Manhunters
33 Revelações na sala de interrogatório
Notas iniciais
A sala ficou em silêncio.
A detetive arqueou as sobrancelhas, assim como o sargento. Ambos estavam atônitos, mas não da mesma forma e intensidade. O guarda fechou os punhos com força e os apoiou sobre a mesa. Apresentava-se visivelmente alterado e nervoso, e mal sabia direito o que acabara de fazer.
— Dios mio... — Pedro disse em voz baixa, levando suas mãos ao rosto.
Sara se virou para o parceiro, que, irritado, observava o guarda. Quando percebeu-a, dirigiu seu olhar a ela. Não se falaram.
— Isso é ótimo, senhor Hernández! — Satisfeita, ela ergueu os braços e caminhou na direção dele.
— O-olha. Eu vou falar, mas só junto de um advogado.
— Claro, nós vamos providenciar um defensor público para o senhor. — Sara terminou de falar ao olhar brevemente para Grissom, que se mantinha sério — Aguarde um pouco, já já voltaremos com alguém. — Ela assentiu para ele, lançando-lhe confiança.
Sara se afastou dele, pronta a seguir com ou sem Grissom, que continuava parado no mesmo lugar. A vontade que ela tinha era de "jogar na cara dele" o que aconteceu naquele visto momento. Mas achou que não valeria a pena, e só pioraria o relacionamento deles.
Só que antes da detetive se aproximar do sargento, o guarda se manifestou mais uma vez:
— Também vou querer... proteção para... a minha família. — Pedro quase sussurrou as palavras finais.
Como eu imaginei.
— Vamos resolver tudo isso com a chegada do seu advogado, senhor Hernández. — Disse, ao pegar as pastas em cima da mesa. Ela respondeu daquela forma já que não podia garantir quaisquer garantias a ele. Preferiu dar o assunto previamente por encerrado que fazer promessas das quais não tinha certeza que seriam cumpridas.
O guarda, não muito satisfeito, se virou para a frente. Cruzou as mãos de novo e inclinou a cabeça um pouco para baixo.
Sara jogou outro olhar para Grissom, que evitou fazer o mesmo, vindo a se dirigir à porta. Então esperou que ele passasse primeiro, e quando o fez, expirou por longos segundos.
Ele tá começando a fazer aquilo de novo! Pensou, ao fechar os olhos e morder o lábio inferior.
Ao se virar ligeiramente para trás, percebeu que o guarda continuava na mesma posição. Ela se virou para a frente, e visto que não tinha mais nada a fazer ou a falar naquela sala, se retirou dela.
A detetive chegou por último na sala ao lado e foi recebida de imediato por dois rostos satisfeitos: o de Brass e (mais ou menos) o de Carver. Já Grissom estava de costas, a observar o vidro do painel.
— Ei, até que enfim vocês tem alguma coisa! — O capitão exclamou animado, olhando para os dois policiais. O sargento não reagiu.
— Até que enfim, mesmo. — Ela reforçou as palavras dele, vindo a suspirar.
— É, e eu ainda duvidava de você. Mas percebi que você fez um bom trabalho, Sidle. — Brass soltou um largo sorriso para a detetive, e depois riu brevemente.
— Eu não fiz nada. — Sara balançou a cabeça — Foi ele quem tomou a decisão correta.
— Ah você é bem modesta! — Ele fez um gesto com a mão em brincadeira — Então, deixa eu sair daqui. Vou logo ver se encaminho um defensor para o nosso amigo. — O capitão fez um gesto com o polegar para trás. — Bom trabalho. — Concluiu, assentindo para a detetive. Depois seguiu para fora da sala.
Carver, que ainda permanecia dentro da sala no lado direito do vidro, caminhou para o meio da sala e se virou para Sara. Grissom fez um leve movimento com o corpo para o lado e depois voltou a observar o painel.
— Vocês dois foram bem, mas precisam continuar e descobrir mais evidências. Não apenas nessa vítima, mas nas outras também. Não dá para montar um caso de cumplicidade sem o assassino.
Ela assentiu ao olhar para o chão.
— Soube que não encontraram nada relevante com primeira vítima.
— Pois é. — respondeu, ao voltar seu olhar para o promotor — Após esse caso, eu-... nós pretendemos reanalisar os outros o mais rápido possível. Grissom já está identificando a arma do crime. — Ela apontou o para ele rapidamente.
— Certo. O bom é que após muito tempo estamos progredindo. Façam a parte de vocês que farei o possível e o impossível para termos um caso forte.
— Obrigada. — A detetive deu um sorriso de lado.
Bartholomew estendeu a mão para ela, que retribuiu o gesto.
— Até mais, detetive Sidle. — Assentiu — Grissom. — Disse em tom de despedida ao se virar para o sargento.
— Até mais, Bart. — Grissom respondeu pela primeira vez após um tempo; ainda imóvel.
O promotor de justiça deixou a sala e fechou a porta.
Agora estavam sozinhos.
Sara fechou os dois punhos, ainda irritada com as últimas atitudes do parceiro.
— Uma hora e pouca atrás. Perguntei se você estava bem para prosseguir com os interrogatórios.
Grissom balançou a cabeça.
— Você me respondeu que sim. — Ela disse sarcasticamente — Mas tudo o que vi foi um homem que não lutava para manter a calma, mas sim, um homem que lutava para não partir para cima dos caras!
— Isso é um exagero! — O homem se virou para ela. Seu semblante era de alguém inconformado com aquela "acusação".
— Veja só. — Sara apontou a mão para ele — Desde quando chegamos em Vegas você tem estado muito "estressadinho", ou pensa que eu não percebi? — Terminou dando de ombros.
Grissom desviou o olhar e franziu as sobrancelhas.
— Tem que se acalmar, Grissom! Se continuar dessa forma só vai prejudicar a si mesmo! E sem contar que você já não está 100%. — Ela apontou para ele, diretamente para a região de onde levou o tiro na barriga.
— Eu sei, Sara. E agradeço a consideração, mas-
— Tá, tá, já sei! — A detetive retrucou impaciente — Você vai ficar bem e eu não preciso me preocupar.
Ele deu de ombros, como se não tivesse mais nada a declarar.
— É, — Ela arregalou as sobrancelhas, e continuou com um tom de voz mais alterado — mas o que acontece é que você não deixa!
Não percebe que eu me preocupo com você, seu idiota?!
Silêncio. Ambos trocaram olhares... olhares incompreensíveis. Como se estivessem tentando enviar alguma mensagem, porém o ruído os impedia de captá-la.
— Eu vou comer alguma coisa. — Ela falou, e sem esperar resposta, deu meia volta e deixou a sala.
Irritado, Grissom se voltou para o vidro. Ameaçou bater no painel com o punho direito fechado, mas parou centímetros próximo e apenas encostou na superfície com a palma aberta. Fechou seus olhos.
Droga. DROGA!
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A morena seguiu para a copinha. Passou por espaços quase vazios. Num domingo era óbvio aquilo acontecer. Sentiu-se até bem em não ser recebida por dezenas de olhares, como ontem, na vez quando chegou com Grissom. Poucas pessoas estavam presentes e estas mal se davam o trabalho de observar a detetive da Califórnia caminhar.
Como andou em passos rápidos chegou sem demora à salinha. Seguiu para perto da máquina de salgados e doces e analisou por um bom tempo qual o produto que iria escolher. Mas antes de pegar uma nota no bolso da frente sua calça, sentiu o celular vibrar no bolso de trás. Alguém estava ligando.
Ela olhou para o visor do celular e sua feição mudou num instante. Ficou enraivecida. Se pudesse, quebraria o celular com a mão de tanta raiva que sentiu ao ver aquele nome.
Desgraçado!
Após três "toques", ela finalizou a chamada com vontade. Esqueceu-se de bloquear aquele número. Queria dar um jeito de nunca mais ter que se encontrar com ele quando voltasse a São Francisco.
— Seu desgraçado filho da-
— Sara?
Ela levou um susto, vindo a manifestar um breve movimento involuntário. Estava de costas para ele.
— G-grissom? O que está fazendo aqui? — questionou-o um pouco alterada. Enquanto se virava para ele, aproveitou para guardar o celular no bolso.
— Você está bem? — Ele franziu a testa.
— Eu tô sim. Mas o que veio fazer aqui? — insistiu, um pouco nervosa.
— Hernández pediu alguma coisa para beber.
— Me admiro que tenha vindo aqui do jeito que está apenas para pegar algo pra ele. — Sara cruzou os braços. Chegou até a soltar um sorriso de lado.
— Não... não foi exatamente por isso que vim aqui. — Ele disse, olhando para o chão.
Ela ergueu uma sobrancelha. Poderia ser o que estava pensando?
— Então pra quê? — A detetive prosseguiu, ao perceber que ele se calou.
— Eu... é... não queria ser grosso ou ignorante com você naquela hora.
Parece que já vi essa cena antes.
— E também, quando... critiquei você ao falar daquele jeito com... o Philip. — Grissom parecia se forçar ao ter que soltar aquelas palavras. Um pequeno vestígio de orgulho era notado, da mesma forma que a tentativa de melhorar também se mostrava presente.
Sara abriu a boca em poucos centímetros, prestes a respondê-lo. Mas pensou bem e revisou a sua fala.
— Acho que estamos progredindo aqui. — Assentiu, ao sorrir brevemente — Tudo bem, esqueça, vamos nos concentrar nesse caso.
— Isso tudo tá acontecendo por sua causa, Sara. — Enquanto ela preferia não se concentrar nele, o sargento mantinha-se fixo nela.
— Ah... eu... — balbuciou, um pouco envergonhada — só fiz o meu trabalho. — Continuou, ao se virar para a máquina de doces, pegar o dinheiro no bolso, colocá-lo na máquina e pressionar dois botões.
— Um bom trabalho, na verdade. — Ele comentou a voz baixa, ainda assim a detetive pôde ouvi-lo.
Ela se agachou para pegar duas barras energéticas. Após isso seguiu na direção de Grissom.
— Toma aí. — Sara estendeu uma barra para ele.
De começo o sargento olhou meio perplexo para ela. Após uns três segundos, após recobrar-se de si, pegou o produto.
— Obrigado...
— Eu vou esperar na sala do painel. — Comentou, já se encaminhando para sair.
— Está bem... — Ele respondeu, mesmo que sua parceira já tivesse ido. O homem olhou para a barra em sua mão e depois a pressionou levemente.
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Foi decidido que, enquanto estivessem à espera do advogado do guarda Hernández, Grissom e Sara deveriam interrogar Samuel Davis, já que não o haviam feito. Então seguiram para outra sala, um pouco mais perto da entrada daquela área. O guarda, que já se encontrava dentro do espaço, se mostrava neutro. Vestia uma calça jeans preta, tênis branco e camisa amarela lisa. Estava encostado na cadeira, de frente para o painel, dessa vez do lado direito da sala. Quando ouviu a porta se abrir, virou seu rosto para ver quem era.
— Bom di-... que horas são? — Ele perguntou risonho para Grissom, que foi o primeiro a entrar.
— Hora do seu interrogatório. — O sargento respondeu sorrindo.
— Não quis um advogado, senhor Davis? — perguntou Sara, ao se sentar na cadeira da esquerda. Grissom sentara na cadeira mais próxima da porta, a da direita.
— Não. — Ele deu de ombros, como se não desse a mínima para a situação.
A morena franziu as sobrancelhas.
— Posso te fazer uma pergunta não muito convencional?
— Estou limpo, senhora. — Samuel ergueu as duas mãos num gesto pacífico, ao perceber claramente qual pergunta que ela faria.
— Tá bom... — Ela revirou os olhos.
— Vamos começar logo. — Grissom deu uma leve batida com a muleta no chão.
— Deve saber o motivo de estar aqui. — A morena aproveitou o comentário do parceiro e continuou, enquanto encarava o homem à sua frente.
— Vim para dar meu depoimento oficial, não é? — Ele apontou para Sara.
— Está aqui porque essa história foi muito mal contada, Davis. — O sargento retrucou ao baixar um pouco a cabeça.
O guarda franziu a testa.
— Não se faça de desentendido, senhor Davis. — Sara foi sarcástica. Ela abriu a pasta que trazia consigo e continuou: — Descobrimos que no dia do assassinato de Vanessa houve um trabalho interno. A única câmera presente foi movida, possibilitando a entrada e saída do assassino no parque.
— Perai. — Davis ergueu a mão direita — Do que estão falando? Como descobriram isso?
— Nós somos detetives, senhor Davis. — Estressado, o sargento ironizou — Tivemos acesso aos vídeos de vigilância e então descobrimos esse feito magicamente.
— Nenhum de vocês nos contou sobre isso-
O guarda interrompeu a detetive, manifestando-se um pouco inconformado.
— Talvez porque nenhum de nós soubéssemos disso. — Samuel soltou uma breve risada.
— Ou talvez porque todos vocês estejam envolvidos nisso. — Grissom retrucou, sorrindo em deboche.
— Veja só. — Sara retirou as fotos da pasta e mostrou-as para ele.
— Não, não. — Davis fez um gesto negativo com a mão — Eu não tenho nada a ver com essa história aí. Cheguei pouco antes da meia-noite! — Ele apontou para as imagens após analisá-las por alguns segundos. — Cheguei lá era umas onze e quarenta e pouco, onze e cinquenta. Ah... — O homem sorriu um pouco aliviado — Isso aqui data de cinquenta minutos antes. Alguém do turno anterior poderia ter virado. — Ele concluiu com desdém.
— E ficaria lá o tempo todo? Até a hora do assassino deixar o local para movê-la de volta? — A mulher o questionou.
— Isso aí eu não sei. Estava lá no meio do parque praticamente o turno inteiro. E mesmo quando fui chamado para ver o que aconteceu com a moça, não vi ninguém mexer na câmera depois disso e não vi ninguém suspeito. — respondeu, olhando para ambos, mais precisamente para Grissom.
— Nem mesmo Lewis? — Sara perguntou sugestivamente, tentando arrancar algo dele — Ele estava presente na região da entrada o tempo todo. Se bobear pode ter "dado de cara" com o assassino.
O guarda franziu o cenho.
— Se tiver algo a nos contar, senhor Davis, diga logo. — Grissom deu duas batidas na mesa com a mão esquerda. Ele o encarou nos olhos — Porque, se nós descobrirmos alguma coisa a mais nessa história e o senhor estiver envolvido, — O sargento tocou na mesa com o indicador, apenas, e continuou a falar mais lentamente — O senhor vai ficar um bom tempo longe da sociedade.
— Eu não fiz nada, — Davis engoliu em seco rapidamente — sargento. Pode checar com qualquer um. E mais: nem vi a mulher na noite do crime e nem vi o assassino. Se o visse, eu teria alertado os meus companheiros, e a mulher, é claro. — terminou convicto.
— Ah é? Que bom! — A detetive comentou ironicamente.
— Estou à disposição de vocês. Se tiver que repetir-
Ele foi interrompido pelo toque do celular de Grissom. Num instante, ele olhou para a parceira e retirou o aparelho do bolso interno da camisa.
— Grissom... — Uns segundos depois ele respondeu — Ok, obrigado. — Ele desligou e guardou o celular — Vamos, Sidle. — Fez um gesto com o pescoço, indicando para saírem dali.
— O que eu vou fazer aqui?
Despreocupado, Grissom, ao se levantar, encarou brevemente o guarda e depois olhou para a porta.
— Você pode ir para a cela.
— O quê?! — questionou indignado o guarda — Mas eu estou cooperando!
— Você não disse nada que não soubéssemos, Davis. E não disse nada de relevante. — O sargento comentou, dando de ombros. Ele pôs suas muletas e começou a caminhar a direção à porta.
— Quer o quê, então, que eu minta? — Samuel fez um gesto com as mãos.
— Se o senhor for inocente, nós vamos liberá-lo em breve e pediremos desculpas pelo... inconveniente. — Grissom largou um sorriso de lado, obviamente sarcástico. Chegou até a porta e chamou o guarda, pedindo para que levasse Davis para a cela. Sara saiu em seguida, antes que o guarda viesse.
Do lado de fora, o sargento e a detetive esperaram o oficial levar Samuel para fora. Quando ambos estavam distantes, Sara tomou a palavra.
— Tenho que admitir que esse cara tem lábia. — Ela cruzou os braços.
— Estava preparado para isso, assim como Lewis e Philip. — Ele assentiu, fechando um pouco a cara — Ah... — Expirou — Vamos, está na hora de falar com Hernández e seu advogado.
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Meio-dia e vinte. Dentro de uma hora, o defensor público de Hernández chegara à delegacia. Norman Bennett era branco, baixinho e um pouco gordo. Tinha cabelos brancos, sem barba com um rosto retangular. Vestia um terno cinza claro e gravata preta com detalhes quase imperceptíveis. Grissom e Sara entraram na sala, que já estava ocupada por Hernández e seu defensor, e o promotor Carver. Duas cadeiras foram "reservadas" para os policiais, frente a Pedro e Norman, respectivamente. Carver sentou-se na cadeira posicionada na extremidade da mesa, como se fosse um "mediador" entre as partes. Um gravador analógico foi colocado no centro da mesa para que a conversa fosse gravada.
— Boa tarde, senhores. — A detetive foi a única a se manifestar. Ela se sentou e observou Grissom fazer o mesmo, em silêncio.
— Certo. Todos já estão aqui, podemos começar. — Carver dirigiu-se a Hernández e aos policiais.
— Bem, visto que o senhor já deve ter conversado com o seu advogado, está em plenas condições de falar. — Sara disse ao guarda, que desviou o olhar dela rapidamente.
Pedro inclinou um pouco a cabeça para baixo, olhando para os lados repetidas vezes. Ainda estava nervoso, como se nenhum amparo lhe fosse suficiente. Então se virou para Norman, que assentiu:
— Firmamos aqui um pré-acordo de imunidade para meu cliente e seus familiares.
— Tem a minha palavra que se o senhor Hernández nos contar algo relevante sobre o caso, faremos um acordo justo. — Convicto, o promotor respondeu, olhando para os dois.
— Pode começar, Pedro. — O advogado disse.
— Ah, meu Deus... — comentou, um pouco hesitante.
Grissom tocou em sua perna direita e pressionou a mão direita sobre ela. Estava irritado com tanta demora, mas precisava maneirar ou poria tudo a perder. Tanto com o caso, sua reputação, e é claro, com sua parceira.
— Está bem. — Hernández respirou fundo — Por onde começo... — Quase sussurrou — N-não sei o que disseram para vocês... — Ele deslizou a mão direita sobre o rosto — Mas... tudo isso, tudo o que aconteceu foi... foi armado.
Carver, Sara e Grissom se entreolharam no momento em que ouviram o guarda falar. O sargento franziu as sobrancelhas e suspirou. Já a detive ergueu as sobrancelhas, mas de alguma forma, não se apresentava tão surpresa quanto aparentava.
— Armado. — Grissom repetiu a palavra. Ele pegou uma caneta e um pequeno bloco de notas do paletó. Em seguida começou a escrever — Explique isso, senhor Hernández. Quem armou tudo isso?
— V-vou tentar explicar do começo.
— É melhor. — O sargento assentiu.
— Uns quinze... doze dias antes da morte da mulher, Davis, Lewis e Philip estavam no vestiário.
— Tem de ser mais específico, senhor Hernández. — Sara ergueu a mão direita, impedindo o guarda de continuar a falar — Para termos algo firme, o senhor tem que ser o mais preciso possível.
— Tá. — Assentiu, depois fechou seus olhos por breves segundos — Uns... quinze dias antes do crime. O turno tinha começado e eu tinha chegado lá. Os encontrei conversando. Não tinha mais ninguém. — Ele fez uma pausa — Achei estranho eles estarem ali falando ao invés de... irem para fora pra trabalhar.
— Acha que eles estavam planejando alguma coisa, já? — Sara perguntou.
— Não sei, talvez. — Pedro deu de ombros — Perguntei a eles se estava tudo bem e simplesmente disfarçaram. — respondeu, olhando para Grissom e Sara.
— E então? — O sargento se adiantou. Ele fez um gesto com o pescoço para que o guarda continuasse a falar.
— É... — Ele franziu o cenho, tentando se lembrar claramente — Uns dois dias se passaram, e novamente os vi conversando. E não foi isso que me chamou a atenção. O pessoal de lá não é tão amigo quanto se parece. — O homem tocou na mesa com a palma direita aberta — Dessa vez foi... perto do turno acabar. Os três estavam conversando perto da entrada do parque. Fiquei curioso... — Hernández balançou os ombros novamente — Perguntei o que estava acontecendo, mas eles disfarçaram. E aí veio o dia seguinte. — Suspirou — No meio do turno, encontrei Davis e Philip conversando. Não devia ter feito isso, mas acabei questionando eles porque estavam daquele jeito.
— Prossiga, senhor Hernández. — Sara fez um gesto com a mão.
— Philip queria desconversar e mudar de assunto...
Detalhes... detalhes... detalhes... Grissom estava impaciente. Imaginava que o discurso de Pedro foi feito para que ele parecesse uma vítima. Odiava quando as pessoas faziam aquilo.
— Fiquei nervoso... achei estranho o modo que eles se comportavam. Insisti, e aí, Davis acabou cedendo.
— O que ele te falou? — Grissom ergueu uma sobrancelha.
— O Philip ainda tentou impedir o Davis em me contar, mas ele me levou para um canto mais distante lá no parque e me explicou tudo. Disse na época que daqui a oito dias, eles iam fazer um negócio grande.
— Negócio? — Sara franziu o cenho.
— É. — O guarda assentiu, engolindo em seco — Alguém entrou em contato com... Lewis e... nos deu uma oferta para o negócio que ele faria no dia.
— Qual o valor, Hernández? — O sargento o pressionou.
— É... duzentos mil... pra cada um.
Grissom e Sara se entreolharam. A detetive era quem mais parecia ter ficado surpresa.
— E então? — Ansiosa, Sara pediu que ele continuasse — Você aceitou o dinheiro?
Era a pergunta que ficou entalada na garganta dela, assim como a de Grissom. Ao todo, oitocentos mil dólares foram oferecidos aos quatro guardas; quase um milhão de dólares por uma vida. Quatro por um.
— E-eu não quis aceitar no começo...
— Você aceitou o dinheiro, Hernández? — A detetive perguntou novamente, dessa vez sua voz era mais rígida. Grissom chegou a observá-la de lado.
— Eles me pressionaram... Disseram que seria algo rápido, que um cara de fora viria resolver um assunto com alguém lá. — Pedro respondeu rapidamente, na tentativa de se defender.
— Quem foi o responsável por contar a "notícia"? — Grissom perguntou, enquanto seu olhar estava concentrado na mesa.
Em voz baixa, o guarda respondeu:
— Lewis. — Engoliu em seco novamente.
Um pouco alterada, Sara o interrogou num leve tom sarcástico — E você não... questionou nada? — Ela deu de ombros.
— Como eu poderia? Eles já estavam certos do que iam fazer, e... eu poderia sofrer alguma coisa caso discordasse, ou denunciasse pra polícia.
— Você não respondeu à pergunta da detetive Sidle, Pedro. — Grissom o encarou dessa vez — Você aceitou o dinheiro?
— Aceitei. — Assentiu — O que mais eu podia fazer?! — Já menos apreensivo, o guarda se apresentou firme.
— Qualquer outra coisa! — A mulher retrucou em voz alta — Você podia ter feito qualquer outra coisa ao invés de participar dessa história! — Era explícito que Sara já se apresentava alterada.
— Eu já disse! Eu não podia discordar, corria perigo, señorita! — Hernández ergueu os braços, também aumentando sua voz — Por causa disso, meus filhos estão na universidade e com suas vidas garantidas, porque o Estado não garantiu isso pra gente!
— Ah, agora a desculpa é do Estado! — Sara respondeu sarcasticamente — E foi isso que você pensou quando te deram uma oferta pra deixarem um assassino entrar no parque e matar a mulher? Consertar um erro com outro?!
Grissom virou o pescoço para observá-la melhor. Ficou preocupado. Aos poucos ela chegava... passava dos limites. Mas assim que o fez, abaixou sua cabeça por alguns centímetros.
— Esse é o valor da vida de alguém? Oitocentos mil?
Um silêncio prevaleceu na sala. Hernández fechou seus olhos por alguns instantes e apoiou as palmas das mãos na mesa. Terminara de admitir que participou de um crime premeditado, no qual recebeu duzentos mil dólares para permitir que a vida de alguém fosse ceifada. Por dinheiro ou por ameaça, Sara já não estava mais a fim de saber o motivo que o levou a fazer aquilo. Sentiu-se enojada.
— Com licença, senhores, — disse ela, se levantando da cadeira. Preferiu evitar o contato visual — estão me chamando.
Grissom não olhou para ela. Observou a superfície da mesa até o momento em que a detetive saiu da sala. O clima ficou mais pesado ainda. Quando ouviu a porta sendo fechada, ele se virou para o promotor, que fez um leve movimento negativo com o pescoço. Mas preferiu não se manifestar sobre o inconveniente.
— Senhor Hernández, — Tomou a palavra o promotor Carver — precisa nos contar como o esquema da entrega do dinheiro foi feita e nos dar uma prova sobre isso, ou todas as acusações serão infundadas.
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Ela entrou na sala ao lado do interrogatório. Ficou satisfeita ao ver que não tinha mais ninguém lá. Fechou a porta quase com força e recostou-se na parede ao lado esquerdo dela. Quis socá-la, mas sabia que faria barulho, então se conteve.
Não devia estar daquele jeito, mas estava. Revolta, indignação, inconformismo. Era uma detetive, oficial, o último estado em que devia estar era aquele. Teve de sair às pressas ou cometeria uma loucura... novamente. Deixou o sargento e o promotor à frente do interrogatório para o próprio bem deles e para seu próprio bem. Não queria fazer o que fez, ainda mais com Grissom, mas ela não estava bem.
Saber que uma mulher entrou naquele parque imaginando que estaria segura dos perigos do mundo lá fora e foi morta justamente por ganância foi um baque para Sara. Quando tentava imaginar aquela noite de dois de fevereiro, sentia-se arrasada. Acabara por pegar o sofrimento de alguém que não conheceu e que nunca iria conhecer.
Aos poucos, deslizou suas costas na parede e deixou-se chegar ao chão. Envolveu seus braços nos joelhos e ergueu a cabeça para o alto. Ouvidos atentos ao interrogatório.
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— Lewis foi o responsável por contar sobre o esquema. Quando soube disso e... concordei... ele disse que... o dinheiro seria entregue em contas separadas localizadas em paraísos fiscais.
— Quais as localizações desses paraísos fiscais, Lewis? — perguntou o sargento, ao fazer um gesto com a mão — E como foi feita a distribuição do montante?
O guarda cruzou as mãos e olhou rapidamente para o advogado, que fez um leve movimento afirmativo com o pescoço.
— Não sei o dos outros, mas o meu depósito foi feito e dividido em dois paraísos fiscais: Ilhas Cayman e Bahamas.
— Fez toda essa operação sozinho ou obteve alguma ajuda? — Grissom perguntou, enquanto anotava os detalhes que achava relevantes.
— Terei a proteção garantida, como me disseram? — Pedro dirigiu o olhar para Carver.
— Podemos afirmar um acordo ao final de seu depoimento.
O guarda suspirou por longos segundos. Se mostrava nervoso, não como antes, mas ainda era notável seu incômodo.
— Tivemos ajuda.
Grissom franziu a testa ao ouvi-lo. Ele continuava a escrever em seu bloco, quando elevou seu olhar para o guarda:
— Ajuda de quem? — retrucou ligeiramente ansioso.
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Sara, que acompanhava todo o decorrer do interrogatório sentada no chão, levantou-se rapidamente para observá-los no pelo painel. Tinha vontade de retornar à sala, mas achou melhor ficar por ali mesmo.
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— É... um... foi um investidor.
— Que investidor, Hernández? Você falou com ele? — O sargento o pressionou.
— Sim, mas nunca o vi pessoalmente. Lewis quem supostamente fazia contato.
— Tem um nome desse cara?
— Não. — Pedro balançou a cabeça.
Grissom se virou para o promotor, que fez o mesmo. Os dois se entreolharam por alguns segundos, em silêncio. Depois, o sargento virou o pescoço de lado, em direção ao painel fumê. De alguma forma, sabia que estava sendo observado.
— Precisamos do contato desse investidor.
— E-eu não posso te dar, porque todas as vezes em que ele me ligava, vinha de um número irrastreável.
— Nem você, nem os outros tentavam entrar em contato com ele? — O sargento deu de ombros, impressionado com a resposta.
— Não, era para manter o máximo de sigilo possível. — respondeu, olhando para suas mãos sobre a mesa.
— Tá. — Assentiu — Quem moveu a câmera no parque?
O guarda dirigiu seu olhar para Grissom, que se mantinha completamente sério. Ao terminar de escrever, encarou Hernández, também.
— Foi o George. — disse em voz baixa, como se estivesse temendo que ele estivesse por perto.
Grissom franziu a sobrancelha, e em seguida anotou a informação.
— Como ele fez isso?
— Eu tava longe... não o vi mexendo. Só sei disso porque ele falou pra mim e pro Davis enquanto a gente estava no vestiário.
— Lewis estava por perto?
— Não. Acho que... estava na parte da frente da cabana.
Um breve silêncio tomou conta do lugar.
— Você foi ameaçado de contar alguma coisa, Hernández?
O guarda olhou para seu advogado, que o encarou sem lhe dar uma resposta clara.
— Eu... prefiro não responder essa pergunta.
— Correto. Meu cliente tem o direito de ficar em silêncio.
— Nós precisamos saber essa informação, senhor Hernández. — comentou o promotor Carver.
— Temos de ficar cientes para evitar quaisquer inconveniências, Hernández. — Grissom completou.
Após uns segundos sem reação, Pedro respondeu em voz baixa:
— Todos eles.
Merda.
— Certo, está bem. — disse o sargento, ao por suas muletas — Agora é a sua deixa, promotor. Eu e a detetive Sidle vamos investigar os detalhes falados pelo senhor Hernández. — Terminou assentindo para Carver.
— Eu não sabia que ele ia matar aquela mulher. Não sabia! — Hernández falou pela última vez, dirigindo-se ao sargento.
Grissom, encarou o guarda por alguns segundos com um olhar de desdém.
— Você aceitou duzentos mil, Hernández. O que acha que ele faria ao oferecer todo esse dinheiro?
Deixou a sala em seguida.
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Ela sabia que ele estava a caminho. Virada para o painel, Sara permaneceu imóvel até o sargento, em poucos segundos, entrar no espaço assim que saiu do outro. A porta se abriu, e Grissom entrou, fechando-a em seguida. A detetive não se conteve e se virou para ele assim que percebeu sua presença.
Os dois se encararam por alguns segundos. Nenhuma palavra. Queriam falar, na verdade, mas não obtiveram sucesso.
Grissom inclinou a cabeça para baixo e expirou.
— Quer falar sobre o que houve agora a pouco?
— Não dá pra acreditar no que eles fizeram. CARAMBA! Eles... eles... aceitaram duzentos mil dólares para entregarem a vida dela nas mãos daquele maníaco! — Irritada, Sara apontou para o painel, diretamente para Hernández. Depois levou as mãos à testa — Como eles puderam fazer isso! É... covardia, desumano!
— Eu sei, Sara-
— Não consigo conceber essa ideia. Achei que já vi de tudo, mas... esse tipo de gente consegue me surpreender a cada dia! — Ela balançou a cabeça repetidas vezes. Seu semblante era dos mais tristes.
— Você tava certa. Pedro foi ameaçado por todos eles. — O sargento se virou para o painel.
— Ainda assim! — A detetive retrucou — Eu não... acho que isso foi certo. Acho, não, estou convicta disso. Ele poderia ter dado um jeito!
— Agora você está se contradizendo. Disse a uns dias atrás que, por Hernández ser do grupo da minoria, se tentasse denunciar alguma coisa, não adiantaria em nada.
A mulher resmungou, irritada ao ouvi-lo retrucar, e o pior: Grissom estava certo, e ela? Confusa.
O sargento, em silêncio, caminhou em sua direção. Quando se aproximou, apertou o botão que cortou o som vindo da outra sala.
— Vai tomar um ar, Sara. Ou... vai pra casa. — falou em voz baixa, o que a fez se voltar a ele.
— O quê?! — Sem entender de cara, ela franziu a sobrancelha.
— Você está alterada. Teve que sair da sala para não "atacar" o Hernández. — Ele fez um gesto com a mão — Precisa separar seu discurso pessoal com o trabalho.
— Eu não... não acredito que-... Ah!... — A detetive se afastou — Eu vou ficar bem, Grissom. — retrucou um pouco impaciente.
— Tenho que ter certeza que você vai ficar bem, ou-
— Ou o quê?! O caso vai ser prejudicado? — Ela retrucou irritada.
— Você vai.
Ela cruzou os braços. Não esperava que o sargento diria algo daquilo, mas preferiu não responder.
O sargento observou o painel e os homens a discutir sobre o possível destino de Hernández. Depois se voltou à detetive, que se encontrava de costas para ele, ainda de braços cruzados. Expirou.
— Venha, então.
— Para onde? — Sem dar muito a mínima, ela deu de ombros.
— Vamos tomar um café.
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