Manhunters
19 "Sem você"
Notas iniciais
Impiedosa a tempestade no deserto. De uma hora para outra ela veio e surpreendeu a todos. Não estavam preparados para o que ocorreu. Ela passou e deixou estragos irreversíveis.
— O QUÊ?! QUE DIABOS ACONTECEU, SIDLE?!
A voz do capitão falando pelo telefone era como o som da onda prestes a quebrar no mar. Por alguns segundos a detetive estremeceu e ficou sem reação. Suas palavras anteriores foram ditas com toda a cautela possível, com medo que sua voz se alterasse: Capitão... houve um assalto... Grissom foi atingido.
Sara explicou em detalhes os momentos que passou dentro da loja e o que o policial McCarty contou a ela. Cada palavra dita era como enfrentar uma luta interna.
— Ele foi levado para o hospital William Bee em Ely. Estou na cena do crime esperando pelos peritos e o legista.
— E por que não foi com ele?! — questionou alterado — Você é parceira dele, Sidle!
Ouvir aquilo foi pior que banho de água fria pela manhã. Por mais que o sargento e a detetive tivessem as suas divergências e discussões, todavia, ele era seu parceiro. Mais que simples moral, era o dever de um policial zelar pela vida do outro. "Servir e Proteger".
— Eu sei, capitão, mas-
— Mas nada! — esbravejou interrompendo-a — Quando isso tudo acabar vocês voltam pra Las Vegas! — falou autoritário — Vocês dois não estão em condição de continuar com isso. Não basta a poeira que vão levantar após a morte de um menor de idade, se ficarem nessa caçada frenética será muito pior.
Seus planos foram frustrados antes de chegarem perto de algo.
O que ele vai fazer? Vai nos tirar do caso?!
— Capitão Brass, escute. Nós estamos perto de-
— Sidle. Eu já disse. Vocês voltam.
O capitão foi definitivo. Nada que ela disse no momento o faria mudar de ideia. Estava num beco sem saída.
Sua língua coçou. Queria revidar, retrucar e defender sua posição. Poderiam estar tão próximos de alcançar alguma coisa depois de tanto tempo, mas parecia que o cruel destino os empurrava para o começo da linha. Sabe se lá quando poderiam retornar para aquela investigação.
— Sim, capitão. — respondeu automaticamente, pressionando o celular sobre a sua mão.
— Assim que terminarem aí, vá para o hospital. Ligue para falar qualquer novidade importante sobre Grissom. — falou o capitão, desligando em seguida.
Merda! Reclamou, guardando o celular.
Uma brisa vinda do norte passou por aqueles cantos, tocando o rosto e os cabelos da detetive. Ela observou o local à sua volta; o relógio batia na casa das onze e nove da manhã e o calor não dava trégua. Secou o suor de sua testa e olhou diretamente no ponto donde o sargento fora atingido; sentiu-se extremamente incomodada ao notar a poça de sangue no chão. Mais para o lado notou a lona cinza cobrindo o corpo do jovem. Por tantas vezes já viu cenas como aquela, só que dessa vez, mostrava-se diferente; como se nada daquilo fosse verdade, um sonho, no qual estaria prestes a acordar.
Mas era tudo verdade. Grissom foi atingido. Por quê? Ele era um excelente policial, fora um soldado e já serviu algumas vezes quando jovem. Sem contar que passou por um rígido treinamento físico e mental ao longo dos anos. Acidentes como aquele poderiam ocorrer a qualquer um, só que aquele era incomum, até demais. Para ela, havia algo errado.
A 9mm de Grissom, ainda presente no chão, chamou a atenção de Sara. Os policiais decidiram deixá-la onde estava para não atrapalhar em nada o trabalho dos peritos. Os policiais McCarty e Souza estavam dentro da loja, conversando com o balconista. A mulher aproveitou que estava sozinha, observou a porta e a janela do estabelecimento e se deslocou até o local da arma. Com cuidado agachou-se para observar a pistola. Segundos depois mudou de expressão, baixou a cabeça e fechou os olhos. Soltou um longo suspiro.
Passado algum tempo, ela voltou para perto da loja e por ali ficou.
O silêncio era perturbador. Não era o silêncio comum, ausência de som. Era diferente, não dava para se explicar. Faltava a voz, a conversa, o respirar. Não havia nada.
Ela estava sentada. Encostou-se à parede da loja; de cabeça erguida e olhos fechados, tentava entender e explicar a si mesma o que aconteceu há pouco tempo. Não esboçava reação, encontrava-se estática. Devia tê-lo acompanhado? Aquela pergunta assombrava-a sem parar, desde o momento em que se recusou a entrar na ambulância com o sargento. Agora estava às escuras, sem saber o estado dele.
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— Não estou interessada, obrigada.
— Que bom! Mas não estou te dando opção.
— O quê?!
Voltando no tempo, oito anos atrás. Havia uma jovem mulher, morena de olhos castanhos escuros e cabelos da mesma cor, longos e ondulados, um pouco abaixo da nuca. O que chamava a atenção dos outros não era a diastema de seus dentes, mas sim o olhar profundo. Aqueles olhos carregavam um brilho singular; ninguém que percebia isso tinha coragem de perguntá-la. A jovem mulher era quieta, mas tinha um temperamento forte. Pessoa de poucos amigos, ou melhor, pouquíssimos amigos. Na verdade, quase nenhum.
— Ah, DB, você sabe que eu perdi a vontade...
— Não sei qual o motivo. Você estava tão animada antes!
Flor da idade. A jovem que se formara na academia da polícia de São Francisco, conseguiu, em pouco tempo, sua patente de detetive. Ficou mais que satisfeita, eufórica. Pegou poucos casos, sempre acompanhada de um detetive mais experiente, vindo a observar seus passos e aprender cada detalhe que achava importante. Soube outrora da Conferência Nacional de Policiais da Costa Oeste que aconteceria em São Francisco, sua cidade atual. Interessou-se em participar, porém, chegado dia próximo, a jovem detetive estava a um passo de desistir.
— Você é jovem, ainda tem muito a aprender. Sabe muito bem.
— Mesmo assim, eu-
— Deixe disso! Vamos, vai ser divertido.
— Eu nem ao menos tenho escolha?
— Não.
Cinco dias de conferência. A jovem detetive, visto que não tinha outra alternativa, resolveu participar daquele evento. Se fosse ao menos em um dia poderia deixar o chefe satisfeito; dois dias, no máximo. Torceu para que as horas passassem rapidamente.
Primeiro dia. Auditório lotado causado pelo entusiasmo e ânimo dos espectadores, quase todos oficiais da polícia. Ela estava lá; sentou-se na quarta fileira, mais para o meio já que os lugares nos fundos estavam ocupados. Ficou logo na visão dos palestrantes.
Ótimo...
Primeira hora, apresentação, fala (meio) entediante do preletor, um tenente que veio do Arizona. Depois veio mais um cara, capitão duma delegacia em Utah; mais caricato que o primeiro. Angustiada, a jovem detetive gritava internamente para que as palestras terminassem logo. Mal conseguia manter seu olhar fixo nos palestrantes.
Então foi a vez de um certo detetive de Nevada, da polícia de Las Vegas. Muitos já nem prestavam atenção. Alguns chegaram, disfarçadamente, a sair do auditório. Mas o promissor caçador de homens ganhou a atenção da jovem detetive. Não foi pelo jeito meio desconcertado e nervoso que se apresentava ou pelo conjunto social que vestia; terno preto (paletó e calça) e um colete azul com gravata vermelha. Havia algo nele, diferente dos demais. Tanto, que prestou atenção em cada palavra dita pelo detetive de Las Vegas.
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A perícia chegou e fez o que tinha de fazer. Veio também outra viatura da polícia — um modelo e identificação diferentes da viatura estadual — e o investigador desta. O cara era do tipo autoritário: branco, cabelos castanhos curtos, rosto quadrado, olhos pretos e olhar mortal. Vestia roupas características da polícia local, botas pretas, chapéu marrom; detalhe para a estrela reluzente em sua camisa. Fixou-se logo em Sara, que aguardava a chegada deles sentada próxima à porta da loja. Cauteloso, atentou para cada detalhe da cena do crime. Ficou em silêncio por três minutos enquanto examinava sem tocar aquele espaço, notando também o lugar ao seu redor. Depois se encaminhou de encontrar a detetive.
— Boa tarde. Sou o xerife Jonah Wright, da polícia de Baker. — disse ele, encarando-a, enquanto ela permanecia sentada.
Sara não percebeu que ele vinha em sua direção, pois estava distraída demais. Assim que notou a presença dele, mais próxima, ela olhou para cima.
Que visita mais indesejada...
O homem, que aparentava ter uns cinquenta e poucos anos, estendeu sua mão direita na esperança da reciprocidade. Sara fez uma cara de quem não estava a fim, mas como viu que não tinha escolha estendeu sua mão e cumprimentou o xerife, vindo a se apoiar nele para se levantar.
— Detetive Sara Sidle. Venho trabalhando para a polícia de Las Vegas com o sargento Grissom.
Wright olhou para o distintivo de Sara, preso do lado esquerdo de seu cinto.
— Você não é daqui, não é mesmo? Posso ver pelo seu distintivo. — Ele apontou.
— É, não sou. — respondeu, contendo-se para não sair sarcástica — Vim da Califórnia para auxiliar o sargento Grissom numa investigação. — Ela cruzou os braços — Mas vamos tentar nos concentrar o que é mais importante, certo?
O xerife ergueu uma sobrancelha.
— Certo, vamos acabar logo com isso. — Jonah assentiu.
— Vai chamar um oficial para pegar o meu depoimento? — Sara deu de ombros, visto que não percebeu qualquer atitude sequer.
— Não, senhorita. Eu mesmo irei fazê-lo. Esse é um caso sério, principalmente porque estamos falando da morte de um jovem e de outro que está no hospital, baleado.
— Não querendo desmerecer a morte de um deles, mas não fomos nós que tentamos assaltar o posto. — Ela retrucou ligeiramente irritada — Quando se carrega uma arma na cintura, deve-se ter a consciência que pode morrer por ela. E falando nisso, — A detetive pegou o revólver do assaltante preso à cintura e entregou para o xerife.
— Sei disso, detetive. — Ele ergueu a arma na altura do rosto — E também sei que logo, logo, a imprensa vai dar um jeito de saber dessa história e vão cair em cima. Como você disse antes, vamos acabar logo com isso para que a mãe daquele garoto possa enterrá-lo com alguma dignidade.
Então ele conhece os familiares. Ótimo.
— Concordo. Vamos acabar logo com isto para que eu possa visitar meu parceiro que acabou de ser baleado. — falou ironicamente, cruzando seus braços e olhando para o lado.
— Bem... conte-me o que você, seu parceiro e os dois policiais vieram fazer aqui.
Sara não estava nem um pouco a fim de falar com ele. Jonah era uma autoridade, e como qualquer uma precisava mostrar respeito. Só que por puro comentário pessoal, ela não "ia muito com a cara dele". Talvez porque enfrentava certos "problemas" ou divergências com autoridades. Ainda assim, ela sabia que não iria sair dali sem contar o que houve, e de preferência a verdade para não se complicar depois.
— Chegamos aqui para abastecer o carro. No momento apenas três carros se encontravam presentes. O nosso, o da viatura policial e aquele lá. — falou apontando para o Celta prata, possivelmente, o carro dos assaltantes — Enquanto o sargento Grissom encha o tanque, eu segui em direção à loja para comprar alguma coisa. — Ela fez um gesto com as mãos, cruzando-os — Não vimos ninguém, sequer ouvimos algo estranho, se não, nada aquilo teria acontecido.
— Continue. — Ele disse, enquanto anotava tudo o que achava relevante.
— Eu entrei na loja e... — A mulher olhou para o estabelecimento — Vi um garoto e o balconista. Assim que me viu, eu notei a arma na mão e pulei para o lado. Foi quando ele atirou...
Aquele babaca ouviu o tiro e tentou me ajudar...
— E? — O xerife questionou.
— O garoto foi atrás de mim e tentou me matar. Por isso atirei nele. Duas vezes, mas só uma bala o atingiu.
— Sua arma, por favor. — Ele fez um gesto com a mão.
Era um procedimento padrão. Sara pegou sua 9mm do coldre e entregou a ele, que verificou o pente de quinze balas. Logo notou que haviam 12 balas no pente, contando com mais uma na câmara. Entregou a arma em seguida.
— Terminou? — Wright perguntou não muito satisfeito.
— Primeiramente, não era intenção nossa em vir aqui. O carro do sargento Grissom precisou ser abastecido e esse posto era caminho.
— Caminho para onde? — O xerife ergueu uma sobrancelha, perguntando meio autoritário.
— Para Baker.
Jonah deixou de escrever no caderninho para encará-la.
— Os nossos caminhos se cruzaram, não é mesmo? E o que fariam lá?
A morena olhou para o lado e soltou um suspiro, revelando a pequena irritabilidade presente.
— Queríamos entrar em contato com Franklin Lewis, ex funcionário do Parque da Grande Bacia. Estamos numa investigação de assassinato e ele pode estar envolvido nisso.
— Lewis é? — perguntou o homem, levando a mão ao queixo, sua voz estava mais séria que o normal.
— Ele mesmo.
— Então vocês encontram um problema.
Sara franziu a testa. Estava pronta para retrucar em boa e alta voz.
— Como assim temos um problema, xerife?!
— Bom Deus... — Ele pressionou a mão esquerda sobre a testa — É um caso complicado, senhorita. Vai precisar ir à delegacia comigo.
— O quê? Não! Eu preciso... — A mulher hesitou — eu tenho de ver o meu parceiro e saber como ele está.
Sara odiava ficar às escuras, queria muito saber o estado dele. Quando o viu pela última vez sabia que a situação era séria, não aquelas em que depois de algumas horas, após uns remendos aqui e ali tudo estaria resolvido. Ela já viu muitos casos como daquele, e em quase metade os envolvidos iam parar numa funerária.
— Ele foi baleado duas vezes, certo? O sargento deve passar por uma transfusão de sangue e tudo mais. Vai levar um tempo até vê-lo novamente. — Wright respondeu quase automaticamente.
Inconscientemente, Sara cerrou o punho direito, irritando-se com aquela resposta. Ela queria muito recusar aquele pedido (quase ordem). Psicologicamente não estava bem. Chegou a se arrepender em não ter acompanhado o parceiro até o hospital. Com quem falariam caso algo acontecesse...
Sara, foco!
— Certo, eu vou. Mas preciso que o senhor me ajude com o meu caso. Não posso voltar de mãos vazias, logo mais agora.
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Como ela e Grissom planejaram, o caminho para Baker estava sendo traçado... só que sem ele.
Os peritos terminaram a análise preliminar do local do crime. O investigador, xerife Wright, terminou também de colher os depoimentos dos presentes. Visto isso, o próximo passo era seguir para a pequena cidade não muito distante dali. Sara aceitou o pedido para tentar seguir com o plano. O xerife solicitou-a que fosse na viatura policial, mas ela não quis; preferiu usar o veículo do sargento.
A detetive se aproximou do carro e, antes de pegar a chave em seu bolso, olhou para as suas mãos; ainda havia um vestígio do sangue dele em sua pele. Por alguns segundos a mulher observou as suas mãos e não demorou para que ficasse extremamente incomodada e ansiosa. Precisava limpá-las novamente o mais rápido possível e se livrar daquelas manchas vermelhas. O xerife já estava pronto e logo partiria. Então correu para perto da loja e encontrou uma torneira de onde havia se limpado anteriormente. Ela girou a torneira e deixou a água corrente molhar suas mãos, depois esfregou-as com rapidez.
— Vamos, vamos, vamos... — disse baixo. Não parou até que se percebesse livre daquela cor.
Sara balançou os braços repetidas vezes ao ar para se secar. Depois voltou ao carro, olhou pela última vez aquela cena e entrou no veículo. Quando entrou e fechou a porta uma onda de ansiedade tomou conta de si. Ela tocou o volante com as duas mãos e cerrou os punhos fortemente.
— Por que, Grissom... — Lamentou, balançando a cabeça. — Olha só o que aconteceu... agora terei de continuar sem você.
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Baker, Condado de White Pine, Nevada. 11h57min.
O som do silêncio era quase hegemônico na cidadezinha. Apenas os sons dos motores e das rodas passando pelas estradas tocadas pela areia do deserto eram percebidas. Parecia uma cidade fantasma; pouquíssima presença de pessoas. Por todos os lados era notável a vasta imensidão da paisagem desértica e dos montes quilômetros ao longe. Baker era conhecida pelo turismo, muitos se aventuravam naqueles cantos, pois a cidade ficava no caminho para o Parque da Grande Bacia e das Cavernas Lehman. A pequena cidade era mais um ponto de passagem que opção de moradia.
A delegacia era pequena. Seu aspecto visual era típico das pequenas construções de pequenas cidades. Quem passava próximo do local olhava curiosamente pelas viaturas e o utilitário preto que se aproximavam da delegacia.
Os policiais, inclusive Sara, entraram no edifício. Próxima do xerife, que conversava com alguns oficiais, ela esperou por dois minutos na área principal. Após isso, Wright chamou-a fazendo um gesto com a mão e os dois se encaminharam para a sala do xerife. Satisfeita após a pequena demora, Sara entrou logo em seguida; Wright fechou a porta e caminhou até sua mesa.
— Bem, aqui estamos. — disse ela, erguendo os braços.
— Sente-se, por favor. — O xerife estendeu sua mão à cadeira próxima, e a detetive acatou ao seu pedido.
Após se sentar, Sara observou o pequeno espaço. As paredes tinham um tom amadeirado; alguns quadros de outros oficiais e do presidente dos Estados Unidos. Uma estante com alguns itens pessoais e livros e um arquivador. Na mesa, uma plaquinha com o nome do xerife, uma luminária simples, um retrato no qual somente Wright poderia ver, e um computador branco, parecendo ser um modelo antigo de dez anos atrás.
— Podemos começar. Conte-me sobre esse caso, desde o começo, se possível. — falou ele, sentando-se em sua cadeira e retirando seu chapéu.
Segundos após ser solicitada, a detetive soltou um suspiro e olhou para cima:
— Tá bom. Eu e o sargento Grissom estamos investigando o assassinato de Vanessa Temple. Mulher que foi apunhalada e morta no Lehman Creek há nove meses. A morte dela ocorreu justamente no turno de quatro guardas: Samuel Davis, Pedro Hernández, George Philip e, claro, Franklin Lewis. Nós já interrogamos os três e só faltava este. Mas, como o senhor percebeu, aconteceu isto... — Ela deu de ombros — O que aconteceu foi um acidente, se posso dizer.
— É, foi mesmo. Um jovem morrer naquelas condições foi um infortúnio.
Sara não gostou nenhum pouco do tom que ele usara.
— Foi ele quem atirou no meu parceiro, que está no hospital sabe-se lá como! — Ela apontou para trás de si.
— Eu não acho que um jovem daquele ofereceria tanta ameaça para ser alvejado, senhorita.
Ela mal chegou perto do corpo do rapaz morto, soube apenas que não foram poucos tiros já que os ouviu de dentro da loja.
— É, pode ser. Pelo visto conhecia-o bem para me dizer isso. — Sara retrucou, explicitando o tom crítico.
Wright moveu-se um pouco para o lado com a cadeira giratória. Seus olhos se dirigiam ao nada; aquela feição mais bruta de antes, de repente, sumiu.
— É... eu o conhecia bem... e a família. — Sua voz era melancólica.
Sara baixou o olhar.
— Infelizmente aconteceu, xerife Wright. — Ela disse, tentando pôr um fim na história.
Ele se voltou a ela, percebendo que não queria mais tocar no assunto.
— Isso ainda não acabou. — comentou assentido — Mas vamos ao que interessa a nós dois: Lewis.
— Certo. — A detetive concordou — Ele ainda mora aqui?
— O último registro dele constava que residia aqui, em Baker. Mas... uns tempos atrás, a esposa deu queixa nele por não ter pago a pensão do filho recém-nascido. — O xerife explicou, enquanto usava o computador.
— E o que aconteceu? Ele está foragido?
— Não exatamente. Lewis tem trabalhado fora da cidade e retornado nos finais de semana. Como ele e a esposa, Janie, estão num processo de divórcio, não houve problema com isso. E ele tem pago a pensão, já que a última queixa dela foi há cinco meses.
— Eu preciso falar com ele, xerife. Onde está trabalhando?
— Elko... se me lembro bem.
— Elko?! — A mulher ergueu as sobrancelhas. A cidade ficava 386 quilômetros a noroeste de Baker, no condado que tinha o mesmo nome, Elko, no qual a cidade era a sede. Seria um longo caminho a percorrer naquelas condições, que se apresentavam desfavoráveis para ela — Não tem como eu ir até lá sem nenhum amparo. Me deixe falar com Janie, então, já que estou aqui. Ela pode ser o melhor caminho para chegar até Lewis.
— Olhe, senhorita... não sei se posso deixar você circulando por aqui. Se esqueceu do que acaba de acontecer?! Você está envolvida num tiroteio.
— Eu sei disso! Mas o tempo está acabando! — Ela disse num tom mais ansioso — As pessoas ainda não sabem do que aconteceu. A não ser que você ou alguém do seu pessoal tenha avisado para os moradores. — Sara cruzou os braços, sorrindo sarcasticamente — Do jeito que as notícias correm rápido, é capaz de estarem pegando em forquilhas e tochas prontos para me atacar porque atirei no rapaz em legítima defesa.
— Isso é complicado, senhorita Sidle.
— Não acredito que me trouxe aqui para me dizer que isso é complicado. — Ela deu de ombros — Se o senhor não vai me ajudar, então o que estou fazendo aqui?!
— Eu pedi que viesse junto porque essa história está mal contada. — respondeu seriamente.
— Ah, faça-me o favor. — A detetive revirou os olhos. Esqueceu-se, até, que estava falando com uma autoridade.
— O que foi que disse?
— Olha, — Ela levou a mão ao rosto, e a outra, estendeu ao xerife a mão num gesto de desculpas, mesmo não querendo — O tempo está acabando, xerife. Quer que eu conte toda a história? Então tá. — completou, já sem paciência — Estamos trabalhando num caso de um serial killer que já fez dez vítimas em dez meses pelo estado de Nevada.
O xerife, surpreendido, ergueu as sobrancelhas.
A mulher pegou sua bolsa no chão, no seu lado esquerdo, procurando incessantemente alguns arquivos para mostrá-lo.
— Esse caso está sendo mantido em total segredo para não causar um alvoroço em todo o estado.
— Mas... isso é um absurdo! — Wright ergueu os braços — Não dá para ficar calado com uma situação grave como essa!
— Xerife, entenda! — Sara insistiu, lembrando-se de repente das discussões anteriores com Grissom, que relutava da mesma forma — Como bons policiais que somos, nosso dever principal é servir e proteger. Não ficar falando pra todo mundo que temos um assassino à solta para causar pânico em massa e caos!
Os dois se encararam. Sara parecia convicta de sua opinião; e estava mesmo.
— Lewis está nessa encruzilhada toda. Olhe só. — A detetive entregou uma pasta fina com as fotos das filmagens no dia do crime. Intrigado, o xerife pegou seus óculos no bolso da camisa e analisou as imagens — Ele e os outros guardas patrulhavam o parque naquele turno. Como pode notar, a câmera foi movida para que o assassino não pudesse ser identificado. Devido às circunstâncias, concluímos que aquilo foi um trabalho interno. Nós precisamos, urgentemente, falar com ele. Se ele estiver envolvido nisso e souber, de alguma forma, qualquer detalhe sobre a investigação, com certeza vai dar um jeito de escapar.
O homem coçou a nuca por alguns segundos, e depois entregou os arquivos para ela com o mesmo rosto indiferente.
— Isso é grave, detetive, muito grave. — O xerife apontou a mão para ela, sacudindo-a.
— Pelo visto minha tentativa de convencê-lo falhou, não é?
— Veja bem, — Jonah se levantou da cadeira e seguiu para o arquivador. Sara o seguiu com o olhar. Por algum tempo, o xerife procurou por algo guardada no meio de tantos arquivos — isso aqui... — Ele hesitou por um momento — olha, senhorita, eu não devia nem pensar em fazer o que estou fazendo agora. — terminou retirando uma pasta e fechando a gaveta.
Acho que não foi de tão ruim assim...
— Lewis não é um peixe grande para vocês de Vegas. — O xerife entregou a pasta para Sara, que logo a abriu e começou a olhar os documentos — Ele está sendo observado pela Receita.
— Receita é? — A mulher ergueu uma sobrancelha, abrindo um breve sorriso — Deixa eu adivinhar: sonegação.
— Janie Lewis não estava brincando quando o ameaçou. Ela alegou que o "marido" tinha renda suficiente para sustentá-la e o bebê, ainda mais por causa do...
— Do quê? — perguntou curiosa.
— Do acidente. — Wright respondeu assentindo com um rosto meio triste.
Sara nem se atreveu a perguntar. A única coisa em que pensava era culpar Lewis por qualquer coisa ruim que tivesse acontecido com a mulher que mal conhecia.
— Acho que... — comento, desviando o olhar — agora o senhor entendeu a minha situação e vai me ajudar a entrar em contato com ele, não é?
O xerife soltou um longo suspiro. Ajeitou a gravata, bateu levemente as mãos na mesa e depois dirigiu seu olhar à mulher.
— Vamos acabar logo com isso. — disse, levantando-se novamente.
Finalmente!
— Vou levar você até à casa de Janie. Acho que ela consegue entrar em contato com Lewis.
— Certo... obrigada. — Ela respondeu, guardando os arquivos na bolsa, inclusive os que recebeu do xerife.
Os dois saíram da sala. Prestes a se dirigirem até a porta de entrada, de repente, ela foi aberta e uma mulher entrou rapidamente na delegacia. Seu olhar e feições eram ansiosos, atentos, quase desesperados. Não, definitivamente desesperados. Era morena, de cabelos pretos lisos e longos. Rosto também longo, nariz fino e olhos castanhos. Deveria ter uns quarenta anos.
— Jonah?! — Ela se aproximou dele, correndo. Chegou até a ignorar a detetive — Jonah... por favor... não... — Dava para ver os olhos vermelhos de lágrimas e perceber o lamento em sua voz.
O homem, carregando feições tristes em sua voz, aproximou-se dela e tocou-lhe o ombro direito.
— Eu sinto muito... infelizmente... seu filho está morto... Sarah.
Sarah...
A mulher caiu em prantos. O xerife, conhecido dela, veio a abraçar-lhe para tentar consolá-la, mas sabia que aquilo não era suficiente, nunca era. Sara ficou parada num canto, observando-os. Internamente, chegou a se compadecer pela mulher do mesmo nome que o dela. Mesmo sabendo que o filho quase matou seu parceiro.
Mas que culpa aquela mãe tinha?
Ironia do destino. Duas mulheres com o mesmo nome. Uma perdeu parte de si, do seu mundo; a outra... perdeu tudo.
Ao final de tudo, todos eram seres humanos. Todos viviam debaixo do mesmo sol e todos sofriam suas próprias tragédias pessoais.
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