Manhunters

75 Reunião familiar ou quase isso


Notas iniciais
E aí, pessoal, tá no ar mais um capítulo desta fanfic que vos escrevo. Obrigad a todos que estão lendo e boa leitura!

Pai e filho estavam de volta ao casarão após o longo passeio que deram no campo à fora. Antes mesmo do almoço estar pronto os dois retornaram. ***** preferiu ficar dentro de seu quarto enquanto o pai foi procurar pela esposa. Em vez de “caçá-la” por todos os cantos da enorme casa, ele tentou deduzir os possíveis lugares que ela estaria. Quando a encontrou viu a mulher sentada e lendo um livro na cadeira de descanso na varanda dos fundos. Uma manta protegia suas pernas do frio da manhã.

— Vi vocês dois cavalgando. — Disse ela com os olhos voltados ao livro.

— Foi bom. Fazia tempo que não praticava. — Ele caminhou para perto dela e se sentou na cadeira ao lado.

Silêncio. ****** balançou as pernas rapidamente no intuito de se preparar para o que ia dizer em seguida:

— Não falei com ele, ainda.

— Sobre o quê? — A mulher arqueou uma sobrancelha.

— Sobre o que você disse. — O homem se recostou, curioso pela pergunta.

Finalmente ela fechou o livro e encarou o marido, que olhava para o lado meio arrependido.

— Não consegui. Na verdade... nem pensei direito em falar, eu admito.

— Ao menos você admitiu. — Para a surpresa dele, ela voltou a ler o livro.

****** se inclinou para a frente e se apoiou na braçadeira.

— Ainda está chateada comigo. — Assentiu, notando certa frieza da esposa.

Ela umedeceu os lábios e fechou os olhos brevemente.

— Perdi a cabeça. Quando se trata do nosso filho-

— Você perde a cabeça. — Ao mesmo tempo em que o interrompeu ela completou — E como acha que eu estava? — Disse, desta vez fechando o livro, repousando-o por entre as pernas — Vê-lo daquele jeito me deixou muito mal, você nem imagina!

— Sinto muito.

— Hum. — A mulher virou o rosto para o lado.

— Eu faria de tudo por ele... o que mais quero é protegê-lo daquela gente lá fora. — Ele apontou para trás.

— Que gente, ******? — perguntou incrédula.

— Aquela- — Percebendo que o tom de voz aumentou, ****** se retraiu — aquela gente mal-intencionada que existe lá fora.

— ******. — Ela reclamou — Não podemos mantê-lo sob uma redoma para sempre. Uma hora ele vai ter que aprender a se adaptar ao mundo lá fora. Você já está fazendo esse caminho para *****. — Apontou para o marido — Ele sabe nadar, cavalgar, tem aulas de esgrima, língua estrangeira e defesa pessoal. Não acho que ele é um menino indefeso, muito pelo contrário.

****** se apoiou sobre as pernas e cruzou as mãos. Baixou a cabeça e suspirou. Sua esposa persistiu em encará-lo por algum tempo, mas já pensava em desistir.

— Não tenho outra escolha, não é? — Ele ergueu o olhar.

— Um de nós vai ter que falar com ele. Se você não for, eu vou.

Os passos de alguém vindo foram ouvidos pelos dois, que atentaram para a entrada da varanda, atrás deles. Era o cozinheiro.

— Interrompi os dois? Desculpe.

— Não, Harold, não se preocupe. — A mulher balançou a cabeça em resposta.

— Oh, sim. Vim avisar que o almoço está pronto.

— Certo. Obrigada. — Ela sorriu e o cozinheiro tratou de sair. Então retirou o cobertor e se levantou, trazendo o livro consigo. ******, ainda sentado, apenas acompanhou-a com o olhar. Estava quase imóvel.

A esposa fazia seu caminho para a porta, mas parou e se aproximou dele. Tocou em seus ombros por trás e se inclinou para perto dele.

— Vamos parar com essas discussões de uma vez, ******. Eu amo vocês e só quero o bem dos dois. — Ela beijou sua bochecha e sem esperá-lo, deixou a varanda.

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Antes mesmo de todos se reunirem à mesa para comer, ****** avisou à esposa que falaria com o filho após a refeição. Mesmo desconfiada ela acatou ao pedido. Na hora do almoço, o homem fez questão de chamar os funcionários para que se juntassem a eles. Finalmente mais de uma conversa foi trocada entre os presentes, ou aquela refeição seria marcada com mais silêncio e ele já não aguentava mais o clima melancólico que se instaurou na casa.

****** foi o último a terminar de comer. Enrolando em seus pensamentos, imaginava e reimaginava os caminhos que teria de tomar aquela conversa com a esposa. Ora, colocar o filho numa escola e afrouxar mais a proteção que tinha com ele seria uma tarefa prática para qualquer família, algo fácil; bem, nem sempre fácil, mas era um estágio da vida. Uma hora o filho teria de criar asas e aprender a viver do lado de fora da cerca; ou melhor, da muralha. Levou tanto tempo para ele aprender a sair de sua zona, tanto tempo que ainda aprendia a lidar com os outros. ****** precisou de um empurrão da esposa para ir naquele evento e outros empurrões para participar de outros, afinal, ele era um homem de negócios, precisava socializar. Alguns tinham facilidade com isso, como ela, e outros... bem, era como estar na linha de frente de um batalhão, pronto para a guerra. Este era ******.

— ******.

— Hã? — Ouvindo a voz da mulher, ele se virou para o lado, de repente.

— Eu e Rachel vamos cavalgar um pouco, está bem?

— Oh... sim, sim. Tenham cuidado.

Não demorou muito e as duas mulheres deixaram a mesa enquanto conversavam sobre assuntos que ele não prestou atenção. O tempo passou e ele era o único restante no cômodo. Todos os funcionários, inclusive o filho, pediram licença antes de se retirarem e ele apenas assentia enquanto os observava sair.

Passaram-se alguns minutos de silêncio quando finalmente ele deixou a mesa e seguiu para o escritório. Um detalhe que chamou sua atenção foi o jornal do dia deixado ao lado da porta trancada. Ele tinha uma ideia de quem foi o responsável por fazer aquilo e sorriu em agradecimento. ****** pegou a chave no bolso e destrancou a porta. A primeira coisa que fez foi abrir a janela para deixar que o ar fresco entrasse na sala, que não era visitada há algum tempo.

O escritório era parecido com a de sua casa principal, mas um pouco menor. Havia uma mesa de escritório de madeira entalhada do início do século passado; um pequeno sofá de dois lugares coberto por um plástico transparente; uma estante contendo portinholas de vidro e dentro dela haviam algumas esculturas de vários tipos e tamanhos. Em cima da mesa também havia um computador coberto por uma capa. ****** até pensou em ligá-lo, mas recusou. Em vez disso tirou o plástico do sofá e se sentou, levando consigo o jornal deixado perto da porta. Ele se sentou, recostou-se e abriu o jornal. Mas antes de começar a ler, ****** pensou nas palavras da esposa. Ficou incomodado. Uma hora teria de falar com o menino.

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— *****, posso entrar? — perguntou o homem após bater à porta.

— Sim, pai.

O homem abriu a porta, mas não entrou.

— Quer ver a minha coleção e praticar um pouco?

Já sabendo o que se tratava, o menino que estava na cama lendo um livro arregalou os olhos e logo se ergueu. Não era sempre que ****** deixava-o ficar por perto quando ele manuseava os objetos de sua coleção. Com certeza tinha que aproveitar aquela oportunidade. O surpreendente convite o fez até se esquecer de responder, mas o semblante em seu rosto já o denunciava.

O andar era o segundo. No final do corredor havia uma sala do tamanho do saguão e que também ficava sempre trancada. Somente duas pessoas tinham o acesso: ****** e outra pessoa, que só podia acessar com a permissão dele.

Quando ****** abriu a porta, entrou e acendeu o conjunto de luzes, uma sensação inexplicável tomou conta de seu corpo. Sentiu-se em casa ao ver aquelas peças de inestimável valor sentimental. Era um salão amplo, com um grande espaço retangular no meio coberto por um revestimento diferente do piso de madeira. Em volta dele haviam vitrines de vidro blindado contendo dezenas de armas brancas colocadas na posição horizontal, separadas em grupo desde floretes, sabres, adagas, punhais e katanas.

— Uau. — O garoto falou impressionado. Só esteve naquele salão uma única vez na vida, mas foi por há muito tempo e ficou apenas por poucos segundos.

— Gostou? Um dia isso aqui será seu. — ****** caminhou para o centro do salão e se virou para trás, onde o filho continuava a olhar admirado para os objetos. O homem fez um gesto com a mão para que ele se aproximasse.

— É?

— Sim. Mas para isso você precisará treinar bastante e aprender bastante.

****** se aproximou de um pequeno armário, agachou-se e pegou dois pares de luvas de esgrima. O par que deu ao filho era menor que a dele; ****** já tinha guardado para um momento como aquele. Ele vestiu um par e entregou o outro para o filho. Em seguida o homem caminhou para perto da área de onde três punhais estavam expostos. Ele destrancou a fechadura dupla, deslizou a portinhola para o lado e retirou um punhal minuciosamente detalhado. Seu pomo, dourado, tinha o formato da cabeça de um lobo. O protetor de mão, assim como o pomo, era dourado e fazia uma curva em ‘v’. A lâmina de dois gumes refletia a luz oriunda de fora e das lâmpadas brancas de dentro. Estava perfeitamente limpo, sem manchas ou arranhões.

****** se aproximou do filho e ergueu a arma.

— Eu comprei este aqui quando estava na Alemanha. Uma peça bonita. — Ele virou o pulso para analisar a arma contra a luz. Dez segundos se passaram. O homem se afastou do menino e começou a fazer alguns movimentos habilidosos com a arma. Tão rápidos, ***** mal conseguia acompanhar o pai com olhar. Ele girava os punhos coma agilidade e maestria, como se treinasse todos os dias com aquela arma.

Quase se esquecendo de que não estava sozinho, ele fez o que a esposa desaprovaria caso estivesse por perto: entregou o punhal para o filho. Com cuidado, ***** segurou a arma com as duas mãos e quando ganhou coragem, segurou-a pelo cabo e a ergueu à altura do rosto.

— Firme, *****. — Alertou-o rigidamente — Segure-o firme ou vai acabar se machucando.

— É pesado. — O garoto arriscou-se pouco a mover a mão que segurava a arma. Tinha medo de deixá-la cair e atrair um olhar ruim do pai.

Foi quando ****** se aproximou por trás dele e tocou em seu pulso com firmeza, a mão que segurava o punhal. Segurou-o e então fez repetitivos movimentos para cima e para baixo no intuito de que o filho se acostumasse.

— Segurar um punhal é tão natural quanto segurar um florete, *****. Parece que é mais difícil, mas tudo é técnica, tudo é treinamento. — Desta vez ele mudou o movimento para a diagonal direita à esquerda e fez o caminho reverso. Aos poucos se afastou e pediu para que o garoto repetisse os movimentos e fosse acelerando com o passar do tempo.

— Isso. — Assentiu enquanto caminhava à sua volta até ficar frente a ele — Muito bom, muito bom. — Ele cruzou os braços.

— Obrigado, pai. — respondeu sorridente.

— Vá, continue. — ****** gesticulou ao ver que o filho parou de praticar — Foi assim que eu aprendi, praticando sem parar.

O menino assentiu e voltou com os movimentos, mais animado desta vez. O homem voltou dois passos para trás e cruzou os braços novamente. Ele analisava atenciosamente a postura do filho, o que ele tinha de bom e o que poderia evoluir. Talvez todos dias de incansáveis treinos tenham valido a pena.

Ele tem jeito, afinal.

Afastando-se um pouco do garoto para não o fazer perder a concentração, ****** caminhava para os lados na tentativa de observar cada ângulo das posições do filho. Ainda havia muito a aprender, mas para alguém da idade dele estava muito bom.

Ávido, os olhos do homem se voltaram para a porta quando este ouviu-a ser batida. Na mesma hora o menino parou de praticar com medo que fosse a mãe. ****** cerrou o punho direito e caminhou em passos rígidos até a entrada do salão. No meio do caminho pediu que o filho esperasse ali mesmo. Ele abriu a porta e ergueu uma sobrancelha.

— Tenho um recado. — Era seu amigo de longa data. Também era uma espécie de secretário, uma pessoa que estava sempre por perto, alguém de confiança.

****** se virou para trás e encontrou o filho observando o punhal olhando em sua direção, ainda preocupado que fosse algo ruim. ****** sabia que seu amigo não viria ali para falar quaisquer bobagens. Seu olhar profundo já manifestava certa urgência em falar com o homem. Não havia como ignorar sua presença.

Ele fez um gesto com a mão e se voltou para o filho.

— Vamos continuar com o treinamento depois, *****. — Falou, já estendendo a mão para pegar o punhal de volta.

— Ah... — lamentou baixo ele, chegando a hesitar.

— Não discuta. — O semblante do pai se fechou na mesma hora.

Sem ter outra saída, ***** entregou a arma e retirou as luvas em seguida. Esperou pelo pai guardar o punhal e assim entregou o par em suas mãos.

— Tire esse rosto abatido, *****. Nem sempre poderemos desfrutar das coisas que gostamos. — Ele comentou ao colocar com cuidado a arma e fechar a portinhola.

— Tá bem... — Apesar das palavras, o garoto ainda estava chateado.

Quando ****** se aproximou da porta ele fez um gesto para que o amigo entrasse. Após isso, olhou para o filho e tocou em seu ombro:

— Por que não vai ver os outros animais? Tenho certeza que os filhotes querem te conhecer. — O pai forçou um sorriso. A única coisa que queria era o filho bem longe daquele salão.

— Ok. — Disse o garoto, e quando passou perto do amigo de seu pai ele o cumprimentou com um aceno breve. O homem alto respondeu com um gesto do pescoço.

Após a saída de ******, o pai fechou a porta e a trancou. Depois disso caminhou para o meio do salão e se virou para o amigo.

— Diga o que tenha a dizer. — Sorriu — Você não veio aqui para me para dar a previsão do tempo, não é?

— Aquele grupo de empresários planejou um almoço para o mês que vem e convidou o senhor. — disse o homem, sem alteração alguma em sua voz.

— E? — Deu de ombros, incomodado por não receber a informação completa de uma vez.

— Eles disseram que o almoço será no dia 12 às onze e meia.

O semblante sarcástico de ****** se fechou como o tempo. Ele fechou os dois punhos e expirou por cinco segundos. Fechou os olhos com força e depois caminhou para perto de uma réplica de armadura à esquerda. Tirou suas luvas e as jogou no chão com desprezo. Então apoiou o cotovelo no ombro da armadura.

— O que você respondeu? — perguntou quase ameaçadoramente.

— Que iria te consultar.

— E eles? — questionou curioso enquanto deslizava a mão pelo metal frio e reluzente, mas um pouco sujo de poeira. Ele ergueu os dedos e os esfregou para limpá-los.

— Aguardam resposta o mais rápido possível.

****** sorriu.

— Aqueles... filhos da... PUTA!

Com toda a força, ****** empurrou a armadura e ela caiu no chão fazendo um estrondoso barulho. Não dava a mínima importância se a réplica nada barata pudesse ficar danificada. O amigo pareceu não estremecer. Ficou calado, olhos afiados atentando para ****** que parecia prestes a se transformar numa besta. O homem irritado se afastou da armadura ficou olhando a peça caída de punhos cerrados. Respiração ofegante oriunda de uma raiva que explodiu de repente.

— Tinha de ser neste dia? Neste MALDITO DIA?! — Exclamou ao caminhar para o meio da sala e ficar perambulando por ela como se não tivesse rum. Ele se virou para trás, onde o outro homem se encontrava imóvel.

****** ficou em silêncio por um bom tempo.

— Essa gente... desgraçada só serve... só serve para comer do dinheiro recebido dos males que eles mesmos praticam! — Por pouco não vociferou. Fazer isso poderia chamar atenção desnecessária — Comem e vomitam... e depois comem de novo.

— Senhor, o que vai-

— Não me interrompa! — retrucou baixo, mas severamente. Ele apontou para o amigo ameaçadoramente e ergueu o indicador — Não me interrompa.

— Desculpe. — O homem na porta inclinou a cabeça ligeiramente para baixo.

****** se virou para a janela dupla. Empurrou-a para o lado e apoiou as mãos no peitoril, pressionando-o com força.

— Pragas.

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Chamaram o sargento para descer ao necrotério; ele por si só já imaginava o que fosse. Chegou a se esquecer daquilo, de tão imerso que se encontrava naquelas gravações. Grissom desceu rápido para seu destino, e quando entrou, a mesa fria de metal havia um rosto conhecido “esperando” por ele.

— Ei, doutor. — Grissom cumprimentou o amigo.

— Sargento Grissom! — Robbins, que estava sentado em uma cadeira, fez um esforço e se apoiou firme na muleta para se levantar. Ele caminhou em sua direção e os dois se encontraram próximo ao corpo da vítima, então trocaram um aperto de mãos caloroso — Vejo que já está melhor.

— É... — disfarçou — Estou me recuperando.

— Bom. — O legista-chefe assentiu e depois fez um gesto para que fosse acompanhado.

— Conseguiram tirar os moldes dos ferimentos? — perguntou o sargento, procurando à vista o perito responsável por esse trabalho.

— Sim, sim. O perito precisou ir embora devido ao chamado de um 419. Ele levou os moldes, mas deixou um relatório. — Al apontou para a mesa onde estavam dispostos os moldes já endurecidos e uma pasta fina.

Em vez de seguir adiante, Grissom olhou para o rosto da vítima novamente.

— Morte de jornalistas sempre pesa para o nosso lado. — Comentou o legista.

— É um inferno. — respondeu ele. Aquela morte, em especial, estava atormentando sua mente. Por que tinha que ser logo ele?

— Algum problema, Grissom? — Robbins perguntou, preocupado ao notar o amigo meio disperso.

— Hã...? — O sargento virou o rosto para o doutor — É... tem certa... história por trás disso.

— Gostaria de compartilhar?

— Sinto muito, Al, mas agora não é uma boa hora. — Grissom voltou para a mesa onde estava o relatório — Sinto muito.

O sargento resmungou em silêncio o fato de não ter em mãos todos os moldes dos ferimentos. Maldita burocracia. Quando se voltou para o amigo, perguntou já próximo ao corpo de Park.

— O que me diz sobra a vítima?

— Dei uma olhada na ficha de óbito dele que você me mandou. Não tenho ordens para fazer o processo nele, mas pelo que vejo aqui não há discrepância alguma. Há algo de errado com ele? — Brincou.

— Ok. — Assentiu Grissom — O corpo já está liberado, não é? — Perguntou, recebendo uma breve resposta em seguida — Certo. Eu tenho que ir, Al. Bom falar com você. — Ele arriscou um sorriso.

— Digo o mesmo, Gil. — O legista acenou — Tente não morrer da próxima vez.

— Obrigado pelo presente. — Grissom respondeu do mesmo jeito.

Grissom deixou a sala de autópsia sorrindo após a breve conversa. Não percebeu que um homem caminhava na direção oposta. Como era a única pessoa que viu no corredor, este homem abordou o sargento:

— Olá... — falou meio hesitante, chamando a atenção de Grissom que estava de cabeça baixa.

— Oi. Eu conheço você? — perguntou de cara. Ele franziu a testa quando não reconheceu a figura.

— Eu sou... Joseph Park, irmão da vítima... Ryan Park — respondeu meio abatido o homem baixo, calvo e um pouco acima do peso. Somente quando Grissom encarou-o bem percebeu o quão parecido ele era com o irmão.

Ah, merda.

— Me disseram que o corpo foi liberado... — Ele cruzou as mãos à frente do corpo.

— Quem te disse isso?

— O legista-chefe.

Grissom baixou o olhar e suspirou baixo. O sargento não estava preparado para encontrar o irmão daquele homem logo de cara. Ninguém o avisou que um familiar viria, ainda que fosse uma informação óbvia de se ligar. Ele não podia esconder quem era, tinha de falar a verdade.

— Eu sou... o sargento Gil Grissom, encarregado de investigar o caso da morte do seu irmão. — Falou quase tão baixo quanto Joseph — Sinto muito pela sua perda. — Já era quase automático falar esta frase.

Joseph franziu a testa e ameaçou erguer o indicador.

— Gil Grissom...? Gilbert Grissom? — perguntou desconfiado.

Aquele olhar indicava que ele sabia de alguma coisa. Grissom tinha de esperar por tudo.

— Espera. Você é aquele... — De uma hora para outra o homem de meia idade se calou.

O sargento olhou para o lado.

— O homem que o seu irmão conseguiu uma foto, sim. — Assentiu.

— Deus... — lamentou — Por que logo você está investigando a morte do meu irmão? — O tom de voz dele se alterou um pouco.

— Olhe, senhor Park, estou nesse caso porque sou responsável por atuar nesse tipo de crime. Não pense que vou agir como um sacana por tudo o que houve no passado. — falou rígido — Não foi ele quem destruiu minha vida, se você acha isso.

Houve silêncio entre as partes. O semblante irritado do irmão pareceu diminuir.

— É, o corpo de Ryan está liberado. Chegou hoje de Cold Springs, por isso pedimos desculpas pela demora. — Grissom comentou sem olhar para ele diretamente e apontou para a entrada do necrotério.

— Ok.

— Podemos conversar na minha sala?

Joseph não respondeu. Ficou olhando a porta dupla próxima.

— É para a investigação. — Insistiu Grissom.

— Deixe-me ver o corpo do meu irmão, ao menos.

— Claro. — Assentiu, abrindo caminho para ele, que passou adiante sem dizer nada.

Grissom preferiu não entrar. Não se sentiu bem em fazer algo já costumeiro com aquele caso em especial. Talvez foi até melhor assim para o sargento e para o irmão da vítima. Ele ficaria ali, do lado de fora, esperando por Joseph e tentando arranjar as palavras corretas que seguiriam a conversa. A única coisa que estava proibido de falar era que a morte do irmão, provavelmente, ocorreu por culpa do sargento.

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— Diga-me, senhor Park. O que o seu irmão estava planejando nesses últimos dias?

Lá estavam os dois na sala de Grissom. Após alguns momentos dolorosos no necrotério, Joseph saiu com os olhos marejados, como era de se esperar. Relutou muito antes de ir com o sargento até sua sala. No fundo, ainda se encontrava inconformado por ele estar naquele caso, logo aquele homem.

Atrás de sua mesa, Grissom tentava arranjar algum refúgio ou barreira que pudesse impedir o olhar mortal de Park. De alguma forma a presença dele o incomodava para o bem ou para o mal. Olhar para ele o fazia se lembrar de Park ainda vivo, e o fazia se lembrar daquela foto, e o fazia se lembrar daqueles momentos. Um frio percorreu sua espinha e ele precisou respirar fundo antes de perguntar.

— Não morávamos juntos. — Ele respondeu baixo — Mas tínhamos contato.

— Continue. — disfarçou o sargento após alguns segundos de silêncio.

— Ryan não costuma... costumava me falar sobre trabalho em andamento, mas...

— O que?

Joseph coçou a nuca e olhou para o lado direito.

— Esse último trabalho que ele pegou... Ryan me disse que seria algo grande, digno de uma grande reportagem.

— Quando ele começou a falar sobre isso?

— Acho que foi... — Joseph passou a mão no rosto, devidamente incomodado — há um mês atrás, por aí.

— Gostaria de alguma coisa para beber ou comer?

— Não. — Franzindo a testa, o irmão da vítima respondeu mais firme desta vez — Não precisa fingir que se importa, sargento.

Agora foi a vez de Grissom fechar a cara. Ele virou o rosto para a esquerda e fechou o punho brevemente.

— Minha relação com a vítima não era um mar de rosas, mas estou tentando fazer o meu trabalho. Se o senhor parar de ficar me julgando e me contar o que Ryan fazia vai ajudar muito, nem sabe o quanto. — Ele não pôde evitar o tom sarcástico em sua voz.

— Eu já disse! Ryan não me contava muita coisa sobre o trabalho e pelo visto era algo arriscado. Acho que ele estava se envolvendo com peixe grande... eu não sei ao certo. Toda vez que eu perguntava ele disfarçava e mudava o assunto.

Grissom bateu na mesa com os dedos por um breve momento.

— Quando foi a última vez que conversaram?

— Dois dias antes da... morte dele.

— Qual foi o assunto?

O homem de meia-idade se ajeitou na cadeira e encarou o sargento.

— Coisa pessoal, nada que envolvesse o trabalho dele no começo. Só depois ele me contou que iria entrevistar alguém importante... um contato que iria ajudá-lo nessa história.

— Ele não disse mais nada sobre esse contato? — insistiu o sargento.

— Não! — Joseph respondeu meio alterado — Ele dizia que era um contato muito importante e que manter discrição sobre ele era vital! Assim como a história em que estava trabalhando.

Céus.

— Preciso que me dê autorização para acessar os pertences do Ryan na casa dele. — Grissom torcia para que o irmão acatasse ao pedido em vez de ter que solicitar um mandado judicial.

— Por quê? Acha que esse contato tem alguma coisa a ver com a morte do meu irmão? — Joseph o questionou inquieto.

— Infelizmente não podemos comentar detalhes do caso, senhor Park. Mas digo que se nos der o acesso aos pertences dele isso pode nos ajudar a pegar o assassino. — Queria Grissom ter tanta confiança em suas próprias palavras.

O homem calvo não respondeu de cara. Ele se levantou meio devagar e ficou atrás de sua cadeira. Ele pressionou as mãos no encosto e depois largou a cadeira.

— Meu irmão morreu fazendo o trabalho dele, não é? Em busca da verdade... — Ele chegou a sorrir desesperado, um sorriso curto, tentando conformar a si mesmo.

Grissom encarou aquele rosto. Ainda não era hora de contar toda a verdade. A verdade que a morte dele poderia ter sido evitada e que um bilhete provocando o sargento foi deixada na bolsa de Ryan. Ele baixou o olhar e preferiu ficar em silêncio.

— Vá, pegue tudo. Faça o que tem de fazer, sargento Grissom. — respondeu de repente, já fazendo o seu caminho para fora — Estou liberado, não estou?

— Está.

— Vamos enterrar o meu irmão no Woodlawn, caso queira saber.

Esse nome...

— Obrigado. — Grissom falou, mas nem sabia se era a resposta que gostaria de dizer.

Joseph saiu da sala e fechou a porta. Grissom entrelaçou os dedos e se inclinou para a frente. Tocou na testa e fechou os olhos.

— Woodlawn... — repetiu o nome em voz baixa. Fazia menos de um mês que ele pisou os pés naquele lugar.

Notas finais
Então é isso. Finalmente estou conseguindo postar o capítulo em um dos dias que havia reservado postar (sexta-feira). Também estou conseguindo escrever mais capítulos, mesmo nessa reta final de facul. Isso é muito bom, já que não sei como vai ficar as situação lá pro futuro, mas pretendo me empenhar para escrever sempre. Obrigada a todos que leram. Beijos e até o próximo capítulo! ♥