Manhunters

83 Para seguir adiante


Notas iniciais
E aí, pessoal, graças a Deus aqui no meu país RJ o tempo deu uma refrescada. Junto do tempo, um capítulo fresquinho desta fanfic.

Só com o passar dos minutos que Sara pôde avaliar tudo o que aconteceu. A cabeça ainda doía e seu corpo ainda pesava, porém já estava mais consciente e “apta” para trabalhar. Boa parte disso devia a ele. Ela estava agradecida, sim, porém havia certa culpa e vergonha martelando em sua cabeça já dolorida. Foi a primeira vez que recebeu cuidados de alguém que não fosse sua irmã ou sua mãe adotiva. Sinceramente ela não esperava isso dele, mesmo sendo seu namorado. Esperava era um monte de reclamações e uma cara feia por horas; mas foi o contrário, muito além de suas expectativas. A cada dia Grissom se transformava aos poucos, não no que era anteriormente, mas em alguém muito melhor.

Ela chegou ao banheiro e algo diferente lhe chamou a atenção. Um sorriso bobo se formou assim que viu a camisa e a gravata dele penduradas no gancho. Sara tocou na camisa e pressionou a mão sobre o tecido delicadamente. Ela nem percebeu que Grissom vestia outra camisa e estava sem a gravata quando estava por perto. Também não reparou em sua feição cansada.

— Obrigada, meu amor. — Ela sorriu.

Sara ligou o chuveiro na água quente e deixou que a água tratasse das dores em seu corpo. Resolveu lavar os cabelos, também. Enquanto recuperava suas energias, seus pensamentos a levaram a São Francisco, especificamente a duas pessoas: Annastasia e seu ex namorado. Já imaginava como seria o teor e o tom da futura conversa. Também imaginava as palavras duras, voz alta e um clima ruim. Mesmo a tendo ajudado, Annastasia tomou uma atitude que a incomodou bastante e Sara iria cobrar uma explicação.

Ela nunca pensou que uma situação entre as duas na qual envolvesse o namorado surgiria tão cedo. Grissom não era o problema, muito pelo contrário, ele apenas cuidou dela e a detetive estava mais que agradecida. Todavia aquilo poderia ter sido evitado.

O outro assunto: Hank Pediggrew. Este era um problema que poderia ter sido evitado pela própria detetive. Agora o problema havia crescido como uma bola de neve e estava se encaminhando com força total para Nevada. Não tinha ideia de qual discurso falar quando o momento de encontrá-lo chegasse; a ficha mal caíra. Custava a ela o papel de cortar qualquer tentativa de uma reconciliação, se é que o motivo do paramédico era este.

Faltava, ainda, contar a Grissom o que estava acontecendo. Coragem lhe faltava. Sara não queria que ele soubesse, mas não poderia deixá-lo às escuras numa situação que o pegaria de surpresa.

O banho quente lhe fez bem. Sara foi para o quarto e a primeira coisa que lhe chamou atenção foi a cama, surpreendentemente convidativa.

— Não, Sara. — repreendeu-se num tom zombador — Resista.

A detetive optou por uma calça jeans clara e uma camisa de botões xadrez vinho de manga curta. Optou pelas sapatilhas escuras confortáveis de sempre. Ela não estava com cabeça para pensar num look mais elaborado, nunca teve cabeça para isso, só quando estava em um daqueles dias “inspirados”.

Ela secou os cabelos com secador e usou a prancha para defini-los. Foi rápido, mais rápido que imaginou, pois temeu se atrasar. Apenas o relógio foi o acessório à parte. Como bolsa optou pela transversal preta que gostava de carregar pelo seu tamanho, perfeito para carregar pastas, folhas e outros objetos maiores.

Ao se olhar no espelho do banheiro a morena encarou a si mesma por longos segundos. A cara não estava mal. Uma maquiagem leve poderia disfarçar o rosto abatido pela ressaca. Na bolsa umas balas de menta iriam ajudá-la a disfarçar o hálito de álcool que relutou para esconder fazendo gargarejo com enxaguante bucal.

— Está bom... — comentou sem muito ânimo. Para alguém que enfrentava uma ressaca sua aparência e postura disfarçavam bem.

Enquanto esperava pela chegada do sargento, Sara pegou uma lata de energético na geladeira e começou a beber. O sabor forte da bebida a fez “acordar” causando-lhe um efeito de alerta. Bebeu quase até a metade no primeiro gole e então respirou fundo. Ela precisava estar preparada para o longo dia de trabalho que seria ainda mais difícil no estado em que se encontrava. O segredo seria falar com o mínimo de pessoas possível.

— Vamos lá... — disse de olhos fechados — Você consegue, Sara. — Após isso ela tocou na testa, gemendo de dor por um instante. Não poderia se esquecer de levar um analgésico na bolsa, coisa que ela tratou de resolver na mesma hora.

Não se passou muito tempo até que Grissom retornasse. Eram 7h33min quando sargento tocou a campainha. Sara, que estava sentada na cozinha apertou o passo para atendê-lo.

— Sabe que não precisa bater na porta mais. — Ela comentou sorrindo.

— A casa não é minha e... eu tenho um respeito muito grande pela locatária. — O homem respondeu no mesmo tom descontraído. Ele vestia uma camisa social cinza com listras verticais, sem gravata; uma calça escura e sapatos da mesma cor.

— Está pronta?

— Ah, quase. Pode entrar? Eu já estou indo.

Grissom fez um gesto positivo, entrou e fechou a porta atrás de si. Pensou em ficar de pé, próximo à porta, a esperar pela companheira, no entanto, estranhou a permanência dela bem ali à sua frente. Sara hesitou por um instante, cruzou as mãos e desviou o olhar para baixo. Antes mesmo de Grissom perguntar algo ela se adiantou, caminhando para perto dele.

— Gil, o que você fez ontem...

— Querida. — Ele a interrompeu — Aquilo já passou, não precisa-

— O que você fez não tem preço, sabia? — Foi a vez dela o interromper.

Grissom ficou sem reação pelo comentário repentino. Depois do que passou na noite anterior estava nadando em um mar de rosas, sem espinhos desta vez. Sem receios a morena envolveu as mãos em sua nuca e o beijou carinhosamente. Em seguida tocou em seus ombros e voltou a beijar seus lábios repetidas vezes.

— Você tomou o energético, não foi? — Ele zombou.

— É. Eu segui os conselhos de um tal de doutor Grissom. — Ela retrucou no mesmo tom quando tocou em seu peito com as duas mãos. Ao manter o sorriso por algum tempo ela o encarou novamente.

— Bom te ver melhor.

— Você não existe. — Sara falou com sinceridade, já mais séria — Obrigada. — A detetive não esperou por uma resposta e o abraçou novamente.

O conforto de seu abraço o erguia às nuvens. Bom demais saber que sua companheira estava se recuperando bem, sem ressentimentos pelo que houve na noite anterior. Ele, que há poucas horas discutia sobre se tornar ou não se tornar um monstro agiu como poucos; não apenas porque ela era sua namorada, mas porque o altruísmo falou mais alto. Monstros não são altruístas, isso foi bom. Fazer aquilo não o caracterizava como um monstro e isso também foi bom.

Grissom não era um monstro. Ao menos... não quando ela estava por perto.

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Quase metade do caminho já havia sido percorrido. No meio do trajeto eles conversaram pouca coisa; o principal foi Sara lembrar a ele que havia deixado a camisa e a gravata. Os dois riram da situação, mas ela foi a primeira a voltar à seriedade.

— O que minha irmã falou pra você?

O sargento virou-se para ela rapidamente. Chegou a mover os lábios para responder logo, mas achou melhor pensar numa resposta melhor.

— Bem, ela... — Acabou que nem reservando para si um tempo ele desenvolveu uma boa resposta — Ela estava... bastante preocupada.

— Não precisa tentar defendê-la, Gil. Eu imagino as coisas que ela tenha dito. Sinto muito por ter que ouvir aquilo.

— Como sabe das coisas que ela falou?

— Estou imaginando... Annie tem um temperamento muito forte às vezes e... acaba explodindo.

— Para achar o meu número e me ligar daquele jeito...

— Ela não gosta de você. — Sara falou de uma vez.

O receio que Grissom teve em dizer a verdade para Sara logo se desfez.

— Acho que ela quis deixar bem claro quando falou comigo.

— Você contou a ela que nós estamos juntos?

— Eu acabei “entregando” a nossa situação porque achei que ela já sabia.

A morena lamentou.

— Desculpe. Eu ia contar isso a Annie, mas... não deu tempo. — Sara fez um gesto em negação — Ela sempre foi muito pé atrás com a minha vinda pra cá e ficou pior quando soube que estamos procurando um serial killer. — Ela fez uma pausa — Annie acha que um dos motivos... maiores... que me fez aceitar o trabalho foi você.

— E foi? — O semblante dele mudou, ficou preocupado. A pergunta saiu de repente, mas a curiosidade falou mais alto. Se ele fosse um dos motivos pelo qual ela escolheu arriscar a vida seria mais uma justificativa para protegê-la.

Grissom não percebeu, mas Sara corou por um instante quando olhou para a janela do carona.

— Foi... um dos motivos. — Admitiu após quase meio minuto de silêncio — Mas não foi o principal.

— Pena que tenha encontrado uma péssima pessoa quando chegou aqui.

— Estamos trabalhando nisso. — Ao se virar para ele a morena sorriu — Eu e ela vamos ter uma conversa, ainda.

— Não quero que briguem por minha causa, Sara.

— Nós não vamos brigar. — Assentiu — Eu não pretendo começar uma briga, mas caso isso aconteça não será por culpa sua.

— Isso... — Ele argumentou — Não me deixa melhor.

— Sinto muito, amor. — Sara disse enquanto olhava para a frente. Ela respirou fundo e aspirou como se precisasse de ar puro. As janelas estavam fechadas e o ar estava ligado, mas não era por isso que ela estava assim — Gilbert?

— Sim?

Ela engoliu em seco.

— Tenho que te contar algo.

Seu tom de voz não foi dos bons. Ele já temia que fosse alguma coisa relacionada à noite de ontem ou sobre a questão da bebida.

— O que foi? — indagou num tom leve, sem querer transmitir a pressão que ele mesmo sentia.

Sara respirou fundo.

— Sabe o meu ex? O Hank?

— O que tem ele? — Só de ouvir este nome Grissom já parecia desconfiado.

Antes de responder a morena tomou uma pausa para pensar nas palavras certas. Mas não havia muito a se pensar ou falar, era só contar a verdade e fim. Mas dizer isso, ainda mais a ele, incomodava-a bastante. Parecia até que Sara tinha culpa nisso e se ela mesma parasse para refletir acreditaria que sim.

— Annie me contou que... ele está vindo pra Vegas.

Agora ele estava surpreso, mais surpreso que antes. Sem saber dar uma resposta Grissom apenas abriu os lábios e emitiu um som parecido com “que”.

— Eu queria te avisar isso antes, mas não consegui. — lamentou — Sei que não é uma boa hora, Gil, mas...

— Por que ele viria aqui? Vocês não terminaram? — Mais que confuso, o sargento não se conteve em elevar a voz.

— Sim!... Não disse na cara dele, mas você sabe o porquê. Eu tentei ligar, mas ele não quer me atender!

— Ele acha que pode se reconciliar com você, imagino. — Faltou pouco para Grissom resmungar. Ele pressionou as mãos sob o volante enquanto sua parceira observava toda a cena.

A detetive encostou a cabeça no banco e suspirou. O pior é que já imaginava a reação dele fosse desse jeito. Não era a melhor hora, como disse antes, porém aquilo estava preso em sua garganta e ela não se sentiria melhor até contar.

— Vou resolver isso, não se preocupe. — Ela comentou baixo, mas firme.

Mesmo fitando-a por um segundo deu para perceber que Sara ficou um pouco abatida. Grissom não queria parecer duro demais, porém a notícia o pegou de surpresa. Saber que o ex viria para Vegas na tentativa de voltar o namoro porque Sara não chegou a terminar “de boca” poderia ser um problema. Um problema a nível de Hank ser o próximo alvo do Zodíaco por estar envolvido com Sara anteriormente. Uma chance pequena, mas real.

— Obrigado por... me contar. — Agradeceu, mas a voz saiu forçada.

— Sei que não gostou disso. — Ela se encolheu e cobriu a si mesma com as mãos.

— Não vou me meter nesse assunto, mas se ele tentar algo... — Grissom não terminando de falar.

Preocupada, Sara atentou para o companheiro. Seu rosto se assemelhava às vezes que falava sobre o próprio Zodíaco ou alguém de quem guardasse rancor. Aquele tom ameaçador a preocupava; tão fechado, ele parecia apontar uma arma na frente do seu ex. Um calafrio percorreu sua espinha.

— Eu vou resolver. — A mulher repetiu, o que chamou a atenção dele. Fez isso para garantir que a “ajuda” dele não era necessária — Vamos esquecer dele um pouco, Gil. Foi uma péssima ideia minha falar sobre isso agora. — Ela tocou na testa e depois suspirou. Além de realmente ter sentido uma pontada, aquilo foi motivo para ambos deixarem as discussões de lado.

— Ok. — Ele assentiu.

— Vamos focar no que importa agora. — Sara gesticulou.

— Vai ficar comigo hoje? — Quando a questionou, Grissom já apresentava um tom mais descontraído, ou melhor, menos rígido.

— Por quê? — perguntou curiosa.

— Bem... preciso de ajuda em analisar os pertences do Park.

— Você conseguiu? — A detetive arqueou as sobrancelhas. Estava muito mais empolgada.

— Peguei-os ontem, quando... fui à casa dele.

— Oh...

— Desculpe não ter chamado você.

— Deixa. Agora me fala: como você conseguiu?

O sargento contou a ela os detalhes mais importantes sobre a visita de ontem à casa da vítima. Ele deu destaque à presença do editor-chefe do Las Vegas Globe, Ethan Rowes. No começo Sara até achou engraçado o comentário dele, devidamente incomodado com o jornalista, mas logo se reteve ao ouvir o palpite do companheiro sobre o possível interesse na história em que Park trabalhava. Mais que nunca aquela história precisava ser mantida em segredo pelo menos até o fim do caso. Grissom, que não era o maior apoiador de seguir a trilha da vítima, tornou-se por enquanto o maior guardião dela.

Ele também comentou sobre o outro computador que encontrou na casa de Ryan. Diferente do anterior, aquele estava guardado por uma senha e por isso seria necessário chamar um técnico, caso Park não tenha deixado a senha anotada em uma das pilhas de papéis que guardava em seu escritório.

— Bastante trabalho, hein? — Ela brincou.

— É o que me deixa aliviado, saber que tenho trabalho nesse caso. — Afirmou ele.

— Vai precisar de ajuda, sargento.

— Não vai continuar com o Ivanenko?

— Ele vai assumir daqui pra frente. O Max concordou com a ideia em investir na suspeita e tentar pegar alguma informação. Eu não posso ir com ele, oficialmente estou fora do caso. — Posso apenas atuar do lado de fora.

— Seja bem-vinda de volta.

Ao se virar para o sargento Sara abriu um sorriso de canto, recostou-se e cobriu o rosto.

— Céus... Meu corpo tá um caco.

— Se você achar que não pode mais continuar eu te levo para casa.

Para a surpresa dele, a detetive não respondeu, apenas emitiu um som lamentando a dor que não conseguia eliminar de uma vez. Ela abriu a bolsa e retirou uma garrafa d’água.

— Eu não bebo nunca mais. — resmungou antes de tomar um gole.

Incrédulo, Grissom se virou para encará-la.

— Tá, nunca mais eu bebo além do aceitável.

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Os dois chegaram à “segunda casa”, o escritório do sargento. Para a sorte de Sara não houve muitas pessoas em seu caminho de espinhos. As poucas figuras que viu sequer atentaram para seu rosto, que mesmo aparentemente bem, poderia entregar seu estado. Seu plano era se refugiar na sala de Grissom o dia inteiro e só deixá-la para ir ao banheiro ou se a sua presença em outro lugar fosse realmente necessária.

Grissom não fez reservas. Assim que chegou junto dela foi logo pegar as caixas e deixá-las em cima da mesa.

— Me admira que o irmão da vítima nem ao menos lutou para impedir você de levar essas coisas. — Curiosa, a morena se aproximou e observou uma das caixas.

— Pela cara dele, Joseph não queria de forma alguma que eu me envolvesse nisso, mas acabou aceitando.

— Acha que ele pode ter contado a história ao Rowes? — Ela perguntou assim que pegou uma pilha de matérias destacadas e unidas por um clipe de papel.

— Eu pedi a ele que não contasse, só não estou muito confiante. Mas de uma coisa eu tenho certeza: Zodíaco não vai estar nem aí se a matéria sair no ar. Foi ele quem deu a pista ao Park... — O sargento gesticulou — Se visse as notícias circularem ficaria até feliz com isso.

— O que me faz pensar... — A morena pegou uma cadeira para se sentar bem próxima à mesa dele — que o nosso homem é um “espião” no meio dessa gente. Ele não teve medo algum em divulgar algumas informações ao Park e tenho certeza que atraiu a vítima com algo ainda maior.

— Pode ser um homem ressentido com certas figuras. — Grissom indagou, entrando no jogo. Aproveitou para pegar a outra caixa; esta, a mais importante, continha o notebook e o HD do computador de mesa.

— Se está tão ressentido com eles, tanto que deu informações ao Park, por que ele não matou nenhuma figura conhecida? — Enquanto observava as matérias em sua mão, Sara levantou a pergunta.

— Chamaria muita atenção.

— Mais atenção que ele tem chamado? — Ela sorriu em sarcasmo.

— Zodíaco não é um homem da mídia. Ele gosta de discrição, por mais que seus métodos sejam... chamativos. — O sargento bateu levemente na lateral da caixa — Não seria tão louco de matar alguém muito próximo sem um forte motivo. Podemos estar lidando com um homem tímido, reservado. O tipo de pessoa que não é acostumado a se socializar.

— De volta aos vídeos? — Sara sugeriu, apontando para aparelho de DVD.

Grissom observou o aparelho e a TV desligados. Assentiu e abriu a gaveta de onde retirou os DVDs; ele ligou os aparelhos e colocou o primeiro disco para rodar.

— Eu fico pensando aqui... para o Zodíaco conseguir essa informação das duas, uma: Ou ele faz parte do círculo social deles, ou conseguiu por meio de uma investigação. Mas não acho que ele se arriscaria fazendo a segunda.

— O que pode confirmar a nossa suspeita da presença dele lá. — O sargento apontou para a tela da TV, onde começavam a aparecer as primeiras imagens — O cenário foi perfeito para o assassino. Atraiu Park para Cold Springs com o pretexto de lhe dar mais informações, inclusive, adicionando o evento que reuniu muita gente importante, prato cheio para o jornalista. Park achou que mataria dois coelhos ao pegar as informações e participar do evento, mas foi ele o coelho morto. — Finalmente Grissom se virou para Sara — Ele estava lá e com certeza estava de olho na gente.

Ela não queria, mas acabou engolindo em seco.

— É estranho imaginar que o assassino estivesse por lá, mesmo sabendo que teríamos a chance de identificá-lo.

— Ele estava lá justamente por saber que nós ainda não o conhecemos. — Grissom se apoiou sobra a mesa e suspirou — Foi tudo planejado. Desde a isca ao Park até a provocação. Na verdade, — Ele continuou — tudo isso foi uma inteira provocação. — Desabafou. Nesse meio tempo Sara pensou em falar algo, mas preferiu o silêncio — O que me intriga no momento é o próximo passo dele.

O silêncio pleno se instaurou entre os dois, o que deixou um clima desconfortável.

— Eu... — Grissom tomou a palavra novamente — Vou levar esses equipamentos para o técnico daqui. — O sargento procurou por uma caixa de papelão vazia que se lembrou de ter guardado no meio daquela sala.

Antes mesmo de Sara sugerir ajudá-lo ele conseguiu achar. O notebook e o HD cabiam perfeitamente na caixa. Depois disso faltou apenas achar fita adesiva e papel em branco, todos encontrados em sua gaveta. Enfim, ele anotou as referências do seu caso e colou na caixa.

— Ok. Vou assistir o vídeo enquanto isso.

Concordando com a ideia o sargento pegou a caixa e seguiu para fora. Antes disso tocou no ombro esquerdo da parceira com carinho, que respondeu acariciando sua mão brevemente. Ele deixou a sala e a detetive trouxe a cadeira consigo para perto do aparelho de DVD. Controle em mãos ajeitou-se para assistir às cenas. Enquanto o menos importante passava, a morena trouxe a bolsa para perto de si e pegou um caderninho e caneta. Começou a fazer anotações.

Enquanto o sargento se dirigia ao local onde haviam oficiais especializados em informática, dois andares acima, acabou se deixando levar pela conversa anterior. Não era para estar assim, pensar em assuntos que não envolvessem o trabalho. Isso poderia ser prejudicial, claro, mas aquilo não lhe deixava. Seus pensamentos, traiçoeiros, traziam-no de volta à conversa no carro sobre o ex de sua companheira que pretendia vir e com sabe-se lá quais intenções. Grissom não tinha nada a ver com a história, mas estava perturbado, tão perturbado que quase deixou o elevador fechar quando chegou ao andar.

Num movimento rápido o sargento bloqueou a porta com o braço direito, quase deixando a caixa cair no chão. Repreendeu-se em voz alta. Por sorte estava sozinho e ninguém teve que presenciar aquela vergonha. Grissom deixou o elevador com pressa e se encaminhou rápido até o local onde estava o técnico. Mas isso não significou que os pensamentos sobre o ex dela se apagaram. Enquanto Hank não fizesse seu caminho de volta para Califórnia o sargento não ficaria em paz.

Quando entrou na sala ampla que era cercada por equipamentos e aparelhos eletrônicos modernos, Grissom, no meio de tanta gente, foi falar direto com alguém de confiança. A mulher não percebeu quando o sargento se aproximou. Ela estava fazendo a manutenção de um gabinete danificado por um suspeito de um caso de outro oficial. Quando reparou na presença do sargento, bem ao seu lado direito, quase deu um pulo de susto.

— Sar-sargento?! — Ela levou a mão ao peito e arfou — Deus, quer me matar do coração de novo?! — A mulher precisou se controlar para não falar muito alto.

— Desculpe, Daisy, não sabia que estava distraída. — Ele respondeu sem transparecer culpa alguma.

Daisy Abbott era uma mulher negra, de 28 anos. Era magra, tinha os cabelos afro baixos, rosto fino e olhar centrado. Os óculos de grau quadrados “escondiam” seu rosto, que por trás deles revelavam uma linda mulher. Daisy era uma das melhores profissionais do departamento e por muitas vezes foi convidada a fazer parte da equipe do laboratório de criminalística, mas recusou para a felicidade de Grissom que sempre a considerou alguém de confiança. Não havia ninguém melhor para ter em mãos aqueles HDs que ela.

— Bem, o que o senhor tem pra mim? — perguntou ela ao deixar a solda na mesa ao lado.

— É urgente... ao menos pra mim. — O sargento estendeu a caixa para a técnica, que pegou meio sem jeito.

— Me conte. — Daisy apoiou a caixa sobre suas pernas. Já Grissom puxou uma cadeira giratória próxima para conversar mais baixo. Os outros presentes na sala não ligavam para os dois, ainda assim Grissom achou melhor ser discreto.

— Sabe do caso que eu estou trabalhando?

— Quem não sabe? — Ela respondeu empolgada ao bater na caixa em sua posse.

— Aí tem um notebook e um HD que eram da última vítima, Ryan Park. Eles estão bloqueados. Eu preciso de sua ajuda.

— Claro. — Abbott deu de ombros.

— Mas eu preciso que você faça disso a sua prioridade. — Ele falou sério, apontando para a caixa como se nela houvesse um tesouro.

Pega de surpresa com o pedido, Daisy arqueou uma sobrancelha esperando por uma explicação.

— Sei que você já tem um trabalho em andamento, mas isso é urgente, é a possibilidade de identificar um serial killer. — Grissom disse baixo, mas o tom era forte.

— Bem... — Abbott não sabia o que dizer. Uma de suas características que sempre lhe rendeu elogios foi sua dedicação total ao trabalho que pegava. Ela nunca deixou de ser grata ao sargento por confiar nela e pedir aos superiores uma chance à técnica de trabalhar no departamento. Fazia questão de ajudá-lo quando precisava, cendendo-lhe certa prioridade, mas somente a ele.

Grissom já estava perdendo as esperanças que ela aceitaria o trabalho pelo semblante dela. Aceitar ela aceitaria, porém, não dando a prioridade que ele pediu.

— Ok. — Ela gesticulou com as mãos — Vou terminar isso aqui antes e vou subir o seu pacote na fila.

Coisa que era rara no rosto do sargento, um sorriso, se abriu aos poucos ao receber aquela resposta. Nenhum dos dois gostaria disso, mas esta era uma emergência que não poderia ser adiada.

— Obrigado, Daisy. — Grissom fez um gesto positivo com a cabeça — Obrigado, mesmo. Eu devo uma a você.

— Eu vou cobrar, hein. — Ela zombou, o que de certa forma era verdade.

Antes de se levantar e se despedir da colega, o sargento se inclinou para falar o mais próximo possível, mantendo uma distância considerável entre parceiros de trabalho.

— Eu vou te pedir outro favor. — disse ele quase sussurrando — Não deixe ninguém além de mim ou da minha parceira ter acesso ao conteúdo destes equipamentos.

Ela arqueou as duas sobrancelhas e ajeitou os óculos rapidamente.

— Por favor, é uma questão de segurança. Não tem ninguém em que eu mais confio pra fazer esse trabalho que você.

Poucas eram as pessoas quem Grissom tinha confiança para fazer um trabalho direito. Podia contar nos dedos quem era essa gente. Daisy chegou a corar. De tantos oficiais do departamento, ela tinha uma grande admiração profissional por Grissom. Ele não falava desse jeito com ninguém.

— Está bem. Eu aviso quando conseguir acessá-los.

— Obrigado. — Ele tocou em seu ombro — Não queria fazer isso com você, mas é algo que não dá para esperar.

— Eu entendo...

Com uma despedida silenciosa o sargento novamente pediu desculpas e se retirou da sala.

De volta à sua. Em vez de usar as escadas, Grissom preferiu pegar o elevador mesmo. Com passos rápidos esperou pelo transporte que demorava a chegar. Sozinho, ele apoiou a mão na parede à esquerda, fechou os olhos e gemeu baixo. Era a perna doendo novamente.

— Deus!...

Não era para estar acontecendo isso. Ele foi irresponsável em voltar a trabalhar antes de os dias de repouso passarem, sim, mas aquela dor era incomum demais. Havia algo errado.

Grissom mordeu o lábio inferior para não se queixar mais alto. O arrependimento em não ter trazido as pílulas recomendadas pelo médico bateu forte. Ele pressionou a mão na testa e fechou os olhos, rezando para que a dor parasse ou que ao menos o elevador chegasse logo. Chegou a socar a parede com a lateral da mão. A dor o deixou tão irritado que até se esqueceu daquele assunto que o perturbava tanto antes de chegar ali.

Céus, até que enfim.

O elevador da direita se abriu. Haviam duas pessoas presentes, motivo para ele disfarçar ao máximo a dor que ainda sentia. Grissom mal olhou para cara deles, apenas acenou e se virou para a porta o quanto antes. Se aquela dor persistisse ele não teria outra escolha senão ir ao médico. Nem mesmo ele podia aguentar sofrer por tanto tempo.

De olhos fechados ele esperou o elevador chegar aos dois andares abaixo sem parada. Ele saiu sem pressa para não forçar aquela maldita perna afetada. Já não mostrava a urgência de antes, a dor o tirou toda a motivação.

Antes de voltar à sua sala ele bebeu um pouco de água e encheu um copo para sua parceira. De sua boca não saía nada e seu rosto estava sério como pedra. Grissom sabia disfarçar bem. O sargento caminhou de volta à sala mais lento que quando saiu. Abriu a porta sem bater e a encontrou sentada bem em frente à TV, assistindo atentamente ao vídeo. Num primeiro momento ela não percebeu sua chegada, só depois, quando se virou surpresa para o companheiro segurando um copo de plástico.

— Oi querida. — Ele disse tão baixo que Sara só “decifrou” sua mensagem porque leu seus lábios.

— Ei. Tá tudo bem?

— É... — Disfarçou fazendo um gesto positivo — é, eu tô. E você?

— Parece que minha cabeça que vai explodir. — A mulher sorriu e acabou contagiando ele.

— Aqui. — Ele caminhou para perto e lhe entregou o copo.

— Não precisava. — Assim que recebeu ela tomou um gole. Já estava quase enjoada de tanto beber água e a dois minutos atrás voltara do banheiro — Obrigada.

— Consegui enviar aqueles equipamentos para alguém de confiança cuidar. — Ele se dirigiu à mesa, porém não se sentou. Seu foco foi nas duas caixas.

— Que bom. — Em vez de voltar a assistir ao vídeo, Sara o pausou e ficou encarando Grissom que nem percebeu o olhar sobre si.

O sargento parecia meio perdido. Ele se apoiou sobre uma das caixas e ficou olhando para dentro dela e ficou só nisso mesmo. Não pegou nada dentro dela e tampouco tirou.

— Gil? — Sara o chamou em voz considerável.

— Hã?

A mulher não teve outra escolha. Levantou-se e ficou a poucos centímetros de distância dele.

— Você tá bem? — Ela repetiu a pergunta.

O sargento a observou de canto de olho. Ele não sabia como responder à pergunta: como um policial, como seu namorado ou ambos.

— Vamos falar sobre isso depois, ok? — Grissom pediu claramente na defensiva. Caso recusasse contar a verdade respondendo que sim poderia provocar um grande problema logo com a única pessoa que ele não queria problemas.

Seu jeito de responder foi o bastante para seu entendimento, que ele não estava a fim de conversa pessoal. O ambiente não era apropriado para isso, então deixou passar por enquanto.

— Quando Daisy conseguir acessar os arquivos internos ela vai avisar. — disse em disfarce — Conseguiu alguma coisa enquanto eu estava fora?

— Bem... — Sara abriu um sorriso quase malicioso — fiz umas anotações de alguns nomes para investirmos. Dos nomes que você citou da lista do Park eu eliminei todos como o possível assassino. Depois disso comecei a analisar a imagem de cada um daqueles 4 que você suspeita para saber se encontro algum comportamento... incomum.

— Aqui. — Chamando-a com um gesto da mão para que o acompanhasse, Grissom a levou para mais ao fundo da sala, de onde retirou um quadro branco do chão e o pendurou na frente do outro quadro onde havia um breve perfil das vítimas de Zodíaco. Ele pediu que esperasse um momento, e ela, impressionada, cruzou os braços e ficou por ali.

Grissom ficou remexendo na gaveta por quase um minuto, quando mudou de ideia e revirou a pasta que trouxe consigo. Finalmente achou o queria. Antes de voltar para perto dela o sargento abriu a gaveta novamente e retirou um saquinho de plástico.

— Então...? — Sara abriu outro sorriso, desta vez confuso.

— As fotos deles. — Enquanto respondia ele posicionou as quatro fotos dos homens no quadro com a ajuda do ímã.

— Quando pegou essas fotos?

Ele semicerrou os olhos quando terminou de colocar as fotos.

— Um dia aí. — respondeu avoado.

— Tá bom... — A detetive ficou de frente para o quadro. O sargento voltou correndo para mesa e retornou com uma caneta de quadro azul.

— Temos Benjamin, — Ele começou a escrever os nomes rapidamente — Eugene, Yohann e Victor.

— Quando pensou em reduzir nossa lista para esses quatro?

— Eles me chamaram a atenção, principalmente desses dois. — Ele apontou para Victor e Yohann. Em seguida se virou para o vídeo pausado — Eu vi boa parte das filmagens. Não vi nenhum comportamento suspeito. Você é um empresário num evento cercado de pessoas comuns e por câmeras. Você não vai agir como um psicopata. — O sargento se virou para Sara — Não quero te desanimar, mas não acho vamos achar muita coisa aqui.

Ela arqueou uma sobrancelha. Sempre achou que Grissom via nos vídeos uma boa oportunidade de se aproximar ou até mesmo encontrar o assassino.

— Então vamos voltar à conversa que tivemos com esses caras lá. — Ela sugeriu — Por que Victor e Yohann chamaram sua atenção?

Por um instante Grissom baixou o olhar e umedeceu o lábio inferior. Parou para repetir em sua mente os momentos que conversou com aqueles dois. Havia algo neles que o incomodava; certa serenidade em seus olhares, calma, paciência. Duas pessoas possivelmente alheias à morte do jornalista, mas que ainda arrancavam certo incômodo dele.

— Sara.

— Sim?

— Você se lembra do que um dos guardas falou no depoimento?

— Sobre o que?

— Lewis falou com alguém dias antes do crime. — O sargento ficou a olhar para o quadro — Esse alguém era um investidor.

— Foi o... Hernández, não é? — Sara balançou o indicador — Ele disse que não chegou a vê-lo pessoalmente, apenas Lewis. — Depois de ficar em silêncio o semblante dela mudou de uma hora pra outra. Ela ficou encarando aquelas fotos e quase soltou um palavrão.

— Está querendo dizer que Lewis está morto por ser o único que falou com o assassino? — Indagou — Porque seria o óbvio.

— Não faz sentido. Se fosse por isso mesmo Lewis já estaria morto há muito tempo, na minha opinião. Talvez ele foi morto porque... estava prestes a contar algo que não devia.

— Pode ter ameaçado revelar alguma coisa, mas pra quem? A Zodíaco?

— Deus... — O sargento levou a mão ao rosto e esfregou logo em seguida — Tudo isso tá tão... estranho... — Ele fez uma pausa — Você e o Ivanenko acharam alguma ligação relevante?

— Apenas aquela ligação entre ele e o advogado. Pra falar a verdade notamos grande quantidade de ligações entre os dois. Até aí normal para um cliente e seu advogado.

Passando a mão sobre o rosto, Grissom observou a porta, mas seu foco não era a entrada em si.

— Precisamos que o advogado venha depor.

— Ele já veio, na verdade. Chegou a ameaçar processar o estado porque Lewis foi morto nessas condições.

— A situação é diferente. Se Dale é a única pessoa mais próxima do homem que pode ter falado com Zodíaco ele deve saber de muita coisa e precisa ficar perto de nós.

— Vou falar com o Ivanenko sobre a nossa situação.

— Ok. Eu vou aprontar esse pedido e enviar o quanto antes.

Sara já sabia que Maksim não estava presente na delegacia. Então ligou para ele e contou resumidamente a situação dela e do sargento, solicitando sua vinda à sala de Grissom para que discutissem acerca daquele caso em particular, a morte de Lewis. A conversa não se estendeu por muito tempo; para falar a verdade ela não queria a presença de mais alguém em seu “refúgio” no departamento. Quanto mais rápida fosse esta reunião, melhor para ela.

Notas finais
Não se esqueçam dos pontos principais desse capítulo, pessoal. São tantos pontos que não vou citar diretamente kkkk — Agora o Grissom sabe que o Hank tá vindo e até a Sara se arrependeu de ter contado a ele logo naquele momento. Nosso sargento tem outro motivo para ficar irritado junto de vários outros, haha. — Sobre o cara que a gente não pode falar o nome (o Hank) eu respondi um comentário informando que a chegada dele demorou mais do que pensei. Enquanto as ideias iam fluindo eu decidi "adiar" a vinda dele na época e deixar para agora (agora não agora, mas um agora daqui a alguns capítulos rs). Deixo aqui meu pedido de desculpas para quem estava ansioso para este momento. — Notaram o comportamento estranho do Grissom ao longo do capítulo? Eu queria muito voltar a postar dois caps por semana, mas enquanto não me acertar com outros compromissos, e ainda, não adiantar o máximo de capítulos possíveis esta ideia não pode voltar. Novidade! Finalmente estou planejando uma nova fanfic de CSI! Eu vou tentar escrever todos os capítulos antes de postá-la, que a propósito, pretende ser mais curta que essa aqui rsrsrs. Ai gente desculpa eu não sabia que ia ter tanta ideia pra Manhunters, nunca escrevi tanta coisa na minha vida e estou surpresa comigo mesma; é tanto carinho por ela que me empolguei e passei das 300 mil palavras. Parabéns a todas(os) nós que chegamos até aqui! ENFIM, VOLTANDO A ESTA IDEIA NOVA, do jeito que as coisas estão eu devo começar a postá-la a partir do ano que vem (sem data definida). Vou postar ela junto de Manhunters? Não sei, talvez sim, mas tudo vai depender do meu progresso nela. É um plot que surgiu de um sonho, na verdade, e fui adaptando o decorrer da história (que está para ser escrita). Terminando... eu quero agradecer a todos que estão lendo e comentando, vocês são uns amores. Prometo que vou responder aos comentários pendentes, tô toda enrolada e não nego isso haha. Beijos e até o próximo capítulo!