Manhunters
93 Verdades (e perguntas) que nos assombram
Notas iniciais
Por entre as dezenas de vozes exclamando ao redor, Grissom não ouvia absolutamente nada. Só ouvia seu interior, nada mais que seus pensamentos. Todos os sons se transformavam em ecos distantes e distorcidos, como se estivesse debaixo d’água. Irônico, pois chegou ao departamento com a cabeça em chamas que nem o frio do ar condicionado dava conta.
Seu andar era rápido, mas também pesado, uma locomotiva que levaria todos em seu caminho. Era um trem a vapor que não iria parar até chegar ao seu destino.
Ele chegou à sua sala sem bater. Encontrou Sara quase na mesma posição quando saiu, enfurnada em sua pesquisa. O sargento ergueu os braços esperando por uma resposta mais convincente que a recebida pelo celular.
— Ei. — O sargento fechou a porta e seguiu ao seu encontro com rapidez.
— Ei. — A mulher fez um gesto para que se aproximasse — É uma história meio longa, melhor se sentar.
— Depois de toda adrenalina que senti agora? — Ele se achegou à parceira e ficou ao seu lado, quase por trás.
— Então, sabe daquelas organizações sociais que participaram do evento? Coloquei todas as destacadas num filtro e separei duas. Uma delas, a Through de Eyes me chamou a atenção por causa de uma reportagem feita por um jornal local. — Ela abriu a página do site de um portal de notícias — Essa matéria falou sobre o evento que teve em Cold Springs, na época, antes de acontecer. O interessante da matéria é que essa organização atende alguns moradores de lá. E o que me chamou a atenção foi um destaque em particular: Douglas Jenkins.
O sargento franziu a testa e encarou a parceira bastante perplexo.
— Douglas Jenkins é cego?!
— Sim.
Ele olhou para a matéria ainda aberta, especificamente para a foto do garoto junto com a mãe e uma outra mulher vestindo a camisa da organização. Com seus óculos escuros o garoto mostrava um sorriso inocente enquanto segurava firme sua bengala de apoio. A matéria foi publicada uma semana antes ao evento.
— Com o que estamos lidando aqui? Que Zodíaco, de alguma forma, se “inspirou” nele? — questionou Grissom, meio desnorteado ao tentar juntar todas as informações.
— Mãe e filho moram na casa mais próxima da cena do crime. Logo após matar Ryan Park, Zodíaco manda uma mensagem em braille para você... depois para mim. Isso é estranho.
— Isso... — Ele fez um gesto em negativa — Isso não... faz sentido... Viu algum depoimento de empresário nessa matéria? Se chegaram a falar com eles?
— Não... Aqui não faz nenhuma menção de nenhum perfil que possa ter entrado em contato com eles. Nem citam alguém específico.
O sargento cruzou os braços e atentou para o relatório do xerife disposto à mesa.
— Os Jenkins disseram que estariam no evento?
— Aqui diz que sim. Por quê?
— O xerife disse que eles não estavam em casa no dia do crime. — Ele pegou o relatório e começou a folheá-lo — Estranho para duas pessoas estarem fora de alcance num momento como esse!
— Talvez eles foram para o evento.
— É, talvez. E talvez deixamos escapar algo importante demais. — Com raiva Grissom acabou jogando a pasta na mesa.
Pensando em dizer algo para melhorar seu humor Sara acabou recuando e o deixou quieto. Em vez disso, pegou o relatório e abriu numa parte específica. Ele se levantou e caminhou para o meio da sala.
— Eu fiquei tão preocupado em achar Zodíaco no meio de todas aquelas pessoas que ignorei algo bem na minha frente! — disse para si mesmo e em seguida cobriu o rosto — Céus, isso não está acontecendo...
— Gilbert, tenha calma. Não há nada confirmado aqui. — alertou, vendo que a cada minuto ele ficava mais nervoso — O relatório mostra que os dois moradores não estavam presentes na hora do crime.
— E depois do crime? — O sargento argumentou — Ou melhor, e antes do crime ocorrer? — Quando não recebeu resposta da parceira ele resmungou.
— Temos que ter cuidado. Se confrontarmos o xerife sem algo plausível isso pode virar uma bola de neve pra cima da gente.
— Tudo indica que de alguma forma os Jenkins e Zodíaco tem alguma relação. Por que a cena do crime foi em frente à casa deles?!
— Eu não sei! — Sara exclamou e se levantou de súbito. As circunstâncias deixaram Sara tão transtornada quanto ele.
Os dois trocaram olhares ansiosos, mas nenhum se atreveu a continuar a discussão como agora há pouco.
— Eu não sei. — Ela sussurrou — Mas não podemos pressionar alguém com um monte de evidências com pontas soltas, são provas circunstanciais! Nada liga Zodíaco àquela família.
— Então por que me ligou falando sobre tudo isso? — Grissom rebateu, apontando para a mesa — Você acredita nisso tanto quanto eu. — afirmou sem um pingo de dúvida.
— Ainda é cedo para tomar essas conclusões. Não se lembra do que dizia no seminário-
— Sara... — Ele balançou a cabeça e depois a abaixou. Lembranças da Conferência não eram coisas que ansiava ouvir no momento.
— Estou falando sério. Acha que não estou uma pilha de nervos por causa disso tudo?! Porque, além de ele ter atingido você com aquele bilhete, Gilbert, Zodíaco também me atingiu e ainda estou sentindo o golpe.
Finalmente o sargento relaxou os ombros, suspirou e agora parecia mais controlado. Às vezes se esquecia que não somente ele foi “presenteado” com o bilhete em braille, que agora Zodíaco investiu em sua parceira e deixando Grissom ainda mais tenso.
— Sinto muito. — disse ele e depois engoliu em seco.
— Eu sei que sente. — A detetive concordou com a cabeça. Ela desviou o olhar dele, focando no computador ligado — Temos que entrar em contato com essa organização para saber sobre os Jenkins.
— Acha que eles estavam lá, não é?
— Nunca vimos o rosto deles até agora. O relatório do xerife nem continha fotos. — Ela deu de ombros — Podemos ter passado por eles e nem notamos.
— Eu vou olhar os vídeos e tentar achá-los.
— É uma agulha no palheiro. Melhor eu ligar para a organização antes para confirmar. — Ela argumentou enquanto Grissom já se preparava para ligar o aparelho de DVD.
— Tá legal. — respondeu baixo com uma voz cansada.
Sara se sentou novamente e procurou pelo número de contato da organização, torcendo que houvesse um e torcendo, também, para que funcionasse. Grissom puxou a cadeira para perto da TV, sentou-se, respirou fundo e se apoiou sobre as pernas numa tentativa de esfriar a mente. Era informação demais e do tipo que poderia mudar o rumo da investigação e trazer mais uma culpa sobre seus ombros.
Ele não ficou muito tempo naquela posição; ansioso, acabou se levantando.
— Vou beber água.
Sara não respondeu, apenas o observou sair da sala.
— Alô? Oi, aqui é a detetive Sara Sidle, polícia de Las Vegas. — Quando ele fechou a porta a morena fechou os olhos por uns instantes — Estamos investigando um homicídio ocorrido no dia onze deste mês.
Quando saiu da sala, o sargento tomou uma grande quantidade de ar e aspirou com calma. Era mais uma tentativa de manter a mente sob controle e não explodir em meio à discussão acalorada com sua parceira.
Ele sacudiu as mãos discretamente e saiu em direção ao bebedouro mais próximo. Caminhou distraído, mas não em vão. Sua mente o colocava de volta não apenas à cena do crime, mas em toda a região.
Havia uma lagoa, um píer e metros e metros de isolamento num raio de quase um quilômetro; exceto pela casa dos Jenkins.
Por que teve de ser ali... questionava o sargento. Mesmo no pequeno município haviam outros lugares mais discretos, então por que foi naquele ponto específico? Por que Zodíaco escolheu matar alguém “na frente” da casa de um jovem que é cego? Seria a certeza de que faria sua “tarefa” sem correr riscos.
— Desculpe. — Grissom acabou esbarrando numa oficial que passava próximo. Ela que notou sua distração não rebateu ou ficou séria. Apenas sorriu de praxe e continuou seu caminho.
Voltando ao raciocínio.
Tem que haver algo nisso.
Não podia ser um lugar aleatório aquele ponto. E mesmo se fosse, porque um lugar tão aberto, de fácil visão e localização? Talvez fosse uma ideia do assassino que os policiais criassem perguntas para buscarem respostas enquanto ele ficava cada vez mais próximo da vítima seguinte. Talvez ele estivesse deixando rotas e mais rotas que não levavam a lugar nenhum.
O sargento foi ao banheiro, diretamente à pia. Dobrou as mangas da camisa e molhou as mãos até os pulsos; depois fez o mesmo com o rosto. Ele chacoalhou a cabeça e se apoiou sobre a pia, fez isso porque aproveitou o breve momento onde estava sozinho, coisa que não durou muito.
— Ei Griss. — disse um detetive conhecido dele assim que entrou.
— Ei. — O sargento respondeu ao erguer a cabeça e se encarar no espelho. Hora de voltar.
Sem mais espaços para reflexão Grissom deixou o banheiro.
— Deus... — sussurrou, agora fazendo o caminho de volta à sala. A saída não foi proveitosa como achava que seria. Tantos caminhos, tantas perguntas e pistas sem sentido que Grissom se sentia sufocado por tudo isso. Era ter tudo em sua mão e não saber o que fazer.
Ele voltou para sala e a detetive ainda estava usando o telefone. Com um copo d’água na mão o sargento deixou próximo a ela, que fez um sinal positivo com o polegar e continuou focada na ligação. Do jeito que Sara falava deu a entender que a conversa estava perto do fim.
— Ok. Ok. Obrigada. — Enfim, ela colocou o telefone no gancho. Confusa, fitou o parceiro e o questionou — Achei que ficaria aqui para saber das novidades.
— Tive que sair para pôr a cabeça no lugar, — Grissom lamentou — sinto muito.
— Espero que ela esteja bem firme. Segundo a representante da organização que atendia à família, eles não foram encontrados no evento.
— Faz sentido. — Ele usou uma brecha na mesa para se sentar próximo a ela.
— Outra coisa: a mulher com quem falei agora há pouco, da organização, falou que o Mary Jenkins não deu mais confirmação se ia. Ela foi enrolando e acabou que eles não viram a família por lá. Perguntei quando foi isso, e ela me disse que ela entrou em contato com Mary no dia 11.
— Onze? — perguntou perplexo — A que horas ocorreu a ligação?
— Ela respondeu não saber a hora exata, apenas que foi à tarde.
Grissom ficou de pé.
— Tá me dizendo que o xerife omitiu isso da gente como se nada tivesse acontecido?
— Não temos provas que o xerife estava envolvido nisso ainda. — Ela tomou a palavra na tentativa de evitar algo pior — Sim, eu tive que lutar com a mulher para ela me contar sobre o que houve. Chegou a implorar para que eu não colocasse o nome dela no meio, mas nada disso indica alguma ação do Horton, sequer ela falou o nome dele!
— Não podemos nos dar ao luxo de achar que ele não sabia de nada. É muito mais fácil afastar uma ameaça daquelas à imagem da cidade, Sara!
— Gilbert percebe o que está querendo fazer? Enfiar o xerife de tudo quanto jeito nessa história!
— Não estou tentando, é o óbvio! — O sargento gesticulou.
Os ânimos estavam acalorados, como se voltassem aos primeiros dias de trabalho regados a discussões tensas.
— Uma pessoa encobre uma família que pode ter testemunhado um crime ou até mesmo ajudado o assassino!
Sara arregalou os olhos, completamente chocada com o que ouviu dele. Ficou assim não porque acreditou em suas palavras, pelo contrário, não conseguia acreditar que logo Grissom tenha dito isso.
— Gilbert, eu não... — Ela se calou tentando encontrar vontade para continuar — Ouça só o que está dizendo... — disse ao apontar a mão a ele — Você está com tanta raiva deles assim?
Ela não ergueu a voz como antes e talvez ele tenha percebido isso. Foi então que ele se retraiu e neutralizou a expressão ferrenha em seu rosto. Não falou nada, apenas baixou o olhar.
— Eu... eu vou... tomar um pouco de café, ok? — Sara forçou um meio sorriso e saiu em direção à porta.
— Sara. — Ele a chamou no momento que passou por ele — Por favor... — insistiu ao notar que ela parou. Os dois não se encararam — Tudo aponta para uma ligação, qualquer que seja ela.
— Pode ser. Mas para isso temos que provar. — Por fim ela acabou se virando em sua direção — Por mais que seja óbvio, até, não podemos nos arriscar assim.
— Por que os defende tanto? — questionou ele, assim que ela voltou a caminhar.
— Por que os ataca tanto? — rebateu, e com uma única frase vinda de sua boca ela deixou a sala.
—-------------------------------------------------------------------------------
— Temos algo grave aqui, Brass. — falou o sargento num tom quase alarmante.
Eles deixaram Jim a par da situação, falando sobre o que ocorreu no tempo seguinte da primeira discussão em sua sala. Novidade era algo que o capitão gostaria de ouvir, mas não daquela forma.
— Mary Jenkins pode estar envolvida nisso, é verdade. — comentou o capitão ao bater na mesa levemente — Vocês podem investir.
— E o filho, Douglas? — questionou Sara quase em deboche, atraindo os olhares para si.
— Acho pouco provável de ele se encaixar nisso, detetive. Deus que me perdoe, mas ele não pode ser testemunha por um motivo simples!
— Nunca disse que Douglas pode ou não ser uma testemunha. Ele pode ter sido o catalisador, alguém que Zodíaco de alguma forma conheceu e... se admirou ou algo do tipo. Não quer dizer que realmente ele teve algum contato.
Sem dizer algo Grissom ficou a observando com um olhar quase reprovador, coisa que ela não percebeu muito porque o encarou por pouco tempo.
— Vocês não vão conseguir alguma coisa com esses traseiros sentados aí. Deem um jeito de trazerem essa família para cá ou vão até lá. Só... consigam respostas. Já temos perguntas demais.
— Do jeito que o xerife é vai querer arranjar uma desculpa pra nos atrapalhar. — disse Grissom sem reservas.
— Tem provas suficientes que dão para encaixar os Jenkins? Vá fundo, Gil. O que não dá para fazer é perder mais tempo. Se forem até lá saibam que não vai ter helicóptero desta vez. — O capitão apontou para ele.
— Imaginava que fosse dizer isso.
Sem dar alarde a morena saiu da sala. Grissom só percebeu quando ouviu o som da porta sendo fechada.
— Falando nisso, — Brass usou a mesa como apoio para se levantar — não devia estar de licença depois do que houve nessa perna?
— Obrigado por ser mais um por se preocupar comigo, — Grissom zombou num tom considerável para ambos — mas estou me cuidando desta vez. Falo sério. — completou.
— Isso implica parar de querer resolver tudo sozinho e agir como um babaca? — Sorrindo, Jim caminhou em sua direção.
— Hum... não sei. Vou pensar nessa parte. — respondeu sarcástico.
— Vai trabalhar, Gil.
Os dois acabaram rindo. Não demorou muito e logo ele foi embora.
Grissom pensou em voltar à sua, porém tomou um desvio e parou num canto próximo à copinha, aproveitando-se do pouco movimento por ali. Ele pegou o celular e fez uma ligação, ansiando que fosse atendido o quanto antes.
— Grissom?
— Oi, Paul. Sinto muito, mas você já sabe porque eu estou te ligando.
— Eu sei.
— E então? — Havia um pouco de ansiedade na sua voz, coisa que Grissom não pensou em evitar.
— Desde quando você me pediu eu venho trabalhando sobre isso nestes últimos dias. Não é algo simples, Gil, você já deve saber. — Rogers respondeu com sinceridade.
A falta de uma resposta clara estava matando o sargento. Ele trocou o celular de mãos e disfarçou um suspiro.
— Estou quase acabando. — disse o amigo, enfim — Pegar essas informações é um serviço que vai além dos meus esforços, então estou tentando me desdobrar para terminar isso o mais rápido possível.
Grissom o conhecia bem para ter certeza que Rogers estava se esforçando de verdade. Mesmo focando em seu emprego no Departamento de Trânsito, Paul fazia questão de ajudá-lo com esse pedido. Raramente o sargento pedia algo para ele e quando o fazia era algo importante, difícil de ser ignorado.
— Ok.
— Se tudo der certo por aqui pode ser que até o final de semana você vai estar com essas informações. Mas não se firme nisso, pode ocorrer algum imprevisto nesse meio e... você sabe.
— Certo. Obrigado.
— Eu sei que você queria notícias melhores, mas chega o final do ano e isso aqui fica uma loucura, e com um pedido desses.
— É, eu entendo. Agradeço a ajuda, Paul. Vou desligar.
Ele guardou o celular e voltou para a sala, tomando coragem no caminho para o que fazer adiante. Estava receoso com o que viria pela frente, temendo que mais discussões viessem ou a situação do caso tomasse proporções preocupantes.
— Oi. — disse ele ao retornar.
— Oi. — Ela se encontrava sentada na cadeira que puxara para si, atrás de sua mesa. Estava quase do mesmo jeito que ele se recordava deixá-la — Não vai acreditar no que descobri agora.
— Mais coisa? Diga. — Curioso, Grissom se sentou ao lado dela, já olhando para o monitor.
— Eu fiquei pensando muito nos Jenkins nesse final de semana e acabei tendo uma ideia de pesquisar um pouco mais sobre eles, desta vez no banco de dados que temos. Fiz isso agora há pouco e pra minha surpresa... — Sara voltou para o topo da página online — Mary Jenkins é ex-presidiária.
— Ex-presidiária? — Grissom não estava esperando receber uma informação tão fora de sua linha de raciocínio — Qual foi o crime? — perguntou ansioso.
— Assalto a mão armada há uns oito anos. — Ela apontou para a tela e depois ficou encarando o parceiro — Eu sei, nada disso confirma que Mary teve algum envolvimento nessa história do Park, mas-
— Pode nos servir como peso para interrogá-la. — Grissom a completou com um olhar confiante, ao contrário do dela — Tem alguma informação sobre número de contato?
— Não... — respondeu enquanto olhava para a tela do computador — Incrivelmente apenas o último endereço residencial, aquela casa próxima à cena do crime.
— Então vou ter que ligar para o xerife e avisar que vamos fazer isso. Tudo o que você encontrou já é o suficiente para colocar os Jenkins e até mesmo o xerife nessa história.
— Boa sorte... — comentou desesperançosa.
Sara não era a pessoa mais adepta a esta ideia. No fundo sentia certo incômodo ao seguir por esse caminho junto de Grissom, mas que outra escolha havia? O tempo corria e a hora de recuperar algo deixado para trás era esta.
— Alô, aqui é o sargento Grissom, polícia de Las Vegas. Eu quero falar com o xerife agora, é um assunto urgente.
Ele ficou esperando por quase um minuto, tempo suficiente para mudar seu humor com facilidade. Revezou entre bater com o pé no chão repetidas vezes ou na mesa com a ponta dos dedos.
— O que você quer agora, sargento Grissom? — Do outro lado da linha, Horton não economizou no sarcasmo ao citar o nome dele.
— Respostas, xerife. — Afirmou — Mary Jenkins, lembra desse nome?
— O que tem ela? — Grissom captou uma leve alteração na voz do xerife. Pensou em continuar atuando assim para ver se conseguia algo a seu favor.
— Nós queremos interrogá-la acerca da morte de Ryan Park.
— O quê? — Horton pareceu exaltado — Com que argumento vocês pedem isso tempos depois do crime?
— O argumento, xerife? Nosso trabalho foi prejudicado e pode nos custar caro no futuro.
— Eu não tenho culpa se vocês não tiveram competência de investigar isso. Me poupe, sargento.
— Quer falar de competência, é? — Grissom ficou irritado com o que ouviu — Que tal falarmos de caráter? E dizer o quanto você não tem a decência de um!
Sara olhou para o rosto dele, começando a ficar preocupada com o rumo daquela conversa.
— Como é que é?
— Você sabia sobre Mary Jenkins. Sabia que era ex-presidiária e mesmo assim escondeu tudo isso da gente. Vai me dizer que escondeu a família para ela não ter que dar depoimento sobre o caso!
— Gil. — A detetive sussurrou para chamar atenção dele, mas ele apenas respondeu “calma” do mesmo jeito que ela.
— Temos suspeitas suficientes que houve ao menos uma testemunha do assassinato ou que, Mary Jenkins possa estar envolvida nessa história. E você também não sai impune dessa, xerife, suas mãos estão tão sujas quanto as dela.
— Ficou louco?! Como pode alegar absurdos desses?!
Até mesmo Grissom tinha em mente que escolheu um caminho sem volta. Agora dependia de si mesmo para se sair bem, tarefa ardilosa; e do xerife que a cada minuto se mostrava cada vez mais irritado com o rumo da conversa.
— A cena do crime, para começo de conversa bem em frente à casa dos Jenkins. A estranha “ausência” não explicada deles no dia do assassinato, ou melhor, no momento em que eu e minha parceira estávamos lá. Eu posso ficar aqui dando mais detalhes, mas não quero perder mais do tempo já perdido falando com você pelo telefone.
— Isso é patético. Está caçando problemas onde não há, sargento.
— Como tem tanta certeza disso? Por acaso... interrogou Mary Jenkins sobre o caso antes da gente?
— Isso não vai acontecer. — A declaração do xerife saiu como um ultimato.
— Sua palavra não tem muito peso agora, xerife. Eu não acho que esconder os detalhes do caso seja algo ético que um oficial pode fazer. Se você não vai nos ajudar então é melhor abrir caminho, porque nós vamos interrogá-la.
A cada minuto Sara ficava mais apreensiva sobre o que iria acontecer pela frente. Agora não havia como impedir Grissom, ele ultrapassou o limite e estava obstinado demais.
— Isso é uma ameaça, sargento Grissom? — Horton perguntou sarcástico.
— Interprete como quiser. Nós vamos aí conversar com a senhora Jenkins, ou se quiser nós mandamos uma viatura buscar ela e o filho.
— Não sabe o que está fazendo.
— E pelo visto você sabe muito bem, não é mesmo? — Grissom ironizou — Você faz isso porque não é um parente seu assassinado que nem o Park foi.
— Vocês aí da cidade grande, sabem o que são? Desprezíveis.
O sargento preferiu não responder na hora.
— Vocês se acham no direito de passar por cima de tudo apenas por seus interesses. São da pior espécie.
— Não fui eu quem provocou isso tudo, xerife Horton. — Ele comentou sem perder a linha — Vamos entrar em contato antes de chegar aí. Passar bem.
Quando encerrou a chamada ele se dirigiu à parceira, que o encarava não muito satisfeita.
— Precisamos nos preparar. Espero interrogá-la até o final de semana. — disse ele, e a expressão não muito boa dela persistiu — O que foi?
— Você já deve saber que não sou fã de uma abordagem “agressiva”.
— Até você concorda que ele mereceu, Sara. — retrucou meio impaciente — Com Hernández foi diferente.
— Diferente em várias formas e uma delas era que Pedro nunca foi um oficial da polícia.
— Ele sabe que estava errado e pode muito bem pagar por isso. — Grissom respondeu sem um pingo de arrependimento — Mas importante agora é focar no que vamos fazer adiante. Falei com meu amigo do departamento de trânsito e ele falou que até o final de semana os dados que pedi estarão prontos.
— Isso é bom. — Mesmo satisfeita com seu comentário ela não sorriu.
Ela pegou o copo d’água e começou a tomá-lo só naquele momento.
— Você não gostou disso, eu sei. Mas foi um mal necessário e espero que entenda.
Quando sara terminou de beber ela deslizou a língua sobre os lábios e desviou o olhar dele por um instante.
— Melhor a gente continuar por aqui.
Ele a assistiu tomar a iniciativa, usando o computador para sabe-se lá qual próximo passo ou como uma tentativa de ter que evitar continuar falando sobre a ligação.
— Eu quero partir para Cold Springs amanhã. O que acha? — perguntou ele, tentando retomar a atenção dela para si.
— Acho que você deveria diminuir o ritmo e evitar o esforço. — Ainda enquanto olhava para o computador a detetive respondeu.
— Isso é importante.
— Você sempre diz isso.
O sargento bufou e franziu a testa ligeiramente. Aquele cabo de guerra não ia terminar bem se continuasse daquele jeito.
— Então eu fico em casa, é melhor para você?
— Não me faça tomar decisões desse tipo, Gilbert. — Ela fechou os olhos e balançou a cabeça e em seguida sussurrou, de modo que ele só conseguiu entender lendo seus lábios — Eu te amo. Não faça uma pergunta que eu não tenho condições de responder.
Silêncio. Lentamente a detetive se virou para o monitor mais uma vez. Vendo a cena, segundos depois, Grissom não pôde ficar parado enquanto o clima pesado que ficou após a conversa permanecesse.
— Desculpe! — Entregou-se ao desânimo — Estou de cabeça quente com isso e tudo que quero são respostas.
— Eu quero a mesma coisa, mas ficar desse jeito não vai ajudar. — Ela fez uma pausa — Não se lembra do que me mandou no domingo?
— Eu sei. — Ele tentou ver o que Sara estava fazendo e não soube dizer o que era — Eu sei, mas olha só o que está acontecendo, isso deixa qualquer um com raiva.
A detetive apenas assentiu sem prestar atenção nele.
— Sara.
— Oi.
Discretamente ele tocou no braço esquerdo dela e foi descendo até chegar ao pulso.
— Olha... Fique comigo hoje. — A voz dele saiu tão baixa que pareceu um sussurro.
Como de costume uma pergunta tão particular como aquela num ambiente de trabalho fez o coração de Sara disparar. Primeiramente ficou perplexa, lançando-lhe um olhar congelado fazendo frente à serenidade ao dele.
— Eu estou... sentindo sua falta.
— Melhor não... discutir isso agora. — Ela discordou na esperança que ele se afastasse. Temia pelo perigo de alguém entrar na sala de repente.
Grissom ficou quieto. Deixou de insistir, mas não se deu por satisfeito. Queria continuar com aquilo depois na tentativa de afastar de uma vez aquela atmosfera densa e escura que os rondava.
—----------------------------------------------------------------
Passado de uma hora, finalmente as imagens chegaram. Os policiais almoçavam no refeitório porque preferiram adiar a hora da pausa, porém quando souberam da notícia acabaram encurtando o descanso. Foram direto para a sala de análise onde podiam desfrutar de um equipamento eletrônico mais apropriado que apenas um reprodutor de vídeos.
Para Sara, começar a assistir a mais de três horas de gravação bruta era voltar no tempo e se inserir no cemitério. Ela estava disposta a passar o resto da tarde sentada numa cadeira não muito confortável não perder um segundo daquelas imagens, mesmo que não encontrasse algo útil.
— Talvez ele tenha ficado por lá me vigiando... — comentou enquanto os primeiros segundos das imagens apareciam na tela — Esperando o momento que eu saísse do meio para deixar aquelas coisas.
— Ou ele pode ter deixado isso antes. — Ele ponderou. A todo momento Grissom tentava afastar a possibilidade de Sara ter sido vigiada, por mais que fosse o óbvio.
— Então como ele sabia que eu estaria lá? Como sabia que eu iria passar no túmulo da Holly? — Desta vez Sara o fitou, encontrando um rosto balançado pela dúvida.
— Por que... você foi até lá? — Grissom perguntou com uma voz acanhada.
Ela moveu os lábios para responder, entretanto não chegou a falar no momento seguinte. Acabou desviando o foco dele brevemente o que o deixou ainda mais ansioso.
— Sara. — Ele a chamou com uma pequena dose de impaciência.
— Porque eu quis! — Sentindo-se pressionada ela respondeu por impulso — Fiquei com vontade de visitar o túmulo dela... prestar respeito, só isso!
— Você contou isso a alguém? Pessoalmente, pelo telefone-
— Gilbert! — Ela protestou — Não contei a ninguém sobre isso, ok?!
— Eu estou preocupado! — O sargento se defendeu — Como ele sabia que você estaria lá, este é o problema. Havia muitos outros caminhos que você poderia tomar e você escolheu logo aquele.
— O que quer me dizer, que fui atraída a isso?
— Você mesma disse que pensou em visitar o túmulo dela e não contou a ninguém. Mas nós dois discutimos abertamente em ir até o enterro dele.
— Será que ele estava esperando por você, então? Não é... possível que ele tem nos vigiado em todo lugar que estivemos.
— Não sabemos nada sobre ele direito. Se ele sabia ou não da sua presença no enterro de Park, se você iria se aproximar do túmulo de Holly... Nada.
— Era impossível para Zodíaco saber o que eu faria. Isso não faz sentido.
— Então talvez isso foi uma jogada de sorte. — Ele deduziu, já desanimado com o que a conversa estava levando. Outro beco sem saída.
— Zodíaco não pode jogar com a sorte, Gil.
— Mas nós temos que admitir que você poderia não ter ido ao funeral e a mensagem ficaria por lá, não acha? Se isso acontecesse como ele te enviaria isso?
— Por encomenda? — Sara ironizou — Ou ele sabia disso o tempo todo.
Terça, 22.
Não muito tempo após chegarem ao trabalho os dois foram chamados à sala de Brass. Sara bateu à porta do capitão e entrou sem esperar por resposta. Grissom foi logo em seguida e ficou mais surpreso que sua parceira quando viu a figura sentada no pequeno sofá a conversar com Jim.
— Sargento Grissom e detetive Sidle. Bom ver vocês por aqui. — disse o homem calvo logo a se levantar.
— Ecklie. — O tom sério de Grissom já adiantava como seria a possível conversa.
Brass que estava sentado à sua mesa vendo aqueles dois imaginava o mesmo. Ele baixou a cabeça e bufou sem ser discreto.
— Já acabamos por aqui, Jim. — O xerife assentiu ao capitão — Vocês dois chegaram em boa hora. Venham comigo.
— Agora? — questionou Grissom.
— Agora.
Já era certo de que quando Ecklie e Grissom se encontravam em algum lugar do departamento, indiretas ou discussões poderiam acontecer.
O xerife foi o primeiro a deixar a sala, sem aguardar os outros dois policiais. Ainda inconformado, Grissom encarou o capitão esperando que ele dissesse algo a favor deles.
— Vão. — respondeu Jim, com um olhar não muito satisfatório.
O sargento não gostou daquele olhar. Ele o conhecia muito bem para saber que não ouviria coisas boas do xerife.
Fale com o autor