passavam pela sua mente, o que o fazia sorrir algumas vezes, principalmente quando os momentos que passara ao lado de Namjoon passavam pela sua cabeça. Devia admitir que nem tudo o que vivera ao lado do ex-rapper fora ruim, muito pelo contrário, haviam tido muitos momentos bons ao lado um do outro, porém, infelizmente acabaram tendo um fim quando Jimin entrou na história de ambos.
Suspirou pesadamente, balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto caminhava pelos corredores do hospital indo em direção à sala do diretor. Era basicamente seu ritual matinal passar na sala do homem de meia idade, conversar sobre trivialidades e depois finalmente começar o seu dia com uma boa conversa com seus pacientes antes de finalmente encarar o grande desafio que era Kim Namjoon.
No entanto, antes mesmo que pudesse ter tempo de chegar à sala de seu diretor, encontrou com o mesmo esbaforido correndo em sua direção com uma expressão um tanto perturbada no rosto. O médico franziu o cenho sem entender, parando de andar quando o mesmo percebeu sua presença.
— Seokjin! – O diretor disse, olhando para trás algumas vezes antes de se voltar para o médico com o cenho franzido em aparente irritação.
— Aconteceu alguma coisa, diretor? – O rapaz quis saber, vendo o homem erguer as duas sobrancelhas.
— Obviamente! Eu exijo que Kim Namjoon seja enviado para a ala de isolamento por tempo indeterminado! – O homem respondeu mais do que depressa, o que atraiu o olhar estranhado do psiquiatra, que logo em seguida franziu o cenho.
— A ala de isolamento? Mas o que foi que ele fez? – Jin perguntou um tanto atordoado pela reação repentina do homem à sua frente, que esfregava a palma das mãos sobre as coxas em nervoso aparente.
— Não interessa o que ele fez, é uma ordem direta, obedeça! – O homem trincou os dentes, rangendo-os levemente raivosos. Naquele momento Jin deu um suave passo para trás, levando ambas as mãos aos bolsos do jaleco branco que usava.
— Diretor... O senhor sabe muito bem que eu não sou como os outros funcionários do hospital, e não posso simplesmente acatar a uma ordem absurda como essa sem saber o real motivo. – Jin devolveu, falando pausadamente para que o homem, desta forma, pudesse entender seu total e completo descontentamento mediante aquela ordem, em seu ponto de vista, absurda. – Kim Namjoon até o momento são se comportou de maneira tão ultrajante ao ponto de ser encaminhado ao isolamento, então eu peço que me esclareça.
— Kim Seokjin. – O homem disse com a voz firme, encarando-o com aparente raiva, no entanto o psiquiatra não se intimidou diante daquele olhar firme. – Você é um excelente profissional, nacionalmente reconhecido, mas nem por isso você está em posição de questionar ordens superiores diretamente. Se você não o fizer, eu encontro alguém que faça e eu lhe garanto que seu paciente não será tratado com as mesmas regalias que você oferece.
Um silêncio tenso pairou entre os dois homens, Jin fitando-o com firmeza enquanto o olhar era intensamente retribuído pelo diretor. Por dentro o psiquiatra estava levemente ofendido pelo tom de ameaça que seu superior usara consigo, ao mesmo tempo em que tentava entender os motivos por trás daquela reação tão repentina, visto que o homem raramente agia de forma tão impulsiva e descontrolada, pelo menos não consigo.
O diretor sequer esperou uma resposta, girando os calcanhares para voltar à sua sala, deixando Seokjin estático no corredor por breves momentos antes que este, finalmente, fosse procurar por ajuda para levar Namjoon à ala de isolamento. Era contra seus princípios como profissional tratar um paciente daquela forma, afinal, todos estavam ali por terem algum tipo de enfermidade mental. Era um hospital, afinal, e ali haviam pessoas especializadas para tradar deste tipo de enfermidade e que, infelizmente, preferiam conduzir suas sessões da maneira mais fácil e que não lhes dessem tanto trabalho.
Esse era um dos motivos que faziam com que Kim Seokjin fosse reconhecido nacionalmente como o melhor profissional na área de psiquiatria, o simples fato de realmente se preocupar e se importar com o bem estar de seus pacientes.
Suspirou pesadamente na medida em que espantava tais pensamentos, convocando dois de seus colegas para tal missão. Logo em seguida, em passos relativamente rápidos, atravessou os corredores rumo ao quarto onde Namjoon repousava. Jin tossiu levemente quando chegou, preparando-se para bater na porta quando a mesma fora aberta de forma repentina, revelando a figura do ex-rapper que se apoiava sobre o batente com um dos braços e segurava a maçaneta com a mão livre, sorrindo pela expressão surpresa do médico que até mesmo deu poucos passos para trás ao ser pego desprevenido.
— Eu sabia que você viria. – Namjoon abriu um belo sorriso para Jin, que apenas engoliu em seco. – Bom dia.
— Bom dia Namjoon... – Jin tentou se recompor mais apropriadamente, endireitando a coluna enquanto voltava os olhos para os rapazes logo atrás de si, que estavam esperando o momento certo para pegarem o ex-rapper desprevenido e imobilizá-lo na camisa de força. – Nós podemos entrar?
— Eu sei o que vocês vieram fazer. – Sorriu, sem tirar os olhos dos de Jin. – Eu sinto muito por você ser obrigado a fazer esse tipo de coisa. Eu sei que não é algo que você queira fazer, mesmo em se tratando de mim. – O homem suspirou e, para a surpresa de Jin, Namjoon ergueu uma das mãos para tocar-lhe a face. No entanto, foi impedido pelos dois rapazes que o médico trouxera como reforço.
Antes que pudesse perceber, Namjoon estava no chão e, apesar de não apresentar resistência os dois homens o colocavam dentro da camisa de força com certa violência, apertando seus braços com uma força que Jin considerou demasiadamente exagerada. Os olhos pretos de Seokjin cruzaram, então, com os de Namjoon, que apesar de estar sorrindo em uma tentativa de passar tranquilidade ao outro, não conseguia deixar de esboçar uma expressão de dor.
— Não apertem tanto os braços dele, ele não está resistindo. – Jin então se intrometeu, tirando um dos homens de cima de Namjoon. – O que pensam que ele é? Estamos aqui como profissionais de saúde e não como carcereiros! — Ajudou Namjoon a se levantar, porém, ao mesmo tempo pôs-se atrás do mesmo para terminar de fechar a camisa de força. Era nítido em seu rosto o quão frustrado estava com a atitude daqueles rapazes. Quando finalmente terminou, soltou o mesmo que estava com um sorriso divertido nos lábios. – Podem leva-lo, mas deixem a chave dele comigo, ouviram?
Os homens apenas assentiram enquanto acompanhavam Namjoon até os andares inferiores, os três sendo seguidos por Jin logo mais atrás, este que guardou as chaves do possível quarto do ex-rapper no bolso do jaleco branco que usava. O psiquiatra engolia em seco na medida em que desciam as escadas e o ambiente passava a ficar mais estreito, pouco iluminado e com o ar mais úmido, até que finalmente se depararam com uma porta metálica que separava os ambientes.
Seokjin se apressou em passar à frente dos outros rapazes, usando as chaves que estavam em seu bolso para abrir aquela porta. O cheiro daquele lugar fez com que torcesse o nariz levemente e então voltou os olhos pretos para Namjoon, que, ao contrário do que imaginava, permanecia com o sorriso nos lábios. O cheiro de mofo misturado ao cheiro da sujeira incomodaria qualquer pessoa minimamente sã, e os gemidos que vinham dos pacientes que estavam presos nos quartos, isolados, era de arrepiar qualquer um.
Foi então que suspirou pesadamente, dando o primeiro passo para dentro daquele longo corredor de portas metálicas com pequenas janelas na parte superior. A iluminação precária fazia com que Jin fizesse um pouco mais de esforço para ler os prontuários que estavam anexados às portas metálicas, procurando assim por um quarto vago. Quando finalmente o encontrou, mal abriu a porta quando viu os dois homens que estavam consigo empurrar Namjoon para dentro daquele quarto frio e úmido, e então fechou a porta, trancando-a.
— Podem ir. – Jin se pronunciou finalmente, a voz ecoando alta pelo corredor apesar do tom baixo, e mais do que depressa os rapazes deixaram aquele ambiente sombrio. Com um suspiro pesado, o psiquiatra deixou o peso dos ombros caírem, finalmente voltando a atenção para a porta quando fora surpreendido pela imagem do rosto de Namjoon na pequena janela da porta de ferro, os olhos bem abertos fixos no rosto de Jin como se estivessem observando uma presa. Infelizmente Seokjin não conseguiu conter o pulo involuntário do susto que tomou com aquilo, o que apenas aumentou o sorriso no rosto de Namjoon.
— Desculpe se o assustei, não era a minha intenção. – O ex-rapper finalmente se pronunciou, suavizando também a expressão que fazia para Jin.
— Na-Namjoon... Eu não sei o que você fez para o diretor, mas eu espero que se comporte aqui e consiga refletir um pouco sobre os seus atos mais recentes. – Seokjin disse, colocando ambas as mãos nos bolsos do jaleco, fechando-as em punho enquanto tentava conter a vontade que crescia em seu peito de abrir a porta e tirar Namjoon dali.
No entanto, ao invés de fazer um de seus comentários irritantes que Jin passou a aturar nos últimos dias, Namjoon apenas assentiu, afastando-se lentamente da porta até que o psiquiatra o perdesse de vista. Seokjin não conseguiu simplesmente deixar aquele ambiente sem permanecer alguns minutos fitando a porta do quarto de Namjoon por alguns minutos.
Quando menos percebeu, já estava de volta aos andares superiores, porém continuava com as mãos fechadas em punho. Estava tentando conter a vontade de invadir a porta do diretor e questioná-lo a cerca daquela decisão tão imoral de trancar Namjoon em um ambiente como aquele, principalmente quando estava ainda no princípio do problema do ex-rapper. Era o tipo de situação que poderia afetar o paciente de forma excessivamente negativa, e até mesmo já começava a pensar em maneiras de contornar a situação caso a situação de Namjoon acabasse se agravando por conta daquela decisão impensada.
Apenas foi tirado de seus devaneios quando viu seu irmão no final do corredor, quase deixando suas vistas. Jin apressou os passos para alcançar o mesmo, que deu um leve pulinho de surpresa ao ver a aparição tão repentina do irmão mais velho.
— Taehyung, eu estava precisando mesmo falar com você. Ainda bem que pegamos o mesmo turno dessa vez. – Jin comentou, sorrindo e finalmente retirando as mãos dos bolsos. O mais novo piscou levemente, abrindo levemente a boca em seu ar naturalmente desinteressado. Aos olhos daqueles que não compreendiam a personalidade de Taehyung, o psicólogo parecia ser uma pessoa completamente desinteressada, preguiçosa e desapegada, quando na verdade era exatamente o contrário.
— Ah... Sim, Jin hyung. – O mesmo piscou mais aceleradamente agora. – Está sendo cada vez mais difícil nos vermos aqui no hospital nos últimos dias. Estou com pacientes novos e alguns nos últimos dias de tratamento. Então preciso estar atento. Você sabe como esses momentos finais são delicados.
— Sim, eu sei. Mas já que estamos aqui, tem um minuto para tomarmos um chá na minha sala? Eu realmente preciso falar com você. – Jin repousou o braço sobre os ombros do irmão mais novo, sequer dando tempo para que o mesmo respondesse e já o puxando consigo.
— Ah... Claro que sim. – Taehyung rolou levemente os olhos, acompanhando o irmão pelo corredor até que finalmente chegaram à sessão administrativa, onde cada médico tinha a sua respectiva sala. A sala de Jin ficava logo no começo do corredor, e então não se demoraram em adentrá-la. – É um assunto tão sério assim, ao ponto de precisarmos ir para um lugar mais reservado?
— Sim, porque não é algo relacionado ao nosso trabalho aqui no hospital. – Jin se aproximou da máquina que esquentava a água e a ligou para preparar o chá de ambos. Taehyung se sentou sobre uma das poltronas que haviam na sala de Jin e então cruzou as pernas, erguendo uma das sobrancelhas em curiosidade. – Como está a sua rotina no seu consultório? Está com muitos pacientes?
Taehyung suspirou de forma mais profunda, recostando-se melhor sobre a poltrona enquanto via o irmão encostar-se à parede ao lado da máquina.
— Estou atendendo cerca de dois pacientes por dia, com exceção dos finais de semana mesmo. – O mais novo respondeu, fechando levemente os olhos quando levantou a cabeça, sem querer destacando o cabelo escuro e comprido em um mullet* que Jin achava que realçava a beleza do irmão. – Por quê?
— Eu gostaria de indicar um paciente à você. Como ele é um grande conhecido meu, e como estou ocupado com o caso do Namjoon, acho que você seria a pessoa perfeita para isso. – Quando a água ferveu, Seokjin pegou as duas xícaras que estavam logo ao lado, colocando ali dentro um pó verde do matcha que ambos adoravam, em seguida cobrindo o pó com o líquido quente. – Teria algum problema?
— Então, depende. – Taehyung pegou a xícara das mãos do irmão, repousando-a sobre uma das coxas. – Se for um paciente muito complicado de se lidar, provavelmente terei que agendar ele aos sábados de manhã. Mas eu não acho que seria um grande problema.
— Então você pode me ajudar. – Jin pegou a própria xícara, sentando-se na poltrona à frente do irmão. – Você se lembra do Jimin?
— Jimin... – Taehyung finalmente levou a xícara aos lábios, sorvendo um pouco do líquido quente enquanto tentava buscar na memória aquele nome que lhe era tão familiar. – Espera... É o mesmo Jimin que estou pensando que seja?
— Sim, Park Jimin. – Jin suspirou pesadamente, também sorvendo um generoso gole no chá quente.
— Explique-me como essa figura reapareceu assim, de repente. – Taehyung até soltou uma risada com o próprio comentário, o que fez o irmão mais velho rolar os olhos.
— Você se lembra de quando eu te falava que o Jungkook estava... Como posso dizer, cuidando de um rapaz que estava precisando da ajuda dele? – Começou e o irmão assentiu, dando espaço para que Jin continuasse. – Acontece que essa pessoa é o Jimin. Pelo o que Jungkook me disse, eles se reencontraram quando ele estava fazendo uma patrulha com o Youngjae, e o Jimin não parecia estar em seu juízo perfeito.
— Ele estava passando por algum tipo de episódio, ou algo parecido? – Taehyung repousou novamente a xícara sobre a coxa.
— Aparentemente sim, mas não tenho como dar um diagnóstico concreto porque não fiz uma análise dele, não conversei com os seus familiares e também nem chamei o Jungkook para uma conversa mais profunda sobre isso. – Jin continuou, coçando levemente a bochecha. – Além disso, você sabe que eu e Jimin tivemos nossas diferenças no passado por causa do Namjoon, e já está sendo um grande desafio para mim ser imparcial no caso dele. Eu sozinho não vou conseguir dar conta tanto do Jimin quanto de Namjoon.
— Certo... E você pensou em mim por quê? – Taehyung endireitou a coluna, erguendo as duas sobrancelhas para o irmão mais velho.
— Você não teve tanta convivência com o Jimin como eu tive apesar de estudarem na mesma sala. Você sempre foi mais reservado do que eu, e também não passou por grandes embalos emocionais com o Jimin como eu. Acredito que você seja a pessoa mais adequada para ajuda-lo. – Jin continuou, finalmente terminando o seu chá. – Jungkook me pediu alguém de confiança e eu confio plenamente nas suas habilidades. Sei que é um ótimo profissional e que você jamais deixaria que o pessoal interferisse nos assuntos do tratamento dele.
— Hm... – Taehyung se encostou melhor na poltrona, balançando o chá dentro da xícara com uma das mãos enquanto olhava para cima, pensativo. Era uma decisão extremamente importante, afinal, ficaria responsável por Jimin até o final de seu tratamento e precisava garantir seu total bem estar no durante. – Vai depender do quanto de informação que eu vou conseguir extrair dele e dos seus familiares. O Jungkook pode passar no meu consultório qualquer dia desses para conversarmos melhor sobre isso, e então eu vejo se está ao meu alcance.
— Obrigado, Tae-Tae! – Jin respondeu com um sorriso enquanto o irmão mais novo terminava de tomar o chá. O psiquiatra, mais do que depressa, tirou o celular do bolso de seu jaleco branco, procurando ali o número de Jungkook para enviar para o irmão. – Vou te passar o contato dele, assim vocês conversam melhor.
— Tudo bem. O Jimin ainda tem contato com o irmão? Era Sungchang o nome dele, não era? – Taehyung pegou o telefone também, logo vendo a mensagem de Jin com o contato de Jungkook.
— Kim Sungchang, mas eu acho que o Jimin sequer sabe onde ele está. Jungkook não comentou nada comigo sobre ele. – O mais velho guardou o telefone no bolso do jaleco novamente, observando Taehyung dar total atenção ao próprio celular.
O mais novo havia colocado o nome de Sungchang para fazer uma rápida pesquisa na internet, uma breve consulta para saber exatamente onde estava pisando.
— Parece que Sungchang é um advogado hoje em dia. – Taehyung comentou, atraindo novamente a atenção de Jin para a sua voz. – Aqui ele aparece como o dono de um escritório de advocacia.
— Sério? – Jin ergueu ambas as sobrancelhas e então o mais novo voltou a tela do celular para que Seokjin pudesse ler o conteúdo. – SPAX Advogados Associados... Que coisa, ele realmente fez o que a senhora Park queria, não?
— Seguiu o caminho do falecido pai... Mas enfim, é bom ter essa informação. Pode ser útil caso precise conversar com o Sungchang por algum motivo, isso pode ajudar vir a ajudar o Jimin. – O mais novo guardou o celular no bolso do jaleco também, finalmente se levantando e sendo acompanhado pelo irmão. – Jin, eu só não vou conseguir falar com o Jungkook agora porque eu realmente preciso dar atenção aos pacientes mais novos.
— Está tudo bem, Tae. Eu também não vou conseguir dar um feedback ao Jungkook agora pela manhã, mas falarei com ele assim que possível e peço para ele entrar em contato contigo mais tarde. – Jin abriu um grande sorriso, abrindo a porta de sua sala e dando espaço para o irmão sair, fazendo o mesmo logo em seguida.
— Tudo bem. – Taehyung também sorriu, finalmente girando os calcanhares e indo na direção oposta a de Seokjin. – Falamos mais tarde então. Vamos almoçar juntos!
— Combinado, Tae-Tae. – Jin soltou uma risada gostosa antes de seguir o próprio caminho.
A breve conversa com Taehyung foi o suficiente para melhorar o seu humor naquela manhã, que havia sido abalado por conta do incidente com Namjoon e o diretor. Agora que estava com os pensamentos mais claros, e que a situação com Jimin estava começando a trilhar o seu caminho, permitiu-se pensar nos afazeres daquele dia. Iria acompanhar com maior atenção o caso de sua paciente, diga-se de passagem, preferida: Lalisa Manoban, na qual carinhosamente apelidou de Lisa.
Seokjin até mesmo sorriu mais abertamente ao se lembrar dela. Lisa era uma menina linda, na altura dos seus dezesseis anos. Havia chegado ao hospital no ano passado e completaria um ano de tratamento com Jin no próximo mês. Lisa sofria de transtorno de desrealização, e Seokjin se lembrava perfeitamente do estado da jovem quando começou a trata-la assim que a mesma chegou ao hospital, incluindo o fato da mesma procurar incessantemente por objetos que pudesse utilizar para ferir a si mesma. Lisa dizia que fazia aquele tipo de coisa para provar a si mesma que estava viva, para voltar a realidade ou para deixar de se concentrar nas alucinações que acabava vendo de vez em quando. Fora um grande desafio para Jin, e sentia orgulho de seu feito. Lisa havia apresentado uma melhora significativa desde que passou a estar sob seus cuidados, além do fato de Seokjin a tratar como se fosse sua própria filha. Tinha um enorme carinho pela menina.
Tendo isso em mente, abriu o melhor sorriso que tinha e rumou para o corredor dos quartos, ignorando o fato do quarto de Namjoon estar estranhamente silencioso por conta da ausência do rapaz, passando direto para o quarto de Lisa. Bateu cerca de três vezes antes de entrar, lançando à menina o melhor sorriso que tinha e recebendo os olhos dela, animados como de costume.
Lisa estava sentada em sua cama e praticamente saltou da mesma com a presença de Jin naquele ambiente, e então correu na direção do psiquiatra para abraça-lo. Seokjin abriu os braços e a recebeu de bom grado, até mesmo erguendo o corpo e girando com ela no ar, o que a fez rir brevemente.
— Bom dia Lisa! – Finalmente se pronunciou, colocando a jovem no chão.
— Bom dia, senhor Kim! – Ela respondeu, sem deixar de apoiar as mãos nos dois ombros de Seokjin.
Jin estava sorrindo para a menina até que ela começou a apertar seus ombros com certa força. O médico franziu o cenho, olhando nos olhos de Lisa na medida em que ela fazia o mesmo, os olhos antes adoráveis arregalados.
Lisa de repente chegou perto de Jin, os rostos ficando a milímetros de distância, ao ponto de Seokjin conseguir sentir a respiração da menina contra sua pele. O psiquiatra prendeu a respiração por breves momentos, porém conseguiu disfarçar o espanto com aquela reação tão repentina.
— Ah... Lisa... Suas mãos estão começando a machucar os meus ombros... – Jin comentou, sentindo o aperto aumentar e realmente incomodar. Iria empurrá-la naquele instante, porém foi interrompido pela mesma.
— Ele faz coisas com a mente, senhor Kim. – Ela disse com a voz levemente arrastada, sorrindo logo em seguida antes de fazer uma nova pressão nos ombros de Seokjin. – Precisamos ajudar ele!
— Ele quem? – Jin perguntou. Estava curioso e, ao mesmo tempo, surpreso pela reação tão repentina de Lisa. Há muito tempo que a menina não agia daquela maneira ou tinha alucinações que a faziam se portar daquela forma. Aquilo o deixou realmente preocupado.
— Frio... Ele sente muito frio... O senhor sabia que ele é sensível ao frio, senhor Kim? – Lisa se afastou e abraçou a si mesma, encolhendo o corpo como se realmente estivesse sentindo frio. Jin estava completamente estático, fitando-a diretamente na medida em que engolia em seco. – Ele também é alérgico, senhor Kim... Mas ele sabe, ele sabe que o senhor não tem culpa...
— Lisa... De quem você está falando, hm? – Jin questionou em um tom de voz cordial. Precisava contornar aquela situação de alguma forma, então precisava manter a calma. – Tem alguém aqui com você de novo?
— Eu estou falando daquele que tudo vê senhor Kim. – Ela voltou os olhos para Jin mais uma vez, um sorriso macabro desenhando seu rosto bonito. – Ele disse que eu vou sofrer senhor Kim. Mas ele também disse para o senhor não se preocupar, que tudo vai se acertar.
Jin franziu o cenho mais uma vez e então viu Lisa se sentar sobre a cama mais uma vez, pegando o cobertor para envolver no próprio corpo. O médico cruzou os braços, inclinando a cabeça levemente na medida em que via Lisa tremer de frio, mesmo com o calor que fazia naquela manhã de primavera.
— Lisa, meu anjo. – Finalmente resolveu se aproximar, sentando-se ao lado da menina e passando um dos braços sobre seus ombros em um abraço caloroso. – Você quer um chá? Vai ajudar a esquentar o seu corpo.
— Por favor. – Ela ergueu os olhos para Jin, estava com a expressão mais suave agora. – Senhor Kim... Eu posso pedir uma coisa?
— Claro, meu anjo. Tudo o que quiser. – Seokjin abriu um sorriso doce ao ver que Lisa parecia estar mais calma. Ela suspirou, desviando o olhar logo em seguida.
— Tranca a minha porta hoje de noite? Eu não quero que o homem mal venha de novo.
Jin franziu o cenho mais uma vez e então suspirou cansado. Lembrava-se perfeitamente do “homem mal” que Lisa reclamava às vezes, provavelmente mais uma de suas persistentes alucinações.
Foi então que levantou, iria providenciar um chá para Lisa se acalmar e logo em seguida iria prescrever alguns medicamentos um pouco mais fortes dos que ela já estava habituada a usar, apenas como garantia, e também iria fazer algumas anotações importantes sobre o caso dela para dar continuidade no tratamento de forma apropriada.
Aquele tipo de situação o deixava desanimado às vezes, porém estava acostumado com reviravoltas daquele gênero. Na verdade era até mesmo comum alguns pacientes terem algumas recaídas após longos períodos de tratamento, e por isso que era importante a presença de um profissional confiável para auxiliá-los. Jin até mesmo continuava a manter contato com alguns de seus pacientes e os avaliava às vezes, para garantir que estavam saudáveis e que estavam longe de perigo também.
Após providenciar tudo o que Lisa precisava, foi visitar os seus outros pacientes. Assim como Taehyung, havia recebido alguns pacientes novos, então a entrevista com os familiares para se ter um primeiro contato com o caso era essencial para a continuidade do seu trabalho. Sua manhã foi basicamente resumida em entrevista com os familiares, e logo em seguida saiu para almoçar com Taehyung em um restaurante ali perto. Aproveitou o momento livre para entrar em contato com Jungkook e avisar que havia conseguido convencer o irmão a ajuda-lo com relação à Jimin, o que obviamente deixou o policial extremamente satisfeito.
Apenas no final da tarde é que começou a ciar um pouco de coragem para ver como Namjoon estava. Não iria mentir para si mesmo, estava extremamente preocupado com o estado de saúde do ex-rapper. O Namjoon das memórias de Seokjin não parecia ser o mesmo que estava trancado isolado naquela sala fria, mas, ao mesmo tempo, era tão carinhoso e doce como quando eram mais jovens. Jin não conseguia entende-lo completamente, e isso era um grande empecilho para o progresso do tratamento.
Isso sem contar o fato de que estava se lembrando do passado mais do que o normal. Algumas imagens e sentimentos de momentos que viveu com Namjoon se faziam presentes de repente em sua mente e em situações em que não esperava que isso viesse a acontecer, o que o deixava extremamente balançado às vezes.
Não iria negar, assim como nunca negou, que o que sentia para com Namjoon era algo forte e que ainda doía bastante. E às vezes se odiava por continuar se sentindo assim por conta do rapaz.
Tirou aqueles pensamentos da mente quando se viu de frente para a porta onde Namjoon estava trancado, um arrepio percorrendo sua espinha enquanto o cheiro ruim do ambiente fazia seu estômago ficar levemente embrulhado. Levou uma das mãos ao bolso do jaleco branco, retirando as chaves daquela porta metálica e então a abriu, fazendo um som de rangido ecoar por todo o local. O quarto estava escuro, sendo iluminado apenas pela luz fraca que entrava ali pela porta aberta.
No fundo do quarto estava Namjoon, sentado no chão frio e dando seu enésimo espirro naquele dia e levemente encolhido encostado à parede por conta do frio. O ex-rapper fechou os olhos com força ao sentir a claridade que vinha do corredor, e então Jin se posicionou na frente da luz até que Namjoon se acostumasse com aquela invasão repentina.
O psiquiatra resolveu deixar a porta aberta e entrou naquele ambiente frio, retirando um lenço do bolso ao ver que Namjoon estava fungando e anunciando um novo espirro. Abaixou-se na frente dele e levou uma das mãos ao rosto em formato de coração, erguendo o rosto frio para si.
— Ei, Nam... Olha para mim. – Jin pediu, e então os olhos castanhos de Namjoon se ergueram automaticamente. Estavam até mesmo levemente arregalados, surpresos. Seokjin ignorou aquela expressão dele e aproximou o lenço do nariz dele. – Aqui, assua o nariz.
Namjoon demorou alguns segundos processando aquela informação até conseguir fazer o que lhe fora pedido, e então assuou o nariz naquele lenço. Quando terminou, Jin limpou o que ficou no rosto de Namjoon e descartou o lenço em um saquinho plástico, colocando-o de volta dentro do jaleco. Quando o médico ergueu o olhar para Namjoon novamente, percebeu que o mesmo estava sorrindo. Porém, era um sorriso calmo dessa vez.
— Você não faz ideia de como eu queria que você me chamasse assim de novo. – Comentou, os olhos brilhantes fitando Jin com carinho. – Eu sinto a sua falta, hyung.
Seokjin engoliu em seco, sentindo o coração saltar quando Namjoon o chamou daquela forma. Não ouvia aquilo desde que haviam se separado.
— Você está bem? – Perguntou, o tom de voz preocupado.
— Sim, na medida do possível. – Namjoon continuou olhando para Jin, encostando a cabeça na parede fria. – Você não se esqueceu da minha rinite. Até trouxe um lenço para mim.
Jin acabou rindo do comentário dele.
— Existem coisas sobre você que realmente são difíceis de esquecer, Namjoon. – Disse, ignorando o chão sujo e se sentando ao lado do ex-rapper, levando uma das mãos ao rosto dele mais uma vez, sentindo a pele fria. – Imagino como está sentindo frio...
— Sim, eu sou um pouco sensível ao frio. Você também não se esqueceu disso. – Namjoon riu sozinho, um lindo sorriso desenhando o rosto após o toque de Jin. – Ei, Jin. Você imaginava que iríamos nos reencontrar nessas circunstâncias?
— Bom... – Jin ergueu a cabeça, encarando o teto escuro antes de suspirar profundamente. – Sinceramente, eu não imaginava que sequer iríamos nos reencontrar. Com o passar do tempo nos mudamos para mundos completamente diferentes. Eu entrei para a faculdade de medicina e você se tornou um idol... Eu jamais iria imaginar que iríamos nos ver de novo, principalmente desta forma.
Namjoon ficou em silêncio por alguns momentos e, aos olhos de Jin, que estava o olhando novamente, parecia um pouco chateado com as palavras que o médico usou.
— Eu sempre tive esperanças de que iríamos nos encontrar de novo. – Se pronunciou em seguida, voltando os olhos castanhos para o médico, que o encarava também.
Namjoon suspirou pesadamente, não sabia o que dizer. As memórias da época de escola de repente passavam pela sua mente trazendo bons e maus momentos ao lado de Seokjin. O ex-rapper sentia muita a falta de Jin, mesmo durante o relacionamento que mantinha com Jimin.
— Sabe... Eu até hoje não entendo o que houve entre nós. – Namjoon voltou a se pronunciar, e não parou quando Jin desviou o olhar. – Por que você se afastou de mim tão de repente, Jin? Estávamos indo tão bem juntos, e depois daquele dia que eu me declarei para você na cantina eu realmente pensei que fôssemos namorar e ficar juntos, mas você de repente passou a me evitar. – Namjoon crispou os lábios com o silêncio do médico. – Jin. – Chamou novamente, com a voz grave. – Jin, o que aconteceu para você se afastar de mim?
Jin se encolheu levemente, respirando profundamente enquanto sentia um enorme aperto no peito. Lembrar-se daquelas coisas sempre o fez sofrer, e às vezes não suportava a dor de se lembrar da cena que havia visto naquele mesmo dia. Namjoon percebeu o desconforto de Jin, no entanto, não deu para trás. Sentia-se no direito, também, de saber o que motivou o médico a se afastar de forma tão repentina de si.
— Namjoon... No momento, eu não estou aqui como o doutor Kim. – Finalmente Jin quebrou o silêncio, erguendo os olhos levemente marejados para o ex-rapper, que se surpreendeu. – Mas estou aqui como Kim Seokjin. Então não levarei nada do que dissermos um ao outro em conta no seu tratamento.
— Tudo bem Jin... Olha, eu não queria te fazer chorar, não era-
— Você quer saber por que eu me afastei de você, não quer Namjoon? – Cortou o outro, que logo em seguida se calou para ouvi-lo. – Mas primeiro eu quero saber de uma coisa. – O médico fungou. – Por que você beijou o Jimin na quadra de esportes, no mesmo dia que você declarou o seu amor para mim?
— O que? – Namjoon arregalou os olhos, recebendo os castanhos agressivos de Jin para si. O ex-rapper, ao finalmente se lembrar do que o psiquiatra estava falando, olhou para cima e bufou. – Eu não acredito que você viu aquilo...
— Então não era para eu ver? Namjoon... Você tem ideia de como eu me senti depois daquele dia? – O tom de voz de Jin estava extremamente agressivo, as lágrimas já escorrendo pelo rosto fino. Namjoon fechou os olhos, mordendo o lábio inferior de leve. – Eu nunca me senti tão usado e tão burro como naquele dia... Há quanto tempo você estava me traía com o Jimin?
— Jimin eu vou te matar... – Namjoon murmurou para si mesmo, sentindo a raiva subir levemente, em seguida suspirou, procurando manter a calma antes de se voltar para o médico. – Jin... Você entendeu tudo errado! Eu sei que parecia que eu estava aos beijos com o Jimin, mas não foi isso o que aconteceu!
— Como não, Namjoon? Eu vi com os meus próprios olhos você aos beijos com o Jimin! Estava comemorando o fato de estar iludindo o otário aqui, é? – Jin levou as duas mãos ao rosto, enxugando as lágrimas do rosto com as costas da mão.
— Eu nunca te iludi, Jin. Eu sempre fui sincero quanto ao o que eu sentia por você. – Namjoon disse em um tom de voz firme, movendo os braços de forma desajeitada como se quisesse se desfazer da camisa de força que o prendia. Os olhos castanhos fitavam Jin preocupados, queria abraça-lo e estava ficando irritado por não conseguir. – Aliás ainda sinto. O Jimin me atacou naquele dia, eu fui pego desprevenido!
— E por que você não empurrou ele?!
— Eu empurrei! – Namjoon disse em um tom de voz mais alto. – Você deve ter saído antes de ver, mas eu empurrei o Jimin logo depois que ele me beijou!
Jin fungou forte, pegando outro lenço de papel do bolso do jaleco branco para assuar o próprio nariz. Indagava-se mentalmente como que acabaram tocando naquele assunto tão de repente, assim como se martirizava por ainda se sentir tão afetado por Namjoon.
— Por que eu devo acreditar em você, Namjoon? Você pode muito bem estar mentindo para mim nesse momento. – O psiquiatra ergueu o olhar novamente para o ex-rapper, firme. – Como eu posso acreditar em suas palavras? Como eu posso acreditar nesse sentimento que você diz ter por mim depois de tudo o que aconteceu?
— Eu posso te mostrar, Jin. – Namjoon amansou a voz, olhando com carinho e suplicante para o médico, que suspirou cansado. – Eu posso te mostrar... Mas não posso fazer isso agora, você ainda não está pronto.
Jin então riu nasalmente, balançando a cabeça.
— O que você pode mostrar em uma situação dessas, Namjoon? Por acaso você tem uma máquina do tempo para me levar de volta para a época de escola? – Jin disse debochado, ainda rindo, porém o ex-rapper manteve-se em silêncio. – O que? Você tem? – Ele então riu mais alto pelo silêncio de Namjoon.
— Não, Jin. Eu não tenho uma máquina do tempo. – o ex-rapper devolveu, sério. – Você lembra-se da história que eu te contei sobre o meu primeiro assassinato? E sobre o que aconteceu depois que eu matei aquele homem? – Jin ficou em silêncio, escutando o que o outro tinha a dizer. – Jin, eu não sou louco. Eu comecei a desenvolver algumas habilidades que eu sei que você como médico pode não acreditar, mas elas existem! – Jin ergueu uma das sobrancelhas. – Jin, por favor, eu sei que você não vai acreditar agora e é exatamente por isso que eu não posso te mostrar tudo agora, você ainda não está pronto. Mas quando o momento chegar, você vai entender o que me motivou a fazer o que eu fiz com aquelas pessoas, e também vai entender o que houve entre mim e o Jimin naquele dia.
— Namjoon... – Seokjin suspirou pesadamente mais uma vez, levando as duas mãos às têmporas, massageando aquela região levemente antes de continuar. – Digamos que eu acredite nessa história toda de visões místicas e poderes mágicos que você está me dizendo. – Voltou a olhar para Namjoon. – Por que você pediu o Jimin em namoro, e não pediu a mim? Porque eu não me lembro de nenhuma investida direta sua depois daquele incidente.
— Porque você começou a me evitar o tempo inteiro! Você até colocou o Taehyung como o garoto de recados entre mim e você! – Namjoon devolveu, o tom de voz parecendo cansado naquele momento. – Jin... Amor... Quando você se afastou de mim depois que eu declarei meus sentimentos, eu pensei que você não me amasse. Eu fiquei realmente chateado, e o Jimin chegou em um momento em que eu estava realmente sensível. – Namjoon suspirou pesadamente, olhando para cima. – Ele me deu apoio quando eu precisei, e você sabe que ele sempre gostou de mim. Por esses motivos que eu o pedi em namoro no ano seguinte. E demorei tanto assim porque eu ainda insisti em você por um bom tempo. Além disso, Jimin tem os seus problemas pessoais, você sabe, e eu era a única pessoa em que ele confiava. Principalmente depois do que aconteceu entre ele e o Sungchang.
— Isso me machucou muito, Namjoon. Você não faz ideia do quanto.
— Eu sei... E eu peço desculpas por isso, amor. – Namjoon tentou se aproximar mais de Seokjin, porém o mesmo se afastou.
— Não me chame por amor, Namjoon. Eu não quero, por favor. – Jin pediu, desviando o olhar logo em seguida, desta forma não conseguindo ver a expressão chateada que o ex-rapper fez.
— Tudo bem, Jin. Eu respeito isso. Mas saiba que esta conversa ainda não acabou.
— Nós precisamos conversar de outra coisa agora. – Jin comentou. O ex-rapper até mesmo tentou endireitar a coluna, o que dificultou o seu trabalho apenas foi a camisa de força, mas conseguiu ficar com a coluna reta. – O que exatamente você fez ao diretor para ele mandar que eu te colocasse aqui dentro?
Namjoon ficou em silêncio por longos segundos, desta forma atraindo o olhar de Jin para si, este que já estava emocionalmente mais controlado. O ex-rapper sorriu abertamente, até mesmo começou a rir pela pergunta do psiquiatra, que franziu o cenho levemente sem entender.
— Eu disse algo engraçado? – Jin perguntou, recebendo um acenar negativo com a cabeça como resposta. – Então?
— Jin, eu irei te dar um conselho, e estou dizendo isso porque eu te amo. – Namjoon voltou o olhar para o psiquiatra mais uma vez. – Guarde essas palavras. Você precisa tomar cuidado com as pessoas que parecem serem boas demais para você.
O médico fez uma carranca, confuso.
— Como assim? – Questionou, ainda confuso, e então Namjoon endireitou a coluna mais uma vez.
— Deixe-me te contar uma história, Jin. Uma história que aconteceu comigo há alguns anos atrás. – Namjoon começou, atraindo os olhos curiosos para si, o que o fez sorrir de canto. – Há alguns anos eu reencontrei com um grande amigo de infância meu... Nosso, por assim dizer. – Corrigiu-se, continuando. – Em uma situação que eu jamais imaginaria que uma pessoa tão próxima de mim pudesse estar passando. Eu não revelarei o nome dele, pois quero que você descubra isso sozinho, eu sei que você tem essa capacidade. Então... Vamos chama-lo de Suga por enquanto.
Seis anos antes, Busan, sete meses após o primeiro assassinato
Durante muitas semanas sentiu-se extremamente perdido e assustado, às vezes até preferindo não sair de casa para ir até a gravadora para fazer o seu trabalho por conta das visões que tinha das pessoas que conviviam consigo. Nos primeiros dias após a morte daquele homem passou a ter diversos pesadelos onde acordava à noite assustado, suando, e consequentemente também acabava acordando a Jimin ao seu lado, que era o único que o consolava. Porém, às vezes quando acordava não via o Jimin que conhecia, mas sim aquele cenário em negativos que havia se tornado tão comum para si, com um Jimin acorrentado e que tentava cometer suicídio. Às vezes demorava em voltar à realidade, desmaiando na maioria das tentativas.
Até mesmo procurou auxílio psicológico para tentar superar o terror interno que se apossava de seu corpo sempre que saía de casa, porém sem sucesso. A única coisa que fez com que voltasse ao normal, se é que podia encarar desta forma, foram as pesquisas que acabou fazendo na internet procurando por pessoas que já tivessem passado por alguma situação parecida, ou por algum grande trauma que as fizessem ter aquele tipo de alucinação.
Foi quando conheceu um rapaz em uma das salas de bate-papo dos fóruns que tratavam do assunto. Seu nickname era TEAM.WANG-92, e Namjoon acabou se interessando por uma postagem que o mesmo havia feito na época, retratando exatamente a mesma situação que estava vivendo naquele momento, incluindo as visões estranhas. TEAM.WANG-92 tinha uma teoria que, para Namjoon, até que fazia sentido de certa forma. O usuário dizia em seu enorme texto que com os anos acabou descobrindo que aquelas visões na verdade retratavam a realidade oculta dentro das pessoas. Namjoon até mesmo guardou uma das citações daquele texto para ter por perto sempre que passava por algum episódio:
“Os primeiros dias eram infernais, a falta de informação me fez enlouquecer de tal forma que passei anos internado em um hospital psiquiátrico buscando uma solução para o meu ‘problema’, que eu não fazia ideia de qual era. Havia momentos em que eu estava andando tranquilamente pela rua, e quando esbarrava em alguma pessoa, seja se propósito ou por acidente, eu era transportado para a ‘dimensão negativa’. Na dimensão negativa eu conseguia ver a verdade por trás daquela pessoa, eu via as coisas ruins que ela tinha feito, assim como também via as coisas boas.
Perdi muitas amizades ao longo dos anos por causa das minhas visões sem significado. Quer dizer, que para eles eram sem significado. Com o tempo eu comecei a compreender que, de alguma forma, algum poder divino estava me mostrando que as pessoas não eram o que pareciam ser. Foi então que eu comecei a me perguntar: ‘Por que eu, de todas as pessoas na terra, recebi este dom?’.
Eu estava certo em não desistir e correr atrás do que tudo aquilo significava. Eu entrei para um grupo de pessoas com histórias semelhantes às minhas. E lá eu encontrei a resposta que eu precisava para continuar vivendo em paz comigo mesmo. Eram pessoas que haviam passado por experiências de quase morte, com elas próprias ou provocando a morte de outras pessoas. De alguma forma, as pessoas com maior grau de sensibilidade holística, após passarem por grande trauma ou estresse emocional, acabam conseguindo abrir a passagem cósmica para o nascimento do terceiro olho.
O terceiro olho é um portal para a ‘dimensão negativa’, que também é chamada de ‘mykrokosmos’. No mykrokosmos, os escolhidos para adquirirem a habilidade do terceiro olho possuem o poder da mão da justiça divina. São eles os defensores dos fracos e oprimidos, os responsáveis por punir aqueles que a mão da justiça humana não é capaz de punir.
Os portadores do terceiro olho podem estar convivendo com você neste momento. Mas não se preocupe, nada de ruim acontecerá com você, se você estiver seguindo pelo caminho certo. Os portadores do terceiro olho conseguem discernir a justiça divina da justiça humana. Portanto, se você estiver fadado a cumprir a justiça humana, independente do tempo que demorar, você receberá sua punição vinda da justiça tradicional.
Aos meus companheiros portadores do terceiro olho que recém chegaram ao mykrokosmos, eu lhes dou as boas vindas ao mundo divino. Tempos difíceis virão, mas você conseguirá enxergar as possibilidades disponíveis para você. Basta manter sua mente aberta.”
Namjoon guardava aquele trecho como se sua vida literalmente dependesse disso. Ficou tão impressionado com o depoimento do usuário TEAM.WANG-92 que o chamou para conversarem de forma privada. Foi quando descobriu que o rapaz era um chinês que se mudou para a Coréia do Sul recentemente e estava morando em Ilsan, na província de Goyang. Marcaram de se encontrar em um parque de diversões em Ilsan e Namjoon foi de forma empolgada, mesmo com as discordâncias de Jimin, que não queria que o mesmo se encontrasse com um completo desconhecido.
Mesmo conhecendo os riscos, Namjoon decidiu se encontrar com aquele usuário. Suas visões diziam para que confiasse naquele chinês que havia conhecido ao acaso naquele fórum. Ao chegarem, o mesmo se apresentou como Wang Ka-Yee, porém pediu para Namjoon trata-lo como Jackson, para simplificar a pronúncia.
O rapper então, contou toda a história por trás do assassinato que cometera contra o estuprador que encontrou na noite em que saía de um programa de TV com Jimin, contou também sobre a forma como as visões começaram a se manifestar diante de seus olhos horas depois. E Jackson o tranquilizou, dizendo que Namjoon havia sido premiado pelas divindades do mykrokosmos pela boa ação que havia feito em salvar a vida daquela jovem.
Jackson contou a própria história para Namjoon sobre como salvou a irmã dos abusos do pai alcoólatra, empurrando-o da sacada do apartamento onde moravam em Hong Kong. Ambos foram absolvidos ao ser constatado legítima defesa, porém Jackson havia passado pelo mesmo estresse que Namjoon quando as visões começaram a se manifestar. O chinês disse que com o tempo Namjoon conseguiria controlar os poderes que o terceiro olho proporcionavam, e que por mais que explicasse e que tivessem histórias parecidas, apenas quando Namjoon usasse, de fato, os poderes do terceiro olho para benefício de outrem, é que entenderia o real significado do recebimento daquelas habilidades.
Era nisso que estava pensando naquele fatídico dia de fim de tarde, após sair da gravadora. Namjoon estava lendo o trecho que Jackson havia publicado no fórum, assim como também estava pensando na conversa que tivera com o mesmo em Ilsam há duas semanas atrás. Havia seguido o conselho do, agora, amigo, de aceitar aquelas visões como um presente e não como uma maldição ou um castigo. E realmente passou a enxerga-las com maior clareza depois desse pequeno exercício psicológico.
Estava lendo tranquilo a última passagem de Jackson quando foi interrompido por uma sombra que cobriu a luz que vinha do lado de fora, dificultando sua leitura. O rapper ergueu os olhos castanhos, contemplando um homem de certa idade, na casa de seus cinquenta e tantos anos, corpulento e com um sorriso amigável.
— Namjoon-ie? – O homem chamou pelo apelido da adolescência, o que apenas fez o rapper franzir o cenho em estranheza. Ao mesmo tempo, um suave arrepio percorreu sua espinha, sinal este que não soube interpretar no momento. – Não está me reconhecendo?
— Hm... Não senhor. Sinto muito... – Respondeu, dobrando o papel com as passagens de Jackson para guardar no bolso. Correu os olhos em volta, procurando pelo garçom para fazer um pedido.
— Sou eu! Min Chinmae! Avô do Min Suga! Vocês estudaram na mesma escola antes de irem para a faculdade. – O homem disse e apenas naquele momento que Namjoon o reconhecera, arregalando levemente os olhos antes de cumprimenta-lo com uma mesura*.
— Ah, senhor Min! Perdão por não o reconhecer, é que já faz um tempo... – Namjoon se pronunciou, apontando para que o homem se sentasse à sua frente, este que o fez mais do que depressa. – Há um tempo que não tenho mais contato com o Suga. Como ele está.
O homem suspirou, fazendo uma careta não muito agradável.
— Ah, meu jovem... Suga não anda nada bem ultimamente. Você se lembra da terrível alergia alimentar que ele tinha, não? – Chinmae comentou, com uma expressão um pouco pesada no olhar.
— Sim... Eu me lembro. Ele não comia nenhuma proteína além de soja, porque era a única coisa que ele não tinha alergia. – Namjoon respondeu. Lembrava-se perfeitamente da última vez em que havia feito Suga comer um pedaço de sushi antes do mesmo acabar parando em um hospital, ficando internado por dias. – Mas eu me lembro que ele me disse uma vez que iria começar um tratamento para ver se conseguia melhorar isso.
— Sim e ele até começou, mas não deu certo. Agora nem a soja ajuda mais. – Chinmae suspirou, preocupado, voltando os olhos para Namjoon por breves momentos. – O coitado mal sai de casa de tão fraco.
Namjoon mordeu o interior da boca ao imaginar a situação que o amigo estaria passando, e realmente gostaria de poder ajuda-lo. No entanto, muitas questões pesavam contra si no momento, e uma das principais era a questão de estar se descobrindo como o portador do terceiro olho, segundo o que ouvira de Jackson.
Preferiu, então, manter-se neutro e não oferecer ajuda, por mais que soubesse que era isso o que Chinmae queria. Logo o garçom chegou, e então o rapper pediu um latte, pedido este que prontamente foi anotado.
— O senhor não vai querer nada? – Namjoon questionou, vendo o homem já se levantar.
— Não, obrigado. Na verdade eu estava saindo quando o encontrei aqui e resolvi te cumprimentar um pouco. – O homem sorriu, exibindo os dentes amarelados pelo tempo. Em seguida ergueu uma das mãos para se despedir de Namjoon. – Até qualquer dia, Namjoon-nie.
— Até, senhor Min.
Inconscientemente ergueu a mão para cumprimentar Chinmae, e no momento em que houve o contato sentiu uma vertigem muito forte antes de ser enviado mais um vez ao mykrokosmos, segundo Jackson. Agora se encontrava naquela realidade em tons negativos que fazia a sua espinha se arrepiar e o corpo tremer violentamente. Lá, estava visualizando uma casa familiar típica coreana, porém levemente elevada, o que mostrava que existia um porão no lugar.
Namjoon olhou em volta. A rua estava deserta, mas um ponto iluminado logo atrás daquela residência chamou sua atenção. Em um primeiro momento o rapper fechou os olhos, dizendo para si mesmo um mantra pessoal, onde tudo ficaria bem. No entanto, por mais que tentasse, não conseguia sair daquela realidade.
Foi quando ouviu uma voz em sua cabeça: “Vá ao porão”. Namjoon saltou em reflexo, afinal, até então estava sozinho na rua. Porém, fez o que aquela voz havia pedido, e então adentrou naquela propriedade, circundando-a até chegar aos fundos, onde uma porta estava entreaberta. Uma luz fraca saía pelo local.
“Entre” ouviu novamente, e então engoliu em seco, passando por aquela porta de madeira e descendo por um pequeno lance de escadas, logo em seguida deparando-se com um ambiente fechado em sem ventilação, com algumas prateleiras que faziam corredores estreitos e que levavam até uma parede com espaço limitado. Namjoon arregalou os olhos ao ver uma pessoa ali, aparentemente um homem, com o corpo encolhido encostado à parede. O homem fedia, e estava tão magro que parecia que não se alimentava há dias. Além disso, percebeu, também, os tornozelos amarrados juntos por cordas tão apertadas que provavelmente cortavam a circulação.
De repente, Namjoon estava de volta para a cafeteria. Chinmae havia afastado a mão do rapper e estava acenando para o mesmo enquanto se afastava, deixando para trás um Namjoon completamente estarrecido, engolindo em seco, com a imagem daquela pessoa desnutrida amarrada naquele porão. Namjoon sabia que aquela casa de sua visão era a casa de Suga, e temia que a pessoa que estivesse naquela situação fosse o amigo de infância.
Namjoon pagou pelo latte antes mesmo de recebe-lo e saiu daquele lugar, correndo para o próprio carro e saindo em disparada, esquecendo-se até mesmo de usar o cinto de segurança. A casa de Suga, que era a casa de sua visão, não era muito longe dali, desta forma sabia que chegaria lá rapidamente.
Namjoon chegou quase que no mesmo horário que o senhor Min, e estacionou o carro do outro lado da rua enquanto esperava a noite cair. Até mesmo ignorou as mensagens de Jimin, assim como suas ligações, estava mais preocupado em comprovar o que havia visto em sua visão tão repentina.
De repente, o rapper viu uma luz iluminar os fundos da casa, assim como havia visto na visão daquele dia mais cedo. Namjoon saiu do carro e circundou a residência, seguindo os mesmos passos que havia feito no mykrokosmos, e encontrando novamente a porta de madeira entreaberta. Acabou engolindo em seco quando começou a descer os degraus e sentiu o estômago revirar ao sentir o mesmo odor horroroso da visão.
O corpo tremeu quando viu a mesma divisão de corredores estreitos feita pelas prateleiras metálicas, e conforme foi andando, as mãos gelaram quase que automaticamente ao ver o corpo desnutrido amarrado pelos tornozelos, abraçando as próprias pernas com os braços igualmente finos. Namjoon iria correr para libertar aquele homem de seu cárcere, porém foi obrigado a se esconder em um canto pouco iluminado quando ouviu uma voz conhecida.
Os olhos, arregalados, fitavam cuidadosamente todo o ambiente até caírem sobre o corpo avantajado de ninguém mais, ninguém menos, Min Chinmae, avô de Min Suga. O homem esticou um dos braços para um local onde a visão de Namjoon não alcançava, mas quando o mesmo voltou, conseguiu visualizar uma enorme marreta, aparentemente pesada pela forma como Chinmae a arrastava ao redor do corpo do homem, que Namjoon interpretou como sendo Suga.
— Como foi seu dia hoje, netinho? – A voz do homem ecoou por todo o lugar, e Suga encolheu mais o corpo, gemendo levemente. Chinmae sorriu macabro, erguendo a marreta e deixando o peso cair próximo demais dos pés do rapaz magrelo. – Estou falando com você, moleque desnaturado!
— Hm... Foi ótimo... Senhor... – Respondeu com a voz fraca, e Chinmae sorriu mais uma vez, reerguendo a marreta.
— Não estou te ouvindo... Eu terei que te ensinar a tratar os mais velhos com respeito de novo, Suga? – O homem deixou o peso da marreta cair no chão novamente, esta que por pouco não atingiu os dedos do rapaz, este que tremeu violentamente e se forçou para falar mais alto.
Namjoon estava adivinhando o que viria a seguir, conseguia visualizar o peso da marreta esmagando os pés magricelas de Suga, e sentia o sangue de seu corpo literalmente ferver em raiva. Sem pensar muito, Namjoon correu os olhos pelo local, encontrando um machado ao alcance de seu braço. Esticou o mesmo, segurando-o e, sorrateiramente, foi saindo de seu esconderijo e se aproximando de Chinmae por trás.
Os olhos alternavam entre Suga e Chinmae, e por breves momentos seus olhos encontraram com os pequenos olhos do rapaz magricelo. Namjoon gesticulou, com uma das mãos, para que ele permanecesse em silêncio, e então segurou o cabo do machado com maior firmeza com as duas mãos.
Quando menos percebeu, os braços se moveram violentamente para baixo. A lâmina do machado atingiu em cheio a nuca de Chinmae, que urrou de dor e surpresa. Namjoon continuou investindo contra o corpo do homem mesmo quanto este caiu contra o chão, apenas sossegando quando o mesmo fora completamente decepado. Apenas naquele momento que percebeu o sangue escorrendo pelos braços e o calor do líquido vermelho escorrendo pelo rosto, outrora limpo. O chão daquele porão era tingido em vermelho na medida em que o sangue esguichava pelo pescoço de Chinmae.
No entanto, o que mais havia chamado a atenção de Namjoon foi, na verdade, o fato de Suga de repente se lançar contra o corpo do homem velho e tentar, a todo custo, beber o máximo possível do sangue que escorria dali. Suga fincava os dentes na carne vermelha recém cortada e fazia força para rasga-la, tamanha era a fome que sentia no momento.
Todavia, além disso, mesmo com o corpo arfante pelo esforço que havia feito, o rapper parou para refletir e acabou sorrindo pelo seu feito. Finalmente as palavras de Jackson começavam a fazer efeito em sua mente. Afinal, o que seria de Suga caso Namjoon não tivesse tido aquela visão e tomado a iniciativa para salvá-lo?
Atualmente, nas alas inferiores do hospital
— Eu nunca me senti tão grande em toda a minha vida. Era a segunda vida que eu salvava em menos de um ano, e dessa vez graças as visões que estava tendo. – Namjoon disse, estava olhando para longe enquanto contava a história, desta forma não conseguindo ver o olhar incrédulo que Jin lhe lançava. – Foi a partir desse dia que eu realmente compreendi o que o terceiro olho e o mykrokosmos significavam. E desde então eu comecei a seguir o que o Jackson me orientou, e aliás ainda me orienta, somos amigos afinal.
Seokjin estava perplexo. Não conseguia criar ainda uma opinião ou uma conclusão sobre o que tinha acabado de ouvir. Não sabia se Namjoon estava com um grande problema psicológico real, ou se estava sendo usado pelo tal Jackson como uma marionete de seus planos maquiavélicos.
— Eu sei o que você está pensando, mas eu não sou louco Jin. – Namjoon se pronunciou novamente, agora voltando os olhos calmos para o psiquiatra. – É difícil para um cético entender, foi difícil para mim entender isso também. Mas, Jin, essas coisas existem, universos paralelos existem. – Deu uma nova pausa, olhando carinhosamente para Seokjin, que continuou em silêncio. – Sabe o que eu vi assim que cheguei aqui? Quando você me tocou pela primeira vez, depois de todos esses anos longe um do outro?
— O-O que você viu? – Jin perguntou, ainda desconfiado.
— Eu te vi comigo, em um futuro onde você também consegue ver tudo o que eu vejo. – Namjoon sorriu animado, até mesmo riu um pouco. – Você tem grande potencial Jin, e o seu potencial é enorme porque você tem um bom coração. Você é uma pessoa muito boa Jin, e você será valioso dentro do mykrokosmos.
Seokjin apenas balançou a cabeça positivamente, até mesmo se afastando levemente de Namjoon quando o mesmo terminou de falar. O psiquiatra ficou, então, a se perguntar se soltaria o ex-rapper para que ele passasse a noite em seu quarto, ou se o deixaria ali pela noite.
A única certeza que Jin tinha naquele momento era a de que, pela primeira vez em toda a sua carreira, estava completamente apavorado.
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