Manhunters
77 Caminhos separados 2
Notas iniciais
— Sara? Oi... está tudo bem? — perguntou o detetive — Estava ficando preocupado, você-
— Tá tudo bem, Max. Não se preocupe. — Ela o cortou erguendo a mão direita e forçando um sorriso — Me desculpe, eu e o sargento Grissom estávamos discutindo acerca do... caso — Disfarçou — e não vimos o tempo passar. Eu sinto muito.
Sara voltou às pressas para se encontrar com Ivanenko na sala de análise. Dizia ela estar tudo bem, mas na verdade era fingimento. O motivo pelo qual não estava 100% bem não podia ser revelado de maneira alguma, então disfarçou com aquele sorriso no rosto e uma desculpa na ponta da língua.
— Oh, sim. Ok...
Mesmo desconfiando da resposta, o melhor para ela seria dar continuidade à conversa e deixar aquilo passar.
— Eu... irei voltar a... pesquisar sobre a vida da nossa suspeita. Tem alguma novidade sobre as ligações?
— Não, ainda não... — O detetive levou a mão à nuca — Não há nada relevante nas ligações anteriores do Lewis, mas vou continuar trabalhando nisso.
— Ótimo. Eu estarei na sala vendo o perfil da suspeita.
— Sabe que pode usar a minha mesa, não é?
Aquela sugestão a pegou de surpresa. Recuando o torso para trás ela moveu os lábios para responder, mas ficou sem reação.
— Não, é que... eu me sinto melhor... naquela... sala. — Pensou numa resposta para complementar — Me concentro melhor lá.
— Ah, ok... — Maksim desviou o olhar para o lado por um segundo e depois a encarou de novo — Já que está tudo bem com você, eu irei voltar às ligações.
— Certo. — Ela sorriu. Desta vez o gesto pareceu mais evidente já que se viu livre da conversa.
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Casa de Ryan Park, North Las Vegas, 17h03min.
Grissom saiu de seu carro atentando para o movimento na rua. Observou a casa à sua frente, seu destino. Havia um carro estacionado à porta da garagem e um outro rente a calçada, provavelmente tinha gente na casa. Grissom ajeitou a gravata e o terno que mal usou durante o dia. Meio sem jeito o sargento chegou à porta da modesta casa. Hesitou por momento antes de tocar a campainha, imaginando o que pudesse falar sem estragar relação já abalada entre os dois; quando o fez já era tarde para recuar. Respirou fundo e manteve-se de peito rígido e cabeça à altura normal.
Quem abriu a porta foi uma figura conhecida. Era o irmão da vítima, Joseph Park. Ele estranhou a presença de Grissom, não como ser humano, mas como policial. O homem deu um passo à frente e quase fechou a porta por completo.
— Sargento Grissom... — falou o homem mais velho, nitidamente incomodado — A que devo sua presença?
— É sobre o caso, senhor Park. E a propósito, por que está na casa de seu irmão, senhor Park?
O semblante de Joseph se fechou ainda mais, porém aquilo não intimidou o sargento, acostumado a ser recebido assim. Ser confrontado com esta pergunta pareceu-lhe uma ofensa e pelo semblante queria deixar bem claro que não gostou. De certa forma Grissom sabia da possibilidade de encontrar o irmão da vítima ali, mas ainda assim quis "provocá-lo" para saber sua resposta.
— Porque ele está morto e preciso cuidar dos preparativos do enterro? — Park engrossou o tom.
— Claro que sim. — disse após observá-lo momentaneamente — Perdoe a minha inconveniência.
— Por que o senhor está aqui a essa hora, sargento? — Era a vez dele. O homem mais velho não via a hora de arranjar um motivo para expulsar Grissom de sua vista.
— Já falei, é sobre o caso. — Grissom olhou para trás instintivamente — Seu irmão foi morto enquanto trabalhava numa história, provavelmente foi atraído para uma armadilha. Quanto mais rápido eu começar a investigá-la melhor serão as chances de resolver isso logo.
— O que... disse? — Quase sem voz o homem recuou.
— Não posso dar mais detalhes do caso, senhor Park, nem devia ter falado isso. — Grissom também mudou o tom. Agora estava disposto a conseguir o que queria — Vai me deixar entrar ou terei que arranjar um mandado para vasculhar os pertences de Ryan?
Ainda em choque, Joseph balbuciou algo e desviou o olhar. Em silêncio ele deu um passo para trás abrindo a porta em seguida. Por um momento Grissom achou que Joseph simplesmente entraria na casa e fecharia a porta; até mesmo ele se achou duro demais. Todavia, para sua surpresa Joseph se afastou e fez um gesto para que o sargento entrasse.
Por dentro a casa era modesta, típico de uma pessoa que vivia só ou com mais alguém. Depois da entrada era possível enxergar a escada no canto esquerdo que dava para o segundo andar; a sala de jantar logo à frente e uma passagem que dava para a sala de estar. Joseph pediu que o sargento o acompanhasse e o levou até a sala, onde foi recebido por rostos confusos.
Haviam três pessoas presentes no cômodo. Duas no sofá maior e uma na cadeira próxima à janela, mais para os fundos. Na pequena mesa de centro havia uma garrafa térmica, xícaras e outros objetos que davam a entender que faziam um lanche, além de um cinzeiro. Eram dois homens e uma mulher; detalhe para o homem mais velho e que aparentemente era o fumante.
— Jo? — Confusa, a mulher perguntou. Era loira e parecia gostar de ostentar os longos cabelos lisos pela forma que movia sua cabeça. Vestia roupas simples, típicas de alguém que ia fazer uma visita a um amigo ou amiga.
— Esse aqui... é o sargento Grissom... responsável por investigar o caso. — Joseph fez um gesto indicando o homem do seu lado.
Grissom, meio sem jeito, acenou para as figuras presentes sem focar em seus olhares. Mesmo esperando encontrar outras pessoas, sentiu-se desconfortável da mesma forma. Os três responderam claramente sem graça. Grissom e Joseph trocaram olhares rápidos, o policial, cansado de demora, deu um passo à frente e tomou a palavra. A presença de sua parceira ajudaria bastante, mas no momento era só ele.
Antes de falar, Grissom focou o olhar no homem mais velho. De alguma forma ele o intrigava, como se já o tivesse visto antes. Para não causar suspeitas mudou a direção do foco, alternando-o entre os três.
— Creio eu que vocês sejam parentes ou amigos da vítima.
— Ethan Rowes, Gillian Height e Shane Reed. — Joseph os apresentou, apontando para cada um deles.
— Acho que já vi o senhor em algum lugar. — Grissom não perdeu a oportunidade para chamar a atenção daquela pessoa. Era o homem mais velho que aparentemente fumava, visto que o cigarro no cinzeiro estava mais próximo dele.
— Deve ter visto. Sou o editor-chefe do Las Vegas Globe. — Rowes concordou.
O sargento aproveitou a deixa e o encarou por alguns segundos a mais. Ethan era um homem de olhar afiado e que não deixava se intimidar por qualquer um, muito menos por Grissom, pessoa a quem o editor-chefe também insistia em manter o olhar.
— Também te vi, senhor Grissom. — Ele assentiu — Lembro-me da história envolvendo o Ryan.
Seu receio era esse, de virar notícia mais uma vez. E parecia que este receio estava se tornando uma realidade aos poucos.
— É... — Sem o que dizer, o sargento apenas soltou uma única palavra. Ele se virou para Joseph que o encarava um pouco sem graça — Imagino que sejam amigos bem próximos de Ryan. — repetiu, isso porque a presença do editor lhe chamou a atenção. Park não trabalhava mais numa redação e a não ser que Ethan fosse realmente amigo da vítima, o outro motivo para estar ali seria o interesse na história da qual Ryan estava trabalhando.
— Sim, nós somos. — Gillian respondeu pelos outros.
— Hum. Como sabem agora, estou investigando a morte do senhor Park.
— Tem alguma novidade? — Rowes se adiantou e exagerou no tom, dando a impressão que tivesse feito uma piada.
— Não posso comentar o andamento de um caso, como deve saber. — Grissom respondeu logo. Ainda mais para alguém como você.
— Tenho certeza que quando isso for esclarecido o sargento irá dizer. — Para amenizar a situação Joseph “respondeu por ele”, que pareceu não gostar.
— Quando tudo for esclarecido nós vamos informar devidamente, do jeito correto. — falou Grissom, dando atenção mais uma vez aos três visitantes — Já que são amigos da vítima eu peço que estejam disponíveis para depor na polícia. Tudo que souberem sobre ele nessas últimas semanas vai ser de ajuda. — Ao terminar de falar o sargento fez um movimento com o pescoço, chamando Joseph para acompanhá-lo a um local mais distante da sala. No começo o irmão da vítima estranhou, mal sabendo o sentido daquela chamada. Para não criar uma situação (mais) desagradável, acatou, e os dois seguiram para a cozinha, que ficava do outro lado da casa.
— Espero não ter atrapalhado a conversa. — comentou o sargento ao olhar para trás.
— Sargento... — Joseph levou a mão à têmpora, claramente incomodado — O que tiver de fazer, faça logo. — resmungou.
— Eu preciso de sua ajuda, senhor Park. — Ele insistiu — Não se lembra que vim buscar os pertences de Ryan para investigar?
Quando abriu os olhos Joseph lançou um olhar cortante ao policial. Ele bateu com ambas as mãos na lateral do corpo e apontou para longe, em direção às escadas. Grissom queria resolver isso o quanto antes; a presença daqueles três, principalmente de Ethan o incomodava. Uma coisa era reunir amigos próximos para discutir os próximos passos do velório até o enterro, e outra era fazer esta reunião logo na casa da vítima. Talvez fosse “birra” do sargento a presença de um jornalista, ainda assim ele os queria longe da história que Ryan trabalhava.
— Vá subindo enquanto eu despeço os outros.
De uma coisa Grissom tinha certeza: conseguiu ganhar mais desafeto do irmão da vítima.
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Oficialmente o turno havia acabado, mas na prática ele só acabava quando eles decidiam que o trabalho do dia terminou. Eram quatro e cinquenta da tarde quando Sara achou melhor parar. Seu trabalho foi basicamente investigar a vida da mulher que estava atrás das grades por envolvimento na morte de Lewis, sem contar com uma ajuda por fora a Ivanenko. As horas passaram e ela nem percebeu.
Quando saiu do lugar onde estava, conversou com Maksim uma última vez e se despediu. Seguiu para a sala do sargento e a encontrou vazia. Luz apagada, clima quieto e um pouco frio até. A mulher soltou um suspiro e inclinou a cabeça um pouco para baixo. Pegou o celular no bolso do terninho e viu uma mensagem que se esqueceu de ler anteriormente:
“Vou sair. Casa do Ryan. Por favor não me espere.”
Ela pressionou o aparelho em sobre a mão. Franziu as sobrancelhas e umedeceu os lábios por nervosismo.
Lá vai ele de novo.
Sozinho, como se estivessem no começo. Tinha momentos em que duvidava se realmente o sargento não pedia para que ela se estressasse com ele.
Sara nem fechou a porta totalmente. Ela cerrou os olhos por um instante e aspirou, na tentativa de manter a calma que aos poucos ia se esvaindo. A detetive pegou sua bolsa, guardou o pequeno montinho de folhas que carregava consigo dentro dela e a pegou. Não respondeu a mensagem; pegou a chave que Grissom deixou na sala, saiu e fechou a porta, trancando-a.
De olhar meio baixo ela fez seu caminho até o elevador. Pensou em voltar para casa e falar com Annie. Aquela conversa não terminou e foi adiada do pior jeito. Muitos assuntos ainda tinham que ser tratados, e o pior deles era sobre Hank.
Droga.
Um detalhe que ela se recusou a compartilhar com Grissom, não por que não estava preparada, mas haviam certos assuntos que achava melhor não contar a ele; pelo menos não tão repentinamente, agora que estavam juntos.
— Sara?
Uma voz a fez despertar da realidade. Sara já havia acionado o elevador e estava esperando ele descer. A morena se virou para trás e encontrou um rosto conhecido vindo em sua direção em passos rápidos.
— Catherine? — Ela ergueu as sobrancelhas.
— Oi, vai descer? — A mulher apontou para o elevador que viria após três andares.
— Vou sim.
— Vou pegar uma carona então. — Cath sorriu calorosamente. Já a outra detetive, pega de surpresa, forçou um sorriso.
Quando o transporte chegou algumas pessoas saíram e só depois da movimentação as duas entraram no elevador vazio, para o azar de Sara que não queria ser pega naquela situação. Catherine foi a primeira a entrar, depois ela. Não levaria muito tempo para descerem, mas para a morena seria uma eternidade.
— Sobre aquele dia... desculpe. — Sara se encostou no canto esquerdo para se afastar dela e aproveitar o pequeno espaço. Realmente ficou sem jeito em ter desmarcado a saída de última hora.
Ao ouvi-la Catherine não se conteve e deixou uma breve risada escapar:
— Hã? Você já pediu desculpas e eu já falei que não precisa pedir desculpas, Sara.
— Infelizmente aquilo... aconteceu e... Não deu para-
— Pare com isso. — Cordialmente ela ergueu a mão direita — Olha só, meu turno já foi e acho que você também deve ter parado pro hoje. Que tal uma cerveja, hein? Eu pago.
— Logo hoje? — Sara brincou. Era uma segunda e geralmente as pessoas evitavam beber nesse dia.
— É mais barato no lugar que eu vou.
Sara ergueu o olhar para ela, que esperava uma resposta. Pelo jeito que perguntou parecia mais que as duas se conheciam há tempos e aquilo a pegou de surpresa. Ela tinha poucos segundos para responder, então pensou rápido em todas as alternativas. Ultimamente ela tem dedicado quase 100% do tempo ao trabalho desde quando chegou a Vegas. Aos poucos a detetive se tornava mais parecida com o namorado, coisa que ela não gostaria para ambos. Que mal iria fazer um copo ou dois?
O elevador estava prestes a chegar ao térreo.
— Quer saber? Vamos. — A morena respondeu animada.
— Ótimo!
Quando a porta se abriu, Catherine segurou-a pelo braço, impedindo-a de seguir em frente.
— Vamos no meu carro.
Preocupada, Sara ergueu as sobrancelhas.
— Calma, eu vou tomar só um copo. — Ela sorriu — Agora você pareceu o Gil.
Você promete?
— Bem... então ok! — Sara veio com aquele sorriso torto mais uma vez.
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No carro da detetive Willows, as duas seguiram para um bar “escondido” a oeste da Strip. Não era o lugar preferido dos policiais, mas Catherine adorava. Segunda-feira à tarde seu interior era totalmente diferente das costumeiras noites. Nos finais de semana ficava abarrotado de pessoas.
Catherine deixou o carro num estacionamento de uma rua ao lado e as duas seguiram adiante. Sem muita conversa elas entraram no bar e o encontraram quase vazio. O clima era bem diferente das ruas de fora, quase sempre cheias. Ao chegarem no balcão foram recebidas por uma mulher de uns cinquenta anos, aparentemente. Ela apareceu com um meio sorriso que logo se apagou e foi perguntando o que gostariam de tomar.
— Duas cervejas bem geladas, Liz. — A detetive mais velha deu duas batidas no balcão.
Enquanto a mulher preparava os pedidos, Sara aproveitou o tempo para dar uma olhada no local. Nos fundos três pessoas estavam reunidas, sentadas à mesa quadrada enquanto falavam num tom médio. Se parasse para prestar atenção ela conseguiria ouvi-los sem problemas. O visual do bar era rústico, tinha tons de madeira e a fazia pensá-lo como uma imitação moderna dos bares estilo velho oeste. Haviam muitos quadros espalhados na parede com fotos, preto e banco e coloridas. Não dava para identificar quem eram, mas devia ser gente importante.
— Sangue novo, Catherine? — Liz brincou quando trouxe dois copos largos, atirando um olhar sobre a detetive morena.
— Pois é. Estou apresentando ela a um segredo meu. — Catherine pegou o copo e o ergueu. Para não ficar por fora Sara se apressou em pegar o copo de cerveja. As duas brindaram e começaram a beber.
Não era um talvez, ela realmente precisava de algo para relaxar. Quando a bebida desceu garganta abaixo, os estímulos no cérebro lhe deram uma sensação maravilhosa, era quase como fumar uma erva. Chegou a fechar os olhos para saborear a cerveja de fabricação caseira, ela deduziu. O primeiro gole foi arrebatador e ela prosseguiu para o segundo gole, moderado desta vez.
— E então, Sara, como veio para aqui, na badalada Vegas? — Catherine virou o corpo para ficar frente a frente com ela.
— Bem... — Sara pressionou o copo sobre sua mão e temeu que se tivesse mais força poderia quebrá-lo de ansiedade — Foi um convite, na verdade. — Para não ter problemas ela depositou o copo no balcão — A sétima vítima do... — Ela sussurrou por segurança — Zodíaco... era amigo do comissário da polícia lá da Califórnia.
— Nossa...
— Acabei sendo indicada por ele já que tenho experiência em resolver crimes violentos. — Ela deu de ombros.
— Uma pena que tenha vindo para cá dessa forma, ainda assim foi algo bom. Novos ares.
— É... — Ela sorriu de lado e desviou o olhar, dessa forma tomou outro gole da cerveja.
— Conta da casa. — Liz se aproximou com dois potes pequenos recheados de amendoim com casca.
— Por isso que eu amo esse lugar. — Catherine piscou.
— Obrigada. — Sara agradeceu. Não era sempre que ganhava aquelas regalias.
— Planeja ficar por aqui quando isso acabar? Ou prefere as praias da Califórnia? — Ela brincou.
— Eu... — Já era a segunda vez que a morena recebeu aquela pergunta e a segunda vez que não tinha a resposta na ponta da língua, muito pelo contrário — Gosto de lá, as pessoas em São Francisco são ótimas... também fui muito bem tratada aqui.
Tirando aquele puto do Sales e... o Grissom no começo.
— Ficaria contente em ver pessoas como você renovando o ambiente por lá. Além disso, você foi a única que “sobreviveu” ao Grissom.
Ele.
Uma pena não poder contar que além de seu parceiro o sargento era seu namorado... e também o homem da qual a deixava com os nervos à flor da pele. Essa última opção estava à tona.
— Pois é. — Nervosa aumentou um pouco o tom.
— Como vocês dois estão se saindo? — Cath perguntou e depois tomou um gole. Então pegou um amendoim, tirou a casca e o comeu — Pelo visto muito bem, não é? Foi só você chegar e as coisas estão fluindo bem.
— Estamos bem. No começo trocamos algumas farpas, tenho que admitir.
O comentário de Sara fez Catherine cair no riso.
— Eu já esperava por isso. Sinto muito por não ter avisado antes.
— Ah... — Sorrindo, a detetive mais jovem balançou cabeça — Mas agora estamos bem.
Profissionalmente estavam bem, sim. Nada mal. Mas o relacionamento amoroso deles estava uma montanha-russa, que no momento pendia para o lado baixo.
— Conseguimos nos entender e agora estamos caminhando para traçar a identidade do suspeito.
— Sabe, acho que sua vinda fez bem a ele. — Catherine disse aquilo enquanto Sara bebia outro gole. Esta quase engasgou.
— É? — Sara fingiu surpresa, mas já sabia daquilo desde o momento em que Grissom começou a se abrir para ela.
— Eu e Gil nos conhecemos há muito, muito tempo. Desde aquele... incidente, alguns anos atrás, ele se fechou. O modo dele em agir, falar, trabalhar mudou completamente. Mas agora... bem, isso é recente, eu tenho visto que ele está mais... amigável.
A morena pegou um amendoim e se preparou para tirar a casca, mas parou. Tateou o pequeno grão e o descascou aos poucos.
— O Grissom está aprendendo a se reconstruir. — Sara comentou antes de comer.
Aquilo era a mais pura verdade. Ele estava aprendendo, o que não o impedia de cometer alguns erros evitáveis, principalmente com a mulher que ele dizia amar.
— Me fale sobre você, Catherine. — A detetive mais jovem perguntou de repente, após dez segundos de silêncio entre elas. O melhor seria tirar o “assunto Grissom”, pelo menos por enquanto.
— Ah... — Catherine parecia envergonhada — Eu falei tanto do Gil que acabei esquecendo de mim mesma.
— Não se preocupe. — Ela sorriu, pegando um montinho de amendoins.
— Bem, sou Catherine Willows, detetive querendo subir de cargo... — Ela foi sarcástica, mas do jeito positivo — Tenho uma menina, Lindsey, sou divorciada e gosto do meu emprego.
— Uau. — Impressionada, Sara só conseguiu dizer isso. Ao tomar um gole de cerveja reparou que seu copo já tinha menos da metade.
— Fui direta demais, não é? — A detetive caçoou de si mesma — Eu vou por partes, desta vez.
Catherine era uma pessoa quem Sara mal conhecia, mas que de alguma forma sentiu-se muito bem para trocar uma boa conversa. Não sabia se era por falta de contato com seus conhecidos; praticamente ela conhecia quase ninguém naquela terra e a esse tipo de coisa, de ter ou fazer amizades ali estava pesando. Um de seus problemas era sua dificuldade em criar relações com pessoas.
Foi interessante ouvir a detetive Willows enquanto contava sua história, separando alguns segundos para fazer comentários ou rir junto dela. Uma conversa banal, típica de pessoas que querem se conhecer. Só ficou séria quando Catherine perguntou sobre a sua vida. Não era uma história fácil de contar, ainda mais a alguém que não tinha muito tempo de convivência. Ela mal falou sobre si direito ao próprio namorado — fato que a fez baixar o olhar por um instante quando pensou nisso —, ainda mais a detetive à sua frente. Contou, então, uma versão resumida: vida dura, orfanato, faculdade, carreira policial e aí estava.
Sara nem reparou que havia pedido outro copo. Quando Liz foi buscar outra rodada, ela olhou para Catherine, preocupada com o que ela pudesse falar.
— Eu pago essa. — Sara se adiantou.
— Deixa, Sara. — Ela gesticulou.
A morena chegou a corar. Dessa vez ficou desconfortável ao saber que Catherine pagaria ao segundo copo de cerveja, sendo que ela nem terminara o seu. Percebendo a alteração em seu rosto, a detetive Willows fez questão de repetir que estava tudo bem.
A conversa se estendeu por mais alguns minutos até o momento que Cath olhou para o relógio no pulso e fez uma careta.
— Droga. — falou baixo. Ela pegou a carteira e pagou a conta, deixando as notas no balcão e fazendo um gesto para Liz, que estava próxima — Sinto muito, mas vou ter que ir, ou a Lindsey vai sair por aí procurando a mãe. — Brincou.
— Não se preocupe, Catherine. Obrigada por isso. — A morena sorriu sinceramente.
— Foi um prazer conhecer você... melhor. — Ela olhou para fora e se voltou para Sara — Vem, vou te dar uma carona.
— Não... não precisa. Eu... tenho outra coisa por aqui para resolver. Obrigada. — Assentiu.
Catherine pareceu não entender a resposta. Quando a viu falar seu rosto parecia meio abatido, mas não sabia se era incrivelmente o efeito do álcool ou algum motivo em particular.
— Ah... está bem.
Com uma troca de acenos, a detetive mais velha se despediu e saiu do bar com certa pressa. Sara virou-se para o balcão e apoiou os braços sobre ele. Abaixou a cabeça e pressionou o copo em sua mão direita. Ficou assim até o momento em que achou melhor se erguer. Ela comeu alguns amendoins de cabeça baixa pensando em tudo que aconteceu no dia. Tinha algo bom para destacar?
Ela pegou o copo meio cheio com vontade e bebeu quase tudo. Sentiu o efeito da bebida ingerida quase de uma vez como uma bomba. Era bom, como uma chama que descia por sua garganta e acendia seu corpo. A mulher chacoalhou a cabeça e bateu o copo no balcão. Então fez um gesto com a mão, chamando por Liz.
— Rum. Forte. — Aquela escolha estava na ponta da língua.
A detetive observou a entrada de canto de olho tão séria quanto fez o pedido. Olhou para seu relógio: 18h41min. Da porta de vidro opaco era possível notar que lá fora estava escurecendo. Deu-se por conta, também que haviam mais pessoas no bar, duas chegaram a se sentar no balcão, um pouco distantes dela.
— Aqui.
— Obrigada. — Sem demora, assim que recebeu o pequeno copo ela tomou um gole pequeno. Respirou fundo e saboreou a bebida, ainda mais gratificante que a cerveja gelada.
Que se danem os outros.
Ela estava irritada, chateada, triste, nem sabia raciocinar o que estava sentindo. Só sabia que precisava beber e aproveitar a companhia de seu trágico amigo, o álcool.
Droga!
Aquilo parecia tão errado, mas seu senso de certo ou errado não estava ligando muito para isso. Copo em mão, ela tomou o rum de uma vez. Balançou as pernas em euforia e aspirou, agradecendo a si mesma por sua arma estar guardada na bolsa, apoiada em sua coxa. Queria mais. Dessa vez prometeu a si mesma que iria aproveitar melhor o sabor da bebida. Animada, chamou por Liz, quase gritando seu nome.
— Uísque dessa vez. Bem forte, por favor.
— Tá tudo bem aí, minha querida? — O tom dela foi sarcástico, mas a mulher carregava uma pontada de preocupação.
A morena olhou para baixo e em seguida para a porta. O semblante mudou, estava triste.
— Não, não está. — Foi sincera — Me dá aí essa dose. — Sua voz saiu meio carregada.
Ficar bêbada ou não, isso não tinha a menor importância. Ela só queria se refugiar ali sem saber o que estava acontecendo ao seu redor. Se beber pudesse fazer os problemas sumirem seria a melhor coisa, mas se pudesse apagar tudo de ruim que houve, pelo menos por algumas horas, era vantagem e ela estava dentro.
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