Manhunters
6 Talvez
Notas iniciais
— Diga-me, Francine, o que houve naquela noite de primeiro de janeiro...
Sara se sentou no sofá da sala de estar. O policial Robinson ficou fora da casa a pedido da detetive. Francine também se sentou, dessa vez no móvel frente a Sara. Era notável seu olhar de nervosismo e desconforto, como se desejasse que aquele tempo nunca voltasse à tona.
— Eu estava com Arthur apenas por diversão. Nunca desejei nada de ruim pra ele se pensa isso. — disse ainda num tom de defesa.
— Por que estacionaram na West Flamingo? — Questionou a detetive, mas no fundo já sabia a segunda resposta.
Francine demorou a responder. Olhou para os lados, fez gestos com a mão, e depois de uma longa luta, finalmente falou:
— A gente foi lá pra dar uma escapada, tá?! — falou na cara e na coragem.
— Mas por que logo ali? Havia algum motivo especial? — Insistiu a morena.
— Não! — aumentou a voz — Na verdade sei lá. Eu quis passar o tempo com ele dentro do Bellagio mesmo, mas ele não quis.
— Claro, não podia deixar que conhecidos do trabalho o vissem com outra mulher. — Sara comentou em voz baixa. Mas isso não impediu que Francine ouvisse e franzisse a testa, irritada.
— Desculpe-me?
— Oh, perdão, falei em voz alta. Mas não se preocupe, não estou julgando você. — Ela fez um gesto com a mão — Voltando ao assunto, por que vocês dois não foram para um motel? Não seria mais fácil?
— Ah... — A expressão da loira voltou ao normal — Não sei...! — disse um pouco nervosa — Eu queria, mas ele preferiu ficar no carro para fazer algo mais... rápido.
Nossa.
— Então tá, qual dos dois teve a ideia de ir para a West?
— Ele. — respondeu com clareza — Arthur achou melhor parar ali já que o lugar era bem movimentado, e que era caminho para sua casa.
— Viu ou notou algo estranho nele ou ao redor?
Ela demorou a responder, tentando se lembrar daquela noite.
—N-não. Assim que ele saiu, eu fui embora. Olha, eu juro por Deus que não tenho nada a ver com isso. Fiquei super chocada com o que houve. Até culpei a mim mesma por ter parado naquele parque.
— Então, já que se diz estar culpada, por que não se apresentou à polícia logo depois que soube de sua morte? Você não tinha nada a temer, não foi culpada.
— Eu fiquei com medo! — Deu de ombros — Além disso, eu não queria me meter nessa coisa aí. Ele era casado e... isso não ia pegar bem.
— Só que isso acabou pesando para seu lado. Poderia ter evitado nossa visita aqui, senhorita Francine.
— Eu não sabia! — Ela se levantou — Já disse que fiquei com medo!
— Medo de se envolver nisso porque sabia que ia se complicar com seu marido na época?
— O quê? — A loira franziu a testa. Se antes não estava gostando da presença de Sara ali, agora estava mais incomodada ainda.
— Como disse antes, não estou julgando você.
— Olha só. — Francine se levantou — Se não tiverem mais nada a dizer ou acusar, melhor vocês irem embora.
Sara fechou a cara. Sabia que não tinha absolutamente nada contra a mulher à sua frente. No decorrer de sua conversa pôde perceber que a única culpa que aparentava era de ter se envolvido com outro homem, mesmo que não admitisse.
Sem ter nada conclusivo nos vídeos de segurança do caso Arthur, a detetive viu-se num beco sem saída. Grissom com certeza jogaria o “fracasso” em sua cara. Se tinha uma coisa que a detetive odiava era ouvir alguém afrontá-la sem ter a oportunidade de se defender ou retrucar.
— Está bem, Francine. Obrigada por nos receber. — disse com um sorriso forçado.
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Droga. Tanto trabalho pra conseguir alguma coisa nesse caso. Tudo para começar com o pé esquerdo!
Sara ficou 'p' da vida. Ainda faltavam mais nove vítimas. Ela tinha esperança que conseguisse algo com a primeira. Sem câmeras no local, sem testemunhas oculares no momento do crime, sem evidências físicas e concretas... o homicídio de Arthur seria o primeiro na qual Sara descartaria encontrar pistas.
Odiava com todas as suas forças ter que admitir que Grissom estava certo.
Seu aparelho celular começou a vibrar no bolso de sua calça.
Ótimo, deve ser o Daniel...
Ela olhou para a tela do objeto e ergueu as sobrancelhas:
— Hank? — questionou surpresa, mas em voz baixa — Espera aí. —Em seguida afastou o celular para falar rapidamente com o oficial que estava por perto: — Um momentinho, que já estarei pronta. — Sara fez um gesto com a mão e o policial assentiu, depois ela caminhou alguns passos para longe.
— Ei, Sara, tudo bem? Queria saber como você está aí. — Disse o homem ao telefone, aparentemente — Curtindo muito Las Vegas?
As palavras de Hank arrancaram um sorriso na mulher, mas que logo desapareceu. Ao mesmo tempo em que gostou da ligação, não sentiu o que gostaria de sentir por completo. Sara o queria por perto e, ao mesmo tempo, estava satisfeita com a distância.
— Estou bem... Trabalhando bastante nessas primeiras horas aqui na polícia... Nada com que não consiga lidar. Mas e você? — Perguntou disfarçando — Pelo visto aproveitou uma pausa aí pra falar comigo.
— Pois é, linda... Sabe como é...
Um breve silêncio tomou conta da linha. Sara virou-se para a viatura e para o oficial que esperava por ela no lado de fora.
— Por incrível que pareça sou eu quem terá de desligar agora. Obrigada por ligar, Hank, estava com saudade.
— Vai lá. Você tem um bandido para chutar o traseiro. — Ele brincou, arrancando outro sorriso da morena.
Sara finalizou a chamada e guardou o celular. Caminhou até o veículo da polícia, e entrou nele junto com o oficial. Ela percorreu o caminho em silêncio, pensando no que ia fazer em seguida. Continuar resistindo ao sargento e tentar seus próprios caminhos era uma boa ideia? Talvez precisasse da ajuda do Grissom, mesmo. Talvez.
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Grissom era o tipo de homem que, quando colocava algo em sua cabeça, dificilmente (alguém) conseguia tirar. Nos últimos meses o detetive veio se dedicando exclusivamente no caso Zodíaco. Muitas vezes deixava de dormir e ficava por horas tentando encaixar as peças de um crime e um criminoso que pareciam ser perfeitos. Aos poucos estava a sucumbir pelo inimigo invisível, e se continuasse no mesmo ritmo logo não aguentaria mais.
Talvez poderia aceitar o auxílio de Sidle, afinal era sua “parceira”. Só que finalmente teria de admitir que precisava de ajuda, e Grissom também era do tipo orgulhoso. Até demais. Teria que admitir, também, o seu erro e concordar com o fato de que nem tudo conseguia resolver sozinho. Mas aquele jeito rebelde e insistente dela o fazia recuar. Ela surgiu como uma tempestade repentina que balançou o seu pequeno barco.
Enquanto pensava no que fazer, Grissom dirigiu até uma loja bem ao sudoeste de Las Vegas, quase na divisa da cidade. Ele recebera antes um email de seu colega especialista em armas brancas que recomendou uma loja de um colega que também entendia do assunto. Além disso, deu também a sua opinião sobre as fotos que recebeu do molde do ferimento:
‘Olha só Griss, não posso te dar muita informação nessas condições já que não temos muita certeza sobre a real aparência da arma. Posso te dizer que, possivelmente, a arma usada não é do tipo comum. Talvez seja um modelo especial, antiga, quem sabe. Veja o endereço da loja de um amigo meu. Ele pode te ajudar com isso.’
O calor estava infernal. Grissom fez questão de deixar o ar condicionado ligado enquanto dirigia somente para o pedaço de torta de mirtilo não estragar. Assim que desligou o carro ele se virou para o pequeno pote que estava no banco do carona. Pensou em Sara por breves instantes. Tirou o terno o deixou no carro para não sofrer com a alta temperatura. A arma no coldre ficou exposta junto de seu distintivo, pendurado no pescoço.
Carregando consigo uma pasta com os moldes, ele entrou na loja que tinha vitrine, porém nenhuma arma real à mostra por motivos óbvios. Estava vazia. Iluminação modesta, dando destaque às armas brancas: espadas, adagas, lanças e todo tipo de objeto cortante e letal que se podia imaginar, de várias eras e lugares. Todas protegidas por vidros blindados.
— Boa tarde, senhor, o que gostaria? — falou o homem atrás da bancada. Aparentava ter uns trinta e poucos anos. Calvo, branco de rosto largo, Tinha um semblante amigável.
— Sargento Grissom, polícia de Las Vegas. — Mostrou o distintivo — Robert, é? Vim aqui porque Anthony me recomendou.
— Hum... Ah, sim, sim, senhor Grissom! Tony me ligou para falar sobre esses moldes.
Grissom se aproximou da bancada abriu a pasta contendo os moldes, embalados em saquinhos rotulados como evidência. Ele explicou em breves palavras a situação em que se encontrava, e depois entregou as peças para o lojista que pegou uma lente embaixo do galpão e analisou-as minuciosamente. Com delicadeza, observou cada detalhe do molde; afastou e aproximou a lente para que não perdesse nada. Ele precisou de longos minutos para garantir uma resposta concreta.
— Foram apunhaladas limpas, quase sem nenhuma irregularidade. A pessoa sabe manusear a arma do crime. Com certeza os ferimentos vieram da mesma arma. Pelo visto Tony estava certo. Não se vê modelos como esse com tanta frequência... Um momento, sim?
Ele se afastou. Deixou o molde no balcão e seguiu para a parte de trás de sua loja. Dois minutos seguintes, Robert retornou com um livro/catálogo em mãos. Folheou-o rapidamente virou-se então para o detetive à sua frente, que tentava acompanhar seus movimentos.
— Então? — questionou Grissom, fazendo um gesto com a mão.
— Então, senhor Grissom... — O lojista respondeu num tom não muito agradável ou como Gilbert gostaria — o que posso dizer é que arma que o senhor procura pode ser um punhal. — Robert apontou os detalhes do molde para o detetive — Largura de mais ou menos dois centímetros e meio a três, comprimento de nove centímetros... Há variações no comprimento, provavelmente pelo uso da força do usuário. Ao menos, a partir desse molde, retiramos a possibilidade de ser qualquer outro objeto cortante.
— Bom.
Já era um começo. Depois de tanto tempo procurando por alguma pista sobre a arma do crime, tinha agora uma luz. É possível conhecer alguém pela arma que carregava. Pistola, revólver, espada... punhal.
— Punhal, é? — questionou o detetive — E de que tipo você está falando?
— Aí já é meio difícil te dizer. Seria necessário um estudo melhor dos ferimentos. Se o senhor quiser deixar os moldes comigo-
— Não, obrigado, já tive o que preciso. — interrompeu-o, pronto a guardar as peças — A Polícia de Las Vegas agradece sua ajuda — Ao guardar todos, estendeu sua mão para cumprimentá-lo.
— Oh, sim! Eu que agradeço por estar servindo de ajuda à polícia! — Robert retribuiu o gesto e envolveu sua outra mão no aperto.
Antes de sair, Grissom retornou.
— Você vende ou vendeu uma arma desse tipo aqui?
— Não, senhor. — o vendedor balançou a cabeça — Como disse antes, é um modelo diferente, pode ter sido encomendado, até.
Grissom desviou o olhar por alguns segundos.
— Preciso do registro das vendas de punhais, adagas e facas dos últimos quinze meses. — disse o sargento, mais num tom de ordenança.
— Mas eu disse que ninguém comprou uma arma desse tipo! — Robert disse em defesa.
— Você disse que estava agradecido por ajudar a polícia. Por que não nos ajuda mais uma vez? Ou quer que eu volte aqui com um mandado? — retrucou Grissom, dessa vez mais sério.
O vendedor engoliu seco. Coçou a nuca e sem muita demora, cedeu ao “pedido” do sargento.
— Um momento, por favor...
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Grissom entrou no carro e deixou a pasta com os moldes e os registros de vendas no banco do carona, ao lado da torta. Ajeitou-se e se preparava para pôr o cinto de segurança, quando parou. Afrouxou a gravata que o torturava incessantemente, depois se olhou pelo espelho retrovisor. Ligou o carro e o ar condicionado novamente.
A tarde mal começara e o detetive já se mostrava abatido. A pressão era interna e externa; todos à sua volta implicitamente cobravam solução para o caso, e sua mente o exigia em dobro. E mesmo com a vinda de Sidle a situação não se mostrava pendente para ser resolvida. Era mais uma responsabilidade e a última coisa que ele desejava no momento.
Gilbert esfregou os olhos e respirou fundo. Talvez precisasse mesmo de ajuda. Talvez não conseguisse fazer tudo sozinho como achava. Ele virou-se para o banco do carona, onde estava o pacote com o pedaço da torta de mirtilo.
Talvez ela fosse sua última chance.
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