Manhunters
18 Sangue e Chumbo
Notas iniciais
De volta no tempo.
Sara entrou na loja, um pouco distraída ao pensar no que gostaria de comprar. Imaginou escolher alguma besteira para enganar o estômago, uma bebida refrescante, e é claro, uma garrafa d'água para Grissom. No fundo estava contente com a situação; tudo corria bem. O próximo passo era entrar em contato com Lewis e depois levá-lo, junto dos outros guardas para a delegacia. A história foi mal resolvida e haviam muitas pontas soltas.
A detetive olhou para os fundos do local; lá estava o atendente atrás do balcão e mais uma pessoa à sua frente. Assim que as duas pessoas ouviram o tilintar do sininho da porta, viraram-se para ela. A detetive também percebeu que, no momento, acabou por ser o centro das atenções.
Assim que o homem — de mais ou menos 1,68m — virou-se para a detetive, esta notou o objeto meio reluzente em sua mão. Era um revólver. A mulher não teve tempo de pegar sua arma. Em poucos segundos de reação, o homem atirou.
— Droga! — reclamou a detetive, que pulou a tempo para o lado. Ela usou uma das prateleiras para se proteger. A mulher virou o rosto em direção à porta e depois voltou-se para o caminho do atirador. Pegou a sua arma e segurou-a como se fosse a única chance de sobreviver. E era mesmo.
Sara tinha poucos segundos para agir. Provavelmente imaginou que Grissom ouvira o tiro e estava vindo. Até lá seria tarde demais, precisava agir por conta própria. Raciocinou mais.
Os possíveis presentes na loja deveriam ser ela, o assaltante e o balconista. Não teve tempo observar o local ao seu redor, mas pelo visto era isso mesmo, já que não viu mais carros no local. Talvez o balconista tenha se escondido. Bom.
Rápido, Sara! Rápido!
Os olhos da mulher se arregalaram. Prendeu a respiração, atenta a qualquer som que o suspeito pudesse produzir. Caminhou agachada, mãos firmes na pistola e o coração tentando se manter num ritmo aceitável. Quando ela se ergueu, com as mãos apontando sua arma para frente, aconteceu.
O rapaz, assim que viu a mulher fugir, correu em sua direção para terminar o trabalho. Os dois se encontraram. Seus olhares se chocaram como um relâmpago que toca o chão. Ele estendeu o revólver em direção a ela, pronto para descarregar toda a munição.
Porém, a detetive atirou antes. Duas vezes. Um tiro acertou o lado direito do peito do jovem — mais precisamente no ombro —, que caiu.
— MERDA! — exclamou agitada.
Não teve muito tempo para se acalmar. Ouviu dois tiros vindos de fora. Depois mais outros. Instintivamente se abaixou para se proteger de qualquer bala perdida.
Que droga, o que tá acontecendo aqui?! Pensou desesperada, ao se virar para a frente da loja.
— Grissom... — sussurrou. Precisava sair da loja o mais rápido possível. Aconteceu alguma coisa lá fora e não era nada boa, sabia disso.
Hesitou uma vez, preocupada com o lojista que havia se escondido atrás do balcão. Antes disso, se aproximou do garoto caiu no chão. Checou seu pulso; ainda respirava (e gemia de dor pelo tiro no ombro). Ela pegou o revólver próximo de sua mão e o guardou atrás da calça. Depois caminhou alguns passos em direção ao balcão.
— Você está bem?! — perguntou em voz alta — O suspeito já está contido.
O homem se levantou aos poucos e observou a detetive segurando a arma. Ela tocou em seu braço direito para saber se não entrou em pânico.
— S-sim... — respondeu assustado o homem, que tremia sem parar.
A detetive assentiu: — Fique aqui e aguarde. Vou chamar ajuda.
Sara deu meia-volta e antes que deixasse-o, ele chamou por ela.
—O quê? Aconteceu alguma coisa?
— Mu-muito... obrigado. — disse profundamente agradecido, dava para perceber em seus olhos, que começaram a lacrimejar.
Ela apenas assentiu. Então correu imprudentemente para fora da loja, mesmo sabendo que outro tiroteio poderia começar. A luz do sol ofuscou um pouco sua primeira visão de fora, e quando se acostumou...
— Ah não... — sussurrou balançando a cabeça repetidas vezes.
Bem na sua frente. Era ele, caído no chão a poucos metros. Logo pôde sentir o cheiro de sangue que a brisa trouxe ao seu nariz. O cheiro, misturado com o odor da gasolina causavam-na uma sensação nauseante. Foi como tomar um soco no estômago; algo dentro dela a impediu de agir ou falar.
Isso não pode estar acontecendo... não pode...
Ela se virou para o lado, encontrou outro homem caído. Um rapaz, na verdade, não muito longe de Grissom. Havia uma poça de sangue em volta de seu corpo; era muita, não podia ter sobrevivido àquela perda. Um dos policiais foi checar se havia pulso. Antes, pegou a arma do rapaz e a guardou; assim que checou o pulso, balançou a cabeça negativamente.
— Grissom...
Tudo mudou em tão pouco tempo. Nada daquilo parecia ser verdade. Não podia ser verdade.
O outro policial que estava próximo ao sargento, lhe dava os primeiros socorros.
— Droga, alguém pode me dizer que inferno aconteceu aqui?! — questionou irritada aos policiais.
— Ouvimos o tiro vir da loja. — respondeu McCarty, que estava próximo ao rapaz morto — O sargento correu para te auxiliar, mas esse aqui o parou. Ele ouviu os tiros novamente e tentou entrar na loja, mas o rapaz pretendia atirar.
— E o que aconteceu?! — Ela fez um gesto com as mãos, mais confusa que antes.
— O sargento Grissom simplesmente... Não atirou. — disse preocupado.
— Como assim não atirou?! — Questionou a morena, mais atônita ainda.
— E-eu não sei! O rapaz atirou logo em seguida e acertou o sargento duas vezes. Eu e o Souza atiramos nele, que acabou morrendo. — terminou apontando para o rapaz e caminhando em direção à ela — Você está bem?
— Estou... Que droga... — A detetive balançou a cabeça, levando a mão ao rosto. Logo se lembrou do garoto na loja — Tem um ferido lá dentro, devia ser o comparsa dele. Ele tentou atirar em mim, mas consegui revidar. Precisa ir lá ajudá-lo.
— Tá! — Assentiu, indo rapidamente para dentro da loja.
— Ah... AH! — gemeu o sargento, caído no chão. Acabou chamando a atenção dos dois que conversavam.
— Aguente firme, sargento! — falou o policial Souza, pressionando a ferida — Essa ambulância tem que chegar logo, ele tá perdendo muito sangue! — alertou.
Sara olhou para o parceiro caído. De repente esqueceu-se de tudo que passou com ele antes. O momento era o agora e no momento, ela tinha medo. Mal tinha coragem de se aproximar dele. Se morresse, não estaria próxima para vê-lo e ouvir seu último suspiro. Ansiava desesperadamente que estivesse apenas sonhando e que o despertador tocasse para livrá-la daquilo.
Sara...!
— Sara! — gritou o policial Souza, o que a fez acordar para a realidade.
— O-o que!
— Ajude-o aqui! Tem que pressionar a mão sob a barriga. Rápido!
Ela se aproximou dele correndo como nunca e quando o fez, observou-o bem. Sua perna esquerda e a barriga — mais precisamente perto da região lombar — foram atingidas. Era possível ver com clareza o sangue manchar as suas roupas.
— Grissom... — sussurrou ela ao se ajoelhar. O policial entregou-lhe um pedaço de tecido. Sara pôde perceber que o tecido que o policial segurava estava completamente manchado de sangue. Com força a detetive pressionou o tecido sobre o ferimento na barriga.
— Sara...! — disse ofegante ao sentir a dor da ferida pressionada — AH... você tá bem?
Que idiota, é ele que está ali perdendo sangue e vem me perguntar se eu estou bem?!
— Grissom, cala a boca! Preocupe-se com você, droga!
Calma, Sara.
— A ambulância vai chegar e eles vão dar um jeito em você, seu idiota. — disse para ele, dessa vez mais calma.
Ele soltou um riso misturado com lamento.
— Quanto tempo, Souza? — falou baixo para o policial ao seu lado.
— Uns dez a quinze minutos. — respondeu — Já alertei aos paramédicos assim que o suspeito foi abatido. Também chamei por outra viatura.
— Eu... já encarei... coisa pior. — O sargento falou de repente.
— Percebi, você não para de falar! — ironizou — Agora, fica quieto!
Foram longos sete minutos. Nesse tempo Sara e o outro policial permaneceram na mesma posição a pressionar o tecido na perna e em sua barriga. Eles não podiam deixar que mais sangue escorresse de seu corpo ou seria fatal. O tempo estava acabando e Grissom ficava mais debilitado. O sargento não se expressava diretamente, mas seu olhar e as feições de seu rosto explicitavam a intensa dor que sentia.
— E... estou com... frio. — disse em voz baixa, tremendo.
— Ele está entrando em choque. — disse o policial, se levantando — Vou pegar a manta térmica na viatura. — Em seguida ele correu para o carro, deixando os dois.
O sargento fechou seus olhos por um instante.
— Ei, não durma! Tem que ficar acordado, Grissom! — A detetive balançou rapidamente as suas mãos, na tentativa de deixá-lo alerta.
Assim que a ouviu, o sargento abriu lentamente os olhos, dirigindo-se a ela.
— Olha só, você vai ter que aguentar, Gilbert!
— Gilbert...?
Foi a primeira vez que ela o chamou pelo seu primeiro nome. Estranho o jeito como aquilo soou. Ele soltou uma breve risada espontânea, que foi interrompida por uma tosse. Chegou, ainda, a expelir um pouco de sangue.
— Pare de rir! Isso não foi engraçado! — Nervosa, ela brigou com ele, sabendo que o mesmo não tinha culpa.
Vamos logo, cadê essa ambulância, droga! Pensou, olhando para a estrada ao longe. Ela tentava não se concentrar no estado atual dele para não perder a calma. Foi treinada para isso. Mas parecia que o treinamento não estava adiantando muito.
— Sara... — O homem disse em voz baixa, chamando a atenção dela.
— Que foi? — perguntou, voltando-se rapidamente a ele.
— Eu... tô cansado.
Não fala isso... Por favor...
— A ambulância já tá chegando. — Sara o encarou nos olhos — Você está há muito tempo na procura daquele assassino. Precisa resistir, Grissom! — Ela disse, após flexionar um pouco seu corpo.
Ele tentou erguer a mão direita, mas falhou.
— Ch-cha... ves. — sussurrou ele, sua voz estava notavelmente fraca.
— O quê? Suas... chaves? — A mulher questionou nervosa.
Levemente o sargento assentiu, fazendo força para erguer um pouco a mão e apontar para o bolso direito de sua calça.
— Tá, tá bom. — Sara se esgueirou um pouco e pegou o objeto no bolso de sua roupa, guardando-o em sua jaqueta logo em seguida. Então continuou a pressionar o ferimento em sua barriga, o que parecia ser o mais grave — Agora... vê se aguenta aí.
Souza chegou com a manta térmica e o cobriu rapidamente. Em seguida verificou o estado do ferimento em sua perna que sangrava menos; mesmo assim voltou a fazer pressão para evitar perdas maiores.
O sargento e a detetive não se falaram mais.
Depois de quatro minutos, duas ambulâncias chegaram. A equipe dos paramédicos veio correndo com uma maca na direção dos dois. Outra equipe entrou na loja a pedido do policial que os aguardava do lado de fora.
Os socorristas pediram para Sara e o policial se afastarem, que, em silêncio o fizeram. Foi a última vez que seus olhares da detetive e do sargento se encontraram antes que ele fosse levado para dentro da ambulância. Souza informou aos socorristas tudo o que aconteceu e o estado de Grissom. O sargento foi posto rapidamente na maca e logo lhe colocaram uma máscara de oxigênio. Foi levado em seguida para a ambulância. Um dos socorristas perguntou a detetive se ela queria ir junto.
— E-eu tenho de ficar... — respondeu hesitando.
O homem assentiu e não esperou mais, foi correndo até o veículo, que foi fechado. A porta da loja se abriu e os outros paramédicos trouxeram o suspeito ferido para fora diretamente até a outra ambulância. Nem Souza, nem McCarty acompanharam o sargento, pois já estavam envolvidos na morte do jovem e precisariam ficar na cena do crime.
A sensação de solidão chegou novamente à detetive.
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