Manhunters
94 Cuidado: Curvas perigosas adiante
Notas iniciais
— Acho que vou pedir uma sala cativa por aqui. — disse o xerife ao percorrer a pequena sala do interrogatório. Quando se virou para a porta encontrou os dois a entrarem — Vamos, sentem-se. — Ecklie pareceu ser amigável, só pareceu. Ele gostava de passar um ar de amigo que abraçava alguém e que segurava uma faca ao mesmo tempo.
O xerife analisou os poucos detalhes da sala que passava uma sensação claustrofóbica, pior ainda com a presença dele. O mais importante acabara de chegar e ele estava cheio de vontade de começar aquilo o qunto antes.
Sem trocarem olhares como costumaram fazer, Grissom e Sara tomaram seus lugares. Sara se sentou primeiro, ao lado esquerdo da visão de Ecklie. Grissom foi em seguida, prestes a se sentar ao seu lado.
— Sargento, faça o favor. — O xerife apontou para a cadeira do outro lado da detetive, à esquerda de Ecklie. O pedido, claro, deixou Grissom nervoso e ele sabia muito bem o efeito que causava no sargento.
Suspirando sem fazer questão de disfarçar Grissom quase se arrastou no pequeno trajeto do lugar onde estava até a cadeira. Puxou a cadeira com certa agressividade e se sentou.
— Fale logo, Ecklie. — Ele tocou na mesa com as palmas das mãos — Isso aqui é uma conversa ou um interrogatório? — questionou-o ao mostrar o lugar — Porque estamos ocupando o lugar que poderia estar sendo usado por um policial.
— Droga, Grissom, pare com essa merda! — Conrad parecia mais nervoso. Ele se aproximou da mesa e se apoiou sobre ela com ambas as mãos — Se parasse de falar asneiras e usasse essa energia para trabalhar nesse caso já estaríamos longe.
O sargento olhou para baixo e cruzou os dedos. Disfarçadamente Sara olhava para o parceiro, preocupada com a chance de ele “explodir” em cima de alguém que nem deveria pensar nisso.
— O que você quer, Ecklie? — Grissom perguntou, de voz baixa e sem olhar para ele.
— Respostas. — Ele disse da mesma forma, só que baixa e friamente — Praticamente fim de ano e nenhuma resposta decente, sargento. O que é que eu vou dizer ao prefeito quando ele começar a bater na minha porta?
— Não está vendo os relatórios que estamos fazendo, ou ouvindo o que dizem por aí? — enfatizou.
— Não é suficiente, você mesmo sabe. — O xerife gesticulou com a mão, bem próximo do sargento, atraindo seu olhar — Um monte de especulações e teorias não servem pra muita coisa, não acha? — Ele fingiu bater na mesa — Para que estamos pagando vocês dois?
— Eu não me lembro de você ter pressionado tanto o Sales quando ele veio com um monte de furos no caso. — Grissom retrucou sem medo e com uma ponta de ousadia.
— Não estou vendo ele aqui, estou? — O xerife olhou para todos os lados e gesticulou — Ele não está mais aqui justamente para que outro pudesse resolver o caso. Minha conversa é com vocês.
Depois daquela resposta o sargento riu brevemente e balançou a cabeça.
— Se você, Grissom, não tivesse sido tão desleixado naquele posto agora poderiam estar investigando o principal suspeito de todas essas mortes.
Aquele era o assunto no qual Grissom odiava que tocassem. Ele cerrou os dois punhos e franziu as sobrancelhas. Sara viu aquilo, mas não tinha como impedi-lo de imediato, tampouco explicitamente.
— É fácil falar quando não foi você que ouviu tiros num lugar que sua parceira entrou há poucos segundos, Ecklie. — Grissom quase resmungava ao responder.
— Não me importa que a culpa foi sua. — O tom do xerife, quase debochado, deixou Grissom ainda mais nervoso — Olha só onde nós estamos, sargento Grissom, porque você agiu como um idiota.
— Ela é minha parceira, droga, o que isso tem a ver com o maldito caso?! — Ele ergueu a cabeça e não maneirou no tom — Que culpa nós temos daqueles dois assaltarem a loja?!
— Tem tudo a ver com o caso! E bem lembrado, vocês dois estavam lá. — A atenção do xerife se voltou para Sara. Ele ergueu os braços e continuou a agir intimidadoramente — Detetive Sidle... imagino que você deve ter verificado o perímetro ou ao menos deveria ter feito isso.
— Já chega, essa conversa acabou. — Grissom se preparou para levantar.
— Como é que é?
— Estamos aqui para falar do caso ou sobre algo que já foi discutido na Corregedoria? — Já de pé ele gesticulou com o polegar para trás, encarando o xerife frente a frente. Depois apontou para Ecklie — Que a propósito foi você quem liderou.
— Estamos falando sobre conduta no trabalho, sargento, coisa que você não tem dado exemplo nos últimos tempos.
O sargento respirou pelo nariz e expirou lentamente.
— Você não tem poder nenhum para acabar com isso aqui. Ouviu, sargento? — O xerife apontou o dedo quase rente ao rosto de Grissom. Sem a reposta desejada ele insistiu — Você ouviu, sargento?
— Eu tenho ouvidos, não tenho? — debochou mostrando os dois órgãos.
— Voltando ao que estávamos falando... — Quase sorrindo, Ecklie virou o rosto aos poucos para Sara — Me arrisco a dizer que também esteja sendo influenciado pelo seu parceiro. É verdade, detetive?
Grissom não estava acreditando naquelas palavras. Existia uma linha tênue entre continuar aturando o xerife e agir radicalmente. O sargento estava bem no meio, quase atravessando-a.
— Sara não tem culpa de nada nessa história. — Enquanto continuava de pé a encarar Ecklie, Grissom apontou para a companheira, disposto a dar tudo de si para protegê-la.
— Ah, então você está admitindo culpa, não é mesmo?
— Eu não disse isso. Não coloque palavras na minha boca.
Seu desgraçado.
— Ela é uma policial decente, mais decente que um monte daqui. Não faria merda como eles.
— Eu não sei! — Sarcástico, Conrad deu de ombros — Eu não a conheço 100% para ter um veredito, ela foi indicada por um amigo da Califórnia. Será que ele estava enganado?
— Céus, eu não tô acreditando nisso! — Grissom falou pausadamente, afastando-se dele. De costas ele tocou na cintura com ambas as mãos e baixou a cabeça.
— E então, Sidle, o que diz sobre isso? — Ele a questionou novamente. Desta vez ela recebeu olhares de ambos os policiais.
— Eu sei do meu valor, xerife Ecklie. — disse sem reservas e com tranquilidade — Também sei que se fui indicada pelo comissário é pelo bom trabalho que fiz.
Sem demonstrar muito, o sargento assentiu a ela brevemente.
— Viu só? — falou Grissom, bem perto do xerife — Já acabamos por aqui? Porque temos um monte de coisa pra fazer, se não está ambientado.
— Sente esse traseiro aí, Grissom. Quem disse que nós acabamos? — Desta vez ele não estava para sarcasmo. Ecklie fechou a cara assim como o sargento como quem não iria aceitar mais insubordinações.
Grissom trocou um olhar afiado com o superior antes de voltar a se sentar. Ele sabia dos limites que ameaçava ultrapassar e só não os fez por completo por algum milagre divino que o segurava de não cometer uma loucura. Ou talvez por causa dela. Grissom também olhou para Sara; rápido, mas o suficiente para deduzir que ela estivesse preocupada com sua atitude no momento. Era o momento de “acordar para si” antes mesmo de cometer algo do que pudesse se arrepender no futuro.
Ele se sentou e desta vez se ajeitou na cadeira, tentando se manter calmo.
— Ótimo. — Conrad mostrou o sorriso que o sargento odiava. Bom para ele que não estava olhando — Agora... vamos falar sobre o caso em Cold Springs.
— O que tem ele? — Grissom apoiou as mãos na mesa ele tamborilou a superfície por alguns segundos.
— Gosto de saber sobre tudo que acontece nos departamentos. Também gosto de saber da boca dos outros sobre a bom trabalho que eles fazem.
A dupla permaneceu em silêncio.
— Agora, se tem uma coisa que eu odeio é que escondam algo de mim. Pior ainda, é ouvir da boca de um xerife coisas horríveis sobre vocês.
Na mesma hora os dois encararam Ecklie, que permanecia de pé.
— Ah, agora vocês olham. Sinceramente eu esperava mais dos dois. Ameaçar um xerife? — Ecklie olhou diretamente para Grissom e ergueu os braços.
O semblante confuso se transformou aos poucos numa cara surpresa, quase inconformado.
— Então ele foi correndo contar a você, não é mesmo? — O sargento ironizou — Se usasse toda essa rapidez pra nos ajudar com o caso seria muito mais fácil!
— Acha engraçado, sargento, quando o seu cargo está na linha?
— Olha só. — Grissom ergueu o indicador — Em primeiro lugar foi o xerife Horton quem foi o mal caráter aqui, omitindo informações importantes para o caso, além de esconder duas testemunhas em potencial.
— Testemunhas? — retrucou Ecklie em deboche — Você acha um garoto cego se encaixa como testemunha?!
— Por que não?! O que foi, não se lembra de vários casos onde ocorreram as mesmas circunstâncias?
— Eu sei das circunstâncias desse caso, Gil, não se faça de idiota ou tente me fazer um. Vocês acham que o garoto supostamente pode identificar o assassino porque Zodíaco mandou um bilhete para você em braile? Vocês nem sabem se há alguma relação da família com o assassino. Por favor, estão criando hipóteses a partir de meias verdades!
— Vamos, Ecklie, não acredito que prefere defender os interesses de um oficial que está todo errado que nos defender. Não íamos segurar algo de que não temos confiança. Isso tem peso! — Grissom insistiu, tocando na mesa com a palma da mão.
— Isso é patético, Gil. — O xerife respondeu sem a mínima pena — Está inventando uma realidade para que ela faça sentido a você.
Grissom deslizou a mão para fora da mesa e fechou os punhos com força. Sua paciência com o Ecklie estava chegando ao fim e o sargento tinha certeza que a qualquer momento explodiria para cima dele.
— Então por que Zodíaco mandou um bilhete para mim em braille, bem em frente à casa dos Jenkins, hein, xerife? — Grissom o interrogou, quase falando para dentro.
— E eu vou saber? — Ele ergueu as mãos.
O pavio se encurtava cada vez mais. Grissom chegou a arrastar as unhas das mãos sob o tecido da calça para tentar se controlar.
— Era trabalho de ambos descobrir porque ele inventou de mandar bilhetinhos agora. É possível que ele esteja seguindo vocês e nem perceberam isso.
As palavras dele bateram forte porque tinham chance de ser verdade.
— Por que não usam o tempo para descobrir isso ao invés de gastá-lo numa viagem perdida?
— Você não está entendendo, Ecklie. Não podemos nos arriscar em deixar uma pista de lado. Veja o que aconteceu com Vanessa Temple. Se Sara não tivesse voltado no caso dela aqueles homens estariam soltos até agora! — Num último lampejo de esperança Grissom tentou argumentar firmemente.
— Isso mesmo! Temos o caso dos guardas subornados com dinheiro que até agora não foi rastreado.
— Não foi possível rastrear a origem do dinheiro, xerife. — Depois de muito tempo em silêncio Sara respondeu antes do parceiro.
— E por que não contataram os federais? Eles podem dar um jeito nisso.
— Os federais, xerife — Grissom nunca economizava no tom sarcástico quando se falava neles — vão tornar esse caso um evento nacional e atrair atenção desnecessária.
Meu Deus!
— É isso ou ele vai acumular mais corpos naquele necrotério, sargento Grissom. Corpos que podem ser de vocês dois.
Ele não se atreveu a olhar para Sara. Um frio percorreu-lhe a espinha e o seu estômago chegou a embrulhar. Só de imaginar aquela possibilidade, a de Sara se tornar um alvo, era perder parte de si aos poucos.
— Eu pensei que a chegada da detetive Sidle para te ajudar no caso fosse acelerar mais as coisas. Mas pelo visto isso não deu muito certo, não é mesmo? Parece até que piorou.
— Isso não é verdade. — Ele rebateu, apoiando a mão direita na mesa. Olhar afiado e quase intimidador marcava o sargento — Estamos tentando trabalhar, mas você está querendo nos impedir.
— Eu? — O xerife sorriu e pôs a mão no peito — O único sabotador dessa história toda é você, Grissom. É por isso que o assassino está correndo por aí à solta. Sabia que não devia ter deixado o caso de um serial killer para alguém que foi feito refém por outro.
Aquele foi o fim da linha para o sargento.
Num súbito movimento ele se apoiou na mesa com toda a força e se ergueu de forma tão rápida que surpreendeu tanto Sara quando Ecklie. Parecia até que Grissom voaria no pescoço do xerife como um urso partia para cima de um rival. Em seus olhos haviam fúria e desgosto para o homem à sua frente. Desde muito tempo Grissom já nutria certo incômodo pela posição que Conrad tomava em certas situações e aquela o pegou de jeito.
— VOCÊ NÃO-.
Todavia de uma hora para outra a atenção se voltou para a porta, onde o capitão Brass apareceu e entrou sem bater. Aparentava estar irritado vendo os três ali naquela sala. Sem nem fechar a porta ele se aproximou da mesa.
— Que diabos está acontecendo aqui?! Ecklie?!
O xerife não gostou de ter “seu” espaço reservado violado sem precedentes.
— O que diabos você está fazendo, Brass?! Não vê que estou falando com esses dois?
— Falando ou interrogando eles? — O capitão rebateu enquanto encarava Grissom, que permanecia de pé ainda numa posição agressiva. Ele não tirava os olhos do xerife e parecia muito capaz de continuar o que havia começado com o pequeno lampejo de oportunidade.
O capitão não chegou de surpresa. Ficou na sala de observação atento à toda a conversa entre os três. Pensou em aparecer antes, mas escolheu ficar e ver até onde eles iriam. Viu que as coisas estavam esquentando e resolver tomar uma atitude antes que fosse tarde, principalmente para Grissom.
— O que está ensinando ao seu subordinado para ele agir assim? — Conrad aproveitou a deixa para alfinetar tanto o sargento quanto o capitão — Por acaso ele ia me atacar feito um animal? É isso?
Irritado com a atitude dele, Jim se aproximou de Grissom e pressionou fortemente seu ombro para que se sentasse novamente. O sargento não se opôs desta vez.
— Não, ele não ia. Não é, sargento Grissom? — De modo intimidador o capitão bateu no ombro do sargento.
Ele não respondeu logo, pelo contrário, ficou encarando o superior como se disse várias e várias coisas sobre ele. Coisas do tipo que se as dissesse poderia dar adeus ao caso e quem sabe ao distintivo.
— Vamos colocar tudo isso do jeito que tem de ficar. — ponderou Brass, percebendo que Grissom não iria falar — Você estava aqui, conversando com meus policiais sem ao menos eles terem alguém para defendê-los. O que é isso, Conrad? Quer descontar neles por que ainda não te deram uma identidade?
— Não é só por causa disso que eles merecem um “pequeno” puxão de orelha. — Ecklie fez uso daquele sorriso intimidador enquanto se dirigia ao capitão — Tem muito mais que falta de respostas. Ameaçar um policial, um xerife ainda por cima; pressionar suspeitos; brigar com colegas de trabalho. Agindo como um imprudente numa situação que deveria ser controlada.
— De novo com isso? — Grissom reclamou — Por quanto tempo mais você vai jogar isso para cima de mim? Até eu desistir?
— Eu sei que não vai desistir. Mais fácil tirar de você a força.
Grissom o encarou nos olhos como se o xerife carregasse na palma da mão suas esperanças sobre o caso. Era surpreendente até para ele mesmo pensar na palavra “esperança”, mas não havia nenhuma outra expressão que achou melhor relacionar. Ele sentia que o fim estava próximo, bem próximo.
— Não vai fazer isso, não é, Ecklie? Tirá-los do caso agora vai custar muito caro. Quem mais conhece os detalhes que eles? — Brass se virou para o xerife. Tentando defender seus subordinados ele tinha em mente do poder que Ecklie tinha para tomar decisões drásticas.
— Podemos compensar isto com policiais capacitados. — garantiu o xerife com total certeza.
Depois de ouvi-lo Grissom fechou os olhos por um tempo além do normal e baixou a cabeça. Ele estava sentindo que a “derrota” se aproximava e não haveria mais nada a se fazer a não ser aceitar. Seus últimos erros pesaram bastante.
— Vai tirar a detetive Sidle depois de toda aquela festa? Como é que vai ficar a nossa imagem com o Comissário? — questionou Brass, tentando ao menos salvá-la.
— Eu disse, podemos dar um jeito. Não vai ser isso que vai abalar nossa relação com a polícia da Califórnia.
— Xerife. — Num tom firme Sara ainda tentou insistir — Nós estamos conseguindo encontrar pistas, ainda temos que juntar as pontas soltas. Tem muita coisa ainda que precisa ser analisada.
Conrad lançou um olhar afiado à detetive, que não esperava por isso e sentiu um calafrio na espinha. Chegou a engolir em seco, temendo que tivesse falado no momento errado.
— Hum... Talvez possamos deixar a detetive ainda e evitar um possível rechaço.
Sara balançou a cabeça em assertiva e desviou o olhar ao xerife por três segundos. Estava tomando coragem.
— Mas e o sargento Grissom? — indagou sem hesitar.
Grissom, que ainda se mantinha de cabeça baixa olhou para ela de canto na mesma hora. Sua cara não estava boa, ia de encontro com tudo o que ele avisou à parceira no hospital.
— Se for para tirar alguém por seu conhecimento e capacidade de resolver este caso então tire a mim. Grissom está no caso há mais tempo e o conhece quase na ponta da língua. Cheguei aqui mês passado.
Ele fez um leve movimento em negativa. Tudo estava dando errado e a declaração de Sara era a cereja do bolo. Não conseguia acreditar que as coisas estavam desmoronando bem na frente de seus olhos.
Não faça isso... céus...
— O quê? — Ecklie parecia confuso, tanto ele quanto o capitão — Está me dizendo que se for para escolher entre você e ele — O xerife apontou para Grissom com desdém — quer que eu o escolha?
— Sim. — Ela respondeu sem problemas.
— Ah! — O xerife ergueu os braços, deixando uma risada escapar — Vocês dois estão me surpreendendo cada vez mais. Principalmente você, detetive Sidle.
— Eles precisam de tempo, e estão conseguindo trazer alguma coisa, Ecklie. — Jim cruzou os braços, tentando se aproveitar de todas as oportunidades. Separá-los vai atrapalhar a vida de todo mundo.
Após olhar para o capitão, Conrad observou atentamente a todos os rostos na pequena sala. Focou especialmente em Grissom, que se mantinha de cabeça um pouco inclinada para baixo.
— O que você acha, sargento? — perguntou sorrindo, trazendo finalmente a atenção de Grissom para cima.
Ele suspirou, encarou a parceira por um breve instante e respondeu:
— Faça o que quiser, Conrad. — Grissom se recostou na cadeira, fitando-o diretamente — Você sabe dos detalhes, dos fatos. Faça o que bem entender, é você quem dá as cartas por aqui. — A declaração pareceu um deboche, mas saiu mais como um desabafo.
O sorriso discreto do xerife aumentou ainda mais. Foi a melhor resposta que Grissom poderia dar em toda aquela conversa. Os dois sabiam qual posição se encaixavam, como numa hierarquia. Um passo em falso e o sargento estava fora.
— Pois bem. — concluiu Ecklie — Eu vou permitir que vocês dois continuem, porém quero resultados. Final do ano se aproxima e quero algo para mostrar ao prefeito e ao comissário. Se não pegarem o assassino logo pelo menos me deem algo bom. — Ele foi claro — Fale com as testemunhas ou o que vocês alegam ser. Se trouxerem problemas de novo, acabou.
Os dois oficiais de pé trocaram um olhar. O capitão concordou (aliviado) com a decisão final do xerife. Nem mesmo Brass tinha forças para deter uma escolha drástica de Ecklie.
— Quero saber do pedido de desculpas ao xerife Horton, sargento Grissom. — Conrad falou enquanto deixava a sala — Jim, quero falar com você.
Apoiados sobre a mesa, Grissom fechou os punhos com tanta força que as mãos ficaram vermelhas. Ele sabia que se arriscar gritando com o superior daria errado. De tanto andar na borda do penhasco o sargento se acostumou a não olhar para o risco de cair.
Quando Conrad saiu ele fechou a porta e foi a vez de Brass “tomar o lugar” dele na sala.
— Que merda foi essa de vocês dois?! — Ele ergueu os braços, inconformado por saber daquela informação por trás de uma tela de vidro — Estão brincando com a sorte agora? E Grissom, porque diabos foi ameaçar um xerife? Se esqueceu da droga sua patente?! — Jim bateu em seu braço esquerdo. Nem precisava perguntar quem foi o autor da “ameaça” porque conhecia Grissom muito bem.
— Você sabe o que ele fez, Brass!
— Estamos falando de ser expulso da corporação, Gil! Não entende?!
— Você ficaria do mesmo jeito se estivesse lá falando com Horton mentindo na sua cara! — Grissom apontou o indicador para o capitão bruscamente.
— Mas eu não sou o sargento Grissom! Um sujeito todo ferrado com Deus e o mundo! — Ele sorriu em deboche — Essa é a diferença entre nós dois!
— Ah, céus! Eu não acredito que até você tá defendendo essa gente. — O sargento cobriu o rosto com as duas mãos, fervendo de raiva. Ele se recostou na cadeira e olhou para cima.
— Se você está aqui, Gilbert Grissom, muito disso se deve ao meu desespero em te manter nesse prédio. Pare de agir como uma criança mimada. — As palavras saíram um pouco duras, mas o capitão não se arrependeu de tê-las dito.
Um silêncio pesado encheu a pequena sala. Nenhum dos dois teve coragem de falar, principalmente Grissom, que ficou um pouco ressentido pela bronca.
— O que acontece agora? — perguntou Sara finalmente, preferindo se manter em silêncio ao longo da "conversa" entre Grissom e Brass.
— Eu não sei. — Brass deu de ombros — A relação entre as duas polícias não está muito boa pelo visto. Se o xerife der um jeito de impedir a testemunha em depor e usar algum artifício... não sei se vou poder reverter.
— Ele não pode fazer isso. — Grissom interpelou.
— Você não sabe das coisas que eles podem fazer. — O capitão caminhou para até a porta — Melhor correrem atrás de alguma coisa logo, o traseiro de vocês dois está na linha.
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Eles retornaram à sala do sargento após a humilhação e diversos golpes sofridos por um único homem. Os ânimos foram arrebatados e o clima pesado demais para uma conversa sadia. Grissom, o último a entrar na sala, fechou a porta e baixou as persianas e a esperou se virar e olhar para ele. A vontade que tinha era de chutar a cadeira mais próxima, jogar algo quebrável no chão com força, qualquer coisa que pudesse conter sua raiva. Porém havia outro incômodo e esse ele não podia conter.
— O que eu te pedi no hospital, Sara?! — disse com a voz minimamente alterada ao erguer os braços — E o nosso trato em não tentar me defender?
Sara já esperava que fosse questionada por ele devido ao que falou, mas não aguardava uma abordagem um tanto agressiva.
— Não se lembra do que eu te falei logo em seguida? — rebateu um pouco insatisfeita.
— O que disse lá poderia colocar o caso em risco! Nós dois poderíamos ficar fora disso. — Ele gesticulou desesperado.
— Ah, então o importante agora é o caso. — Ela o confrontou vindo a se aproximar.
— Sempre foi. — Grissom respondeu na hora, sem pensar no que viria depois — O caso sempre veio em primeiro lugar.
Por mais que ela também esperasse receber uma resposta semelhante, ouvir de sua boca aquelas palavras incomodou bastante, mais do que imaginava.
— Ah... ok então. — Ela sorriu sarcasticamente — O caso é mais importante que tudo agora.
— Não. — O sargento ergueu o indicador rapidamente. Ele sabia aonde aquela conversa estava chegando — Você sabe que não foi isso o que eu quis dizer.
— Não, Gilbert! Foi exatamente o que você quis dizer. — Sara fez uma pausa e riu incrédula — Droga, você sabia muito bem o que eu iria fazer caso isso acontecesse! Acha que eu não iria lutar por você?! — Ela desabafou de uma vez — Mas pelo visto você só quer lutar pelo caso!
Ele passou a mão pelo rosto e suspirou no mesmo ritmo.
— Sabe que isso não é verdade. Mas você não devia ter feito aquilo, não sabe do que ele é capaz! Ecklie pode fazer tudo por aqui, sabe por quê? Por que ele pode. — Grissom apontou para trás — Ele pode fazer da sua vida um paraíso e depois transformar num inferno de uma hora para outra! — Foi a vez de ele fazer o mesmo.
A quietude na sala não era um sinal de que as coisas haviam melhorado entre os dois.
— Ainda bem que o Brass apareceu lá na sala porque eu já esperava um olho roxo no xerife se dependesse de você!
— Eu fiquei descontrolado, sim, ok?! O xerife pode entrar na sua cabeça e te pressionar até você desistir de tudo. Eu dou graças a Deus por você não ser desta polícia ou iria conhecê-lo de verdade!
Em vez de responder a detetive pegou a cadeira e se sentou frente ao computador.
— Não acredita em mim? E o seu sonho, hein, Sara? — insistiu — Não é você quem quer tanto resolver esse caso e entrar para o FBI.
— Eu quero, droga! — exclamou, ainda irritada — Estamos de volta no trabalho, não estamos?! Me arrisquei, sim, e faria isso de novo! Eu não sei de você.
A última frase congelou ainda mais a pequena sala. O olhar que Sara lançou para ele valeu muito mais que sua declaração. Eles chegaram àquele ponto, o ponto do qual o profissional e o pessoal se entrelaçavam na briga e isso não era bom.
Grissom segurou o ar pela boca e foi aspirando aos poucos. Tanto ele quanto ela estavam cansados daquele “round”. Para sua sorte o sargento recebeu uma mensagem no celular não muito tempo depois.
— Ótimo. Saiu a análise da rosa. — Grissom esperou que ela desse atenção a ele. Como não a recebeu, continuou mesmo assim — Melhor nós dois irmos ou você ir, apenas.
Depois de cerrar os punhos e fechar os olhos ela se levantou e caminhou em sua direção.
— Vamos, sargento. Não queremos perder mais tempo.
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Já no laboratório da criminalística, Grissom e Sara foram recebidos por um jovem perito, diferente do que o sargento entregou a rosa e o bilhete anteriormente.
— Ei. — Com ambas as mãos guardadas sob o bolso do jaleco, ele acenou com a mão direita ao ver os dois se aproximando.
— Foi você quem me contatou? — Ao ver a cara nova Grissom franziu a testa.
— Sim. Greg Sanders, criminalística. — O rapaz estendeu a mão para cumprimentá-lo. No começo o sargento resistiu, mas acabou retribuindo o gesto com ressalvas — Houve uma troca com o outro técnico, então eu assumi a análise da rosa e do bilhete. — completou enquanto apertava a mão da detetive.
— Ótimo. O que tem a nos dizer, Greg? — impaciente, Grissom esperava por uma resposta o quanto antes para tomar uma decisão sobre o que fazer adiante.
Sanders pegou a pasta em cima do balcão da recepção que continha o resultado das análises e entregou para Grissom.
— Infelizmente não encontrei digitais ou epiteliais no bilhete, mas descobri que ele foi recortado de uma folha maior e redigido numa reglete positiva.
— O quê? — perguntou Grissom.
— É um instrumento para se escrever em braille. — Sara respondeu sem dirigir o olhar a ele.
— Como descobriu isso?
— Existem algumas diferenças entre a reglete positiva e negativa e isso me ajudou a definir qual foi usada nesse bilhete.
— Bom. E sobre a rosa? — perguntou Grisom enquanto folheava o relatório.
— A rosa foi mais difícil. — brincou o cientista — Analisei o material da flor e descobri um composto para fertilizantes que é pouco usado aqui em Nevada, somente em alguns lugares. Então achei duas floriculturas que tem parceria com a mesma fazenda de onde esta rosa foi colhida. Estão bem aí as informações. — Sorridente ele apontou para a pasta, atraindo o olhar do sargento — Outro detalhe é que a rosa foi colhida há ao menos vinte e quatro horas atrás. Digo... vinte e quatro horas, antes do dia em que foi encontrada.
— Nós entendemos, Sanders. — Grissom falou meio áspero, já sem paciência.
— Fez mais do que precisava, Greg. Obrigada.
— Não se preocupe com isso, detetive. Estou sempre disposto a ajudar a polícia de Las Vegas.
O sargento ergueu uma sobrancelha.
— Se está tão disposto, Sanders, por que não virou um tira? — perguntou Grissom ao fechar a pasta e sorrir intencionalmente ao cientista.
— Bem... — Ele disfarçou — Acho que não tenho jeito para sair correndo atrás de criminosos com uma arma na mão.
— Tem sempre lugar pra gente como você, Greg. — falou Sara com um sorriso discreto.
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Um pouco afastada do centro de North Las Vegas havia uma floricultura não muito grande, um dos locais apontados por Sanders e primeira parada dos dois policiais. Não foi muito longe do cemitério, destino meio óbvio para o assassino adquirir a única rosa. Antes de partirem até lá os dois tiveram uma breve conversa com o vendedor de flores próximo ao Cemitério Woodlawn que negou vender flores daquele fornecedor ou usar aquele composto em seus fertilizantes.
Enquanto dirigia o sargento aproveitava alguns instantes para observá-la modestamente. Ela mexia no celular e nem desconfiava dele. Quando voltou a olhar para a rua, depois de várias vezes, ele suspirou de modo que ela o escutasse.
— Olha só o que Ecklie fez com a gente. — comentou, o primeiro assunto desde que entraram no carro há alguns minutos.
— Acho que ele foi apenas um fator nessa história. — Ela respondeu enquanto terminava de digitar.
Grissom tentou relaxar os ombros e pressionou o volante com as mãos. Tudo o que queria era colocar o xerife como culpado de tudo e reclamar por isso. Muito ainda por sua discussão com Sara, que deixou os dois naquela situação mais uma vez.
Ao invés de retrucar e começar uma nova e bem possível discussão ele preferiu o silêncio, e assim foi até chegarem à floricultura. O tempo estava um pouco fresco, algumas nuvens cobriam o sol, mas não o suficiente para diminuir o calor que ainda perdurava. Três e oito da tarde, não havia muito movimento de pessoas no local, somente por veículos. Já de fora era possível ser atraído pelo conjunto de plantas coloridas que despertavam euforia para quem gostasse de olhá-las. Apesar de ser uma estrutura simples, não muito grande se comparado às floriculturas tradicionais, as flores lhe davam um ar refinado de organização e beleza. As plantas eram a atração principal, deixando de lado qualquer detalhe da estrutura. Era uma loja bonita, mas a composição das construções ao redor poderia apagá-la facilmente.
— Boa tarde, posso ajudá-los? — perguntou uma mulher logo após os policiais entrarem na loja. Ela se aproximou deles e os cumprimentou calorosamente. Um pouco magra, seus cabelos loiros estavam presos por um rabo de cavalo. Usava um avental verde musgo sujo de terra, calças jeans, botas e uma camisa vinho com listras brancas e de meia-manga.
— Boa tarde, polícia de Las Vegas. — Grissom mostrou o distintivo — Viemos aqui para investigar a origem desta rosa aqui. — Já com a rosa embalada e lacrada ele estendeu à mulher.
— Sério? — Quase incrédula, a moça ergueu as sobrancelhas e pegou a rosa embalada.
— Ela foi deixada por um suspeito. Descobrimos que o fertilizante usado na rosa tem um composto usado nessa floricultura e por isso estamos aqui. — Sara explicou.
— Temos indicações que a flor pode ter sido comprada aqui no dia 18 ou 19.
— Bem... — Ela coçou a nuca na tentativa de voltar ao passado, mas era difícil. O tanto de informações recebidas a deixou confusa.
— Tem câmeras de segurança por aqui? — Sara questionou enquanto olhava para o local, dando uns dois passos para à direita.
— Não... pensamos em colocar por causa das espécies mais valiosas e o risco de serem roubadas, mas ainda não fizemos isso. Achamos que é um investimento para ser deixado para depois.
— Mais pessoas trabalham aqui, senhorita...? — continuou Sara, virando-se para as duas figuras.
— Susan Foster. — Ela riu ao se lembrar que não falou seu nome a eles — E sim, mais pessoas trabalham aqui. Meus pais e eu, Lisandra e David. — Ela assentiu.
— Bastante trabalho para poucas pessoas. — Ao se virar novamente Sara falou baixo para que não fosse ouvida.
— Eles estão aqui? — perguntou o sargento.
— Saíram há uns vinte minutos, mas logo irão voltar. Posso ajudar em algo por enquanto?
— Você estava trabalhando por aqui no dia 18 ou 19? Queremos uma identificação do suspeito e esperamos que vocês possam nos ajudar.
— No dia 18... eu não estava. Foi minha folga. — Susan afirmou — Eu estava no dia seguinte, mas não me lembro de ver alguém comprar uma rosa branca apenas. A não ser que comprou um buquê sortido ou algo do tipo ou que a tenha comprado com meus pais.
— Tem certeza?
— Não vou dizer que tenho 100% de certeza... naquele dia, no sábado, houve um número razoável de pessoas aqui, maior do que estamos acostumados. Deve ser por causa do enterro daquele jornalista, né?
— Soube dessa notícia? — Sara questionou.
— Deu em alguns jornais. Uma pena para ele, mas sem querer difamá-lo a morte dele nos ajudou com as vendas. — Susan deu de ombros e se segurou para não sorrir com a piada mórbida.
Grissom chegou a olhar para Sara, na esperança de que fizesse o mesmo, porém ela não fez.
— Então o suspeito pode ter comprado a rosa aqui no sábado e você não sabe nos dizer isso. — Irritadiço o sargento ainda insistiu em arranjar algo.
— É. Acho que eles vão me ajudar melhor com isso. Sinto muito. — Com um sorriso nervoso Susan deu de ombros.
— Ótimo.
Dez minutos se passaram e os Foster ainda não haviam chegado. Grissom já se remoía de impaciência para piorar seu dia não muito bom, péssimo, na verdade. Enquanto Susan atendia às pessoas que chegavam na loja os policiais se revezavam entre esperar dentro da floricultura ou fora dela.
No interior do carro Grissom tentava relaxar sentado no banco que reclinou. Esfriou mais então não precisava enfrentar uma onda de calor recente. Ele tentou fechar os olhos e se acomodar no banco, mas a posição não era muito confortável e tampouco sua mente o deixava descansar. Ficou assim por uns quinze segundos até que abriu os olhos e sua visão o levou de volta à floricultura. Acabou encontrando Sara passeando por entre a entrada da loja a observar os conjuntos de flores dispostos.
Ele não saiu logo, ficou por ali tomando coragem de falar com ela. Mediu todas as possibilidades de como iniciar a conversa e como ela iria terminar. Ainda, não podia disfarçar que ainda estava chateado, assim como ela, mas esse estado de guerra teria que acabar uma hora e ele torcia para que fosse o quanto antes.
Grissom saiu do veículo, fechou a porta discretamente e se aproximou dela com cuidado. Parou a menos de um metro dela e continuou a observá-la admirar as flores.
— Gostou de alguma delas? — O sargento perguntou baixo. Não muito perto para não atrair olhares desnecessários, mas não muito longe.
Não foi o susto que fez seu coração disparar, ela já sabia que Grissom estava por perto. Foi justamente a presença dele, o modo como se aproximou, sua voz meio grave. Ela odiou aquilo, tudo por causa da força que ele tinha sobre ela.
Sara se virou para ele na mesma hora com uma expressão zangada. Não respondeu e ainda por cima entrou na loja deixando-o a ver navios. O sargento cruzou os braços e ficou vendo-a entrar até que a porta fosse fechada sozinha. Era outro jogo que precisava saber jogar.
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Depois de quase meia-hora de espera o senhor e a senhora Foster chegaram à floricultura. Eles estacionaram a caminhonete em frente à loja e entraram com vários pacotes de compras. Ambos vestiam um conjunto parecido de jardineiras azuis. Para acelerar mais o trabalho, Grissom e Sara acabaram os ajudando a retirar os produtos da caminhonete e quem sabe ganharem pontos com eles.
— Obrigado por nos ajudarem. — agradeceu David, um senhor de idade branco, alto e gordinho. Depois de coçar a cabeça calva ele apontou para os fundos da loja onde havia uma mesinha redonda e umas quatro cadeiras. A vista era estratégica para a entrada da floricultura.
Sara foi quem explicou os detalhes antes informados à Susan. Tanto ela quanto Grissom desejavam ansiosamente por uma resposta e este não fosse outro beco sem saída.
— Um homem aqui comprando uma rosa branca...? — Lisandra repetiu em voz alta para tentar se lembrar. Assim como D era uma senhora de idade já de cabelos brancos.
— É, Sandra. — disse o marido.
O sargento e a detetive sabiam do risco do suspeito não ter comprado a rosa naquela floricultura e tê-la adquirido em um outro lugar, mas era trabalho deles investigar tudo o que fosse possível, nem que levassem semanas.
— Susan não estava aqui, não é? Ela é melhor com esse negócio de rostos. — comentou a mãe.
Grissom baixou a cabeça por um instante, já temendo que tudo aquilo não fosse dar em nada.
— Um homem alto, branco, de cabelos escuros...! — Lisandra pareceu lembrar de algo — Acho que... me lembrei de alguém assim.
Sara já estava a postos com uma caderneta na não pronta para anotar qualquer informação relevante.
— Não... se for mesmo esse homem quem estão procurando, ele não veio nesses dias aí, veio antes. — afirmou — Acho que foi no dia 17.
O sargento e a detetive trocaram um rápido olhar não muito surpreso, então ela começou a anotar.
— Ele era alto mesmo, meio forte... Susan?! — gritou a mulher para a filha que estava próxima à entrada, assustando a quase todos ali.
— Oi!
— Venha aqui. Você não estava no dia 17, também?
— Eu estava sim. — Susan confirmou.
— Não se lembra de um cara esquisito que veio aqui comprar uma rosa?
— A que horas foi isso?
— Um pouco antes de fecharmos.
— Oh... sim! — A mulher se virou para o sargento e a detetive — Mas foi vocês quem os atendeu, não?
Sara começou a bater rapidamente a caneta na mesa. Assim com o parceiro também estava incomodada com tantos empurrões da história entre eles.
— É verdade, acho que foi isso mesmo. — concordou a senhora de idade.
— O senhor estava por perto quando ele chegou, senhor Foster. — Notando que o homem permaneceu calado, Grissom tomou a palavra.
— Não, estava fazendo uma entrega neste dia. — Ele garantiu sem hesitar.
— E então, pode nos dar uma característica dele? — perguntou Sara.
— Estávamos quase fechando, me lembro que a noite estava caindo rápido. — Lisandra gesticulou — Ele chegou procurando por uma rosa branca, sabia o que estava querendo pedir.
— Como ele era? — Sara insistiu.
— Era alto, bem alto.
— Alto, por exemplo, como o sargento Grissom?
A senhora semicerrou os olhos e encarou o policial, que segurou a cara fechada e se levantou para ajudá-la com a informação visual.
— Sim, sim, era mais ou menos do tamanho dele. — respondeu e logo a detetive continuou anotando.
— Lembra das feições do rosto dele?
— Não confie 100% na mente de uma velha senhora. — Lisandra brincou enquanto estendia a mão para Sara e sua caderneta.
— Não se preocupe. — A morena sorriu — Quanto mais dados tivermos, melhor será para a nossa investigação.
— Ah, que bom. Bem, se me lembro direito ele tinha um rosto largo, um queixo daqueles... daqueles galãs, sabe, do cinema? Ele tinha um jeito meio galanteador.
Após ouvir aquilo David fez uma careta e a fitou como se achasse a definição um pouco exagerada.
— Pare com isso, David. Você sabe que eu não estou exagerando, ainda mais quando digo que o policial aqui é bonito.
— Você acha qualquer homem um pouco mais alto que eu bonito, Sandra.
Foi a vez de Grissom reagir, desta vez um pouco envergonhado. Tentou disfarçar pigarreando e olhando para o outro lado. Sara apenas sorriu e balançou a cabeça.
— Ele tinha um queixo mais ou menos quadrado, um nariz fino e longo e... cabelos escuros e um corte bem comum. Parecia não ser daqui.
— Por que diz isso? — A detetive persistiu.
— Quando se é daqui você não tem uma pele pálida como a dele.
Sara fez questão de anotar aquele detalhe. Cada informação seria importante.
— Lembra-se das roupas que ele vestia?
— Bem... — A expressão de Lisandra mudou. Era difícil para se lembrar com clareza de algo que aconteceu há menos de uma semana — Roupas escuras, também. Acho que calça jeans e jaqueta preta. Não reparei muito nisso.
— Ok. — Sara assentiu enquanto terminava de escrever — E você, senhorita Foster?
— O que?
— Se lembra de alguma característica do suspeito?
— Não muita, praticamente o mesmo que a minha mãe falou. Fui atender outra pessoa e por isso só o vi de relance.
A detetive observou suas feições por um tempo. Não escreveu desta vez.
— Acha que pode informar a mesma coisa que nos disse aos desenhistas da polícia?
— Por quê? Ainda vai precisar de algo mais? — Lisandra ficou surpresa com o pedido.
— Será melhor que a senhora conte isso a eles, já que podem te dar uma visão ampla de como o suspeito é. Eles têm meios para isso. — respondeu ela.
— Bem... acho que sim.
— Ótimo. Você e sua filha podem vir conosco até o departamento? — Sara perguntou.
Mãe e filha trocaram alguns olhares, e depois Lisandra encarou o marido, que pareceu não ser o maior favorável à ideia.
— Melhor vocês irem e ajudarem eles logo. Deixa que eu finalizo com as coisas aqui.
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Passadas das seis horas, o desenhista técnico havia terminado o retrato falado informado tanto por Lisandra Foster quanto pela filha, Susan. Grissom pedira a dois oficiais da patrulha que as levassem de volta para casa enquanto ele e Sara permaneceram para continuar com o trabalho.
— Então esse foi o cara...? — questionou-se Sara ao olhar pela imagem pronta. O desenho ainda seria digitalizado e iria passar por um processo de modelagem de rosto por um programa de computador.
— Já emiti um alerta e já pedi para levarem ao programa de reconhecimento. — falou Grissom ao se aproximar dela ainda na sala do técnico — Um descuido dele e nós o pegamos.
Ao baixar o papel em sua mão Sara olhou para ele desesperançosa. Os dois agradeceram ao técnico e deixaram a sala, rumo à do sargento.
— Esse programa pode levar dias para reconhecer o rosto. Se ele estiver nos dados e se for a pessoa correta. — Sara lamentou — Eu não me lembro de ter visto alguém assim no evento.
— Eram muitos rostos, podemos ter passado por ele sem tê-lo reparado.
— Ou talvez Brass esteja certo e esse homem não é Zodíaco. — disse ela antes de abrir a porta da sala de Grissom. Seu tom ainda era afiado, claro que não havia se esquecido da discussão anterior.
Ele não a seguiu quando entrou, ficou parado ainda tentando administrar aquela “aura” negativa em torno dela. Foram necessárias poucas horas para sua euforia se estagnar e se transformar em desânimo.
— Eu vou pra casa. — Ela comentou enquanto já arrumava suas coisas.
— Posso te levar.
— Não, vou pegar um táxi desta vez.
— Tem certeza?
— Tenho.
Em vez de reclamar ou insistir o sargento ficou calado, aproximando-se da mesa para arrumar seus pertences. Pelo visto não iria conseguir uma reconciliação no trabalho. Mais uma vez iriam terminar o dia quase em pé de guerra. Ele já estava mais hábil para uma trégua, uma paz, todavia Sara parecia estar longe disso.
— Ok.
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