Manhunters
5 Torta de Mirtilo
Notas iniciais
Sara adiou a parada para o almoço. Estava empolgada em seguir para a casa da mulher que encontrara no resultado da pesquisa do automóvel. Para não dizer que não comeu nada, devorou em poucos segundos uma barrinha energética e tomou (outra xícara de) café. Após isso, pediu autorização ao capitão Brass para ir até a casa da mulher dona do carro do qual Arthur se encontrava momentos antes de morrer. Depois disso procurou por Grissom, que, para seu alívio e raiva, não estava presente e nem ao menos deixou recado.
Junto do policial Robinson, foram numa viatura até a Cams Hill Ave, no Queensridge, bairro de vizinhança pacata, noroeste de Spring Valley. Sara bateu à porta:
— Francine Parker, Polícia de Las Vegas! — gritou a morena.
Não demorou muito para que a porta fosse aberta. Uma mulher que combinava com a foto dos dados atendeu. Seu rosto estava apreensivo. Vestia um moletom cinza e calças legue, provavelmente malhou ou estava prestes.
— Francine, não é? — Sara foi direto ao ponto.
— Sim. O que foi? Por que estão aqui? — Ela ergueu os braços.
— Gostaríamos que falasse sobre sua relação com Arthur Kyle, morto há dez meses.
A loira franziu a testa e cruzou os braços.
— Eu... não tenho nada a ver com isso. — disse rispidamente, negando repetidas vezes.
— Ah, tem sim. — A detetive sorriu assentindo para ela — Temos provas que Arthur estava em seu carro minutos antes de ir para o parque e ser assassinado.
Francine ficou em silêncio. Olhou para os lados ainda de braços cruzados. Estava inquieta, sem saber o que fazer ou falar.
— E-eu só vou falar na presença de um advogado. — retrucou sem fixar seu olhar aos oficiais.
— Por quê? Não estamos te acusando de nada, senhora Parker. — Sara não tirou o sorriso do rosto, e aproveitou para se aproximar mais um pouco — Só queremos conversar com você. Que tal a gente evitar essa burocracia toda de ter que chamar um advogado? Tenho certeza que podemos esclarecer tudo.
Francine soltou os braços, olhou para trás e soltou um suspiro.
— Podemos entrar? — A detetive perguntou, apontando para o interior da casa.
— Vamos conversar em outro lugar... — disfarçou.
— Oh, sim, temos a delegacia se você quiser. — Sara respondeu sarcasticamente, mas falando sério.
Dentro da casa uma pessoa se aproximou de Francine. Era um homem de mais ou menos 40 anos. Alto, porte meio magro e tinha cabelo grisalho. Também vestia roupas de ginástica assim como ela.
— O que foi, Fran? Está tudo bem? — Ele perguntou, tocando em seu ombro e saindo para fora.
— Nós, da polícia, queríamos conversar com Francine sobre um caso. — Sara tomou a palavra, o que deixou a mulher a sua frente um pouco desconcertada.
— Caso? — O homem olhou para ela.
— Nada de mais, Dom, é algo antigo, nada sério. — Francine disfarçou.
Que cara de pau!
Os dois se encaram, e a mulher loira tocou sua mão no rosto dele.
— Está bem, então. Eu preciso sair, se vocês, oficiais não se importarem.
— Pode ir, não se preocupe. — A detetive assentiu — Nossa conversa é apenas com ela. — Terminou sorrindo.
O homem deu um rápido beijo em Francine e saiu a pé.
— Bem, agora que Dom já foi embora, não vai nos convidar? — Sara fez um gesto com a mão.
Francine parecia remoer os dentes após ouvir a detetive. Queria que eles fossem embora o mais depressa possível, sendo que não podia expulsá-los e se o fizesse, estamparia em seu rosto um perfil suspeito.
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Grissom fez uma pausa para o almoço. Foi até o Rose’s, um restaurante de comida caseira a três quadras do departamento. Era seu lugar favorito e parada obrigatória. Ele pediu um Cheeseburguer reforçado, suco de laranja, e de sobremesa, um pedaço de torta de blueberry (mirtilo). Aquele era um dos poucos momentos onde conseguia relaxar um pouco e esfriar a cabeça. O Rose’s lhe trazia uma sensação familiar, calorosa e única a qual nem mesmo seu apartamento conseguia trazer; era como se fosse sua segunda casa.
Grissom conhecia muita daquela gente que pisava os pés no lugar: a própria Rose, uma mulher cinquentona, negra, de cabelos curtos de um sorriso encantador; Denny, o cozinheiro, um caucasiano gordo e calvo, bem falador; e Jin, o jovem de ascendência asiática que falava pouco, porém, bastante carismático. O lugar estava bem movimentado como sempre, graças ao principal chamariz: o toque caseiro que a comida de lá tinha. O pequeno restaurante conseguia bater de frente com os “grandes” de Las Vegas.
— E aí, garotão, trabalhando naquele caso? — Uma mulher de voz grossa aproximou e tocou em seu ombro direito. Grissom estava de costas, sentado no banco estilo sofá, clássico do restaurante. Só de ouvir a voz da mulher a reconheceu.
— Ei, Rose. — O sargento deu umas duas batidinhas em sua mão — Estou sim.
— Você tá sempre trabalhando, hein, Gil? Quando vou te ver de folga? — questionou após sentar-se frente a ele. Ela vestia uma saia longa rosa clara, camisa estilo polo da mesma cor com o nome do restaurante estampado e sapatos brancos confortáveis. Nunca deixava de usar o avental branco e o sorriso caloroso no rosto.
— Nem eu mesmo sei. — Ele respondeu com um sorriso de lado.
— Eu já vi essa cara antes. — Rose apontou para seu rosto — Nem mesmo a minha torta conseguiu tirar um sorriso do seu rosto. Tá quebrando a cabeça com esse crime, né.
— Sempre. — Grissom assentiu, olhando para sua sobremesa — ao menos conseguimos um molde do ferimento de mais uma vítima.
— Ah é? Que bom! — Disse animada.
— Pois é, mas o cara que ia tentar me ajudar a descobrir a arma do crime não pôde aparecer.
— Só por isso você está cabisbaixo, Gil? Vamos, bola pra frente, sei que você vai conseguir.
— Não, não. Não é por isso que estou assim... — O sargento olhou para o lado e não respondeu à pergunta. Balançou o garfo de sua mão e depois o arrastou pelo prato.
Rose observou o rosto meio abatido do homem e esperou por alguma reação. Pretendia dizer algo, só que o sininho da porta fez barulho e ela deixou passar. Era Catherine. Assim que a viu, Rose se levantou e foi ao seu encontro.
— Ora, ora, se não é Catherine Willows vindo me visitar depois de tanto tempo! — Rose lhe abraçou e a detetive retribuiu o gesto.
— Ah, Rose, sabe que eu nunca deixaria de vir aqui. O trabalho que não tem deixado! — Respondeu brincando.
— Sei. Mas então, o que veio fazer no meu humilde estabelecimento?
A loira cruzou os braços, lançando-lhe um sorriso malicioso.
— Você sabe muito bem. Vim levar um pedaço daquela sua torta celestial.
— Não vai ficar?
— Infelizmente, não. — balançou a cabeça tristemente.
— Tá bem. Vou ver se arranjo um pedaço grande pra você. — Ela se aproximou e disse-lhe ao pé do ouvido.
Rose foi para a cozinha. Catherine que virou-se para o lado, viu que Grissom estava sentado de costas para ela. Foi até ele, em seguida.
— Ei, Griss. — Ela acenou para o homem.
— Oi, Catherine. — Gilbert respondeu assentindo.
— Pelo visto as coisas não estão indo bem.
— Como sempre...
— Onde está Sara? Está com você?
— Não. — respondeu secamente.
— Ué, achei que estavam trabalhando juntos! — Ela apoiou suas mãos sobre a mesa e o encarou nos olhos.
— Sidle se faz presente em outra vertente do caso, Catherine. De alguma forma nós estamos, sim, trabalhando juntos.
Cath balançou a cabeça.
— Pare de jogar sua parceira de lado, Grissom.
Ele voltou seus olhos para ela. Agora mais sério que antes. Não respondeu.
— Chamaram a garota porque ela faz um bom trabalho. Ecklie não ia trazer qualquer um.
— Ah não? — questionou ironicamente — Ecklie “chamou” Sidle — Ele fez um gesto com os dedos das mãos — somente por conflito de interesses. — Deu de ombros — Mas de qualquer forma, iam acabar colocando alguém mesmo — O sargento comeu mais um pedaço da torta, como quem não ligasse para a situação — Seria mais fácil se pusessem você comigo, não?
Cath deu uns tapinhas na mão direita dele, antes que pegasse outro pedaço com o garfo.
— Você é chato demais como parceiro, meu amor. — sorriu sarcasticamente.
— Catherine! — chamou Rose na bancada.
— Bem, é a minha deixa. Até mais Griss. — A mulher acenou para ele — Vê se dá uma chance a ela. — Cath piscou para ele e o deixou.
Rose entregou o pedido dela dentro de uma caixinha de isopor envolto num saquinho plástico. Catherine pagou-a e depois se despediu. Grissom, que estava sentado, terminou rapidamente de comer a sobremesa e não esperou; seguiu até o balcão para pagar a conta.
— Já está de saída, Gil? — Rose questionou, ao aproximar-se do balconista, Jin.
— Sim. — Assentiu, pegando o dinheiro da carteira.
Ele entregou o dinheiro para Jin, e agindo por impulso, do nada, os questionou:
— Vocês acham que sou chato?
A mulher ergueu as sobrancelhas, num ar de riso.
— Você?! Chato?! Imagina! — Respondeu rindo sem parar.
Jin, o jovem de 26 anos, ouviu a conversa e não se conteve também; começou a rir. Ambos os homens se conheciam, por isso Grissom não ficou chateado. O sargento teve de aguentar calado a zombaria dos dois, que chegou a chamar a atenção dos que estavam em volta.
— Olha... você não é chato. É apenas incompreendido. — O rapaz deu de ombros, rindo ao final.
— Isso aí, incompreendido! — Rose confirmou, batendo nas costas de Jin, apoiando-o.
O sargento ergueu uma sobrancelha. Sabia que se continuasse ali ficaria em desvantagem.
— Eu vou embora enquanto ainda tenho alguma moral por aqui. Tchau para vocês dois. — acenou.
— Espera aí! — chamou Rose. Ela correu para a cozinha e voltou um minuto depois — Tome.
— O que é isso? — perguntou o sargento.
— Um pedaço de torta para a sua nova parceira. — Ela disse, segurando o pote de isopor.
Grissom ergueu as sobrancelhas.
— Cath me falou dela agora a pouco. — respondeu a mulher num tom risonho — Não se preocupe, por conta da casa.
O sargento encarou Rose e Jin por alguns segundos. Para não ficar mal, pegou a torta e se despediu dos dois. Em seguida, caminhou em direção à porta. Distraído, abriu a porta e não percebeu que um homem estava prestes a entrar. Os dois acabaram se esbarrando.
— Perdão. — falou o sargento, dando duas batidinhas no braço do desconhecido.
— Sem problema... amigo.
Grissom saiu do restaurante, entrou no carro e foi embora.
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