Manhunters
24 Prepare-se
Notas iniciais
Ninguém esperava por aquilo, nem mesmo o promissor caçador de homens. O que se pensava era que quase metade da plateia sairia de lá antes mesmo do detetive terminar sua apresentação. Muitos deixaram sua distração de lado para ouvir e ver o que aquele homem tinha a contar e mostrar. E para a satisfação pessoal do detetive, ela ficou. Ele precisou tomar cuidado, até, ou poderia se distrair e perder toda a concentração.
Ansioso, e da mesma forma, nervoso, o detetive sentiu seu coração acelerar quando a viu levantar sua mão e se manifestar pela primeira vez.
— Sim...? — Surpreso, assentiu quando a atendeu — Olá, qual o seu nome? — perguntou e aproveitou para saber-lhe o nome.
— Oi, é... meu nome é Sara Sidle.
Ele sorriu. Enfim, descobriu o nome da jovem mulher de olhos cativantes.
— Certo. Bem, Sara, o que tem em mente? — Ele fez um gesto com a mão.
A jovem detetive não se deteve pela multidão; ousou fazer várias perguntas, dentre as quais surpreenderam até mesmo ele. Talvez tivesse ficado mais impressionado as perguntas que com suas próprias respostas.
Garota esperta.
No final deu tudo certo.
Foi incrível. A detetive de São Francisco foi quem mais se impressionou. Ela não se deteve, fez várias perguntas, diferente de antes, quando ficou quieta o tempo todo. Mal esperou que o promissor caçador de homens abrisse para perguntas. As dúvidas surgiam como passe de mágica. Ele não podia mentir para si mesmo; a cada momento que ela o questionava, o detetive sorria para o seu rosto.
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A porta do quarto se abriu. Era o doutor Griffin, que entrou e fechou-a. Como de costume (e mania) ele guardou suas mãos no bolso e se aproximou do sargento, ainda deitado na cama.
— Oi, Gilbert, tudo bem? Como você se sente?
— Meio drogado... — respondeu ao se virar para a janela — mas acho que isso é normal, não é?
— Claro. — o doutor soltou uma breve risada — Bem, por que me chamou?
— Tem tempo?
O homem olhou para o relógio de pulso no braço esquerdo.
— Acho que... uns quinze minutos.
— Ótimo. Sente-se aí, quero conversar.
Bruce assentiu, sentando-se na cadeira na mesma posição que Sara havia colocado.
— Diga.
— Bruce, você falou com Sara, não é? — perguntou o sargento, olhando para si mesmo.
— Falei.
Grissom o encarou seriamente, quase fechando a cara.
— Quer saber se eu disse a ela sobre a parada cardíaca que você teve? Não, não falei. E me arrependo disso.
— Que bom. — Assentiu satisfeito — O melhor é que continue assim.
— Isso não é certo, Gilbert. Ela é a única pessoa próxima a você por aqui.
— Por isso mesmo. Não quero ser um estorvo para ninguém. Muito menos pra ela. — terminou falando em voz baixa.
— Foi só por isso que você me chamou?
— Não... eu preciso de alta.
O médico ergueu as sobrancelhas. Balançou a cabeça negativamente.
— Olha só, Grissom, isso já está indo longe demais. Você não está em condições-
— Você não disse que eu estava me recuperando bem? Preciso ser liberado o mais rápido possível, doutor Griffin. Estamos à procura de um suspeito que pode escapar se não agirmos logo.
— Seu superior sabe o que está acontecendo?
— Ele sabe o que é necessário saber. Agora, eu preciso dessa alta, Bruce.
— Você não tem condições, Grissom. Esqueça. — O doutor foi direto. Chegou a se levantar, até, dando o assunto por encerrado.
— Não está entendendo, doutor. — A voz do Grissom soou fria, quase como uma ameaça.
— O senhor que não está entendendo, Grissom.
— Dez vítimas. Dez famílias que ainda choram a perda de seus entes. Eu já carrego o peso dessas mortes, e se não me deixar sair daqui o senhor também vai. — O sargento soltou aquelas palavras, que soaram mais frias e rígidas que as anteriores.
— Isso é uma ameaça? — O médico cruzou os braços, franzindo a testa.
— Entenda como quiser. — respondeu em desdém.
— Eu estou prezando pela sua saúde!
— E eu agradeço muito, Bruce. A única coisa que eu quero é sair daqui para caçar o responsável por essas mortes e evitar que ele faça mais vítimas. Quem garante que eu ou você é o próximo? Ou alguém da sua família?
Griffin virou o rosto para o lado por alguns segundos, depois se voltou para o sargento, que parecia não ligar. Ele descruzou os braços, e bufou. Não estava gostando nem um pouco da situação em que se encontrava.
— Olhe só. — Ele apontou para Grissom — Segundo o seu estado eu não tenho condições, nem se eu quisesse, de liberar você.
Antes que o sargento se manifestasse, Bruce continuou:
— Mas, eu posso te dar alta amanhã. Nada mais.
Mesmo que apresentasse uma leve pontada de decepção, todavia, Grissom sentiu-se um pouco mais satisfeito.
— Amanhã de manhã.
— Ok. Obrigado, doutor. — Assentiu, encarando-o. Não era o que realmente queria, mas ao menos conseguiu adiantar a sua saída.
— Vou te receitar um remédio para dor. Houston me contou sobre as dores que você estava sentindo.
— Ah... — disse, suspirando fundo, ajeitando-se na cama para ficar sentado — Mais uma vez eu agradeço. Só mais uma coisa: — comentou, erguendo o dedo direito — Não conte nada disso a Sara, por favor.
— E se algo acontecer a você?!
— Se acontecer eu conto.
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— Ele ainda não chegou?
Ao sair do quarto, Sara desceu ao térreo do hospital. Pegou o celular e ligou para o xerife Wright. Perguntado se Franklin Lewis chegara à cidade, Wright respondeu que não, e que talvez chegaria às cinco ou seis da tarde, horário que chegava às vezes. Foi uma ligação rápida, de um minuto e meio. Finalizando-a, guardou o aparelho na bolsa.
— Ah... — Ela ergueu a cabeça e fechou seus olhos. Suspirou.
Sua mente se sobrecarregou mais ainda. Tinha medo, até, de retornar àquele quarto e sair de lá com a cabeça em chamas. Informação de mais. Não foi de pouco tempo em que ouviu da boca dele que se recordava dela e daqueles tempos em São Francisco; e logo depois descobriu que o motivo dele não ter atirado no jovem assaltante.
Aquilo foi culpa dele, não minha. Argumentava-se consigo mesma. Ele quem foi o idiota de se preocupar comigo.
Se fosse o contrário será que ela agiria daquela forma? Claro que não. Ficaria preocupada? Sim. Muito preocupada? Com certeza. Mas nunca iria agir como seu parceiro o fez.
Seria bom transferir a culpa toda para ele e "lavar suas mãos" de tudo isso. Mas sua consciência brigava com ela e a bombardeava com os mais diversos pensamentos. Será que ela devia ter conferido o perímetro só para se certificar? Ou será que ela devia ter saído da loja e ir ao encontro dele? Sentiu-se mal em pensar naquilo. Talvez parte da culpa fosse sua, também.
Ou talvez ninguém tivesse culpa.
Tomando coragem, Sara decidiu retornar ao quarto. Não queria, mas decidiu que era melhor; não podia deixá-lo à esmo.
Antes de tomar o acesso ao elevador, pegou um copinho com café na recepção e levou-o consigo. Ela chegou ao elevador e pediu ao ascensorista que a deixasse no quarto andar.
— Olá de novo, senhorita! Veio visitar um parente? Namorado? — perguntou risonho o senhor de idade, sentado num banquinho.
— O quê?! — Ela, que olhava para o alto, visou olhar do senhor de idade — Não! É só o meu parceiro babaca.
— Oh, sim, entendo. — desculpou-se, rindo brevemente.
Sara balançou a cabeça; chegou a sorrir com o momento de distração.
— Obrigada. — disse ao senhor, após o elevador se abrir.
— Mande melhoras a ele!
— Está bem. — respondeu no mesmo tom brincalhão que ele, acenando.
A detetive, em passos curtos, caminhou até o 415-B. Deu breves goles em seu café após alguns sopros, pois estava quente, tão quente quanto sua cabeça. Ao entrar no quarto, encontrou Grissom quase na mesma posição que estava quando o deixou.
— Você não disse que ia se trocar para dar o fora daqui?! — questionou-o ironicamente, deixando sua bolsa na poltrona.
— Mudança de planos. O doutor vai me liberar amanhã.
Ela fez uma careta debochada.
— Te liberou, ou você o pressionou?
— O que importa é que ele me liberou. — O sargento retrucou, respirando fundo. Depois observou o copo na mão dela: — Eu também queria um café.
— Pois vai ficar querendo. — Sara deu de ombros e pegou a bolsa, deixando-a no chão para se sentar na poltrona. Soltou um gemido de satisfação ao sentir a textura e maciez do móvel. Chegou a fechar seus olhos para tentar relaxar.
— Tem alguma notícia de Lewis? — Grissom perguntou, virando o pescoço de lado para vê-la.
— Não chegou. — Ela respondeu ainda de olhos fechados.
— Certo. — O sargento assentiu, meio sem jeito — O que vai fazer?
— Você não vai ligar para o Brass?! — Sara questionou, como se não estivesse a fim de falar.
— É... eu acabei me esquecendo.
Sara tomou um gole do café e depois virou o corpo de lado.
— Tem que parar de se esquecer com frequência, Grissom.
Ele disfarçou, mas fechou a cara. Sabia que aquele tom de voz e aquela resposta significavam várias coisas. Estava implícito, mas ele entendeu assim que a ouviu.
— Tá. — Respondeu como se não gostasse da resposta. Ele pegou o celular ao lado, que se encontrava na cama ainda.
Sara o observou mexer no aparelho. Estava séria; balançou a cabeça e terminou de beber seu café, deixando o copo no chão, ao lado esquerdo.
— Jim? Sou eu, Grissom.
— Gil! Bom saber que você está melhor! O pessoal aqui estava se remoendo para saber das notícias.
Todo mundo deve estar sabendo agora. Merda.
— É. Amanhã recebo alta. — continuou para cortar o assunto — Escute só. Sara me contou o que você disse a ela dias atrás.
A detetive não gostou de ter ouvido seu nome ser citado logo em circunstâncias como aquelas. Ela franziu a testa, mas o sargento não a viu, olhava para a frente.
— O clima não está bom, Grissom. Assim que você for liberado, você e Sidle voltam para cá, sem mais.
— E interromper uma investigação de meses por isso? Não, isso está fora de questão. — convicto, Grissom foi firme.
— O que foi que disse?! Está querendo desacatar uma ordem?
— Jim, a gente se conhece há muito tempo. Sabe que quando eu entro num caso-
— Não venha com essa de "amigo". Você quase morreu, seu idiota!
Sara pôde ouvir algumas palavras de Brass, pelo tom alto de voz que ele as entoava.
O semblante de Grissom mudou. Ela nunca o vira daquele jeito, até porque nunca trabalharam juntos antes. Parecia que estava prestes a atacar uma presa.
— Ouça. Eu nunca falaria isso se não estivesse convicto que estou no caminho certo. Falamos com três guardas, e agora pretendemos falar com Lewis.
"Pretendemos?" Pensou a morena, ao ouvi-lo usar aquele verbo.
— Temos as provas das câmeras. Sara pegou os arquivos dos caras lá no parque e ainda falou com o xerife de Baker.
— Sidle é?! Agora ela está trabalhando por conta própria?!
O silêncio da sala permitiu a Sara ouvir Brass perfeitamente. Não se expressou, mas ficou extremamente incomodada ao saber que foi hostilizada. Talvez o capitão não tivesse ideia que ela se fazia presente na sala.
Grissom observou a detetive com os olhos, sem se virar. Até ele não gostou do que ouviu. A vontade dela era de deixar o quarto, mas permaneceu.
— Ela só está fazendo o trabalho dela, tentando seguir em frente após a burrada minha!
— Você vai me explicar tudo isso quando chegar aqui. — A voz do capitão era fria, quase ameaçadora. Ele fez questão de enfatizar a última palavra.
— Me desculpe, Jim. Mas se quiser falar comigo terá de vir aqui. Eu não estou pensando em retornar agora. Pode me tirar da força policial... o que quiser, mas só quando eu fechar o caso Zodíaco.
A mulher ergueu as sobrancelhas, largando um breve sorriso. Ficou impressionada com aquela atitude. Viu Grissom provar ser alguém que, quando se prendia a algo, não soltava de forma alguma.
— Gil você é muito abusado. Não sabe no que está se metendo...
— Eu sei, sim. Só preciso que você me ajude, Brass, por favor. Indicie esses caras. Se tudo que a gente fez até agora não der em nada eu... entrego meu distintivo.
Sara ergueu as sobrancelhas.
— Ah! — O capitão riu — Logo você? Quer pôr a tua carreira na reta é?
Minha reputação já deve estar na merda mesmo...
— Faço isso pra te mostrar que a gente está no caminho certo.
Houve um silêncio na linha. Grissom estava preocupado. Há anos trabalhando com Jim Brass, preocupou-se com a longa espera por uma resposta. Era o "agora ou nunca".
— Amanhã te dou uma resposta. Acho bom ter algo pra mim.
— Certo. Fale com os policiais desse condado. E mande um helicóptero que viaje a longas distâncias.
A morena ergueu as sobrancelhas.
— Helicóptero? — sussurrou para ele, que ergueu a mão direita.
— O que foi que disse?! — O capitão pareceu se irritar ao ouvi-lo.
— É isso mesmo. Se o melhor pra gente é interrogá-los na nossa área, eu não quero esperar oito horas pra falar com esses caras. Falar com eles nesse condado é perigoso.
— Tá brincando comigo. Quer que eu consiga tudo isso de mão beijada pra você logo amanhã que é sábado?
— Eu sei que você consegue, Jim. Chame a polícia estadual, leve-os para um heliporto, pode ser aqui mesmo em Ely. Depois os leve para Vegas.
— Olha só. Posso até ver se consigo, mas você vai ficar me devendo e muito, seu desgraçado.
— Sei. Obrigado, meu amigo.
— Ah... um dia eu ainda te mato, se você não me matar antes.
Grissom sorriu. Sara não deixou de notar aquela expressão, imaginando que tudo terminou incrivelmente bem.
— Até mais. — O sargento desligou o celular e se virou para ela.
— Corajoso, hein! — A morena assentiu, fazendo uma careta.
— Tive que me arriscar.
— É, percebi isso. E aí? — Ela fez um gesto com o pescoço — Helicóptero, é?
— Não quero perder mais tempo. Brass não confirmou nada, mas disse que daria uma resposta amanhã. Já é alguma coisa. Sei que ele vai dar um jeito.
— Pra quem queria arrancar a gente daqui, é mesmo.
Grissom deixou o celular no lado esquerdo da cama e depois coçou a bochecha esquerda.
— Eu não sei se ouviu o que ele disse sobre você...
— Deixa pra lá. — A detetive balançou a cabeça.
— O Brass realmente está-
— Puto com a gente? E por que a garota aqui está saindo numa aventura sozinha? — expressou-se claramente sarcástica.
— Tá preocupado com tudo isso. Vegas deve estar uma loucura. — Ele respondeu, tentando amenizar a situação.
— Sei. — Assentiu, ainda se mostrando sarcástica.
Sei quando não sou bem-vinda.
— Bem, agora que o Brass já tá sabendo de tudo isso, e que você vai ser liberado somente amanhã, acho que não tenho mais nada a fazer. — disse, olhando para o relógio: 14h56min — Vou ligar para o xerife e dizer que não vou mais e perguntar se Lewis já chegou. Depois disso vou retornar à pousada. Passe bem. — terminou assentindo ao sargento.
Prestes a se levantar, Grissom ergueu o braço direito, na tentativa de impedi-la.
— Espera.
— O que foi? — Ela perguntou impaciente.
— Fique aqui essa noite.
Para a infelicidade dela, seu coração, sem querer, acelerou ao ouvir aquele pedido.
— O que disse?! — perguntou meio atônita, franzindo a testa.
— Você ainda não me mostrou os arquivos que Hawnkins te mandou.
Ela fechou seus olhos rapidamente, segurando para não lhe entregar uma resposta mal-educada. Sorriu, contendo-se no que ia dizer.
— Por que não faz assim: passe a noite aqui e amanhã a gente fecha a conta no Chapman. Ou se quiser, volte até a pousada, feche a conte e fique aqui.
— Você deve estar de brincadeira com a minha cara! — A detetive riu sarcasticamente — Um: não somos próximos, nem parentes, nem amigos, nada. Dois: estou cansada. Muito cansada. — Ela apontou para a poltrona — Acha que eu vou passar a noite ali?!
— A gente tem que discutir esse caso, Sara. Você foi a única que leu os arquivos.
— Eu posso deixá-los com você sem problema! — A detetive fez um gesto com as mãos.
— Está bem, então. — Ele deu de ombros, não demonstrando nenhum sentimento — Até mais. — completou, virando o rosto de lado.
Ela cerrou os punhos; odiava aquele jeito dele em lidar com as coisas.
Não acredito que ele tá fazendo isso comigo!
Estava confusa, meio desorientada. Seria uma boa escolha ficar o resto do dia com ele? Logo com ele? Gilbert Arthur Grissom, sargento da Homicídios de Las Vegas; o "Caçador de Homens"? O homem por quem compartilhou breves, mas boas lembranças no passado? Logo com o homem a quem criava uma discussão a cada cinco minutos? A pessoa em que gostaria de manter uma boa distância da mesma forma que não queria ficar longe?
Após soltar um longo suspiro, ela levou as mãos ao rosto, deslizando-os sobre ele lentamente, quase agonizando.
— Tá! — Ela foi direta — Eu fico aqui e reviso os arquivos com você. Mas nem pense que vou passar a noite aqui!
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