Manhunters
76 Sem torta de mirtilo desta vez
Notas iniciais
O celular da morena tocou; era a notificação de uma mensagem que acabara de chegar. Concentrada na tela do computador, ela demorou dez segundos para que finalmente largasse o que estava fazendo e olhasse o aparelho. Quando viu quem era o remetente logo se interessou pelo conteúdo da mensagem. Era ele, a única pessoa que conseguiu arrancar um sorriso sincero de Sara.
“Abstinência.”
Ela ergueu uma sobrancelha ao ler a única palavra contida naquela mensagem. Por um momento perguntou-se o que significava aquilo, mas só depois entendeu. O sorriso voltou ao seu rosto, dessa vez, maior ainda.
Também sinto a sua falta.
Tinha momentos em que ela gostaria de fugir com Grissom para um lugar longe. Largar tudo e ficar ao lado dele por horas e horas, sem se importar com o que fariam ou com o que não fariam. Não havia como compará-lo a seu ex, Grissom lhe causava sensações e pensamentos tão bons. Era o tipo de pessoa de quem ela odiava ficar distante por muito tempo.
Sara não deixaria aquela mensagem sem resposta, então digitou uma frase e enviou:
“Preciso de uma OD.”
Overdose. Ela sorriu no momento em que terminou de escrever. E como precisava daquilo. Sara ficou olhando para a tela do celular, mordeu o lábio inferior e só depois deixou o celular em cima da mesa. Só que aí ele tocou novamente.
— Ai, ai. — disse entre um suspiro ao esticar o braço para pegar o aparelho novamente.
“Eu também.
Rose’s?”
Confusa, ela franziu a testa e olhou para o relógio em seu pulso: 12h40min. Ela gostaria de continuar trabalhando ali, mas como recusar um convite daqueles? O dia mal chegou à metade e Sara já estava de cabeça cheia. Um momento, nem que fosse curto com Grissom seria bom. Mal não ia fazer.
“Estacionamento.” Ela digitou e enviou. Olhou para a tela à sua frente na qual mostrava informações sobre Hilary, a suspeita. Virou o rosto para o lado esquerdo e respirou fundo. Guardou alguns papéis em sua bolsa, fechou todas as páginas e quando estava tudo pronto, saiu da sala.
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— Oi. — falou ela com um sorrisinho.
— Oi. — Ele tentou disfarçar o sorriso, mas não adiantou muito — Vamos?
Os pareciam ter estado longe um do outro por muito, muito tempo. Mesmo trabalhando no mesmo prédio havia uma sensação de distância complicada demais para se suportar. Eles começaram um relacionamento há pouquíssimos dias, porém sentiam como se já estivessem juntos há anos.
Grissom e Sara entraram no carro do sargento. Ambos ataram o cinto de segurança, mas em vez de dar a partida, ele se virou para ela.
— Como você está, querida?
— Não é perigoso falar algo assim logo aqui? — Brincou ela.
— As janelas estão fechadas. A não ser que alguém esteja escondido por aqui, próximo de nós. — Ele revidou, dando enfim a partida no carro. Ao atentar para ela, percebeu que estava sorrindo.
— Estou bem, e você?
— Melhor agora. — Grissom admitiu. Sara nunca esteve tão convicta de que aceitar o convite foi uma ótima escolha — Como está indo o trabalho?
— Conseguimos o acesso às ligações do Lewis. Acredite ou não a última ligação ele foi para o advogado, não para Hilary, como eu esperava.
— O que eles falaram?
— É mais para “o que o advogado falou”. Lewis estava preocupado com o que podia acontecer com ele. Pelo jeito tinha medo de voltar para a prisão.
— Se voltasse, provavelmente, estaria morto de qualquer jeito. Não se lembra de como Philip falava em relação a ele?
— É... — Sara olhou para o lado — Talvez. Mas, enfim. Dale falou para Lewis fazer o que ele sugeriu. O problema é que ele não especifica o que tenha sido.
— Talvez para ficar calmo... ou chamar uma garota de programa. — Sugeriu o sargento quando virou-se para a companheira.
— Eu não posso falar um “ai” para o advogado sem provas concretas. Uma frase como aquela pode significar qualquer coisa. — Só de ouvir Grissom pôde perceber que ela estava decepcionada.
— Bom vocês ficarem de olho no Dale. Se ele estiver envolvido nisso mesmo, qualquer pista que indique isso e ele vai tentar escapar na primeira oportunidade.
— E aí temos mais um problema. — A detetive ironizou. Ficou em silêncio e só depois reparou que nem perguntou sobre como estava indo o trabalho dele — E você, Gil? Conseguiu algo?
— Pedi a um amigo do departamento de trânsito para me dar localizações de eventos que ocorreram próximos aos locais dos crimes.
— Ah é? — Ela se virou para o lado esquerdo na tentativa de encará-lo melhor — Isso é ótimo!
— Se der certo... — falou um pouco esperançoso — Mas ele não me deu um prazo certo por outras prioridades que ele tem de cumprir.
— Não importa, temos outros caminhos para traçar ainda. Tenho certeza que isso vai chegar na hora certa.
O sargento sorriu de lado. Ela era uma das poucas que conseguia fazê-lo sorrir num momento tão complicado. Como teria coragem de esconder dela seu próximo passo? Quando pensou nisso o breve sorriso se apagou como uma fagulha sem força. Ele engoliu em seco, disfarçando para que a mulher não percebesse. Uma hora tinha de estar pronto para contar, ela iria saber daquela história de uma forma ou de outra; esperava ele no melhor momento.
— Obrigado, Sara.
Ela tocou em seu braço gentilmente. Ao sentir o toque Grissom virou-se para ela e encontrou o sorriso mais lindo do mundo.
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A ida ao restaurante foi rápida, graças ao trânsito que colaborou desta vez. Quando entraram no estabelecimento o cheiro de comida e o ambiente familiar os acolheram na mesma hora. Não havia outro refúgio melhor que o Rose’s. Os dois entraram no restaurante e foram entregues por Jin, que chamou por Rose em seu escritório. Ao ver aquilo, Sara tocou no braço do companheiro.
— Eles amam você. — Ela disse segundos depois de Tina cumprimentar os dois quando passou perto.
O sargento e a detetive mal passaram da entrada quando Rose apareceu e foi direto ao encontro deles.
— Olha só quem está aqui! Minha dupla favorita! — disse ela erguendo os braços — Depois dos meus filhos, é claro.
Rose era uma mulher bastante querida. Todos que conviviam com ela tinham algo de bom para comentar. O calor humano e a energia que ela transmitia conquistava até o mais frio dos corações.
— Ei, Rose, como vai? — Sara acenou. Grissom também a cumprimentou.
— Vou muito bem. Já estava com saudade de vocês dois. — Ela olhou para Sara — Bem, mais de você do que o sargento aqui. — Rose brincou, arrancando um sorriso cômico da detetive — Mas então, vocês vem para o almoço.
— Exato.
A dona do restaurante olhou diretamente para a mesa que Grissom gostava de ficar, mas ela estava ocupada por três pessoas.
— Me desculpa, Gil. A sua mesa está ocupada.
— Não se preocupe, Rose. — Grissom se adiantou erguendo a mão direita.
— Ali. — A morena apontou para uma mesa aos fundos. Não o ponto preferido do sargento, mas achou a melhor opção.
— Vamos para lá. — Ele concordou e avisou à amiga.
— Ah, ok. — Rose assentiu. Quando os dois começaram a fazer seu caminho, ela tocou no ombro de Grissom e o fez parar de andar. Sara não percebeu e continuou.
— Oi.
— E vocês dois?
O modo como ela fez a pergunta fez sua feição gelar por um instante.
— Hã? — Foi a única palavra que ele conseguiu falar.
— Como vocês dois estão, bobinho. — Ela riu — Da última vez que veio aqui você disse que não estavam nada bem.
— Oh, sim... é... nós estamos bem... — Ele pigarreou — muito bem.
— Que bom, Gil. — Rose deu um tapinha em seu ombro — Fico feliz. — Em seguida fez um gesto com a mão para que ele tomasse seu caminho e foi junto dele até a mesa.
Antes mesmo de Grissom se sentar (frente a Sara) e que ela pudesse pegar o cardápio, Rose se adiantou carregando consigo um sorriso intencional.
— Graças a Sara eu tomei a iniciativa de conhecer alguns pratos vegetarianos e, claro, atrair mais gente para o restaurante.
Os dois policiais trocaram olhares breves, mas desconfiados e se voltaram a para a dona.
— Tenho orgulho de apresentar uma torta de espinafre e arroz integral recheado. — Rose falou como se estivesse oferecendo um produto novo ao cliente.
— Uau, eu... não esperava que fosse se inspirar em mim. — Sara chegou a corar. Grissom ficou observando ela e tentou disfarçar o sorriso que aos poucos se formava no rosto — Então eu vou querer o arroz e um suco de laranja. — respondeu animada.
— Ótimo! E você, Gil?
— O de sempre, por favor, e um copo d’água. — Ele assentiu.
— Está certo. — Rose tocou no ombro dele e logo em seguida se afastou.
Em silêncio, os dois trocaram olhares meio tímidos. Ainda tinham de se acostumar a agir somente como parceiros de trabalho fora do ambiente privado. Se havia algo bom nisso era saber que estavam tão apaixonados que precisavam de um grande esforço para agir ao contrário.
— Então... — Sara foi a primeira a puxar assunto — sugeri ao Ivanenko que a suspeita fosse interrogada novamente.
— Isso... tem a ver com o advogado?
— Tem. Ela é a nossa melhor chance de provar alguma ligação com o Dale.
O sargento notou em seus olhos certa determinação. Sara estava tão decidida em continuar que não seria quaisquer palavras que a fariam recuar. O receio de Grissom era justamente que essa determinação acabasse levando ela para um beco sem saída.
— O que você vai perguntar a ela, exatamente?
— Modo resumido? Se o advogado está envolvido nessa história.
— Com base no quê?
— Por quê está me perguntando isso? — Sara parecia desconfiada.
— Por que quero saber se vocês têm certeza de que podem seguir adiante com isso.
Dentro de Sara cresceu uma mistura de confusão e inconformidade. As palavras do parceiro foram um tanto duras e ela queria saber o motivo de serem ditas assim.
— Não entendi o porquê de você estar assim.
— Sara... — Ele olhou para o lado brevemente — Eu estou preocupado com o rumo que esse caso pode tomar. Se vocês não tiverem um motivo que convença a suspeita de falar ou que tenham provas, isso vai servir de combustível para Dale atacar vocês sem dó.
Sara não respondeu, o que o deixou ainda mais ansioso. Temeu, ainda, que suas palavras saíram duras, além do esperado por ele mesmo. A última coisa que ele gostaria.
— Sara... — disse baixo — por favor. — Seu lado instintivo falou mais alto e ele estendeu sua mão para a frente, arrastando-a pela mesa até o limite imposto não-declarado por eles dois.
Grissom chegou a fechar os olhos e baixar a cabeça. Foi quando sentiu um toque na mão estendida. Ele abriu os olhos num raio e observou o toque delicado de sua companheira cobrir apenas três dedos. Ela sabia que não poderia fazer aquilo, mas como impedi-la, agora que era tarde demais?
Seu olhar pareceu preocupado, culpado; “obrigá-la” a tomar aquela atitude poderia colocar em risco o segredo que estavam tão dispostos em esconder.
— Tudo bem.
Os dois se entreolharam. Ela dizia estar tudo bem e ele gostaria que a verdade fosse essa mesma.
De repente Grissom afastou sua mão ligeiramente ao ver Tina se aproximando com os pratos. Os dois voltaram à “normalidade” como se aquela conversa não tivesse acontecido. Ambos agradeceram quando a garçonete terminou de servi-los.
— Frango frito e purê de batatas? — A detetive perguntou surpresa.
Percebendo o tom cômico na vez dela, ele se deixou sorrir também. Ele fez uma careta, como se dissesse que gostava do prato e não podia resistir. O jeito dele de tentar se explicar foi combustível para que ela risse.
— Me desculpe. — Ele falou um minuto após começar a comer..
Quando Sara colocou o guardanapo sobre suas pernas ela falou:
— Há pouco tempo você estava de costas para mim, pedindo desculpas. Olha o quanto nós evoluímos.
Ao olhar para ela a encontrou comendo. Chegou a voltar ao seu prato, mas se virou para ela mais uma vez. Não sabia quantas vezes deveria pedir desculpas por todos os erros que cometeu contra ela, parecia que nunca era o suficiente.
No decorrer da refeição, mais precisamente nos primeiros minutos, a dupla preferiu o silêncio com o temor de uma nova discussão acontecer.
— Rose não existe. — Comentou Sara — Céus, essa comida está ótima.
— Bem-vinda ao fã-clube.
Ela riu e ele não deixou de fazer o mesmo. Uma de suas fraquezas era vê-la sorrindo; seu coração acelerava intensamente, dando a impressão de que outros pudessem ouvi-lo.
O sargento disfarçou limpando a garganta para tirar o sorriso bobo do rosto. Desta vez ficou sério.
— Esqueci de falar. O irmão da vítima apareceu por lá.
— Ele foi ao departamento? — questionou-o um pouco surpresa, depois disso tomou um gole do suco.
Grissom assentiu.
— Queria saber se já podia levar o corpo de Ryan. Eu aproveitei a oportunidade e fiz umas perguntas. — O sargento comeu um pedaço da coxa de frango — O senhor Park — Ele enfatizou o nome — disse que não sabia no que o irmão estava trabalhando. Ele contou que Ryan não costumava comentar sobre o trabalho com ele, somente que esse último seria algo grande.
— É, ele conseguiu o que queria: Ser manchete nos jornais.
Grissom fez um gesto com o pescoço.
— Joseph também me disse que o enterro será no Woodlawn.
Sara, que focava em seu prato no momento em que ele falou aquilo, parou de comer e ergueu o olhar para ele um pouco atônita. Engoliu a comida rápido e disse:
— No... Woodlawn?
— É... Eu estava pensando em ir até lá.
Ela não sabia o que dizer. Tinha receio em tocar naquele assunto, porém, mais do que a questão de sua falecida parceira, era o fato de Grissom aparecer num lugar possivelmente hostil.
— Aquele lugar deve encher de jornalistas. Tem certeza que vai ser uma boa escolha... logo você aparecer lá?
O sargento se virou para a janela e suspirou. Se algum deles se lembrasse da “ligação” entre Grissom e Ryan, mesmo que por uma foto, aquilo seria motivo para uma abordagem. E o sargento tinha aversão a jornalistas.
— O que você pretendia fazer lá, além de ser um alvo? — Foi a vez dela em criar o alerta — fazer perguntas a eles num momento como esse não é... — A palavra fugiu de sua boca. Ela bateu na mesa uma única vez e se concentrou no prato quase vazio.
— Talvez eu apareça por lá para... assistir ao enterro... ver como as pessoas se comportam.
— Talvez fosse melhor eu ir, então. — Ela falou de cara.
Você?
— Não está ocupada com o caso do Lewis?
— Oficialmente não estou trabalhando no caso. — Sara rebateu, já esperando uma desculpa — E por que não quer que eu vá? Isso vai ser o melhor para nós dois.
Não era necessário muito esforço para saber que o parceiro ficou incomodado com a ideia. Desconfiou que ele se incomodava com qualquer ideia que envolvesse os dois separados, mais precisamente, ela distante.
— Não me diga que está com pena da vítima e quer prestar uma última homenagem. — Seu tom de voz, além de surpreso parecia irônico.
— Não é isso. — Grissom respondeu logo, forçando-se a comer.
— Então o que é?
— Eu quero saber no que ele trabalhava. — Grissom bateu o garfo no prato algumas vezes — Ryan pode nos dar a melhor pista sobre a identidade do nosso homem. Se alguma daquelas pessoas tivesse ideia de quem ele estava conversando...
— Chame-os para depor. — A detetive respondeu logo — Não se exponha, Gilbert. Um erro e eles vão bater na sua porta ou ligarem para seu número sem parar. — Ela balançou a cabeça — Você não quer isso.
Sara não o encarou desta vez. Ela tomou o restante do suco a olhar pela janela. Recostou-se na cadeira e deixou o garfo sobre o prato.
— Olha, não quero parecer dura... só quero que você tenha cuidado, Gil. Eu sei que a gente pode estar perto de algo grande, mas é aí onde podemos tropeçar.
Silêncio em seguida. Mesmo o som de vozes ao redor não abafou o clima meio frio entre os dois.
— Eles estão comentando. Imagine quantas que vão aparecer no lugar. Jornalistas irritados com polícia que não pôde “proteger” Ryan em fazer o seu trabalho... — Ela deu de ombros — Sua ideia não é hipócrita, mas eles não vão enxergar isso.
— Isso já aconteceu com você, não é?
— Não. — Ela sorriu — Mas conheço casos.
Antes que Sara pudesse falar algo mais, alguém se aproximou deles. Era Rose que veio levantar o clima não muito saudável na mesa.
— E então, o que achou da novidade, Sara? — Ela tocou em seu ombro ternamente.
— Perfeito. Obrigada por isso, Rose, não precisava. — A detetive se virou para encará-la.
— Claro que precisava. Eu gostei muito de você e quero que saiba que também pode ser acolhida aqui.
Sara chegou a corar por um instante, mas disfarçou.
— Bem... menos pelo Denny. Ele não gosta muito de gente. — Brincou a mulher.
Risonho, Grissom acompanhou a conversa das duas, tratando de terminar a comer após olhar o relógio. O horário de almoço havia passado, mas como eles saíram bem depois do início não haveria problema. Ao menos ele achava isso.
— E você, Gil? Minha humilde comida está a seu agrado? — Rose cruzou as mãos frente ao corpo.
— Eu não preciso responder, Rose. — Grissom olhou para ela, que fez uma careta em resposta — Sua comida está perfeita.
— Que bom. — Ela respondeu ironicamente — Por que foi o Lenny que fez. Eu só preparei o arroz integral mesmo.
Boquiaberta, a dupla encarou Rose. Nem um nem outro sabiam o que falar ao certo. Tudo o que lhes restou foi rir.
— Talvez ele goste de mim. — respondeu o sargento — A comida não estava envenenada.
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Sem torta de mirtilo desta vez. Assim que terminaram de almoçar os dois policiais deixaram o restaurante. A conversa que tiveram sobre o enterro pareceu não ter sido finalizada direito, ainda havia certa dúvida no ar. O que fariam em seguida, ou melhor, o que Grissom faria em seguida se era um risco para ele aparecer no Woodlawn?
Os dois entraram no carro e prenderam o cinto. Ele estava prestes a dar a partida no carro, mas parou.
— Fique comigo.
— O quê?
As palavras repentinas fizeram o coração acelerar como antes, quando os dois ainda não estavam juntos. Sara não tinha ideia do motivo da pergunta.
— Me ajude com os vídeos. — disse ele, usando o trabalho como um pretexto para ficar perto dela.
— Gil, eu- — Ela parou de falar e pensou numa resposta melhor antes que fosse tarde — Eu poderia, mas ainda tenho que trabalhar no caso do Lewis.
Sua tentativa não funcionou. Quieto, o sargento deu a partida no carro, porém, ela tocou em sua mão e sem ter o que fazer, Grissom girou a chave novamente e o carro desligou.
— Não sei se você está com ciúmes de mim e do Ivanenko ou apenas me quer por perto. — Sua voz era baixa — Só que você não sabe da luta constante que eu enfrento para não beijar a sua boca ou fazer coisa pior. — A mulher se inclinou para ele ligeiramente, sussurrando-lhe bem próximo ao ouvido — Todo santo minuto.
Grissom engoliu em seco e fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, observou-a de canto e notou que estava sorrindo. Todavia não reparou que ela baixou a mão que segurava a sua, chegando até o joelho. Para não perder o foco, o sargento ligou o carro mais uma vez.
— Não estou com ciúmes.
— Ah é? — Ela esboçou um sorriso malicioso.
Mesmo sentindo o toque quase paralisante dela, o sargento prosseguiu com o carro ou os dois nunca sairiam do lugar.
— Estou sentindo sua falta. — Admitiu finalmente.
— Ficamos apenas algumas horas separados. — Brincou ela, achando que suas palavras não teriam efeito.
Ele esboçou algo parecido com uma risada e balançou a cabeça. Pareceu meio envergonhado ao ouvir aquela declaração.
— Eu sou um tolo.
— Não, você não é. — Sara retrucou na hora. Queria tocar em seu rosto e trazê-lo para si, pedindo-lhe desculpas por um comentário não muito pensado.
Rapidamente ele a observou, mas teve de voltar à rua.
— Queria passar o dia todo com você fazendo tudo ou nada. Lembra?
Ao ouvir aquilo Grissom deixou escapar um sorriso. Recordou-se do que falou na manhã daquele último sábado. Tinha de admitir que ainda existia uma euforia dentro do seu corpo. Parecia vinte anos mais jovem, um apaixonado que desesperadamente sofria com a distância de sua amada. Era melhor ter cuidado com isso.
— Sara. — Ele mudou de expressão. Uma hora teria de falar aquilo ou ela acabaria descobrindo.
— Diga.
— Recusei a proteção.
Virada para a frente, a detetive fechou os olhos.
Já esperava por isso.
Não era seu desejo, mas ela prometeu que daria apoio a ele independente da escolha que tomasse. Era o momento de fazer valer a promessa.
— Sei que você não queria isso. Mas espero que me entenda.
— Falei que ia estar com você e é isso que vou fazer.
Eles ficaram em silêncio. Não faltava muito para chegarem no prédio da polícia, então quaisquer assuntos não recomendados para se falar em público precisavam ser ditos logo.
— O que você faria no meu lugar?
Sem responder o sargento se virou para ela.
— Se fosse eu quem recebesse o bilhete.
Grissom pressionou as mãos no volante. Ameaçou suspirar, mas parou antes. O assunto era Sara, o caminho da conversa mudava completamente. Ele a encarou mais uma, e mesmo que breve, o semblante mostrou indignação.
Os olhos dela buscaram pelo parceiro. Mesmo de lado era possível notar a seriedade em seu rosto. Sara nunca havia feito uma pergunta daquelas, sequer cogitou uma ideia parecida. Aquela pergunta demorou mais tempo que o normal para ser respondida. Quando ela moveu os lábios, prestes a falar, o sargento soltou as palavras:
— Eu moveria o departamento inteiro para te proteger. — desabafou de uma vez.
Já era possível enxergar o prédio da polícia.
Perplexa, ela sorriu. Fez um gesto negativo com o pescoço e cruzou os braços.
— Dois pesos e duas medidas, afinal. — Ironizou. No fundo já imaginava que ele diria algo do tipo.
— Você é uma das pessoas mais importantes da minha vida e acha que não iria fazer o possível para te manter a salvo? — A voz dele foi dura e ao mesmo tempo indignada.
— E o que acha que eu penso sobre você, hein? — Ela retrucou quase no mesmo tom — Acha que eu não penso sobre o que aquele desgraçado pode tentar com você?
Grissom franziu o cenho. Já irritado, de última hora ele mudou de caminho. Virou à direita e se desviou do seu destino. Sara não entendeu o motivo da repentina mudança de planos, mas estava chateada para questioná-lo na hora.
Ele continuou, deixou a Las Vegas Boulevard e pegou outra via. Para retornar ao caminho seria preciso mais tempo; um desvio que Grissom achou mais que necessário. Uma conversa sem fim seria um desastre.
— Por que está fazendo isso? — perguntou ela, o cotovelo estava apoiado na porta. Antes havia olhado para o relógio para saber das horas e o tempo não estava favorável.
O sargento não respondeu. Acelerou o carro ligeiramente, um pouco abaixo do limite permitido na via. Quando chegou na área comercial seus olhos caçaram por um local livre para estacionar. Caso se afastasse mais, o retorno ao departamento levaria mais tempo, sem contar com o trânsito que às vezes engarrafada do nada.
Enfim, sua visão capturou um estabelecimento fechado que oferecia espaço para estacionar. Ele manobrou o carro, parou e o desligou. Tirou o cinto de segurança em seguida e virou-se para o lado direito, encontrando-a de cara fechada; ela nem ao menos precisou dizer que foi uma péssima ideia fazer aquilo.
— Pronto. Agora vou falar. — O sargento baixou a cabeça para tomar coragem.
— Hum. — Sara balançou a cabeça novamente.
— Você acha que eu não ligo para o que está acontecendo comigo? Eu estou revoltado com tudo isso, Sara! Não tem um dia que eu passe sem imaginar aquele assassino pensando em mim. — Ele tocou em seu próprio peito com vontade.
— Por que, então? — Ela indagou — Por que você não aceitou?
— Por que não está certo! — Mais que sua voz, seu olhar clamava a ela para que fosse ouvido — Isso... isso... não está certo. É isso que ele quer. Quer que eu acredite que posso me tornar um alvo. Ele quer me atacar indiretamente, fazer a minha cabeça.
Sara o assistiu imóvel e sem saber o que fazer ao término de suas palavras. Agora entendia o motivo de ele mudar o rumo, não havia como falar algo daquilo em pleno estacionamento lá da polícia. Só não entendia o motivo de toda aquela conversa ser num lugar como aquele numa hora como aquela.
— Ele tá conseguindo, Sara... — Sussurrou de repente.
A morena baixou o olhar. Ameaçou ergueu a mão esquerda para tocar em seu rosto, mas recuou por conflito.
— Se de alguma forma ele quiser me atingir usando você...
— Ele não vai. — A detetive falou tão baixo que não tinha certeza se ele ouviu.
— Zodíaco pode não ter me atacado diretamente, talvez nem faça isso. Mas e você, hein?
Ela chegou a rir; não sabia se era nervosismo, sarcasmo, só entendeu que riu e não tinha explicação sequer para isto.
— Não posso perder a mulher que eu amo.
O coração dela bateu mais forte. Foi quando ela soube que o parceiro a atingiu em cheio. Ainda assim, teve medo de encarar aquele olhar que a arrebatava quase sempre. Desviou-se para a direita e aspirou duas vezes.
— Quer saber a verdade? — Grissom se calou esperando que a mulher voltasse a lhe dar atenção — Odeio me sentir indefeso, é isso. — Ele suspirou e apoiou o braço no volante — Eu... é uma sensação de estar acorrentado numa jaula... com animais famintos do lado de fora tentando arrombar a porta. — O sargento se recostou — Pode parecer tolice, mas é assim que eu me sinto, sendo obrigado a me proteger sob uma redoma por causa de um bilhete.
O olhar de Grissom era triste ela nem o observava para saber disso. Ao tirar o braço do volante, ele tratou de ver as horas já pensando na desculpa que daria ao capitão pela demora.
— Pode achar que sou egoísta, mas não estou disposto a arriscar a segurança da mulher da minha vida. — Ele deu bastante ênfase às últimas palavras.
Silêncio.
Ele estava quase desistindo de uma reconciliação naquela hora. Grissom cerrou os punhos, fechou os olhos e estendeu a mão para ligar o carro. De tantas escolhas que poderia ter feito aquela foi a mais irracional. Estar ao lado dela fazia seus sentimentos gritarem.
Antes mesmo de tocar na chave a mão dela o impediu, segurando-a firme. Assustado, o sargento encarou o gesto e lentamente subiu o olhar em sua direção. Sara o puxou pela nuca e encostou os lábios nos dele. Foi uma das coisas mais perigosas que ela fez, mas foi irresistível. Ao término do beijo de dois segundos, Grissom se afastou rápido, mas não ficou tão longe assim.
A distância de suas testas, tão próximas, evidenciavam o fato de que não queriam ficar separados, mesmo que fosse tão arriscado. No momento em os lábios dela tocavam os seus ele não queria outra coisa senão aquilo, não queria parar mais. Um beijo daquele não era suficiente e os dois sabiam disso, porém seria algo irresponsável.
— Sara, você- — Ele se interrompeu olhando para trás, definitivamente preocupado. Não havia ninguém, a área estava tão vazia quanto o deserto. O homem se voltou a ela e baixou a cabeça. Passou a língua sobre os lábios e lamentou com um suspiro.
— Agora já foi. — sussurrou. Não dava para saber se estava arrependida ou não.
Aos poucos ele se afastou sem tirar os olhos dela. Respirou fundo e colocou o cinto de segurança. Virou-se uma última vez para trás na tentativa de se certificar que não havia ninguém à espreita.
— Vamos... voltar. — disse ele ainda sem jeito, dando a partida no carro em seguida.
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