Manhunters
20 Realidade/Passado/Sonho
Notas iniciais
O-o que está acontecendo? Droga...
Onde eu estou...
Estou... morto?
Não... posso sentir a vida pulsando em meu corpo e alma. Estou morrendo.
Não, não pode ser!
EI! Eu não quero ficar assim... NÃO QUERO!
Não consigo ver nada, tudo está escuro.
Não quero mais me sentir dessa forma.
Perdido.
Preciso de alguma luz.
—-------------------------------------------------------------------
Silêncio pelo lamento, pelas lágrimas derramadas e pela dor da perda.
Sara foi para fora da delegacia, deixando o xerife e a mulher a sós. Ela presenciou tantos momentos como aquele, ainda assim, sentia-se mal. Normal para um ser humano; pior para ela se não sentisse mais nada, o que já aconteceu antes.
Após alguns minutos, esperando próxima do carro do xerife, Wright deixou o edifício e caminhou em direção à detetive. Sarah ficou. O rosto dele continuava melancólico, assim como o dela.
— Vamos, detetive. — disse ele, abrindo a porta do carro. A mulher entrou em seguida.
Sara nem se importou em colocar o cinto de segurança. Ficou olhando pela janela. Não falou desde quando saiu da sala do xerife.
— O pai do garoto está doente. — Wright disse de repente, o que fez a detetive virar os olhos de lado, em direção a ele — O custo do tratamento é caro.
— Hum.
— A mãe estava desesperada.
— Espero que não esteja tentando justificar as atitudes dele, xerife.
— É claro que não! O garoto seguiu o caminho errado e deu no que deu. O triste é que nós tentamos avisar... avisar, mas... — Ele não terminou, mas ela já sabia a resposta.
A viagem não durou dois minutos. Logo chegaram em frente à uma casa simples, de um andar somente. Os dois saíram do carro; Sara esperou pelo xerife e o que faria em seguida. O homem caminhou até à porta meio envelhecida. Wright bateu à porta e chamou por Janie. Uns três minutos após isso, ela foi aberta. Só depois de vê-la, Sara entendeu o motivo da triste feição do xerife ao tocar no assunto.
— Bom dia xerife, aconteceu alguma coisa?
Era uma mulher branca, baixa, de cabelos ondulados pretos. Fortinha, com um rosto triangular, tinha olhos verdes e nariz achatado. Mas não foi nada disso que chamou a atenção da detetive. Sara logo fitou seus olhos na cadeira de rodas que ela usava.
Acidente...
Pôde perceber movimentos em toda a região do tronco, porém, abaixo disso, da cintura para baixo, estava imóvel.
— Ei, Janie, tudo bem? Essa aqui é a detetive Sara Sidle, da polícia de Las Vegas. Ela quer falar com o Frank.
— Ah é? — falou surpresa, dirigindo seu olhar à mulher.
— É... olá... — Sara cumprimentou-a meio sem jeito. Ela se aproximou e estendeu mão.
— Conheço esse olhar. Não se preocupe comigo, detetive. — Janie sorriu, percebendo o jeito de Sara. Então começou a se afastar para o interior da casa, convidando os policiais — Venham, podem entrar. O que você quer falar com aquele canalha? — terminou parando no meio da sala de estar. Simples, possuindo dois sofás marrons, uma mesinha de centro, estante com TV e poucos livros, e alguns quadros de paisagens nas paredes. Sem fotos visíveis de família.
— Não queremos tomar muito de seu tempo, senhora...
— Halley, por favor. Não quero mais aquele sobrenome dele. — Ela ergueu a mão direita, depois estendeu-a para que os dois se sentassem.
— Vou ser direta. Precisamos falar com Lewis porque ele é suspeito de estar envolvido na morte de uma mulher no Lehman.
Janie ergueu as sobrancelhas, mas sua feição não parecia ser de alguém preocupado.
— Ah é? — perguntou desconfiada.
— Sim. A suspeita é que ele, ou os outros guardas que trabalharam com ele, tenham facilitado a entrada do assassino no dia do crime.
— Merda, isso é grave! Querem falar com ele, né. Então, deixa eu explicar... — Janie deu de ombros — Estamos nos divorciando, graças a Deus. Só que ele ainda "mora" aqui — Ela fez um gesto com os dedos — e só volta aos finais de semana. Lá para sexta-feira. Ao menos tem pago a pensão do Ralph e dado um dinheirinho a mais para pagar a minha fisioterapia.
Sara encarou-a nos olhos. Queria muito perguntar o que aconteceu com ela, e achou naquela resposta uma oportunidade.
— Por acaso Lewis estava envolvido nesse acidente? — questionou, temendo que fosse repreendida.
— Sim e não. Foi um acidente com a moto dele. — respondeu, não parecendo muito preocupada.
— Certo. — Sara assentiu — Soubemos que você o intimou à Justiça por causa-
— De dinheiro, sim. — Janie completou a fala detetive assentindo — Aquele espertinho achou que poderia me enganar. Mas eu sei que agora ele está com uma vida boa. Não sei como, mas sem dinheiro ele não está.
Sara desviou seu olhar. Talvez estivesse certa sobre ele.
— Entendo. Lembra-se do período de nove meses atrás? Na época em que ele deixou o emprego no Parque? Como ele estava se comportando naquela época?
— Ah... — Janie tocou no queixo, pensativa — Não me lembro ao certo. Estava falando sobre aquela mulher que morreu lá, não é? Então, não consigo lembrar como ele estava agindo, só depois de um tempo... quando ele resolveu sair do emprego. Parecia até animado. — Ela ergueu as sobrancelhas — Não acredito que o Frank possa estar envolvido nisso! Que filho da pu-
— É... Janie...? — O xerife a interrompeu — Lembra-se de mais alguma coisa que ele fez?
— Ah, desculpe, me alterei um pouco. — disse após uma breve risada — Lembro que ele estava um meio eufórico quando resolveu sair. Encontrou um emprego lá em Elko e agora só pensa em ficar lá. Nem parece que tem filho. — Ela revirou os olhos.
— Onde está o pequeno RH?
RH? Ah... Ralph Halley.
— Está no quarto com minha mãe.
— Mande lembranças a ela.
— Obrigada.
— Lewis volta sexta, não é? — perguntou Sara — Não tem como chamá-lo para vir antes?
— Acho bem difícil, detetive. Ele fica quase incomunicável quando está por lá. Mas posso te passar o contato dele.
— Muito obrigada, senhora Halley. — Sara assentiu em agradecimento — Tome o meu cartão, caso precise ligar — A detetive tirou do bolso interno da jaqueta um cartão e entregou à mulher. Depois se voltou para o xerife ao seu lado — Bem, era só isso mesmo. Mais uma vez agradeço por sua disposição em nos receber. — Ela se levantou e estendeu sua mão, Janie retribuiu o gesto.
— Não há de quê. Façam o que for preciso para pegarem aquele safado.
—---------------------------------------------------------------------
Sara e Jonah tomaram seu caminho de volta à delegacia. Próximos do destino, a detetive tomou a palavra:
— O que vai fazer agora, indiciar Souza e McCarty?
O xerife franziu a sobrancelha:
— A investigação ainda não terminou, senhorita. E saiba que ainda irei falar com seu parceiro.
— Só para deixar claro, eles salvaram a vida do sargento Grissom.
— Como eu falei antes, a investigação ainda não terminou. E não tente me influenciar. A senhorita nem deveria estar aqui comigo.
— Verdade. — Assentiu — Eu deveria estar em outro lugar.
—-----------------------------------------------------------------------
Hospital William Bee Ririe, Ely, 15h15min.
Sara odiava hospitais, aquele clima a incomodava bastante. Todas as vezes em que entrava em um hospital não via a hora de sair. Enfermeiros e médicos passavam de lá para cá, feridos e doentes chegando a qualquer momento; vítimas de violência, de acidentes... Um ritmo tão intenso quanto de uma delegacia, mas diferente.
Marcas de seu passado a deixaram avessa àquele ambiente.
A detetive chegou à recepção e solicitou informações sobre o estado do sargento; esperou um pouco aflita por meia hora no saguão. Não obteve notícias concretas do policial que acompanhou Grissom e por isso presenciava-se com bastante ansiedade. Chegou em alguns momentos a culpar a si mesma por não ter estado no local antes.
Só depois um dos enfermeiros chegou e disse que o estado de Grissom era estável. Após estancarem a hemorragia externa, ele teve de passar por uma transfusão de sangue e ainda precisaria de uma cirurgia para retirar a bala que se alojou na perna esquerda. A outra bala atingiu a região na altura do rim e por pouco não chegou ao órgão, também no lado esquerdo. Ao contrário da outra bala, esta passou pelo corpo dele, mas também o prejudicou bastante.
Ainda assim aquelas palavras não pareciam ser tão animadoras.
Céus, Grissom...
A cirurgia do sargento estava prevista para começar às quatro e meia da tarde. Até lá tinha de esperar, mas não sabia onde.
— Será que eu posso vê-lo depois? — perguntou apreensiva.
— Infelizmente, devido ao estado do senhor Grissom, que ainda vai passar por uma cirurgia, as visitas não estão permitidas.
— Tem alguma previsão de quando poderei vê-lo?
— Provavelmente amanhã.
Droga.
Seu rosto estava visivelmente abatido. Queria, ao menos, vê-lo pessoalmente para saber como estava.
— Pode me fazer um favor?
A enfermeira ergueu as sobrancelhas.
— Pode ligar para o meu número quando ele estiver melhor? Estamos longe de casa. Não há nenhum familiar próximo... sou a única pessoa mais "próxima" a ele.
A mulher encarou-a nos olhos, percebendo que ela falava a verdade.
— Deixe seu número ali, na recepção. Quando possível, faremos contato.
— Obrigada. — respondeu com um meio sorriso.
Sara fez o que lhe foi permitido. Deixou seu número com a recepcionista explicando todos os detalhes. Após isso, não havia mais nada a se fazer; resolveu, então, sair do hospital e comer alguma coisa... sozinha. Depois partiria de volta para a pousada. Ela foi para o estacionamento do hospital e entrou no utilitário de Grissom. Recostou a cabeça no banco e fechou seus olhos. O que aconteceu? Pensou a morena, como se a ficha ainda não tivesse caído. O relógio mal batia a casa das quatro horas e ela já estava exausta.
O seguimento dos planos tinha tudo para dar certo desde o começo, entretanto só um fator não foi considerado: os dois.
A detetive e o sargento deveriam ser a melhor “equipe” para resolver o caso. Ambos eram policiais excepcionalmente bons no que faziam, com desempenhos irrepreensíveis. Todavia, o principal obstáculo eram eles mesmos. Ao final de tudo não pareciam ser opostos como se pensavam, com pensamentos diferentes, mas que acabavam se atraindo e fazendo um bom trabalho. Eram semelhantes que não conseguiam "se juntar" e acabavam se repelindo. Grissom e Sara mal trabalharam uma semana direito e aquela recém parceria já estava desgastada.
Tinha algo dentro de seu peito que gostaria muito de libertar. Queria muito falar com alguém, desabafar e tirar esse peso. Mas ela estava sozinha.
Seus pensamentos a trouxeram de volta às memórias do dia passado, quando deixou Grissom naquela trilha e seguiu sozinha pela trilha no Lehman.
—------------------------------------------------------------------------------------
Após ver aquela cena da família carinhosa e contente, brincando como se todos os problemas não tivessem importância, lembranças indesejáveis retornaram à mente da detetive. Triste, ela se afastou do tronco de onde estava sentada e pegou o celular. Satisfeita, notando que o aparelho captava sinal, ela discou um número conhecido, da única pessoa a quem tinha um grande apreço.
— Atende, atende... — sussurrou, enquanto caminhava por entre folhas e galhos secos.
— Alô, quem tá falando?
O quê?
Não foi um susto, foi uma surpresa. A detetive ergueu as sobrancelhas a ouvir quem falava na linha. Era uma voz feminina, completamente confusa ao atender a ligação. Sara tirou o celular próximo da orelha e olhou para a tela imaginando se não tinha se enganado. Era o número dele.
— Esse é o número do Hank...? Hank Peddigrew? — perguntou apreensiva.
— Sim. Aqui é a noiva dele, Elaine. — a mulher respondeu convicta.
Noiva...?
— De onde você o conhece? Seu número não está registrado aqui.
Sara ficou sem reação. Sua boca permaneceu aberta como se estivesse prestes a dizer algo, porém falhou.
— É... d-deixa pra lá. Eu... sinto muito. — desligou sem esperar alguma resposta.
Desgraçado. Que... desgraçado!
Na mente dela passaram os piores insultos àquele homem. Ela pressionou o celular sob as mãos com força, que se pudesse o quebraria com o ódio que estava sentindo. Sara descobriu por uma das piores formas possíveis que era a ‘outra’. Logo ele, logo Hank, a pessoa em que ela mais confiava, a enganou daquele jeito. Ironicamente, conseguiu enganar uma detetive, uma piada.
Nem ela mesma sabia se ficava revoltada, triste ou as duas coisas. Melhor as duas coisas. Só queria ficar sozinha, coisa que ela se acostumou até demais.
—----------------------------------------------------------------------------
Sara não conhecia a pequena cidade de Ely, então ligou o GPS para encontrar um restaurante. Mas antes que ligasse a chave na ignição, parou. Sabia que não adiantaria nada. O que ela queria mesmo era fugir dali e ir para mais longe possível. Longe de Nevada, Zodíaco, Grissom e tudo mais. Chegou num ponto em que, se pudesse, gritaria e faria com que todos aqueles problemas desaparecessem como num pesadelo ao se acordar.
Ela bateu a testa no volante e ficou naquela posição por algum tempo. A mulher estava mentalmente cansada, para ela, o pior tipo de cansaço. Quando se sentia dor era só tomar um remédio e esperar um pouco. Mas quando aquilo atacava a mente, aí, pronto. Não havia soluções concretas e nem instantâneas. Era uma dor que não conseguia ser explicada.
Sara suspirou fundo e olhou para seu lado direito. Pegou sua bolsa, em cima do banco do carona, e revirou até encontrar um pequeno item, uma garrafa fina de uísque do tamanho da palma da mão. Abriu com rapidez e, sem reservas, bebeu o conteúdo até a metade.
— Que se dane a blitz, os policiais. Que se dane todo mundo.
Voltaria para o seu pequeno quarto na Pousada Chapman e ficaria lá até esfriar sua cabeça. Desistiu de procurar algum restaurante na cidade. Prestes a dar a partida no carro, Sara voltou-se novamente à sua direita. O celular começou a tocar. Se fosse o seu ex com certeza tinha as palavras na ponta da língua para soltá-las sem dó. Torcia, até, que fosse ele ligando. Com vontade, procurou o celular e o pegou. Porém, surpreendeu-se com o número na linha.
— DB?
— Ah, que bom que atendeu. Tinha medo que fosse outra pessoa. Você está bem?
De tantas pessoas das quais queria manter distância ou sequer ouvir a voz, ele era uma das poucas exceções, talvez a única. Diebenkorn Russell, DB ou apenas Russell; um homem alto, magro, de cabelos brancos e rosto longo era o delegado da unidade de Homicídios de São Francisco, seu superior. Era um homem de fala mansa, meio brincalhão, tendo seu jeito único de resolver os problemas à sua volta. Estranho para alguns, mas era o jeito dele mesmo.
Não era sempre em que o seu chefe poderia ser chamado de amigo. Ao contrário de muitos, ele deu um grande apoio e suporte à carreira de Sara na polícia. Foi por muitas vezes um ombro amigo e "quase" um pai.
— Pois é, estou viva. — disse ela, não muito satisfeita.
— Graças a Deus! — retrucou em alto tom — Caramba! Recebi a ligação do Brass, o que aconteceu, Sara?
— Foi uma tentativa de assalto, DB. Eu estava dentro da loja quando vi o cara... garoto apontar a arma pra mim e... — A detetive olhou para os lados como se não quisesse falar mais sobre o assunto — Eu pulei a tempo e depois atirei nele.
— Ele morreu?
— Não, acho que não. Mas o que atirou no sargento Grissom, sim.
— Droga... O que houve com ele, está bem? — perguntou, lembrando-se de Grissom.
— Mais ou menos. Levou dois tiros e vai precisar de uma cirurgia parar tirar a bala da perna. — O tom de voz dela mudou um pouco, e Russell não deixou de perceber.
Um breve silêncio tomou conta da linha.
— Ei, Sara, — perguntou preocupado — Você está mesmo bem?
— Eu... estou. — Assentiu para si mesma.
— Tem certeza que ainda quer continuar? Você sabe como isso foi agitado... nós não sabíamos de nada disso antes e fomos pegos de surpresa.
— Eu quero continuar, Russell. — respondeu convicta assim que o ouviu — Se cheguei até aqui não foi para largar tudo e desistir. — Ela fez uma pausa — Nós estamos... caminhando, avançamos um pouco e é só a gente quebrar mais a cabeça que conseguimos resolver esse problema.
— Sabe que se não estiver mesmo bem, pode retornar pra cá. Não vou julgar você.
Ela não estava bem, estava péssima. Mas não queria admitir, nunca o fazia.
— Eu aguento, DB, não se preocupe.
— Ah não... — O delegado soltou uma risada — Pelo visto não dá mais para tirar você daí, não é mesmo?
— Só saio daqui quando esse caso for fechado.
—--------------------------------------------------------------------------------
Dentro dos sonhos de um certo caçador, o clima era frio, preto e branco; um pouco escuro, sendo que a única luz presente vinha de seu próprio corpo. Não sabia de onde veio e muito menos para onde ir ou até mesmo se ficava parado esperando por algo. O caçador nunca vira aquele lugar antes e não tinha ideia de como foi parar ali. Odiava se sentir daquele jeito, perdido, desorientado... para um homem que buscava a verdade e respostas, ficar assim era quase como uma derrota.
Por alguns momentos sua visão ficava turva; escurecia e clareava rapidamente, deixando-o um pouco zonzo. Ele olhou para todos os lados procurando por algo, até ergueu sua cabeça para o alto para ver se havia alguma resposta, nada.
— Ei! — uma voz feminina desesperada gritou atrás dele, que logo se virou.
O caçador não conseguia ver quem era, sabia apenas que era uma mulher. Parte do tronco até a cabeça eram cobertos por uma nuvem negra. Era possível enxergar apenas o antebraço para baixo.
— Ei! — novas vozes e corpos se uniram àquela voz e começaram a gritar incessantemente. Era impossível enxergar seus rostos.
— Não... — O caçador franziu o cenho. De alguma forma conhecia aqueles rostos.
— Venha! — As vozes persistiam.
Definitivamente ele conhecia aquela gente.
O caçador percebeu algo, de repente. Era um tipo de força, não do tipo bruta ou possessiva; sentiu-se como se estivesse numa praia deixando as ondas o levar para onde queriam. E essa onda, aos poucos o levava para perto daquelas vozes. Caminhando, ele começou a se aproximar daquelas figuras. No seu rosto abriu-se um sorriso. Estava contente. Prosseguiu até que chegou a meio caminho andado. Tão próximo deles, uma sensação de tranquilidade tomou conta de si.
Foi então que, inocentemente, olhou para si mesmo. A luz, o brilho que vinha de seu corpo estava mais fraco, desaparecendo.
— O... quê?
Tinha alguma coisa errada.
— Venha! — A voz feminina gritou novamente. Estava tão próxima dele, parecia até que conseguia enxergar mais de sua fisionomia.
O caçador se atreveu a dar meio passo para frente, dessa vez, olhando para si. Mesmo fracamente, notou que sua luz diminuía.
Ele não podia continuar mais. Estava com medo.
Virou-se para trás. Bem de longe, pôde ver algo que não estava ali antes. Tinha alguém do outro lado. Em silêncio, a pessoa permanecia na mesma posição; também não era possível enxergar seu rosto.
— Vamos! — gritou as vozes à frente do caçador, que na mesma hora voltou sua atenção.
O caçador estava confuso. Se antes estava convicto em caminhar em direção a eles, agora hesitava fervorosamente.
— N-não, eu... eu não posso.
A "força" que o arrastava pareceu aumentar. Relutando em não seguir o fluxo, ele deu um passo para trás.
— Me desculpem... não. — sussurrou, tentando se afastar deles.
Com muita dificuldade o caçador deu meia volta. Ofegante, observou a figura que de longe, estava de pé como se observasse cada movimento seu. Então deu o primeiro passo para frente.
— Não! Volte! — As vozes gritaram repetidas vezes mais desesperadas.
Angustiado, o caçador virou o rosto para vê-los. Não enxergava mais aquela nuvem preta cercando os seus rostos. Havia uma espécie de líquido negro, uma onda escura que vinha atrás deles e os atingia. O preto se transformava em vermelho, e depois preto novamente. A onda estava vindo e logo devoraria o caçador.
Para se salvar, ele deu tudo de si. Forçou-se ao máximo para se libertar daquelas correntes invisíveis que tentavam puxá-lo. Mal conseguia correr, dava somente passos rápidos na tentativa de chegar até aquela pessoa, que parecia ser a sua única salvação.
A onda estava vindo. O caçador olhou para trás mais uma vez e tentou correr novamente. Caiu no chão quando se aproximou do ponto de onde se encontrou antes. Sua luz ficava cada vez mais fraca e seu tempo, acabando.
— Não...! — Ele encostou o rosto no chão e deslizou seu braço direito na superfície para que se apoiasse e tentasse levantar. Não desistiria tão fácil, lutaria até o último suspiro e o último fio de força de seu corpo.
Aos poucos o caçador se levantou, quase engatinhando, e fixou-se naquela figura à sua frente. Deixou-se esquecer do que estava atrás dele, empenhado a chegar até o final, sua última esperança.
Respirou fundo e pegou impulso. Deu leves corridas e depois perdeu o equilíbrio, mas se recusou a cair, apoiando os braços no chão. Repetiu esses passos até ficar a cinco metros da figura. Não reparou, mas a luz de seu corpo ficou mais forte, o que pôde dissipar a nuvem escura que circundava a figura. Era uma mulher; quanto mais se aproximava, seu corpo era revelado.
Seus olhos se arregalaram.
— Me ajude...
Assim que falou aquilo, a onda o alcançou e o envolveu. Ele gritou, mas sua voz não tinha efeito. O caçador ergueu as mãos para o alto, tentando "nadar" contra a correnteza mais densa que piche. Estava sendo puxado, ainda assim, relutava em não se distanciar daquela mulher. Ele ergueu seu braço direito, não falou nada, mas seu olhar gritava por socorro. Já não tinha mais forças para seguir em frente, e sua única luta era para adiar o inevitável.
O caçador estava sendo tragado aos poucos.
Tarde demais, não é mesmo?
Entretanto, algo diferente aconteceu. Aquela figura, que parecia imóvel, apenas observando os atos do caçador se moveu. Começou a caminhar em sua direção. Ele viu aquilo e tentou manter o seu braço erguido, depositando todas as suas esperanças naquela mulher.
Dez segundos e dez passos. Ela o alcançou. A luz em seu corpo revelou completamente o rosto dela. A mulher estendeu a mão para o caçador, e ele, sem hesitar, segurou-a firme.
Era ela. O caçador tinha plena certeza.
Ponha em 300 joules! Três, dois, UM!
Uma forte luz tomou conta do lugar e tudo desapareceu.
Fale com o autor