Manhunters

97 Profissão de risco


Notas iniciais
FALA GALERE! Desapareci de novo, mas calma que tá tudo bem. É com muito prazer que eu venho contar a vocês que eu fui aprovada no TCC 2, ou seja, eu já tô me formando!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! MANAS E MANOS eu só quero agradecer a Deus e a todo mundo que torceu por mim, tem cada um de vocês nessa conquista aqui. Bem, eu não iria demorar tanto a postar o cap, mas relendo os prontos eu notei que havia coisas para melhorar e acabei me enrolando numas partes kkkkkk. Mas enfim, eu acertei ao menos esse aqui pra postar ele bonitinho. Vamo que vamo, Manhunters tá de volta, shoooooow

Sete da manhã, a hora em que o despertador de Sara tocou. Como sempre, acordou desanimada ao ouvir o som cortar o silêncio em seu quarto. As cortinas bloqueavam a luz do sol e deixavam o quarto um pouco escuro ainda, ambiente perfeito para continuar ali na cama. Porém era dia de trabalho e talvez um dos mais importantes.

— Ah... — Ela gemeu de cansaço. Esticou-se usando o pouco de energia que lhe restara para desligar o despertador. Após isso esfregou os olhos e suspirou por longos segundos.

— Exausta? — A voz ao lado, mesmo arrastada, parecia zombar dela.

Atraída pela voz ao lado, ela se virou e o encontrou todo sonolento, ainda por cima esbanjando um sorriso bobo.

— Claro... Isso não é justo. — Ela respondeu entre um bocejo, vindo a repousar a cabeça no travesseiro — Eu merecia um dia de folga depois de ontem.

Grissom não segurou o riso ao vê-la daquele jeito.

— Eu concordo. Achei até que não iria conseguir levantar da cozinha. — Ele beijou seu pescoço — Você acabou comigo.

— Por pouco você não dormiu no chão da sala. — Sara retrucou, afastando-o com a mão. A detetive o encarou em seguida, reparando que ele não se deu por vencido.

— Sala? Não seria outro lugar? — Ele zombou e desta vez se aproximou novamente do pescoço dela para falar baixo — Cozinha... corredor... — Grissom aproveitou a deixa para sua mão, ainda próxima dele.

— É o quê? Seu mentiroso! — Entrando na dele, Sara deu um leve tapinha em seu braço o que o fez cair na risada — Vai, fica rindo. — Ela o ameaçou.

— Você não me deixa outra escolha, detetive.

— Eu não sei por que perdoei você, sargento.

— Talvez porque... estamos apaixonados. — Ele respondeu sem hesitar e sua resposta a deixou meio sem reação. Ela esfregou os olhos para saber se não estava sonhando mesmo.

— Começou o dia assim, é? — Segundos após ficar encarando o sargento sem saber o que dizer, Sara manteve seus olhos fixos no dele, que se fechavam e se abriam toda hora.

Tão próximo dele, Grissom aproveitou para acariciar o canto de seu rosto. Depois pegou sua mão e a beijou. Não respondeu à pergunta dela achando melhor o silêncio e aquele gesto. Seu olhar parecia hipnotizado por ela ou talvez fosse o sono, Sara não sabia, mas estava gostando. Vendo isso ela se uniu a ele o beijou nos lábios e depois deu outro beijo demorado, desta vez em sua bochecha.

— Vamos, tem bastante trabalho hoje. — disse, já se preparando para sair da cama. Ela sabia que Grissom era capaz de dar um jeito e fazê-la ficar com ele por mais alguns minutos que poderiam muito bem se tornar uma meia-hora.

Ele a ficou assistindo se levantar com moleza, por seus pés no chão, respirar fundo e tentar ajeitar seus cabelos soltos e um pouco desgrenhados. Quando finalmente se levantou deu para notar o quão folgada sua camisa ficava nela, mas ao mesmo tempo, perfeita. Sara se esticou erguendo os braços para o alto, foi então que Grissom reparou que ela usava apenas sua camisa e a calcinha. Talvez ela conseguisse ler seus pensamentos, pois sua vontade era trazê-la para si e fazer amor novamente. Mas ele sabia que era algo arriscado a se fazer dadas as circunstâncias, não podiam perder tempo sem pensar.

— Por que está me encarando? — Ela perguntou antes de sair.

— Eu fiquei... hipnotizado por você. — Mesmo hesitando num primeiro momento ele terminou de falar com toda a naturalidade possível.

O que ele recebeu foi um semblante corado e um sorriso de lábios rentes. Ele adorou aquilo porque sabia que falou as palavras certas e sem receios.

— Trouxe alguma roupa ou vai voltar para casa?

— Eu trouxe. Está lá no carro.

— Bom. — Antes de sair do quarto Sara mostrou um último sorriso para seu companheiro, que retribuiu fazendo o mesmo.

E então ela se foi, deixando o ambiente completamente vazio. A expressão rica no rosto de Grissom foi se apagando e ele não sabia o porquê. Ele pôs os pés no chão com certa rapidez, imaginando que fosse levantar logo, porém não foi o que aconteceu. Acabou se deitando novamente, sem erguer seus pés. O sargento cobriu o rosto com ambas as mãos e suspirou.

Quando estavam juntos em momentos que não fossem sobre o trabalho era como se fossem para outro mundo, longe de todos os problemas, os mesmos que acabaram unindo ao dois. As horas de amor acabavam e todo aquele clima era deixado para trás, então ambos tinham de voltar ao mundo em preto e branco, com escalas de cinza e sépia.

Mais um ciclo que os dois criaram.

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Sara deixou o banheiro já vestindo sua calça jeans uma blusa bege de meia-manga. Veio para a cozinha de toalha na cabeça ao sentir o cheiro convidativo de café e foi pega de surpresa (novamente) por Grissom preparando a refeição. A cena lhe fez lembrar de poucos dias atrás, na manhã de sua infeliz ressaca. Tentou não voltar com o rosto sério ou meio abatido, tudo por ele.

— Ei, o cheiro está muito bom. — disse ela ao se aproximar. Ele não sabia que Sara estava por perto e foi surpreendido por sua presença.

— Obrigado. — Grissom esboçou um sorriso sem jeito enquanto sua atenção era tomada pela omelete — Você come ovos, não é? — Ele apontou o utensilio em sua direção.

— Como sim, não se preocupe. — A detetive veio para perto e observou o que ele estava fazendo. Ela aproveitou para tocar em seus ombros e beijar sua bochecha. O sargento estava sem camisa, então o toque de suas mãos quentes lhe causou calafrios breves que o fez reagir quase prontamente. Aquele toque o deixava estático, rendido à única pessoa por quem pode afirmar que se apaixonou como nunca.

— Será que... um dia vamos poder fazer isso sem nos preocupar com... — Grissom parou de falar quando percebeu que estava sonhando acordado. Sem que ela pudesse vê-lo ele franziu as sobrancelhas e cerrou os olhos para apagar quaisquer “delírios” da mente.

— Com o quê? — Ela afastou as mãos para ficar ao lado dele.

— Nada... deixa. — Rapidamente ele a fitou com um sorriso afetivo — Vou terminar por aqui e tomar um banho.

Sara buscou nos olhos dele alguma resposta ou um sentido para o que havia dito segundos atrás. Não seria agora que teria isso, ela o conhecia; talvez não por completo, mas tinha suas descobertas sobre ele.

— Tá bom. — disse por vencida.

— Pode ir tomando seu café, não me espere. Não quero que se atrase. — Ele alertou enquanto terminava a omelete dela.

A morena sentou-se à mesa esperando por ele. Ela apoiou as mãos na superfície lisa e fria e deslizou a mão direita até que se fechasse.

— E os remédios? Já tomou?

— Sim. Oito da manhã e oito da noite. — A resposta saiu meio seca.

— Tem se sentido bem, Gil? — Ela o questionou após alguns segundos de silêncio.

O sargento fechou a frigideira quando terminou de aprontar tudo. Ele se virou para a morena com uma expressão quase apática.

— Na maior parte do tempo, sim. — Deu de ombros sem olhar para ela — É estranho tomar antidepressivos sem estar com depressão. — brincou ele ao mostrar um sorriso meio triste — Tem seus efeitos... mas eu consigo aguentar.

Sara lhe lançou um olhar melancólico. O que mais queria era encontrar uma forma de ajudá-lo a se livrar desse peso, mas não tinha ideia do que fazer, apenas esperar. Nunca poderia sequer imaginar que a tarde naquele posto de gasolina resultaria nisso.

— Se você sentir algo fale comigo. — disse imaginando que fosse de algum alento.

— Ok, obrigado. Eu vou tomar um banho. — Ele assentiu e se retirou da cozinha sem pressa.

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Ele ainda sentia dor naquela perna. Algo aceitável na medida do possível, mas ainda era dor. Aquela decisão tomada no posto de gasolina estava custando mais caro que podia imaginar. O jovem estava morto e ele estava sendo atormentado por uma escolha errada. Agora uma série de problemas foi desencadeada, problemas que durariam mais que o esperado.

Os remédios estavam fazendo efeito, sim, mas por quanto tempo teria de tomá-los e sofrer com isso? Desta vez ele estava seguindo à risca todas as recomendações do médico, desde a alimentação até os exercícios físicos. Não dava para negligenciar a si mesmo e arriscar algo pior no futuro, de aposentadoria forçada até a capacidade de andar direito. Ele não era um especialista em saúde para predizer seu futuro, mas faria de tudo para não encarar aquela dor com força total.

Seus efeitos? Nada tão evidente que o tirasse da ativa, mas não sabia dizer se as noites de sono mal dormidas nestes últimos dias eram resultado de sua ansiedade ou consequência dos antidepressivos.

Grissom preferiu um tomar banho com água fria. Quando a corrente d’água começou a cair, ele passou a mão por seus cabelos e fechou os olhos com força. Já imaginava o quão cansativo fosse o dia que começou há poucas horas. Estava se desgastando por antecipação.

— Droga.

Levou não mais que seis minutos no banho. Arrumou-se no quarto de Sara, vestindo a calça social cinza e abotoando dois botões da camisa preta.

— Sara, você viu o meu relógio? — gritou ele do quarto, imaginando que Sara ainda estivesse na cozinha. Após sete segundos, como não recebeu resposta ele foi ao seu encontro — Sara?

Ela não estava lá. Quando se aproximou da mesa notou que mal pegara sua xícara ou tocado na frigideira com as omeletes. O sargento fez uma careta confusa e foi procurá-la no banheiro, mas notou que havia deixado a porta aberta e o cômodo estava do jeito que deixou, intocado. Achou estranho não ter sido escutado já que a casa era pequena.

Então a procurou na varanda dos fundos. Nada. Seguiu para o porão, bem próxima da varanda descendo as escadas à sua direita. Lá estava escuro e ao acender a luz não viu nada, como se aquele lugar não fosse usado há tempos.

— Sara? — Ele a chamou novamente, imaginando que ela estivesse próxima e aparecesse de repente — Sara?!

Dando meia volta num pulo ele apressou os passos pelos corredores da pequena casa. Faltavam a garagem e o jardim. Ao acessar a garagem pela cozinha viu que nada foi mexido, seu carro estava lá, e mesmo se ela tentasse usá-lo ele ouviria o barulho do motor ou do portão. Então voltou pela porta da cozinha e de lá iria para o jardim. Ele estava ficando nervoso, bastante nervoso.

Grissom abriu a porta principal com rapidez e olhou para todos os cantos do jardim simples. Não havia nada, nem ninguém. Pouca movimentação na rua, os que passavam pelas calçadas vinham de longe e não havia nenhum vizinho próximo à vista.

Sara não estava na casa.

— Sara. — disse ofegante, sem saber para onde ir. Totalmente aflito ele entrou na casa sem fechar a porta e retornou à cozinha tentando encontrar algo diferente. Já estava pensando nas piores situações possíveis.

Algo de estranho que não notara antes? A mesa estava intocada, somente a cadeira puxada para que ela se sentasse (ou se levantasse) era o detalhe mais evidente dali. O fogão estava como ele havia deixado, com a frigideira contendo a omelete que fizera para Sara; ele faria o seu depois do banho. No armário, nada de mais, do jeito como estava antes.

Não havia sinal de luta por ali, e claro, ele ouviria se acontecesse. Ou talvez, não. Talvez não houve sequer uma luta.

— Não, não pode ser.

Ele não queria admitir aquela possibilidade, Deus me livre, pensava ele, mas o que aconteceu para ela sair sem deixar rastros?

O sargento voltou para o quarto correndo para pegar o celular e ligar para ela, foi a melhor ideia que sua conturbada mente planejou.

— Vamos, Sara, atenda. — Ele sussurrou, levando a mão à testa.

A aflição que ele imaginou terminar com aquela chamada piorou. O celular de Sara começou a tocar... bem próximo a ele. A detetive sequer levou o celular consigo para a cozinha, ao menos. Ao ver aquilo Grissom sentiu-se desolado; ele encerrou a ligação e pressionou o aparelho sobre sua mão.

— Deus... — lamentou balançando a cabeça por várias vezes.

Sem largar o celular ele voltou para a sala, prestes a fazer outra ligação, desta vez para o capitão Brass. Era a última coisa que gostaria de fazer, mas uma das primeiras em seus planos. Havia algo entalado em sua garganta e talvez não fosse capaz de falar com Jim; talvez a voz dele ficaria travada em sua garganta e o capitão ouviria um silêncio mortal.

E então a porta principal foi aberta por fora. De ouvidos atentos ele se virou prontamente para lá e ficou perplexo com o que viu. Era Sara. De rosto sereno a morena entrou carregando um jornal enrolado em seu braço. Ela ficou surpresa ao vê-lo parado próximo a ela e com uma feição pálida.

— Oi. — Ela acenou com um sorriso torto.

— Sara! Por Deus, onde você estava?! — exclamou, não conseguindo segurar a emoção.

Ela arqueou as sobrancelhas e quando deu por si o sargento estava bem à sua frente, tocando em seus braços como se a tivesse encontrado após muito tempo.

— Fui comprar o jornal. — Ela estendeu o rolo para ele — Gil, por que está assim? O que houve?!

— Ah, Deus... — Ainda tocando em seus braços o sargento baixou a cabeça e suspirou. Sua respiração estava ofegante e seu toque bastante rígido — Eu...

— Ei. — Sara deixou o jornal no chão e segurou seu rosto com ambas as mãos, elevando-o para si — Calma, eu tô aqui.

— Eu... achei que ele tinha... — Grissom engoliu em seco — eu não sei... levado você. — As últimas palavras rasgaram sua garganta como lâminas.

— Me desculpe. — disse ela passando a mão por seu rosto na tentativa de apagar aquela expressão — Achei que você ia levar mais tempo no banho então eu fui logo.

Aos poucos Grissom foi afastando suas mãos dela, chocado pelo modo como ele mesmo ficou com aquela história. Mas isso não significava que seus batimentos cardíacos desaceleraram de vez, apenas que ficou mais aliviado.

— Por que eu não pensei nisso? — O sargento lamentou ferrenhamente.

— Isso passou agora. Tá tudo bem.

— Tudo... tudo bem... — Ele sussurrou, mas a morena percebeu que não estava bem, longe disso.

A cada dia se passava Grissom sentia que seria capaz de quebrar o pescoço de Zodíaco caso ele machucasse a mulher que amava. Ele tinha medo que isso acontecesse, medo de realmente se tornar um monstro, movido por emoções derradeiras e indo contra tudo que defendeu.

Sara beijou a testa dele com carinho e encostou a sua. Os dois ficaram naquela posição por não mais que dez segundos.

— Eu estou aqui. — Ela repetiu e desta vez beijou-lhe os lábios. Ficou a poucos centímetros dele para saber como reagiria.

— Acho que... os remédios me deixaram um pouco ansioso. — Grissom tentou amenizar a situação inventando uma desculpa. Ele segurou seus pulsos delicadamente e acariciou suas mãos em seguida — Desculpe.

— Não tem que pedir desculpas. Acho que eu devia ter levado o celular. — Ela brincou, tentando arrancar um sorriso dele. Quando desviou a atenção a ela ao olhar para o chão, a visão de Sara se voltou para a direção da cozinha — Vem comigo. Ainda não tomamos café.

— A omelete deve... ter esfriado. — lamentou ele de cara baixa. Ele se recuperava do susto e falava pausadamente.

— Não importa.

O sargento a encarou no fundo dos olhos e só via brilho neles, o que não o recuperou por completo, mas iluminou se caminho escuro. Ela estava lá e estava bem, mesmo que ele não pudesse falar do mesmo jeito.

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— Acabei não contando a você. Consegui marcar uma conversa com Sam Braun.

— Sério? — Ela, que estava lendo o jornal enquanto ele tomava a direção do carro fechou a página após marcar com o dedo o ponto de onde estava lendo — Isso é muito bom.

— É, mas ele quer jantar comigo.

A morena arregalou ainda mais as sobrancelhas, atenta à cara de desânimo que ele fazia enquanto olhava para frente e pressionava o volante várias vezes.

— Jantar? Não bastava apenas uma meia-hora de conversa?

— Era o que eu imaginava! — respondeu desiludido — Catherine tentou argumentar, mas pelo visto ele só vai falar desse jeito.

— Não acho que seja uma boa ideia. Toda essa... exposição que você pode tomar é um perigo.

— Eu já aceitei.

Sara dirigiu o olhar para ele mais uma vez, desta vez surpresa com ele já que imaginava uma decisão mútua entre os dois.

— Foi no calor no momento. — Ele tentou se defender, enquanto movia nervoso os ombros.

— Hum. — De modo não muito satisfeito ela aceitou as desculpas — Quando vai ser?

— Provavelmente daqui a uma semana.

— Então você vai ter que estar preparado. — A detetive retornou com sua leitura do jornal, o que chamou a atenção dele pelo movimento do papel.

— Preparado para quê?

— Para tudo. — ressaltou ela, voltando a encarar o sargento novamente — Você simplesmente vai jantar com um homem de bastante influência por aqui.

— Não se preocupe com isso. Eu já lidei com o Sam antes. — Grissom gesticulou com a mão direita na tentativa de conciliar a situação.

— E como foi?

— Não muito bem. — admitiu — Mas temos Catherine do nosso lado.

Sara voltou com o jornal, se segurando para não rir. Ela franziu os lábios numa tentativa de segurar ao menos o sorriso que se formava naturalmente. Quando se virou rápido para vê-la ele notou aquilo.

— Eu acho melhor você arranjar uma forma de se sair bem nessa. — alertou ainda sorrindo.

— Eu queria você por perto para me salvar. — confessou ele com o olhar fixo nas ruas.

A morena sorriu novamente, desta vez por pena da situação do sargento.

— Sempre estou por perto, não estou?

Seus olhares se encontraram, finalmente. Sara não precisou ver o sorriso dele para saber que ficou alegre ao ouvi-la.

— É, você está.

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Os dois chegaram ao departamento e foram como de costume direto à sala de Grissom. Havia questões importantes a serem decidias hoje. A mais importante, qual caminho tomar na futura abordagem com os Jenkins e até mesmo com o xerife.

— E então, o que a gente faz agora? — questionou Sara, encostada à mesa dele.

O sargento estava sentado em sua cadeira, variando entre encarar sua parceira e o monitor desligado do computador. De mãos cruzadas e prensado sob nuvens de incerteza esta era uma das poucas vezes em que Grissom começava o dia no trabalho sem saber para qual caminho tomar primeiro.

— Gostaria de partir até Cold Springs ainda hoje. — iniciou, temendo que não saíssem do lugar — Mas ainda temos de finalizar alguns detalhes, como o corte dos discursos. Vai servir para mostrá-lo a Mary ou para qualquer um que tenha entrado em contato com ele.

— Então temos de pedir ao técnico que faça essa edição para nós.

— Eu já pedi. — Ele respondeu enquanto girava uma caneta sob suas mãos.

— Bem... você está bem adiantado hoje, sargento. — Sara cruzou os braços e lhe lançou um semblante sugestivo.

— Acho que estou trabalhando melhor. — Deu de ombros — E imagino que hoje será um dia bem produtivo para mim já que dormi muito bem ontem.

— Ai, ninguém merece você, Gil. — revirando os olhos a morena se afastou da mesa e caminhou em direção.

— Aonde você vai? — perguntou sem disfarçar o riso.

— Saber se os cortes já estão prontos. — Antes que abrisse a porta ela se voltou e falou sorridente — Que bom que já está melhor.

Grissom não respondeu, apenas afirmou com a cabeça. A verdade é que a imagem da casa vazia ainda o perturbava um pouco. Tinha medo que ficasse paranoico por causa do assassino, ainda mais com o fato de que sua namorada estava na linha de frente junto dele.

Sara deixou a sala assim que Grissom indicou o nome do responsável pela edição. Ao conversar brevemente com o editor de vídeos ela descobriu que as montagens estavam quase prontas, que ainda hoje os dois teriam o material em mãos. Não era a resposta que esperava, queria já estar com os vídeos e terminar de planejar o retorno à Cold Springs de uma vez. Teria que deixar para outra hora, torcia para fechar tudo antes do anoitecer.

De volta à sala, a detetive encontrou do mesmo jeito que o deixou: sentado atrás de seu computador. Porém desta vez centrado enquanto olhava para o monitor. Não dava para saber que ele assistia, o volume estava baixo.

— E então?

— Nada, ainda. Ele vai avisar quando estiver tudo pronto. — respondeu ela — O que está vendo? — perguntou ao se aproximar.

— A filmagem do funeral. Quero saber se encontro esse desgraçado.

— Se ele for espero e eu imagino que seja, vai ter desviado das câmeras. — Apesar de tudo Sara tinha poucas esperanças de que pudesse ver o homem que deixou o bilhete lá. Chateada consigo mesma por deixá-lo passar, qualquer tentativa de descobrir algo por aquelas filmagens a deixava mais tensa.

— Ninguém é tão esperto assim.

A filmagem tinha duas horas em meia no máximo, tirando os testes de vídeo. O material foi entregue sem muita edição e sem a versão que foi ao ar, resumindo-se apenas no cortejo, o caixão sendo levado, e uma breve filmagem das pessoas reunidas junto do padre para as últimas palavras.

— Não consigo me lembrar desse rosto nos discursos, nem de ter falado com ele lá no evento. — Sara falou desesperançosa.

— Falamos com muitas pessoas lá. É normal que sua mente esteja confusa. — respondeu ele sem tirar os olhos do monitor. Rodar as mesmas imagens várias vezes era uma tarefa maçante, mas passível de se correr o risco de deixar algo passar — Também não me lembro de ter visto esse rosto. Capaz da dona da loja ter se confundindo ou esse aqui não estar envolvido nessa história.

— Talvez ele nem estava lá no evento, tudo para que não pudéssemos identificá-lo. — comentou ela, tentando achar a si mesma no meio daquela filmagem.

— Faz sentido. Ele pode mandar qualquer um dos seus subordinados fazer isso.

— Mas... — Sara hesitou ao continuar, todavia arriscou assim mesmo — para mandar alguém fazer isso tem que ser alguém de confiança.

— Um cúmplice.

— Não dá para pedir a qualquer empregado que faça isso, com todos os riscos a correr. Talvez esse homem fez de tudo para evitar ser visto pelas câmeras porque corria o perigo de ser reconhecido uma hora ou outra.

— Mas por que se arriscar numa floricultura? — indagou o sargento.

— Talvez tivesse um plano, sabendo que iríamos achar aquele lugar e conversar com aquela gente.

Grissom balançou a cabeça e se afastou um pouco do computador.

— Merda. Isso aí não tá caminhando bem.

— E quem seria essa pessoa? Alguém de confiança que matou algumas daquelas vítimas, ou...

— Um sucessor? — completou o sargento.

— Pelo visto... — A morena olhou para a o aparelho de DVD — Será que ele passou despercebido por nós naquele evento? Se ele é mesmo cúmplice deve andar de mãos dadas com o assassino. — Prontamente ela se levantou e foi ligar os aparelhos na esperança de que pudesse tentar encontrar o suspeito no meio daquela gente.

— Sara. — chamou ele, já sabendo o que ela iria fazer — É um trabalho imenso, procurá-lo num material de horas nesse momento não é o melhor caminho.

— Não temos outra escolha.

— Temos, sim. — Afirmou o sargento se aproximando dela — Indo com calma e aos poucos, ok?

Sara nem tentou disfarçar o quanto aquela resposta a desagradou. Porém não teve tempo de responder porque o telefone da sala começou a tocar.

— Grissom. — Não passou muito tempo e ele mudou de semblante rápido, parecendo se empolgar com a voz do outro lado da linha — Ele está aqui, é? Bom, vamos falar com ele logo. — A ligação durou pouco tempo, logo o sargento desligou.

— O que foi?

— O editor do Globe está aqui para dar depoimento.

Impressionada a morena ergueu as sobrancelhas. Foi uma novidade para ela, que não esperava recebê-lo neste dia.

— Você vem? — perguntou Grissom.

— Claro.

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— Estou aqui como me pediram. — falou o homem grisalho após dar um tapinha na mesa.

Para não causar uma imagem ruim o depoimento do editor-chefe seria feito na sala de convivência, lugar donde já foram feitos outros procedimentos do tipo. A sala de interrogatório foi a escolha rejeitada em primeiro lugar pelo jornalista.

— É, nós estamos vendo. — Grissom mostrou um sorriso sarcástico. Ele e Sara estavam sentados frente ao homem à mesa redonda.

— Digam o que querem de mim, senhor e senhora. Informação é dinheiro. — Brincou Howes ao ajeitar as mangas de sua camisa de lã amarelo.

— O quanto você sabe sobre o último trabalho de Park, senhor Howes.

Ouvindo a pergunta o jornalista ergueu uma sobrancelha, curioso pela pergunta um tanto óbvia e previsível.

— Já conversamos sobre isso, sargento Grissom. — Ele tossiu discretamente após falar.

— Sei disso, mas agora estamos diante de um depoimento formal e desta vez quero que aja sinceramente conosco, senhor Howes. — Grissom apontou para o gravador no centro da mesa.

— Acha que eu menti para o senhor, sargento? — Ethan fez um gesto com ambas as mãos parecendo surpreso.

— Não vou dizer “mentir”, mas... contar meias-verdades. Está bom para o senhor? — Grissom ironizou dando de ombros. Não bastou muito tempo e ele fechou a cara com o semblante sério de sempre — Vamos, nós sabemos dos emails que vocês dois trocaram ultimamente. Você e Park não estavam tão distantes, pelo visto.

Os emails eram verdade. Ao acessar a conta de Park Grissom e Sara descobriram uma série de conversas entre a vítima e o editor, que envolviam um assunto não muito especificado, mas que dava a entender ser o trabalho recente de Park.

Certas vezes Sara ficava no meio da “conversa” em silêncio para se habituar à situação, vindo a se manifestar logo depois ou quando a coisa esquentava. Como não estava presente no dia em que Grissom falou com ele preferiu ficar quieta por enquanto.

— Já estão invadindo a privacidade do falecido, é? — Howes se inclinou para a frente e desviou o olhar do sargento por instante.

— O que você sabe, Howes? Estava negociando com Park a volta dele ao Globe por aquela história?

O senhor de idade sorriu e balançou a cabeça.

— Então era isso. — Da mesma forma que Ethan, Grissom também esboçou um sorriso, este foi de satisfação.

— Falta gente como Park hoje em dia. O jornalismo precisa de mais gente como ele.

— Gente que tira foto de uma vítima sem o pingo de ética e mostra ao mundo? — Havia uma pontada de rancor na voz erguida de Grissom — Esse tipo de gente?

— Ah, por favor! — o jornalista protestou, inconformado com o que imaginava ser birra do sargento — Aquilo comoveu as pessoas, trouxeram elas para o seu lado.

Grissom baixou a cabeça e apertou os olhos por dois segundos. O que fizesse daqui pra frente sob pressão da raiva poria tudo a perder e ele não podia permitir isso, muito menos na frente dela.

— Eu achava que vocês tinham alguma ética de preservar a imagem de alguém.

A coisa pareceu ter esquentado entre os dois, porém Grissom sabia aonde estava caminhando, ou ao menos imaginava. Por isso preferiu se manter firme.

— Ok. Agora nos conte sobre o trabalho dele. — comentou o sargento como se toda a raiva tivesse desaparecido.

O senhor de idade suspirou e bateu na mesa sem fazer som algum.

— Eu não menti quando disse que Park preferia não falar muito sobre o trabalho. Ele dizia que preferia evitar dar muitos detalhes para a segurança minha e dele.

— Como ele trabalhava? Tinha um informante... dois...? — Foi a vez de Sara tomar a palavra.

— Era apenas um. Disso eu tenho certeza.

— Park já chegou a descrever sua aparência?

— Não. Na verdade Ryan nunca o viu em todo tempo que trabalhou com ele. Dizia que a oportunidade surgiu do “nada” e que não podia deixá-la escapar.

— Como assim surgiu “do nada”? — Sara insistiu.

— Ele dizia que foi encontrado por essa pessoa, que começou dando uma informação sobre suspeita de dinheiro ilícito envolvendo redes de cassino aqui. Era um negócio pesado.

O sargento e a detetive trocaram um breve olhar, mas incisivo. O perfil do homem rico e influente era uma realidade.

— Isso não é novidade. — afirmou Grissom sobre a rede de corrupção.

— Todos nós sabemos disso, mas a novidade estar em revelar quem são essas pessoas. Park checou aquelas primeiras informações e viu que estavam corretas.

— Continue. — gesticulou Grissom após uma pausa mais longa que esperava — O que Park fez depois? Ele conseguia entrar em contato com o informante?

— Ele nunca confirmou. Dizia que para falar com ele era quase um sofrimento, mas nunca disse como.

— O que mais ele te contou para atrair você, Howes?

— Escute. Park era meu amigo. Mesmo depois de se afastar da redação ele me deu muita coisa e eu o pagava muito bem.

— Pagaria mais por aquela história? — Sara o pressionou sem mover um músculo.

— Eu estava negociando com ele a publicação da história, mas não tenho acesso total àquelas informações como vocês tem. — O editor fez questão de enfatizar a voz e apontar para os policiais — Mas acredito que se Park conseguisse ir adiante concorreria ao Pulitzer. Conheço o trabalho dele muito bem para dizer que ele era capaz.

— Agora ele está morto e o trabalho, incompleto. — Grissom continuou, esperando algo a mais.

— Esse trabalho não pode ser perdido, policiais. Park arriscou a vida dele por isso e talvez tenha sido morto porque alguém lá de cima descobriu.

Ou porque foi atraído pelo próprio assassino.

— Na sua posição, senhor Howes, deve saber que tipo de gente pode ter desejado a cabeça do seu amigo ou o tipo de pessoa que era o informante. — sugeriu a detetive, de modo que ela e o sargento aparentassem estar com uma investigação bem encaminhada.

— Creio que já tenha nomes incluídos na lista de Park, senhor Grissom. Ao menos um deles deve estar envolvido, é matemática básica. Já o informante... — Ethan olhou em direção à porta, sem local fixo, e abriu um sorriso intencionado — tem que ser alguém de dentro. Um cara arrependido, talvez... alguém que iria ganhar ao divulgar essa história... — Deu de ombros e mostrou um sorriso cômico — alguém com acesso aos podres dos gigantes. Não é qualquer um que pode fazer isso.

De modo semelhante foi o raciocínio que Grissom e Sara tinham no momento.

— Agora, saber o motivo que essa pessoa resolveu entregar tudo de bandeja a Ryan, esse é o mistério.

— Como Park descrevia a forma de agir do informante? — Grissom perguntou enquanto se levantava.

— Eu acho que a conversa entre eles não passava de mensagens de texto trocadas. Ryan nunca chegou a me dizer nada além de um homem de palavras curtas. Nada mais que isso. — Ele balançou os ombros — Park não falava muita coisa objetiva sobre o caso, na verdade. Imagino que sua maior confidente era Gillian, muito mais que o irmão. — As palavras do editor quase saíram sarcásticas — Perguntei a ela se Park falou alguma coisa do trabalho, mas ela disse que não sabia de nada.

— Hum, claro. — O sargento comentou sem muito ânimo — Só isso? Mais algum detalhe?

— Bem... — Ethan ergueu os ombros como se tentasse lembrar de algo — Esse informante era alguém discreto, como dizia Ryan. Era o Garganta Profunda dele e o cara não queria perdê-lo por nada, faria de tudo.

— Como assim, tudo? — Grissom pressionou na tentativa de explorar o caminho das palavras de Ethan.

— Ah... — O editor balançou a cabeça e mostrou um sorriso torto, dando a entender que foi uma frase retórica — Cada um tem seu jeito, sargento, e Park tem o dele.

De pé e encostado a parede o sargento analisou a figura à sua frente. O semblante se fechou no momento em que ele terminou de falar. Enquanto ele falava daquele jeito à imagem de tempos atrás retornava sem parar.

— Sei como são. — respondeu quase murmurando.

— Eu disse a ele: “vai continuar com isso, filho? Veja para onde está se metendo, você não tem respaldo de ninguém desta vez”, mas ele continuou, estava pronto a arriscar tudo por aquela história, então eu falei: “então vá fundo e destrua aquela gente”. Ah... — lamentou o homem — De certa forma eu... sentia que algo ruim pudesse acontecer com ele.

— Soube se ele já foi ameaçado?

Assim que o sargento fez a pergunta o celular de Sara vibrou indicando uma mensagem. O primeiro desejo era de ignorá-la, mas acabou mudando de ideia no último minuto. Ela pegou o aparelho discretamente e leu a mensagem por entre debaixo da mesa:

“Encontre-me na copinha. Importante.”

Quem mandou a mensagem era Ivanenko, o que não deixou alternativa para ela senão acatar ao seu pedido.

— Já volto. — sussurrou próxima ao ouvido de Grissom assim que se levantou. Saiu logo sem ao menos olhar para Howes, que os encarava confuso após o pequeno detalhe.

A copinha não ficava tão longe, mesmo assim ela apertou o passo temendo atrasar-se tanto com seu compromisso quanto com o colega. Nada mais passava por sua mente a não ser o caso de Lewis, um velho caso que os atormentava de vez em quando e que parecia estar tão longe e tão perto de um fim.

Sara o encontrou conversando com mais duas pessoas. Não reparou no teor do assunto, quando chegou chamou logo por ele.

— Detetive Ivanenko. — disse à beira da porta. Reconhecendo sua voz Maksim assentiu a ela e se despediu dos dois colegas, chamando-a para ir com ele.

— Ei, obrigado por vir. É sobre o caso do Lewis.

— O que houve? — questionou ansiosa, imaginando que fosse algo bom ou grave.

Após meio minuto de caminhada, o que aumentava ainda mais a aflição da detetive, os dois acabaram parando num canto não movimentado entre algumas salas administrativas. Maksim ficou frente à ela e pela cara dele Sara imaginou que não era coisa boa.

— Querem fechar o caso. — disse de uma vez, sem hesitar.

Sara interpretou o “querem” como os superiores, pensou até em Ecklie primeiramente. Nomes eram “proibidos” de serem ditos em voz alta para a segurança de ambos.

— Como assim eles querem fechar? Não temos um verdadeiro culpado ainda. — Surpresa, ela se segurou para não falar alto.

— Para eles nós encontramos, sim. Hilary.

— Ela sabe muito mais do que diz, Max. Hilary deve conhecer o culpado disso, não faz sentido ser um crime isolado numa situação dessas, não depois de como ela agiu lá no interrogatório.

— Não podemos forçar alguém a falar. — Ele gesticulou como se estivessem de mãos abanando — Eu tentei investigar a vida dela, mas a Justiça está me impedindo de fazer isso.

— Eu não acredito nisso. Falou com o promotor do caso?

— Falei! — Um oficial passou perto deles, o que atraiu as respectivas atenções — Ele sabe de toda a situação e está do meu lado. Também desconfia do advogado, mas está difícil quebrar esse bloqueio. Até ele tem enfrentado dificuldades.

Sem saber o que dizer a morena encostou na parede e fez um gesto em negativa. Como temia o caso da morte de Lewis estava se encaminhando ao pior final possível. Era como se as respostas estivessem atrás da porta, mas fossem impedidos de abri-la porque estava trancada a sete chaves.

— Acha que tem alguma interferência nesse caso? — perguntou não esperando por uma resposta concreta.

— Dale pode ser alguém influente no meio. Mas eu não sei, estou às cegas.

— Ele devia estar cobrando por uma solução mais coerente que apenas uma confissão. É o advogado dele, não pode simplesmente aceitar isso!

Maksim arqueou as sobrancelhas ligeiramente logo após ouvir Sara. Ele olhou em sua direção e a encarou como se tivesse acabado de ter uma ideia.

— Você tem razão.

— O que foi, teve uma ideia? — Sara mostrava animação ao vê-lo daquele jeito.

— Vou arranjar um encontro entre mim, o advogado e o promotor para dar um jeito nessa questão o quanto antes. Se conseguir eu te aviso. Me deseje sorte.

— O que pretende com isso tudo? — Ela ainda não havia compreendido a intenção de Ivanenko.

— Convencer o promotor e o juiz que Dale está sedento por mais respostas. — Ele abriu um sorriso malicioso, algo raro que Sara via no detetive.

— Boa sorte.

— Obrigado.

— Eu realmente espero que você consiga. Se houver mesmo uma relação entre o advogado os nossos casos vão tomar outra proporção.

— Estou contando com isso. — O detetive concordou acenando com a cabeça.

Os dois se entreolharam por alguns segundos, um esperando o outro se manifestar. Seus rostos estavam neutros, ao contrário da confusão ou da alegria dos momentos anteriores.

— Preciso... ir agora. Estou no meio de um depoimento.

— Oh, sim, sim. — disse aumentando a voz pela surpresa — Desculpe te tirar de lá.

— Não se preocupe, o que me disse agora é importante demais para ser ignorado.

— Certo, então nos vemos depois. — Ele sorriu de lado, despedindo-se dela com discrição.

Quase da mesma forma que veio a detetive retornou à sala de convivência a passos largos e precisos, receosa se o depoimento havia terminado ou não. Mesmo que a conversa tenha sido gravada era desejo dela estar lá desde o começo, mas como disse antes ao colega, aquele assunto era importante demais para ser ignorado.

Ela ficou aliviada ao se aproximar da porta de vidro transparente e ainda encontrar os dois. Grissom voltara a se sentar, desta vez em direção à porta, porém sem dar atenção a ela. A morena voltou quieta, somente quando entrou foi que recebeu o olhar do sargento e até mesmo do editor.

— Ryan fazia de tudo para estar onde aquela gente estava. Nunca chegou a pedir minha ajuda, mas comentava o quanto era difícil. Na maior parte das vezes fracassava, mal conseguia entrar num casino quando tinha festa... chegou a gastar o dinheiro todo de vários freelances apenas para rodar pelo estado em busca de mais pistas sobre a história. De qualquer forma era o informante quem dava as coisas para ele.

— Ele chegou a comentar sobre a possível identidade do informante?

— Ele estava mais preocupado em adquirir informação pra história do que sobre a pessoa quem o estava ajudando. Park tinha uma mina de ouro nas mãos, não iria incomodar o mineiro dele. Claro, ele devia ter suas suspeitas, não me dizia quais, mas resolveu confiar nele...

— Ok. — Grissom assentiu como quem finalizava o momento. Ele olhou para Sara que fez o mesmo gesto, concordando com sua decisão.

— Essa história não pode ser privada do público. As pessoas têm que saber o que está acontecendo.

— Diz isso por causa da sua moral de jornalista ou porque você quer publicar a história?

Pela primeira vez em todo o tempo de conversa o editor lançou um olhar gélido ao policial. O homem de ar tranquilo num primeiro momento sentiu-se estar num interrogatório desta vez, não gostou nada do que ouviu.

— Se você tem alguma suspeita sobre mim, sargento, é só dizer.

— Não tenho suspeitas sobre você. Apenas entendo o quanto deve estar interessado num conteúdo daquele. Qualquer um na sua posição ficaria. — Grissom se levantou, agora sem a intenção de retornar — Mas você sabe que está proibido de comentar sobre o que falamos aqui ou vai sofrer um processo.

— Por mais que isso doa eu sou capaz de esperar. — Howes respondeu sem ressalvas.

— Esperar até toda a investigação terminar. — O sargento se enfatizou.

— Eu não me esqueci. — Ele abriu um sorriso ousado.

— Que bom. Nós agradecemos que tenha vindo aqui dar o seu depoimento.

Ao ouvir aquilo o editor se levantou e apertou a mão de ambas as figuras.

— Torço mesmo para que peguem logo o assassino ou o mandante. Ryan não é o primeiro jornalista a ser morto por causa do serviço e infelizmente não vai ser o último. Profissão de risco.

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— O que aconteceu? — Grissom repetiu a pergunta quando os dois voltaram à sala dele. A detetive pediu que chegassem lá primeiro para deixá-lo a par da situação em vez de dizer aquilo perto de outras pessoas.

— Era o Ivanenko. Veio me avisar que querem fechar o caso do Lewis.

— Claro que eles querem. — O sargento resmungou — Já tem uma culpada, para quê procurar mais coisa? — Ele ergueu os braços antes de voltar a se sentar.

— Max disse que vai conversar com o promotor e dar um jeito de convencer o juiz para continuar com a investigação.

— O que você acha?

Sara o encarou antes de se sentar. Antes de falar parecia bem convicta de sua resposta, mas com o passar dos segundos foi perdendo a força aos poucos.

— Que o advogado é culpado? — Ela deu de ombros, perguntando retoricamente — Temos o bastante para desconfiar dele, mas ainda assim não significa muita coisa.

— Ivanenko vai dar um jeito. Ele tem algumas ideias malucas e quase sempre dão certo. — afirmou ele ao olhar para o computador ligado no descanso de tela.

— Torço que sim. — Enfim ela se sentou na cadeira ao lado dele — Isso é estranho. Regis deve ter ganhado muito dinheiro de Lewis, já que não ele não é qualquer advogado. Porque não atuar com força no assassinato do próprio cliente?

— Céus... — Ele esfregou as têmporas com os dedos rapidamente, preocupado com o surgimento de outra enxaqueca.

— Percebi que você não quis dar mais detalhes sobre o caso para Howes, não é? — Ela perguntou baixo, vendo que ele não estava com uma cara boa.

— Precaução.

— Ah. — Ela sorriu — O que Howes te disse enquanto eu estava fora?

— Pelo que ele sabia Park não era ameaçado, mas vivia com um pouco de medo. Até conversou com ele sobre comprar uma arma e outras ideias estranhas.

— Ele não teria chance contra o assassino. Antes de pegar a arma já estaria morto.

— É. Depois eu perguntei se havia outro compromisso após o último encontro com o informante. Ele disse que pesquisava sobre um evento que ocorreria no mês que vem.

— Evento? — A detetive ergueu as sobrancelhas.

— Ele não explicou nada mais além disso, mas contou que isso partiu de Park, não do informante.

— Faz sentido, se o informante for mesmo quem nós procuramos preparou tudo para aquele dia.

— Passa o mês e Zodíaco vai pegando gosto pelo que está fazendo.

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Oito e sete da noite. Afastado do grande centro de Vegas estava um prédio comercial pouco conhecido, até. Era no terceiro andar onde ficava o consultório de Hannah Jones, psiquiatra a quem Grissom fez algumas consultas. Lá estava ele de novo, agradecido por conseguir um horário naquele dia e desta vez foi por vontade própria.

Quando foi recebido por ela entrou acanhado, sem movimentos bruscos, olhar baixo. Estava calmo como um animal domesticado. Sem o paletó, veio com a gravata meio frouxa e a camisa dobrada até o antebraço; saiu do trabalho direto para lá.

— Há quanto tempo, Gilbert Grissom. — Jones o recebeu de pé, apertando sua mão e mostrando um sorriso profissional. Ela lhe indicou a poltrona da qual seus pacientes ficavam e tomou seu lugar.

— O dever me chamou. — brincou ele sem muita vontade. Sentou-se e respirou fundo.

— Eu entendo.

Grissom a analisou por um segundo e virou o rosto para o lado, na direção de um aquário em formato retangular. Não tinha reparado naquilo antes nas outras vezes que veio ou ela adquirira há pouco tempo.

— O que gostaria de compartilhar hoje, Gilbert?

O modo como Jones o fez a pergunta lhe lembrou vagamente de Heather. Mas ao contrário dela Grissom não se sentia “abalado” por aquela médica e por isso a escolheu. Imaginou que alguém neutro seria a melhor pessoa para escutá-lo.

— Antes de começarmos aqui, doutora, eu quero que você me garanta uma coisa. — O semblante do sargento passou para algo um pouco ameaçador. Hannah pareceu não se intimidar no começo, até porque a voz dele saiu normal — Garanta, jure, prometa, o que for. — Gesticulou com a mão — Esta conversa não sai daqui.

— Há algum problema-

— Não há nenhum problema. — Ele a interrompeu aumentando ligeiramente a voz — Só quero garantir que isso morra aqui.

Jones parecia intrigada com o que Grissom estava propondo. Ela cruzou as penas e ajeitou os óculos esperando pelo que o sargento iria dizer.

— Não é nada ilegal. Sou apenas eu desabafando e pedindo a você que me garanta isso.

— É direito seu, senhor Grissom. Esta conversa morre aqui. — respondeu serenamente enquanto afastava uma mecha de cabelo para trás.

— Ótimo. Agora vamos lá. — O sargento pressionou as mãos sobre os braços da poltrona, preparando as palavras corretas para não se sair mal. Ele atentou para o aquário novamente, que de alguma forma lhe trazia certa paz e ficou ali até o momento em que resolveu falar — Estou fazendo algo que não devia, doutora.

Jones não mostrou alteração em seu rosto, pelo contrário, estava sóbria.

— Como eu disse antes não é algo ilegal. — Ele acabou sorrindo de lado ao pensar no assunto — Mas é algo que não deveria fazer. De longe eu deveria fazer isso.

Obviamente ele falava dela, da mulher que mexia com sua cabeça e o deixava num outro estado. O motivo da sua mudança de pensamento (e de hábito), e da dor em seu peito. Haviam riscos em abordar uma conversa mesmo não explícita com a psiquiatra? Haviam. Entretanto, depois do que houve pela manhã ele tinha de libertar seus pensamentos, tinha que falar de alguma forma a alguém que não fosse sua namorada.

— Não é um vício em drogas, daquelas que você usa e fica doidão, é um... outro vício. — Grissom resvalou as unhas sobre o tecido da poltrona — Isso me consome, mas eu gosto e sempre quero mais.

Ao dizer isso pensava apenas nas vezes em que compartilhava com Sara os momentos íntimos e carinhosos num quarto. Aquilo fazia seu sangue ferver, o coração bater mais rápido e respiração ficar mais densa.

— Eu não devia fazer isso, mas... não tenho como impedir agora.

Ele abriu um sorriso largo e não ousou a olhar para a psiquiatra. Enfim, largou as mãos da poltrona e as uniu enquanto se apoiava sobre as pernas.

— É uma mulher. Uma mulher que eu não deveria ter me apaixonado e agora estou... — O sargento tocou na testa e negou com a cabeça por várias vezes — Queimando.

— Este amor não é correspondido?

— Ele é. — respondeu logo afirmando gestualmente — E é por isso que eu fico... perturbado às vezes.

Grissom estava junto da mulher que amava, a pessoa com quem sentiu algo diferente há quase dez anos e que sentia a mesma coisa por ele. Que pessoa não gostaria de ter e sentir um amor daqueles? O sargento se imaginava um privilegiado e um condenado ao mesmo tempo, já que a tinha como companheira a mulher da sua vida, e ao mesmo tempo como sua parceira de trabalho numa profissão de alto risco.

— Por que você vê um problema em estar apaixonado?

— Porque tenho medo que ela se machuque com tudo isso. É um momento complicado. — Ele disse de uma vez e depois parou subitamente — Nós não devíamos estar juntos, essa é a verdade, mas eu quero isso e imagino que ela também queira.

— Ainda podem acabar com esta história.

Perplexo, ele a encarou sem o sorriso largo ou mediano da outra vez. Ouviu uma escolha da qual imaginou que a psiquiatra iria falar, mas não imaginou que pudesse ser tão cortante.

— Não dá. — Grissom balançou a cabeça.

Acho que não dá mais.

— Eu não quero.

Tarde demais para sair. Ele estava preso em correntes mais fortes que aço e quanto mais lutava para quebrá-las acabava mais se desgastava. Ambos tinham a chave para se soltarem destes grilhões, entretanto não tinham vontade sequer de usá-las.

— Eu sinto que... algum dia eu vou pagar por ter feito essa escolha.

Notas finais
Como sempre eu arranjo o nome do capítulo o que, uns 5 minutos antes de postá-lo hahaha, não adianta. Eu decidir o nome do capítulo com antecedência é coisa rara. Mas enfim foi isso mesmo que vocês leram aí, tem muita coisa pra comentar então é isso mesmo!!! Muito obrigada a todos que leram! Beijão e até o próximo capítulo ♥